Mausoléu
Aiko Hosokawa
Capítulo 07 – Ludus e Storge.
Simplesmente não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo de novo! Mais uma vez aquelas hábeis mãos lhe apertavam a coxa, aquele quadril indecente se encaixava entre suas pernas o oprimindo contra a parede que, provavelmente, era fria, entretanto tudo que conseguia sentir era um calor alucinante, o qual se intensificava na região do pescoço onde aqueles lábios perturbadores distribuíam carícias nada castas.
Uruha, mais uma vez, estava se deixando levar por Aoi. Pequenos gemidos lhe escapavam involuntariamente e o corpo reagia com a força de um vulcão enquanto a mente sussurrava indignada quanto àquela rendição tão natural.
Há pouco mais de uma hora haviam se encontrado nos arredores de uma das casas noturnas mais badaladas da cidade, no entanto, se decidiram por ir a um lugar menos barulhento, onde pudessem dialogar tranquilamente. Por algum tempo caminharam conversando sobre tudo e ao mesmo tempo sobre nada realmente importante, mas pouco se passou até que aqueles olhos negros recaíssem sobre si de forma predadora, causando arrepios por todo seu corpo, e as recordações do encontro anterior não ajudavam a amainar seus próprios instintos.
"Adorei te provar. Quero repetir a dose...". Ouvir essas palavras havia causado o revoar de borboletas em seu estômago e, mesmo de soslaio, pôde reparar no sorriso malicioso que se formou naqueles lábios obscenos. Embora não fosse capaz de conter o rubor que lhe subiu às faces, tinha que admitir o fato de ter desejado aquilo durante todo o dia.
Depois disso não conseguia mais encarar o jovem. Quando novamente deu por si o moreno estava muito próximo, ao seu lado, os braços se tocando delicadamente e, ainda que houvesse tecido impedindo o contado das peles, já se sentiu arrepiar. Todavia, foi quando os dedos do jovem mais baixo se entrelaçaram aos seus que Uruha percebeu a realidade lhe fugir.
Aquela era uma mão demasiadamente fria, no entanto a leve pressão que fazia sobre seus dígitos transmitia uma sensação estranha. Era como a mão de uma criança que há tempos caminha só e perdida, e que pedia, em silêncio, para que não a deixasse no abandono de novo, ao mesmo tempo em que transmitia inexplicável segurança.
Tudo que o loiro conseguiu fazer foi achegar-se melhor ao parceiro, deixando-se ser conduzido pelo caminho que os levou àquele beco, àquele local... Tudo havia começado tão repentinamente que mal conseguia se situar, mas Aoi vinha urgente e essa emoção parecia transbordar, contaminando Takashima e o loiro já buscava a boca libidinosa do outro com sofreguidão.
"Eu não consigo... Não dá...". A mente do jovem humano murmurava enquanto percebia a própria camisa sendo retirada.
"Não dá pra resistir... Serei deste homem quantas vezes ele quiser.". Concluiu em devaneios no instante anterior ao qual teve seu mamilo vorazmente tomado, o que provocou prazer suficiente para sobrepujar todo e qualquer pensamento racional...
oooOOOoooo
Hyde Park, 21h45min P.M.
Reita caminhava a passos rápidos, ignorando o grande número de pessoas que havia ao redor, mas sentia vários pares de olhos recaindo sobre si, dentre os quais facilmente notou os de alguns imortais. Esses vinham repletos de lasciva guiada a si, no entanto também se manteve alheio a eles, mesmo quando ouviu um murmúrio...
"Quero provar seu sangue, algoz de Marduk...".
"Seres inferiores...". O imortal loiro pensou.
Aquilo havia acontecido há séculos, ainda assim... Mesmo aqueles que haviam recebido o negro dom após o incidente conheciam a história.
"A 'lenda' de como caiu um dos...". Reita pensava enquanto caminhava, mas sua linha de raciocínio foi interrompida quando finalmente seus olhos pousaram sobre uma pequena figura.
Ruki estava a alguns metros de distância, de pé diante da margem do lago Serpentine, as mãos dentro dos bolsos da jaqueta jeans, o olhar perdido em algum ponto da água plácida.
Foi impossível ao ser-da-noite não sorrir com a visão. O humano era graciosamente pequeno, os cabelos loiros e lisos que se moviam sutilmente ao vento intensificavam a sensação de que aquele jovem foi feito para ser mimado e protegido.
"Boa noite, chibi.". Reita disse parando ao lado do outro.
Matsumoto estava tão concentrado em seus pensamentos a cerca de alguns planos para o pub que se sobressaltou devido ao cumprimento. Rapidamente guiou o olhar para sua esquerda e não foi capaz de conter seus lábios que se curvaram em um sorriso de alegria.
"Ei! Já disse para não me chamar assim!". Protestou, desfazendo o riso e tentando soar contrariado. Afinal por que ser chamado de pequeno não o irritava verdadeiramente quando era aquele jovem quem dizia?
"Tudo bem Ruki-san, eu paro.". O vampiro respondeu na defensiva, mas sorrindo.
"Também não precisa ser formal. 'Ruki' é o suficiente.". Ponderou, tirando as mãos dos bolsos e usando a direita para prender atrás da orelha alguns fios que lhe caiam na face.
"Concordo, se você também abolir o 'san' quando me chamar.". Condicionou o imortal.
"Certo. Então, Reita, vamos?". Takanori convidou, começando a caminhar.
"Sim... Aonde você quer ir? O parque é cheio de cafés e locais interessantes, nas proximidades também há vários lugares animados.". Informou, andando ao lado do pequeno, olhando-o enquanto falava.
"Humm.". Ruki murmurou de forma pensativa, analisando as opções.
"Que tal se apenas caminhássemos enquanto conversamos? É a primeira vez que venho aqui.". Propôs, olhando ao redor, apreciando a vista.
"Para mim está ótimo...". O ser-da-noite respondeu mantendo suas esferas negras presas ao mortal; Ruki era uma pessoa exótica, em seus modos de vestir, de falar e comportar; queria realmente descobrir mais sobre ele, desvendar cada mistério daquela alma, aprofundar-se...
"O que ta encarando?". Inquiriu o menor, erguendo a sobrancelha de forma interrogativa.
"Nada... Só estava pensando em que tipo de trabalho você fazia antes de vir para Londres.". Argumentou sem demora.
"Ah sim... Eu era jornalista, meio frustrado." Ruki admitiu, suspirando levemente.
"Sério? Por quê?". Reita perguntou genuinamente curioso.
Por alguma estranha razão Matsumoto se sentiu muito feliz pelo interesse que o outro demonstrava e, mesmo que se conhecessem há pouco tempo, se sentia livre para responder sinceramente.
"Sempre gostei de escrever, por isso escolhi a profissão. Contudo o que sempre amei mesmo é compor minhas músicas e cantá-las.". Revelou em tom levemente sonhador.
"Adoro música! Até toco baixo!". O imortal disse sem conseguir conter a ligeira empolgação em sua voz e o interesse que brilhou em seus olhos, estava gostando cada vez mais de estar ao lado daquele humano.
"Mesmo? Eu toco baixo, guitarra, bateria e piano, mas prefiro cantar!". Ruki também se empolgou, acabara de entrar em um campo que muito amava e ter aquilo em comum com alguém tão interessante quanto Reita deixava-o realmente feliz.
"Uau... Me senti um mero amador iniciante...". O vampiro brincou.
"Ah, mas o piano foi por obrigação, embora esse seja o único instrumento no qual me acho razoável... Mas... Por que o baixo, Reita?". O menor apressou-se a responder e fez questão de dar vazão à curiosidade natural.
"Tsc... Sobre isso...". Desviou o olhar, guiando-o primeiro para o chão, depois para o céu noturno.
Takanori ergueu a sobrancelha interrogativamente.
"Meu motivo é tão impuro...". Respondeu, tentando conter a diversão que naturalmente escapava em sua voz.
"Hum? Por quê?". A interrogação ficou ainda mais marcada na face do jovem e então algo dentro de si revirou, pois aqueles olhos negros voltaram a recair sobre si, agora cheios de sentimento vivaz... Cheios de felicidade! E teve certeza, naquele momento, que desejava despertar mais daquilo no outro.
"É o instrumento mais fácil, sabe?!". As palavras fluíram com simplicidade dos lábios daquele que sobrevivia aos séculos.
Silêncio quase mórbido se instaurou entre a dupla, contudo não durou mais do que algumas frações de segundo.
"HAHAHAHAHAHAHAHA". A desprendida e incontida gargalhada de Matsumoto soou, chamando a atenção de alguns transeuntes.
Uma agradável sensação invadiu o ser-da-noite quando aquele som lhe chegou aos ouvidos, havia ali uma alegria levemente infantil e cristalina que contagiava o coração vampiro e o impelia a sorrir junto.
"Isso! Pode rir da minha mediocridade.". Reita disse em tom falsamente ofendido, sem ser capaz de conter o próprio divertimento.
"Desculpe Rei-chan! Seu motivo é realmente impuro! HAHAHAHA".
Ruki simplesmente não conseguia se conter, a ponto de não ter se dado conta do modo como havia chamado o outro, mas ao imortal o fato não passou desapercebido e seus lábios se curvaram em um sorriso que logo se tornou uma gargalhada contida, ecoando somada a do humano por alguns minutos.
Depois de algum tempo as risadas exaltadas cessaram e a conversa prosseguiu animada enquanto caminhavam lado a lado; usufruindo da agradável companhia, ambos esqueciam o tempo e o espaço, aproveitando a oportunidade para se conhecerem melhor e relaxar.
"Então acabamos expulsos do nosso baile de formatura!". Matsumoto falou com certa indignação.
"Não acredito nisso! E seus amigos?". O mais alto indagou rindo.
"Ah não se engane com aqueles dois! Eles são piores do que eu!". Afirmou na defensiva.
"Até o moreno? Ele não tem cara, na verdade parece alguém muito sério.". Comentou.
"O Kai?! Putz! Todos acham isso, mas as confusões nas quais ele já nós meteu são o dobro dos problemas que eu criei!". O pequeno argumentou.
"'Quem vê cara, não vê coração. '". Mencionou meio incrédulo.
"Essa frase resume o Kai, sem dúvida!".
De repente Ruki sentiu o pé direito se chocando contra algo rígido, provocando uma dor aguda que mal teve tempo de sentir, pois seu corpo se inclinou sem equilíbrio para frente e a queda seria inevitável... No entanto, antes que atingisse o solo, percebeu-se sendo puxado no sentido oposto.
Matsumoto demorou alguns milésimos de segundo para se situar, tudo aconteceu rápido demais! Quando finalmente voltou a si percebeu estar envolto por braços fortes e protetores que o mantinham colado a um tórax esguio e másculo. Um forte e gélido relâmpago transpassou o corpo do jovem e o tempo pareceu correr lentamente, enquanto guiava o olhar para cima até cruzar seus orbes com o do belo homem que o acompanhava.
"...". Reita olhava preocupado em direção ao menor, um calor gostoso o invadindo, e embora soubesse que ele já não cairia mais, não sentia vontade de soltar...
O coração do humano disparou; tudo lhe fugiu à mente, apenas sentia o corpo estranhamente relaxado até que uma imagem surgiu em meio ao vazio... O sonho! Reita o fazendo gemer... De imediato o rubor lhe subiu às faces e se afastou, desfazendo o breve contato.
O imortal arregalou levemente os olhos com a cena que lhe atingiu o pensamento. Não havia sido proposital, a memória de Takanori havia surgido com intensidade em um momento no qual não conseguira reprimir os próprios poderes e, mesmo com o afastar repentino, não foi capaz de conter a curiosidade, invadindo a mente do outro, surpreendendo-se com o que viu.
"Obrigado, Reita... E desculpe, estava distraído e não olhei por onde andava...". O jovem empresário falou sem olhar para o outro. Finalmente percebeu que havia tropeçado no primeiro de três degraus que davam acesso a uma ponte sobre o lago.
"Hum?! Sem problemas...". Respondeu sem saber como agir, observando o ser que parecia indefeso caminhar até o meio da ponte, apoiando as mãos no corrimão e então o ouviu suspirar levemente.
Aquele humano mexia profundamente consigo, tinha que admitir... Despertava-lhe sensações e emoções que há longos séculos já não mais existia em seu peito, aquela companhia gerava um calor mais gratificante do que o mais saboroso sangue que já provara.
"Qual deve ser o gosto dele?". O pensamento lhe surgiu de forma inevitável e o afastou, balançando negativamente a cabeça.
Matsumoto tentava controlar os sentimentos e pensamentos, não queria deixar o clima ruim. Aquela estava sendo uma noite muito aprazível, não desejava estragá-la por causa de uma carência idiota.
"Será que é mesmo só carência?". Perguntou-se intimamente.
"Ruki...". O imortal chamou se aproximando.
"...". O jovem apenas se virou para trás.
"... Posso te fazer um pedido?". Completou.
"Considerando que você me salvou de um belo tombo... Claro.". Ruki brincou, tentando esconder o nervosismo.
"Cante uma de suas músicas para mim?". Pediu com expressão séria na face.
O primeiro impulso de Matsumoto foi dizer um sonoro não, contudo foi completamente desarmado quando mergulhou naqueles negros olhos que o fascinavam. Vacilou por um momento e uma letra lhe veio à memória...
"...". Reita esperou parado e em silêncio.
"Anata no tegami ni wa yome nai ji dake. Atte sono kuchi kara kikasete hoshii.". Finalmente a grave voz rompeu o silêncio, enquanto Ruki erguia o olhar para ver a reação que despertaria.
O vampiro estremeceu e sentiu algo dentro de si revirar... O que era aquilo?
"Narenai shiro wa nigate toiki sae hibiku. Sora no iro sae shiretara sukuwareru noni.". O pequeno continuou.
Aquela voz era emocionante, instrumentos não eram necessários para torná-la o mais belo som que já ouviu, era como um cântico mítico que o cativava...
"Umaku dekinu kokyuu mo itsuka wasuretai. Sou negaeru tsuyo sa mo hikanabi sou de.". Takanori não conseguia desviar o olhar do outro e sentiu como se borboletas revoassem aceleradamente em seu estômago quando Reita começou a se mover em sua direção.
A criatura que sobrevivia aos séculos se sentia hipnotizada, somente para o pequeno é que tinha olhos e ouvidos. Contudo o som harmonioso roubava-lhe a atenção também de outros sentidos, o tato era atiçado fazendo os fios mais finos eriçarem, o olfato percebia apenas o cheiro daquele rapaz e a língua formigava num desejo familiar que descia lhe queimando a garganta.
"'Utsu fuse no asu' utaeba toge o tsutau suimin". De forma instintiva Ruki baixou o tom de voz quando a distância entre eles era inferior a um passo, porém o olhar se manteve firme à medida que o batimento cardíaco acelerava seu ritmo, tornando-se instável e quase doloroso.
O aroma dos hormônios naturalmente liberados por Matsumoto, que ficava mais intenso a cada instante, instigava o loiro mais alto e o rufar cardíaco selvagem que ouvia o excitava. Sem racionalizar ergueu a mão direita, deslizando suavemente a ponta dos dedos na face alva e quente, ao passo que seu olhar se fixava nos lábios tenros que se moviam graciosamente.
"karada ni karamaserareta Restraint". A voz do humano era um fino fio quando mais algumas palavras foram pronunciadas, contudo o restante da letra se perdeu em algum lugar em sua mente quando reparou no intenso desejo contido naqueles olhos cor de ébano.
Os dígitos do imortal fluíram um pouco mais até que o indicador se postou atrás do queixo do menor e o polegar na frente, prendendo gentilmente aquele local. O olhar secular procurou na bela face diante de si algum resquício de resistência que não encontrou e então aproximou os lábios até uni-los.
Um prazeroso estremecimento percorreu o corpo de Ruki quando sentiu aqueles lábios, macios e gélidos, tocando os seus, apenas se deixou levar, fechando os olhos e depositando as mãos nos flancos da cintura esguia.
Com o assentimento total Reita tornou o contato mais íntimo, inserindo sua língua na boca quente e úmida dando início a uma exploração sedutora e calma; os sabores e sentimentos se mesclavam de modo sublime e o peito frio se enchia de um calor tépido e delicado.
O tempo e o espaço novamente deixaram de ter importância para o casal que se permitiu ser envolto pela aura terna que brotava, os corpos se aconchegavam com naturalidade singular e, quando a carícia findou, olharam-se langorosamente, para depois se abraçarem.
"O que estou fazendo?". A pergunta martelou a mente do ser-da-noite. Não conseguia acreditar que havia deixado aquilo acontecer, estava consentindo que um reles mortal entrasse em sua vida de um jeito que não deveria.
Ruki suspirou, tomado pelo êxtase de um beijo embriagante, sentia-se leve como uma pluma e o corpo junto ao seu liberava um perfume tão agradável que o fazia desejar ficar ali pela eternidade.
"Não posso permitir que aquilo aconteça novamente...". Reita concluiu consigo mesmo. Uma dor fina nasceu no peito do imortal ao mesmo tempo em que as palavras que devia pronunciar se formavam em seu cérebro.
"Ruki...". A voz quase imperceptivelmente engasgada do mais alto sibilou.
E o menor apenas ergueu seu olhar, afastando-se ligeiramente do corpo esguio para melhor contemplar a face bonita diante de si.
A boca do vampiro se entreabriu, mas o som não saiu, sem conseguir se segurar mergulhou nos orbes escuros do outro que brilhavam mais do que a mais bela das pérolas negras e seu raciocínio se perdeu em meio à imensidão calorosa na qual se viu envolto. E restou-lhe apenas uma escolha possível... Novamente uniu os lábios dando início a novo beijo.
Matsumoto se rendeu por completo ao momento e se deixou afagar, enquanto retribuía da mesma forma e, assim, a dupla se perdeu um no outro por um tempo que não se podia contar, trocando doces palavras, ignorando, propositalmente, o mundo...
"Nossa já é tão tarde?!". Ruki disse estupefato ao olhar o relógio em seu pulso depois do findar de mais um beijo.
Reita respirou fundo. Uma brisa morna, vinda do leste, aguçou seus instintos e, embora o que estava por vir não o ameaçasse, provocava uma imensa vontade de dormir.
"Acho que é cedo, na verdade...". Respondeu em tom levemente zombeteiro.
"Realmente...". Murmurou divertido o humano.
"Preciso ir. À noite o 'Mausoléu' abre.". Novamente foi Ruki quem falou.
"Tudo bem. Vou te levar em casa.". O mais alto disse, afastando os corpos, mas mantendo a mão direita do outro, segura entre seus dedos.
"Ah não precisa; moro realmente longe daqui." Afirmou sem querer incomodar.
"Mais um motivo então. Meu carro está estacionado aqui perto. Vem.".
Embora gentil Ruki percebeu que aquelas palavras possuíam um tom imperativo, contudo não desejou contestá-lo e se deixou guiar até saírem do parque, indo a uma das ruas adjacentes e menos movimentada. Realmente poucos minutos depois ambos pararam diante de um veículo.
"É esse?". Matsumoto murmurou a pergunta, analisando um belíssimo modelo antigo de Porsche pintado no mais intenso rubro tom.
"Sim, por que a pergunta?". O imortal indagou curioso, mantendo seu hábito de não invadir a mente alheia.
"Ele é um clássico! Como o conseguiu?". Ruki adorava carros antigos e sabia bem que o proprietário de um raramente abria mão de algo tão precioso.
"Ah o Porsche 356 Speedster é meu favorito! Sou o único dono!". Reita se empolgou e não conseguiu se refrear com a descoberta de algo a mais em comum com o outro.
"...". Takanori ergueu a sobrancelha de modo intrigado e entreabriu os lábios para inquirir, contudo não teve tempo.
"Quero dizer, ele é herança de família!". O ser-da-noite se apressou a corrigir, dando-se conta da gafe que cometeu.
"Ah sim, claro...". Afinal aquela era a única explicação possível para o proprietário do 'Mausoléu'.
"Vem.". O mais alto convidou com um meio sorriso nos lábios.
Ruki nada disse, apenas caminhou até o automóvel e abriu a porta, sentando-se em seguida.
No instante posterior o brilhante rubi automotivo ganhou as ruas da cidade palco de importantes acontecimentos para a humanidade e a dupla seguiu conversando como velhos conhecidos. Ocasionalmente Reita pedia instruções sobre qual caminho seguir, a fim de não levantar suspeitas. Cerca de 40 minutos depois o carro voltou a parar, agora diante da imponente construção secular que servia de lar aos três humanos recém chegados do Japão.
"Não precisava ter se incomodado.". Ruki sibilou, olhando para o belo jovem a seu lado.
Quando adentrara no terreno daquela mansão o vampiro havia sentido uma estranha presença, um cheiro diferente no ar e, agora que estava diante da construção principal, seus instintos rugiam, pois havia algo estranho ali.
"Hum?! Não foi incômodo. Posso te acompanhar até a entrada?". Pediu, querendo se aproximar mais daquele local.
"Claro!". Respondeu com enorme sorriso nos lábios.
Ambos saíram do veículo e começaram a subir os degraus. A cada passo o estranho sentimento no peito de Reita se tornava mais forte, a presença era intensa, a um nível que poucas vezes na vida havia sentido. Contudo não era ameaçadora e parecia tão antiga quanto as pedras que constituíam o palacete.
"Obrigado pela noite.". Takanori falou assim que parou de costas para as grandes portas de madeira. Por um breve instante relembrou o sonho e cogitou convidar o outro loiro a entrar, mas logo afastou tais pensamentos, ainda era cedo demais...
"Sou eu quem deve agradecer, faz séculos que não passo horas tão agradáveis.". Retrucou voltando a atenção ao mortal e aproximando os corpos.
Ruki riu com o 'eufemismo' e se deixou aconchegar junto ao outro, sentindo os braços protetores em sua cintura e envolvendo os próprios no pescoço de Reita, guiando os lábios em direção aos que vinham para si, dando início a mais um prazeroso beijo.
O ser-da-noite respirou fundo quando as bocas se afastaram de leve e sorriu internamente com o suspirar que veio do menor.
"Durma bem meu pequeno". Sibilou e depositou um suave e superficial beijo em Ruki.
"Obrigado. A gente se vê, né?!". Perguntou mirando os olhos escuros próximos a si.
"Claro, não pretendo te deixar escapar.". Brincou, apertando a cintura estreita e novamente beijou os lábios do outro.
"Até mais então.". Ruki acariciou o peito másculo colado a si e se afastou.
"Até...". Sussurrou em resposta, dando o primeiro de três passos para trás, ao final dos quais girou sobre os calcanhares e desceu a escadaria, logo entrando em seu Porsche.
"O que quer que tenha habitado esse lugar, não mais está aqui, mas deixou sua presença impregnada em cada centímetro do lugar.". Pensou ligando o carro, não havia motivo para se preocupar.
"Foi bom ter tirado o carro da garagem hoje". Raciocinou, dando a partida e saindo do local.
oooOOOooo
Novamente Uruha estava caminhando ao lado de Aoi, ambos não tinham destino firmado, iam seguindo a passos lentos e muito próximos um do outro. Contudo perturbador silêncio havia se instaurado poucos instantes depois de terem saído do beco.
O humano sentia um estranho aperto no peito, haviam feito sexo de maneira tórrida em um local nada apropriado e depois das risadas eufóricas praticamente não conversaram. Na verdade o moreno nem o encarava e, por mais superficial que aquela reação fosse até o momento, aquilo machucava.
Uma agradável música chegou aos ouvidos de Takashima, procurou com o olhar sua origem e logo encontrou um grupo de artistas de rua tocando seus instrumentos; havia dois violinistas e dois guitarristas. A melodia por eles liberada era melancólica e tocante.
Instintivamente o loiro se sentiu atraído e seguiu em direção aos músicos, percebendo-se ser acompanhado pelo moreno, que também mantinha sua atenção direcionada ao grupo e ambos pararam a alguns passos de distância, assim como haviam feito outras pessoas.
"Eles não tem técnica, mas são bons". O comentário deixou os lábios do humano de modo natural e em tom baixo, quase como se houvesse dito apenas para si.
"Técnica não é o mais importante e sim a paixão com que se toca.". A voz de Aoi soou de um modo que Uruha nunca havia ouvido e, por isso, o loiro se surpreendeu e encarou o parceiro.
"Você toca algum instrumento?". Indagou curioso quanto à emoção expressa naquelas palavras.
"Guitarra, sou apaixonado pela sonoridade do instrumento.". O vampiro informou, fixando o olhar no humano.
"Eu também...". A grave voz de Kouyou escapou um tom abaixo do que havia planejado, ainda assim estava repleta de surpresa e encantamento.
Os olhos negros como a mais profunda noite sem luar de Aoi brilharam sem que se desse conta; toda a sua atenção foi capturada por aquele jovem. Por mais que pudesse ler cada pensamento que naquela mente se passava, havia se surpreendido com a descoberta. Afinal seus poderes eram limitados ao superficial, jamais poderia mergulhar naquela alma com suas habilidades vampiras e conhecer cada detalhe que moldava a personalidade do humano, ainda assim, desejou ser capaz de fazê-lo.
O mundo pareceu girar para Uruha quando aquelas esferas negras o fulminaram intensamente, parecia ser aquela a primeira vez que Aoi o olhava e se sentiu levemente constrangido com aquela grandiosa curiosidade direcionada a si, contudo se manteve firme, devolvendo o profundo olhar.
Os provocantes lábios do imortal se curvaram em um sorriso largo e realmente feliz até se tornar em uma discreta risada que fazia seus orbes brilharem ainda mais.
"Qual a graça?". Uruha inquiriu se sentindo constrangido.
"Você.". A resposta foi dita com alegria quase infantil.
"Eu?". O tom de voz do mortal saiu mais firme e levemente ofendido.
"Sim, você... Você é uma graça, sabia?!". Há quanto tempo Aoi não se permitia sorrir daquele jeito tão desprendido? Ele não se atrevia a tentar se lembrar, mas gostou muito.
"...". Kouyou ficou mais constrangido, mas não mais irritado ou ofendido. Foi tomado por uma felicidade morna que lhe subiu às faces e desviou o olhar para algum ponto no chão, em seguida novamente para os músicos.
Mais uma vez o silêncio se fez presente por alguns instantes, mas prontamente ocorreu ao loiro uma dúvida e, quando se virou para perguntar viu Aoi passar diante de seus olhos indo em direção aos músicos.
"Onde...?". Murmurou, todavia não concluiu a pergunta, preferindo observar onde e o que o outro pretendia fazer. E sua curiosidade aumentou quando viu o moreno parar próximo a um dos guitarristas e murmurar-lhe algo no ouvido; independente do que fosse, a resposta foi um aceno positivo com a cabeça e então o rapaz retirou o instrumento que trazia dependurado no ombro e entregou a Aoi.
"Ele vai tocar!". Finalmente o loiro percebeu um tanto surpreso, e certa ansiedade lhe correu. Com mais afinco fitou o moreno colocar a alça do instrumento no ombro, depois afinou a guitarra e mexeu no pequeno amplificador depositado no chão para então arrumar sua postura e, enfim, tocou.
O som que chegou aos ouvidos de Takashima despertou-lhe um arrepio que nasceu na base da coluna e se espalhou por todo o corpo. A melodia era baixa, profunda, envolvente e intensa; parecia com palavras sussurradas pela mais desamparada alma da Terra, provocava uma incomensurável vontade de chorar, assim como também a de contemplar o ser responsável por ela.
Uruha não apenas ouvia, mas sentia cada nota musical liberada, elas entravam-lhe por todos os poros da pele e dominavam seus sentidos, fazendo tudo que não fosse Aoi tornar-se um imenso borrão negro sem importância.
O moreno estava lá de pé, diante de si com aquela indecente camisa de renda transparente, sobreposta por um casaco igualmente preto com as mangas dobradas quase até o cotovelo, deixando ver a luva escura sem dedos que cobria ambas as mãos, que tocavam o instrumento completamente branco e lustroso, contrastando com o negrume da calça. Era, sem dúvida, a visão mais bela que já tivera na vida, porém se lamentava por não poder ver os olhos escuros quase totalmente encobertos pelos fios lisos que caiam em desalinho para frente e se moviam de leve.
"É como um deus em meio a meros mortais.". O loiro imaginou tomado pelo torpor contemplativo.
"Mas ser um deus entre mortais não seria solitário?". Perguntou-se, olhando ao redor, somente então se dando conta de que todos que antes ali estavam agora olhavam o moreno e um número ainda maior de pessoas havia parado para prestar atenção, inclusive os músicos.
Um estranho sentimento invadiu o coração do jovem empresário ao notar que Aoi estava sozinho e que todos pareciam satisfeitos apenas com a possibilidade de contemplá-lo.
"Só isso não me satisfaz...". Pensou determinado.
"Quero alcançá-lo!". Sussurrou para si e então deixou o repouso indo ao outro guitarrista de rua, pedindo emprestado o instrumento que jazia inerte em seus braços.
Aoi estava concentrado em criar aquela canção, deixava os dedos deslizarem por onde desejavam, sem se preocupar se havia coerência no som produzido, que refletia algumas das lembranças que lhe vinham indesejadamente. E então o som de um instrumento igual ao seu lhe roubou a atenção.
"Mas o que...?". Sibilou, parando de tocar e fitando o humano que o acompanhava e que havia 'riffado' a guitarra.
"É um desafio moreno.". Uruha disse sorrindo e novamente dedilhou as cordas.
"Seu atrevido... Topo!". Respondeu com um sorriso de divertimento na face.
Kouyou apenas riu em resposta e se postou diante do outro, mantendo uma distância de, aproximadamente, um metro e começou a tocar encarando o rapaz menor, mas ocasionalmente fitando a guitarra.
Depois de um belo solo Aoi começou o seu.
A transformação da música produzida foi facilmente notada, embora ainda provocasse a vontade de contemplar, comum àquele instrumento, ela era, agora, vivida e empolgante, como os sorrisos que ambos carregavam.
Sentimentos estes que se intensificaram quando as guitarras soaram juntas e a distância entre a dupla diminuiu. O tom subiu, se tornando mais forte, mais inebriante, indo ao ápice por alguns instantes e então desceu em notas que se prolongaram até desaparecerem no vazio do silêncio.
Aoi e Uruha se olhavam, felicidade cintilava em ambas as faces e então veio a salva de palmas que os fez voltar ao mundo real. A dupla fez leve reverência em agradecimento, devolveram as guitarras aos legítimos donos e se afastaram do rebuliço que havia se formado.
Somente quando já estavam a vários metros dos músicos, que voltaram a tocar, é que o mais alto percebeu-se sendo guiado pelo moreno que lhe segurava a mão direita e seu peito se encheu de um calor agradável.
"Obrigado por me acompanhar.". Finalmente o imortal falou sorrindo e parando de frente para o outro.
"Faço sempre que você desejar.". Takashima respondeu também sorrindo.
"Você pode se arrepender dessas palavras, não sou fácil de saciar...". Aoi ficou sério ao dizer tais palavras, que traduziam a verdade de sua alma.
"Permita-me tentar?". Uruha também abandonou o sorriso e deu um passo a frente quase unindo os corpos, deixando-se mergulhar no profundo olhar do jovem menor.
O ser-da-noite buscou descobrir o que havia naquele olhar mortal que o mantinha cativo, mas não conseguia compreender. Uruha era, ao mesmo tempo, familiar e misterioso, o que tornava impossível uma negativa àquele pedido, mas não daria sua resposta com palavras... Apenas levou a mão direita para a nuca do mais alto e o puxou para um beijo.
Uruha se deixou levar, tentou soltar a mão direita segura pela esquerda do outro, mas Aoi não permitiu, por isso enlaçou a cintura esguia apenas com o outro braço, colando os corpos enquanto a língua do parceiro vinha em direção a sua, de um modo até então desconhecido.
A carícia que se iniciou, diferente das outras até então trocadas, estava repleta de tranquilidade, não havia luxúria deliberada, apenas carinho, companheirismo e curiosidade quase infantil. Era como o primeiro beijo de duas almas que ansiavam se tocar a tempos imemoráveis, mas eram impedidas pelo invólucro carnal. A noção dos segundos transcorrendo foi perdida e os dedos das mãos em unidade se entrelaçaram, apertando-se gentilmente até o findar do beijo.
"Hum...". Um pequeno ronronar escapou do loiro junto a um sorriso e somente então abriu seus orbes se deparando com a negritude dos do parceiro que brilhavam intensamente.
Aoi não conseguia encontrar palavras ou mesmo razões que explicassem tudo o que estava acontecendo, não compreendia o misto de emoções em seu peito onde julgava não haver mais um coração que pudesse sentir... E se entregou ao momento enquanto o humano puxava assuntos que lhe pareciam interessantes, por isso respondia com empolgação e caminhava ao lado de Uruha sem se dar conta de que mantinha a mão dele sempre junta a sua e, nem notou o tempo passar.
"Logo vai amanhecer...". Kouyou comentou olhando o horizonte que começava a ganhar tons mais claros em prenúncio da alvorada.
"As horas passaram rápido essa noite.". O vampiro se surpreendeu, reparando que os tons claros já refletiam no rio Tâmisa não muito longe de onde estavam.
"Ainda quero dar uma volta de barco lá.". O loiro falou.
"O dia está apenas começando...". Aoi disse, sorrindo levemente.
"Ah eu adoraria, mas preciso descansar para voltar ao trabalho hoje à noite.". Por um instante Takashima quis aceitar, mas havia cometido deslizes demais e não queria receber outro sermão de Kai.
"Então fica para nosso próximo passeio?". Indagou, docemente, o ser-da-noite.
"Combinado.". Uruha se conteve para não parecer empolgado demais, a idéia de sair novamente com o moreno muito lhe agradava.
"Então vamos achar um táxi para você...". E o imortal puxou o parceiro, iniciando a busca.
Poucos minutos depois o carro estava parado ao lado da dupla que, com alguns beijos, se despediu. Em seguida o moreno voltou a caminhar e inevitáveis questionamentos o invadiram.
'O que está acontecendo?'; 'Por que não o matei no beco como havia planejado?'; 'Como fui permitir que isso acontecesse?'; e, à medida que cada indagação sem resposta ia se juntando ao monte desconexo em sua mente, o vampiro se sentia mais confuso, perdido, frustrado e, graças a isso irritado.
Nunca em sua vida, mortal ou imortal, uma torrente tão intensa o havia assolado dessa forma; sentia o peito apertado e não se importava por onde caminhava, tão pouco dava atenção aos raios solares que lhe tocavam a nuca ou ao sono que isso provocava, apenas se focava na figura loira em sua mente.
"Preciso parar... Tirá-lo da minha cabeça... Há apenas um meio de fazer isso!". O pensamento se firmou decisivo e o vampiro ergueu o olhar, localizando-se na cidade e então, mais rápido do que qualquer observador atento pudesse perceber, correu.
Suas pernas conheciam o caminho, embora nunca o tivesse percorrido antes, pois o viu na mente do loiro. Poucos instantes depois estava parado diante do palacete onde Uruha morava com os amigos.
"Que presença é essa?". Perguntou-se em pensamento, caminhando para a lateral da construção.
Podia sentir naquele lugar uma força descomunal e antiga, contudo era algo longínquo, qualquer que fosse a origem ela havia deixado a mansão há pouco tempo, talvez algumas semanas.
"Que estranho...". Sussurrou para si, afinal somente se lembrava de algo assim quando mergulhava nas suas primeiras lembranças de vida imortal.
"Não vim aqui para isso!". Raciocinou balançando negativamente a cabeça.
Os olhos escuros, a partir da pupila e daí para toda a íris, se tingiram de vermelho sangue e agudos colmilhos sobressaíram no sorriso sádico que se formou nos lábios bonitos, pois havia identificado a janela que tanto queria. Com um salto silencioso alcançou a sacada e abriu a janela sem ao menos tocá-la; felinamente adentrou ao quarto, desvencilhando-se das pesadas cortinas que faziam o dia parecer noite ali dentro e então parou, diante da cama ocupada por um jovem mortal.
Uruha estava entregue ao sonho que parecia feliz, pois um sorriso discreto lhe adornava os lábios; o corpo bonito estava coberto até a cintura deixando ver o tórax vestido com uma regata branca que permitia a visão de boa parte da pele alva. Como estava virado para cima, as madeixas mel caiam para trás em desalinho e a ausência de qualquer tipo de maquiagem tornava, para Aoi, aquela face ainda mais bela.
Aoi sorriu ainda mais maliciosamente e pulou sobre o colchão, graças a sua natureza mística e a seu desejo não ocorreu impacto e consequentes movimentos.
"Hum...". O loiro ronronou se movendo levemente virando o rosto para o lado.
"Nem precisava oferecer...". Sussurrou o ser-da-noite observando a jugular pulsante que ficou amostra para si.
O moreno se abaixou e engatinhou languidamente sobre o corpo adormecido e parou seu olhar na face tranquila, em seguida voltando a atenção ao pescoço alongado... Usando a mão direita retirou com delicadeza os fios que jaziam naquele local e se inclinou mais, aproximando os dentes afiados da cútis a ser perfurada.
"Dessa vez eu não paro...". Pensou abrindo a boca para desferir o golpe fatal.
"Aoi...".
O vampiro recuou rapidamente saindo de cima da cama como se tivesse sido golpeado e então viu o loiro ronronar mais uma vez, movendo-se em meio ao sonho, ficando de lado e agarrando um travesseiro com um sorriso maior nos lábios.
"Ele está sonhando comigo!". O óbvio lhe veio à mente e se deixou cair sentado sobre as próprias pernas, ao lado da cama; os olhos, não mais escarlates, se prenderam ao humano, contudo não lhe invadiu a mente, apenas observou e observou. Não conseguia desviar o olhar, por isso se deixou ficar ali por algum tempo... Horas...
O barulho de chuveiro vindo de outro quarto o trouxe de volta à realidade, deu-se conta então da presença de outro vampiro na propriedade, esse conhecia bem e não temia.
"Então o moreno virou caça do Murai...". Concluiu em pensamento. Era algo raro seres como Nao se envolverem com humanos, aquilo sem dúvidas geraria confusão.
"Não é da minha conta.". E se ergueu, saindo sorrateiramente do quarto, pois tinha muito que refletir...
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À noite... Mausoléu.
A casa havia iniciado seu funcionamento há pouco menos de uma hora, todavia muitas pessoas já preenchiam o local, mas Kai, como garçom, não tinha muito trabalho, o que lhe causava estranheza.
"Vou ao banheiro rapidinho, já volto.". Murmurou para Uruha, o barman, e, logo, saiu fazendo de conta que não havia reparado no sorriso sacana do amigo.
Desde que acordaram naquele dia, Ruki e Uruha não faziam outra coisa se não pegar no pé do moreno graças à notícia de que o Uke havia passado a noite com o namorado. 'Foi rápido, heim?!' Foi a primeira coisa que ouviu e não queria lembrar do que veio a seguir.
"Eles vão me atormentar pelo resto da vida!". Exclamou em pensamento, afinal havia dito com veemência, antes de sair, que Nao não era seu namorado.
As duas pessoas que estavam no banheiro quando o moreno entrou logo saíram, por algum motivo pareceu a Uke que havia receio em seus olhos quando eles o fitaram, deu de ombros e foi à pia, o que queria mesmo era lavar o rosto e espantar a irritação.
Pensar em tudo o que ocorreu deixava o moreno ainda mais atordoado, em um momento Nao era só um cara legal e no outro se tornou seu companheiro. Tinha que dar razão aos amigos, realmente sentia-se cativo ao outro jovem de negras madeixas e, por mais estranho que pudesse parecer, não queria se livrar...
"Será que me apaixonei?". Inquiriu-se em pensamento, pegando o papel toalha e girando sobre os calcanhares para sair do local.
"Olá Kai-chan!".
"Mi... Miyavi...". Yutaka sentiu o sangue gelar de cima a baixo ao ver o moreno diante de si; o jovem portava um enorme sorriso nos lábios que murchou pouco a pouco como se, em um segundo, tomasse consciência de tudo que ocorreu na noite passada e, para o mortal, restou apenas a dolorosa certeza de que aquele era um momento decisivo...
Continua.
oooOOOooo
Nota:
Eis mais um capítulo de "Mausoléu".
Não prometo mais não demorar a atualizar essa fic, mas prometo não pará-la. Minha vida passou e está passando por transformações bem drásticas que limitam meu tempo; comecei a faculdade no início do ano, continuo no curso de japonês e também estudo inglês, além do mais tenho pouca paciência para computadores nas horas livres, sempre há muito a fazer fora dele, contudo escrever é um hobby que adoro e sempre que possível o exercerei.
Sobre o título do capítulo. Ambas as palavras são usadas para se referir às formas do amor, sendo a primeira àquele sentimento baseado no sexo e a segunda o amor que nasce de uma amizade; nem preciso dizer o motivo das escolhas, né?! Aliás, esse capítulo é transitivo, feito mais para mostrar Reita/Ruki e Aoi/Uruha e tirar o foco de Miyavi/Kai/Nao, contudo há algumas coisas nele para refletir...
Agradeço profundamente o apoio de todos continuam a ler meu texto, também a Lady Anúbis pela betagem, e a may_31, ruu_tyan, Kami_aurevoir, Seto Scorpyos, nathyouko, Atsuko, Bakaneko, hinatinha05, julietstrange, nayarauchiha, Litha_chan, Fox_Reitinha, , Shiroyama Gabi-Chan, Neko Lolita, Lady Bogard, Aoi-Tsukii, Eri-Chan Guimarães e, finalmente a Aislyn Matsumoto pelos comentários no capítulo anterior.
Muito obrigada por ler até aqui e opiniões sempre são bem vidas.
Aiko Hosokawa
Belo Horizonte 11h07min AM
