CAPÍTULO 6- INVESTIDAS
Um cansativo dia de aulas chegava ao fim. Após o sino que marcava o início e o fim das aulas soar, milhares de estudantes tomavam as ruas de Tóquio, prontos para irem para casa. Em uma escola específica, localizada no bairro Juuban, alguns alunos aproximavam-se da carteira de uma garota em especial: uma novata, que chegara na cidade no dia anterior e já começara a estudar. Essa garota sorria simpaticamente a cada pergunta feita, e a respondia prontamente. Lógico que o que estava havendo era a reação de curiosidade provocada por uma novidade, mas até que não era ruim ser o centro das atenções...
Em uma parede, próxima a uma janela, uma garota com os cabelos loiros presos em duas tranças olhava para a cena com uma expressão de desdém. Uma colega veio ver o que estava acontecendo:
- O que foi, Kyoko-chan?
- Nada... Apenas não gostei dessa novata...
Rika arrumava suas coisas em uma bolsa, para deixar os livros em seu armário, no corredor abaixo das salas. Seus colegas a acompanhavam, enquanto aproveitavam para continuar a conversa. Akio tirou os livros da mão da novata:
- Não precisa carregar peso, Tenoh-san, levo seus livros para você.
- Obrigada, Sasaki-sempai...
Uma colega cochichava maliciosamente com outra, enquanto o grupo andava até o corredor dos armários:
- Não me lembro de Sasaki-san levar os livros para Kyoko-chan uma única vez desde que começaram a namorar!
- E ele leva os livros da novata... muito estranho!
Após Rika colocar seus livros em seu novo armário, disse, sorrindo:
- Domo arigatou, Sasaki-sempai!
- Não precisa agradecer...
O líder do clube de esgrima afastou-se da roda que se formava em torno da novata, andando calmamente pelo corredor sem dar as costas para o grupo. Estava na hora de Rika ir para casa, iria a pé porque queria registrar o percurso. Virada para a rodinha que se formava, disse:
- Olhem, tenho que ir, senão as pessoas que me esperam ficarão preocupadas, portanto... ja ne, minna-san!
- Ja ne, Tenoh-san...
Rika saía da escola com sua bolsa, enquanto seus novos colegas cochichavam sobre sua presença. Naturalmente, os fofoqueiros de plantão já haviam contado para Kyoko o acontecido com os livros. Quando a novata atravessava os portões da escola, sentiu uma mão no seu braço, que por reflexo tirou:
- Sakamoto-san, o que foi?
- Não gosto de você.
- Calma, não sou nenhuma assassina francesa com a missão de exterminar uma garota desmemoriada, não precisa ter medo!
- Só te darei um conselho: fique longe de Akio...
A loira deu as costas para Rika, sem esperar uma resposta, enquanto a novata olhava para a frente, sem entender muito bem o que tinha acontecido. Bom... não esperava mesmo ser amiga de todos, mas ganhar uma inimizade de cara não era a melhor coisa que poderia lhe acontecer...
As ruas estavam cheias, devido ao número de alunos que saiam de sua escola e de outras pelas redondezas, inclusive fliperamas e cafés estavam cheios a essa hora... Estava na frente de um tal Crown Game Center, que lhe parecia interessante, embora não estivesse com tempo. Ouviu que alguém gritava seu nome: - Tenoh-san, espere!
- O que foi, Kage-san?
- Você esqueceu seu livro na carteira!- O garoto estava esbaforido, devido ao esforço.
- Obrigada, Kage-san!
- Que é isso, Tenoh-san... - Posso pedir um favor? Já que ficamos amigos, por que não me chama pelo nome?
- Só se me chamar pelo meu, Rika-chan.
- Tudo bem, Ryo-kun!
Os novos amigos trocaram algumas risadinhas, antes de continuarem o trajeto. Rika não pôde deixar de dizer:
- Esse bairro é tão tranquilo...
- Não temos muitos problemas aqui em Juubangai, na verdade ultimamente não andamos tendo muitos problemas na cidade toda. Mas você viu o que aconteceu ontem, ficou sabendo? Atacaram o aeroporto, não se sabe ainda exatamente quem, o que queriam e como fizeram, mas especula-se que seja obra de algum grupo nacionalista radical. Porém eu vi em um tablóide que testemunhas afirmam que foi um ataque de monstros, e que uns tais de Pirate Knights os salvaram... você acredita nisso?
- Eh, bien...- Rika simplesmente deu um sorrisinho de vergonha.
- Já imaginou se existisse mesmo um grupo como descreveram no jornal?
Rika simplesmente sorriu novamente, enquanto andavam pela rua, já um pouco mais calma. Era um bairro residencial, mas havia algumas pequenas lojas pela calçada. O jovem estudante não resistiu aos apelos provocados pela vitrine de uma livraria e parou para ver o que se vendia, animado:
- Olha só, encadernação de luxo de "Vinte Mil Léguas Submarinas" de Júlio Verne! Eu tenho que comprar esse livro, é o que falta na minha coleção!
Rika sorria, enquanto também olhava para os livros, procurando por algum que a atraísse, juntamente com Ryo. Porém, os dois jovens foram surpreendidos pelo barulho de uma vidraça que quebrava, em uma loja próxima:
- O que foi isso?- Rika perguntou, virando-se para a direção de onde o barulho tinha vindo.
- SOCORRO!
Algumas pessoas subiam a rua correndo, saindo da loja aonde a vidraça da vitrine tinha sido quebrada. Uma pequena vozinha no interior da mente de Rika atentava que havia alguma coisa errada que deveria ser investigada, mas e Ryo? E o juramento de não contar a ninguém sobre ser uma Pirate Knight? Era melhor esperar e ver o que estava acontecendo:
- Ryo-kun, vamos chegar mais perto e ver o que está acontecendo!
Os dois adolescentes foram andando despistadamente, e se esconderam atrás de uma grande árvore, de onde poderiam ver tudo o que aconteceria na loja sem serem vistos. Na loja, a situação era crítica. A maioria dos clientes e vendedores tinha saído correndo, mas alguns não tiveram a mesma sorte e tiveram sua energia drenada até a morte. Rika sentiu um enorme peso por não poder fazer nada, mas certamente mesmo estando transformada não poderia impedir que civis inocentes perdessem a vida...
Gricktick fazia o trabalho para qual havia sido designado com calma e paciência... Afinal de contas, não tinha nenhum Pirate Knight enxerido para atrapalhar, tinha todo o tempo que desejasse. Mas como nunca é bom contar demais co ma sorte, a porta da loja se abriu, e a figura de uma garota, de pernas abertas e mãos na cintura, acompanhada de um gato, surgiu:
- Prepare-se para encrenca, encrenca em dobro! Para proteger o mundo da devastação... Para unir as pessoas da nossa nação... Para denunciar os males da verdade e do amor... Para levar nosso poder às estrelas! Venus Pirate Knight decolando na velocidade da luz! Renda-se agora ou prepare-se para lutar!
- PELO AMOR DE SERENITY, ESSE NÃO É SEU LEMA VENUS PIRATE KNIGHT! - A gata esbravejou.
- Era pra você dizer "é isso aí!"... - disse Venus com o dedinho na boca e orelhinhas de gato, em SD.
- ATAQUE LOGO ESSE MONSTRO E VAMOS EMBORA ANTES QUE VOCÊ ME MATE DE VERGONHA!
- Tá bom...- o Venus Whip apareceu nas mãos da amazona, já que tinha sido invocado - Venus Whip... Attack!
Enquanto Venus fazia poses e mais poses com o chicote, levou um escorregão e caiu sentada no chão, o que fez Íris querer nunca ter se candidatado a conselheira de Serenity para não passar uma situação tão humilhante e também fazendo Gricktick ganhar uma coleção de gotas de suor na testa.
- Ai meu bumbum...- disse Venus, enquanto se massageava.
- Venus... ESQUEÇA ESSA NINHARIA E VAI ATACAR O MONSTRO!- Berrou a gata enfurecida.
- Meu bumbum não é ninharia, o que quer que essa palavra signifique! E você está sendo má comigo, BUAAAAAAAAA!!!
- Kami-sama, o que eu fiz para merecer isso...- disse Íris, olhando para o céu.
Gricktick, que estava assistindo toda a cena, estava achando a amazona de Vênus um tanto engraçada! Por que seus mestres disseram que os Pirate Knights eram perigosos? Essa garota parecia inofensiva! Venus levantou-se e voltou para a posição em que estava quando entrou na loja:
- Aham... onde é que eu estava mesmo? Ah é... Prepare-se para...
- NÃO PRECISA REPETIR ESSE RAIO DE LEMA QUE NEM SEU É!- Esbravejou Íris.
- Então vamos direto ao que interessa! Venus whip... (ai meu bumbum!) attack!!!
Gricktick parou o chicote no braço e lançou-o para frente, o que fez com que Venus fosse lançada contra um cabide cheio de roupas e acabou desmaiando entre os vestidos de festa. Íris só teve a reação de sair correndo, tinha de avisar para os outros o que estava acontecendo! Por que o destino a fez gata, ao invés de ser metamorfa como Loki? Agora tinha de correr o mais que podia até a casa de Rika!
O servo do castelo da escuridão aproximava-se da amazona desmaiada, afinal era a chance que tinha para matá-la, cumprindo as ordens que tinha. Uma forte pancada em um certo ponto do pescoço serviria... Ela nem perceberia quando estivesse agonizando...
O som de um estalar de dedos fez com que o servo se virasse para a porta da loja. Duas figuras estavam lá: de um lado, uma garota de longos cabelos negros, vestida com um uniforme semelhante ao de Venus, porém verde- água; com o braço paralelo ao corpo e com a mão em uma posição que denunciava que ela acabara de estalar os dedos. Com suas costas apoiadas nas costas de sua companheira, do outro lado, estava um cavaleiro de uniforme roxo, segurando uma alarbada, numa posição que mostrava que estava pronto para atacar. Para completar, uma rajada de vento, que carregava algumas folhas verdes, abriu a porta da loja no mesmo instante em que o servo olhava para tentar descobrir o que estava acontecendo:
- Deixe essa loja e essa cidade em paz, AGORA!- Neptune disse, com o tom de voz mais imperativo que conseguiu.
- Pirate Knights... matar!
O monstro concentrava duas esferas de energia, uma em cada mão, enquanto Neptune conjurava sue bumerangue e os cavaleiros observavam para saberem o momento certo de agir:
- Não me parece muito inteligente...- disse Neptune. - Não é bom afirmarmos alguma coisa sem antes sabermos o que ele pode fazer - foi a resposta de Saturn.
- Neptune Boomerang... action!
Neptune lançou seu bumerangue, tentando atingir o monstro antes que ele atacasse, porém ele foi mais rápido e desviou o bumerangue, lançando uma das esferas de energia que concentrava contra a amazona numa velocidade maior do que a de sua própria arma. O impacto com a esfera fez com que a amazona de Netuno fosse lançada contra a vitrine e perdesse os sentidos, ficando fora de combate.
Saturn pôde apenas observar a cena, e uma grande raiva começou a consumi-lo quando viu o que tinha acontecido com sua companheira. A sua única reação foi pronunciar, enquanto girava sua alabarda:
- Silent Glaive... attack!
- Dark barrier!
A defesa do monstro, que criou uma pequena barreira de energia a seu redor, foi completamente inesperada para Saturn, que apenas pôde surpreender-se enquanto tentava, novamente sem sucesso, aplicar um golpe em seu adversário. A alabarda sempre ia de encontro à barreira de energia, até que Saturn começou a perceber que no ponto onde sempre tentava atingir sue adversário, uma falha começava a se pronunciar. Se usasse um pouco mais de força, a barreira seria rompida! Concentrou-se, o mais que podia, afinal de contas, aquela era a sua chance e não podia desperdiçá-la, tinha que ser seu melhor ataque!
- Silent Glaive... ATTACK!
Havia sido realmente o ataque mais perfeito do saturniano, e serviu não só para romper a esfera de energia quanto para destruí-la completamente. O cavaleiro cometeu apenas um erro, o que determinou os fatos que ocorreriam a seguir: deixou sua guarda aberta. Foi o suficiente para Gricktick, também no máximo de sua força, acertar um soco no estômago de seu oponente, que ajoelhou pela falta de ar, no tempo de levar um safanão que o mandou de encontro a uma parede do lado oposto a onde estava.
Rika, no seu esconderijo atrás do muro, deu um pulo de espanto. Tinha suportado quieta Venus ter sido posta para escanteio, tinha ficado quieta quando Neptune fora desacordada, mas não deixaria três companheiros seus sozinhos se estavam em perigo! Sabia dos riscos de Ryo saber de sua identidade, sabia que ele podia até mesmo estar do lado do inimigo, sabia que poderia estar condenando a vida do colega naquele instante, mas não tinha jeito, a vida de seus companheiros era mais importante do que qualquer protocolo!
- Ryo-kun, você seria capaz de guardar um segredo?- O tom de voz da jovem era ansioso e um tanto nervoso.
- Claro que sim, Rika-chan, mas...
- Você está preparado para mudar radicalmente sua visão de mundo nesse momento? Descobrir que o impossível de vez em quando acontece?
- Mas do que você está falando, Rika-chan?
- Disso...- Rika agarrou seu pingente, gritando. - PODER DE URANO, VENHA A MIM!
Ryo nunca estivera tão surpreso em toda a sua vida. Primeiro, uma garota nova entrava na escola. Depois, ela tornava-se sua amiga. E por último, ela era uma guerreira e estava transformando-se na sua frente! No mínimo andava lendo ficção científica demais e estava tendo delírios, só podia...
- Fique desse lado da rua, aqui estará seguro, Ryo-kun!- Uranus disse, enquanto pulava para chegar na loja.
Gricktick estava parado no ponto em que atacara Saturn, afinal de contas, estava indeciso. Três Pirate Knights para matar, qual iria primeiro? As damas ou o guerreiro ousado? Dúvida cruel essa... O guerreiro ousado, isso! Enquanto andava na direção de Saturn, foi surpreendido pelo som do vidro que quebrava, enquanto Uranus atravessava uma vitrine:
- Deixe-os em paz... Deixe toda a cidade em paz... AGORA!
- Não gosta de lemas, como sua companheira?
- Não vim aqui para discutir isso. GALACTIC... - Uma esfera de energia cor-de-rosa era concentrada sobre a cabeça de Uranus - QUAKE!
A esfera de energia, quando lançada ao chão, provocou um terremoto, que fez com que Gricktick caísse no chão por alguns instantes, mas não o impediu de levantar, e tentar acertar um soco em Uranus. A amazona, por sua vez, desviou, enquanto acertava um chute no rosto de seu adversário. O ataque definitivamente era físico, e agora, Uranus tentava acertar ganchos de direita e esquerda, prontamente bloqueados, enquanto bloqueava ganchos e uma cabeçada. Os adversários estavam em equilíbrio, cada golpe era bloqueado e nenhum avanço era feito, o que podiam fazer eram esperar que um dos dois abaixasse a guarda...
Ryo assistia, imóvel, tudo o que acontecia dentro da loja, porém, a curiosidade começou a consumi-lo. Por que não chegar mais perto, podia estar protegido mais de perto... e ver tudo com os mínimos detalhes! Foi esgueirando-se, até parar pouco abaixo da vitrine recém-quebrada, onde podia assistir de camarote tudo, absolutamente tudo o que acontecia na loja.
As primeiras coisas que o garoto curioso pôde ver, de onde estava localizado, foram duas figuras correndo, muito mais rápido do que uma pessoa comum, para a loja. Podia ver que uma dessas figuras vestia verde, e a outra, preto. Além disso, a figura de preto segurava alguma coisa que parecia um gato...
Uranus e Gricktick estavam completamente equilibrados. O máximo que tinham conseguido foi acertar um ou dois socos um no outro, mas nada que pudesse por si só ganhar a luta. A amazona pôde apenas exclamar, quando percebeu que Pluto e Jupiter tinham entrado na loja:
- Estão atrasados!- Disse ela desviando de um soco.
- Viemos assim que pudemos- disse Pluto, enquanto corria para o meio dos cabides para socorrer a desacordada Venus.
Jupiter, por sua vez, corria para verificar a pulsação e respiração de Saturn, caído pouco adiante. Gricktick percebeu que por um momento o olhar de Uranus se perdeu na observação das ações de seu companheiro, e aquela foi a chance que precisava. Não para atacá-la, mas para mudar um pouco de estratégia...
Pluto sentiu que tinha uma sombra atrás de si, e ao virar, apenas viu de relance a forte mão que a acertava, fazendo-a desmaiar. Enquanto o monstro preparava mais um golpe, Uranus aproximou-se, para salvar a companheira:
- Vejo que caiu em minha armadilha...
Gricktick atingiu-a com um soco, e com um chute em seguida, sem chances de defesa. Uranus estava no chão, segurando-se para ficar com o tronco levantado, e respirando com dificuldade devido à pancada recebida perto do diafragma. O monstro aproximava-se, pronto para mais uma forte sequência de golpes indefensáveis, que na melhor das hipóteses, a desacordariam e machucariam seriamente.
Ryo observava as intenções do monstro e a não-reação de Rika... Não podia deixar que a amiga se ferisse, não podia deixar que isso acontecesse! Não percebeu que suas mãos tateavam procurando pedras, e acabou achando algumas, que foram prontamente atiradas no monstro. Não que tivessem causado muita dor, mas a insolência daquele rapazinho, que pulava para dentro da loja, fez com que o servo do castelo da escuridão se irritasse profundamente:
- O que foi? Seus mestres não ensinaram que não se deve atingir alguém pelas costas, ou quando não tem chance de reagir?
Ryo não acreditava que estava na mira de um monstro, provocando-o, e ainda tinha procurado por isso! Metade de seu corpo dizia para sair correndo dali, o mais rápido que pudesse, porém a outra dizia que estava fazendo a coisa certa tentando proteger Rika e aqueles outros guerreiros.
- E ninguém te ensinou a não se intrometer onde não é chamado, moleque?
Gricktick concentrou um pouco de energia em suas mãos, preparando-se para atingir o garoto insolente que interferira na sua luta. Não que gostasse de usar energia, mas com ele seria mais rápido e prático do que uma luta corporal, além do que ele não tinha o nível daquela garota, o que faria a luta bem sem-graça. Com certeza ser atingido por uma esfera de energia seria uma dolorosa lição para aquele enxerido... Será que ele não conhecia o destino do gato do ditado? Se não conhecesse, conheceria naquele momento, porque era o que iria lhe acontecer.
- Garoto louco, não está percebendo que tem que fugir daqui o mais rápido que puder?- Jupiter gritava, enquanto checava respiração e pulsação de Neptune.
Porém, Ryo estava completamente paralisado e nem as palavras de Jupiter ou as ações de Gricktick surtiam efeito em sue corpo. Não... Aquela vozinha interior insistia que tinha de ficar ali, que seu lugar era ali, protegendo Rika-chan!
Íris, em um canto, cuidando de Venus e Pluto, apenas observava a cena. Aquele garoto... ou era um louco ou tinha um motivo muito forte para continuar ali. Bom... Rika era realmente bela, poderia ser o tal motivo. Mas por que ele não saía correndo, não fugia, não preservava a própria vida, que perderia pela curiosidade que o movera a ver o que a garota bonita tinha ido fazer?
Uranus ainda estava paralisada, enquanto olhava a esfera de energia que o monstro concentrava crescer, e também perceber que Ryo não sairia tão fácil dali. Não podia fazer nada além de torcer... Nem que fosse por um milagre...
Gricktick finalmente lançou a esfera de energia em Ryo, fato que foi acompanhado por um grito do rapaz. Seu último grito, pensou o monstro.
- Não se atreva... a machucar... Rika-chan!
Para a surpresa de todos os presentes na loja naquele momento, ele estava vivo, consciente e, apesar dos ferimentos e da dificuldade de suportar o próprio peso sobre as pernas, de pé. Para completar, o símbolo de Mercúrio brilhava em sua fronte.
- Mercury Pirate Knight... - Foi tudo o que Íris pôde dizer antes de atirar um pingente azul para o rapaz.
Os olhos azuis de Ryo tinham o brilho do gelo, que apesar do calor da batalha não se derreteria. A frase foi dita, lembrando-se das palavras de Rika alguns minutos antes:
- Poder de Mercúrio... VENHA A MIM!
O azul do gelo intenso envolveu o corpo do rapaz, enquanto suas roupas sumiam para darem lugar a uma calça azul, camisa azul com listras horizontais brancas, e sobre tudo isso, um casaco azul, bordado ricamente de azul. Nos pés, sapatilhas como as usadas para a prática de artes marciais. Não usava mais óculos, e nem sentia falta deles. O gelo dissipou- se, e o novo cavaleiro despertado não teve muito tempo para admirar-se, afinal de contas, a batalha corria. Seus olhos encontraram-se com os de Jupiter, pois não sabia exatamente o que deveria fazer e procurava auxílio:
- Seu instinto vai te dizer como deve agir, você tem que buscar a resposta dentro de si mesmo...
Instinto? Bom, tinha que aproveitar a surpresa de seu adversário, que estava sem reação, para poder pensar rápido e descobrir o que deveria fazer. Mas... não tinha a menor idéia! Será que não tinha alguma arma secreta, um compartimento especial com bombas no uniforme, um napalm... ah, qualquer coisa servia!
Porém, a inteligência e o treinamento do monstro não foram perfeitamente avaliados pelos cavaleiros, pois enquanto Ryo procurava em seu casaco algum compartimento secreto com alguma arma, Gricktick aproximou- se de Uranus, que ainda não tinha recuperado completamente o fôlego e não poderia defender-se, e acertou um soco no rosto da amazona, logo seguido por mais uma sequência de golpes. A amazona apenas tentava, pesadamente, recuperar o fôlego, em vão. Se a sequência continuasse, dentro de pouco tempo ela perderia os sentidos, e talvez a própria vida, caso os ataques aumentassem.
Olhos chocados observavam a cena, enquanto procuravam ainda alguma arma. Tinha de fazer alguma coisa, qualquer coisa, não podia deixar que Rika-chan se ferisse! Começou vagarosamente a girar, enquanto cristais de gelo apareciam ao seu redor:
- Mercury Freezing Dance!
Quando os cristais de gelo foram lançados para Gricktick e acabaram por congelá-lo, Mercury respirou pesadamente, um tanto assustado com o que estava acontecendo. Procurou auxílio olhando para Jupiter, que simplesmente disse:
- Pelo menos você deu tempo para que pensássemos, mas ainda temos de descobrir como podemos derrotá-lo.
- Mas como assim descobrir?
- Não sei... Na verdade, ainda nem tentei, e você nem me deu tempo para defender Uranus, mas acho que se tivéssemos certeza do que precisa ser feito, seria muito mais fácil.
Mercury apenas suspirou, enquanto passava a mão pelos cabelos. Por que sentia a necessidade de ajudar, sentia que a responsabilidade por uma estratégia era dele? Suas mãos encontraram sua orelha esquerda, onde havia... um brinco? E desde quando usava brinco? E por que sentia uma vontade enorme de apertá-lo? Ao fazer isso, sentiu que uma fina lente azul cobria seus olhos, na forma de um daqueles visores que tinha visto no laboratório de realidade virtual. Era como uma tela... E nessa tela, era como se um programa de inicialização de um computador estivesse rodando, pelos muitos códigos que passavam diante de seus olhos. Finalmente, apareceu a seguinte mensagem diante de seus olhos: "Atualização finalizada. Bem-vindo, Mercury Pirate Knight!".
Tudo bem, tinha um computador em sua frente, mas agora, o que fazer com ele? E... o que estava sentindo sob sua mão esquerda, seria um pequeno teclado? Pelo que tateava, era o que parecia. Ao olhar novamente, através do visor, podia ver uma tela com várias funções. Uma delas indicava "procura por ponto fraco", o que foi prontamente selecionada ao se apertar um botão:
- Acho que entendi como se mexe nisso.... Hum... Então tenho que apertar a tecla correspondente à função do teclado, e descubro qual corresponde a qual através da disposição espacial delas... certo!
- Descubra como se mexe nisso rápido, porque nosso inimigo já está quebrando o gelo!- Jupiter gritou.
Poucos instantes depois, Gricktick quebrou definitivamente o gelo, enquanto Mercury ainda testava os comandos de sue computador. Jupiter, ao perceber que Uranus ainda estava se recuperando e para evitar mais ferimentos na companheira, concentrou um pouco de eletricidade na mão:
- Thundering beam!
- Ah, não me faça rir- disse Gricktick, enquanto a eletricidade espalhava-se pela sala.
- Essa não...- Jupiter concentrava-se enquanto toda a eletricidade era atraída para seu corpo, para evitar que seus companheiros tomassem choques.
- ACHEI! Imunidade a eletricidade e baixa resistência a... gelo?
Gricktick preparava um ataque de socos contra Jupiter, que foi prontamente bloqueado. Enquanto o monstro tentava de todas as maneiras minar a defesa do adversário, seja com chutes, socos ou cabeçadas, este bloqueava, estando em uma posição defensiva. Mercury apenas observava, ainda pensativo com os resultados do computador. Bom... tinha congelado o monstro, e se ele era sensível a gelo, como não havia derrotado-o? A tela do computador começou a se modificar, mostrando números que corriam numa velocidade enorme. Pouco depois, uma frase: "maior concentração de energia torna-a mais efetiva". O mercuriano deu um pequeno pulo para trás, espantado. Quer dizer que bastava pensar para que o computador fosse ativado? Não era hora de descobrir isso, mas de salvar Rika-chan e os outros.
- Mercury...- Concentrou o máximo de gelo possível, girando e pronunciando a palavra bem devagar. - ...freezing...- Novamente o máximo de concentração, e a palavra foi dita vagarosamente. - ...DANCE!
A última palavra da frase saiu no tom mais veemente que o garoto já usara em toda a sua vida. Gricktick foi congelado, fazendo com que Jupiter, que tinha agarrado pelo uniforme pouco antes, caísse no chão, para o alívio dos cavaleiros. O gelo foi invadindo o monstro e, poucos instantes depois, gelo e monstro partiram-se como se fossem um jarro de um delicado cristal que se encontra com o chão após cair do alto de uma estante; sendo que seus pedaços pouco depois evaporaram, levando consigo qualquer vestígio do monstro que um dia atacara uma loja no bairro Juuban.
- R-r-r-ry-ryo-kun???- Foi a primeira coisa que Uranus disse depois de conseguir levantar-se, apoiando-se em Jupiter.
- Ai, minha cabeça...
- VENUS!- Íris gritou, ao ver que sua protegida acordava.
- Está tudo bem com você, Venus?- Jupiter perguntou.
- Meu cérebro diz que sim e minhas juntas dizem que não... AI! Ah... e quem é esse aí?
- Mercury Pirate Knight, que apareceu em uma hora conveniente- disse Íris.
- Ai...
Esse gemido vinha do outro lado da loja e era proferido por Saturn, que acabava de acordar. Ainda estava tonto, o que era natural, e confuso com os acontecimentos:
- Onde está o monstro?
- Mercury Pirate Knight acabou com ele- disse Uranus, sorrindo.
Saturn fitava o novo companheiro, que ainda não acreditava no que estava acontecendo. Bom, lembrava-se das pessoas subindo a rua correndo, de estar olhando para os livros da vitrine... Devia ter levado uma pancada forte na cabeça e estava sonhando.
Olhos negros se abriam, enquanto o rosto onde esses olhos se encontravam contorciam-se levemente de dor. Tinha até medo de olhar para seu corpo depois de ter sido atirada contra uma vitrine, devia estar bastante ferida. Após tatear um pouco o local onde estava, para certificar que podia levantar-se e também para afastar alguns cacos de vidro, levantou o tronco, espantando-se ao olhar para baixo: apenas uns poucos cortes na mão e uns arranhões no uniforme, mas que não chegaram nem a cortar o tecido. Então esse tecido era resistente, apesar de bem fino e confortável! Porém, outro calafrio percorria sua espinha: seu rosto! Não que se achasse bonita, mas não gostaria de ganhar algumas cicatrizes de graça. Olharia isso depois, estava na hora de ver que fim tinha levado aquele monstro e como estavam seus companheiros. Ao virar-se para o lado oposto, pôde ver cinco cavaleiros de pé, além de Pluto que já estava nos braços de Jupiter. Espere aí... cinco? E quem era aquele de azul?
- O que houve? E quem é esse aí de azul?
- É Mercury Pirate Knight, que despertou e derrotou o monstro- disse Saturn, enquanto estendia a mão para a companheira levantar-se e aproximar- se do grupo.
Jupiter acariciava levemente o rosto da companheira adormecida em seus braços enquanto Íris comentava que ela não deveria demorar muito para acordar, o que fez com que o joviano sugerisse ao grupo:
- Acho que deveríamos reverter e sair daqui logo, antes que a polícia, defesa civil ou o que for venham aqui para investigarem o que houve com a loja.
- É uma boa- disse Uranus, revertendo.
Após os companheiros reverterem, Mercury olhava para Uranus, como se perguntasse como fazia para acompanhá-los. A resposta foi acompanhada de um lindo sorriso:
- Basta querer voltar ao normal, Ryo-kun.
Ryo, após reverter, olhava para os braços e pernas, e também para os companheiros e para a loja:
- ESPEREM AÍ UM POUCO, QUER DIZER ENTÃO QUE EU SOU UM PIRATE KNIGHT?
- Depois a lerda sou eu, hein! Só agora que você percebeu?- Ishtar disse, dando uma risadinha de superioridade.
- Ele estava em choque, e também atingido pelo calor da batalha, por isso ainda não raciocinou direito sobre o que está acontecendo- disse Íris.
- KAMI-SAMA, O GATO FALA!
- Gata, por favor. E por que todos se espantam, hein?
Ryo tinha os olhos arregalados, e a tontura dos últimos acontecimentos fazia com que tombasse para trás. Porém, antes de cair, foi apoiado por Rika, que segurou sua mão:
- No começo foi difícil para todos nós, Ryo-kun, mas logo você assimila tudo o que aconteceu e está acontecendo!
- Nossa, Rika, você conseguiu aguentar o peso dele e impedir que caísse!- Comentou Jack.
- É, sempre fui meio fortinha mesmo!- Rika sorria ao responder.
Pluto, mesmo desmaiada, revertia no colo de Jupiter, o que fez com que Íris comentasse:
- É bom que saibam que se desmaiarem, em meia hora revertem automaticamente. Isso acontece porque assim é mais fácil para não desperdiçarem energia...
- Só uma perguntinha, o que estamos fazendo aqui? Vamos esperar para darmos explicações para os policiais quando eles chegarem, por um acaso?- Sarah disse, enquanto dirigia-se para fora da loja.
- Acho que ela está certa...- Ryo disse timidamente.
- Vamos logo, já demoramos- disse Storm, já saindo e preparando-se para subir a rua.
Enquanto o grupo subia a rua, Ryo, ainda espantado com tudo o que estava acontecendo e desconfiando seriamente que tinha entrado em algum livro de ficção científica, ou mesmo em um mangá mahou shoujo, apesar de que mangás mahou shoujo não eram exatamente sua leitura preferida, observava seus companheiros de grupo:
- Eu gostaria de saber quem são vocês...
- Atashi wa Aino Ishtar! Tenho 14 anos, estudo na Juuban Junior High School, meu signo é libra, meu tipo sanguíneo é O...
- Para que falar o tipo sanguíneo?- Sarah perguntou, olhando para o chão.
- Sei lá, vai que precisa de transfusão, nunca se sabe...
- Jack Sarasvati- o saturniano sorria para sue novo companheiro.
- Sarah Granger.
- Storm.
- É seu nome mesmo?- Ryo perguntou espantado.
- Não entremos em detalhes...- Storm olhava para o céu, reticente.
- Boku wa Kage Ryo.
- Somos colegas de classe!- Rika disse, sorrindo satisfeita.
Cassie respirava profunda e delicadamente, gesto acompanhado pela abertura de seus lindos olhos verdes, que se encontraram com o peito daquele que a carregava desde que saíram da loja, pouco antes. Havia muitas perguntas em sua mente, mas a principal delas era:
- O que houve?
- O monstro foi destruído e Mercury Pirate Knight desperto- Storm disse suavemente para a garota que mal acabara de acordar.
- Como é?
Cassie colocou os pés no chão, ajudada por Storm, enquanto observava os companheiros, que tinham parado de andar. Um garoto magrelo chamou sua atenção, e obviamente aquele era o Mercury Pirate Knight. Ele a olhava, e sabia ler aquela expressão em seus olhos: "eu te conheço de algum lugar...".
- Qual... qual é seu nome?- Ryo perguntou, enquanto observava a companheira de cima a baixo.
- Beckham Cassandra...
- Sabia que você me era familiar! Cassandra-san, eu sou seu fã! Você é um estímulo para que eu estude, par quem sabe um dia, chegar a ser como você é! E olha que temos a mesma idade!
- Cassie, por favor...- a plutoniana sorria de leve, constrangida. Um fã? Isso era novidade!
- Ah, Ryo-kun, se ninguém disse isso até agora... Você deve manter sua atual situação em segredo. Não seria bom contar ao mundo o que somos, tanto para a nossa segurança e a daqueles que convivem conosco quanto para o bem da cidade. O que seria de nós se Pirate Knights saíssem das páginas dos tablóides sensacionalistas para ganharem o status de "heróis da cidade"? Portanto, antes de tudo, seja discreto- disse Rika.
- Compreendo, Rika-chan. Mas hoje quero analisar um pouco o visor, se nessa luta pudemos perder tempo, talvez numa próxima não tenhamos tanto tempo assim.
- Já pensa como guerreiro, sendo que mal despertou!- Íris disse, sorrindo.
- Acho que não estamos nem na hora nem no lugar de discutirmos isso. Ryo-kun deve ter um tempo para absorver as novidades e também nós mesmos, afinal de contas, faz menos de um dia que Rika, Sarah e Jack estão aqui. Eu sugeriria uma reunião, dentro de dois dias, em local a definir, para discutirmos os últimos fatos, e como Tomoe anda se tornando audacioso- disse Storm.
- Uma vez líder sempre líder...- Íris pensou alto, não sendo ouvida por ninguém.
- Tomoe?- Ryo perguntou.
- É uma longa história... Eu sugeriria que fosse para casa e daqui a dois dias nos encontramos, em minha casa. Lá você terá toda a explicação que quiser- disse Rika.
- Então... acho que já está na hora de ir...
- E nós também! Vamos, Íris! Até daqui a dois dias, depois da aula, na casa da Rika-chan!- Ishtar disse, enquanto pegava a gata no colo.
***
No Castelo da Escuridão, toda a tecnologia utilizada tinha como fonte de alimentação a energia gerada pelo metabolismo dos seres. Essa energia tanto podia ser gerada normalmente, nas atividades gerais do dia-a-dia pelos próprios habitantes do castelo quanto roubada de outros seres, estranhos ao castelo. Podia ser roubada, quando necessário, de duas formas: ou retirava-se do metabolismo da vítima gradualmente, fazendo-a sentir-se mais fraca e mais fraca sem conhecer o motivo, ou forçava-se o metabolismo a produzir o máximo possível de energia no mínimo de tempo, o que acarretava em uma quantidade imediata enorme, mas também na morte da vítima, se toda ela fosse retirada. Energia humana, apesar dos cientistas castelões desconhecerem a causa, era a que tinha melhor rendimento, logo, deveria ser roubada se era necessário o uso de muita energia para algum fim específico, no caso, acordar a mestra.
Em sua sala de controle, os generais, Sílica e Cuprum, acompanhavam com ansiedade os acontecimentos na loja de Tóquio. Par seu desespero, o poder de Mercúrio foi despertado, como o computador acusava, e a do servo Gricktick desaparecera, acusando sua morte. Ele tinha conseguido coletar uma relativa quantidade de energia humana antes de perecer, mas não chegava nem perto do suficiente necessário para que a Mestra finalmente acordasse.
- MALDIÇÃO!- Cuprum bateu forte com os punhos no balcão onde estava apoiado.
- Perdemos um servo e ainda, para piorar, Mercury Pirate Knight foi despertado! Desse jeito não conseguiremos nada, só a morte de nossos servos!
- Precisamos de um plano eficiente, Sílica...
- Está mais difícil do que pensei, Cuprum, e não quero me queimar com a Mestra quando ela acordar...
- E se não formos nós quem fizermos o plano? Assim, se der certo, podemos, como cabeças e comandantes, ficar com todas as glórias da Mestra, mas se falhar... Nosso servo que bolou o plano que sofrerá todos os reveses!
- Hum... Sabe que é uma boa?
Os generais gargalhavam devido à boa lembrança de Cuprum. Se podiam abusar de alguém para fazer todo o serviço, e ainda por cima colher os louros em caso de vitória, por que não fariam isso? Era até estranho que nunca tivessem pensado nisso antes...
- E quem seria nosso escolhido?- Sílica perguntou.
- Pensei naquela menina, a que surpreendeu a todos nos testes de inteligência quando criança e recebeu treinamento de general, apesar de não ter sido nomeada... Como era mesmo o nome dela?
- Aneurocito... É, era isso mesmo...
- Certo então. Aneurocito... APRESENTE-SE!
Poucos segundos depois, uma garota de aparência estritamente humanóide, de estatura mediana, com os longos cabelos azul-claros presos em uma trança, vestida com um vestido vermelho de gola alta, fechado na lateral esquerda com uma fileira de botões negros, que se abriam na metade da coxa esquerda deixando sua perna à mostra. A única coisa que fazia com que não se passasse como humana eram seus olhos, como os dos gatos.
- Como posso ajudá-los, senhores?
- Você tem apenas que trazer energia para despertar nossa mestra e destruir os Pirate Knights- disse Cuprum.
- Como as buchas de canhão que vocês andaram mandando nos últimos dias? Eu me recuso!
- Não é nada disso, você está livre para fazer o plano que quiser, como quiser, para conseguir atingir esses objetivos- disse Sílica, segurando-se para não esganar a serva pela resposta anterior.
- Tem total liberdade para fazer o que bem entender, só avise primeiro- disse Curpum, compartilhando da vontade da colega.
- Então vou precisar de um computador para recolher os dados necessários, ora. E quero me inteirar de tudo o que está acontecendo, o que deve levar alguns dias.
- DIAS?- Sílica e Cuprum perguntaram ao mesmo tempo.
- Por um acaso os senhores estão pensando que eu vou para lá agora sem planejamento nenhum e nem saber o que está acontecendo? Mas é claro que não, não sou idiota e precipitada a esse ponto!
- Faça o que você quiser- disse Cuprum, puxando Sílica para fora da sala para evitarem atritos desnecessários.
Aneurocito sentou-se em uma das cadeiras próximas ao balcão, enquanto digitava algumas palavras para entrar no banco de dados. Sabia muito bem porque estava ali, aqueles idiotas queriam alguém para fazer o serviço todo por eles. Se era isso o que queriam, seria o que teriam, mas não como imaginavam. Não iria simplesmente entregar os frutos de seu trabalho a usurpadores, e de graça. Iria conseguir a patente de general, isso sim!
"Bem que poderia haver algum sistema que captasse imagens instantaneamente e as mandasse para cá... Seria mais fácil do que lidar apenas com o detector de energia", Aneurocito pensava. Poderia até estudar essa idéia com a divisão de desenvolvimento tecnológico, mas por tempo era melhor só avaliar todos os dados que conseguiram coletar e os níveis de energia. E, também, como queria uma investigação a sério, queria ver como eram e agiam os Pirate Knights, o que faria assim que o poder de algum deles fosse manifestado, mas só depois de terminar suas análises. A energia necessária para atravessar o portal que os ligava à Terra não era pouca, mas certamente seria compensada, principalmente quando tivesse de mandar algum servo para a missão de conseguir mais energia humana.
Sílica e Cuprum passeavam pelos corredores do castelo. Há quanto tempo não saíam da sala de controle? Uns três meses? É, devia ser por aí mesmo... Mas Cuprum não aproveitava o passeio, apenas resmungava e praguejava, nervoso com os acontecimentos na sala pouco antes:
- Já estou começando a me arrepender do plano, essa menina é um tanto geniosa demais!
- Calma, temos que dar um crédito para ela, além disso acho que será melhor assim, as coisas andarão mais rápido dessa maneira- disse Sílica.
- Espero que a Mestra logo seja despertada, assim as coisas caminharão mais rápido.
- Que coisas?
- Não sei exatamente... Mas quando ela acordar a gente descobre!
Uma gargalhada dupla ecoou pelos corredores do castelo, fazendo até mesmo com que alguns servos parassem suas tarefas habituais para se perguntarem o que estava acontecendo, se era o carnaval que tinha chegado mais cedo, algum prisioneiro tinha surtado ou simplesmente os generais da Mestra tinham se empolgado com alguma proposição sobre o futuro...
***
Uma sala, pertencente a uma mansão no estilo ocidental, construída no século XIX e sobrevivente de terremotos e dos bombardeios da guerra. Essa sala era forrada por um papel de parede amarelo intenso, e havia cortinas da mesma cor nas muitas janelas. Por haver muitos livros, uma parede era coberta por uma grande estante, e no meio da sala, uma grande escrivaninha tinha lugar de destaque. Algumas poltronas estavam espalhadas pela sala, e na decoração havia alguns grandes vasos e uma deusa indiana de mármore em uma mesa de canto.
- Sarasvati, a deusa a quem devo o sobrenome- disse Jack, observando calmamente a estátua da deusa hindu da ciência e do aprendizado.
A sala fora o centro de comando de alguns dos presidentes das Organizações Tenoh, mas atualmente era conhecida pelo apelido de "escritório da miss Rika". A dona dessa sala estava jogada na poltrona que acompanhava a escrivaninha, e girava de um lado para o outro nas suas rodinhas. Disse, calmamente:
- E no final das contas não é que um colega de classe meu era um de nós? E ainda por cima o que mais se aproximou de mim...
- Vai ver é aquilo que Íris disse... Eles se cruzarão conosco- disse Storm.
- Só falta o representante de Marte então. Onde ele poderia estar?- Cassie disse.
- Prefiro não arriscar um palpite- disse Sarah, enquanto verificava em um espelho que tinha sofrido apenas um pequeno corte no supercílio esquerdo, mas que certamente não deixaria nenhuma marca.
- Sarah, Jack... Conseguiram resolver alguma coisa? - Devido aos acontecimentos no aeroporto, a companhia aérea ofereceu a diária de três dias em um hotel, além disso tenho uma passagem para daqui três dias para Nova York, mas prefiro não aceitar. Acho que meu lugar é aqui, e tenho certeza que se eu explicar com bastante retórica para meus pais que o melhor será que eu estude aqui, principalmente se já estou aqui, não será muito difícil ficar, ainda mais se eu arrumar algum emprego.
Jack continuava a observar a estátua enquanto falava, admirando a bela obra de arte que devia ter custado alguns milhares de dólares. Realmente, sua vida tinha dado uma bela guinada... Seu lugar era Tóquio e não tinha como escapar de seu destino. Seu olhar desviou-se da estátua, para encontrar-se com uma bela morena que passava os dedos de leve pelos longos cabelos negros enquanto se olhava no espelho, preparando-se para responder a pergunta da colega. Esperava com todas as suas forças que ela compartilhasse de seu destino muito mais do que sendo uma Pirate Knight como ele...
- Não tenho razão para voltar para casa, ou para ir a Los Angeles. Tenho o dinheiro da herança de meus pais comigo, no banco, e se não tenho mais razão nenhuma para ficar em qualquer lugar desse mundo, fico aqui mesmo. Acho que farei até um favor para meu irmão ficando longe de Tel Aviv, longe dele...
Sarah não pôde esconder uma lágrima que caiu sobre seu espelho. Cassie aproximou-se da companheira, enquanto segurava sua mão de leve:
- Enquanto estiver conosco, não precisa ficar triste!
- Não sei o que é ser feliz- Sarah disse, com um sorriso melancólico.
- Acho que está na hora do lanche!- Rika disse, tentando quebrar o clima ruim que se instalara na sala.
- Rika... Gostou de sua escola nova? Porque... tenho de estudar também...- Sarah disse, enquanto levantava-se para ir para a copa. - Adoraria que você estivesse lá comigo, mesmo que nós fiquemos em séries diferentes!- Rika respondeu com um sorriso. - Dentro de alguns dias, assim que a burocracia toda terminar, você terá uma colega nova- disse Sarah, com um esboço de sorriso no rosto.
***
Juubangai estava agitado, as pessoas movimentavam-se, tanto a pé, ocupando as calçadas, quanto em meios de transportes, rumo aos seus afazeres cotidianos, calmamente. Se a parada cotidiana de alguma dessas pessoas fosse uma banca de jornais, ela certamente veria como manchete, estampada em diversas publicações, a notícia de que uma loja no calmo bairro, depois do estranho incidente no aeroporto, havia sofrido um ataque, inclusive com algumas vítimas. Quem ou o que era a causa? Mistério. A perícia não apurara muita coisa, e as testemunhas insistiam em dizer que havia um monstro... Algum alucinógeno, de alguma forma, tinha feito novamente com que algumas pessoas tivessem ilusões.
Em algum canto da banca de jornais, estariam os tablóides. Nesses jornais, compromissados muitas vezes com o sensacionalismo, a mesma manchete, porém vista de outra forma: monstros atacam Tóquio! Um grupo de guerreiros os enfrenta, eliminando o perigo que trazem! Mais uma lenda urbana nascia na cidade, a de um grupo de guerreiros que enfrentava monstros assassinos. E alguma pessoa com um mínimo de bom-senso acreditaria em uma história dessas?
Porém, não muito preocupada com as manchetes dos jornais, muito menos com a nova lenda urbana que nascia, apesar de fazer parte dela, uma garota corria em disparada pelas ruas, com a prática adquirida em anos de corrida para evitar um atraso na escola. Chegar atrasada e levar um pito da professora não era a melhor forma de começar o dia, definitivamente!
A garota ajeitava os prendedores em forma de estrelas que estavam em seu cabelo, enquanto equilibrava a bolsa com o material escolar. Ser a primeira da chamada não era um bom negócio... Certamente estava muito mais preocupada com a sua presença do que com os fatos nada comuns que estavam acontecendo em sua vida, ultimamente. Ora, era hora de pensar em qualquer coisa, menos no monstrinho do dia anterior! Tantas coisas mais interessantes para pensar... Por exemplo, ia ter show do Chikyuu no Tsuki dentro de um mês! Tinha que reservar seu ingresso desde já, afinal de contas, era uma banda de bastante sucesso, e não poderia perder a chance de ver aquele vocalista gato de perto!
Porém, ao pensar no vocalista da banda da vez, Ishtar não percebeu que estava indo de encontro ao caminho de um certo garoto arrogante, que virava a esquina ao mesmo tempo em que ela seguia reto... O choque foi inevitável.
Livros, deveres de casa, lápis, borracha... tudo espalhado pela rua, enquanto Ishtar colocava a mão de leve sobre a cabeça para se recompôr do choque. Hum... ela conhecia aquele sujeito de algum lugar. Não era aquele cara do outro dia, aquele em que tinha acertado a prova? E... EI!
- TARADO! Você está olhando para minha calcinha por debaixo da minha saia!
A venusiana, completamente vermelha, colocava as pernas no chão, e com as mãos puxava a saia entre elas, se tampando. Após levantar-se e arrogantemente tirar a poeira dos ombros, a outra vítima do incidente apenas disse, desdenhoso:
- E você acha que eu perderia meu tempo olhando para uma pivetinha como você? Se enxerga, menina! Mas devo admitir que calcinha azul com estrelinhas amarelas cai bem em você...
A venusiana, que recolhia seus livros, paralisou-se e ficou roxa de vergonha ao ouvir a frase do rapaz convencido. Ele tinha olhado mesmo! Como podia ser tão tarado, era uma menina pura e inocente, como um sujeito que mal conhecia e já odiava podia ver sua calcinha? Sua reação foi dizer, entre os dentes:
- Você vai pagar cara por isso, seu idiota tarado!
- E o que uma pivetinha como você poderia fazer? Concentrar um raio de luz e me fulminar? Ah, não seja ridícula! Mas só digo uma coisa... Quando crescer pode me procurar.
Enquanto dizia a frase, o rapaz seguia seu rumo, de costas para a garota. Esta, completamente envergonhada e furiosa, tirou um de seus sapatos e o atirou na direção do tarado, mas sua mira não estava nos seus melhores dias... Como queria se transformar naquele momento e atirar um Eve Star Beam bem mirado e caprichado no meio da testa daquele idiota, que ódio! Porém, o soar de um sino fez com que Ishtar esquecesse de seus planos de vingança, e lembrasse de problemas mais imediatos:
- ATRASADA, NAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAO!
***
- Nossa cidade costumava ser tão calma, mas ultimamente tanta coisa esquisita anda acontecendo...
A frase era dita por uma garota baixinha, de longos cabelos negros presos em um rabo-de-cavalo, que depositava suas coisas em sua carteira, logo que chegara na escola. Mais um dia letivo se iniciaria e os alunos, seguindo a rotina de sempre, deixavam suas coisas em suas carteiras e, em muitos casos, juntavam-se em grupinhos para discutir algum assunto, ou nenhum específico. Um garoto de estatura mediana e cabelos também negros muito curtos deu continuidade à conversa iniciada pela colega:
- A perícia até agora não conseguiu apurar muita coisa nem do aeroporto nem da loja, apesar de que se desconfie que se trata de algum grupo terrorista. Mas quem são eles e o que querem, isso ninguém sabe.
- O pior é que esse último ataque foi muito perto de nós... Dá até um certo medo agora, será que haverá outro ataque?- Uma baixinha de cabelos curtos e maquiagem carregada disse, enquanto olhava para o chão.
- Não devemos entrar em pânico nem temer, Kitsune-chan. A tática do pânico também é usada pelos terroristas- disse o garoto de antes.
- E vocês viram os tablóides e os depoimentos de muitas testemunhas? Do grupo de guerreiros?- Disse a garota baixinha que iniciara a conversa.
- Não me venha dizer que você dá ouvido a esses boatos imbecis, Naru- chan! Até parece que isso é plausível... Grupo de guerreiros que enfrentam ataques de monstros... Ah, fala sério!- Kyoko, que tinha acabado de chegar, dava seu palpite na conversa.
- Pois é... Acho que esse povo está vendo TV demais pra ter esse tipo de ilusão- disse Kitsune.
- Olha quem está chegando- Kyoko disse, com ar de desdém, enquanto virava-se para a direção contrária à porta.
Rika entrou na sala de aula, cumprimentando seus novos colegas como fizera no dia anterior, e recebendo cumprimentos em troca. Estava sendo bem aceita, exceto talvez pela namorada de Sasaki-sempai e de uma ou outra amiga próxima dela. Tinha de passar por aquele grupinho para chegar a sua carteira, e por que não cumprimentar aqueles que nada tinham a ver com os ciúmes infantis de sua colega?
- Ohayo, Tsubasa-san, Inoue-san, Yuuji-san e Sakamoto-san.
- Ohayo, Tenoh-san- apenas três vozes responderam ao cumprimento.
A novata colocou suas coisas sobre a carteira, enquanto acomodava-se para mais um dia de aula. Estranho... Ryo ainda não tinha chegado. Ele sempre era um dos primeiros! Pelo menos foi o que ele comentou... Porém, nem pôde divagar muito sobre a demora de Ryo, pois um outro colega de classe estava com a mão apoiada em sua mesa, e olhava intensamente para ela enquanto arrumava os longos cabelos vermelhos:
- Você é muito boa lutando, Tenoh-san
- Estou destreinada, Sasaki-sempai... Fazia uns bons seis meses que eu nem pegava num florete!
- Mas você tem uma agilidade impressionante, sabia? E só uma coisa... Pode me chamar pelo nome.
- Anoo... domo... Akio-sempai.
O sino que marcava o início das aulas soou, o que fez com que Akio fosse se sentar em seu lugar e Rika e todos os outros se ajeitarem, para aproveitarem uma bela aula de Língua Japonesa Moderna... Pouco depois do professor entrar na sala e começar a fazer a chamada, um esbaforido Ryo abriu a porta, e quando todos os olhares da sala se dirigiram a ele, sua reação foi ficar completamente vermelho.
- Gomen, ne?
Foram as únicas e tímidas palavras que ele disse antes de sentar-se rapidamente em seu lugar, tirando a mochila que tinha nas costas rapidamente e colocando-a no chão. Ante ao olhar curioso de Rika, que sentava-se a seu lado, ele apenas disse:
- Essa é a segunda noite que passo em claro, mas valeu a pena... Acho que consegui descobrir bastante sobre aquele assunto.
- Kage-san, acho que deveria deixar assuntos paralelos para depois da aula- o professor disse, enquanto continuava a chamada.
Foi o suficiente para terminar de deixar Ryo completamente vermelho de vergonha... Nunca tinha sido repreendido por um professor antes em toda a sua vida escolar! Kyoko, em uma das primeiras carteiras, simplesmente sorriu ironicamente, enquanto comentava para ninguém em particular:
- Até mesmo fazer com que Kage-san converse na aula... Novata, você está realmente se metendo demais...
***
Seguindo o conselho do professor de Rika e Ryo, os assuntos paralelos foram deixados para depois da aula, mais precisamente para uma reunião já marcada na casa de Rika dois dias antes, para que assuntos importantes que estavam pendentes fossem resolvidos. A anfitriã guiava seu mais novo convidado pelo bairro de classe alta onde morava, enquanto esse se encantava com as mansões. Tinha passado por ali, apesar de nem ser tão longe de Juubangai assim, apenas umas duas ou três vezes em sua vida, e estava impressionado. Sabia muito bem que Rika vinha de uma família de posses, mas não imaginara tanto...
Ao finalmente entrarem na propriedade da família Tenoh, Ryo começou a sentir que seu estado de choque crescia exponencialmente a cada passo dado. Aqueles jardins enormes e lindos... As muitas plantas, flores, a fonte na frente da casa... O que era aquilo? Será que todos os fatos ocorridos nos últimos três dias eram apenas um sonho? Era o que estava parecendo... Aquela mansão que parecia ter saído de um romance, o fato de ser um Pirate Knight, as informações que tinha conseguido no visor... De um modo geral, tudo.
Os outros participantes da reunião já estavam no escritório de Rika, conversando sobre generalidades enquanto a anfitriã e Ryo não chegavam. Ishtar estava sentada em uma das poltronas e como era natural, brincava de girar as rodinhas:
- Que bom que minha aula acabou mais cedo hoje! Deu até pra vir passeando... Esse bairro é maravilhoso, essa casa então nem se fala!
- Concordo- disse Íris, espreguiçando-se e gostando do carinho que Jack, sentado ao lado, estava fazendo.
Cassie olhava por uma das janelas, enquanto seu olhar se perdia em algum ponto dos jardins da casa. Rika era uma amiga bastante amável e atenciosa, era sua melhor amiga em apenas três dias de convivência, tamanha a empatia e a afinidade que existia entre ambas. Também Sarah e Jack, com quem estava aprendendo a conviver. Simpatizara com seus novos companheiros, mesmo que só os conhecesse há três dias, estava gostando de ter finalmente, em sua vida, amigos, e conviver tão proximamente com eles. Porém, sentia falta de uma coisa, daquele que era um de seus bens mais preciosos e que Tomoe lhe tirou: sua liberdade. Como queria poder passear, ir para sua casa, colocar suas roupas! Ver gente, sair, até mesmo fazer compras no supermercado! Não podia fazer nada disso, para o seu bem e o de Storm, era bom que ficasse quieta e presa na casa de Rika.
- Uma moeda por seus pensamentos.
Um sorriso ao perceber quem tinha dito a frase: Storm. Estavam próximos na janela, olhando para algum ponto qualquer do jardim. Ele apenas perguntou, sorrindo:
- Está gostando desses dias de hospedagem?
- Claro... Como não gostar de estar aqui com uma anfitriã tão boa, com companheiros tão legais e com... com... com...- Cassie não conseguiu concluir a frase e ganhou uma coloração avermelhada nas bochechas.
- Você fica ainda mais linda quando está sem-graça!
A frase foi o suficiente para deixar Cassie ainda mais vermelha do que já estava. Rika e Ryo entraram no escritório, o que fez com que a cor das bochechas da cientista voltasse ao normal, pois a reunião começaria naquele momento. Todos os olhares se dirigiram para Ryo, que sentia a nervosia de quem nunca falara em público antes, mas que tomou coragem e deu início à primeira pauta:
- Nos últimos dois dias andei analisando meu visor e descobri coisas interessantes... Em primeiro lugar, nosso passado como guerreiros de um antigo reino e tempo chamados Milênio de Prata...
- Disso nós já sabemos- disse Ishtar, ainda brincando com a cadeira.
- Você ainda não se encontrou com Loki, o outro guardião, mas acho que isso logo vai acontecer- disse Íris.
- Mas, continuando...- Jack tentou retomar o assunto.
- Continuando, descobri nos arquivos as fichas de todos, exatamente todos os inimigos que Mercury enfrentou até hoje, inclusive aquele último. Claro que não li tudo, era muita coisa, mas só vi que existia e li sobre um ou outro... Todas as estratégias usadas em invasões e guerras também estão lá, mas como é muita coisa também nem li muito.
- Isso pode ser útil de alguma forma?- Sarah perguntou.
- Serve para comparação, pode ser que comparando dados de um inimigo atual com os antigos possamos descobrir sua origem- disse Íris.
- Isso no banco de dados... O visor tem outras funções. Pode avaliar o ponto fraco de um inimigo, como aconteceu na loja, a força e potência de um inimigo, ou mesmo de um aliado, e também fazer cálculos sobre campos de força, área, melhores lugares para se invadir algum lugar... E também radiação infravermelha. Acho que tem muito mais coisas, mas isso já é mais do que o suficiente por enquanto.
- Um ótimo banco de dados então... Excelente- disse Storm.
- Mas agora temos de tratar do último ataque- disse Jack.
- Ah sim... Tomoe anda cada vez mais ousado- disse Cassie.
- Tomoe?- Ryo perguntou.
- Tomoe Souichi, o antigo chefe de Cassie- disse Storm.
- TOMOE SOUICHI, QUÊ?
- Bom, acabei descobrindo que ele foi possuído por um demônio... Eu e Storm vimos um pouco demais e agora nossa hipótese é de que Tomoe-sensei quer nos eliminar- disse Cassie.
- Kami-sama... Até um dos maiores cientistas nacionais está nessa, o que falta mais acontecer?- Ryo estava completamente tonto.
- Mas sabem de uma coisa? Ele não tem o direito de nos prender, nos deixar como prisioneiros, roubar nossa liberdade, e ainda por cima pôr inocentes em perigo! Acho que deveríamos ir lá e tomar satisfações!- Storm disse, exaltado.
- Lá aonde?- Ishtar perguntou.
- Na base do Tomoe, aquele lugar onde estão construindo uma escola.
- E nós vamos lá na base dele, sem plano e planejamento nenhum, no território dele, e ainda em uma postura de ataque? Precisamos de um plano antes de qualquer coisa!- Sarah disse, um pouco exaltada.
- Hum... Eu precisaria da planta da base de Tomoe-sensei... Acho que com isso eu poderia localizar melhor os pontos para entrarmos. E ainda, se possível, não devemos ir em um só sentido, para evitar sermos encurralados. Já pensou se vêm uns vinte monstros do mesmo nível do último de uma vez só?
- Mas e se vierem vinte em cima de dois? É pior ainda!- disse Ishtar.
- Não necessariamente. Se você manda vinte em uma dupla só, por exemplo, gostei da idéia de duplas, os outros que sobraram estariam com espaço livre para chegarem a base.
- E se forem muito mais de vinte? Se forem centenas, ou milhares de monstros?- Jack perguntou.
- Daí estaríamos perdidos tanto individualmente quanto em grupo- disse Ryo.
- Faz sentido...- disse Storm.
- Poderíamos tentar até hoje mesmo, acho que dá para fazer a análise de melhor entrada rápido e sem a planta- disse Ryo.
- Só temos que esperar o anoitecer para sermos ocultos pelas sombras- disse Rika.
- Então temos até o anoitecer para nos prepararmos...- disse Jack, reflexivo.
- Ótimo, porque eu estou com fome! Rika-san, onde é a cozinha?- Ishtar perguntou.
- Por aqui...- Rika disse, com uma gota de suor na testa. - Bom, vamos lanchar! Confesso que também estou com fome.
Os Pirate Knights levantaram-se, preparando-se para o lanche, exceto Cassie, que continuava sentada na poltrona:
- Não vem, Cassie-chan?
- Não estou com fome, acho que comi um pouco demais no almoço...
- Também vou ficar por aqui- disse Storm, acomodando-se novamente na poltrona.
- Então fiquem à vontade, nós já voltamos- disse Rika, sorrindo, enquanto fechava a porta do escritório após sair.
Cassie pegou uma revista, que estava a seu lado, e começou a folheá- la, olhando modelos de roupas que estavam na moda. Storm aproveitou para sentar-se a seu lado, e não resistindo a uma mecha loira com as pontas enroladas que caía sobre a revista, começou a brincar com ela entre os dedos:
- Acho que finalmente teremos nossa liberdade de volta- disse Cassie, sem levantar os olhos dos modelos.
- Hai- Storm estava distraído com os fios dourados que passavam pelos seus dedos.
Cassie largou a revista, levantando o rosto e fazendo com que seus olhos verdes se encontrassem com os olhos castanhos de seu companheiro, e com que ele soltasse seu cabelo de leve:
- Estou preocupada com o que pode acontecer. E se Jack está certo e tem um exército lá dentro?
- Bom, tudo tem sua dose de risco- o olhar de Storm tornou-se sério.
- E sou fraca... Espero não atrapalhá-los e nem que suas vidas sejam postas em risco por minha causa!
Cassie encostou a cabeça no ombro de seu companheiro, procurando um pouco de conforto. A resposta veio acompanhada de uma leve carícia em seu rosto:
- Nunca atrapalhará. Você sabe muito bem que iríamos por qualquer um de nós se estivesse na mesma situação, não importando se faz só uma hora que nos conhecemos ou uma vida inteira.
Cassie sorria, enquanto tinha seu tronco levemente levantado para que ficasse reta, o que facilitaria a intenção de Storm. Os lábios do casal aproximavam-se e quando faltava um centímetro para se encontrarem...
- ESQUECI MINHA REVISTA AQUI!
"Eu não acredito...", foi o pensamento do casal que, em um segundo, foi para lados opostos do sofá. Ishtar abaixava-se, pegando a revista que estava caída displicentemente no chão, enquanto dizia:
- Vou deixar meu material no quarto da Sarah-chan, é mais fácil para pegar depois! E não posso perder essa revista de jeito nenhum, tem o endereço do fã-clube oficial do Starian, aquele conjunto que apareceu outro dia em um show de variedades por aí... Ah! Storm-kun, Ryo-kun está chamando lá fora!
- Tudo bem, vamos, Moleca Enxerida.
- Me chamou do quê?
- De nada, vamos.
Ao saírem do escritório, Ishtar não pôde deixar de fazer a pergunta que ardia em sua garganta desde que quase vira um momento muito pessoal e romântico entre os companheiros:
- Quando vai pedira Cassie-chan em casamento?
- Cala a boca. Eu não me meto na sua vida e você não se mete na minha, certo?
Storm, rispidamente ,apressou as passadas em direção à copa, enquanto Ishtar, um pouco atrás, dava de ombros. Que mau humor! Ela não tinha dito nada de mais! Não precisava descontar todas as suas frustrações nela! Não era saco de pancadas, longe disso, podia ser confundida no máximo com uma deusa do amor!
***
A primeira estrela da noite, Vênus, despontava nos céus de Tóquio. Junto dela, a Lua, em todo seu esplendor, e também as outras estrelas que começavam a surgir. Rika, em uma das janelas de sua casa, olhava para o grande astro noturno, enquanto seus lábios proclamavam uma frase um tanto óbvia:
- É noite...
- É a nossa hora. Vamos!- Storm disse, animando os companheiros.
Os sete Pirate Knights levantaram-se das poltronas onde estiveram sentados nos últimos minutos, onde trocaram algumas idéias sobre o plano. Rika comentou calmamente, enquanto arrumava o casaco do uniforme escolar:
- É uma pena termos que perder tempo para irmos até a rua...
Pouco depois, estavam fora da propriedade da família Tenoh, e após andarem alguns metros, estavam fora do alcance de olhares curiosos em uma rua entre dois quarteirões que não passavam de muros. Storm pegou o pingente que trazia no pescoço, e disse com determinação:
- Poder de Júpiter... VENHA A MIM!
A frase foi repetida por mais seis pessoas, apenas com modificações no planeta a ser invocado, iniciando uma pequena cena de transformações. Após seu término, Íris disse:
- Antes de qualquer coisa, tenho que dar um presentinho para cada um de vocês. Eles fizeram falta no caso da loja e acho que as coisas serão mais práticas com esse tipo de tecnologia...
O símbolo em forma de crescente da gata começou a emitir um forte brilho e sete objetos que lembravam relógios caíram no chão, próximos a ela. Todos eram pretos e tinham um marcador de horas, mas não eram relógios. Íris explicava, enquanto cada Pirate Knight pegava aquele que tinha o símbolo de seu planeta no lado oposto ao do marcador, que ficava em contato com a pele:
- Esses objetos são comunicadores e o próprio nome já diz para que servem. Além de possuírem toda a configuração de um relógio digital comum, pode mandar mensagens de voz para todos os outros companheiros. Isso evitará que certos felinos tenham que pôr os pulmões para fora para avisarem a companheiros distantes que está acontecendo algum problema a tempo...
- Mas agora... Para que lado viramos para irmos ao encontro de Tomoe?- Saturn perguntou.
- Acho que não precisaremos ir correndo pela rua... Lembram-se do aeroporto? Podemos ir pulando pelos muros e telhados e ainda por cima correndo muito mais rápido do que em nossas formas normais! - Uranus disse.
- Pelos telhados?- Mercury estava espantado.
- E por que não?- Jupiter disse, enquanto pegava impulso para pular no muro à sua frente.
Pouco depois, os Pirate Knights e Íris que ia nos ombros de Venus, pulavam e corriam rapidamente pelos telhados de Tóquio, até que, depois de atravessarem muitos quarteirões, ruas e bairros, chegaram a um prédio em construção. Mercury invocou seu visor e após digitar alguns dados anunciou:
- Não está protegida por nenhum campo de força, o que permite que entremos.
- O problema é entrar aonde e por onde...- disse Neptune, enquanto passava os olhos pelo terreno.
Enquanto os Pirate Knights observavam o terreno e discutiam por onde podiam entrar, um par de olhos de gato de abriram, ocultos pelas sombras da construção. Fora uma boa idéia ter seguido o poder, pela primeira vez estava vendo aqueles que povoaram as histórias de sua infância e adolescência e ainda pro cima em ação! Mas o que estavam fazendo ali, o que os tinha atraído para aquele lugar? Tinha que continuar observando, oculta pelas sombras, o que eles fariam...
- A entrada para o subsolo é ali- disse Mercury apontando para um ponto da construção.
- Então vamos...- Jupiter disse.
- ...e que Serenity esteja conosco- disse Íris, calmamente.
A escuridão era absoluta a partir da abertura, o que fez com que Venus concentrasse um pouco de luz em seus dedos esquerdos para que o caminho fosse iluminado, gesto imitado por Jupiter. Os corredores mórbidos daquele lugar ainda estavam vivos na mente de Pluto, que disse:
- Lembro-me bem desse lugar, e posso levá-los até a base. E lembram- se do que falamos sobre divisão do grupo? Será desnecessário aqui, vamos todos juntos.
Como poderia esquecer o horror que passara ao entrar naquele lugar pela primeira vez? Não apenas o horror natural que as paredes mórbidas e escuras, onde o som de alguma coisa que passava por grandes tubulações era a única coisa que se ouvia, mas também o de descobrir que coisas completamente fora da lógica estavam acontecendo... Além de que fora naquele dia que conhecera alguém que mexeria bastante com seu coração...
Mercury estava com o visor convertido para a detecção de radiação infravermelha, porém... Estava chegando a uma conclusão interessante, e assustadora:
- Não tem nada vivo nesse lugar!
- Mas e isso lá é ruim? Já imaginou se tivessem mesmo vinte monstros iguais ao da loja?- Venus estava espantada. Por que era ruim não haver nada vivo no caminho?
- É que na pior das hipóteses, caímos em uma armadilha- disse Neptune.
- Será que nosso plano deu tão errado assim?
Pluto olhava novamente para a sala onde havia um trono vazio e uma máquina que processava alguma coisa, enquanto um calafrio percorria sua espinha. Estava ali novamente... A sala era a mesma e estava vazia da mesma maneira, porém não sentia tanto medo quanto da primeira vez que estivera ali. A presença dos companheiros a confortava e sentia segurança até mesmo para enfrentar Tomoe-sensei, ou melhor, o demônio que o dominara.
- Olhem... Aquela sala está acesa, deve ser ali a base- disse Saturn, apontando para um lado onde havia um pouco de luz.
Todo o grupo seguiu para um local onde havia uma porta, e que por ela vinha a luz. Ao abri-la, deram de cara com uma longa escadaria, onde na parte de cima havia outra porta, que levava a uma sala iluminada. Os degraus foram atravessados rapidamente, mas houve uma hesitação quando chegaram junto à porta. Mercury aproximou-se, e depois de sua análise, disse:
- Tem gente lá dentro...
- É agora ou nunca!- Saturn disse, enquanto conjurava sua alabarda.
- É hora...- Jupiter disse, enquanto entrava na sala.
Pouco adiante da porta, um cientista cujas lentes dos óculos refletiam a luz, gargalhava enquanto misturava substâncias contidas em dois tubos de ensaio. Sua substância nutritiva estava quase pronta, faltava apenas a dose certa de mais um ingrediente para que suas criaturas pudessem ser mantidas vivas até que a época do plano ser posto em prática chegasse!
- Tomoe-sensei...
- O que foi, Kaolinite-kun? Já disse para não me interromper!
Quando o cientista se virou, percebeu que a poucos metros de seu rosto estava uma alabarda e que sete figuras o observavam com expressões sérias. A pergunta era óbvia, porém necessária: - Quem são vocês?
- Os defensores do Sistema Solar, Pirate Knights! Mas não viemos aqui para nos apresentar, Tomoe-sensei- Jupiter deu uma ênfase especial à última palavra.
- Temos um assunto a tratar com o senhor...- disse Pluto.
- Assunto? Não trato assunto nenhum com um bando de adolescentes desordeiros com fantasias.
- Acho que temos de ser mais enfáticos... Venus, por favor- disse Jupiter.
Venus deu um passo a frente, enquanto Jupiter apontava para alguns tanques que continham um líquido avermelhado em seu interior.
- Eve star beam!
O raio serviu para que os tanques de vidro quebrassem e todo o líquido que continham esparramar-se pelo chão, o que enfureceu o cientista possuído.
- Vândalos, vão pagar por isso!
Antes que Tomoe se mexesse, Saturn aproximou mais sua alabarda, o que impedia que o cientista tentasse qualquer movimento. Neptune tomou a palavra:
- Nós é que somos os vândalos? E quem aqui mandou um exército de monstros para um aeroporto, além dos isolados em lugares específicos?
- E você acha que sou um guru para saber, mocinha?
- Não se faça de cínico, isso só pode ser obra do senhor!- Pluto disse.
- E o que eu ganharia com isso? Ou acham que sou um terroristazinho amador que quer fazer bagunça e chamar atenção? Se estou fazendo um trabalho a longo prazo quero tudo, menos atenção!
Ele estava certo, pensou Mercury. Aparentemente, não havia nenhum monstro por ali e se o cientista quisesse reagir ou destruí-los, já o teria feito, não seria a alabarda de Saturn que o impediria. A sensação que tinha, e também todo o grupo, era a de que tinham seguido uma pista errada e agora estavam nas mãos de Tomoe, que por sorte não parecia com muita vontade de brigar:
- Não temos nada a ver com o que está fazendo aqui e planejando, assim como você não tem a ver com nossos planos e inimigos. Queria pedir um favor em troca do nosso silêncio e mesmo da nossa vista grossa. Deixe Beckham-san em paz, tire a acusação de sequestro- disse Jupiter.
- E o que vocês tem a ver com isso?
- Temos muito a ver- disse Pluto, um pouco alterada.
- Acho que entendo... Ela escolheu seu lado então. Se é isso o que ela quer, será o que terá.
- Era isso então... E se não se meterem no nosso caminho, não nos meteremos no seu- disse Jupiter, se virando.
Tomoe apenas observava, sem reagir, o grupo de jovens que saía literalmente correndo da sua sala. Era o que faltava, um bando de jovens arruaceiros para atrapalharem toda a articulação para trazer o Silêncio ao mundo, mas não custava fazer a vontade deles e deixá-los ir. Para que se importar com idiotas fantasiados, ainda mais quando seu Mestre despertasse?
Já do lado de fora da construção, uma vez que tinham saído o mais rápido possível com medo de uma possível represália, os Pirate Knights paravam para tomar um ar e também para conversar um pouco sobre o que tinha acontecido. Se não era obra de Tomoe, quem estava fazendo com que os monstros atacassem? Porém, o maior problema nem era esse. Tiveram sorte por o cientista não ter feito nada contra eles, mas e se na perseguição de alguém ou alguma coisa, acabassem em uma cilada da qual não pudessem sair e fossem mortos, simplesmente por descuido?
- Falta de uma maior investigação foi uma falha que não podemos repetir- disse Uranus, encarando o chão.
- Sim... Investigaremos melhor da próxima vez para evitarmos maiores erros e problemas- disse Jupiter, também encarando o chão. Sentia-se um tanto culpado pelo acontecido.
- Só espero que Tomoe-sensei cumpra a promessa- Pluto também evitava olhar para o grupo.
- Não precisam ficar desse jeito, esse tipo de coisa acontece mesmo. O que não podemos é repetir o erro- disse Saturn.
- Mesmo que por um caminho tortuoso, pelo menos agora sabemos de uma coisa: Tomoe-sensei não tem nada a ver com esses monstros, logo... quem é o responsável?- Mercury perguntou.
- Será que é uma invasão intergaláctica?- Venus arriscou.
- Provavelmente não, invasões intergalácticas geralmente obedecem outras estratégias. Por exemplo, eles não atacariam a população civil como esses monstros fizeram- disse Íris.
- Então... O que pode ser?- Saturn perguntou.
- Temos um grande problema aqui... Não sabemos quem está por trás disso e nem temos alguma pista!- Neptune comentou.
- O jeito é esperar que essas pistas apareçam- disse Uranus.
- Apesar de que monstros que simplesmente se desfazem após a morte não são nada normais... Aliás, isso não existe, pelo menos não nesse mundo!- Pluto disse.
- Mas Íris acabou de dizer que não é uma invasão intergaláctica- disse Venus.
- Pode até ser uma espécie desse planeta, mas nunca nenhum cientista registrou nada parecido. Nem a forma, nem o que acontece quando é morto e nem os traços de inteligência e mesmo fala...- disse Pluto.
- Acho que não temos mais nada para fazer aqui, vamos para casa- disse Jupiter, olhando para os prédios ao redor.
O grupo tomou um impulso e foi pulando pelos telhados, deixando as construções que escondiam o laboratório secreto de Tomoe ficavam cada vez mais para trás, para serem esquecidas porque não diziam respeito a eles. Cometeram um erro que não poderia ser repetido, mas lutariam o mais que pudessem para que não fosse e certamente haveria uma certa investigação e mais pistas antes de tomarem alguma decisão.
Enquanto isso, um par de olhos de gato piscava devagar, enquanto as informações eram absorvidas e processadas. Então queria dizer que eles não sabiam quem estavam enfrentando e nem tinham nenhuma pista que os fizesse descobrir? Ótimo! Isso poderia ser bom para seus futuros planos... É mais difícil lutar quando não se sabe o que se enfrenta, não pôde deixar de pensar. E seria essa a sua tática, apesar de que precisava de um bom plano primeiro... Uma pequena risadinha soou antes que a serva do Castelo da Escuridão teleportasse-se para onde era o portal que a levaria para casa.
***
- E estamos aqui na entrevista coletiva que o cientista Tomoe Souichi convocou, e ouviremos agora o que ele tem para falar.
- ...apesar da mobilização que convoquei, inclusive da polícia, para o possível sequestro de Beckham-san, recebi notícias de que ela está na Inglaterra para resolver assuntos pessoais, sem avisar ao próprio chefe apesar da tragédia que nos abateu. Provavelmente devido à sua pouca idade ela não ponderou muito sobre conseqüências... Estou retirando a queixa e anunciando também a sua demissão da equipe de cientistas das corporações Tomoe.
- Então está resolvido o caso da jovem cientista Beckham Cassandra e tudo não passou de um mal-entendido. Shidou Hikaru, do centro de convenções de Tóquio para o Jornal da ZFR.
Rika desligava a televisão, a notícia que esperavam já tinha sido dada. Bom, pelo menos Tomoe cumprira a promessa... Mas Cassie teve de pagar um preço sobre sua escolha: estava sem emprego e provavelmente depois de ser taxada como irresponsável teria uma certa dificuldade para conseguir uma nova contratação. Porém, o principal ela tinha conseguido: estava livre!
- Pelo menos aquela confusão toda de ontem à noite serviu para alguma coisa- disse Storm.
- Não podemos negar que Tomoe-sensei cumpriu a promessa- disse Ryo.
- Temos um problema a menos- disse Sarah.
- Eu gostaria de oferecer um belo jantar essa noite, em comemoração ao que aconteceu! Mas acho que cabe a Cassie-chan decidir- disse Rika.
- Eu quero mesmo é rever minha casa, estou com saudades! Adorei minha estadia aqui, mas está na hora de ir embora! Estou com saudades da minha cama, das minhas roupas... Rika-chan, adorei estar aqui, você é uma anfitriã e tanto, mas quero ir para casa...
- Entendo, Cassie-chan- disse Rika, sorrindo.
- O jantar fica para uma próxima ocasião- disse Cassie, também sorrindo.
- Hum... mas eu estou com fome. Sempre que anoitece eu tenho fome- disse Ishtar, olhando para o céu.
- Daqui a pouco fazemos um jantar só para nós- disse Rika, séria e com algumas gotas na testa. Ishtar só pensava em comer por um acaso?
- Com licença, tenho que arrumar minhas coisas- disse Cassie saindo da sala.
- Acho que nós também não poderemos ficar aqui para sempre. Tenho que ver minha transferência para a Toudai e procurar um apartamento- disse Jack.
- Sarah, você gostaria de ficar aqui? Assim eu não me sentiria sozinha e você teria um lugar bastante confortável para ficar- disse Rika.
- Mas eu fico sem jeito de morar assim!
- Não precisa ficar, ué! Acho que apesar do pouco tempo juntas já somos amigas!
- Amigas...- Sarah disse baixinho. Nunca tivera uma amiga antes...
- Storm, você aceita dividir um apartamento? Você também não tem para onde ir.
- Eu adoraria, Jack, mas não tenho como pagar... Tenho que arranjar um emprego primeiro, não acha?
- Quanto a isso, não se preocupe. Você será contratado pelas Organizações Tenoh, para alguma colocação em alguma empresa- disse Rika, sorrindo.
Storm olhou para Rika espantado. Ela... lhe daria um emprego honesto? Era melhor do que poderia imaginar! Poderia finalmente trabalhar honestamente!
- Não sei como agradecer...
- Então não agradeça- disse Rika, sorrindo.
Pouco depois, Cassie voltava com uma pequena mochila nas costas. Tinha precisado comprar uma ou outra peças de roupa durante sua estadia fora de casa, mas nada que pudesse substituir as roupas que tinha em casa, e que queria vestir. Após os cumprimentos de despedida, Cassie disse:
- Não é muito tarde, mas eu não gostaria de ir sozinha para casa. Alguém me acompanha?
- Eu me ofere... AI! - Ishtar já ia falando, mas Sarah a beliscou antes que concluísse a frase.
- Eu te acompanho. Não precisa carregar sua mochila, eu levo para você- disse Storm, levantando-se.
- Então vamos- disse Cassie, sorrindo.
Storm passou o braço pelo ombro da companheira, enquanto saíam da sala observados pelos companheiros. Rika, Sarah, Jack e Ryo trocavam sorrisos, como quem dizia que certamente teriam novidades no dia seguinte, enquanto Ishtar não estava entendendo direito o que estava acontecendo. Por que Cassie-chan preferira que Storm-kun a levasse? Que coisa, estava se sentindo isolada! E qual o motivo daqueles sorrisos bestas nos seus companheiros?
***
Um prédio residencial em Juuban, residência de pessoas de classe média-alta. Era difícil arranjar apartamentos tão grandes em Tóquio... Três quartos, uma sala grande, cozinha espaçosa... O casal de ingleses conseguira um excelente negócio se mudando para esse prédio quando chegaram ao Japão, coisa de vinte anos antes. A filha desse casal tinha um belo patrimônio, tinha recebido uma boa herança, como podia ser observado no apartamento. Porém, isso não fora o suficiente para garantir sua felicidade e mesmo sua integração com outras pessoas.
O porteiro cumprimentava a jovem moradora, andara preocupado com o que vira no jornal, e declarava-se aliviado por não ter acontecido nada demais. Cassie, porém, estava ansiosa para ir para casa, e foi o que aconteceu depois de alguns poucos minutos de conversa. Ao abrir a porta, nem se importou em estar ao lado de Storm: tirou os sapatos e entrou correndo, mergulhando no sofá e rindo:
- Estava com saudades daqui, pensei que nunca mais veria minha casa outra vez!
Storm sorria, enquanto tirava os sapatos para entrar. Sim... Ela parecia mesmo estar feliz em voltar! E sentia uma leve inveja dessa felicidade... Queria ter um lugar para voltar, também, um lugar para sentir saudades. Não que não sentisse de sua família, mas sabia que nunca seria recebido novamente por eles, mesmo se tivesse oportunidade de voltar para Santos. Cérebro, também. Não pudera fazer nada por ele e tinha certeza que já era tarde demais. Só não iria se lamentar toda vida pelo inevitável...
- Nossa, mas que bagunça! Você vai pensar que sou uma desorganizada- disse Cassie, enquanto pegava um ou outro livro que estavam no chão.
- De jeito nenhum. Sua casa é bem arrumada para a de uma garota da sua idade que vive sozinha.
- Acha mesmo? Obrigada, então!
Cassie andava de um lado para o outro, primeiro levando um livro, depois levando sua mochila para dentro... De repente, parou como se tivesse lembrado de algo muito importante:
- O Sweet Joe!
- Quem é esse?
- Meu peixe de estimação que... que... que...- ela olhava fixamente para o aquário, onde o corpo sem vida de seu peixe boiava. - ...morreu...
A alegria de outrora desapareceu em um instante, enquanto uma expressão de choque estampava-se no rosto da jovem. Aquele que fora seu companheiro por tanto tempo tinha a deixado! Sabia tanto que a vida é efêmera quanto que seu peixe, apesar da alegria e conforto que a dava, nunca sequer suspeitara de sua existência, mas sofria:
- Ele era meu único amigo...
Uma pequena lágrima rolava por seu rosto, lágrima essa que parou em uma mão que acariciava seu rosto e não deixava que mais lágrimas caíssem. Sentia que estava sendo envolvida por braços fortes e que os lábios do dono desses braços encostavam-se nos seus. Sentia também a língua dele e isso era... estranho, mas depois foi se tornando tão gostoso! Nunca tinha beijado antes e estava adorando a sensação! Porém... ele se afastou...
- Desculpe, eu não resisti, mas prometo que não vai se repetir mais...- Storm estava um tanto encabulado.
- Não precisa pedir desculpas...
Agora era a vez das mãos delicadas da garota passearem pelo rosto do jovem devagar, com o máximo de carinho que podia dar. Passeavam também pelos cabelos castanho-escuros que caíam levemente sobre seus olhos, mas para tirá-los dali. Os olhos castanhos liam a vontade dos olhos verdes em sua frente e não demorou mais do que poucos instantes para que esses olhos se fechassem para um novo beijo...
Um casal nascia naquele dia, porém não seria exagero dizer que demorara. Ambos haviam se apaixonado assim que colocaram os olhos um no outro e era o sentimento mais profundo de qualquer um que já tivessem sentido. Não estavam mais sós, agora teriam alguém para compartilhar tanto sentimentos quanto sensações, tanto pensamentos quanto o próprio corpo... Eram mais do que amigos ou mesmo amantes... Tinham se encontrado e, se não houvesse nenhum acidente de percurso, ficariam juntos para toda a eternidade, a partir daquele momento.
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O que está achando do meu texto? Sua opinião é importante para mim! mis9_fics@hotmail.com
Um cansativo dia de aulas chegava ao fim. Após o sino que marcava o início e o fim das aulas soar, milhares de estudantes tomavam as ruas de Tóquio, prontos para irem para casa. Em uma escola específica, localizada no bairro Juuban, alguns alunos aproximavam-se da carteira de uma garota em especial: uma novata, que chegara na cidade no dia anterior e já começara a estudar. Essa garota sorria simpaticamente a cada pergunta feita, e a respondia prontamente. Lógico que o que estava havendo era a reação de curiosidade provocada por uma novidade, mas até que não era ruim ser o centro das atenções...
Em uma parede, próxima a uma janela, uma garota com os cabelos loiros presos em duas tranças olhava para a cena com uma expressão de desdém. Uma colega veio ver o que estava acontecendo:
- O que foi, Kyoko-chan?
- Nada... Apenas não gostei dessa novata...
Rika arrumava suas coisas em uma bolsa, para deixar os livros em seu armário, no corredor abaixo das salas. Seus colegas a acompanhavam, enquanto aproveitavam para continuar a conversa. Akio tirou os livros da mão da novata:
- Não precisa carregar peso, Tenoh-san, levo seus livros para você.
- Obrigada, Sasaki-sempai...
Uma colega cochichava maliciosamente com outra, enquanto o grupo andava até o corredor dos armários:
- Não me lembro de Sasaki-san levar os livros para Kyoko-chan uma única vez desde que começaram a namorar!
- E ele leva os livros da novata... muito estranho!
Após Rika colocar seus livros em seu novo armário, disse, sorrindo:
- Domo arigatou, Sasaki-sempai!
- Não precisa agradecer...
O líder do clube de esgrima afastou-se da roda que se formava em torno da novata, andando calmamente pelo corredor sem dar as costas para o grupo. Estava na hora de Rika ir para casa, iria a pé porque queria registrar o percurso. Virada para a rodinha que se formava, disse:
- Olhem, tenho que ir, senão as pessoas que me esperam ficarão preocupadas, portanto... ja ne, minna-san!
- Ja ne, Tenoh-san...
Rika saía da escola com sua bolsa, enquanto seus novos colegas cochichavam sobre sua presença. Naturalmente, os fofoqueiros de plantão já haviam contado para Kyoko o acontecido com os livros. Quando a novata atravessava os portões da escola, sentiu uma mão no seu braço, que por reflexo tirou:
- Sakamoto-san, o que foi?
- Não gosto de você.
- Calma, não sou nenhuma assassina francesa com a missão de exterminar uma garota desmemoriada, não precisa ter medo!
- Só te darei um conselho: fique longe de Akio...
A loira deu as costas para Rika, sem esperar uma resposta, enquanto a novata olhava para a frente, sem entender muito bem o que tinha acontecido. Bom... não esperava mesmo ser amiga de todos, mas ganhar uma inimizade de cara não era a melhor coisa que poderia lhe acontecer...
As ruas estavam cheias, devido ao número de alunos que saiam de sua escola e de outras pelas redondezas, inclusive fliperamas e cafés estavam cheios a essa hora... Estava na frente de um tal Crown Game Center, que lhe parecia interessante, embora não estivesse com tempo. Ouviu que alguém gritava seu nome: - Tenoh-san, espere!
- O que foi, Kage-san?
- Você esqueceu seu livro na carteira!- O garoto estava esbaforido, devido ao esforço.
- Obrigada, Kage-san!
- Que é isso, Tenoh-san... - Posso pedir um favor? Já que ficamos amigos, por que não me chama pelo nome?
- Só se me chamar pelo meu, Rika-chan.
- Tudo bem, Ryo-kun!
Os novos amigos trocaram algumas risadinhas, antes de continuarem o trajeto. Rika não pôde deixar de dizer:
- Esse bairro é tão tranquilo...
- Não temos muitos problemas aqui em Juubangai, na verdade ultimamente não andamos tendo muitos problemas na cidade toda. Mas você viu o que aconteceu ontem, ficou sabendo? Atacaram o aeroporto, não se sabe ainda exatamente quem, o que queriam e como fizeram, mas especula-se que seja obra de algum grupo nacionalista radical. Porém eu vi em um tablóide que testemunhas afirmam que foi um ataque de monstros, e que uns tais de Pirate Knights os salvaram... você acredita nisso?
- Eh, bien...- Rika simplesmente deu um sorrisinho de vergonha.
- Já imaginou se existisse mesmo um grupo como descreveram no jornal?
Rika simplesmente sorriu novamente, enquanto andavam pela rua, já um pouco mais calma. Era um bairro residencial, mas havia algumas pequenas lojas pela calçada. O jovem estudante não resistiu aos apelos provocados pela vitrine de uma livraria e parou para ver o que se vendia, animado:
- Olha só, encadernação de luxo de "Vinte Mil Léguas Submarinas" de Júlio Verne! Eu tenho que comprar esse livro, é o que falta na minha coleção!
Rika sorria, enquanto também olhava para os livros, procurando por algum que a atraísse, juntamente com Ryo. Porém, os dois jovens foram surpreendidos pelo barulho de uma vidraça que quebrava, em uma loja próxima:
- O que foi isso?- Rika perguntou, virando-se para a direção de onde o barulho tinha vindo.
- SOCORRO!
Algumas pessoas subiam a rua correndo, saindo da loja aonde a vidraça da vitrine tinha sido quebrada. Uma pequena vozinha no interior da mente de Rika atentava que havia alguma coisa errada que deveria ser investigada, mas e Ryo? E o juramento de não contar a ninguém sobre ser uma Pirate Knight? Era melhor esperar e ver o que estava acontecendo:
- Ryo-kun, vamos chegar mais perto e ver o que está acontecendo!
Os dois adolescentes foram andando despistadamente, e se esconderam atrás de uma grande árvore, de onde poderiam ver tudo o que aconteceria na loja sem serem vistos. Na loja, a situação era crítica. A maioria dos clientes e vendedores tinha saído correndo, mas alguns não tiveram a mesma sorte e tiveram sua energia drenada até a morte. Rika sentiu um enorme peso por não poder fazer nada, mas certamente mesmo estando transformada não poderia impedir que civis inocentes perdessem a vida...
Gricktick fazia o trabalho para qual havia sido designado com calma e paciência... Afinal de contas, não tinha nenhum Pirate Knight enxerido para atrapalhar, tinha todo o tempo que desejasse. Mas como nunca é bom contar demais co ma sorte, a porta da loja se abriu, e a figura de uma garota, de pernas abertas e mãos na cintura, acompanhada de um gato, surgiu:
- Prepare-se para encrenca, encrenca em dobro! Para proteger o mundo da devastação... Para unir as pessoas da nossa nação... Para denunciar os males da verdade e do amor... Para levar nosso poder às estrelas! Venus Pirate Knight decolando na velocidade da luz! Renda-se agora ou prepare-se para lutar!
- PELO AMOR DE SERENITY, ESSE NÃO É SEU LEMA VENUS PIRATE KNIGHT! - A gata esbravejou.
- Era pra você dizer "é isso aí!"... - disse Venus com o dedinho na boca e orelhinhas de gato, em SD.
- ATAQUE LOGO ESSE MONSTRO E VAMOS EMBORA ANTES QUE VOCÊ ME MATE DE VERGONHA!
- Tá bom...- o Venus Whip apareceu nas mãos da amazona, já que tinha sido invocado - Venus Whip... Attack!
Enquanto Venus fazia poses e mais poses com o chicote, levou um escorregão e caiu sentada no chão, o que fez Íris querer nunca ter se candidatado a conselheira de Serenity para não passar uma situação tão humilhante e também fazendo Gricktick ganhar uma coleção de gotas de suor na testa.
- Ai meu bumbum...- disse Venus, enquanto se massageava.
- Venus... ESQUEÇA ESSA NINHARIA E VAI ATACAR O MONSTRO!- Berrou a gata enfurecida.
- Meu bumbum não é ninharia, o que quer que essa palavra signifique! E você está sendo má comigo, BUAAAAAAAAA!!!
- Kami-sama, o que eu fiz para merecer isso...- disse Íris, olhando para o céu.
Gricktick, que estava assistindo toda a cena, estava achando a amazona de Vênus um tanto engraçada! Por que seus mestres disseram que os Pirate Knights eram perigosos? Essa garota parecia inofensiva! Venus levantou-se e voltou para a posição em que estava quando entrou na loja:
- Aham... onde é que eu estava mesmo? Ah é... Prepare-se para...
- NÃO PRECISA REPETIR ESSE RAIO DE LEMA QUE NEM SEU É!- Esbravejou Íris.
- Então vamos direto ao que interessa! Venus whip... (ai meu bumbum!) attack!!!
Gricktick parou o chicote no braço e lançou-o para frente, o que fez com que Venus fosse lançada contra um cabide cheio de roupas e acabou desmaiando entre os vestidos de festa. Íris só teve a reação de sair correndo, tinha de avisar para os outros o que estava acontecendo! Por que o destino a fez gata, ao invés de ser metamorfa como Loki? Agora tinha de correr o mais que podia até a casa de Rika!
O servo do castelo da escuridão aproximava-se da amazona desmaiada, afinal era a chance que tinha para matá-la, cumprindo as ordens que tinha. Uma forte pancada em um certo ponto do pescoço serviria... Ela nem perceberia quando estivesse agonizando...
O som de um estalar de dedos fez com que o servo se virasse para a porta da loja. Duas figuras estavam lá: de um lado, uma garota de longos cabelos negros, vestida com um uniforme semelhante ao de Venus, porém verde- água; com o braço paralelo ao corpo e com a mão em uma posição que denunciava que ela acabara de estalar os dedos. Com suas costas apoiadas nas costas de sua companheira, do outro lado, estava um cavaleiro de uniforme roxo, segurando uma alarbada, numa posição que mostrava que estava pronto para atacar. Para completar, uma rajada de vento, que carregava algumas folhas verdes, abriu a porta da loja no mesmo instante em que o servo olhava para tentar descobrir o que estava acontecendo:
- Deixe essa loja e essa cidade em paz, AGORA!- Neptune disse, com o tom de voz mais imperativo que conseguiu.
- Pirate Knights... matar!
O monstro concentrava duas esferas de energia, uma em cada mão, enquanto Neptune conjurava sue bumerangue e os cavaleiros observavam para saberem o momento certo de agir:
- Não me parece muito inteligente...- disse Neptune. - Não é bom afirmarmos alguma coisa sem antes sabermos o que ele pode fazer - foi a resposta de Saturn.
- Neptune Boomerang... action!
Neptune lançou seu bumerangue, tentando atingir o monstro antes que ele atacasse, porém ele foi mais rápido e desviou o bumerangue, lançando uma das esferas de energia que concentrava contra a amazona numa velocidade maior do que a de sua própria arma. O impacto com a esfera fez com que a amazona de Netuno fosse lançada contra a vitrine e perdesse os sentidos, ficando fora de combate.
Saturn pôde apenas observar a cena, e uma grande raiva começou a consumi-lo quando viu o que tinha acontecido com sua companheira. A sua única reação foi pronunciar, enquanto girava sua alabarda:
- Silent Glaive... attack!
- Dark barrier!
A defesa do monstro, que criou uma pequena barreira de energia a seu redor, foi completamente inesperada para Saturn, que apenas pôde surpreender-se enquanto tentava, novamente sem sucesso, aplicar um golpe em seu adversário. A alabarda sempre ia de encontro à barreira de energia, até que Saturn começou a perceber que no ponto onde sempre tentava atingir sue adversário, uma falha começava a se pronunciar. Se usasse um pouco mais de força, a barreira seria rompida! Concentrou-se, o mais que podia, afinal de contas, aquela era a sua chance e não podia desperdiçá-la, tinha que ser seu melhor ataque!
- Silent Glaive... ATTACK!
Havia sido realmente o ataque mais perfeito do saturniano, e serviu não só para romper a esfera de energia quanto para destruí-la completamente. O cavaleiro cometeu apenas um erro, o que determinou os fatos que ocorreriam a seguir: deixou sua guarda aberta. Foi o suficiente para Gricktick, também no máximo de sua força, acertar um soco no estômago de seu oponente, que ajoelhou pela falta de ar, no tempo de levar um safanão que o mandou de encontro a uma parede do lado oposto a onde estava.
Rika, no seu esconderijo atrás do muro, deu um pulo de espanto. Tinha suportado quieta Venus ter sido posta para escanteio, tinha ficado quieta quando Neptune fora desacordada, mas não deixaria três companheiros seus sozinhos se estavam em perigo! Sabia dos riscos de Ryo saber de sua identidade, sabia que ele podia até mesmo estar do lado do inimigo, sabia que poderia estar condenando a vida do colega naquele instante, mas não tinha jeito, a vida de seus companheiros era mais importante do que qualquer protocolo!
- Ryo-kun, você seria capaz de guardar um segredo?- O tom de voz da jovem era ansioso e um tanto nervoso.
- Claro que sim, Rika-chan, mas...
- Você está preparado para mudar radicalmente sua visão de mundo nesse momento? Descobrir que o impossível de vez em quando acontece?
- Mas do que você está falando, Rika-chan?
- Disso...- Rika agarrou seu pingente, gritando. - PODER DE URANO, VENHA A MIM!
Ryo nunca estivera tão surpreso em toda a sua vida. Primeiro, uma garota nova entrava na escola. Depois, ela tornava-se sua amiga. E por último, ela era uma guerreira e estava transformando-se na sua frente! No mínimo andava lendo ficção científica demais e estava tendo delírios, só podia...
- Fique desse lado da rua, aqui estará seguro, Ryo-kun!- Uranus disse, enquanto pulava para chegar na loja.
Gricktick estava parado no ponto em que atacara Saturn, afinal de contas, estava indeciso. Três Pirate Knights para matar, qual iria primeiro? As damas ou o guerreiro ousado? Dúvida cruel essa... O guerreiro ousado, isso! Enquanto andava na direção de Saturn, foi surpreendido pelo som do vidro que quebrava, enquanto Uranus atravessava uma vitrine:
- Deixe-os em paz... Deixe toda a cidade em paz... AGORA!
- Não gosta de lemas, como sua companheira?
- Não vim aqui para discutir isso. GALACTIC... - Uma esfera de energia cor-de-rosa era concentrada sobre a cabeça de Uranus - QUAKE!
A esfera de energia, quando lançada ao chão, provocou um terremoto, que fez com que Gricktick caísse no chão por alguns instantes, mas não o impediu de levantar, e tentar acertar um soco em Uranus. A amazona, por sua vez, desviou, enquanto acertava um chute no rosto de seu adversário. O ataque definitivamente era físico, e agora, Uranus tentava acertar ganchos de direita e esquerda, prontamente bloqueados, enquanto bloqueava ganchos e uma cabeçada. Os adversários estavam em equilíbrio, cada golpe era bloqueado e nenhum avanço era feito, o que podiam fazer eram esperar que um dos dois abaixasse a guarda...
Ryo assistia, imóvel, tudo o que acontecia dentro da loja, porém, a curiosidade começou a consumi-lo. Por que não chegar mais perto, podia estar protegido mais de perto... e ver tudo com os mínimos detalhes! Foi esgueirando-se, até parar pouco abaixo da vitrine recém-quebrada, onde podia assistir de camarote tudo, absolutamente tudo o que acontecia na loja.
As primeiras coisas que o garoto curioso pôde ver, de onde estava localizado, foram duas figuras correndo, muito mais rápido do que uma pessoa comum, para a loja. Podia ver que uma dessas figuras vestia verde, e a outra, preto. Além disso, a figura de preto segurava alguma coisa que parecia um gato...
Uranus e Gricktick estavam completamente equilibrados. O máximo que tinham conseguido foi acertar um ou dois socos um no outro, mas nada que pudesse por si só ganhar a luta. A amazona pôde apenas exclamar, quando percebeu que Pluto e Jupiter tinham entrado na loja:
- Estão atrasados!- Disse ela desviando de um soco.
- Viemos assim que pudemos- disse Pluto, enquanto corria para o meio dos cabides para socorrer a desacordada Venus.
Jupiter, por sua vez, corria para verificar a pulsação e respiração de Saturn, caído pouco adiante. Gricktick percebeu que por um momento o olhar de Uranus se perdeu na observação das ações de seu companheiro, e aquela foi a chance que precisava. Não para atacá-la, mas para mudar um pouco de estratégia...
Pluto sentiu que tinha uma sombra atrás de si, e ao virar, apenas viu de relance a forte mão que a acertava, fazendo-a desmaiar. Enquanto o monstro preparava mais um golpe, Uranus aproximou-se, para salvar a companheira:
- Vejo que caiu em minha armadilha...
Gricktick atingiu-a com um soco, e com um chute em seguida, sem chances de defesa. Uranus estava no chão, segurando-se para ficar com o tronco levantado, e respirando com dificuldade devido à pancada recebida perto do diafragma. O monstro aproximava-se, pronto para mais uma forte sequência de golpes indefensáveis, que na melhor das hipóteses, a desacordariam e machucariam seriamente.
Ryo observava as intenções do monstro e a não-reação de Rika... Não podia deixar que a amiga se ferisse, não podia deixar que isso acontecesse! Não percebeu que suas mãos tateavam procurando pedras, e acabou achando algumas, que foram prontamente atiradas no monstro. Não que tivessem causado muita dor, mas a insolência daquele rapazinho, que pulava para dentro da loja, fez com que o servo do castelo da escuridão se irritasse profundamente:
- O que foi? Seus mestres não ensinaram que não se deve atingir alguém pelas costas, ou quando não tem chance de reagir?
Ryo não acreditava que estava na mira de um monstro, provocando-o, e ainda tinha procurado por isso! Metade de seu corpo dizia para sair correndo dali, o mais rápido que pudesse, porém a outra dizia que estava fazendo a coisa certa tentando proteger Rika e aqueles outros guerreiros.
- E ninguém te ensinou a não se intrometer onde não é chamado, moleque?
Gricktick concentrou um pouco de energia em suas mãos, preparando-se para atingir o garoto insolente que interferira na sua luta. Não que gostasse de usar energia, mas com ele seria mais rápido e prático do que uma luta corporal, além do que ele não tinha o nível daquela garota, o que faria a luta bem sem-graça. Com certeza ser atingido por uma esfera de energia seria uma dolorosa lição para aquele enxerido... Será que ele não conhecia o destino do gato do ditado? Se não conhecesse, conheceria naquele momento, porque era o que iria lhe acontecer.
- Garoto louco, não está percebendo que tem que fugir daqui o mais rápido que puder?- Jupiter gritava, enquanto checava respiração e pulsação de Neptune.
Porém, Ryo estava completamente paralisado e nem as palavras de Jupiter ou as ações de Gricktick surtiam efeito em sue corpo. Não... Aquela vozinha interior insistia que tinha de ficar ali, que seu lugar era ali, protegendo Rika-chan!
Íris, em um canto, cuidando de Venus e Pluto, apenas observava a cena. Aquele garoto... ou era um louco ou tinha um motivo muito forte para continuar ali. Bom... Rika era realmente bela, poderia ser o tal motivo. Mas por que ele não saía correndo, não fugia, não preservava a própria vida, que perderia pela curiosidade que o movera a ver o que a garota bonita tinha ido fazer?
Uranus ainda estava paralisada, enquanto olhava a esfera de energia que o monstro concentrava crescer, e também perceber que Ryo não sairia tão fácil dali. Não podia fazer nada além de torcer... Nem que fosse por um milagre...
Gricktick finalmente lançou a esfera de energia em Ryo, fato que foi acompanhado por um grito do rapaz. Seu último grito, pensou o monstro.
- Não se atreva... a machucar... Rika-chan!
Para a surpresa de todos os presentes na loja naquele momento, ele estava vivo, consciente e, apesar dos ferimentos e da dificuldade de suportar o próprio peso sobre as pernas, de pé. Para completar, o símbolo de Mercúrio brilhava em sua fronte.
- Mercury Pirate Knight... - Foi tudo o que Íris pôde dizer antes de atirar um pingente azul para o rapaz.
Os olhos azuis de Ryo tinham o brilho do gelo, que apesar do calor da batalha não se derreteria. A frase foi dita, lembrando-se das palavras de Rika alguns minutos antes:
- Poder de Mercúrio... VENHA A MIM!
O azul do gelo intenso envolveu o corpo do rapaz, enquanto suas roupas sumiam para darem lugar a uma calça azul, camisa azul com listras horizontais brancas, e sobre tudo isso, um casaco azul, bordado ricamente de azul. Nos pés, sapatilhas como as usadas para a prática de artes marciais. Não usava mais óculos, e nem sentia falta deles. O gelo dissipou- se, e o novo cavaleiro despertado não teve muito tempo para admirar-se, afinal de contas, a batalha corria. Seus olhos encontraram-se com os de Jupiter, pois não sabia exatamente o que deveria fazer e procurava auxílio:
- Seu instinto vai te dizer como deve agir, você tem que buscar a resposta dentro de si mesmo...
Instinto? Bom, tinha que aproveitar a surpresa de seu adversário, que estava sem reação, para poder pensar rápido e descobrir o que deveria fazer. Mas... não tinha a menor idéia! Será que não tinha alguma arma secreta, um compartimento especial com bombas no uniforme, um napalm... ah, qualquer coisa servia!
Porém, a inteligência e o treinamento do monstro não foram perfeitamente avaliados pelos cavaleiros, pois enquanto Ryo procurava em seu casaco algum compartimento secreto com alguma arma, Gricktick aproximou- se de Uranus, que ainda não tinha recuperado completamente o fôlego e não poderia defender-se, e acertou um soco no rosto da amazona, logo seguido por mais uma sequência de golpes. A amazona apenas tentava, pesadamente, recuperar o fôlego, em vão. Se a sequência continuasse, dentro de pouco tempo ela perderia os sentidos, e talvez a própria vida, caso os ataques aumentassem.
Olhos chocados observavam a cena, enquanto procuravam ainda alguma arma. Tinha de fazer alguma coisa, qualquer coisa, não podia deixar que Rika-chan se ferisse! Começou vagarosamente a girar, enquanto cristais de gelo apareciam ao seu redor:
- Mercury Freezing Dance!
Quando os cristais de gelo foram lançados para Gricktick e acabaram por congelá-lo, Mercury respirou pesadamente, um tanto assustado com o que estava acontecendo. Procurou auxílio olhando para Jupiter, que simplesmente disse:
- Pelo menos você deu tempo para que pensássemos, mas ainda temos de descobrir como podemos derrotá-lo.
- Mas como assim descobrir?
- Não sei... Na verdade, ainda nem tentei, e você nem me deu tempo para defender Uranus, mas acho que se tivéssemos certeza do que precisa ser feito, seria muito mais fácil.
Mercury apenas suspirou, enquanto passava a mão pelos cabelos. Por que sentia a necessidade de ajudar, sentia que a responsabilidade por uma estratégia era dele? Suas mãos encontraram sua orelha esquerda, onde havia... um brinco? E desde quando usava brinco? E por que sentia uma vontade enorme de apertá-lo? Ao fazer isso, sentiu que uma fina lente azul cobria seus olhos, na forma de um daqueles visores que tinha visto no laboratório de realidade virtual. Era como uma tela... E nessa tela, era como se um programa de inicialização de um computador estivesse rodando, pelos muitos códigos que passavam diante de seus olhos. Finalmente, apareceu a seguinte mensagem diante de seus olhos: "Atualização finalizada. Bem-vindo, Mercury Pirate Knight!".
Tudo bem, tinha um computador em sua frente, mas agora, o que fazer com ele? E... o que estava sentindo sob sua mão esquerda, seria um pequeno teclado? Pelo que tateava, era o que parecia. Ao olhar novamente, através do visor, podia ver uma tela com várias funções. Uma delas indicava "procura por ponto fraco", o que foi prontamente selecionada ao se apertar um botão:
- Acho que entendi como se mexe nisso.... Hum... Então tenho que apertar a tecla correspondente à função do teclado, e descubro qual corresponde a qual através da disposição espacial delas... certo!
- Descubra como se mexe nisso rápido, porque nosso inimigo já está quebrando o gelo!- Jupiter gritou.
Poucos instantes depois, Gricktick quebrou definitivamente o gelo, enquanto Mercury ainda testava os comandos de sue computador. Jupiter, ao perceber que Uranus ainda estava se recuperando e para evitar mais ferimentos na companheira, concentrou um pouco de eletricidade na mão:
- Thundering beam!
- Ah, não me faça rir- disse Gricktick, enquanto a eletricidade espalhava-se pela sala.
- Essa não...- Jupiter concentrava-se enquanto toda a eletricidade era atraída para seu corpo, para evitar que seus companheiros tomassem choques.
- ACHEI! Imunidade a eletricidade e baixa resistência a... gelo?
Gricktick preparava um ataque de socos contra Jupiter, que foi prontamente bloqueado. Enquanto o monstro tentava de todas as maneiras minar a defesa do adversário, seja com chutes, socos ou cabeçadas, este bloqueava, estando em uma posição defensiva. Mercury apenas observava, ainda pensativo com os resultados do computador. Bom... tinha congelado o monstro, e se ele era sensível a gelo, como não havia derrotado-o? A tela do computador começou a se modificar, mostrando números que corriam numa velocidade enorme. Pouco depois, uma frase: "maior concentração de energia torna-a mais efetiva". O mercuriano deu um pequeno pulo para trás, espantado. Quer dizer que bastava pensar para que o computador fosse ativado? Não era hora de descobrir isso, mas de salvar Rika-chan e os outros.
- Mercury...- Concentrou o máximo de gelo possível, girando e pronunciando a palavra bem devagar. - ...freezing...- Novamente o máximo de concentração, e a palavra foi dita vagarosamente. - ...DANCE!
A última palavra da frase saiu no tom mais veemente que o garoto já usara em toda a sua vida. Gricktick foi congelado, fazendo com que Jupiter, que tinha agarrado pelo uniforme pouco antes, caísse no chão, para o alívio dos cavaleiros. O gelo foi invadindo o monstro e, poucos instantes depois, gelo e monstro partiram-se como se fossem um jarro de um delicado cristal que se encontra com o chão após cair do alto de uma estante; sendo que seus pedaços pouco depois evaporaram, levando consigo qualquer vestígio do monstro que um dia atacara uma loja no bairro Juuban.
- R-r-r-ry-ryo-kun???- Foi a primeira coisa que Uranus disse depois de conseguir levantar-se, apoiando-se em Jupiter.
- Ai, minha cabeça...
- VENUS!- Íris gritou, ao ver que sua protegida acordava.
- Está tudo bem com você, Venus?- Jupiter perguntou.
- Meu cérebro diz que sim e minhas juntas dizem que não... AI! Ah... e quem é esse aí?
- Mercury Pirate Knight, que apareceu em uma hora conveniente- disse Íris.
- Ai...
Esse gemido vinha do outro lado da loja e era proferido por Saturn, que acabava de acordar. Ainda estava tonto, o que era natural, e confuso com os acontecimentos:
- Onde está o monstro?
- Mercury Pirate Knight acabou com ele- disse Uranus, sorrindo.
Saturn fitava o novo companheiro, que ainda não acreditava no que estava acontecendo. Bom, lembrava-se das pessoas subindo a rua correndo, de estar olhando para os livros da vitrine... Devia ter levado uma pancada forte na cabeça e estava sonhando.
Olhos negros se abriam, enquanto o rosto onde esses olhos se encontravam contorciam-se levemente de dor. Tinha até medo de olhar para seu corpo depois de ter sido atirada contra uma vitrine, devia estar bastante ferida. Após tatear um pouco o local onde estava, para certificar que podia levantar-se e também para afastar alguns cacos de vidro, levantou o tronco, espantando-se ao olhar para baixo: apenas uns poucos cortes na mão e uns arranhões no uniforme, mas que não chegaram nem a cortar o tecido. Então esse tecido era resistente, apesar de bem fino e confortável! Porém, outro calafrio percorria sua espinha: seu rosto! Não que se achasse bonita, mas não gostaria de ganhar algumas cicatrizes de graça. Olharia isso depois, estava na hora de ver que fim tinha levado aquele monstro e como estavam seus companheiros. Ao virar-se para o lado oposto, pôde ver cinco cavaleiros de pé, além de Pluto que já estava nos braços de Jupiter. Espere aí... cinco? E quem era aquele de azul?
- O que houve? E quem é esse aí de azul?
- É Mercury Pirate Knight, que despertou e derrotou o monstro- disse Saturn, enquanto estendia a mão para a companheira levantar-se e aproximar- se do grupo.
Jupiter acariciava levemente o rosto da companheira adormecida em seus braços enquanto Íris comentava que ela não deveria demorar muito para acordar, o que fez com que o joviano sugerisse ao grupo:
- Acho que deveríamos reverter e sair daqui logo, antes que a polícia, defesa civil ou o que for venham aqui para investigarem o que houve com a loja.
- É uma boa- disse Uranus, revertendo.
Após os companheiros reverterem, Mercury olhava para Uranus, como se perguntasse como fazia para acompanhá-los. A resposta foi acompanhada de um lindo sorriso:
- Basta querer voltar ao normal, Ryo-kun.
Ryo, após reverter, olhava para os braços e pernas, e também para os companheiros e para a loja:
- ESPEREM AÍ UM POUCO, QUER DIZER ENTÃO QUE EU SOU UM PIRATE KNIGHT?
- Depois a lerda sou eu, hein! Só agora que você percebeu?- Ishtar disse, dando uma risadinha de superioridade.
- Ele estava em choque, e também atingido pelo calor da batalha, por isso ainda não raciocinou direito sobre o que está acontecendo- disse Íris.
- KAMI-SAMA, O GATO FALA!
- Gata, por favor. E por que todos se espantam, hein?
Ryo tinha os olhos arregalados, e a tontura dos últimos acontecimentos fazia com que tombasse para trás. Porém, antes de cair, foi apoiado por Rika, que segurou sua mão:
- No começo foi difícil para todos nós, Ryo-kun, mas logo você assimila tudo o que aconteceu e está acontecendo!
- Nossa, Rika, você conseguiu aguentar o peso dele e impedir que caísse!- Comentou Jack.
- É, sempre fui meio fortinha mesmo!- Rika sorria ao responder.
Pluto, mesmo desmaiada, revertia no colo de Jupiter, o que fez com que Íris comentasse:
- É bom que saibam que se desmaiarem, em meia hora revertem automaticamente. Isso acontece porque assim é mais fácil para não desperdiçarem energia...
- Só uma perguntinha, o que estamos fazendo aqui? Vamos esperar para darmos explicações para os policiais quando eles chegarem, por um acaso?- Sarah disse, enquanto dirigia-se para fora da loja.
- Acho que ela está certa...- Ryo disse timidamente.
- Vamos logo, já demoramos- disse Storm, já saindo e preparando-se para subir a rua.
Enquanto o grupo subia a rua, Ryo, ainda espantado com tudo o que estava acontecendo e desconfiando seriamente que tinha entrado em algum livro de ficção científica, ou mesmo em um mangá mahou shoujo, apesar de que mangás mahou shoujo não eram exatamente sua leitura preferida, observava seus companheiros de grupo:
- Eu gostaria de saber quem são vocês...
- Atashi wa Aino Ishtar! Tenho 14 anos, estudo na Juuban Junior High School, meu signo é libra, meu tipo sanguíneo é O...
- Para que falar o tipo sanguíneo?- Sarah perguntou, olhando para o chão.
- Sei lá, vai que precisa de transfusão, nunca se sabe...
- Jack Sarasvati- o saturniano sorria para sue novo companheiro.
- Sarah Granger.
- Storm.
- É seu nome mesmo?- Ryo perguntou espantado.
- Não entremos em detalhes...- Storm olhava para o céu, reticente.
- Boku wa Kage Ryo.
- Somos colegas de classe!- Rika disse, sorrindo satisfeita.
Cassie respirava profunda e delicadamente, gesto acompanhado pela abertura de seus lindos olhos verdes, que se encontraram com o peito daquele que a carregava desde que saíram da loja, pouco antes. Havia muitas perguntas em sua mente, mas a principal delas era:
- O que houve?
- O monstro foi destruído e Mercury Pirate Knight desperto- Storm disse suavemente para a garota que mal acabara de acordar.
- Como é?
Cassie colocou os pés no chão, ajudada por Storm, enquanto observava os companheiros, que tinham parado de andar. Um garoto magrelo chamou sua atenção, e obviamente aquele era o Mercury Pirate Knight. Ele a olhava, e sabia ler aquela expressão em seus olhos: "eu te conheço de algum lugar...".
- Qual... qual é seu nome?- Ryo perguntou, enquanto observava a companheira de cima a baixo.
- Beckham Cassandra...
- Sabia que você me era familiar! Cassandra-san, eu sou seu fã! Você é um estímulo para que eu estude, par quem sabe um dia, chegar a ser como você é! E olha que temos a mesma idade!
- Cassie, por favor...- a plutoniana sorria de leve, constrangida. Um fã? Isso era novidade!
- Ah, Ryo-kun, se ninguém disse isso até agora... Você deve manter sua atual situação em segredo. Não seria bom contar ao mundo o que somos, tanto para a nossa segurança e a daqueles que convivem conosco quanto para o bem da cidade. O que seria de nós se Pirate Knights saíssem das páginas dos tablóides sensacionalistas para ganharem o status de "heróis da cidade"? Portanto, antes de tudo, seja discreto- disse Rika.
- Compreendo, Rika-chan. Mas hoje quero analisar um pouco o visor, se nessa luta pudemos perder tempo, talvez numa próxima não tenhamos tanto tempo assim.
- Já pensa como guerreiro, sendo que mal despertou!- Íris disse, sorrindo.
- Acho que não estamos nem na hora nem no lugar de discutirmos isso. Ryo-kun deve ter um tempo para absorver as novidades e também nós mesmos, afinal de contas, faz menos de um dia que Rika, Sarah e Jack estão aqui. Eu sugeriria uma reunião, dentro de dois dias, em local a definir, para discutirmos os últimos fatos, e como Tomoe anda se tornando audacioso- disse Storm.
- Uma vez líder sempre líder...- Íris pensou alto, não sendo ouvida por ninguém.
- Tomoe?- Ryo perguntou.
- É uma longa história... Eu sugeriria que fosse para casa e daqui a dois dias nos encontramos, em minha casa. Lá você terá toda a explicação que quiser- disse Rika.
- Então... acho que já está na hora de ir...
- E nós também! Vamos, Íris! Até daqui a dois dias, depois da aula, na casa da Rika-chan!- Ishtar disse, enquanto pegava a gata no colo.
***
No Castelo da Escuridão, toda a tecnologia utilizada tinha como fonte de alimentação a energia gerada pelo metabolismo dos seres. Essa energia tanto podia ser gerada normalmente, nas atividades gerais do dia-a-dia pelos próprios habitantes do castelo quanto roubada de outros seres, estranhos ao castelo. Podia ser roubada, quando necessário, de duas formas: ou retirava-se do metabolismo da vítima gradualmente, fazendo-a sentir-se mais fraca e mais fraca sem conhecer o motivo, ou forçava-se o metabolismo a produzir o máximo possível de energia no mínimo de tempo, o que acarretava em uma quantidade imediata enorme, mas também na morte da vítima, se toda ela fosse retirada. Energia humana, apesar dos cientistas castelões desconhecerem a causa, era a que tinha melhor rendimento, logo, deveria ser roubada se era necessário o uso de muita energia para algum fim específico, no caso, acordar a mestra.
Em sua sala de controle, os generais, Sílica e Cuprum, acompanhavam com ansiedade os acontecimentos na loja de Tóquio. Par seu desespero, o poder de Mercúrio foi despertado, como o computador acusava, e a do servo Gricktick desaparecera, acusando sua morte. Ele tinha conseguido coletar uma relativa quantidade de energia humana antes de perecer, mas não chegava nem perto do suficiente necessário para que a Mestra finalmente acordasse.
- MALDIÇÃO!- Cuprum bateu forte com os punhos no balcão onde estava apoiado.
- Perdemos um servo e ainda, para piorar, Mercury Pirate Knight foi despertado! Desse jeito não conseguiremos nada, só a morte de nossos servos!
- Precisamos de um plano eficiente, Sílica...
- Está mais difícil do que pensei, Cuprum, e não quero me queimar com a Mestra quando ela acordar...
- E se não formos nós quem fizermos o plano? Assim, se der certo, podemos, como cabeças e comandantes, ficar com todas as glórias da Mestra, mas se falhar... Nosso servo que bolou o plano que sofrerá todos os reveses!
- Hum... Sabe que é uma boa?
Os generais gargalhavam devido à boa lembrança de Cuprum. Se podiam abusar de alguém para fazer todo o serviço, e ainda por cima colher os louros em caso de vitória, por que não fariam isso? Era até estranho que nunca tivessem pensado nisso antes...
- E quem seria nosso escolhido?- Sílica perguntou.
- Pensei naquela menina, a que surpreendeu a todos nos testes de inteligência quando criança e recebeu treinamento de general, apesar de não ter sido nomeada... Como era mesmo o nome dela?
- Aneurocito... É, era isso mesmo...
- Certo então. Aneurocito... APRESENTE-SE!
Poucos segundos depois, uma garota de aparência estritamente humanóide, de estatura mediana, com os longos cabelos azul-claros presos em uma trança, vestida com um vestido vermelho de gola alta, fechado na lateral esquerda com uma fileira de botões negros, que se abriam na metade da coxa esquerda deixando sua perna à mostra. A única coisa que fazia com que não se passasse como humana eram seus olhos, como os dos gatos.
- Como posso ajudá-los, senhores?
- Você tem apenas que trazer energia para despertar nossa mestra e destruir os Pirate Knights- disse Cuprum.
- Como as buchas de canhão que vocês andaram mandando nos últimos dias? Eu me recuso!
- Não é nada disso, você está livre para fazer o plano que quiser, como quiser, para conseguir atingir esses objetivos- disse Sílica, segurando-se para não esganar a serva pela resposta anterior.
- Tem total liberdade para fazer o que bem entender, só avise primeiro- disse Curpum, compartilhando da vontade da colega.
- Então vou precisar de um computador para recolher os dados necessários, ora. E quero me inteirar de tudo o que está acontecendo, o que deve levar alguns dias.
- DIAS?- Sílica e Cuprum perguntaram ao mesmo tempo.
- Por um acaso os senhores estão pensando que eu vou para lá agora sem planejamento nenhum e nem saber o que está acontecendo? Mas é claro que não, não sou idiota e precipitada a esse ponto!
- Faça o que você quiser- disse Cuprum, puxando Sílica para fora da sala para evitarem atritos desnecessários.
Aneurocito sentou-se em uma das cadeiras próximas ao balcão, enquanto digitava algumas palavras para entrar no banco de dados. Sabia muito bem porque estava ali, aqueles idiotas queriam alguém para fazer o serviço todo por eles. Se era isso o que queriam, seria o que teriam, mas não como imaginavam. Não iria simplesmente entregar os frutos de seu trabalho a usurpadores, e de graça. Iria conseguir a patente de general, isso sim!
"Bem que poderia haver algum sistema que captasse imagens instantaneamente e as mandasse para cá... Seria mais fácil do que lidar apenas com o detector de energia", Aneurocito pensava. Poderia até estudar essa idéia com a divisão de desenvolvimento tecnológico, mas por tempo era melhor só avaliar todos os dados que conseguiram coletar e os níveis de energia. E, também, como queria uma investigação a sério, queria ver como eram e agiam os Pirate Knights, o que faria assim que o poder de algum deles fosse manifestado, mas só depois de terminar suas análises. A energia necessária para atravessar o portal que os ligava à Terra não era pouca, mas certamente seria compensada, principalmente quando tivesse de mandar algum servo para a missão de conseguir mais energia humana.
Sílica e Cuprum passeavam pelos corredores do castelo. Há quanto tempo não saíam da sala de controle? Uns três meses? É, devia ser por aí mesmo... Mas Cuprum não aproveitava o passeio, apenas resmungava e praguejava, nervoso com os acontecimentos na sala pouco antes:
- Já estou começando a me arrepender do plano, essa menina é um tanto geniosa demais!
- Calma, temos que dar um crédito para ela, além disso acho que será melhor assim, as coisas andarão mais rápido dessa maneira- disse Sílica.
- Espero que a Mestra logo seja despertada, assim as coisas caminharão mais rápido.
- Que coisas?
- Não sei exatamente... Mas quando ela acordar a gente descobre!
Uma gargalhada dupla ecoou pelos corredores do castelo, fazendo até mesmo com que alguns servos parassem suas tarefas habituais para se perguntarem o que estava acontecendo, se era o carnaval que tinha chegado mais cedo, algum prisioneiro tinha surtado ou simplesmente os generais da Mestra tinham se empolgado com alguma proposição sobre o futuro...
***
Uma sala, pertencente a uma mansão no estilo ocidental, construída no século XIX e sobrevivente de terremotos e dos bombardeios da guerra. Essa sala era forrada por um papel de parede amarelo intenso, e havia cortinas da mesma cor nas muitas janelas. Por haver muitos livros, uma parede era coberta por uma grande estante, e no meio da sala, uma grande escrivaninha tinha lugar de destaque. Algumas poltronas estavam espalhadas pela sala, e na decoração havia alguns grandes vasos e uma deusa indiana de mármore em uma mesa de canto.
- Sarasvati, a deusa a quem devo o sobrenome- disse Jack, observando calmamente a estátua da deusa hindu da ciência e do aprendizado.
A sala fora o centro de comando de alguns dos presidentes das Organizações Tenoh, mas atualmente era conhecida pelo apelido de "escritório da miss Rika". A dona dessa sala estava jogada na poltrona que acompanhava a escrivaninha, e girava de um lado para o outro nas suas rodinhas. Disse, calmamente:
- E no final das contas não é que um colega de classe meu era um de nós? E ainda por cima o que mais se aproximou de mim...
- Vai ver é aquilo que Íris disse... Eles se cruzarão conosco- disse Storm.
- Só falta o representante de Marte então. Onde ele poderia estar?- Cassie disse.
- Prefiro não arriscar um palpite- disse Sarah, enquanto verificava em um espelho que tinha sofrido apenas um pequeno corte no supercílio esquerdo, mas que certamente não deixaria nenhuma marca.
- Sarah, Jack... Conseguiram resolver alguma coisa? - Devido aos acontecimentos no aeroporto, a companhia aérea ofereceu a diária de três dias em um hotel, além disso tenho uma passagem para daqui três dias para Nova York, mas prefiro não aceitar. Acho que meu lugar é aqui, e tenho certeza que se eu explicar com bastante retórica para meus pais que o melhor será que eu estude aqui, principalmente se já estou aqui, não será muito difícil ficar, ainda mais se eu arrumar algum emprego.
Jack continuava a observar a estátua enquanto falava, admirando a bela obra de arte que devia ter custado alguns milhares de dólares. Realmente, sua vida tinha dado uma bela guinada... Seu lugar era Tóquio e não tinha como escapar de seu destino. Seu olhar desviou-se da estátua, para encontrar-se com uma bela morena que passava os dedos de leve pelos longos cabelos negros enquanto se olhava no espelho, preparando-se para responder a pergunta da colega. Esperava com todas as suas forças que ela compartilhasse de seu destino muito mais do que sendo uma Pirate Knight como ele...
- Não tenho razão para voltar para casa, ou para ir a Los Angeles. Tenho o dinheiro da herança de meus pais comigo, no banco, e se não tenho mais razão nenhuma para ficar em qualquer lugar desse mundo, fico aqui mesmo. Acho que farei até um favor para meu irmão ficando longe de Tel Aviv, longe dele...
Sarah não pôde esconder uma lágrima que caiu sobre seu espelho. Cassie aproximou-se da companheira, enquanto segurava sua mão de leve:
- Enquanto estiver conosco, não precisa ficar triste!
- Não sei o que é ser feliz- Sarah disse, com um sorriso melancólico.
- Acho que está na hora do lanche!- Rika disse, tentando quebrar o clima ruim que se instalara na sala.
- Rika... Gostou de sua escola nova? Porque... tenho de estudar também...- Sarah disse, enquanto levantava-se para ir para a copa. - Adoraria que você estivesse lá comigo, mesmo que nós fiquemos em séries diferentes!- Rika respondeu com um sorriso. - Dentro de alguns dias, assim que a burocracia toda terminar, você terá uma colega nova- disse Sarah, com um esboço de sorriso no rosto.
***
Juubangai estava agitado, as pessoas movimentavam-se, tanto a pé, ocupando as calçadas, quanto em meios de transportes, rumo aos seus afazeres cotidianos, calmamente. Se a parada cotidiana de alguma dessas pessoas fosse uma banca de jornais, ela certamente veria como manchete, estampada em diversas publicações, a notícia de que uma loja no calmo bairro, depois do estranho incidente no aeroporto, havia sofrido um ataque, inclusive com algumas vítimas. Quem ou o que era a causa? Mistério. A perícia não apurara muita coisa, e as testemunhas insistiam em dizer que havia um monstro... Algum alucinógeno, de alguma forma, tinha feito novamente com que algumas pessoas tivessem ilusões.
Em algum canto da banca de jornais, estariam os tablóides. Nesses jornais, compromissados muitas vezes com o sensacionalismo, a mesma manchete, porém vista de outra forma: monstros atacam Tóquio! Um grupo de guerreiros os enfrenta, eliminando o perigo que trazem! Mais uma lenda urbana nascia na cidade, a de um grupo de guerreiros que enfrentava monstros assassinos. E alguma pessoa com um mínimo de bom-senso acreditaria em uma história dessas?
Porém, não muito preocupada com as manchetes dos jornais, muito menos com a nova lenda urbana que nascia, apesar de fazer parte dela, uma garota corria em disparada pelas ruas, com a prática adquirida em anos de corrida para evitar um atraso na escola. Chegar atrasada e levar um pito da professora não era a melhor forma de começar o dia, definitivamente!
A garota ajeitava os prendedores em forma de estrelas que estavam em seu cabelo, enquanto equilibrava a bolsa com o material escolar. Ser a primeira da chamada não era um bom negócio... Certamente estava muito mais preocupada com a sua presença do que com os fatos nada comuns que estavam acontecendo em sua vida, ultimamente. Ora, era hora de pensar em qualquer coisa, menos no monstrinho do dia anterior! Tantas coisas mais interessantes para pensar... Por exemplo, ia ter show do Chikyuu no Tsuki dentro de um mês! Tinha que reservar seu ingresso desde já, afinal de contas, era uma banda de bastante sucesso, e não poderia perder a chance de ver aquele vocalista gato de perto!
Porém, ao pensar no vocalista da banda da vez, Ishtar não percebeu que estava indo de encontro ao caminho de um certo garoto arrogante, que virava a esquina ao mesmo tempo em que ela seguia reto... O choque foi inevitável.
Livros, deveres de casa, lápis, borracha... tudo espalhado pela rua, enquanto Ishtar colocava a mão de leve sobre a cabeça para se recompôr do choque. Hum... ela conhecia aquele sujeito de algum lugar. Não era aquele cara do outro dia, aquele em que tinha acertado a prova? E... EI!
- TARADO! Você está olhando para minha calcinha por debaixo da minha saia!
A venusiana, completamente vermelha, colocava as pernas no chão, e com as mãos puxava a saia entre elas, se tampando. Após levantar-se e arrogantemente tirar a poeira dos ombros, a outra vítima do incidente apenas disse, desdenhoso:
- E você acha que eu perderia meu tempo olhando para uma pivetinha como você? Se enxerga, menina! Mas devo admitir que calcinha azul com estrelinhas amarelas cai bem em você...
A venusiana, que recolhia seus livros, paralisou-se e ficou roxa de vergonha ao ouvir a frase do rapaz convencido. Ele tinha olhado mesmo! Como podia ser tão tarado, era uma menina pura e inocente, como um sujeito que mal conhecia e já odiava podia ver sua calcinha? Sua reação foi dizer, entre os dentes:
- Você vai pagar cara por isso, seu idiota tarado!
- E o que uma pivetinha como você poderia fazer? Concentrar um raio de luz e me fulminar? Ah, não seja ridícula! Mas só digo uma coisa... Quando crescer pode me procurar.
Enquanto dizia a frase, o rapaz seguia seu rumo, de costas para a garota. Esta, completamente envergonhada e furiosa, tirou um de seus sapatos e o atirou na direção do tarado, mas sua mira não estava nos seus melhores dias... Como queria se transformar naquele momento e atirar um Eve Star Beam bem mirado e caprichado no meio da testa daquele idiota, que ódio! Porém, o soar de um sino fez com que Ishtar esquecesse de seus planos de vingança, e lembrasse de problemas mais imediatos:
- ATRASADA, NAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAO!
***
- Nossa cidade costumava ser tão calma, mas ultimamente tanta coisa esquisita anda acontecendo...
A frase era dita por uma garota baixinha, de longos cabelos negros presos em um rabo-de-cavalo, que depositava suas coisas em sua carteira, logo que chegara na escola. Mais um dia letivo se iniciaria e os alunos, seguindo a rotina de sempre, deixavam suas coisas em suas carteiras e, em muitos casos, juntavam-se em grupinhos para discutir algum assunto, ou nenhum específico. Um garoto de estatura mediana e cabelos também negros muito curtos deu continuidade à conversa iniciada pela colega:
- A perícia até agora não conseguiu apurar muita coisa nem do aeroporto nem da loja, apesar de que se desconfie que se trata de algum grupo terrorista. Mas quem são eles e o que querem, isso ninguém sabe.
- O pior é que esse último ataque foi muito perto de nós... Dá até um certo medo agora, será que haverá outro ataque?- Uma baixinha de cabelos curtos e maquiagem carregada disse, enquanto olhava para o chão.
- Não devemos entrar em pânico nem temer, Kitsune-chan. A tática do pânico também é usada pelos terroristas- disse o garoto de antes.
- E vocês viram os tablóides e os depoimentos de muitas testemunhas? Do grupo de guerreiros?- Disse a garota baixinha que iniciara a conversa.
- Não me venha dizer que você dá ouvido a esses boatos imbecis, Naru- chan! Até parece que isso é plausível... Grupo de guerreiros que enfrentam ataques de monstros... Ah, fala sério!- Kyoko, que tinha acabado de chegar, dava seu palpite na conversa.
- Pois é... Acho que esse povo está vendo TV demais pra ter esse tipo de ilusão- disse Kitsune.
- Olha quem está chegando- Kyoko disse, com ar de desdém, enquanto virava-se para a direção contrária à porta.
Rika entrou na sala de aula, cumprimentando seus novos colegas como fizera no dia anterior, e recebendo cumprimentos em troca. Estava sendo bem aceita, exceto talvez pela namorada de Sasaki-sempai e de uma ou outra amiga próxima dela. Tinha de passar por aquele grupinho para chegar a sua carteira, e por que não cumprimentar aqueles que nada tinham a ver com os ciúmes infantis de sua colega?
- Ohayo, Tsubasa-san, Inoue-san, Yuuji-san e Sakamoto-san.
- Ohayo, Tenoh-san- apenas três vozes responderam ao cumprimento.
A novata colocou suas coisas sobre a carteira, enquanto acomodava-se para mais um dia de aula. Estranho... Ryo ainda não tinha chegado. Ele sempre era um dos primeiros! Pelo menos foi o que ele comentou... Porém, nem pôde divagar muito sobre a demora de Ryo, pois um outro colega de classe estava com a mão apoiada em sua mesa, e olhava intensamente para ela enquanto arrumava os longos cabelos vermelhos:
- Você é muito boa lutando, Tenoh-san
- Estou destreinada, Sasaki-sempai... Fazia uns bons seis meses que eu nem pegava num florete!
- Mas você tem uma agilidade impressionante, sabia? E só uma coisa... Pode me chamar pelo nome.
- Anoo... domo... Akio-sempai.
O sino que marcava o início das aulas soou, o que fez com que Akio fosse se sentar em seu lugar e Rika e todos os outros se ajeitarem, para aproveitarem uma bela aula de Língua Japonesa Moderna... Pouco depois do professor entrar na sala e começar a fazer a chamada, um esbaforido Ryo abriu a porta, e quando todos os olhares da sala se dirigiram a ele, sua reação foi ficar completamente vermelho.
- Gomen, ne?
Foram as únicas e tímidas palavras que ele disse antes de sentar-se rapidamente em seu lugar, tirando a mochila que tinha nas costas rapidamente e colocando-a no chão. Ante ao olhar curioso de Rika, que sentava-se a seu lado, ele apenas disse:
- Essa é a segunda noite que passo em claro, mas valeu a pena... Acho que consegui descobrir bastante sobre aquele assunto.
- Kage-san, acho que deveria deixar assuntos paralelos para depois da aula- o professor disse, enquanto continuava a chamada.
Foi o suficiente para terminar de deixar Ryo completamente vermelho de vergonha... Nunca tinha sido repreendido por um professor antes em toda a sua vida escolar! Kyoko, em uma das primeiras carteiras, simplesmente sorriu ironicamente, enquanto comentava para ninguém em particular:
- Até mesmo fazer com que Kage-san converse na aula... Novata, você está realmente se metendo demais...
***
Seguindo o conselho do professor de Rika e Ryo, os assuntos paralelos foram deixados para depois da aula, mais precisamente para uma reunião já marcada na casa de Rika dois dias antes, para que assuntos importantes que estavam pendentes fossem resolvidos. A anfitriã guiava seu mais novo convidado pelo bairro de classe alta onde morava, enquanto esse se encantava com as mansões. Tinha passado por ali, apesar de nem ser tão longe de Juubangai assim, apenas umas duas ou três vezes em sua vida, e estava impressionado. Sabia muito bem que Rika vinha de uma família de posses, mas não imaginara tanto...
Ao finalmente entrarem na propriedade da família Tenoh, Ryo começou a sentir que seu estado de choque crescia exponencialmente a cada passo dado. Aqueles jardins enormes e lindos... As muitas plantas, flores, a fonte na frente da casa... O que era aquilo? Será que todos os fatos ocorridos nos últimos três dias eram apenas um sonho? Era o que estava parecendo... Aquela mansão que parecia ter saído de um romance, o fato de ser um Pirate Knight, as informações que tinha conseguido no visor... De um modo geral, tudo.
Os outros participantes da reunião já estavam no escritório de Rika, conversando sobre generalidades enquanto a anfitriã e Ryo não chegavam. Ishtar estava sentada em uma das poltronas e como era natural, brincava de girar as rodinhas:
- Que bom que minha aula acabou mais cedo hoje! Deu até pra vir passeando... Esse bairro é maravilhoso, essa casa então nem se fala!
- Concordo- disse Íris, espreguiçando-se e gostando do carinho que Jack, sentado ao lado, estava fazendo.
Cassie olhava por uma das janelas, enquanto seu olhar se perdia em algum ponto dos jardins da casa. Rika era uma amiga bastante amável e atenciosa, era sua melhor amiga em apenas três dias de convivência, tamanha a empatia e a afinidade que existia entre ambas. Também Sarah e Jack, com quem estava aprendendo a conviver. Simpatizara com seus novos companheiros, mesmo que só os conhecesse há três dias, estava gostando de ter finalmente, em sua vida, amigos, e conviver tão proximamente com eles. Porém, sentia falta de uma coisa, daquele que era um de seus bens mais preciosos e que Tomoe lhe tirou: sua liberdade. Como queria poder passear, ir para sua casa, colocar suas roupas! Ver gente, sair, até mesmo fazer compras no supermercado! Não podia fazer nada disso, para o seu bem e o de Storm, era bom que ficasse quieta e presa na casa de Rika.
- Uma moeda por seus pensamentos.
Um sorriso ao perceber quem tinha dito a frase: Storm. Estavam próximos na janela, olhando para algum ponto qualquer do jardim. Ele apenas perguntou, sorrindo:
- Está gostando desses dias de hospedagem?
- Claro... Como não gostar de estar aqui com uma anfitriã tão boa, com companheiros tão legais e com... com... com...- Cassie não conseguiu concluir a frase e ganhou uma coloração avermelhada nas bochechas.
- Você fica ainda mais linda quando está sem-graça!
A frase foi o suficiente para deixar Cassie ainda mais vermelha do que já estava. Rika e Ryo entraram no escritório, o que fez com que a cor das bochechas da cientista voltasse ao normal, pois a reunião começaria naquele momento. Todos os olhares se dirigiram para Ryo, que sentia a nervosia de quem nunca falara em público antes, mas que tomou coragem e deu início à primeira pauta:
- Nos últimos dois dias andei analisando meu visor e descobri coisas interessantes... Em primeiro lugar, nosso passado como guerreiros de um antigo reino e tempo chamados Milênio de Prata...
- Disso nós já sabemos- disse Ishtar, ainda brincando com a cadeira.
- Você ainda não se encontrou com Loki, o outro guardião, mas acho que isso logo vai acontecer- disse Íris.
- Mas, continuando...- Jack tentou retomar o assunto.
- Continuando, descobri nos arquivos as fichas de todos, exatamente todos os inimigos que Mercury enfrentou até hoje, inclusive aquele último. Claro que não li tudo, era muita coisa, mas só vi que existia e li sobre um ou outro... Todas as estratégias usadas em invasões e guerras também estão lá, mas como é muita coisa também nem li muito.
- Isso pode ser útil de alguma forma?- Sarah perguntou.
- Serve para comparação, pode ser que comparando dados de um inimigo atual com os antigos possamos descobrir sua origem- disse Íris.
- Isso no banco de dados... O visor tem outras funções. Pode avaliar o ponto fraco de um inimigo, como aconteceu na loja, a força e potência de um inimigo, ou mesmo de um aliado, e também fazer cálculos sobre campos de força, área, melhores lugares para se invadir algum lugar... E também radiação infravermelha. Acho que tem muito mais coisas, mas isso já é mais do que o suficiente por enquanto.
- Um ótimo banco de dados então... Excelente- disse Storm.
- Mas agora temos de tratar do último ataque- disse Jack.
- Ah sim... Tomoe anda cada vez mais ousado- disse Cassie.
- Tomoe?- Ryo perguntou.
- Tomoe Souichi, o antigo chefe de Cassie- disse Storm.
- TOMOE SOUICHI, QUÊ?
- Bom, acabei descobrindo que ele foi possuído por um demônio... Eu e Storm vimos um pouco demais e agora nossa hipótese é de que Tomoe-sensei quer nos eliminar- disse Cassie.
- Kami-sama... Até um dos maiores cientistas nacionais está nessa, o que falta mais acontecer?- Ryo estava completamente tonto.
- Mas sabem de uma coisa? Ele não tem o direito de nos prender, nos deixar como prisioneiros, roubar nossa liberdade, e ainda por cima pôr inocentes em perigo! Acho que deveríamos ir lá e tomar satisfações!- Storm disse, exaltado.
- Lá aonde?- Ishtar perguntou.
- Na base do Tomoe, aquele lugar onde estão construindo uma escola.
- E nós vamos lá na base dele, sem plano e planejamento nenhum, no território dele, e ainda em uma postura de ataque? Precisamos de um plano antes de qualquer coisa!- Sarah disse, um pouco exaltada.
- Hum... Eu precisaria da planta da base de Tomoe-sensei... Acho que com isso eu poderia localizar melhor os pontos para entrarmos. E ainda, se possível, não devemos ir em um só sentido, para evitar sermos encurralados. Já pensou se vêm uns vinte monstros do mesmo nível do último de uma vez só?
- Mas e se vierem vinte em cima de dois? É pior ainda!- disse Ishtar.
- Não necessariamente. Se você manda vinte em uma dupla só, por exemplo, gostei da idéia de duplas, os outros que sobraram estariam com espaço livre para chegarem a base.
- E se forem muito mais de vinte? Se forem centenas, ou milhares de monstros?- Jack perguntou.
- Daí estaríamos perdidos tanto individualmente quanto em grupo- disse Ryo.
- Faz sentido...- disse Storm.
- Poderíamos tentar até hoje mesmo, acho que dá para fazer a análise de melhor entrada rápido e sem a planta- disse Ryo.
- Só temos que esperar o anoitecer para sermos ocultos pelas sombras- disse Rika.
- Então temos até o anoitecer para nos prepararmos...- disse Jack, reflexivo.
- Ótimo, porque eu estou com fome! Rika-san, onde é a cozinha?- Ishtar perguntou.
- Por aqui...- Rika disse, com uma gota de suor na testa. - Bom, vamos lanchar! Confesso que também estou com fome.
Os Pirate Knights levantaram-se, preparando-se para o lanche, exceto Cassie, que continuava sentada na poltrona:
- Não vem, Cassie-chan?
- Não estou com fome, acho que comi um pouco demais no almoço...
- Também vou ficar por aqui- disse Storm, acomodando-se novamente na poltrona.
- Então fiquem à vontade, nós já voltamos- disse Rika, sorrindo, enquanto fechava a porta do escritório após sair.
Cassie pegou uma revista, que estava a seu lado, e começou a folheá- la, olhando modelos de roupas que estavam na moda. Storm aproveitou para sentar-se a seu lado, e não resistindo a uma mecha loira com as pontas enroladas que caía sobre a revista, começou a brincar com ela entre os dedos:
- Acho que finalmente teremos nossa liberdade de volta- disse Cassie, sem levantar os olhos dos modelos.
- Hai- Storm estava distraído com os fios dourados que passavam pelos seus dedos.
Cassie largou a revista, levantando o rosto e fazendo com que seus olhos verdes se encontrassem com os olhos castanhos de seu companheiro, e com que ele soltasse seu cabelo de leve:
- Estou preocupada com o que pode acontecer. E se Jack está certo e tem um exército lá dentro?
- Bom, tudo tem sua dose de risco- o olhar de Storm tornou-se sério.
- E sou fraca... Espero não atrapalhá-los e nem que suas vidas sejam postas em risco por minha causa!
Cassie encostou a cabeça no ombro de seu companheiro, procurando um pouco de conforto. A resposta veio acompanhada de uma leve carícia em seu rosto:
- Nunca atrapalhará. Você sabe muito bem que iríamos por qualquer um de nós se estivesse na mesma situação, não importando se faz só uma hora que nos conhecemos ou uma vida inteira.
Cassie sorria, enquanto tinha seu tronco levemente levantado para que ficasse reta, o que facilitaria a intenção de Storm. Os lábios do casal aproximavam-se e quando faltava um centímetro para se encontrarem...
- ESQUECI MINHA REVISTA AQUI!
"Eu não acredito...", foi o pensamento do casal que, em um segundo, foi para lados opostos do sofá. Ishtar abaixava-se, pegando a revista que estava caída displicentemente no chão, enquanto dizia:
- Vou deixar meu material no quarto da Sarah-chan, é mais fácil para pegar depois! E não posso perder essa revista de jeito nenhum, tem o endereço do fã-clube oficial do Starian, aquele conjunto que apareceu outro dia em um show de variedades por aí... Ah! Storm-kun, Ryo-kun está chamando lá fora!
- Tudo bem, vamos, Moleca Enxerida.
- Me chamou do quê?
- De nada, vamos.
Ao saírem do escritório, Ishtar não pôde deixar de fazer a pergunta que ardia em sua garganta desde que quase vira um momento muito pessoal e romântico entre os companheiros:
- Quando vai pedira Cassie-chan em casamento?
- Cala a boca. Eu não me meto na sua vida e você não se mete na minha, certo?
Storm, rispidamente ,apressou as passadas em direção à copa, enquanto Ishtar, um pouco atrás, dava de ombros. Que mau humor! Ela não tinha dito nada de mais! Não precisava descontar todas as suas frustrações nela! Não era saco de pancadas, longe disso, podia ser confundida no máximo com uma deusa do amor!
***
A primeira estrela da noite, Vênus, despontava nos céus de Tóquio. Junto dela, a Lua, em todo seu esplendor, e também as outras estrelas que começavam a surgir. Rika, em uma das janelas de sua casa, olhava para o grande astro noturno, enquanto seus lábios proclamavam uma frase um tanto óbvia:
- É noite...
- É a nossa hora. Vamos!- Storm disse, animando os companheiros.
Os sete Pirate Knights levantaram-se das poltronas onde estiveram sentados nos últimos minutos, onde trocaram algumas idéias sobre o plano. Rika comentou calmamente, enquanto arrumava o casaco do uniforme escolar:
- É uma pena termos que perder tempo para irmos até a rua...
Pouco depois, estavam fora da propriedade da família Tenoh, e após andarem alguns metros, estavam fora do alcance de olhares curiosos em uma rua entre dois quarteirões que não passavam de muros. Storm pegou o pingente que trazia no pescoço, e disse com determinação:
- Poder de Júpiter... VENHA A MIM!
A frase foi repetida por mais seis pessoas, apenas com modificações no planeta a ser invocado, iniciando uma pequena cena de transformações. Após seu término, Íris disse:
- Antes de qualquer coisa, tenho que dar um presentinho para cada um de vocês. Eles fizeram falta no caso da loja e acho que as coisas serão mais práticas com esse tipo de tecnologia...
O símbolo em forma de crescente da gata começou a emitir um forte brilho e sete objetos que lembravam relógios caíram no chão, próximos a ela. Todos eram pretos e tinham um marcador de horas, mas não eram relógios. Íris explicava, enquanto cada Pirate Knight pegava aquele que tinha o símbolo de seu planeta no lado oposto ao do marcador, que ficava em contato com a pele:
- Esses objetos são comunicadores e o próprio nome já diz para que servem. Além de possuírem toda a configuração de um relógio digital comum, pode mandar mensagens de voz para todos os outros companheiros. Isso evitará que certos felinos tenham que pôr os pulmões para fora para avisarem a companheiros distantes que está acontecendo algum problema a tempo...
- Mas agora... Para que lado viramos para irmos ao encontro de Tomoe?- Saturn perguntou.
- Acho que não precisaremos ir correndo pela rua... Lembram-se do aeroporto? Podemos ir pulando pelos muros e telhados e ainda por cima correndo muito mais rápido do que em nossas formas normais! - Uranus disse.
- Pelos telhados?- Mercury estava espantado.
- E por que não?- Jupiter disse, enquanto pegava impulso para pular no muro à sua frente.
Pouco depois, os Pirate Knights e Íris que ia nos ombros de Venus, pulavam e corriam rapidamente pelos telhados de Tóquio, até que, depois de atravessarem muitos quarteirões, ruas e bairros, chegaram a um prédio em construção. Mercury invocou seu visor e após digitar alguns dados anunciou:
- Não está protegida por nenhum campo de força, o que permite que entremos.
- O problema é entrar aonde e por onde...- disse Neptune, enquanto passava os olhos pelo terreno.
Enquanto os Pirate Knights observavam o terreno e discutiam por onde podiam entrar, um par de olhos de gato de abriram, ocultos pelas sombras da construção. Fora uma boa idéia ter seguido o poder, pela primeira vez estava vendo aqueles que povoaram as histórias de sua infância e adolescência e ainda pro cima em ação! Mas o que estavam fazendo ali, o que os tinha atraído para aquele lugar? Tinha que continuar observando, oculta pelas sombras, o que eles fariam...
- A entrada para o subsolo é ali- disse Mercury apontando para um ponto da construção.
- Então vamos...- Jupiter disse.
- ...e que Serenity esteja conosco- disse Íris, calmamente.
A escuridão era absoluta a partir da abertura, o que fez com que Venus concentrasse um pouco de luz em seus dedos esquerdos para que o caminho fosse iluminado, gesto imitado por Jupiter. Os corredores mórbidos daquele lugar ainda estavam vivos na mente de Pluto, que disse:
- Lembro-me bem desse lugar, e posso levá-los até a base. E lembram- se do que falamos sobre divisão do grupo? Será desnecessário aqui, vamos todos juntos.
Como poderia esquecer o horror que passara ao entrar naquele lugar pela primeira vez? Não apenas o horror natural que as paredes mórbidas e escuras, onde o som de alguma coisa que passava por grandes tubulações era a única coisa que se ouvia, mas também o de descobrir que coisas completamente fora da lógica estavam acontecendo... Além de que fora naquele dia que conhecera alguém que mexeria bastante com seu coração...
Mercury estava com o visor convertido para a detecção de radiação infravermelha, porém... Estava chegando a uma conclusão interessante, e assustadora:
- Não tem nada vivo nesse lugar!
- Mas e isso lá é ruim? Já imaginou se tivessem mesmo vinte monstros iguais ao da loja?- Venus estava espantada. Por que era ruim não haver nada vivo no caminho?
- É que na pior das hipóteses, caímos em uma armadilha- disse Neptune.
- Será que nosso plano deu tão errado assim?
Pluto olhava novamente para a sala onde havia um trono vazio e uma máquina que processava alguma coisa, enquanto um calafrio percorria sua espinha. Estava ali novamente... A sala era a mesma e estava vazia da mesma maneira, porém não sentia tanto medo quanto da primeira vez que estivera ali. A presença dos companheiros a confortava e sentia segurança até mesmo para enfrentar Tomoe-sensei, ou melhor, o demônio que o dominara.
- Olhem... Aquela sala está acesa, deve ser ali a base- disse Saturn, apontando para um lado onde havia um pouco de luz.
Todo o grupo seguiu para um local onde havia uma porta, e que por ela vinha a luz. Ao abri-la, deram de cara com uma longa escadaria, onde na parte de cima havia outra porta, que levava a uma sala iluminada. Os degraus foram atravessados rapidamente, mas houve uma hesitação quando chegaram junto à porta. Mercury aproximou-se, e depois de sua análise, disse:
- Tem gente lá dentro...
- É agora ou nunca!- Saturn disse, enquanto conjurava sua alabarda.
- É hora...- Jupiter disse, enquanto entrava na sala.
Pouco adiante da porta, um cientista cujas lentes dos óculos refletiam a luz, gargalhava enquanto misturava substâncias contidas em dois tubos de ensaio. Sua substância nutritiva estava quase pronta, faltava apenas a dose certa de mais um ingrediente para que suas criaturas pudessem ser mantidas vivas até que a época do plano ser posto em prática chegasse!
- Tomoe-sensei...
- O que foi, Kaolinite-kun? Já disse para não me interromper!
Quando o cientista se virou, percebeu que a poucos metros de seu rosto estava uma alabarda e que sete figuras o observavam com expressões sérias. A pergunta era óbvia, porém necessária: - Quem são vocês?
- Os defensores do Sistema Solar, Pirate Knights! Mas não viemos aqui para nos apresentar, Tomoe-sensei- Jupiter deu uma ênfase especial à última palavra.
- Temos um assunto a tratar com o senhor...- disse Pluto.
- Assunto? Não trato assunto nenhum com um bando de adolescentes desordeiros com fantasias.
- Acho que temos de ser mais enfáticos... Venus, por favor- disse Jupiter.
Venus deu um passo a frente, enquanto Jupiter apontava para alguns tanques que continham um líquido avermelhado em seu interior.
- Eve star beam!
O raio serviu para que os tanques de vidro quebrassem e todo o líquido que continham esparramar-se pelo chão, o que enfureceu o cientista possuído.
- Vândalos, vão pagar por isso!
Antes que Tomoe se mexesse, Saturn aproximou mais sua alabarda, o que impedia que o cientista tentasse qualquer movimento. Neptune tomou a palavra:
- Nós é que somos os vândalos? E quem aqui mandou um exército de monstros para um aeroporto, além dos isolados em lugares específicos?
- E você acha que sou um guru para saber, mocinha?
- Não se faça de cínico, isso só pode ser obra do senhor!- Pluto disse.
- E o que eu ganharia com isso? Ou acham que sou um terroristazinho amador que quer fazer bagunça e chamar atenção? Se estou fazendo um trabalho a longo prazo quero tudo, menos atenção!
Ele estava certo, pensou Mercury. Aparentemente, não havia nenhum monstro por ali e se o cientista quisesse reagir ou destruí-los, já o teria feito, não seria a alabarda de Saturn que o impediria. A sensação que tinha, e também todo o grupo, era a de que tinham seguido uma pista errada e agora estavam nas mãos de Tomoe, que por sorte não parecia com muita vontade de brigar:
- Não temos nada a ver com o que está fazendo aqui e planejando, assim como você não tem a ver com nossos planos e inimigos. Queria pedir um favor em troca do nosso silêncio e mesmo da nossa vista grossa. Deixe Beckham-san em paz, tire a acusação de sequestro- disse Jupiter.
- E o que vocês tem a ver com isso?
- Temos muito a ver- disse Pluto, um pouco alterada.
- Acho que entendo... Ela escolheu seu lado então. Se é isso o que ela quer, será o que terá.
- Era isso então... E se não se meterem no nosso caminho, não nos meteremos no seu- disse Jupiter, se virando.
Tomoe apenas observava, sem reagir, o grupo de jovens que saía literalmente correndo da sua sala. Era o que faltava, um bando de jovens arruaceiros para atrapalharem toda a articulação para trazer o Silêncio ao mundo, mas não custava fazer a vontade deles e deixá-los ir. Para que se importar com idiotas fantasiados, ainda mais quando seu Mestre despertasse?
Já do lado de fora da construção, uma vez que tinham saído o mais rápido possível com medo de uma possível represália, os Pirate Knights paravam para tomar um ar e também para conversar um pouco sobre o que tinha acontecido. Se não era obra de Tomoe, quem estava fazendo com que os monstros atacassem? Porém, o maior problema nem era esse. Tiveram sorte por o cientista não ter feito nada contra eles, mas e se na perseguição de alguém ou alguma coisa, acabassem em uma cilada da qual não pudessem sair e fossem mortos, simplesmente por descuido?
- Falta de uma maior investigação foi uma falha que não podemos repetir- disse Uranus, encarando o chão.
- Sim... Investigaremos melhor da próxima vez para evitarmos maiores erros e problemas- disse Jupiter, também encarando o chão. Sentia-se um tanto culpado pelo acontecido.
- Só espero que Tomoe-sensei cumpra a promessa- Pluto também evitava olhar para o grupo.
- Não precisam ficar desse jeito, esse tipo de coisa acontece mesmo. O que não podemos é repetir o erro- disse Saturn.
- Mesmo que por um caminho tortuoso, pelo menos agora sabemos de uma coisa: Tomoe-sensei não tem nada a ver com esses monstros, logo... quem é o responsável?- Mercury perguntou.
- Será que é uma invasão intergaláctica?- Venus arriscou.
- Provavelmente não, invasões intergalácticas geralmente obedecem outras estratégias. Por exemplo, eles não atacariam a população civil como esses monstros fizeram- disse Íris.
- Então... O que pode ser?- Saturn perguntou.
- Temos um grande problema aqui... Não sabemos quem está por trás disso e nem temos alguma pista!- Neptune comentou.
- O jeito é esperar que essas pistas apareçam- disse Uranus.
- Apesar de que monstros que simplesmente se desfazem após a morte não são nada normais... Aliás, isso não existe, pelo menos não nesse mundo!- Pluto disse.
- Mas Íris acabou de dizer que não é uma invasão intergaláctica- disse Venus.
- Pode até ser uma espécie desse planeta, mas nunca nenhum cientista registrou nada parecido. Nem a forma, nem o que acontece quando é morto e nem os traços de inteligência e mesmo fala...- disse Pluto.
- Acho que não temos mais nada para fazer aqui, vamos para casa- disse Jupiter, olhando para os prédios ao redor.
O grupo tomou um impulso e foi pulando pelos telhados, deixando as construções que escondiam o laboratório secreto de Tomoe ficavam cada vez mais para trás, para serem esquecidas porque não diziam respeito a eles. Cometeram um erro que não poderia ser repetido, mas lutariam o mais que pudessem para que não fosse e certamente haveria uma certa investigação e mais pistas antes de tomarem alguma decisão.
Enquanto isso, um par de olhos de gato piscava devagar, enquanto as informações eram absorvidas e processadas. Então queria dizer que eles não sabiam quem estavam enfrentando e nem tinham nenhuma pista que os fizesse descobrir? Ótimo! Isso poderia ser bom para seus futuros planos... É mais difícil lutar quando não se sabe o que se enfrenta, não pôde deixar de pensar. E seria essa a sua tática, apesar de que precisava de um bom plano primeiro... Uma pequena risadinha soou antes que a serva do Castelo da Escuridão teleportasse-se para onde era o portal que a levaria para casa.
***
- E estamos aqui na entrevista coletiva que o cientista Tomoe Souichi convocou, e ouviremos agora o que ele tem para falar.
- ...apesar da mobilização que convoquei, inclusive da polícia, para o possível sequestro de Beckham-san, recebi notícias de que ela está na Inglaterra para resolver assuntos pessoais, sem avisar ao próprio chefe apesar da tragédia que nos abateu. Provavelmente devido à sua pouca idade ela não ponderou muito sobre conseqüências... Estou retirando a queixa e anunciando também a sua demissão da equipe de cientistas das corporações Tomoe.
- Então está resolvido o caso da jovem cientista Beckham Cassandra e tudo não passou de um mal-entendido. Shidou Hikaru, do centro de convenções de Tóquio para o Jornal da ZFR.
Rika desligava a televisão, a notícia que esperavam já tinha sido dada. Bom, pelo menos Tomoe cumprira a promessa... Mas Cassie teve de pagar um preço sobre sua escolha: estava sem emprego e provavelmente depois de ser taxada como irresponsável teria uma certa dificuldade para conseguir uma nova contratação. Porém, o principal ela tinha conseguido: estava livre!
- Pelo menos aquela confusão toda de ontem à noite serviu para alguma coisa- disse Storm.
- Não podemos negar que Tomoe-sensei cumpriu a promessa- disse Ryo.
- Temos um problema a menos- disse Sarah.
- Eu gostaria de oferecer um belo jantar essa noite, em comemoração ao que aconteceu! Mas acho que cabe a Cassie-chan decidir- disse Rika.
- Eu quero mesmo é rever minha casa, estou com saudades! Adorei minha estadia aqui, mas está na hora de ir embora! Estou com saudades da minha cama, das minhas roupas... Rika-chan, adorei estar aqui, você é uma anfitriã e tanto, mas quero ir para casa...
- Entendo, Cassie-chan- disse Rika, sorrindo.
- O jantar fica para uma próxima ocasião- disse Cassie, também sorrindo.
- Hum... mas eu estou com fome. Sempre que anoitece eu tenho fome- disse Ishtar, olhando para o céu.
- Daqui a pouco fazemos um jantar só para nós- disse Rika, séria e com algumas gotas na testa. Ishtar só pensava em comer por um acaso?
- Com licença, tenho que arrumar minhas coisas- disse Cassie saindo da sala.
- Acho que nós também não poderemos ficar aqui para sempre. Tenho que ver minha transferência para a Toudai e procurar um apartamento- disse Jack.
- Sarah, você gostaria de ficar aqui? Assim eu não me sentiria sozinha e você teria um lugar bastante confortável para ficar- disse Rika.
- Mas eu fico sem jeito de morar assim!
- Não precisa ficar, ué! Acho que apesar do pouco tempo juntas já somos amigas!
- Amigas...- Sarah disse baixinho. Nunca tivera uma amiga antes...
- Storm, você aceita dividir um apartamento? Você também não tem para onde ir.
- Eu adoraria, Jack, mas não tenho como pagar... Tenho que arranjar um emprego primeiro, não acha?
- Quanto a isso, não se preocupe. Você será contratado pelas Organizações Tenoh, para alguma colocação em alguma empresa- disse Rika, sorrindo.
Storm olhou para Rika espantado. Ela... lhe daria um emprego honesto? Era melhor do que poderia imaginar! Poderia finalmente trabalhar honestamente!
- Não sei como agradecer...
- Então não agradeça- disse Rika, sorrindo.
Pouco depois, Cassie voltava com uma pequena mochila nas costas. Tinha precisado comprar uma ou outra peças de roupa durante sua estadia fora de casa, mas nada que pudesse substituir as roupas que tinha em casa, e que queria vestir. Após os cumprimentos de despedida, Cassie disse:
- Não é muito tarde, mas eu não gostaria de ir sozinha para casa. Alguém me acompanha?
- Eu me ofere... AI! - Ishtar já ia falando, mas Sarah a beliscou antes que concluísse a frase.
- Eu te acompanho. Não precisa carregar sua mochila, eu levo para você- disse Storm, levantando-se.
- Então vamos- disse Cassie, sorrindo.
Storm passou o braço pelo ombro da companheira, enquanto saíam da sala observados pelos companheiros. Rika, Sarah, Jack e Ryo trocavam sorrisos, como quem dizia que certamente teriam novidades no dia seguinte, enquanto Ishtar não estava entendendo direito o que estava acontecendo. Por que Cassie-chan preferira que Storm-kun a levasse? Que coisa, estava se sentindo isolada! E qual o motivo daqueles sorrisos bestas nos seus companheiros?
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Um prédio residencial em Juuban, residência de pessoas de classe média-alta. Era difícil arranjar apartamentos tão grandes em Tóquio... Três quartos, uma sala grande, cozinha espaçosa... O casal de ingleses conseguira um excelente negócio se mudando para esse prédio quando chegaram ao Japão, coisa de vinte anos antes. A filha desse casal tinha um belo patrimônio, tinha recebido uma boa herança, como podia ser observado no apartamento. Porém, isso não fora o suficiente para garantir sua felicidade e mesmo sua integração com outras pessoas.
O porteiro cumprimentava a jovem moradora, andara preocupado com o que vira no jornal, e declarava-se aliviado por não ter acontecido nada demais. Cassie, porém, estava ansiosa para ir para casa, e foi o que aconteceu depois de alguns poucos minutos de conversa. Ao abrir a porta, nem se importou em estar ao lado de Storm: tirou os sapatos e entrou correndo, mergulhando no sofá e rindo:
- Estava com saudades daqui, pensei que nunca mais veria minha casa outra vez!
Storm sorria, enquanto tirava os sapatos para entrar. Sim... Ela parecia mesmo estar feliz em voltar! E sentia uma leve inveja dessa felicidade... Queria ter um lugar para voltar, também, um lugar para sentir saudades. Não que não sentisse de sua família, mas sabia que nunca seria recebido novamente por eles, mesmo se tivesse oportunidade de voltar para Santos. Cérebro, também. Não pudera fazer nada por ele e tinha certeza que já era tarde demais. Só não iria se lamentar toda vida pelo inevitável...
- Nossa, mas que bagunça! Você vai pensar que sou uma desorganizada- disse Cassie, enquanto pegava um ou outro livro que estavam no chão.
- De jeito nenhum. Sua casa é bem arrumada para a de uma garota da sua idade que vive sozinha.
- Acha mesmo? Obrigada, então!
Cassie andava de um lado para o outro, primeiro levando um livro, depois levando sua mochila para dentro... De repente, parou como se tivesse lembrado de algo muito importante:
- O Sweet Joe!
- Quem é esse?
- Meu peixe de estimação que... que... que...- ela olhava fixamente para o aquário, onde o corpo sem vida de seu peixe boiava. - ...morreu...
A alegria de outrora desapareceu em um instante, enquanto uma expressão de choque estampava-se no rosto da jovem. Aquele que fora seu companheiro por tanto tempo tinha a deixado! Sabia tanto que a vida é efêmera quanto que seu peixe, apesar da alegria e conforto que a dava, nunca sequer suspeitara de sua existência, mas sofria:
- Ele era meu único amigo...
Uma pequena lágrima rolava por seu rosto, lágrima essa que parou em uma mão que acariciava seu rosto e não deixava que mais lágrimas caíssem. Sentia que estava sendo envolvida por braços fortes e que os lábios do dono desses braços encostavam-se nos seus. Sentia também a língua dele e isso era... estranho, mas depois foi se tornando tão gostoso! Nunca tinha beijado antes e estava adorando a sensação! Porém... ele se afastou...
- Desculpe, eu não resisti, mas prometo que não vai se repetir mais...- Storm estava um tanto encabulado.
- Não precisa pedir desculpas...
Agora era a vez das mãos delicadas da garota passearem pelo rosto do jovem devagar, com o máximo de carinho que podia dar. Passeavam também pelos cabelos castanho-escuros que caíam levemente sobre seus olhos, mas para tirá-los dali. Os olhos castanhos liam a vontade dos olhos verdes em sua frente e não demorou mais do que poucos instantes para que esses olhos se fechassem para um novo beijo...
Um casal nascia naquele dia, porém não seria exagero dizer que demorara. Ambos haviam se apaixonado assim que colocaram os olhos um no outro e era o sentimento mais profundo de qualquer um que já tivessem sentido. Não estavam mais sós, agora teriam alguém para compartilhar tanto sentimentos quanto sensações, tanto pensamentos quanto o próprio corpo... Eram mais do que amigos ou mesmo amantes... Tinham se encontrado e, se não houvesse nenhum acidente de percurso, ficariam juntos para toda a eternidade, a partir daquele momento.
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