Ao entrar na Pousada a recepção estava vazia, subi as escadas sem maiores problemas e notei que a minha porta estava somente encostada. Terminei de abri-la e notei que a cama estava trocada, as toalhas limpas e tudo o mais que se deveria esperar estava no lugar, mas o recado da porta aberta havia sido dado… E, por Deus, eu não precisaria passar por esse medo a noite toda! Graças ao James!
Peguei um moletom surrado, minha pasta dental e escova além da minha toalhinha de rosto e fechei a porta com a chave, indo para o banheiro que estava aberto e, ao passar pela porta do meu salvador, bati de leve e avisei que ia ao toalete, ouvi um "ok" lá de dentro e assim fui me preparar. Ao olhar no espelho não acreditei o quanto meus olhos estavam "sumidos" de tanto chorar. Eles já eram pequenos, mas pareciam de uma oriental; eu também parecia mais velha… Quase não me reconheci no espelho e, foi nesse instante, que eu disse a mim mesma: "Não vou permitir que alguém faça isso comigo! Não permitirei que nada me seja tirado! Ainda mais de alguém sem escrúpulos! Eu sou forte, sou muito mais forte do que imagino e vou tirar forças desse momento. Eu vencerei!"
Essa autoafirmação acalentou meu Espírito e, imbuída dela eu entrei no quarto de James; moletom puído e chinelos no pé. Ele estava de calça de moletom também, e só. Se estivesse num outro momento da vida, teria podido elogiar o físico malhado dele, mas só anotei mentalmente isso e a quantidade de pelos espalhados pelo tórax. Ele me olhou de cima embaixo e disse: "É isso aí, garota! Seja lá o que tenha descoberto, funcionou melhor do que qualquer "terapia" que eu pudesse fazer, parabéns!" - e estendeu a mão para que eu tivesse meu reconhecimento fixado na mente.
"Nada melhor que uma boa olhada no espelho, né?" - estendi a mão também.
"No espelho da alma, hein?" - e piscou. "Olha, o sofá que eu falei era esse aqui, bem mais perto da porta e a sua cama é aquela lá, já tá te esperando. Eles trocaram todos os lençóis, o serviço de quarto aqui é muito bom, né? Fique à vontade, se quiser dormir, se precisar chorar, se precisar conversar, estou aqui, guria." - e se jogou no sofá, cruzando as pernas e colocando as mãos na nuca se ajeitou todo, me deixando mesmo à vontade naquela cama de casal gigante.
Senti um piri-piri tão grande que saí correndo pro banheiro, gritando onde ia e que já voltava. Só consegui ouvir uma risada dele, espero que pela situação e não de mim, nunca saberei… Ao voltar, dei uma olhada geral no quarto e vi que tinha a mesma janela gigante que o meu, as mesmas cortinas e a mesma visão das Rochosas do lado de fora, com a Lua entre nuvens aparecendo de vez em quando e mostrando as várias árvores lá atrás que se estendiam até perder de vista. Sentei na cama, com a intenção de anotar o que me aconteceu, para que depois minha mente não invente ou complete frases... Mas ao começar a escrever, novamente tive que correr pro banheiro e, ao voltar, encontrei James com um copo de água e uma pílula nas mãos: "Tá a fim de parar com essa correria? Toma isso, ok?" e eu não questionei. Peguei os dois itens e tomei, agradecendo e sentando novamente na cama. Ele sentou do meu lado, com alguma distância e ponderou: "'cê sabe que 'tá sendo muito forte em relação a tudo isso, mas que não precisa se fazer de forte, né? Não tem problema nenhum em conversar mais, expor possíveis fragilidades. Se não for comigo, que seja com seu marido ou namorado, sabe? Ou mesmo com alguém da sua família. Foi o que 'cê disse: aqui não é Vegas, o que aconteceu aqui vai te acompanhar por algum tempo e isso precisa ser resolvido, saca?"
"Fica tranquilo, eu me olhei no espelho e decidi que não vou deixar um perdedor como aquele cara me atormentar, me fazer parecer cansada, mais velha ou desiludida. Eu tenho minha família pra conversar sim, mas não sei o quanto eles precisam saber disso. Só vou descobrir quando e se bater uma "bad", né não?" - e sorri, agradecendo e tentando deixá-lo tranquilo. Eu não estava fingindo essa melhora, eu realmente tinha optado seguir em frente, como alguém que escuta seus próprios conselhos.
Ele voltou pro sofá mais resignado e, pra mim, o sono foi chegando de tal forma que não consegui conter por muito tempo, fiquei me imaginando se aquela pequena pílula tinha algo a ver com isso… O sono foi agitado mas eu não tive noção disso, só depois que James me contou no dia seguinte...
Ele também me contou que estava no sofá e, lá pela meia noite ouviu passos no corredor -eu não sei como, já que a porta era extremamente larga e impedia qualquer passagem de som!- e alguém tentando forçar a abertura da minha porta. Ele disse que deixou a pessoa fazer todo o trabalho e que, ao ouvir abrir a porta, levantou rapidamente também, abrindo a dele e entrando com tudo no meu quarto. Não deu outra! Era John querendo tirar satisfação do que havia acontecido... Meu salvador não me disse no dia seguinte o que ele fez ou o que conversaram, mas o filho do sr. Crow não esperou os investigadores irem até a pousada, ele mesmo se apresentou na delegacia e informou que havia tentado algo contra meu consentimento...
O que eu vivenciei é o seguinte: Em meio daquele sono perturbado, ouvi novamente um grito, dessa vez parecia mesmo humano e era de dor profunda, quando levantei de supetão da cama, consegui ver James já de pé, atrás da cortina, ao lado da cama. Ele somente fez sinal com o dedo pra eu me manter em silêncio e foi o que fiz... Ele voltou a olhar pra escuridão que às vezes era clareada pela luz da Lua e foi quase possível ouvir rumores abaixo da janela, bem próximos de nós. Meu estômago deu um nó e me veio uma vontade de gritar, mas James sentou-se na cama e cobriu levemente minha boca com a mão, enquanto continuava a prestar atenção lá fora e, se não me engano, a respirar profundamente, como que procurando algum odor...
Minha mente estava tão cansada por não dormir direito, pelos perrengues que havia passado durante o dia que já não concatenava muito bem as coisas mas, se ele realmente era capaz de fazer isso, nada impedia que fosse quem eu havia pensado desde o início! James Howlett, a.k.a. Wolverine, a.k.a. Logan, a.k.a. Caolho, a.k.a. Arma X e outros mais!
Quando os sons pararam no lado de fora e foi possível perceber o movimento de algumas árvores bem adiante, ele retirou a mão da minha boca e soltou: "Precisamos conversar, guria...", ainda em voz baixa.
"Que diabos foi aquilo?! Alguém foi morto? Era um grito humano de dor, não?!" - foram as únicas sentenças que eu consegui soltar, com os olhos arregalados e sussurrando, imitando o comportamento daquele que sabia o que estava fazendo.
"Olha, eu sei que pode parecer bizarro, mas eu estou aqui pra "caçar" essa coisa, seja lá o que for e fazer com que pare de matar animais; eu queria ter conseguido antes de ele matar alguma pessoa, mas acho que não tive essa felicidade... Fato é que, respondendo às suas perguntas: eu não sei se ele é o diabo, mas se for será mais complicado do que imaginei; com certeza alguém foi morto sim, pois era um grito de mulher e, não sei se você notou, mas ele estava bem abaixo da nossa janela -eu acenei positivamente com a cabeça- e foi o suficiente pra eu conseguir sentir e gravar o cheiro dele -fiz uma cara de "wtf?"- ao que ele respondeu: "e é sobre isso que precisamos conversar..."
"Então conversemos, James!" - eu assenti baixinho e com a cabeça.
"Não dá pra ser aqui, não quero correr riscos… 'cê aceita ir comigo até meu carro e irmos até uma cabana perto daquele lago, antes da floresta de pinheiros? Se não quiser, eu entendo, 'tá?"
"Olha, as paredes e portas dessa pousada são bem grossos, que riscos você poderia correr ao conversarmos aqui eu não entendo… Mas eu costumo ser uma boa julgadora de caráter e já notei que o teu é confiável, portanto, aceito ir!" - ele entrou atrás do biombo e saiu de lá com uma camiseta regata branca sobre o moletom cinza que usava, calçou tênis e pegou a chave do carro:
"Ótimo! Vamos!"- abrindo a porta e me esperando colocar os chinelos.
Era madrugada ainda e o frescor da noite outonal ficava úmido pela quantidade de árvores naquele local. A porta da frente da pousada parecia fechada com chave, mas James não teve dificuldades em abrí-la com um pequeno tranco, deixou-me passar e saiu em seguida, apertando o controle do carro e destravando as portas. Dessa vez, a urgência em conversar era tanta que o cavalheirismo tinha deixado de existir. Rumou para o lado do motorista, todo impaciente, já ligando o carro antes de eu colocar o cinto.
O tal lago ficava cerca de 8 minutos da pousada, mas James fez em cinco. A cabana era fora da estrada, pegando uma trilha de terra que contornava o lago em ¼ da sua circunferência. Era toda de madeira, construída com toras bem grossas de madeira escura e parecia estar há muito tempo sem nenhum habitante. A brecada foi brusca e a iminência evidente. Ele saltou do carro e foi na direção da porta, abrindo-a com uma chave que estava enterrada num vaso de cactus ao lado da porta. Ao entrarmos, vi a lareira logo na parede oposta à porta, um sofá de cinco lugares um pouco distante dela, no meio do caminho entre a lareira e a porta por onde acabáramos de entrar. Do lado esquerdo uma pesada peça de couro pendurada no teto separava o local de descanso e do lado direito uma pequena, mas completa cozinha finalizaram o quadro.
"Senta onde achar mais confortável, guria… Apontando pro sofá" - ao que percebi terem espécies de "puffs" nas laterais do sofá e uma grande almofada colocada diante da lareira, com espaço para duas pessoas. Tudo naquela cabana era bem intimista, aconchegante, o sofá era a única peça que destoava desse quadro, permitindo a reunião de mais pessoas. Amigos, talvez? Agradeci com a cabeça e rumei para o sofá mesmo, mais próximo de uma das laterais. A minha cabeça começava a latejar de dor, pelas poucas horas de sono… Coloquei a mão instintivamente nela e James rumou para a cozinha, abrindo um dos armários e tirando um café em pó solúvel, junto com um chocolate em pó e fazendo uma bebida com leite morno pra nós dois. Definitivamente, seus movimentos denotavam o quanto conhecia aquela cabana e seu silêncio o quanto ele queria evitar aquela conversa…
"Olha, você tem certeza de que eu preciso saber o que tem pra me contar? Dentro de duas semanas estarei no Brasil, longe de tudo isso e de toda essa "confusão" que minhas férias se transformaram… Vale a pena?" - tentei puxar conversa e assegurar que eu não tinha, apesar de ter, nenhuma curiosidade quanto ao que ele pretendia me contar.
"'cê "notou" que 'tá sendo complicado pra iniciar a conversa, né?... Eu demoro, mas chego lá! E acho crucial que 'cê saiba, Liura…" - terminando de remexer o cappuccino.
