ESSÊNCIA


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Sétimo capítulo

"A morte escolhe a dedo suas vítimas?"

Sakura vocalizou os pensamentos, tamanha a surpresa que tivera. Observava, sem compreender, os pontos isolados no mapa, nos quais ocorreram os supostos surtos da doença.

"O que isso significa? Se as pessoas são envenenadas através da água, não deveria ter afetado um grupo tão restrito."

A garota havia pesquisado o problema a fundo e descobrira que o sistema de distribuição e tratamento da água é o mesmo para todas as residências desta cidade. Caminhou em círculos no interior do aposento, pensativa e impaciente por não conseguir encontrar respostas.

Havia muitos problemas com os quais se preocupar, decidiu inverter um pouco as prioridades e focar sua atenção temporariamente nos que já estavam envenenados em vez dos que poderiam ser as próximas vítimas.

"Ao que tudo indica, todos beberam a água, mas apenas alguns manifestaram sintomas... Seria predisposição genética?"

A médica-nin verificou o quadro de saúde de cada paciente e, como da outra vez, os exames não reconheciam quaisquer substância nociva presente na corrente sanguínea.

O último paciente que a kunoichi visitou foi Sai, o caso mais recente de contaminação era o do moreno. Colocou-se de pé ao lado da cama na qual o moreno repousava, percebeu que ele já havia retornado à palidez usual, embora ainda estivesse inconsciente.

"Se eu tivesse, pelo menos, uma gota desse veneno, poderia produzir o antídoto a partir dela..."

Vieram à tona as memórias de como a médica descobriu que se tratavam de casos de envenenamento. Involuntariamente, corou ao lembrar do toque voluptuoso da língua de Sai dentro de sua boca, mas também do gosto amargo que sentira.

De repente, a ideia surgiu como se fosse um estalo. Existia a possibilidade, embora remota, de que ainda houvesse resquícios de veneno na saliva do ANBU e, mesmo que fosse verdade, como Sakura poderia ter certeza?

O gosto amargo...

Respirou fundo e reunindo toda a coragem que possuía, a kunoichi sentou na cama e inclinou o próprio corpo para frente, deixando o rosto a poucos centímetros da face adormecida de Sai.

Sentia o arfar quente do moreno em seu rosto, hesitou uma vez, fechou os olhos com o intuito de concentrar-se e entreabriu os lábios aproximando-o lentamente dos de Sai.

"Escovou os dentes primeiro?"

A voz masculina a surpreendeu e, assim que abriu os olhos, Sakura encarou dois orbes negros e opacos. Jogou-se para o outro lado da cama por reflexo, ainda não totalmente recuperada do susto, viu Sai sentar-se sem maiores dificuldades.

"Desde quando está acordado?!" Questionou ao sentir-se encurralada.

"Desde que senti o cheiro do seu mau hálito."

Na realidade, o moreno havia despertado antes de a médica entrar no aposento, mas durante a presença dela, fingira o tempo todo que estava dormindo.

"Daquela vez, eu fiquei em dúvida, mas hoje tive certeza."

"Do que está falando?"

"Naquele dia em que eu roubei um beijo seu... Foi o seu primeiro, não?"

Sakura corou da cabeça aos pés, Sai apenas riu com a reação da garota.

"I-Isso não tem nada a ver com a situação atual."

"Como, não? Você gostou tanto que quis me beijar de novo."

"Baka! Quem me beijou hoje foi você, esqueceu?"

"Porque eu não tive escolha. Você é muito burra, Feiosa, eu tentei te avisar várias vezes sobre o veneno, não pense que eu sinto prazer em beijar uma garota horrenda feito você."

"Pois sabia que eu também estava trabalhando, eu queria apenas retirar uma amostra de veneno da sua saliva para produzir o antídoto."

"Quando te beijei a primeira vez, você estava muito insegura, logo constatei que não tinha experiência. Depois do segundo beijo, apenas confirmei... Quer saber a verdade, Feiosa? Você é uma pessoa previsível demais."

Sakura tentava esconder a vergonha com a irritação, isso fez apenas com que Sai cutucasse ainda mais a sua ferida.

"Você não sabe nada sobre mim."

"Digo o mesmo de você, Feiosa."

"O que mais eu preciso saber de você além de que é um cretino irritante?!"

Sakura tentou levantar-se da cama, mas Sai a puxou com força pelo braço, fazendo-a cair em seu colo. A garota sabia que, embora o moreno demonstrasse indiferença às ofensas durante a maior parte do tempo, às vezes apresentava reações inesperadas como se perdesse a paciência e parasse de fingir que não se importava.

O rapaz entrelaçou os braços ao redor da cintura dela e a segurou pelos pulsos, trazendo-a para mais perto de seu corpo. Sakura sentiu uma mordiscada no canto inferior da orelha direita, a respiração quente e arfante também a incomodava.

Poderia ter facilmente se libertado se utilizasse a força que fora ensinada por Tsunade, mas Sai sussurrou no ouvido da garota, com voz rouca e suave, algo que a imobilizou por completo.

"Aquele também foi o meu primeiro beijo."

Abraçou a garota com mais firmeza, permitindo que ela repousasse a cabeça sobre o tórax dele. Como se embalasse um bebê, Sai mantinha a médica em seus braços, completamente ruborizada, e acariciava-lhe o cabelo de modo estranhamente gentil.

"Eu deixo, Feiosa..."

"Mas, exatamente o quê...? Posso saber?"

"Se você estava trabalhando,de fato, eu permito que vasculhe a minha boca com a sua língua à procura do veneno, produza o antídoto e salve todas aquelas pessoas."

A kunoichi não acreditou nas palavras que ouvira, no entanto ao inclinar a cabeça e encarar os olhos de Sai percebeu neles a ironia contida.

"Desde quando você é tão filantrópico? Sei que está mentindo, Sai."

"Hm, quer mesmo arriscar? Olha que o próximo que chegar aqui envenenado pode ser um velho banguela."

"Deve haver uma forma menos humilhante de obter um pouco de veneno."

"Não acha que é melhor deixar o orgulho de lado? A vida dos seus pacientes está em risco, inclusive a minha."

"Eu tenho um palpite."

Desvencilhou-se dos braços de Sai sem dizer mais nada sobre o assunto, em seguida, dirigiu-se à sala do diretor do hospital e pediu registros de todos aqueles acometidos pelo envenenamento.

O que Sakura acreditava é que deveria existir uma incapacidade genética para produzir anticorpos que combatiam o veneno ou uma fonte comum de contágio, pela qual as pessoas fossem envenenadas.

A primeira vítima -melhor dizendo, as primeiras vítimas- eram membros de um mesmo clã, mas todos já estavam mortos, inclusive as crianças. O segundo caso era de um senhor de idade avançada, também já falecido.

Era viúvo e não tinha filhos, Sakura questionou o fato de o homem ser o único que apresentou sintomas apesar de ter dezenas de empregados trabalhando em sua mansão. Pelo visto, a hipótese de envenenamento comum havia sido descartada e a da predisposição ganhava força.

"Na realidade, aquele senhor teve um filho com uma das empregadas da mansão há dez anos. Ele dava dinheiro a ela em troca do silêncio, eu também só sei dessa história porque fui médico dele por muito tempo."

"Então, o filho dele também morreu."

"Não, por incrível que pareça, continua vivo. Ele e a mãe ainda moram na mansão."

Sakura encontrou uma incoerência nas provas, obviamente, poderia ser explicada pela possibilidade da variabilidade genética, afinal o sistema imunológico dos filhos pode ter uma proteção que o dos pais não possui e vice-versa. Então, como explicar o caso do clã inteiro que foi aniquilado?

À medida que a médica se aprofundava na investigação, junto com o diretor, encontrava cada vez mais incoerências. Por fim, chegou à conclusão de que todos os casos tinham algo em comum.

Todas as vítimas de envenenamento pertenciam à elite, eram pessoas ricas e cheias de posses, enquanto não houve nenhum caso registrado entre a população mais pobre da cidade. Era um fato relevante demais para ser ignorado.

"Parece que alguém está se beneficiando com todas essas mortes."

O diretor do hospital observava abismado a todas as conclusões irrefutáveis às quais ele e Sakura haviam chegado. A kunoichi apenas ficou calada porque, de repente, tudo começava a fazer sentido.

"Não é possível! Isso quer dizer..."

"... Temos um caso de assassinatos em série."

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Unknow: Estou numa lan house e tentei reescrever essa sessão de cartas duas vezes, mas sempre desligam minha máquina antes da hora. Agradeço as reviews, mas vou deixar para respondê-las quando minha paciência estiver melhor. E para quem não deixou comentários, vê se não favorita também, isso só me deixa com menos vontade de atualizar a fic.