O terno sofisticado escondia com perfeição quem ele realmente era. Matheus di Cabrini, ironicamente, descendia de italianos. Um homem grande, de ombros largos, cabelos castanhos - parecidos com os de Aiolia - e olhos verdes. Dotado de uma elegância incomum para um homem tão alto, quase 1,95m, tinha uma envergadura generosa que ajudava na natação. Matt, assim como Ira, era atleta, mas não competia pelos Estados Unidos e sim pela Itália. Foram apresentados um ao outro numa festa promovida por um patrocinador em comum e, logo depois, as coisas começaram a acontecer rapidamente. Eles saíram uma, duas, três vezes, e, antes mesmo de oficializarem o relacionamento, a mídia já havia decretado que o destino daquele casal promissor era ficar junto. No começo tudo era incrível, perfeito, sem brigas ou discussões. Matt parecia ser o príncipe encantado dos sonhos de qualquer garota, e, de fato, ele foi encantador durante boa parte do relacionamento; até o dia do pedido de casamento, para ser mais preciso. Naquele instante o relacionamento deles começou a ruir, devagar e dolorosamente, culminando na traição de duas semanas atrás.
- Não vai dar um beijo no seu noivo, querida? - Ele falou de forma calma e natural, como se nada tivesse acontecido.
- C-como? - Ela engasgou, perplexa com a pretensão do ex.
- Estou com saudades, meu amor. Duas semanas! Você sumiu. - Ele tentou tocar-lhe o rosto, mas a mão de Ira repeliu o contato com rapidez.
Respirou bem fundo, tentando manter a calma, pois dentro dela crescia uma vontade louca de dar-lhe um soco e gritar. Não estava acreditando naquela situação. Virou a cabeça para o lado, olhando Matt com escárnio transbordando de seus orbes azuis. Queria voar no pescoço dele, cravando suas unhas vermelhas na pele bronzeada.
- Seu filho da puta. - Falou de forma pausada e baixa, quase sibilando - Você não é mais meu noivo e nem eu sou seu amor. Desapareça daqui, Matt.
- Vamos lá, meu anjo. Ficamos muito tempo juntos para acabar desse jeito. Eu te amo! Aquilo foi só... só... um momento de fraqueza. - Tentou explicar.
- Momento de fraqueza?! - Estreitou os olhos, incrédula com as palavras dele - Você me expôs, seu babaca, pro mundo todo! Eu chorei, fiquei sem dormir, remoendo tudo que tinha acontecido.
- Ainda da pra consertar isso, Ira! - Insistiu, tentando pegar a mão dela.
- Não me toque! - Alertou afastando-se mais dele, mas sem se levantar - Eu cancelei tudo, inclusive o apartamento onde iriamos morar está à venda. Acabou, Matt. Já tinha acabado antes mesmo de você me trair.
- Não acabou! - Dessa vez Matt alterou a voz e se levantou, pegando-a pelo braço de forma agressiva. - Só vai acabar quando eu quiser, meu anjo. Entendeu?
O rosto de Ira se tornou no retrato da agonia. A mão de Matt apertava seu braço com força, mas o que mais a incomodava era o seu olhar obcecado, quase maníaco. Nunca tinha visto o ex-noivo daquela forma. Chega a dar medo, pensou, ao tentar se soltar sem muito sucesso.
- Então podemos passar à noite juntos...- Passou as costas da outra mão pelo rosto da ex-noiva, ignorando a expressão agoniada dela. - E por que está usando essa cor de batom? Não gosto quando você usa cores escuras. Também não está usando o anel que eu te dei.
- Me solta, Matt. - Pediu, já sentindo medo do comportamento dele. - Eu vou gritar se você não soltar...
- Ah! Mas você seria incapaz disso. - Disse, se aproximando - Incapaz de um escândalo. Você sabe, seria um escândalo.
Ela estava cada vez mais encolhida, apavorada com aquilo tudo. E ele parecia cada vez mais próximo, agora segurando seu queixo para que Ira levantasse a cabeça em sua direção. Sentiu que ia começar a chorar quando ouviu a voz rouca de Jon.
- Não se trata uma mulher assim, meu jovem. - Ele trazia uma garrafa cheia na mão e uma expressão desgostosa no rosto.
- Quem você pensa que é pra se meter nisso, velho? - Matt rebateu cheio de escárnio.
- Eu posso não ser ninguém importante, mas aquele rapaz parece bem zangado. - Respondeu ao apontar para o belo homem de cabelos azuis.
Afrodite entrara no bar pouco depois de Jon. Logo seu perfume se espalhou pelo ambiente e Ira soube imediatamente quem era, sem nem mesmo ter que olhar para ele. Tinha uma mão dentro do bolso da calça social azul-marinho e a outra detinha uma rosa vermelha e brilhante. Os olhos azuis-claros estreitaram-se quando viu quem segurava o braço de Ira.
- Estava procurando você Ira. - Afrodite falou como se Matt não estivesse ali. - Esqueceu que ia jantar comigo?
A ruiva quase respondeu que não sabia do que ele estava falando, mas percebeu que Matt a soltava lentamente, enquanto olhava para trás, direto para o Cavaleiro de Peixes. Este, por sua vez, limitou-se a olhá-lo com um desprezo intimidador. - Não acredito que você está saindo com esse tipinho, Ira. - Matt virou completamente para Afrodite, analisando cada detalhe do pisciano. - Gosta de modelos agora? Sempre me disse que eles eram tão fúteis.
Tipinho? Pensou, irritado. Teve vontade de enfiar aquela rosa no pescoço daquele insolente, varias e varias vezes.
- Matt! Por favor, não...
- Tudo bem, ruivinha. - Afrodite se aproximou de Matt, cruzando os braços na altura do peito e fuzilando-o com o olhar. Era consideravelmente mais baixo que o nadador, apesar de muito mais bonito e distinto.
- Só vou dizer uma vez, então escute. Suma daqui e não toque na Ira desta forma novamente, entendeu? Porque, se o fizer, não haverá uma terceira vez.
- Seu pretencioso de merda! - Grunhiu Matt, levantando o pisciano pela gola da camisa e sacudindo-o. - Acha que eu tenho medo de você, é?
- Deveria. - Afrodite respondeu com deboche, envolvendo o pulso do seu "agressor" com uma das mãos e apertando mais e mais.
- Larga ele, Matt. - Ela estava tensa com a situação. Olhou para Jon à procura de ajuda, mas o homem permanecia duro atrás do balcão, tão tenso quanto ela. Se Afrodite perdesse a calma não seria nada bom.
O pisciano continuou comprimindo o pulso do nadador até sua expressão mudar de prepotente para receosa. Queria vê-lo acovardado agora, pois não suportava que lhe julgassem pela aparência.
- Você tem sorte. - Observou quando a mão de Matt soltou sua camisa. - Eu tenho um amigo que teria cortado sua cabeça só pelo fato de ter falado com ela.
- Me solta! - Matt puxou o braço, mas Afrodite nem se mexeu. - A força dele não é humana... Vai quebrar meu pulso se continuar assim.
Matt continuou encarando Afrodite, orgulhoso demais para admitir sua dor.
- Vai embora agora? - Perguntou o pisciano. - Não vou te machucar muito se você for.
- Não! Eu não vou sair daqui, seu...
Foi impedido de continuar pela dor que subiu de seu pulso, tomando conta de todo o corpo. Caiu, meio desajeitado, sobre os joelhos, sentindo o pulso latejar de forma alucinante.
- Suma! - Ordenou Afrodite que se abaixava na frente dele, ainda segurando seu pulso com força. - É sua última chance.
Ele pareceu entender o recado, pois saiu em direção a porta e logo depois sumiu de vista, mas não sem antes dar uma boa olhada para o homem de cabelos e olhos azuis.
- Você não devia ter se metido. - Repreendeu Ira, que massageava o local onde Matt a segurara. - Por sorte o lugar não está cheio.
- E você não devia ter saído sozinha, muito menos se preocupar tanto com a sua imagem. - Devolveu Afrodite, sentando-se no lugar que Matt ocupara minutos antes.
- Eu não preciso avisar, Afrodite.
-Precisa. - O pisciano colocou a rosa que estava na sua mão nos cabelos de Ira - Tem um maluco atrás de você. Um maluco grande e forte, devo acrescentar.
- Foi a primeira vez que ele agiu dessa forma. - Admitiu, sentindo o aroma agradável e marcante da flor acalma-la. - Bom... obrigada por aparecer.
- Que tal agradecer jantando comigo? - Sugeriu com um sorriso agradável no rosto.
Ira pensou se realmente era uma boa idéia jantar com o pisciano.
Não sabia a resposta, mas tinha consciência da sua fome com fome e o estômago não agüentaria mais álcool se continuasse vazio. Além disso, estava decidida que não cairia nos braços de qualquer homem que fosse gentil com ela.
- Seria ótimo. - Respondeu, vendo o sorriso de Afrodite crescer.
Não podia negar que o pisciano era uma companhia muito agradável, sempre com um elogio, uma palavra bonita ou uma rosa. Era, também, inteligente e bastante sensível. Sua beleza magnética fazia com que todos olhassem o casal e cochichassem: "Quem é ele? Será um ator de cinema?". Ira havia descoberto isso durante a última semana, mas essa seria a primeira vez que saiam juntos (se é que aquilo podia ser chamado de encontro). Quando sentaram no luxuoso restaurante, numa mesa bastante reservada, a ruiva perguntou:
- Meus Deus, o quê você é? - E olhou para trás, vendo o garçom que atendia-os quase tropeçar por não conseguir parar de olhar o pisciano.
- Nasci irresistível. - Respondeu cheio de si, mas sem deixar o ar divertido sumir.
- Conta outra, Afrodite. Aliás, qual o seu nome de verdade? Quer dizer, você não se chama Afrodite. Não é?
O homem de cabelos azuis riu. Claro que não se chama Afrodite, mas também não costumava sair falando seu nome por ai, além do apelido combinar muito com ele.
- Estou achando você muito curiosa a meu respeito, ruivinha. - Disse tentando desviar do assunto.
- Eu sou mulher. Minha natureza é curiosa. Ou talvez seja só o álcool.
- Acho que, por enquanto, Afrodite está de bom tamanho para você. - Sorriu, tentando apagar a provocação que havia ali. - Poucas pessoas sabem meu verdadeiro nome.
Um lampejo de irritação passou pelo rosto de Ira, mas o pisciano fingiu não notar isso.
O garçom voltou e serviu o vinho tinto para o casal. Novamente, não tirou os olhos de Afrodite.
- Então, como você está? - Perguntou antes de bebericar o vinho, provando-o - Quer dizer, seu ex e tudo mais.
- Me senti estranha. Com um pouco de nojo até. Não sei explicar, mas ele despertou muito mais raiva do que amor em mim.
- Fico feliz com isso. Um homem daqueles não merece uma mulher como você.
Ela ficou corada e sem saber o que dizer. Aliás, Afrodite constantemente deixava-a dessa forma. Seguiram conversando sobre coisas casuais, rindo e bebendo. O jantar foi servido em pequenas porções, numa apresentação impecável de pratos. Mais tarde, já na sobremesa, Ira insistiu que Afrodite devia pedir crème brûlée regado com chocolate, enquanto o pisciano parecia mais interessado no bombolone de chocolate belga. No fim, cada um pediu a sobremesa que queria já que não conseguiram entrar num acordo.
- Deixa eu provar um pouco! - Insistiu Afrodite, tentando pegar um pedaço do doce da ruiva.
- Não! Não vou dividir o meu. Sou egoísta com doce! - Ela bateu com a sua colher de prata no garfo dele.
- Má! - Reclamou, derrotado - Está aprendendo com aquele egoísta do Máscara da Morte.
A colher de Ira, que estava na metade do caminho até sua boca pintada de vinho, parou e voltou para o prato. Vinha esperando uma oportunidade de perguntar aquilo e, aparentemente, tinha chegado a hora, mas antes que ela perguntasse Afrodite adiantou-se:
- Quer saber qual o meu relacionamento com Máscara da Morte, não é?
Ela corou quando ele perguntou.
- Essa resposta é muito simples. - Ele continuou, escondendo o divertimento que sentia ao falar aquilo - Fazemos sexo quando estamos carentes, ou simplesmente por fazer.
Ficou ainda mais corada, sentindo o rosto arder violentamente.
- Basicamente a mesma coisa que você e Shura fazem. - Completou, querendo ver qual seria a reação dela.
- Não! - Ela exclamou, imediatamente, fazendo algumas pessoas olharem - Nós não... bom... você sabe. - Estava vermelha, muito vermelha.
- Vocês não transaram? - Indagou, surpreso.
- Claro que não!
- Mesmo?
- Mas é claro! - Ira gesticulava de forma nervosa.
- Nem uns amassos mais quentes?
- Bom, depende do que você considera um amasso mais quente... acho que não.
- Porra! Não teve nem mão boba?
- Afrodite! - Ela o repreendeu - Quer, por favor, parar!
- Desculpe, mas o Espanhol é lento demais.
Ira defendeu Shura, dizendo que ele era um homem muito íntegro e honrado, enquanto Afrodite batia na mesma tecla: ele era lerdo, ou gay. Ela chamou-o de pervertido e ele disse que era mesmo, deixando-a derrotada e sem mais argumentos.
Enquanto isso...
Largou a tipóia no quarto. O braço doía, mas não era nada insuportável. Saga que se foda, eu estou saindo.
Sentia-se bem quando vestia calça jeans, camiseta e tênis para dar uma volta pela cidade. Caminhava pelas ruas muito bem acompanhado de uma garrafa de bolso cheia de whisky, à procura de algo para fazer. Andou um pouco mais até parar na frente de um letreiro vermelho que, apesar da cor, era pequeno e discreto. Não era o tipo de lugar que "pessoas de bem" freqüentavam, pelo contrário, aquilo era um típico "inferninho". E ele adorava. A garrafinha metálica foi levada à boca e ele sorveu um longo gole. A bebida estava quente, mas isso não pareceu incomodá-lo em nada.
Entrou pela porta pesada de metal e desceu uma escadaria estreita, iluminada pela luz vermelha que vinha do teto baixo. Saiu da escada num corredor mais amplo e virou à direita, chegando numa típica boate de stripper. O ambiente era escuro, barulhento, cheio de homens bêbados e mulheres seminuas. Avançou até o meio do local olhando para uma mulher morena que, dentro de uma grande taça de martíni, divertia alguns homens ao jogar água no próprio corpo. Era bastante jovem - provavelmente menor de idade - e bastante bonita, mas não era o que ele estava procurando naquela noite. Olhou para uma das loiras que fazia pole dance, mas esta também não era satisfatória. Bufou irritado e bebeu mais do whisky.
Então uma jovem segurando uma bandeja na mão direita apareceu. Ela se vestia de forma provocante com um vestido justo e curto, assim como todas as outras mulheres que serviam bebidas, mas parecia a única de cabelos compridos, lisos e ruivos. Ruivos como os de Ira. Chegou perto da mulher e puxou-a pelo braço, indo direto ao ponto.
- Quando você cobra, garota? - Perguntou com seu típico tom rude.
- Eu apenas atendo, senhor. - Ela respondeu de forma seca, mas sem parecer ofendida. - Não sou prostituta.
Não tinha só o cabelo ruivo, mas os olhos também eram azuis e traços do rosto delicados, quase angelicais. Corpo bonito e, também, não era muito alta. É perfeita.
- Eu pago 600 euros. - Ofereceu, sabendo que aquela quantia era muito superior ao que normalmente se cobrava ali.
A ruiva arregalou os olhos para a proposta, pois aquela quantia equivalia a quase metade do seu salario. Nunca tinha recebido uma proposta tão tentadora em toda a sua vida, sem falar que aquele "extra" aliviaria suas dívidas.
- Eu tenho um intervalo em 30 minutos. - Informou, observando-o com mais atenção agora. Percebeu que era jovem e muito atraente, diferente dos homens mais velhos que, geralmente, pagavam tanto assim. Não era a primeira vez que vendia o corpo, embora só o fizesse quando a proposta era realmente muito boa. E 600 euros era dinheiro o suficiente para isso. - Me espere aqui.
Ele assentiu e esperou no bar, observando a ruiva servir aquele bando de bêbados. Algum tempo depois ela deixou a bandeja atrás do balcão e foi até ele, guiando-o para um corredor cheio de portas. Ouviu mulheres gemendo e homens rindo de prazer e satisfação. A ruiva entrou no primeiro quarto com a porta aberta que encontrou, fechando a entrada logo depois. Havia apenas uma cama de casal e uma cômoda. O teto estava manchado por um início de vazamento e o papel de parede azul já estava rasgado em alguns lugares e encardido em outros.
- Vou te chamar de Ira esta noite. - Ele empurrou-a na cama, subindo sobre o corpo esguio logo depois.
- E eu vou te chamar de...? - Perguntou, tentando disfarçar o quanto aqueles olhos vermelhos a intimidavam.
A falsa Ira sentiu ao primeiro toque que aquele homem transbordava desejo. O rosto dele se aproximou e seus lábios tocaram o lobolo da orelha dela, que, instantaneamente, estremeceu. Logo depois, seu corpo ficou rígido de tesão quando ele sussurrou de forma rouca:
- Máscara da Morte.
Nova York
Afrodite e Ira tinham acabado de jantar e agora conversavam enquanto voltavam para seus respectivos quartos.
- Tem certeza que não quer sair? - Insistiu Afrodite pela quinta vez.
- Eu não posso sair. Estaria em todos os tablóides, Afrodite. E eu tenho um dia cheio amanhã, você sabe.
- Então ficamos aqui. - Simplificou, aproximando-se dela. - Tem uma garrafa de champagne no meu quarto. - Tocou o rosto feminino com leveza, olhando-a de forma intensa com seus olhos cristalinos. - Não vai sair em nenhum tablóide, eu prometo. - Sua voz tornou-se languida e ela não resistiu, fechando os olhos.
Enlouquecedor. Aquele cheiro era enlouquecedor. O toque do Cavaleiro era muito macio, e, imediatamente, Ira quis saber se seus lábios eram tão macios quanto.
- Afrodite... - Sussurrou. Ele estava tão próximo que ela podia sentir o calor de sua respiração.
Não soube dizer ao certo como aconteceu, mas quando deu por si já estava no quarto do pisciano. Beijavam-se com luxuria, enquanto sua mão despia Afrodite de sua camisa sem quebrar o contato dos lábios. Havia descoberto da pior forma - ou melhor, dependendo de como você vê a situação - que o Cavaleiro de Peixes não era qualquer tipo homem.
