Capítulo 6 – Passeio
O relógio despertou e eu acordei com as lembranças da noite anterior ainda preenchendo minha mente. Tomei meu café e corri para o hospital. Alfredo já estava bem melhor e receberia alta no fim da tarde.
– VOCÊ VAI TER UM ENCONTRO!
Alfredo soltou um grito estrondoso e uma das bruxas, quero dizer enfermeiras, parou na porta do quarto com uma expressão nada boa.
– Vô, fique quieto. – sussurrei e Alfredo franziu o cenho.
A enfermeira nos lançou mais um olhar mortal antes de voltar a seus afazeres.
– Bruxa! – eu ri e Alfredo se virou pra mim, esperançoso. – Estou tão feliz Bella. Quando vou conhecer seu namorado?
Revirei os olhos.
– Ele não é meu namorado.
– Ok, ok. Esqueci que entre vocês, jovens, é tudo dividido em categorias. – Fitei-o confusa. Categorias? – Quando vai me apresentar seu ficante?
Arregalei os olhos o máximo que pude e quase engasguei com minha saliva.
– Ficante? Que ficante o que vô.
– Peguete?
Oh, certo. Tragam uma maca porque estou prestes a enfartar!
– VÔ! Chega de categorias. Edward não se encaixa em nenhuma delas!
– Ah, então ele tem um nome. Edward. Gostei! Quando vou conhecer o... Edward, hã?
Inevitavelmente corei.
– Vô eu mal o conheço, então espere, ok?! Você está muito animado... até parece que é você que está prestes a se encontrar com alguém.
– Então é mesmo eu encontro. Eu sabia!
Alfredo gargalhou adotando uma expressão vitoriosa. Eu estava ferrada! Nota mental: pensar antes de falar.
– Não, não foi isso que eu quis dizer. É que, sabe, eu...
Droga! Não sabia o que falar. Pensa, pensa, pensa.
– Bella. – Alfredo me chamou.
– Espere! Estou pensando.
– Mas querida... – ele insistiu.
– Paciência é uma virtude. – Falei cantarolando.
– Ok então. – Ele falou desistindo e fitou os dedos de uma forma displicente. – Ao menos que você consiga encontrar uma fórmula mágica de teletransporte no meio de seus pensamentos é bom começar a correr.
– Mas o que...
– Está atrasada! – completou e sorriu travesso.
Ai meu Deus. Ai meu Deus. Ai meu Deus. Edward vai me matar, ou melhor, eu mesma vou fazer isso por ele. Será que havia algum equipamento cirúrgico perdido pelo quarto? Passei os olhos pelo lugar e não encontrei nada. E que tal o fio do soro?
Oh, certo. Chega de idiotices. Por tudo o que há mais sagrado, sem trânsito, por favor. Amém!
– Venho te pegar mais tarde. Te amo. Até mais.
Dei um beijo na testa de Alfredo e saí em disparada pela porta do quarto. Pude ouvir a sonoridade da voz dele que ecoou pelo corredor com um grito.
– Bom encontro!
Várias pessoas olharam pra mim. Ah, Alfredo Fontes... eu ainda te pego.
Parecia que o mundo hoje não conspirava contra mim. Não tive que enfrentar muito trânsito, porém isso não ajudou no fato de que eu já estava atrasada. Estacionei o carro na primeira vaga que encontrei e disparei para a praia. Olhei rapidamente para o meu relógio de pulso e o horário me afobou ainda mais.
Era nove e quinze.
E hoje Edward acabara de constatar que eu não era nada pontual. Ótimo Bella! Seu encontro começou muito bem.
Epa! Aquilo não era um encontro, obriguei-me a repetir.
Parei logo que alcancei a areia e tirei minhas sandálias, sentindo a areia fofa acariciar a sola dos meus pés. Passei os olhos pelo local e não encontrei Edward. Suspirei pesadamente.
– Ele foi embora. – falei em voz alta para mostrar à mim mesma o que eu havia provocado.
– Não, eu não fui. – disse a voz que eu tanto esperava ouvir atrás de mim. – Está atrasada!
Virei para encará-lo e ofeguei ao encontrar com o mar de esmeralda. Os olhos de Edward pareciam que estavam mais brilhantes, bonitos e misteriosos do que no dia eu que eu o conheci. Estava perfeitamente lindo.
– Me desculpe. – Sorri timidamente. – Achei que tivesse cansado de esperar e então resolveu ir embora.
– Eu nunca iria embora, Bella.
– Por quê?
– Porque eu tinha certeza de que você apareceria.
– E de onde vem essa convicção Edward? Eu não lhe dei minha palavra.
– Você não. Seus olhos deram.
Ok. Deixa eu recuperar o ar, porque depois dessa eu acho que estava tendo asfixia. Edward sabia mesmo como fazer alguém perder o fôlego e Deus! Obrigada por me dar a chance de ser esse alguém.
– E então. Onde iremos?
Eu olhei em volta e sorri.
– Já andou de bondinho?
– Não nessa vida.
– Ótimo! Acabei de descobrir a primeira parada do nosso roteiro.
Pegamos e bondinho e subimos o morro do Pão-de-Açúcar. Edward estava maravilhado com a vista e eu não ficava atrás. Fazia muito tempo que não ia ali e a vista já não me era tão conhecida.
– Fique onde está Bella!
Edward pegou uma câmera fotográfica e preparou-se para bater uma foto.
– Edward... a viagem é sua. O passeio é seu. Quem devia aparecer nas fotos é você! – Coloquei as mãos na cintura, revirando os olhos.
– Se o passeio é meu, tenho o direito de não sair nas fotos. Vamos lá, faça uma pose.
– Está bem. – respondi meio à contra-gosto. – Assim está bom? – Apoiei meu corpo no balaustre e dei meu melhor sorriso.
– Perfeito! – Edward sorriu e bateu a foto.
– E então?
Me aproximei e ele me fitou, pensativo.
– Você é linda!
Abaixei os olhos imediatamente e senti a ponta dos meus dedos suarem. Meneei a cabeça para me livrar da timidez e voltei a encará-lo, ignorando a sua última afirmação.
– Como sua guia eu exijo que tenha uma foto sua para guardar de lembrança. Para ter uma prova de que um dia esteve aqui.
– Como quiser!
Edward foi até um homem que estava por perto e lhe deu a câmera e em seguida voltou para perto de mim. Ele lançou um braço sob meus ombros e eu fiquei confusa.
– Edward, o que...
– Diga "X" Bella.
Olhei para o homem que já mirava a câmera em nossa direção.
– "X"! – disse timidamente.
Centésimos de segundos antes do flash, senti algo em minha bochecha. Apesar de ter certeza que na foto eu havia saído com cara de assustada, isso não me importou. Minha boca deu uma leve curvada formando um sorriso. Eu estava ali, de pé, sentindo os lábios quentes e macios de Edward Cullen roçando na lateral da minha face, após o beijo que ele depositara ali.
Ele se afastou de mim e pegou a câmera com o homem. Deu uma olhada rápida na foto e sorriu com satisfação. Eu não sabia o que fazer diante daquilo, então limitei-me a ficar de costas para ele e apreciar a vista. Uma rajada de vento foi lançada sobre mim e eu fechei os olhos para recebê-la.
– Me desculpe Bella, mas você disse que eu precisava ter uma foto que provasse que eu estive aqui. Mas não me valeria nada se não provasse que você existe. Essa prova. Prova que isso não é um sonho, prova que você é real e eu a toquei. Isso me basta. – ele sussurrou em meu ouvido e eu estremeci. – Por hora. – completou em seguida.
Suspirei diante de sua declaração e comecei a caminhar.
– Aonde vai?
– Para a nossa próxima arada. Você não vem? – Lhe lancei um sorriso desafiador e pisquei, fazendo com que Edward desse um lindo sorriso torto.
– Claro que sim!
Peguei na mão dele e saí dali pensando em quanto o Pão-de-Açúcar agora parecia muito mais especial.
**
Eu não estava acreditando no dia maravilhoso que havia passado ao lado de Edward. Cada lugar que passamos me fizeram lembrar o quanto eu havia esquecido de viver. Parecia que a turista ali era eu, porque tudo era tão desconhecido.
Agora ali estava eu a 380 metros de altura, em meio a Floresta da Tijuca, na Vista Chinesa ao lado de alguém que me fazia perder um pouco do raciocínio – e o fato disso me agradar me fazia crer que meu raciocínio não era o único a ser afetado; minha sanidade também era.
Edward ria lindamente enquanto falava de alguns eventos engraçados que viveu e eu o contemplava silenciosamente. Ele parou de falar de repente e fitou o horizonte.
– Esse lugar é lindo.
– Eu sabia que você ia gostar. Aqui descortina uma das mais belas vistas da cidade, tendo o Cristo Redentor, a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Pão-de-Açúcar e as praias da zona sul como pano de fundo. É meu ambiente preferido... eu geralmente venho aqui pensar.
– Achei que era na praia que você ia pensar.
– Eu amo o mar. Ele me traz a paz que muitas vezes eu duvido que realmente exista. Aqui não. Esse lugar me traz tantas lembranças... e respostas.
– Entendo... mas conte-me mais, Bella. Até agora só falamos sobre mim.
– Eu... eu... não tenho assuntos bons que valem a pena ser... lembrados. – disse fitando minhas mãos.
Edward colocou sua mão em cima da minha e me incitou a encará-lo.
– Quer falar sobre isso?
A pergunta me pegou de surpresa. Eu queria? Senti uma leve pressão na mão que Edward havia coberto e aquilo me deu segurança. É... eu queria falar – há muito tempo, aliás –, mas não sabia como começar, nem com quem desabafar. Minhas angústias estavam guardadas dentro de mim e eu sentia que a hora de compartilhá-las com alguém havia chegado. Fiquei feliz em saber que Edward era esse alguém.
Meneei a cabeça num gesto afirmativo e Edward sorriu.
– Sou todo ouvidos.
– Eu tive uma infância como a de qualquer outra criança. Brincava, sorria, tinha amigos, enfim, eu vivia. Até os 10 anos.
Eu dei uma parada brusca por conta do calafrio que me arrasou a espinha.
– Fique calma, eu estou aqui. – Edward disse com ternura. – Continue... vai te fazer bem sabe... falar.
– Tudo bem. – respondi mais tranqüila. – Eu estava em meu quarto, escrevendo no diário que ganhei de presente da minha mãe um dia antes. Era de veludo, num tom azul-esverdeado, assim como o mar. – eu sorri com a lembrança. – Então Alfredo entrou e ele estava abatido... eu... eu não entendia porque ele chorava. Meus pais, Laura e Augusto Fontes, estavam voltando de Petrópolis. Eles tinham uns imóveis lá e estavam negociando a venda de um deles. Na volta chovia muito e o carro derrapou na pista, em seguida capotou. Meu pai morreu na hora, mas minha mãe resistiu por mais dois dias. Meu avô disse que até o fim ela chamou meu nome.
– Eu sinto muito Bella. – Os olhos de Edward continham dor. Era como se ele também tivesse voltado no tempo.
– A morte deles iniciou uma nova fase na minha vida. Eu não mais sorria, não brincava, me afastei dos meus amigos até que não restasse mais nenhum deles. Quanto mais eu crescia, mais mergulhada nesse mundinho particular eu ficava. No meu último aniversário minha vida deu outra reviravolta, quando descobri que Alfredo tem câncer. Apesar da dor e da revolta por estar prestes a perder a última pessoa que me restou, eu prometi a ele que voltaria a viver e o faria feliz. Aquele dia que marcamos e eu não apareci foi porque ele sofreu um desmaio e a vida me presenteou com outra desgraça. O câncer que era restrito ao pâncreas começou a se desenvolver no cérebro dele. – Meus olhos se encheram de água, mas somente uma lágrima solitária saiu de um deles. – Eu já não sei mais o que fazer.
Edward usou o polegar para limpar a lágrima e segurou meu rosto com as mãos, obrigando-me a encará-lo.
– Sabe Bella... eu aprendi que é melhor sentir dor, do que não sentir nada. A dor, apesar de ruim, está aí para te lembrar que seus pais a amavam e você os amava. Está aí para te mostrar que a vida também tem seu lado bom, como quando você está ao lado de seu avô. Eu também perdi meus pais e o amor pela minha mãe me trouxe aqui. E embora me doa estar num lugar que me lembra tanto ela, eu agradeço, porque isso me trouxe você.
Nosso contato visual parecia inquebrável. O mundo podia acabar agora que nossos olhos não se desviariam e de alguma forma eu tinha certeza disso. Então o rosto dele começou a se aproximar vagarosamente e involuntariamente o meu também se moveu. Eu podia sentir o hálito fresco de Edward acarinhando-me a face e fiquei esperando sua próxima reação.
[Música: Vem Pra Cá – Papas Da Língua. Procurem do YouTube e ouçam!]
– Se eu pudesse, tomaria sua dor pra mim Bella, porque sua tristeza de algum modo está me matando. – ele sussurrou cada palavra num ritmo demasiadamente lento. – E embora eu não possa fazer isso, ainda assim tentaria. Me deixa fazer parte da sua vida?
Fechei os olhos e meu silêncio falou por mim.
– Obrigado. – ele disse e tão logo senti a pressão dos lábios dele nos meus.
A língua dele invadiu minha boca calmamente, como se pedisse autorização e eu dei de bom grado. Edward enlaçou minha cintura de um jeito meio que possessivo, mas isso só me deu ainda mais certeza do quanto meu coração batia rápido e devagar, tudo ao mesmo tempo, diante da presença dele. Uma de suas mãos foi parar no meu rosto e enquanto ele aprofundava o beijo, acarinhava minha pele.
Cada toque me fazia estremecer compulsivamente e afundei minha mão em seu cabelo acobreado, bagunçando-o. Com a outra eu enlacei sua nuca, forçando sua boca ainda mais contra a minha.
O mundo parecia não mais existir. Era só eu e Edward, dividindo as tristezas e duplicando as alegrias. Naquele momento era como se todas as minhas dúvidas tivessem respostas, aliás, essas mesmas dúvidas não mais me importavam; eram tão ínfimas diante daquilo que nem me dei ao trabalho de mantê-las na mente. Eu estava em completo torpor e beijava-o com tanta pretensão que chegava a pensar que a qualquer momento nós nos fundiríamos em um só. De alguma forma eu sabia que Edward se sentia da mesma maneira.
Ele parou o beijo com certa dificuldade e eu franzi o cenho em desaprovação. Aquilo era tão maravilhoso e eu ainda não tinha desfrutado o suficiente. Edward riu ao perceber que eu não havia gostado de me afastar e então me abraçou. Assim como durante o beijo, aquele abraço também era possessivo, mas não me importei. Sentia-me segura ali e isso bastava.
– Teremos muito tempo pra isso, Bella. – Ele começou a acariciar meus cabelos. – Eu vou ficar aqui, enquanto você quiser.
– Promete?
– Não vai ser tão fácil se livrar de mim, Bella. Se antes era difícil me manter longe de você, agora é impossível.
– Fico feliz que seja sim.
– Não devia.
– E porque não?
– Porque eu não costumo desistir do que eu quero.
Eu me afastei o suficiente para encará-lo.
– Então não desista!
Edward sorriu e me beijou novamente. Um beijo tão doce e maravilhoso quanto o primeiro. Em seguida levou os lábios até minha testa e friccionou-os ali demoradamente.
– Já está tarde. O tempo passa rápido demais quando estou com você.
– Digo o mesmo. – respondi timidamente. – E... ai meu Deus!
– O que foi?
– Tenho que ir pegar meu avô no hospital. Esqueci completamente. – Fitei Edward e sorri com a possibilidade que me veio à mente. – Vai fazer algo mais nesse fim de dia, Edward?
Por favor, diga que não!
– Não, por quê?
– Quer conhecer meu avô?
– Claro! Vamos lá.
Ele entrelaçou nossos dedos e começamos a caminhar em direção ao carro. Agradeci mentalmente por ele vir comigo, porque sinceramente, não me sentia preparada ainda para vê-lo indo embora.
Naquele dia descobri o quanto estava atada a Edward Cullen.
.
.
.
.
.
Aweee. Mais um cap. pra vcs! Espero que gostem e comentem :DD
BeeijOs
