Capítulo 7

Eu e Cris apostamos corrida até o lago da propriedade, e eu sentia uma sensação de liberdade indescritível a medida que Willy saiu do trote e começou a galopar, aumentando cada vez mais a velocidade, competindo com Light, o quarto de milha que pertencia a Bianca, mas que era mais usado por Cris do que por ela.

Desmontamos e tiramos as selas dos cavalos, amarrando-os numa árvore pequena para que pudessem ficar na sombra, enquanto eu e Cris sentamos a sombra de outra árvore mais frondosa.

- Um mergulho agora seria bem vindo – ele comentou, tirando a camisa. – Pena que não podemos demorar.

- Minha mãe me mata se eu me atrasar para o almoço. – falei tirando a camisa também e a fazendo de travesseiro para deitar sob a árvore.

- É. Mas então... Essa noite... Conta!

- Cris, me esquece.

- De jeito nenhum. Só não vai me dizer que você passou a noite com Jeanne, porque...

- Que Jeanne o quê, Cris?! – exclamei, sentando rápido e atirando uma pedra pequena na sua direção, que ele facilmente pegou no ar – Ficou maluco? Deus me livre!

- Então fala quem é!

- Você não conhece, ok? – respondi por fim, voltando a deitar. Conhecia bem meu primo para saber que ele não desistiria tão fácil. – O nome dela é Suzannah. Suzannah Simon.

- E ela mora em Carmel? Foi na casa dela que você ficou?

- Sim para as duas perguntas.

- Só isso? Não vai me dizer mais nada?

- Credo, Cris. Você está parecendo uma velha fofoqueira.

- Qual é, Jesse! Você passa dois anos fora, se dá bem logo no dia que volta e quer que eu não fique curioso?

- Que tal você arrumar alguém e me deixar em paz?

- Ah, mas eu já tenho alguém... – ele murmurou com um sorriso.

- Como? Quem?

- Quem é o curioso agora?

- Palhaço. Você está mentindo para me fazer falar.

- Não estou, não. Vamos fazer o seguinte: eu te falo o nome dela e você me responde uma pergunta, ok?

- Ok.

- Ela se chama Laura Felisberto. Como foi que vocês se conheceram?

- Desci na praia e ela estava lá. Ela estava sendo atacada.

- E você salvou a vida dela?

- Não, espertinho... É a minha vez agora. – sentei para poder ficar cara a cara com ele – Como vocês se conheceram?

- Ela é hospede no hotel. O que aconteceu depois que você bancou o herói?

- Muito engraçado. E se eu te contar que ela estava sendo atacada por fantasmas?

- Como é?

- Minha vez agora...

- Não. Nem pense nisso! Como assim fantasmas? Ela é uma mediadora também?

Cris era o único que sabia sobre esse meu segredo. Logo quando isso começou, eu contei para minha mãe, mas ela pensou que eu estava bebendo e me deixou de castigo mesmo sem sentir cheiro de álcool no meu hálito.

- Uma deslocadora, na verdade.

- Então isso existe mesmo?

- Sim. Ela tocava neles como se fossem de carne e osso. Os dois estavam arrastando-a para dentro do mar quando eu cheguei. No fim, foi ela quem salvou a minha vida quando eles tentaram me afogar também.

- Cara, você mal chegou e já se meteu em encrencas.

- Nem me fala.

- Mas você ainda não respondeu a minha pergunta. O que aconteceu depois que você... ou melhor, ela te salvou.

Eu lembrava bem o que tinha acontecido. Suzannah tinha tirado a roupa na minha frente, ficando só de calcinha e sutiã, me deixando completamente louco de desejo por ela.

- Eu... me ofereci para levá-la em casa.

- Aham... sei. E isso foi antes ou depois de você se dar bem?

- Não aconteceu nada, ok? E acho que é a minha vez de fazer a pergunta. – desconversei – Então... Uma hóspede... Ela é de onde?

- Brasil. Vocês fizeram na praia mesmo ou na casa dela?

- Merda, Cris! Mais respeito!

- E você não respondeu.

- Na casa dela, ok?! Saco!

- Muito bem. Viu? Nem doeu. E antes que você pergunte, eu não estou transando com Laura.

- Ainda, não é?

- Na verdade, eu só estou interessado nela. Não rolou nada. Nem beijo.

- Como é? Explica isso direito.

- Ela está lá de férias, sabe? Chegou há duas semanas e na hora que eu pus meus olhos nela foi... não sei, cara... foi...

- Amor a primeira vista?

- Não sei. – ele respondeu num tom baixo, coçando a cabeça e desviando o olhar para contemplar o lago – Eu não sei o que é, mas nem sei se vou conseguir descobrir.

- Por que não?

- Já te contei que ela é hóspede do hotel, não contei?

- E daí?

- Nós temos uma política muito rígida de funcionários não se envolverem com hóspedes.

- Mas você é o dono! – retruquei.

- E por isso devo dar o exemplo.

- Mas ela também está a fim ou isso é uma paixão de um lado só?

- Eu não sei... Quer dizer, eu acho que sim, mas...

- Ei, desde quando você é assim tão indeciso, Cristóbal? Mas eu meio que te entendo.

- É?

- Você está no meio desse dilema porque a garota é hóspede, e eu passei por algo parecido essa noite.

- Qual o problema de Suzannah?

- Problema nenhum. Ao menos eu não vejo isso mais como um problema. Mas ela tem dezessete anos.

- Ah, menor de idade.

- Pois é.

- Pedófilo! – ele brincou.

- Não tem graça, Cris. – reclamei, pegando outra pedra para jogar nele, que novamente se esquivou – Eu tentei me manter distante. Juro que tentei.

- A carne é fraca, não é, amigo? Ainda mais depois de tanto tempo sem ninguém.

- Não é só isso. Suzannah é... Cara, ela me seduziu. Você tem noção?

- É atirada então?

- Respeito, por favor.

- Foi mal.

- Suzannah é diferente. Sabe... Não é como as garotas que eu conheço dessa idade. Nem as mais velhas mesmo. Ela é segura de si. Não tem medo de dizer o que pensa.

- E quando eu vou conhecê-la? – ele perguntou, ficando de pé e abanando a sujeira das roupas.

- Pensei em convidá-la para o churrasco. – respondi ficando em pé também e vesti minha camisa que agora estava totalmente amarrotada.

- Mas já está assim? Já vai apresentar à família? A última que você trouxe aqui foi a Jeanne e...

- Cara, quer fazer o favor de esquecer esse nome?! Que saco! – me afastei dele a passos largos, em direção aos cavalos que pastavam tranquilamente.

- Nossa, tá nervosinho, é? Não vai me dizer que você ainda sente alguma coisa por aquela vad...

- Ficou maluco?! – interrompi bruscamente, pegando a sela de Willy e colocando-a sobre o lombo do animal.

- Por que se você estivesse...

- Eu não sinto mais nada por ela, ok? Essa garota é passado na minha vida. – resmunguei, terminando de prender a sela e me preparando para montar – Presta atenção, Cris. Light está prendendo a respiração de novo.

- Ah.

Light tinha essa mania de prender a respiração quando alguém estava amarrando a sela nele, deixando a amarra folgada e já tinha feito muitos peões distraídos caírem por conta disso.

Esperei até que Cris conseguisse amarrar a sela com segurança, depois de bater de leve na barriga de Light e quando ele montou, apostamos nova corrida na direção da casa principal.

- Onde vocês estavam? – minha mãe gritou da porta de casa, enquanto subíamos as escadas. – O almoço já está pronto. Vão lavar as mãos.

- Me senti com dez anos novamente – Cris murmurou, marchando de cabeça baixa para o lavabo e eu o segui segurando uma risada.

Apenas depois do almoço eu consegui ver o que a minha mãe tinha feito com o meu quarto. Surpreendentemente, estava muito melhor do que eu poderia ter esperado. O meu quarto era o único que ficava no térreo e, por conta das minhas constantes saídas noturnas com Cris, tinha entrada privada que agora dava para a piscina.

Essas portas que antes eram de madeira rústica, agora estavam com a metade superior de vidro, deixando o quarto mais iluminado. E nas paredes, onde antes havia pôsteres de carros e informativos sobre o exército, agora estavam lisas, com apenas uma das paredes decorada com uma foto ampliada em preto e branco de Willy. E a cama antes de solteiro era agora uma de casal de ferro negro.

- Gostou? – minha mãe perguntou, parada à soleira da porta.

- Adorei, mãe. Obrigado.

- A idéia do quadro de Willy foi minha. – Bianca falou, entrando no quarto e passando em disparada para a área da piscina.

- Obrigado por isso também. – falei, quase tendo que gritar porque ela agora já estava se preparando para mergulhar, depois de ter jogado o roupão que usava, de qualquer jeito no chão.

Segui minha mãe de volta para a sala, mas apenas para pegar o telefone sem fio, e voltei para o meu quarto, fechando a porta atrás de mim.

Mal tinha dado dois passos, quando a porta abriu de novo e Cris entrou.

- Vai ligar para ela? – ele perguntou num sussurro, fechando a porta e andando até as portas de comunicação com o pátio para fechá-las também.

- O que você está fazendo? – perguntei quando ele correu as cortinas blackout, deixando o quarto na penumbra.

- Quero ouvir a conversa. Por quê? Não posso? – ele perguntou depois de acender a luz.

- Claro que não.

- Ah, qual é?! Vocês não vão conversar perversões a essa hora, vão?

- Cristóbal, saia daqui!

- Não. – ele respondeu simplesmente – E pare de gritar ou sua família virá até aqui e você vai ter que contar para quem vai ligar.

- Tudo bem. Mas fique calado!

- Sim, senhor!

Peguei o papel do bolso da minha calça e empurrei Cris quando ele tentou sentar no braço da poltrona que eu tinha acabado de sentar, e disquei o número do celular de Suzannah. Ainda não era hora de ligar para a casa dela.

A pedido de Cris, eu coloquei a chamada no viva-voz e quando ela atendeu, depois do quinto toque, meu coração deu um salto de nervosismo.

- Suzannah? – perguntei, embora apenas por hábito. É claro que era ela. Reconheceria a sua voz em qualquer lugar.

- Sim. Quem é?

Mas pelo visto ela não tinha reconhecido a minha.

- Jesse.

- Quem?

- Jesse! – falei mais claro que ela entendesse.

Não era possível que ela tivesse me esquecido, era?

- Só um momento, por favor.

Esperei enquanto o telefone ficava mudo e tentei ignorar Cris que ria da minha situação. Perfeito!

Alguns instantes depois ela voltou a falar, sua voz soando levemente arfante.

- Desculpa, Jesse. Minha mãe estava bem na minha frente e eu tive que fingir que a ligação estava ruim. – ela explicou – Mas agora eu estou no meu quarto.

- Liguei numa má hora?

- Não. Na verdade você foi pontual. Me livrou de um papo bem chato.

- Hum... Como você está?

- Bem, e você? Chegou bem em casa?

- Cheguei sim.

- Sua família já matou a saudade de você?

- Acho que sim. Ah, falando nisso, meu pai resolveu fazer um churrasco aqui amanhã. Quer vir?

- Hum... Er... Conhecer sua família? – ela perguntou com a voz meio vacilante.

- Bem... Sim.

- Não é um pouco cedo para isso?

- Não sei. É?

- Ah, sei lá. Uma coisa é ter passado a noite contigo, mas conhecer a família...?

- Você não quer? – perguntei num tom baixo, me sentindo levemente incomodado com a recusa dela.

- Não é que eu não queira, Jesse. – ela respondeu, também num tom baixo – Mas é que eu nunca conheci família de nenhum cara com quem eu saí. Tudo bem que eu nunca fiquei com ninguém por tempo suficiente para querer conhecer.

- Você está com vergonha, então?

- Não, não é isso. É só que... Alguém aí sabe sobre mim? Sobre o que aconteceu essa noite?

- Meu primo sabe. E eu pretendo contar para a minha mãe também.

- Você vai contar para a sua mãe que nós transamos?

Desliguei o viva-voz no mesmo instante. Não sabia o que Suzannah poderia falar dali pra frente, e preferia que Cris não ouvisse tanto assim.

- Eu não pretendo contar os detalhes. Até porque eu teria que explicar como eu te encontrei na praia e esse não é um assunto que eu falo aqui em casa.

- Sobre fantasmas?

- Isso.

- Aqui também não. – ouvi Suzannah suspirando pesadamente e esperei até que ela falasse algo, porque eu não conseguia pensar em nada para dizer naquele momento. – Você quer mesmo que eu vá?

- Sim, eu quero.

-Ok. Então eu vou.