Capítulo 7

Os próximos dias no castelo foram dias difíceis, como estavam sendo todos os dias desde que as aulas recomeçaram em Hogwarts. A Armada de Dumbledore estava firme e forte, pois todos estavam percebendo que os Carrow não estavam de brincadeira. Não havia um dia sequer que a Sala Precisa não recebesse alguém precisando de cuidados ou apenas um ombro amigo. Gina quase não saía mais da sala, e seus colegas estavam percebendo isso. Neville era um que insistia que a menina deveria espairecer mais, não ficar tão enclausurada, mas quando questionada, Gina apenas dizia que enquanto alguém precisasse de ajuda, ela estaria lá para ajudar. A risada era algo raro no castelo, e muitos estavam cedendo ao estresse. O assunto mais falado aos cochichos pelos corredores do castelo era que os mestiços não estavam mais aguentando a pressão e os castigos. Gina andava pensando muito nisso, e numa das reuniões da A.D., ela trouxe o assunto à tona.

— Gente, eu queria falar com vocês sobre um assunto que eu ando ouvindo por aí... – Gina começou, chamando a atenção do grupo. – Eu sei que tem algumas pessoas que não tão mais aguentando isso aqui, os pequenos especialmente precisam ser poupados... Eu queria bolar um plano de fuga. A gente tem que pensar em algo pra ajudar aqueles que não suportam mais a ir pra casa. Talvez nem todos aguentem esperar até o feriado de Natal. E não é vergonha nenhuma admitir que chegou ao limite...

Gina percebeu que suas palavras chegaram a todos. Não havia uma pessoa que não concordasse com ela.

— Esse fim de semana tem aquela palhaçada de encontro em Hogsmeade... – Gina continuou como se tivesse um gosto ruim na boca. – A gente podia aproveitar que os portões estarão abertos, e orquestrar uma fuga.

— A gente podia juntar alguns pequenos aos maiores. – Neville interrompeu. – Quem já souber aparatar, podia levar os pequenos pra longe, algum lugar em que eles pudessem pegar o Nôitibus Andante. Eu já tenho minha licença. Quantos mais tem aqui?

Alguns poucos levantaram a mão, e se propuseram a seguir o plano.

— E eu tenho o local perfeito pra fazer isso! Aqueles que não tiverem "encontros" – Gina disse com tom irônico. – podem ir pra Hogsmeade pela Casa dos Gritos. O Rony me contou como faz para passar pelo Salgueiro Lutador, que tem um túnel que sai em Hogsmeade.

— Casa dos Gritos? – Ana Abbott perguntou meio incerta.

— Não se preocupa, não tem assombração nenhuma lá. – Gina respondeu com um sorriso. – Harry, Rony e Hermione estiveram lá há alguns anos e podem atestar que não tem nenhum fantasma lá. – Gina completou. – Só tem uma coisa: a gente tem que passar os pequenos cedo, antes dos "encontros", porque eu, por exemplo, vou estar com o Blásio, e ele com certeza não vai ajudar em nada, e ainda é capaz de me entregar... e eu quero fazer o máximo que eu puder.

— Não se preocupa, Gina. – Neville disse. – Eu estarei com a Ana, e a gente pode muito bem cuidar disso. – Gina percebeu o olhar de decepção da menina, que desfez a expressão rapidamente quando Neville olhou para ela, substituindo-a por um sorriso.

— E eu também provavelmente vou estar livre. – Luna acrescentou. – Jack Sloper está com uma infestação de bliberentes... eles mexem com a concentração das vítimas... por isso ele anda tão confuso.

Talvez seja esse mesmo o problema de Jack Sloper... Gina respirou fundo e olhou para amiga. O clima em Hogwarts estava tão pesado, que até Luna tinha deixado suas esquisitices meio de lado. Era bom saber que Luna não tinha mudado tanto assim.

— Deve ser, Luna... – Gina voltou-se para os outros amigos. – Então, eu e Luna, que não podemos aparatar, levamos os pequenos e quem mais quiser fugir nessa primeira leva até a Casa dos Gritos bem cedinho. Se nenhum dos mais velhos quiser ir, a gente precisa pelo menos de alguém que se candidate a ficar com eles até de tarde, quando Neville, Miguel, Antônio, Terêncio, Parvati e Padma puderem aparatar com eles. Alguém se candidata?

— Eu fico. – Simas disse.

— E eu também. – Lilá assentiu com a cabeça na direção do amigo.

— Então tá resolvido. – Gina retomou. – Falem em suas casas com quem quiser ir, e falem pra levar o mínimo possível. As roupas, e essas coisas, a gente divide entre nós no Natal, e leva pelo trem. Não tem porque chamar mais atenção carregando peso extra. Eu acho que poucas pessoas vão querer fugir por medo, e não saber o que vai acontecer, se vai dar certo ou não. Mas se a gente tiver sucesso, mais alunos vão querer numa próxima oportunidade.

— Então é isso, gente. – Neville concluiu a reunião. – Cada um sabe o que tem que fazer. Conversem em suas casas, e vejam quantos querem ir. No Sábado de manhã, mandem eles procurarem a Gina e a Luna perto da casa do Hagrid, assim não tem erro.

Alguns alunos saíram, outros continuaram na Sala Precisa. Desde que a Armada de Dumbledore foi retomada, a Sala Precisa tinha aumentado de tamanho para abrigar a todos, e até a decoração mudou. Agora, havia bandeiras de três das casas de Hogwarts, e eles usavam a sala como mais que uma sala de treino. Além de refúgio para quem precisava de cuidados médicos, como sempre um tinha que estar na sala, para esse um não ficar sozinho, havia sempre companhia. Era muito comum um grupo de cinco ou quatro pessoas passarem a noite na sala. Os diretores de casa, se sabiam dessas escapadas noturnas, não diziam nada. Era fácil entender que eles também não gostavam dos Carrow, e não entregariam seus alunos se soubessem que estavam descumprindo as regras. Os únicos momentos de descontração que tinham, era quando estavam seguros na Sala Precisa. A Armada de Dumbledore tinha dado a eles mais que uma chance de aprender Defesa Contra as Artes das Trevas, tinha dado a eles também mais amigos e amigos mais próximos.

No Sábado de manhã, Gina e Luna encontraram-se com os alunos que iram fugir. Eram doze pessoas, e apenas dois eram alunos mais velhos. Simas e Lilá também estavam com o grupo, mas não fugiriam, só fariam companhia na Casa dos Gritos até a tarde.

— Vamos, indo, gente. Não tem porque a gente ficar aqui dando bandeira e atraindo atenção. Se a gente for pego agora, é castigo pra todo mundo. – Gina disse mostrando o caminho.

Uma menina do primeiro ano pegou a mão de Luna, ao ouvir Gina, e parecia apavorada.

— Não se preocupa, a gente vai conseguir, você vai voltar pra casa. – Luna sorriu e não soltou a mão dela o caminho inteiro.

Com um pouco de resistência do Salgueiro Lutador, Gina finalmente conseguiu apertar o nó que fazia com que a árvore ficasse parada, para que os outros alunos pudessem passar. Simas foi o primeiro.

— Continuem por esse corredor. Demora um pouquinho, mas logo a gente chega.

Gina foi a última a passar, e pelo menos a primeira parte do plano tinha dado certo. Gina pedira a Dobby, se ele poderia ajudar o grupo caso eles precisassem de algo. Dobby levaria comida e água para eles, já que a fuga tinha sido orquestrada antes mesmo do café da manhã. Também ficaria de olho nos Carrow para ver se eles desconfiavam de algo. Ao menor sinal de perigo, ele avisaria Gina ou Luna, e elas avisariam o resto do grupo pelos galeões falsos. O elfo doméstico ficara felicíssimo de ter sido chamado para ajudar algo que ele achava ser tão importante, e comentou com Gina que assim que Harry Potter precisasse dele, ele estaria à disposição também. Gina não cansava de se surpreender com a fidelidade que o pequeno elfo tinha a Harry.

A parte de Luna e Gina estava feita, e agora era só esperar. Gina não saberia se tudo tinha dado certo até o final, já que ela não estaria junto dos aparatadores, mas estava com os dedos cruzados, desejando toda a sorte a eles. Para o plano dar certo, Gina e os outros precisariam manter a calma, e manter a charada dos encontros. Precisariam parecer cordatos para não descontentarem os Carrow. Com isso em mente, Gina assentiu a cabeça quando viu Blásio, e andou na direção dele.

— Tá bem domadinha hoje... – ele sussurrou no seu ouvido assim que ela se aproximou dele. – Sabe que, desse jeito, eu posso até repensar a minha decisão sobre você... – ele ergueu uma sobrancelha e segurou seu braço enquanto os dois passavam pelos portões de Hogwarts. Gina mordeu a língua para não falar um monte de besteira para o sonserino. Assentiu com a cabeça para a Aleto, ao passarem por ela. A professora olhou com desdém para a menina, mas não disse nada. Assim que não estavam mais perto dela, Gina voltou-se para Blásio.

— Você teve sua chance comigo, Blásio. Quem não quer mais sou eu... – Gina sussurrou de volta. O menino manteve seu braço dado com ela e sorriu largamente.

— E aí está a espirituosa Gina. Esse fogo todo que você tem pra discutir com os outros deve ser ótimo em outros lugares... outras situações... – Blásio ergueu as sobrancelhas para ela, e Gina entendeu bem a insinuação.

— Pena que você nunca vai poder experimentar esse fogo, né, Blásio? – O menino gargalhou com vontade.

— É uma pena mesmo. – Blásio concordou. – Eu sei que você e seus amiguinhos estão planejando alguma coisa. Contanto que você não me envolva e eu não veja nada, eu não sei de nada.

— Nossa, Blásio, você me emociona com toda a ajuda que você me oferece. – Gina disse em tom irônico.

— Quem gosta de heroísmo é o seu último namorado, mas ele não está aqui, não é? Se você fosse minha namorada, não teria heroísmo, mas em compensação teria presença, atenção... prazer! Tudo o que ele não pode te dar, já que ele te deixou pra trás, né?

— Mas eu não sou sua namorada, nem estou interessada em ser. – Gina disse seca.

— E esse é o seu maior defeito, maior até do que ser traidora do próprio sangue. Você não sabe reconhecer o que é melhor pra você.

— E você acha que você é o melhor pra mim? – Gina perguntou com ironia. Que petulância!

— Vamos ver o seu histórico! – Blásio disse com toda naturalidade, como se falar dos namorados de Gina fosse algo super banal, como o clima por exemplo. – Seu primeiro encontro foi Neville Longbottom.

— Tá bem informado, hein...

Os dois tinham chegado ao Três Vassoura, e enquanto Blásio abria a porta para ela, continuava a conversa como se não tivesse sido interrompido:

— Ele é puro sangue, o que conta a seu favor, a família tem dinheiro, que ele vai herdar todo, porque os pais tão doidos...

— Não fala dos pais do Nev... você sabe muito bem o que aconteceu com eles. – Gina interrompeu.

— Sei, mas não vem ao caso agora. – Blásio disse enquanto puxava uma cadeira para que Gina sentasse. A Madame Rosmerta indicou com as mãos que já iria à mesa deles para atendê-los. – Mas o Neville é pouco pra você... você dominaria ele por completo, e você precisa de alguém que te ponha no lugar.

— Por que mesmo que a gente ta conversando sobre isso? – Gina perguntou aborrecida.

— Porque se a única coisa de bom que sair desse encontro hoje for eu colocar juízo nessa sua cabecinha, eu já me dou por satisfeito. – Blásio acenou com as mãos para alguns amigos dele que passavam.

— E por quê?

Blásio olhou para a menina e ignorou sua pergunta.

— Sua segunda tentativa: Miguel Conner. Brigou com você por você ser melhor que ele em quadribol... o idiota não conseguiu entrar pro time, e não soube perder. Se ele não pode ser igual ou melhor do que você, não te merece.

— E aonde você quer chegar com isso? – Gina interrompeu.

— Você tem que usar a cabeça. – Se Voldemort ganhar essa guerra, você provavelmente vai ser poupada. Tem o sangue puro, e é mulher. Como Voldemort quer que a linhagem de sangue puros continue, você vai ser "incentivada" – Blásio fez o gesto de aspas com as mãos. – a reproduzir. Se você for solteira, ou não for comprometida com algum comensal da morte, provavelmente essa reprodução não vai ser muito agradável. – Gina entendeu muito bem o que o sonserino quis dizer, mas não queria nem pensar numa coisa dessas. Morreria primeiro. – Talvez fosse melhor se você se misturasse mais e melhor. Você já não é tão mal vista quanto o resto da sua família na Sonserina. Claro que o fato de você ser muito mais atraente que eles ajuda... – Blásio piscou para a menina, que ficou meio tímida. – Mas você tem que pensar que, talvez, os Carrow estejam do lado vencedor. Se você pode se precaver agora, pra que sofrer mais tarde?

— Deixa eu ver se eu entendi... – Gina disse chamando a atenção do sonserino. – Você acha que eu devo namorar um sangue puro, filho de um comensal da morte, só pra garantir, caso a gente não vença guerra? Daí, quando Voldemort morrer, eu dou o pé na bunda dele e digo "até mais ver". Se fosse com você? Você gostaria que eu fizesse isso contigo?

— Querida, se fosse comigo, você nunca mais me deixaria...

— Presunçoso, não? – Gina ergueu uma sobrancelha para ele, enquanto Madame Rosmerta se aproximava dos dois. Gina não havia percebido, mas presença da dona do bar fez com que ela notasse que ela e Blásio tinham se aproximado um do outro enquanto conversavam. Gina fez um carão e encostou-se de volta na cadeira.

— O que vai ser, queridos? – Madame Rosmerta perguntou com um sorriso.

Blásio pediu pelos dois, e Gina não teve nem ânimo de repreendê-lo por isso. Ela ainda não tinha visto nenhum de seus amigos da A.D., e ela estava curiosa para saber se a segunda parte do plano já estava em ação.

Notas da Autora: Gente, com as festas e férias do meu filho, fica difícil escrever... por isso a demora. Quero agradecer ao elogio da Lari, a consistência da Lia Croft (obrigada por mais um review) e a estreia em reviews da Tathiana. Muito obrigada pelo incentivo. Boas festas, pessoal!