Capítulo XI

"03:27 a.m

Ela conseguiu focalizar o horário...

Sua mente fluía com mais clareza, o forte efeito da bebida combinado com a droga, começara a passar. Despertou sozinha no divã, e tomou consciência que estava em um enorme quarto de hotel. Esse era diferente do outro quarto que estivera: era maior, mais luxuoso, todo o estilo de sua decoração era moderna e elegante. Os lençóis que forravam a cama tinham uma tonalidade em vinho e tapetes persas estavam distribuídos por toda a extensão do ambiente contemporâneo. Com certeza aquela era a suíte presidencial.

De repente sua atenção foi desviada para o banheiro, e seja lá quem fosse o dono do quarto, estava por lá. Ela precisava ser rápida, notou que estava sem a peruca, e o grampo que usara mais cedo desapareça, eles já sabiam de sua farsa.

Sentou-se apressada, e foi dominada por uma leve vertigem, momentos confusos do que acontecera naquele princípio de noite ficaram mais claros:

Lembrou-se de ter visto Josef Konstan entre os convidados, falara com Omar Muhanned, e conhecera Antony um Italiano pervertido. Teve um desagradável encontro com uma loira, que lhe agrediu, e por alguma razão foi perseguida pelo segurança dela, inclusive levara um belo tombo ao tentar escapar de suas garras.

Prestou atenção em seu vestido, estava sujo de sangue, reparou no generoso decote e percebeu espantada, os dois pontinhos acima da mama esquerda. De súbito recordou-se de Muhanned a atacando, com sua fome descontrolada por sangue. Ele partira para cima dela e a mordera. Sentiu náuseas ao se recordar daquela cena. E por um momento, um pensamento obscuro passou por sua mente: ' o que mais lhe poderia acontecer nessa noite?'.

Passou suas mãos sobre a cabeça, doía bastante. Olhou-se no espelho, e viu um ferimento na testa, seu corpo inteiro estava dolorido, principalmente seu pulso. Seu plano inicial era ter se insinuado a Muhanned, e alegar interesse em se prostituir na Suíça, veria se jogando alguns verdes, faria ele cair na rede. E quem sabe até mesmo faria uma viagem a Suíça para desenrolar a história do tráfico de mulheres, pois isso era o que mais lhe incomodava. Mas depois do seu deslize com o drink, teria que mudar todo o roteiro dos seus planos... Talvez estivesse no quarto de Muhanned agora, por isso começou a vasculhar em tudo, precisava encontrar alguma coisa que o acusasse, já chegara até ali, fora descoberta, não podia sair de mãos vazias.

A primeira coisa que viu, foi o laptop ligado. Estava com sorte, pensou. Correu para lá, e começou a procurar por alguma informação interessante. Tinha que ser rápida, a qualquer momento a pessoa que estava no banheiro sairia. Beth remexia nos dados do computador com fervorosa agilidade, sempre lembrando de olhar em direção do banheiro.

Havia um programa aberto era de domínio pessoal. Checou alguns documentos até se deparar com uma listagem de vídeos, todos com o mesmo nome: 'Lo Stivale', eram apenas diferenciados por datas. Clicou no vídeo que representava uma data avançada.

Nervosa, prendeu a respiração e arregalou os olhos quando o viu começar a rodar: Assistiu um homem sujo e fortemente armado, falando em um inglês pobre e esculachado. Tinha um forte sotaque, mas Beth não conseguiu indentificar de onde era. Ele estava em lugar tão imundo quanto ele, era escuro e parecia úmido.

-- Aqui tá a carga qui promiti. - Disse no seu tosco ingles, depois gesticulou para um outro homem, e deu uma ordem em seu idioma, em seguida a camêra mudou seu foco.

Beth chocou-se com a cena.

Viu um amontoado de jovens meninas amarradas, amordaçadas e com vendas sobre seus olhos, elas se debatiam e choravam. Os sons dos murmúrios angustiantes delas arrepiaram cada centímetro do corpo da repórter. Impressionada, levou uma mão sobre a boca para conter um grunhido de terror.

--Dia vinte e oito, nóis chegaremos pela Costa do Ocianico Pácificu. Esperamu por vocêis no lugar di sempri.

A transmissão se encerrou, e Beth gelou quando viu a porta do banheiro se abrir. Fechou o vídeo com pressa, mas tinha certeza que estava em apuros.

--MALEDIZIONE!! – Berrou a loira histérica assim que viu Beth de pé e debruçada sobre o laptop. – VOU MATAR VOCÊ. – Declarou - Evan!? – Chamou enfurecida.

Beth respirou fundo pelo susto e ainda tentou correr. Seguiu em direção a porta, mas a mesma se abriu, surgindo a sua frente um corpo imenso e roliço, bloqueando completamente a passagem. A repórter nem teve tempo de parar, e colidiu contra o enorme homem. Evan, imediatamente a segurou pelos braços, fechou suas mãos sobre a delicadeza de sua pele, e com brutalidade a forçou ficar diante da megera.

--IREI ACABAR COM VOCÊ.. – Explodiu com sua voz esganiçada. – O QUE FOI QUE VOCÊ DESCOBRIU? – Questionou enquanto erguia o rosto de Beth para encará-la.

Rebelde, Beth cuspiu sobre o rosto da outra, e não ficou surpresa quando a mesma lhe desferiu um novo tapa em sua face. Rendendo a ela um lábio ferido, mas valera à pena, sua atitude fora em vingança ao primeiro tapa que levara. Bastaria agora ela ter outras oportunidades para vingar cada nova agressão que receberia da loira histérica e ciumenta.

--AMARREA-A. – Ordenou furiosa. – ARRANCAREI TUDO O QUE VOCÊ SABE, E NÃO ESCAPARÁ DESSA AVENTURA COM VIDA, SENHORITA TURNER. – Ameaçou decidida, confirmando as suspeitas de Beth, que agora todos deveriam saber de sua verdadeira identidade.

--Hamona, se quiser eu posso cuidar dela. – Sugeriu o gorila em forma de homem, fazendo Beth estremecer, não era de agora que notara o interesse daquele ogro, por ela.

--Não, por enquanto eu mesma decidirei o que fazer. – Resmungou irritada.

Hamona caminhou até uma mala que repousava sobre um banco. Abriu-a e retirou uma seringa, juntamente com uma ampola carregado com algum líquido nocivo. Beth encolheu-se, viu quando a moça encheu a seringa e se aproximou dela.

--Ahh, agora você ficou medo? – Riu.

Beth já estava sentada e amarrada com as mãos para frente, Evan segurou com firmeza seus braços para dar acesso à outra mulher. A repórter sentiu quando a agulha perfurou sua pele, e se infiltrou em sua veia, ficou imóvel de medo. Experimentou a sensação do líquido lhe consumir e subir pelos braços de forma abrasadora.

O que seria aquilo? Questionou-se, amedrontada. Seriam drogas ou veneno? Temendo que não houvesse mais chances de fuga, e que esse seria seu último momento de vida, dedicou seus derradeiros pensamentos a pessoa que mais amara nesse mundo. Sentiu seus olhos encherem-se de água, um forte torpor começou a envolvê-la, seu coração passou a palpitar com mais velocidade, e sua respiração ficara descompassada. Apegou-se ao pensamento em Mick: no par de olhos verdes, e na alegria que sentia quando compartilhava da presença dele. Imaginou que sua vida desvaía, e começou a perder a consciência..."


Capítulo XII

Acordou em um sobressalto. Horrorizada com o fragmento cruel de sua lembrança, principalmente porque sua última recordação dava a ela uma sensação de morte. Entrelaçou seus dedos nos próprios lençóis e girou apreensiva sua cabeça para todos os lados, percebendo finalmente que estava desperta e segura no seu lar. Sentiu um imenso alívio, e pôs-se a respirar com mais tranqüilidade, permaneceu por alguns momentos quieta e assustada, esperando que aquele medo irracional cessasse.

Após recuperar-se do susto, se deu conta que havia compartilhado de uma incrível noite de amor com Mick. Finalmente conseguiu esquecer o terrível assunto, e seu corpo foi envolvido por um sentimento diferente, paz.

Olhou ao seu redor procurando por Mick, e percebeu que estava sozinha, sorriu ao pensar na deliciosa noite passada, reparou que o sol estava bem alto, e o relógio marcava dez horas da manhã. Não era à toa que Mick não estava lá. Viu um recadinho amoroso, escrito com a caprichada letra do detetive, leu-o:

" --..a eternidade nem de longe seria capaz de superar a felicidade que foi dividir essa noite com você. Te amo!

PS -- Desculpe não estar ao seu lado quando você acordar, mas uma certa repórter fogosa, deixou-me esgotado.."

Beth abriu um sorriso largo e bobo quando terminou de ler as carinhosas linhas, e seu rosto ficou corado ao recordar-se dos toques quentes e gentis do detetive.

--Também te amo, Mick St. John. – Sussurrou.

Depois de permanecer mais alguns minutos tolamente refletindo sobre os momentos de paixão, levantou-se.

Tinha uma missão. Anotou as informações das quais se lembrara. Sabia que em algum momento aquele carregamento de garotas chegaria: dia vinte oito, escreveu no papel. Olhou no calendário, e assombrou-se.

--Oh Meu Deus, será hoje!! – Falou em voz alta, com o coração aos saltos. Tinha que acelerar as investigações, ou aquelas meninas realmente seriam vendidas.

Beth pegou seu celular e ligou para Mick. Escutou pacientemente o som do aparelho chamando.

--Meu amor, anda atendi.. – Murmurou. – Sei que está cansado, mas você precisa atender.. – Ficou desanimada quando viu que caiu na caixa postal.

Beth tentou de novo, e novamente escutou a caixa postal. Tentou esquecer disso por um momento, e procurou se lembrar do nome do arquivo de vídeo que vira em sua lembrança, talvez fosse uma pista.

--Como era mesmo o nome daquele vídeo..? – Falou alto, enquanto mordiscava a tampa da caneta. - ..era stole? Stola? Deve estar em outro idioma, só pode.. – Fechou os olhos e forçou sua mente ao máximo, sentia-se até conduzida para aquele ambiente frio. – LO STIVALE!! – Gritou animada. – Oh, obrigada Deus.. – Agradeceu contente, anotou o nome rapidamente temendo se esquecer.

Sorriu empolgada e correu para tomar banho. Tentaria falar com Mick depois.

Mick estava exausto, repousava profundamente em sua cama de gelo. Seu celular vibrava sobre a mesa do escritório, e acusava duas ligações perdidas.


10:45 a.m.

Beth estava pronta. Havia vestido uma calça jeans e uma blusinha regata branca, ligou novamente para o celular de Mick, e não conseguira qualquer contato.

--Mick, me liga urgente! – Deixou o simplório recado na caixa postal denotando em seu tom de voz emergência. Não quis perder seu tempo ligando para o telefone convencional, não considerava esses telefones muito úteis, tinha mesmo grande apreço aos celulares, que exerciam múltiplas funções e principalmente acompanhava o usuário geralmente aonde quer que ele fosse.

Correu para o quarto, estava quase esquecendo de pegar os rabiscos que ela rasurara, seriam fundamentais. Pegou sua bolsa, jogou os papéis lá e se certificou que sua arma estava bem guardada. Saiu apressada de casa, ao mesmo tempo ligava para Talbot.


11:06 a.m

A loira destemida, entrara intempestivamente no escritório da promotoria. Talbot já aguardava por ela.

--Descobriu alguma coisa? – Perguntou Beth ansiosa. Ela havia ligado para ele, e fornecera o nome do arquivo de vídeo.

--Oi para você também.. – Debochou Talbot sorrindo. – Sim, pesquisei o nome "lo stivale", e advinha o que é? – Fez suspense.

--O quê? – Repetiu arregalando os olhos.

--Significa "a bota" em Italiano.. – Riu.

--O quê? – Questionou confusa.

--No início eu também não compreendi, mas como você mencionou qualquer coisa sobre eles chegarem pela Costa do Oceano Pacífico, eu verifiquei e encontrei um Navio com o nome de "lo stivale", por acaso ele está fazendo esse trajeto.

--É isso.. – Afirmou Beth empolgada. – Só pode ser isso, eles estão trazendo as jovens de Navio.

--O navio pertence a empresa dos Giolli´s, e aparentemente transportam uma carga de peixes. – Tabolt fez careta. – A suposta "carga" está programada para ser entregue hoje por volta de uma hora da tarde.

--Com certeza essa história de "peixe" é faxada, precisamos ir até lá, tenho certeza que encontraremos as meninas. – Disse com sua familiar convicção.

--Então se prepare, pois vamos para o porto de Los Angeles agora mesmo. – Talbot se ergueu e fez alguns rápidos telefonemas, requisitando um pequeno grupo de pessoas para acompanhá-los na missão.

Quando o promotor terminou, começou a arrumar seu coldre e verificou sua arma. Vestiu o casaco, e a encarou:

--Pode ser perigoso, talvez seja melhor..

--Nem se atreva a me mandar ficar.. – Interrompeu-o com energia.

--Então vamos. – Apressou-se o promotor.

--Espera, e o Mick? – Lembrou Beth. – Precisamos dele.

Talbot fez um longo silêncio antes de responder:

--Não podemos esperar por ele agora, no caminho a gente passa a localização e ele nos encontra lá. – Falou considerando que a presença do detetive seria importante caso eles realmente estivessem diante de uma situação delicada.


Porto de Los Angeles

12:31 p.m

--Esse é o porto mais movimentado dos Estados Unidos, e um dos principais portos do mundo. – Comentou Talbot preocupado.

--Sim, e é enorme.. – Disse Beth erguendo uma sobrancelha, enquanto caminhava ao lado de Talbot por entre centenas de pessoas que circulavam, a maioria eram trabalhadores. - ..vai dar um trabalhão encontrá-los.

--Sim, tem muita gente por aqui, será difícil abordá-los. Tivemos pouco tempo para armar estratégias..

O promotor parou de caminhar, quando percebeu que sua companhia feminina havia parado e começado a mexer em sua bolsa.

--Oh, finalmente Mick está retornando as minhas ligações. – Afirmou Beth erguendo o olhar para Talbot. – Mick!! – Atendeu ansiosa.

Benjamin tinha a intenção de esticar seus ouvidos para prestar atenção no diálogo, porém foi chamado por um dos seus colegas de trabalho e se afastou.

--Beth onde você está? – perguntou Mick aturdido, ele levou um susto quando viu as ligações perdidas, e o recado dela exigindo urgência.

--Estou com Ben, no Porto de Los Angeles. Tive mais uma recordação.. – Introduziu em um fôlego só. – Resumindo: recordei-me de ter visto um vídeo quando estava no hotel, era uma filmagem sobre um carregamento de garotas, estão vindo para cá, e pretendem entregar as meninas hoje. Suponho que a entrega seja para o Muhanned. Mick precisamos de você, será bem perigoso, e o porto está abarrotado de gente.

--BETH!! – Chamou-a Talbot em um grito. – Achamos o navio..

Mick escutou, e seu faro apurado denunciava perigo.

--BETH SAIA DAÍ IMEDIATAMENTE! – Berrou ao telefone. – É HOJE QUE EU QUEBRO A CARA DO PROMOTOR POR TÊ-LA EXPOSTO A TANTO RISCO. – Rugiu para si mesmo, pois obviamente Beth não dera a mínina atenção.

O barulho no porto tornara-se ensurdecedor, Mick escutara conversas paralelas, risos e gritos, ficando impossível o diálogo. Beth provavelmente também não conseguia mais escutá-lo, pois ela começara a gritar.

--O quê? – Perguntou Beth.

Mick já não sabia mais se ela falava com ele, ou com Talbot de tão confuso que a situação ficara.

--MICK, NÃO TO CONSEGUINDO TE OUVIR. PRESTA ATENÇÃO ACHAMOS O NAVIO... – Vociferou e ao mesmo tempo começou a correr. – O NOME DO NAVIO É LO STIVALE. OUVIU? PRECISO DESLIGAR NÃO SE ESQUEÇA: LO STIVALE!

--BETH... BETH SAIA DAÍ AGORA!! – Clamava preocupado.

De súbito um barulho ensurdecedor eclodiu do outro lado da linha, para o completo horror do vampiro. Os sons de gritos histéricos eram transmitidos ao fundo, e a última coisa que Mick escutara foi o grito agudo de Beth sendo surpreendia por algum perigo iminente. A comunicação com ela fora interrompida, restando apenas um mórbido chiado do outro lado...


Autora: Michelli C.J.

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