Corações Transformados
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Capítulo anterior - No capítulo anterior Hyoga envolve-se com um trio de bad boys que lhe ensinam a fumar, beber e ter as garotas mais bonitas. O russo encontra-se com June na praia e declara guerra à amazona.
...oi. Perdi alguma parte importante ? – Shun perguntou retornando.
- Nada amorzinho. – a amazona respondeu com um sorriso – Falamos apenas banalidades.
Hyoga sorriu, mas quando seu olhar voltou a se encontrar com o da menina era como se o pólo norte tivesse chegado naquele lugar, tamanha era a frieza.
- Apenas banalidades. – a loira reafirmou voltando a sorrir.
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Corações Transformados - Capítulo VII – O verdadeiro Shun
Tema: Coração Dissimulado
(Dissimulado (cf. Houaiss) – Encoberto, disfarçado, fingido, hipócrita, falso)
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Santuário. Entrada da área das Amazonas. Domingo à tarde.
O sol ainda brilhava quando Shun se despediu da loira na entrada da área reservada às amazonas.
- Quanto eu te vejo ? – a garota perguntou.
- Quarta-feira depois da aula.
- Vou contar os minutos até lá.
- Ok. Até lá. – disse sorrindo e virou-se para ir embora.
- Shun ? – a menina chamou-o de volta – Você não está esquecendo nada ?
O menino fez cara de dúvida.
- Meu beijo.
- Ah ! Claro.
A menina deu a mão e ele a beijou. Se fosse um lugar mais reservado a garota tiraria a máscara e se beijariam, mas não dava para fazer o mesmo ali.
- Até quarta. – se despediu.
- Até.
June sentiu um aperto no peito ao ver Andrômeda se afastando.
"Ele já não está tão interessado como no começo" - pensou e sentiu o coração ferver de ódio - "Hyoga seu desgraçado. Eu sei que você quer me separar do Shun e apresentar uma das suas amiguinhas, mas eu não vou permitir. Nem que para isso eu tenha que recorrer às últimas conseqüências."
Olhou uma última vez para o namorado se afastando e virou-se, seguindo seu caminho.
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"Hyoga, o que aconteceu ?" - o jovem pensava enquanto se distanciava da namorada - "O que foi que eu fiz para você dizer que não tem amigos verdadeiros na Fundação ? Eu sempre achei que eu era seu melhor amig... CHEGA !."
O garoto assustou-se e parou de andar, olhando à sua volta. Esperava não ter gritado o mesmo tanto que sua mente.
Viu a namorada andando lentamente em direção à área reservada às amazonas e respirou aliviado. Ao menos não tinha externado o que sentia. Ou se tinha, ela não tinha ouvido.
- Shun você é mentiroso, falso e fingido. – disse para si mesmo – Você é um dissimulado.
Continuou a acompanhar com o olhar os últimos passos da namorada até perdê-la de vista atrás das árvores.
"Desculpe June. Eu não queria te fazer sofrer. Juro que não queria, mas fui um idiota e meu erro tomou proporções gigantescas."
A tristeza se apossou do menino. Colocou a mão em uma árvore em busca de apoio. Sentia toda a dor do mundo no seu coração.
"Shun, você não pode mentir para si mesmo." – sua consciência falou - "Você sabe muito bem que não pode levar isso adiante."
Pensou na vida mentirosa que levava e sorriu tristemente.
- Infelizmente é tarde demais. – disse derramando-se árvore abaixo e sentando no chão.
"Chega de sofrer. Esqueça tudo."
- Ok. – afirmou decidido - HOJE eu vou te esquecer definitivamente. – falou com segurança.
Mas sua segurança se transformou em angústia; sua angústia se transformou em dor e sua dor se transformou em lágrimas. Encostou a cabeça na árvore enquanto se perdia em seus pensamentos, lembrando-se de como tudo começou.
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Andrômeda lia quando Fênix entrou.
- Shun, - Ikki invadiu o quarto do irmão e parou na frente do garoto – estou pensando em arrumar uma mulher para você. – avisou – Você já tem idade para isso.
Surpreendeu-se com a atitude do irmão, mas foi bem suave ao responder.
- Ikki, eu agradeço a sua preocupação, mas não estamos no século 12. Na hora em que tiver que acontecer, vai acontecer. Você não precisa arrumar nenhuma mulher para mim.
- Mas vai ser com uma mulher, não ?
- Como ? – questionou sem entender.
- Shun, você é meu único irmão e sei que você não vai me decepcionar.
- Não entendi qual é a sua preocupação. – disse tentando sondar o jovem.
- Você está sempre rodeado de homens. Nunca te vejo com nenhuma menina.
– E por isso você acha o quê ? Que eu sou viado ? – questionou surpreso.
- E você é ?
Sentiu-se ofendido. Que pergunta era aquela ? Como seu próprio irmão poderia ter este tipo de desconfiança ?
Shun poderia simplesmente ter respondido não, mas ficou TÃO indignado, que resolveu enfrentar o outro jovem.
- E se eu fosse, o que você faria ?
Fênix aproximou-se do menino, segurou-o e o chacoalhou.
- SE EU TE PEGAR COM UM HOMEM EU QUEBRO A SUA CARA.
- Ikki ? – seu coração se partiu com a atitude do irmão.
- Eu não estou brincando Shun. – disse seriamente e saiu do quarto do mesmo jeito tempestivo que entrou.
Uma lágrima de decepção correu por sua face. Como Ikki podia pensar aquilo ?
- Você acha que eu sou viado por que gosto dos meus amigos ? – perguntou baixinho.
O jovem abraçou os joelhos e chorou. Chorou de raiva e de tristeza pelas pessoas que pensavam isso dele.
Depois de algum tempo respirou fundo e se controlou.
Provaria a todos que uma amizade entre dois homens poderia até se tornar mais carinhosa ou mais íntima, mas NUNCA brotaria um amor dali.
- Vou te provar, meu irmão. – falou em um misto de revolta e decepção - Viados nascem viados. Homens não se tornam viados. E eu vou te provar. – disse secando os olhos.
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Foi até o banheiro e lavou o rosto. Saiu do quarto de uma vez e quase derrubou o loiro que passava.
- Ai, Shun. Quer me matar ?
- Desculpa Hyoga. Eu estava distraído.
- Você estava chorando ? – o amigo perguntou afastando os cabelos de sua face e tocando de leve o seu rosto.
O toque inesperado fez o Virginiano ficar paralisado, mas sua mente foi ágil o suficiente para enxergar todas as possibilidades. Sorriu para o amigo. Tal qual a maldição de Sonhos de uma Noite de Verão, de William Sheakespeare, Shun via bem à sua frente o SEU ELEITO. Não foi uma questão de motivos ou de escolha, foi uma questão de oportunidade. Hyoga simplesmente foi o primeiro a aparecer.
- Quem te fez chorar ? – insistiu.
A raiva latente no coração de Andrômeda precisava ser suavizada e o russo virou o antídoto. Além disso o Aquariano era perfeito: amável, educado, sensível e se importava com Shun.
Foi com olhos de súplica que observou o loiro, mas em seu íntimo tecia um plano diabólico.
- Não se incomode, Hyoga. Foi só uma bobagem. Já passou.
- Se já passou você vai aceitar jogar videogame comigo. – replicou sorrindo.
O Virginiano sorriu em resposta.
- Ok. Eu aceito.
O cavaleiro de Cisne era mesmo perfeito. O Aquariano não era o tipo que discriminaria o amigo se ele ficasse mais amoroso. Não. Carente de atenção, o loiro estava acima destas coisas.
Agora já estava resolvido. Shun faria a experiência e provaria ao irmão.
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Tudo teria sido perfeito, se não fossem dois pequenos detalhes esquecidos pelo garoto. Primeiro: como o coração do amigo se comportaria.
Shun não sabia ao certo como o Aquariano reagiria a toda aquela atenção. Se bem que agora, vendo o russo aparecer com duas meninas ao mesmo tempo, Andrômeda apenas havia confirmado o que já sabia: Hyoga realmente gostava de mulheres.
Mas o pior dos problemas foi o segundo detalhe. Deveria ter se preparado para as reações do SEU PRÓPRIO coração.
Começou seu jogo sem se preocupar, pois acreditava piamente que Hyoga gostava de meninas, então não teria perigo. Ele NUNCA se apaixonaria pelo Virginiano. Então brincou de "amiguinho carinhoso" o quanto quis, até que um dia se deu conta que alguma coisa saiu errada.
Shun percebeu que sua própria carência era maior que imaginava. De repente se viu caído em sua própria teia; vítima de seu próprio jogo; provando seu próprio veneno. Tinha passado tanto tempo fingindo que acabou sendo dominado pelo fingimento e quando achou que era hora de parar, era tarde demais, sua mente já estava envenenada.
Então entrou em desespero.
Passou noites sem dormir tentando arrumar um meio de esquecer o loiro. "Homem não vira viado. Homem não vira viado." repetia como um mantra para tentar se convencer, mas a imagem de Hyoga estava gravada em sua mente, torturando-o noite adentro.
Cansado de tanta angústia, suplicou mentalmente ajuda aos deuses e, talvez, como resposta às suas preces recebeu uma ligação. Era June. A amazona queria vê-lo.
Encontraram-se e conversaram bastante. Sempre gostou da garota. Era uma boa companhia e sua melhor amiga.
Por sua sorte a menina dava sinais de estar apaixonada. Comentou inclusive sobre o dia em que Shun a tinha visto sem máscara. O menino nem se lembrava direito deste dia, mas era verdade, tinha mesmo visto seu rosto e isso significava que estava amaldiçoado. Ver o rosto de uma amazona era pago com a vida e deveria morrer a não ser que... Sim. June não o matara porque o amava.
Shun não amava a menina, mas sua mente já estava lutando tão desesperadamente em busca de uma solução que abraçou a possibilidade como uma tábua salvadora.
Não seria difícil namorá-la. Sempre foram amigos e sempre gostou dela. Era perfeito. Claro que seu problema continuava. O que sentia pelo Aquariano só aumentava a cada dia, porém para seu bem e para não decepcionar Ikki, June deveria ser a eleita.
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Mas os problemas do Virginiano começaram a aumentar. Tanto havia fingido, que os sentimentos pelo loiro o confundiam chegando a perder o controle da situação.
Certa vez na praia, em um dia que o Aquariano estava rezando pela mãe, deixara escapar que gostava do russo (1). Se Ikki não tivesse aparecido e chamado o irmão, talvez não conseguisse se dominar. Desceu rapidamente as pedras e se juntou a Fênix. Algum tempo depois Hyoga chegou e Ikki o ofendeu.
Naquele dia, enquanto o loiro ia embora magoado, o garoto olhou para Fênix. Talvez o sentimento já estivesse adormecido dentro de si ou talvez nascera na brincadeira perigosa que fizera, mas se seu irmão esperava que não se apaixonasse por outro homem, nada mais poderia ser feito. Era tarde demais.
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Encostado na árvore, Andrômeda secou os olhos. Ainda que gostasse do amigo, isso de nada adiantava. Era impossível ficar com ele. Ikki mataria o irmão se ele tentasse, June mataria o namorado se ele tentasse e o pior de tudo: Hyoga não o amava.
- É Shun. É melhor esquecer. – disse para si mesmo sentindo toda a dor em seu coração.
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Hyoga tinha conseguido o que queria. Atingira a loira em cheio e Shun não a defendera. A menina tinha percebido as intenções do russo em separá-la de Andrômeda, mas nada disso importava.
A guerra já estava declarada.
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Estava ficando cada vez mais difícil para o Virginiano fingir que gostava da amazona. Falava nela o tempo todo, principalmente quando Hyoga estava junto, para tentar se convencer, mas agora o que sua boca falava não era mais sentido por sua mente. E pior, nos últimos tempos sua mente passou a deixar seu coração fazer o que queria aumentando sua angústia.
Suspirou.
Lembrou-se de como seu coração tinha se partido em dois quando Shiryu disse que o Aquariano gostava de uma menina. Foi com muita dor que entrou no quarto do russo para confirmar e foi grande a felicidade quando soube que tinha dado errado.
Naquele dia estava a ponto de fazer uma bobagem, mas a imagem do irmão chegou em sua mente a tempo de salvá-lo e dizer que não era certo desejar que Hyoga não conseguisse uma namorada. Foi com muito custo que disse, fingindo alegria, que seria legal se o loiro arrumasse uma namorada de cabelos verdes para saírem combinando.(2) Como se odiava por ter dito aquilo. Era óbvio que não era o que queria.
Assim como não queria ter visto as duas garotas em biquínis MINÚSCULOS abraçando e beijando Hyoga na praia.
A praia. Quase não tinha conseguido se controlar. Quando o Aquariano disse que Shun poderia ter escolhido outra menina e não a amazona, ficou mudo, com medo de sua própria reação. Sua vontade era gritar "QUERO VOCÊ !", mas felizmente conseguiu segurar a frase em sua garganta.
E ainda bem que isso aconteceu, pois agora que o amigo estava rodeado de meninas, Andrômeda sabia que não poderia SEQUER pensar em tal coisa. Era evidente que o cavaleiro de Cisne gostava de mulheres.
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Fundação. Início da noite.
O Virginiano chegou na Fundação um pouco abatido.
Para variar, Hyoga não estava em casa. Agora que tinha novos amigos e estava cercado de garotas bonitas esquecera-se de sua amizade com Shun.
O cavaleiro de Andrômeda já estava enlouquecendo. Precisava fazer alguma coisa. Não suportava mais ficar assistindo Hyoga se afastar a cada dia. Se não podia tê-lo como namorado, ao menos não queria perdê-lo como amigo.
Subiu para o andar dos quartos e sem que ninguém visse, entrou no quarto do Cisne.
Nem sabia ao certo o que queria ali. Talvez apenas entrar na intimidade do loiro, fazer parte do russo, ter um pouco dele, nem que fosse apenas tocando suas coisas.
Ao olhar para a cama do Aquariano lembrou-se do dia em que Hyoga ficou doente. (3) Quase perdeu a razão quando soube, mas conseguiu se controlar a tempo. Tinha ficado tão alterado que teve medo de vê-lo. Sua mente travou uma luta contra seu coração quando ficou se imaginando aos beijos com o loiro enquanto perguntava se sua febre tinha baixado. Entrou no banho gelado para tirar estes pensamentos da cabeça, mas não adiantou. Era melhor nem vê-lo. Não podia responder por seus atos.
Olhou pela extensão do quarto. Aproximou-se da escrivaninha e abriu displicentemente o caderno do amigo. O cavaleiro de Cisne tinha uma letra muito bonita. Passou os dedos por um S, um H, um U e um N feitos pelo loiro. Como queria que estivessem todos juntos.
O menino pegou o caderno em suas mãos e o abraçou. Na mesma hora ouviu um barulho. Colocou o caderno sobre a escrivaninha e se aproximou da porta. Um pequeno barulho começou atrás de si e quando se virou viu o caderno caindo. Pegou-o no ar pela capa.
Segurou-o melhor e abriu para ver se o puxão não tinha estragado as folhas e surpreendeu-se ao encontrar nas últimas páginas alguns pensamentos escritos, como se fossem poemas.
Fechou o caderno imediatamente. Isso era invadir a privacidade do loiro.
Mas já havia invadido entrando no quarto dele, não ?
Abriu novamente e fechou. Não. Não podia.
- Shun, - disse a si mesmo – se você quer entender o que está se passando com o Hyoga, se você quer ajudá-lo, leia. Se for mesmo um poema, uma poesia ou qualquer coisa do tipo, o que ele estava sentindo que está escrito no papel. Leia.
Parou um pouco para pensar. Tinha lógica. Se o loiro fosse extravasar o que sentia não seria gritando para todo mundo ouvir. Seria mais discreto. Talvez escrevesse. E se queria ajudar o amigo, teria que saber o que se passava com ele já que ele não queria conversar.
- Ok. – e abrindo o caderno novamente, leu.
"Solidão (4)
Sinto-me
tão sombrio e solitário, melancólico e vazio.
Enfrentando sozinho os problemas que por vontade própria escolhi
Tudo me comove, mas isso eu não posso externar
E se não divido meus sentimentos é por medo da sua reação.
Saiba que nunca me esquecerei de você,
Ainda que eu diga o contrário
Pois por você eu poderia doar tudo de mim.
Mas prefiro ter dignidade.
Prefiro ser frio e insensível.
Guardar no meu íntimo os sentimentos,
Porque essa é a minha verdade e essa é a minha agonia:
Amar alguém que nunca será meu
Alcançar o inalcançável ?
Como poderei sobreviver se não tenho mais sua amizade ?
Como poderei sobreviver se não tenho mais meu amor ?
Só resta me entregar nos braços da amante exigente: a morte.
Adeus solidão da vida.
Adeus solidão da alma.
Adeus."
Shun ficou triste. Podia sentir a dor que tomava conta do amigo enquanto ele descrevia como se sentia por gostar de uma pessoa que não o correspondia. Tentou imaginar quem fosse, mas não conseguiu imaginar ninguém pois não conhecia as garotas com quem o Aquariano saia.
Virou a folha e viu um segundo poema. A tinta parecia a mesma, mas estava escrito muito forte, como se o russo tivesse apertado bem a caneta no papel.
"Agora não mais (5)
Ah... Eu fiz de tudo para chamar sua atenção...
Amor... Como te amei
Queria tanto um sim seu
Tudo parecia tão certo...
Eu vivia nas nuvens,
Mas, não percebi o quanto elas não eram firmes...
E assim como o vento as leva,
Ele me arrastou de volta para o chão
De um céu brilhante num dia de sol,
Fui jogado para uma noite escura de tempestade...
Foram poucas palavras
Mas elas mudaram completamente minha vida...
Seria tudo tão diferente
Se eu não tivesse alimentado tantos sonhos...
Tantas ilusões!
Pego tudo e jogo pro alto
Porque...
Eu não preciso de você...
Eu não preciso mais de você!
Não preciso de você para viver;
Eu não preciso de ilusões!
Cansei daqueles sonhos tolos!
Cansei... Cansei de tudo...
De fechar os olhos e te ver...
De ficar sozinho no silencio e ouvir tua voz...
De sorrir feito um bobo só de te imaginar sorrindo...
Se você me amasse,
Como um dia te amei...
Tudo seria tão diferente...
Mas não foi essa a realidade!
E agora...
Não preciso mais do teu amor,
Não mais...
Porque agora:
Não vivo mais por você!
Meu amor foi enterrado,
Bem no fundo...
Deixado de lado,
No escuro...
Sonhos vazios...
Ilusões baratas...
Eu não vivo de sonhos!
Não mais!
E eu não vivo de ilusões!
Não mais!
Não dependo de você para viver!
Não mais...
Nunca mais..."
Aquilo foi um choque para o garoto. Hyoga escrevera com ÓDIO. Podia sentir pela força que marcara as letras no papel, principalmente nas as partes que atacava a pessoa que não o amava.
O russo precisava de ajuda. Ele não estava em seu estado normal. Shun precisava fazer alguma coisa, mas o quê ? Já tentara alertar o loiro sobre os novos amigos e não tinha adiantado. Não. Precisava de alguém que o cavaleiro de Cisne ouvisse, alguém que...
- CLARO !
Hyoga tinha ido ao santuário para ouvir os conselhos do Escorpiniano. Milo poderia ajudar.
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Assim que Shun desceu deu de cara com o loiro.
- Oi Hyoga. Vai ficar em casa ?
- Não tem nada de bom para eu fazer aqui. – respondeu agressivamente e subiu.
Andrômeda ficou olhando tristemente o outro se afastar. As palavras do russo eram mais afiadas que uma lâmina.
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Santuário. Próximo à entrada do templo de Áries.
- Oi Shun.
- Oi Mu. Tudo bem ? Você sabe se o Milo está em casa ?
- Ele subiu quase agora, mas parece que vai sair de novo.
- E será que eu posso falar como ele ?
- Claro. Pode subir. Vou avisá-lo.
- Obrigado.
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Templo de Escorpião.
- Milo ? Posso entrar ? – perguntou entrando lentamente.
- Oi Shun. Você queria falar comigo ? – apareceu de toalha no meio do templo.
Andrômeda ficou mudo ao ver o outro com aqueles trajes e baixou a cabeça rapidamente.
- Desculpe, eu não queria te atrapalhar.
- Tudo bem, venha até o meu quarto.
- Eu... eu espero aqui. – disse desconcertado por se sentir atrapalhando.
O grego riu.
- Estou de cueca, Shun. – e tirou a toalha para provar. – Pode vir sem medo, não vou fazer strip-tease para você.
O menino riu com a piada.
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- O que está acontecendo ? – perguntou vestindo uma calça.
- É o Hyoga. Ele está muito estranho.
- Como assim estranho ?
- Agressivo, chegando de madrugada, saindo com um monte de menina de uma vez só, andando com uns garotos barra pesada...
- Você não está falando isso porque está com ciúme dele, não é ?
- Ciúme ? – repetiu assustado.
Shun gelou. Como Milo sabia ?
- Ciúme por ele estar mais popular. Pelo jeito que você descreveu é o que está acontecendo, não ?
"Ufa!" pensou.
- Na verdade estou com medo, Milo. Ele está muito diferente, beirando o desprezível. Talvez esteja usando drogas.
- Isso é muito grave.
- E ele não me ouve. Achei que ele ouviria você ou o Kamus.
- NÃO. Não diga nada ao Kamus. – disse rapidamente – Ele... ficaria muito triste.
- Eu sei. Por isso estou falando com você. Como foi com você que ele veio pegar dicas de como se tornar mais popular, achei que era a pessoa indicada.
Milo engoliu seco. Se tudo o que o menino estava dizendo era verdade, Kamus o mataria por levar o pupilo para o mau caminho.
- Pode deixar, Shun. Você falou com a pessoa certa. Vou conversar com ele. Ele está em casa agora ?
- Não.
Andrômeda explicou o tipo de companhia que Hyoga vinha mantendo nas últimas semanas. O grego pensou em vários lugares para o menino estar.
- Confie em mim Shun. Não vou decepcioná-lo.
Se necessário o Escorpiniano iria ATÉ O INFERNO atrás do garoto, mas não daria mais este desgosto ao francês. Já bastava a relação complicada que tinham.
Milo pediu ao Virginiano que não contasse nada a ninguém. Ele conversaria com Hyoga e depois contaria o que tinha descoberto. Andrômeda concordou e foi embora.
O grego acabou de se vestir e saiu.
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June estava arrumando sua cama para deitar. Estava com dor de cabeça e muito triste.
Colocou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. Talvez aquilo fosse um sonho ou apenas pensamentos. Não sabia. Via-se novamente na praia. Shun tinha ido até a água e ela estava sozinha com Hyoga. Tudo o que aconteceu se repetiu. Andrômeda se aproximando, o olhar frio do outro para si. A boca do russo se abrindo para dizer que Shun poderia ter arrumado uma garota mais bonita e menos complicada que uma amazona. O namorado abraçando-a, o Aquariano comentando que eles formavam um belo casal, Hyoga olhando para Shun estranhamente.
A garota se mexeu na cama, incomodada.
Sua mente processou novamente as imagens e repassaram a hora em que Shun a abraçou. O olhar de Hyoga. O olhar de Hyoga.
Em seu sonho ou pensamentos o russo novamente abriu a boca. Disse que eles formavam um belo casal. Hyoga olhava Shun estranhamente. Estranhamente. Estranhamente. ESTRANHAMENTE.
Acordou assustada. Um pensamento veio à sua mente.
- A menina da sorveteria.
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Certa vez June tinha ido a uma sorveteria com o namorado. Enquanto esperava Andrômeda voltar do banheiro olhou para uma garota em outra mesa. Ela estava com um rapaz de cabelos negros. O rapaz havia se levantado para ir ao banheiro e uma coisa chamou a atenção da amazona. O olhar da menina. Era evidente que estava apaixonada. Olhava para o rapaz com carinho, com olhos sorridentes. Quando o rapaz voltou June olhou bem para ele. Não. O jovem não tinha o mesmo olhar. A amazona baixou o rosto, compadecida pela garota.
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Olhar apaixonado. Olhar apaixonado. OLHAR APAIXONADO.
- Não pode ser. – disse para si mesma incrédula.
Quando Hyoga olhou para Shun abraçado à amazona, o loiro tinha o mesmo olhar apaixonado que a garota da sorveteria. Por isso achou o olhar do cavaleiro de Cisne estranho. ERA O OLHAR APAIXONADO DE UM HOMEM PARA OUTRO HOMEM.
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O cavaleiro de Escorpião foi até o bairro onde as baladas pegavam e começou a procurar o menino. Encontrou-o depois de quase uma hora de busca. O russo estava com mais três garotos e duas meninas. Notou que um dos meninos fumava e o Aquariano tinha um copo na mão.
Como a intenção não era fazer escândalo, o Escorpiniano se aproximou tranqüilamente.
- Oi Hyoga. Que bom te encontrar aqui. Estou mesmo precisando falar com você.
- Oi Milo. Tudo bem ? E aí ? O que está pegando ? – perguntou sorridente.
- É um assunto que eu prefiro tratar em particular. Você tem meia-hora ?
- Claro.
O loiro foi até os amigos, falou com eles e se despediu das meninas. O grego percebeu que uma delas escreveu alguma coisa em um papel e entregou ao russo.
Enquanto os dois cavaleiros seguiam até o estacionamento conversaram apenas amenidades. O papo continuou por terrenos nada perigosos até que Milo parou o carro na encosta de um pequeno morro e desceram.
Com exceção de um casal de namorados, o local estava vazio. Os dois se sentaram em algumas pedras.
- Nossa ! – o loiro disse sorrindo – Para você me trazer até aqui o assunto é sério.
- Quem são aqueles garotos, Hyoga ?
- São meus amigos da escola.
- E você os conhece bem ?
- Que papo é esse, Milo ?
- Seus amigos usam drogas ? – perguntou sem rodeios.
Primeiro ficou surpreso com a pergunta , depois ficou aborrecido e se levantou.
- Quem te mandou vir atrás de mim ? – questionou irritado com o Escorpiniano.
- Ninguém "me mandou" vir atrás de você. Eu vim porque estou preocupado.
- Preocupado ? O que é Milo, a consciência pesou ? – perguntou em tom sarcástico.
O grego cerrou os olhos.
- Senta. – disse secamente.
- Estou muito bem assim.
- Não vou deixar que você estrague sua juventude.
- Nossa, que papo moralista, Milo ! Pena que você não tenha moral SUFICIENTE para me recriminar de NADA ! – respondeu em tom desafiador.
- Hyoga, eu só não quebro a sua cara AGORA porque sei que você está precisando de ajuda.
O menino percebeu que era melhor pegar mais leve. Os golpes do grego eram bem doloridos.
- O Shiryu está preocupado à toa. – jogou verde – Eu não estou usando drogas.
- Então o Dragão também está preocupado ?
- Não foi ele quem foi te procurar ?
- Não.
- Então só pode ter sido o Seiya.
- Parece que você tem muitos amigos que se preocupam com você.
- Ah, não ! Isso não é possível. Não pode ter sido o Shun. Ele está MUITO OCUPADO com a namoradinha "maravilhosa" dele. – disse sarcástico – Não teria tempo para pensar em mim.
Quando Milo viu a reação do garoto, tudo ficou claro.
- Hyoga, – levantou-se e chegou perto do menino – o Shun me procurou e disse que você está diferente. Disse que você está beirando o desprezível, mas eu entendo perfeitamente o que está se passando com você. – falou colocando a mão sobre o ombro do russo.
- CLARO QUE ENTENDE. – gritou empurrando com força a mão do grego para longe de si – Você é mestre em entender tudo, não é ? Sabe até "a receita da conquista". – disse em tom de deboche – Ah ! Agora eu sei porque ela não funcionou comigo. Talvez eu não seja TÃO bom ou TÃO gostoso quanto você, NÃO É MILO DE ESCORPIÃO ? – falou cheio de ódio.
O Escorpiniano baixou o olhar momentaneamente e depois voltou a olhar para o menino.
- Sabe, Hyoga, você me lembra muito um outro garoto quando ele estava com um pouco mais que a sua idade.
Desviou os olhos do russo e ficou olhando para o horizonte enquanto falava.
- Assim como você este garoto procurou uma pessoa mais velha para aconselhá-lo na arte da conquista, mas assim como você ele não conseguiu conquistar a pessoa que queria, pelo contrário. Talvez, porque assim como você - olhou para o Aquariano e sorriu tristemente – eu não tive coragem de dizer que estava apaixonado por um outro homem e menti.
O loiro que olhava para o Escorpiniano com desdém, arregalou os olhos e engoliu seco. Milo aproximou-se do jovem.
- Hoje o Shun me procurou porque está preocupado com você. Não seja estúpido como eu fui achando que se não podia tê-lo, mostraria o que ele estava perdendo. – deu uma pequena pausa – Bebidas ? Belas companhias ? Sexo ? Acredite Hyoga, com isso eu só consegui aumentar o desprezo e o ódio que ele sente por mim.
Os olhos do russo se encheram de lágrimas. Desprezo. Andrômeda tinha dito a Milo que Hyoga estava beirando o desprezível. Será que o Virginiano o desprezava a ponto de odiá-lo ?
- Se você quer mesmo lutar pelo Shun, não cometa os mesmos erros que cometi. Hoje estou cercado de pessoas, mas aqui dentro – e apontou para o coração – estou sozinho.
O Aquariano não resistiu. Baixou a cabeça e sentiu algumas lágrimas correrem por sua face. Queria o amor do Virginiano, mas era seu desprezo que estava conseguindo. Queria se tornar adorável, mas tinha se transformado em um ser detestável.
Pensou em Andrômeda e em seus amigos verdadeiros. Pensou no que estava acontecendo, nas mentiras que estava contando e na falsidade que estava vivendo. Sentiu-se ser abraçado e apertou o Escorpiniano com força.
Agora o peso do mundo estava sobre si. Hyoga tornara-se sua própria vítima. A dissimulação que enchia seu coração tinha envenenado sua alma.
Depois de algum tempo o russo se soltou do grego e olhou-o seriamente, enxugando as lágrimas.
- Milo, acho que está na hora de você saber toda a verdade.
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Próximo capítulo – Hyoga conta a Milo toda a verdade sobre seu envolvimento com os três garotos. June ainda incrédula, tenta descobrir o que o russo quer fazer com seu namorado. Shun continua preocupado com o amigo.
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Nota da autora – Explicações
( 1 ) História comentada em Corações Transformados - Introdução
( 2 ) História comentada em Corações Transformados – Cap V
( 3 ) História comentada em Corações Transformados – Cap V
( 4 ) Pensamentos colocados com a ajuda da Cardosinha.
( 5 ) Poema enviado por Sinistra Negra.
Nota da autora – Agradecimentos.
J., me baseei na sua história para descrever o jogo perigoso que o Shun utilizou para provar que não era viado. Não deu certo para você e não deu certo para ele também. Vocês dois começaram na brincadeira e acabaram se apaixonando de verdade.
Sinto muito pelo que aconteceu quando você contou ao M. o que sentia, mas nem todo homem aceita uma revelação dessas numa boa, ainda mais vinda do melhor amigo.
Obrigada por me deixar usar sua história. Saiba que eu nunca vou desistir de torcer para que algum dia vocês consigam, ao menos, voltar à bela amizade que tinham. Beijos da amiga Érika.
Agradecimentos especiais à Cardosinha e à Sinistra Negra que me presentearam com poemas e pensamentos para o Hyoga. Bjos meninas.
Obrigada também a todos que acompanham a fic, principalmente aos que escreveram:
Anjo Setsuna - Tirou um sarrinho porque o Seiya estava jogando xadrez e ficou triste porque o Hyoga ficou mau. Quer só ver a guerra entre o loiro e a amazona. (Bela Patty - Ô dó (do Seiya) rsrsrs. Realmente, aí vem guerra. Vai sobrar para todo mundo nesta rede de intrigas, mentiras e falsidades. Aguarde...)
AnnaChanHxS - Ficou desapontada com a história. Não achou que o Hyoga fosse virar um cara que se droga, alcooliza e dorme com mulheres que nunca viu. Também acha que o Shun não teve culpa nisso. (Bela Patty - Acho que agora deu para entender porque o Shun dizia que a June é perfeita, não ? Aguarde, pois no próximo capítulo as revelações continuam. Obrigada pelo e-mail.)
Clave de Sol - Sempre torceu para que o Shun deixasse de ser um bebê chorão (no bom sentido pois gosta muito dele). Ficou com ódio da June só por causa da pequena conversa com o Hyoga. (Bela Patty - Oi. Não achei seu endereço e-mail no Obrigada pela review que vc deixou. Bem, se você já ficou com raiva da June, imagino como não ficará nos próximos caps, pois a moçoila vai entrar na guerra de corpo e alma.)
Ilia Chan - Adorou a transformação de Hyoga e gostou mais ainda do comentário que ele fez pra June. Concordou sobre "as garotas preferem os bad boys" rsrs. E aguarda a guerra de intrigas. (Bela Patty - As revelações bomba já começaram neste cap. Shunzinho, quem diria, hein ? Tadinha da June rsrs. Foi um comentário um tanto forte, maaaaas guerra é guerra, não ? Quero ver o que vai sobrar disso tudo...)
Kitsune Lina - Ficou triste porque o Hyoga pode estar usando drogas e está desprezando as garotas. Achou que o russo ficou cruel, repulsivo e nojento. Não está mais brava com o Shun. (Bela Patty - As reviravoltas começaram. Como vc deve ter percebido, não adiantou nada pois é do Shun que o loirinho gosta e fim de papo. Vamos ver até quando vai este fingimento)
Litha-Chan - Comentou que ódio e amor realmente caminham lado a lado e para uma pessoa sentida como Hyoga está... é um problemão. Ficou curiosa para saber do que a June tinha ficado desconfiada. (Bela Patty - Vc falou tudo. Amor & Ódio é explosão certeira. Agora vc já sabe do que a June está desconfiada.)
Pime-Chan - Estava ansiosa por este capítulo. Acha que a bronca do Hyoga pelo Shun vai passar pois o loirinho ama o gatinho de olhos verdes. Ficou um pouco contente porque o russo tratou mal o Shunzinho. Gosta dos dois sofrendo, mas gosta de um final feliz entre os gatinhos. (Bela Patty - Tem razão, mesmo querendo odiar o Shun, o Hyoga acaba vendo que na verdade ama o gatinho de paixão. O final da fic ainda está um pouquinho longe. Final feliz ? Ainda vai rolar muita coisa por aí. Vc vai ver.)
Sinistra Negra - Hyoga ? Adorou. Shun ? Ainda achava tapado. June ? Achou que pelo jeito vai se divertir com ela. (Bela Patty - O Hyoga ainda vai surpreender muito. E GARANTO ! A June vai entrar numa briga pesada contra o loirinho. Vamos ver agora que o Shunzinho acordou o que vai dar... Milhões de obrigada pelo poema !)
Srta Nina - Ainda está com pena do Hyoga. Além disso achou que o pior é que o Shun nem notou nada na praia e a June vai pegar pesado. (Bela Patty - Explicado porque o Shun não notou nada na praia, não é ? rsrs. Aí vem jogo pesado. O loirinho que se cuide pois a amazona vai mostrar as garras.)
Teffy Chan - Está brava com o Shun e com peninha do Hyoga. (Bela Patty - Passou a raiva do Shun ?)
Nota da autora – Contato
Contatos no Aguardo sugestões, críticas e comentários. Pode escrever para brigar comigo também e desaprovar o rumo da fic. Bela Patty .
– Outubro / 2005 –
