Capítulo VII
— O que deseja? — perguntou Bella, acomodada na cadeira ao lado da lareira, assustada ao ver Edward entrar no quarto.
Ele usava um robe longo com o brasão da família bordado em dourado no bolso do lado esquerdo do peito.
— Mandou chamar sua criada?
— Sim. O que tem isso?
— Ela não está disponível no momento.
Bella sentiu o sangue congelar. Será que o duque a tinha dispensado? Mas por que razão? Durante todo o jantar, Bella havia se comportado da maneira mais submissa possível. Até mesmo lorde Uley cumprimentara Edward pela excelen te escolha de esposa.
— Por que não? — perguntou intrigada, entrelaçando os dedos das mãos para preparar-se caso recebesse uma res posta negativa.
— Está cuidando do bastardo.
— Ele tem um nome, sabia? — replicou quase sem pensar. O alívio ao saber que Alice ainda estava ali a fez com que baixasse a guarda e o enfrentasse.
Não houve resposta alguma, apenas um silêncio pesado. Bella levantou o rosto para encará-lo e ficou surpresa com a expressão de desgosto dele.
— A babá não tinha condições de acompanhar a viagem até o norte da Escócia. Mandei-a de volta para Londres. E, por sinal, com uma excelente indenização.
— Dispensou a babá? Não posso acreditar! O bebê neces sita dela. Tem que trazê-la de volta!
— Vou fazer de conta que não estou ouvindo. Será que preciso relembrar como funcionam as leis neste país?
— Não, Alteza. Peço desculpas — Bella falou com suavi dade na voz, pois sabia que desafiá-lo tornaria as coisas pio res do que já estavam.
— Está bem. E, já que estou aqui...
— Eu gostaria de ficar só, se não se importa.
— E como fará para tirar o corpete sem nenhuma ajuda? Já vi como é difícil!
Bella prendeu a respiração, evitando a lembrança daquelas mãos fortes tocando seu corpo frágil na última vez em que se empenhou na tarefa. Se fosse preciso, tensionaria cada músculo ao máximo, impedindo que o tremor ficasse visível. Enquanto ele continuasse com aquele comportamento, não queria nem lembrar do gentil e atencioso Edward Cullen.
— Não permitirei que me toque — Bella afirmou em tom severo.
O duque continuou estático, com o olhar distante, perdido em algum pensamento impossível de ser desvendado. Bella sabia que ele se sentia traído e, mesmo que lhe dissesse a verdade, talvez fosse tarde demais para recuperar o amor que ele lhe devotara.
— Eu também não tenho desejo algum de tocar em qual quer parte do seu corpo, Bella.
— Então está desperdiçando seu tempo comigo — ela re plicou friamente.
— Está enganada. Eu não disse que quero ajudá-la, e sim que não tem mais ninguém para fazer isso.
— O que vai lucrar com toda essa encenação?
Edward deu um profundo suspiro e então respondeu:
— Só quero me assegurar de que minha estupidez não foi sem causa. Eu tinha boas razões para casar com você. Sua beleza é estonteante, Bella. Qualquer um pode comprovar o que digo. Você é a razão da minha insônia.
— Pouco me importa a sua falta de sono — ela respondeu, tentando parecer indiferente.
Embora estivesse acomodada na cadeira ao lado da larei ra, nunca sentira tanto frio. Se ao menos ele fosse embora logo, poderia acocorar-se bem junto do fogo. Ou, então, já que ninguém viria ajudá-la a se despir, poderia entrar em baixo dos cobertores com roupa e tudo. Porém, no íntimo, tinha conhecimento de que não era a temperatura do am biente que a afetava. Nada que fizesse seria capaz de ame nizar o frio da solidão que lhe pesava nos ombros.
— Por que não me contou sobre a criança antes de nos casarmos, Bella? — Edward perguntou de repente.
Bella notou um resquício de compreensão naquela per gunta, mas não iria ceder de maneira alguma. Então cerrou os punhos num gesto instintivo.
O escocês prosseguiu no mesmo tom baixo, como se falasse consigo mesmo:
— Posso até entender que tenha hesitado no início. Tanto na casa de Barrigan ou na de Stanley. Mas na capela de Crewe... — A emoção embargou-lhe a voz e calou-se.
A duquesa suspirou várias vezes antes de responder:
— Talvez eu tivesse medo da sua reação, Alteza. E posso dizer que não estava tão errada.
— Acha que a trato tão mal assim?
— Agora não. Mas já se esqueceu do que fez comigo na frente da sua Guarda de Honra?
Bella sabia que era o coração magoado que falava naquele instante. Os dedos das mãos tremiam tanto que precisou entrelaçá-los para disfarçar a emoção.
— Acho que estamos perdendo tempo — ela conseguiu dizer com aparente calma, pois não queria dar-lhe o gosto de vê-la tão vulnerável.
— Desde que seu tempo pertence a mim, eu é que decido o que fazer com ele. E, se quiser vir vê-la, não hesitarei nem um segundo; se quiser abraçá-la, abraçarei; se quiser usá-la para satisfazer meus impulsos sexuais, ninguém poderá me impedir; você é minha em todos os sentidos. Nunca se es queça disso.
Oh, Deus!, exclamou Bella em pensamento. E, tapando os olhos com as mãos, meneou a cabeça.
— Para essa finalidade, uma prostituta é excelente! Seu conhecimento no assunto ajudará bastante — acrescentou.
— Por favor, Edward. Pare com isso!
— Não tem mais permissão para usar o meu primeiro nome. Esqueceu? Se me chamar assim outra vez, esteja pre parada para arcar com as conseqüências.
Bella retirou as mãos dos olhos e ergueu-se. Imaginava que seu rosto estava sem cor porque mal conseguia equilibrar-se:
— Não me quer, Alteza. Sabe disso.
— O que sabe sobre mim?
— Disse que lhe impingi um bastardo, não foi?
— Como poderia esquecer? — resmungou ele por entre os dentes.
E, num impulso violento, estreitou a distância entre eles.
Bella recuou encostando-se à parede, Edward a acuou como se estivesse ameaçando uma presa.
— O nome dele é Masen. Tem oito meses de idade. Nasceu em Black Villa, em Monte Cario, no último verão. Não há registro do seu nascimento. Preferi assim para... evitar constrangimentos — ela explicou, sem contar toda a verdade.
Edward parou de avançar. Foi como se o impacto daquelas palavras formasse uma barreira entre eles. Ele, então pra guejou alto no dialeto gaulês, urrando de raiva. Depois, girou sobre os calcanhares e dirigiu-se com passadas pesas em direção à porta.
— Que se dane, Bella Cullen. Você e toda sua laia!
Após sair, o duque bateu a porta com tanta força que o barulho ecoou por todo o aposento.
Bella descobriu que lidar com um só escocês em particular não era fácil, seria preferível enfrentar toda a Guarda de Honra inteira de uma só vez!
Uma criada desconhecida apareceu no quarto de Bella no meio da noite e ajudou-a a livrar-se do corpete e vestir uma camisola confortável. Só então a duquesa conseguiu dormir. Até aquele momento, as lembranças atormentaram-na sem piedade. Recordou não só da noite do casamento, a festa e a cerimônia na capela de Crewe, como também do sonho que tivera com uma noite de núpcias memorável. Imaginava sur preender Edward com a virgindade que ainda mantinha. Ago ra, porém fazia questão de não lhe revelar mais nada a seu respeito. O tratamento cruel que ele lhe havia dispensado isentava-a de qualquer culpa que pudesse ter. Jurou baixi nho que jamais compartilharia seus segredos com aquele escocês rude.
— Bella? Dormiu bem? — A voz de Alice a acordou logo pela manhã.
— Não muito — ela respondeu com voz sonolenta. — O que aconteceu com a babá?
— Ela reclamava demais. Não consegui impedir o que houve. Juro que tentei.
— Eu sei, Alice. A culpa toda é do meu marido. E um homem muito rígido e bárbaro. Por trás daquela aparente gentileza, existe um homem grosseiro que apenas disfarça sua origem de bárbaro. — Bella parou de falar, espantada com a intensidade da mágoa que a consumia. — Agora você está sobrecarregada de trabalho, não está?
— Pelo contrário, Bella. O duque contratou mais quatro criadas para nos acompanhar até o final da nossa viagem.
Bella ficou surpresa. Pensou que àquela altura já tinha de finido o jeito de ser do marido, mas a cada dia que se passava, uma nova surpresa, boa ou ruim, acontecia. Edward Cullen era inflexível, mas também sabia ser condescendente.
— O duque ordenou que eu lhe trouxesse estas roupas e a ajudasse a vesti-las. Disse que serão mais apropriadas para seguir viagem — falou Alice, exibindo um par de botas de cano longo e uma saia lisa, ambas na cor marrom, além de uma blusa fina de algodão, numa suave tonalidade rosa.
Quando o trem parou na estação de Glasgow, Alice apro ximou-se apavorada da tela divisória que as separava.
— Há outra locomotiva parada na estação e disseram que vão atrelar três vagões a ela. Na que viajamos só prosseguirá o primeiro, onde estão as bagagens. O duque ordenou que Masen seguisse no outro comboio. O que vamos fazer? O bebê está chorando! Sem a babá, ele vai estranhar a todos.
Bella alarmou-se, mas era a única que poderia reverter essa situação.
— Você deve acompanhar Alice. Posso me arranjar sem o seu auxílio, embora seja difícil. Mas o bebê não pode ficar sim alguém conhecido por perto.
— Não, Bella. Recuso-me a abandoná-la.
— O bebê ficará mais seguro se estiver com ele, Alice. Assim que puder estarei com vocês. Agora vá e não discuta comigo.
A criada concordou com um gesto de cabeça e saiu apres sada na direção da porta do vagão, por onde todos estavam saindo.
Jasper apareceu para escoltar Bella até a carruagem. Quan do ela alcançou a plataforma da estação, observou que os três vagões já estavam desatrelados do primeiro, que deveria acompanhar a locomotiva. Por todos os lados, só se viam homens trajando as cores dos Cullen. A Guarda de Hon ra do duque parecia ter triplicado.
— Onde está Masen? — Bella arriscou perguntar, imagi nando que não obteria resposta.
Porém, para sua surpresa, o homem baixou o olhar para ela, demonstrando certa simpatia.
—A criança está no vagão que leva os criados e a bagagem para o castelo. Chegarão quase uma semana antes de nós.
— Uma semana? E mandaram guardas para fazer a escolta?
— A Guarda de Honra somente acompanha o duque e a família. Além do mais, eles são considerados estrangeiros. Mas não se preocupe que vai ficar tudo bem.
— Mandaram o bebê sem sequer uma guarda? Preciso impedir a partida desse trem!
— A criança estará segura. Ninguém ataca um trem dos Cullen. O nome é muito respeitado por aqui.
— Não há nada seguro neste país. Provavelmente existe um ladrão atrás de cada árvore e um seqüestrador a cada parada!
Bella sabia que exagerando, mas não podia conter a preo cupação. Afinal Masen era apenas um bebê indefeso. Um pen samento audacioso a incomodava: se o bebê fosse seqüestra do, seria muito conveniente para o duque. Já nem sabia mais do que Edward seria capaz, concluiu com desgosto.
— O garoto ficará bem — Jasper garantiu. — Agora vamos logo, estamos perdendo tempo. Sua Alteza quer pernoitar no castelo dos Dunvargas. Há uma longa distância a ser vencida até lá.
— Por que não podemos seguir de trem?
— Os trilhos atravessam as montanhas Grampian. O du que prefere seguir pelos vales.
— Por quê? É mais seguro? — quis saber Bella. O homem estreitou o olhar.
— Já lhe afirmei que o bebê estará bem. Os trens dos Cullen executam essas viagens há mais de um ano. Até hoje não houve nenhum acidente.
— Acontece que estão levando um bebê sem a devida guarda!
Jasper cerrou os dentes, dando visíveis sinais de impaciên cia. Teria que agir rápido. Então resolveu usar o único re curso que lhe restava para impedir que algo pudesse acon tecer a Masen.
— Espere um pouco, Jasper — pediu ela, forçando-o a parar. — Preciso que leve um recado urgente ao duque. Masen não é um bebê qualquer. É filho natural de Emmett Cullen. Não pode viajar sem uma escolta. É arriscado demais.
Jasper arregalou os olhos.
— Aquela criança é um... Cullen? Filho de Emmett Cullen, o irmão mais velho do duque?
— Eu ia contar naquele dia que me amordaçaram no estábulo. Mas não me deram chance, não foi? — Intensificando o olhar, acrescentou: — Não fique aí parado! Corra para conseguir uma escolta para o filho de Emmett. É uma ordem!
Para total surpresa de Bella, o homem saiu em disparada na direção da carruagem do duque.
No momento em que ela ficou só, olhou ao redor e percebeu que ninguém a estava observando. Da maneira simples que estava vestida seria difícil alguém reconhecê-la, tal era a atribulação de pessoas nas imediações da estação.
Espiou a densa mata que se iniciava a poucos metros de onde estava. Com as botas de cano alto, o lamaçal não seria problema. Por fim, era a oportunidade esperada para fugir. Apesar do quanto lhe custara, tinha conseguido o que queria desde o princípio: entregar Masen à família Cullen e dei xar claro que era o filho de Emmett. Portanto, nada mais a prendia ali. Desistiu até de presenciar a cena quando Edward descobrisse a verdade e o quanto havia sido injusto.
Embora não pudesse avistar muito de onde estava, sabia que o povoado deveria estar próximo. Talvez fosse só atravessar uma parte da floresta. E, pelo que tinha de conhecimento sobre a Escócia, a cidade de Glasgow era uma das mais desenvolvi das. Provavelmente teria uma casa bancária onde pudesse obter fundos da conta dos Black e assim voltar para casa.
Com passos decididos, encaminhou-se para a mata. Olhando de longe, a floresta não oferecia perigo algum. Po rém, depois de poucos metros, Bella se assustou com a altura das árvores que de tão próximas, permitiam que apenas alguns raios de sol as ultrapassassem.
A chuva que provavelmente teria caído durante a noite acumulara água nas folhas, que não cessavam de respingar gotas no solo já encharcado.
Prosseguiu caminhando sem saber exatamente aonde ir. Tudo lhe parecia igual naquela escuridão. Bella recostou-se no tronco de uma das árvores para descansar até que o co ração recuperasse o ritmo normal. Cruzou os braços sobre o peito para acalmar o frio que as roupas úmidas pelo gotejar intermitente lhe ocasionavam.
Fechou os olhos e procurou pensar em coisas agradáveis.
Afinal, reassumira as rédeas da própria vida. E, principal mente, estava quase livre de Edward!
Assim que conseguisse falar com um magistrado, trataria de anular o casamento. O que não seria difícil, uma vez que o matrimônio não havia sido consumado.
Ela tentou fazer um exercício para afastar o medo e ao mesmo tempo esquecer o que havia passado. A cada passo distanciava-se mais de Edward Cullen.
Apesar do enorme vazio que lhe oprimia o peito, diante da simples intenção de negar o amor que sentia pelo duque, Bella estava certa que tinha tomado a decisão mais acertada.
Após um longo suspiro, deu mais um passo, aumentando a distância entre eles. Quem sabe, se tivesse sorte ainda, naquele mesmo dia, pudesse estar numa banheira com água morna, enxaguando a tensão e as mágoas.
As árvores se escassearam, permitindo que o caminho fi casse mais bem iluminado. Restava apenas atravessar al guns arbustos. Bella abriu caminho com as mãos, afastando os galhos grossos e as folhas molhadas.
Quando finalmente venceu a barreira, percebeu desani mada que havia andado em círculos. Tanto esforço para che gar exatamente no lugar onde estavam as três carruagens dos Cullen.
Com as roupas molhadas e tremendo de frio, pôde perce ber os olhares de censura que lhe lançavam os cavaleiros da Guarda de Honra do duque.
Respirou fundo e ergueu a cabeça, a fim de aparentar segurança e altivez.
Ao avistar Edward recostado na roda traseira da carruagem e a porta da cabine aberta, fez o que seria mais sensato: encaminhou-se até ele.
— Seu país é adorável, Alteza. Porém, um tanto úmido — Bella falou, forçando um sorriso desconcertado.
— Entre logo! — o duque ordenou.
— Talvez... fosse melhor aguardar que alguém me aju dasse.
Em resposta, Edward agarrou-a pela cintura, colocando-a dentro da cabine.
Apesar da indelicadeza do gesto, o toque daquelas mãos lhe provocou arrepios de prazer. Prova de que o exercício que fizera para afastá-lo do coração de nada adiantou.
Por que não sentia essa mesma sensação com Mike ou qualquer outro dos tantos pretendentes que conhecia? Tinha que ser justamente com um Cullen?
Bella afundou-se no acolchoado macio que forrava o banco da suntuosa carruagem. Para não encará-lo, começou a tirar algumas folhas que ficaram presas à saia. Edward sentou-se no banco à frente e ordenou para que o cocheiro iniciasse a jornada.
— Temos mais de duas horas de viagem pela frente. Portanto temos tempo suficiente para me explicar toda essa história.
Bella fez questão de ignorar o que ele dizia, olhando a paisagem e esfregou braços com as mãos para se aquecer. Ainda não estava conformada com a própria estupidez. Masgow não deveria estar longe dali. Por que não pergun tara a alguém antes de aventurar-se daquela forma? A me nos que no fundo não quisesse fugir e o destino tomou as rédeas de sua vida.
— Bem... estou aguardando — Edward insistiu.
— Não estou com vontade de falar com o senhor, Alteza.
— Ah, está, sim! E não vai parar de falar até explicar os últimos detalhes.
— Explicações são... — Bella começou a dizer, mas Edward a interrompeu.
— Primeiro quero saber por que está com uma criança que diz ser filho de Emmett? Por que não me contou antes? Por que me induziu a este casamento se sabia que mesmo assim a criança continuaria sendo um bastardo?
Diante do silêncio dela, o duque prosseguiu:
— Emmett era um homem inteligente. Apesar de ter tido muitas amantes, jamais permitiria que uma mulher engra vidasse e levasse seu filho embora. Temos mais de duas horas para ficarmos a sós nesta maldita carruagem e você terá que falar comigo custe o que custar!
Bella estava mais assustada com a fúria com que ele despe java as palavras do que com o assunto. Sentiu o coração apertar, ao vislumbrar nos olhos dele uma sombra indecifrável.
— Não devia ter feito o que fez comigo — Edward continuou com o desabafo. — Nem mesmo com Masen. Você não tem moral para ser mãe de alguém.
As últimas palavras a feriram de morte. Não conseguiu segurar as lágrimas que irromperam dos olhos chocalates.
— Por que não requer a guarda de Masen e me manda de volta para Londres? — ela conseguiu dizer entre soluços, mas pretendendo ser sarcástica. Contudo, não conseguia pa rar de tremer.
— E mentirosa, chantagista e...
Bella não ouviu o restante da frase. Aos poucos uma névoa cobriu o rosto de Edward, as palavras ficaram longe até que ela não ouviu mais nada.
— Vamos! Acorde!
Bella abriu os imensos olhos castanhos chocolate, ainda confusa e ator doada. Foram necessários mais alguns segundos para reco nhecer que era Edward quem lhe chamava e ao mesmo tempo desabotoava-lhe a blusa.
— O que pensa que está fazendo?
— Proporcionando-lhe ar, o que mais?
Ele terminou de abrir os botões e tirou-lhe a blusa com facilidade.
— Já tenho ar suficiente! — exclamou ela, agarrando a peça das mãos dele e cobrindo o busto.
Ao mesmo tempo, notou que a saia já estava amontoada no outro banco.
Edward agarrou a blusa que ela mantinha como escudo e com facilidade a recuperou. Depois foi a vez das peças ínti mas. Bella tentou gritar em protesto, mas a voz saiu fraca.
— As roupas estão ensopadas. O clima desse país é úmido demais, assim você vai pegar uma pneumonia — justificou ele, apanhando uma manta de lã grossa e enrolando-a no corpo miúdo como se estivesse agasalhando um bebê.
Bella ficou sem reação, permitindo que ele a tocasse e por fim acomodá-la no banco à sua frente. Assim que ficaram frente a frente novamente, ela notou-lhe a expressão tensa do rosto. A manta estava cumprindo sua função, mas ela ainda tremia, mas de saudade daquele corpo viril de encon tro ao seu. Edward tinha o poder de excitá-la com um simples olhar. Inútil tentar ignorar os mamilos enrijecidos ou conter as ondas de prazer que se iniciavam no centro de sua feminilidade. Como conter aquele turbilhão de emoções enquanto a razão corria em direção oposta? Mas naquela hora era seu corpo que aprisionara a razão, por mais que lutasse contra, não seria capaz de lutar contra o amor e o desejo.
— A cor normal está voltando! Estava tão pálida quando desmaiou que fiquei preocupado.
— Não desmaiei! — protestou ela.
— Ah, é? Então o que foi que aconteceu? Mais uma ence nação? — Edward respirou tão fundo que o tórax poderoso se alargou ainda mais.
Mais uma vez Bella precisou desviar o olhar para que o desejo de tocar aquele peito musculoso não ficasse tão evidente.
— Então, se é assim, pode prosseguir — ele falou.
— Prosseguir com o quê?
— Com as explicações que me deve. Lembra-se por que começou com esse teatro todo?
— Vossa Alteza é arrogante e insuportável.
— Para sua informação, o que pensa a meu respeito não me interessa. Além do mais, acredito que nem vou precisar dar mais explicações. Os fatos por si só já me dão as respostas.
Bella estreitou os lábios e manteve-se calada, enquanto Edward prosseguia com as deduções.
— É uma mulher bonita e muito esperta. Não posso culpar Emmett por ter-se apaixonado.
Ela engoliu a saliva e tentou encará-lo. Edward, porém, fa lava sem lhe olhar nos olhos. Observou que ele já havia tirado a jaqueta e agora despia a camisa. Aqueles gestos simples despertaram-lhe pensamentos libidinosos que até então des conhecia. Puxou um dos cantos da manta para encobrir a boca que persistia em manter-se aberta.
O duque descalçou as botas com movimentos lentos. Na certa ele pretendia torturá-la com aquele ritual afrodisíaco. Depois de retirá-las, acomodou-as num canto do assoalho.
Em seguida, levantou-se, mas precisou curvar-se, pois a altura do teto não era compatível com a sua.
Ela arregalou os olhos quando o viu livrar-se das calças também. Não conseguia controlar a curiosidade. O duque de Cullen tinha um físico tão perfeito que não devia nada às esculturas dos deuses gregos, que a jovem costumava ad mirar no museu de Londres.
— Pode ficar me observando. Não me importo — Edward murmurou, ainda sem fitá-la. — E não precisa se preocupar. Não tenho intenção de violentá-la.
— O quê?
— Ouviu muito bem. Tenho coisas mais importantes para fazer com o meu tempo.
Bella tentou convencer-se de que não estava sendo insul tada. E percebeu que ele de fato não tentava seduzi-la quan do se deitou de lado no banco, jogando uma manta por cima do corpo. Com a cabeça sobre uma das almofadas de cetim e os braços cruzados sobre o peito, não demorou muito para cochilar na maior tranqüilidade.
Bella permaneceu reparando na calma que irradiava das feições adormecidas. Havia algo naquele homem que a atraía de maneira irresistível. Era algo que lhe dominava os sen tidos, talvez um magnetismo que a impedia de se afastar por muito tempo. Mas, ficar ali, imóvel e enrolada numa manta, olhando para toda aquela beleza masculina, era tor turante demais. Lamentou com um suspiro não ter um bor dado em mãos para se entreter.
Quando chegarem ao pátio de entrada do Castelo Call, Edward já estava devidamente vestido e penteado.
Enquanto a carruagem vencia a etapa final, que conduzia à entrada do castelo, Edward aproveitou para dizer:
— Sem dúvida, eles já devem ter providenciado o costu meiro jantar de recepção. Mas você não irá participar.
Bella não respondeu. Sentiu o coração apertar-se e a ine vitável vontade de chorar outra vez. Aquelas palavras lhe davam a certeza de que logo seria mandada de volta para Londres.
— Não quero provocar um escândalo ainda maior. Planejo informar sobre Masen, mas pretendo adiar a iden tidade da mãe.
— Faça como achar melhor. Afinal, você é o líder — falou Bella, desejando que pudesse retirar as palavras assim que proferiu.
— Ah! Parece estar aprendendo! Excelente! Quando che garmos ao castelo dos Cullen é possível que já esteja plena mente consciente do seu dever de me obedecer.
— Esqueça o que acabei de dizer, Alteza. Não é somente arrogante e sim egoísta e grosseiro. Aproveito para lhe participar de que não permanecerei pelas seis semanas que me pediu.
— O pedido foi revogado — informou ele.
— Como assim?
— O reverendo da capela em Crewe foi bem claro. Não prestou atenção aos votos sagrados do casamento? Em um dado momento, ele disse: Até que a morte os separe. Não se lembra?
— Mas o matrimônio não foi consumado, Alteza. Posso, e vou pedir a anulação.
Edward sorriu, debochado.
— Não vejo onde está a graça, Alteza.
— Às vezes a sua ingenuidade me surpreende, Bella! Não percebeu que suas roupas estão no canto do banco? Após uma viagem de mais de duas horas e sozinhos nesta cabine, o que acha que pensarão que aconteceu?
Ela deu um gemido de surpresa.
— Bem. Chegamos — informou Edward. — Tente manter a calma, enquanto a carrego até o quarto.
— Não vai fazer isso!
— Vou, sim. Não porque eu queira, mas é um sinal de respeito. Temos hábitos milenares a respeitar. Só o que tem a fazer é ficar calada. — Estreitando o olhar, ele finalizou: — Amanhã vou providenciar para que esteja perfeitamente arrumada, a fim de ser apresentada a todos. Ou melhor, a dama que conseguiu enganar dois Cullen.
Assim que a carruagem estacionou, Edward pediu:
— Agora venha para meus braços, como se fosse a coisa que mais desejasse no mundo!
Bella cerrou os dentes e colaborou. Ainda esperava o dia em que Edward se arrependeria de todos os insultos que lhe fizera.
Ele a segurou firme contra o tórax, apertando mais do que o necessário. E não havia nada que se pudesse fazer no mo mento para impedir aquela atitude. Com o intuito de evitar maiores constrangimentos, ela afundou o rosto na curvatura do pescoço e fingiu-se adormecida.
Ao entrar no castelo, foram recebidos por lorde Cullen.
—Alteza! Que prazer recebê-los! Minha esposa está an siosa por conhecer a duquesa! Ela lê todas as colunas sociais dos jornais londrinos e não pára de falar nisso há dias. Pro vavelmente, conhece melhor a Dama de Gelo do que a si mes ma — finalizou, rindo da própria piada. Depois, insistiu: — Afaste um pouco a manta para que eu possa cumprimentá-la.
— Lamento, milorde. Mas a duquesa está um tanto indis posta. Sabe como os ingleses são frágeis para longas viagens.
— Não tem idéia do quanto estamos felizes por recebê-los. Será que ela estará bem para o banquete preparado para amanhã? Teremos muitos convidados ansiosos por conhecê-la.
— Se não a deixarmos repousar o suficiente, é capaz de nem conseguir sair da cama por dois dias seguidos.
Edward sentiu um cutucão de um dos cotovelos de Bella. E, ignorando-o, prosseguiu:
— Deixe-me acomodá-la e voltarei em seguida para con versarmos.
— Oh! Perdão, Alteza. Não quero atrasar o repouso da duquesa por nem mais um minuto. — Dirigindo-se a um dos serviçais, ordenou: — Ben! Conduza-os até os aposentos interligados ao duque de Cullen.
— Tem um bom uísque? — perguntou Edward.
— Dos melhores — afirmou o lorde.
— Nesse caso, não vou me demorar. Vamos Jasper, acompanhe-me.
Bella teria que aguardar muitos anos para esquecer a hu milhante experiência por que passava. Nunca imaginou que se casaria com um homem que lhe regesse a vida com tama nho autoritarismo. Entendia que com o casamento talvez tivesse que passar por algumas privações, mas não ser to lhida de se movimentar livremente. Ao menos uma coisa ele não poderia lhe impedir: imaginar que um dia se livraria daquela opressão, ou transformando-a na paixão que experimentaram juntos, ou fugindo para sempre.
Por enquanto, nada podia fazer, apenas deliciar-se com a sensação reconfortante de estar sendo levada por aqueles braços fortes. Estando tão próxima era possível sentir-lhe o perfume másculo, o calor da respiração ofegante. Sua intuição nunca antes lhe falhara, por isso sabia que o cheiro que a entorpecia era o perfume do desejo. Embora ele não a es tivesse encarando, Bella podia perceber o corpo rígido, como tentando evitar qualquer sentimento que o estivesse invadindo também.
Ciente disso, ela resolveu provocar, umedecendo os lábios delineando a parte inferior do queixo masculino.
— Pare com isso, Isabella! — resmungou ele. A voz autoritária a fez baixar os olhos, embora com um sorriso maroto nos lábios.
Até onde vamos subir? Ao alto da torre? — perguntou ao criado da casa.
— As escadas parecem mais longas a cada lance, Alteza. Mas já estamos chegando.
Bella supôs que a voz estranha provavelmente pertencia a Ben. Após uma conversa rápida entre o criado e Jasper, ela ouviu o som de uma porta ser aberta e os passos do criado se afastando. Edward a pôs no chão, assim que entraram no aposento.
— Cuide para que ela não saia daqui e garanta que coma tudo o que lhe for oferecido — ordenou Edward ao seu cavaleiro de maior confiança.
— As ordens serão cumpridas, Alteza — afirmou Jasper dando uma piscadela para Bella.
Ela arregalou os olhos e resolveu falar:
— Edward... hum... Alteza? Tenho uma exigência a faze antes que saia.
Ele a olhou com surpresa, assim como os quatro guarda que o aguardavam do lado de fora. Jasper mantinha um esboço de sorriso no rosto e Bella sabia a razão. O duque havia planejado para que todos imaginassem que estavam ocupados durante a viagem, agora era sua vez de aproveitar idéia.
— Uma exigência? — indagou Edward, indignado com a ousadia da palavra.
A duquesa precisou conter o riso no momento em que lhe enfrentou a expressão zangada. Não foi fácil, uma vez que Jasper permanecia com o olhar divertido, parado em um lado onde Edward não podia lhe ver o rosto. Ela jogou os cabelos por cima de um dos ombros e usou um tom de voz sedutor quando falou:
— Preciso que me tragam uma banheira com água morna. E também o pequeno baú de ébano preto. Aquele onde estão os meus cremes. — Girando os olhos com um indisfarçável ar de divertimento, acrescentou: — Não se esqueça de mo mandar um vestido e todas as peças íntimas necessárias. Sei exatamente as que mais gosta que eu use.
Edward ficou boquiaberto e incapaz de dizer qualquer coisa, Jasper estava com o rosto vermelho de tanto conter o riso.
— Agora vá e mande os cremes em primeiro lugar.
Bella continuou com a provocação.
— Preciso massagear pele para adquirir a suavidade ideal. Além disso, acabo de lembrar que terá de providenciar uma aia para me auxiliar. Detestaria fatigá-lo outra vez. — Com petulância na voz concluiu: — Leve os guardas com você. Não precisamos de platéia.
— Não pense em sair deste quarto! — exclamou Edward, ríspido.
— Nem sonharia com isso, Alteza. Estarei muito ocupada. Sabe que sou considerada a Dama de Gelo. Preciso me apre sentar de forma conveniente.
Edward continuou petrificado e intensificando o olhar, vociferou:
— Vai ficar aqui e comer tudo o que for enviado.
— Estou certa de que Jasper se encarregará disso.
— Não vou deixar Jasper com você.
— Mas deu ordens a ele para fazê-lo! Estou confusa, Alteza. — Lançou-lhe o olhar mais inocente que conseguiu.
De propósito, ela deixou deslizar a manta descobrindo um dos ombros e depois puxou o tecido discretamente. Os quatro guardas de honra disfarçaram o olhar de curiosidade. Jasper permaneceu com os olhos paralisados, enquanto Edward transpirava fúria. Ele havia começado a história da consumação, agora Bella fora inteligente o suficiente para também des frutar da situação o máximo que pudesse.
— Não vou ficar com Embry Call até muito tarde — ele informou em tom ameaçador.
— Que bom! — ela exclamou, empinando o nariz — Odia ria pensar que a companhia do lorde lhe agradasse mais do que a minha.
O duque acenou para os guardas de honra, que se afastaram rápido e silenciosamente. Só aí ele questionou:
— Por que está fazendo essa cena, Bella?
— Estou? Se bem me lembro, foi você quem começou toda história!
— Devo lembrá-la de que...
— Oh, por favor, Alteza! Não comece tudo outra vez! Prometo ser obediente. Tenho um longo banho pela frente. Cremes para massagear a pele... e depois do jantar encontrar o ninho da cama. Nem o esperarei acordada se esse for seu desejo.
— Esse não é meu desejo.
— Então quer que o espere? Está mudando de idéia, Alteza?
— Não foi o que eu disse.
— Foi, sim...
— Talvez eu esteja inapropriadamente alcoolizado quando vol tar. E, se estiver acordada, descobriremos o que acontecerá, não é?
Após essas palavras, Edward girou nos calcanhares e saiu pisando duro, como se ela fosse a culpada de tudo. Bella não respondeu.
Na manhã seguinte, a duquesa acordou tão logo a aia chegou para ajudá-la. Não tardou muito e já estava esplendorosa no vestido de dia azul-claro, os cabelos presos no alto da cabeça, luvas calçadas e sapatos escovados.
Empoou o nariz para disfarçar o brilho excessivo da pele e coloriu os lábios com um batom de cor rosa. A criada a olhava com censura, porém sem nada dizer. Bella ficou ali viada quando a mulher se retirou depois de terminar a obri gação.
Edward havia instruído como queria que a jovem se arru masse, mas não tinha dito o horário em que ela poderia sair dos aposentos. Portanto poderia sair a hora em que bem entendesse. Respirando fundo e criando coragem Bella abriu a porta.
Jasper estava do outro lado de prontidão. Quando a viu, deu-lhe um sorriso tão simpático que a duquesa quase retribuiu.
— Onde estão os homens da Guarda de Honra?
— O duque os dispensou.
— Por quê?
— Parece que não queria observadores.
— E onde está Edward? Quero dizer, Sua Alteza? —Jasper sorriu e apontou a porta vizinha.
— Será que está acordado?
— Duvido...
— Então ele não disse a que horas eu poderia sair, não é?
— Depende do que tem intenção de fazer. Tenho ordens.
— Oh! Essa palavra outra vez! Só quero tomar um desjejum apropriado. Estou acordada há horas!
— Tenho ordens — o homem repetiu.
— Será que o duque deseja me matar de fome?
— Suponho que não, milady.
— Então por que não posso tomar o desjejum?
— Pessoalmente, não tenho nenhuma objeção.
— Ótimo — falou ela e tentou passar por ele. Porém, Jasper estendeu um dos braços para bloquear-lhe o caminho.
— Pensei que tivesse concordado! — admirou-se Bella.
— Há algo que eu gostaria muito de lhe dizer — Jasper baixou o tom de voz — Porém, se alguém souber que conver samos, serei expulso do clã. Sabe o que significa?
— Talvez fosse preferível não dizer nada.
— Mas é importante que saiba.
Bella franziu o cenho.
— Acho que estamos desperdiçando tempo. Diga logo ou me deixe passar, quero comer os ovos ainda quentes.
— Estou vigiando-a, não se esqueça — disse Jasper, reco lhendo o braço que mantinha estendido.
— Ordens são ordens, não é?
— Não acredito no que dizem sobre milady. Não pode ser verdade! —Jasper confessou.
Bella comoveu-se com aquelas palavras sinceras e recon siderou se deveria mesmo desobedecer às ordens e colocar a posição do criado em risco.
— Talvez fosse melhor pedir que o desjejum seja servido em meu quarto. Será que providenciaria isso?
— Sem problemas — ele assentiu e continuou com as ob servações: — Não sei bem como devo dizer, mas tenho certeza de que milady esconde algo do duque. Só espero que a verdade não o deixe ainda mais magoado !
— Magoado? Sua Alteza? Será que estamos falando do mesmo homem?
— Faz uma idéia errada do duque. Sei o que estou dizendo. Sou segurança da família desde que o duque era apenas um garoto.
— Ah! É mesmo? Pois discordo! Tenho sido a principal testemunha dessa suposta sensibilidade — Bella desabafou.
— Milady não lhe deu escolha.
— Ah! Essa é demais! Quer me convencer de que fui a responsável por ter sido conduzida ao estábulo como uma qualquer e trancada no vagão do trem?
— Ele foi obrigado a agir dessa maneira. Sendo o líder do clã, não lhe restava outra saída. Toda a Guarda de Honra e a maior parte da família souberam o que milady fez.
— Masen não foi algo que planejei para prejudicar Edward Cullen.
— Não estou me referindo à criança.
— Ah, não? Menos mal! Então o que fiz de tão grave ao grande líder dos Cullen?
— Conquistou-lhe o coração e depois o profanou.
— Como disse?
— Eu estava na capela em Crewe, esqueceu-se? E, se o que presenciei era falso, enganou a mim também.
— Acho que perdi a fome — Bella falou com desgosto.
— Sabe onde o duque passou a noite do casamento após vê-la com a criança no colo?
— Não quero saber! — exclamou Bella e entrou no quarto, trancando a porta em seguida.
Jasper, no entanto, sussurrou atrás da madeira, e Bella teria dado tudo para não ter ouvido as palavras do homem. Mas escutou:
— Lamentando e chorando em meus braços. Foi o que fez durante horas!
A imagem de Edward vulnerável, abraçado ao homem de sua confiança, abalou Bella.
Passeou nervosamente pelo quarto enquanto fitava as chamas da lenha na lareira. Seria tudo culpa sua? Se assumisse a responsabilidade, poderia se considerar digna de um Cullen?
— Como fui estúpida! — resmungou baixinho. — Se contasse a verdade agora, talvez fosse tarde demais.
Uma batida na porta a tirou dos devaneios.
— O duque solicita sua presença numa das antecâmaras. Vou escoltá-la até lá — informou um dos guardas de honra de Cullen, abrindo a porta.
Bella concordou com um gesto de cabeça e seguiu o ho mem. No caminho, percebeu que o castelo não era tão pe queno quanto imaginava. Se não estivesse acompanhada do cavaleiro, na certa se perderia nos intermináveis labirintos.
O guarda abriu uma das muitas portas no andar térreo do palácio e pediu que ela entrasse. Bella ouviu o som da fechadura sendo trancada. Com certeza, Edward não queria espectadores para o que tinha a dizer.
Porém, com surpresa, viu que não era Edward quem estava acomodado na sala. Bella já tinha se acostumado com o co lorido das roupas da família e, vendo que o homem usava nutras cores, logo deduziu que se tratava de alguém perten cente a outro clã.
— Perdão, milorde. O guarda deve ter-se enganado de porta.
— Então é a inglesa descarada? — perguntou o homem em tom ameaçador, ao mesmo tempo em que se erguia.
— Como disse? — indagou Bella, dando dois passos para irás, em puro gesto de autodefesa.
— Parece que não aprendeu, não é?
Ela estreitou o olhar antes de responder em tom sarcástico:
— Depende a que está se referindo. Se for grosseria, acho que está me superando.
— Não preciso de lições de boas maneiras. Muito menos vindas de uma inglesa!
— Não necessita se estiver acostumado a ver damas des maiarem :— disse Bella, abanando-se com uma das mãos enluvadas.
O homem era alto, porém não mais do que Edward. Usava um casaco de lã xadrez nas cores amarela e marrom. Tinha cabelos escuros e longos, chegando até o queixo.
— Está achando que vai desmaiar?
— O problema é que não estou acostumada a determina dos tratamentos. Pode até não gostar dos ingleses, mas nem por isso tem o direito de dirigir-se a mim de maneira pouco desrespeitosa.
— Já disse que não preciso de suas lições, madame.
— Ah, eu diria que precisa sim! Começando pelas devidas apresentações. Sou a duquesa de Cullen e o senhor quem é?
— Nem imagina o que fez, não é? — o homem perguntou e praguejou com algumas palavras em gaulês.
— Exceto o óbvio engano da sala, nem imagino sobre o que está falando. Eu procurava meu marido e como, eviden temente, não é o senhor, lamento o incômodo.
— Graças à senhora, a matança continuará! — exclamou o homem, com um dedo lhe apontando a testa, simulando um revólver.
— Não estou entendendo aonde quer chegar! Deve haver algum engano! — exclamou ela, sentindo as pernas bambearem pela aflição.
— Uma mulher sedutora. E só o que é! — disse ele entre os dentes.
— Pensei que os duques escoceses escolhessem melhor seus convidados...
— Edward deveria apenas ter-se aproveitado da situação e depois a abandonado. Da mesma maneira que o irmão de veria ter feito. Será que nunca haverá um jeito de por juízo na cabeça de um Cullen?
Bella estreitou o olhar outra vez. Já sabia do que Emmett fora capaz. Só não imaginava que não era mais segredo. E foi com frieza que ela tornou a falar:
— Parece conhecer meu marido muito bem! A propósito, é melhor que eu vá encontrá-lo. Deve estar preocupado com a minha demora.
— Tem razão. Eu o conheço bem. Crescemos juntos. Ele sempre foi um cabeça-dura com excesso de músculos e falta de bom senso. Acabou provando a estupidez.
— Oh, deixe-me adivinhar! Tudo isso tem a ver comigo, não é?
— Ele tem a obrigação de proteger a honra do clã. É o que se espera de um líder escocês!
— A honra da família? Está enganado, milorde. Isso é o que Edward faz de melhor. E, agora, se me der licença. Preciso ir.
— É vergonhoso, isso sim!
— O quê? Meu casamento com Edward?
O homem sorriu e, sem que ela esperasse inclinou-se muna reverência. Em seguida, tomando-lhe uma das mãos beijou-a com um respeito digno de qualquer cortesão de Londres.
— Meu nome é Aro Brennen MacHugh Douglas Volture, milady.
— Tudo isso?
— Único filho varão. Meus pais não desperdiçaram a oportunidade.
— Ah! Imagino que seja parente de Jane Volture, a noiva prometida a Edward.
— É minha irmã mais nova.
— Isso explica seu comportamento anterior, porém não o justifica, milorde.
— Chame-me de Aro e passo a chamá-la de Bella. Pode acrescentar tal comportamento à minha falta de boas ma neiras.
— Prefiro pensar que não há nenhuma razão para chamá-lo, seja qual for o nome que prefira. Acredito que não temos nada em comum para podermos compartilhar de uma admirável amizade.
— A família de seu marido e a minha sempre caminharam lado a lado.
— Nesse caso, devo lembrar-me de riscar o seu nome da lista de convidados.
— Então terei que usar algum dos outros nomes que ainda não conhece.
— E tem mais?
— Único varão. Lembra-se?
Bella não conseguiu evitar o sorriso.
— É realmente uma vergonha! — Aro falou, meneando a cabeça.
— Agora estamos falando do meu casamento?
— Disso e do fato de ser uma inglesa. Contudo, não posso culpar Edward. Se eu a tivesse conhecido antes dele, talvez também ficasse tentado a mandar a honra do clã para o inferno!
Bella engoliu em seco.
— Permita-me dissuadi-lo de prosseguir com essa conver sa. A propósito, tenho uma pequena informação para o se nhor: não sou tão sensual quanto pensa e não gosto de homens escoceses.
— Então não gosta do seu marido? — ele perguntou surpreso.
Bella estranhou a pergunta e ele prosseguiu no desafio:
— Estou tentado a fazer um teste. E se eu lhe roubasse um beijo aqui e agora? O que me diz?
— Pensei que desprezasse os ingleses!
— Acabei de mudar de opinião.
Aro deu um passo à frente e Bella notou que era tão alto quanto Edward, mas bem menos musculoso.
— Não tentaria isso se fosse o senhor. Sou casada com e, segundo a tradição, pertenço ao meu marido — respondeu com altivez.
— Fiquei tão envolvido que até esqueci que o meu propó sito era apenas avisá-la.
— Não se preocupe, não pretendo ficar aqui com o senhor nem mais um minuto! — exclamou Bella, tomada de indig nação.
— Não é disso que estou falando — afirmou o nobre em, tom grave. — Vai haver uma luta entre os clãs.
— Por quê?
— Porque um líder de um clã escocês casou-se com um inglesa.
Bella sentiu o coração disparar.
— Explique melhor, por favor.
— Acho que fui bem claro, mas vou repetir: porque a se nhora é inglesa.
— Já entendi essa parte.
— Edward era o marido escolhido para minha irmã.
— Também conheço essa história.
— Sabia que ele estava comprometido e mesmo assim se casou com outra?
Não tive escolha, Bella sentiu vontade de gritar, mas nada falou.
— Por acaso gosta de ver sangue ser derramado?
— Nunca fiz mal nem sequer a uma mosca! — Ela se defendeu.
— Então por que se casou com Edward? Provocou a ira entre os clãs! Não tem noção do que isso significa?
— Acho que já o aturei demais! — ela exclamou, dirigin do-se para a porta.
Aro apressou-se e, posicionando-se a sua frente, im pediu-a de sair.
— Por favor, não posso continuar esta conversa. Edward deve estar preocupado.
— Pensa que não sei?
— Então me deixe ir.
— Não até que entenda o que quero dizer.
Bella suspirou para acalmar-se.
— Que eu saiba a Escócia e a Inglaterra não estão em Guerra. E, como é de seu conhecimento, não sou partidária de nenhum grupo político. Edward e eu nos apaixonamos e nos casamos. Não acho que o fato de eu ser inglesa e ele escocês seja empecilho para nossa união.
— Podemos não estar em guerra, mas um homem não pode ser considerado um legítimo escocês se esquecer a ba talha de Culloden.
— Creio que já ouvi esse nome. O que significa?
Aro tomou fôlego, antes de começar a narrar os fatos:
— Foi quando Charles Neal Brad aspirava ao trono da Inglaterra e procurou apoio nos clãs da Escócia. Todos os clãs o seguiam, mas foi uma guerra inglória. Os ingleses ma taram e massacraram até mulheres e crianças, quase exter minaram os clãs. Tudo aconteceu em Culloden. Minha família nunca mais se recuperou, ao contrário dos Cullen que se deram bem por meio de sucessivos casamentos afortunados.
— Quando tudo isso aconteceu?
— No ano de 1746.
— O quê? Há mais de um século? Ora, por favor! Estou saindo — Bella falou e estendeu o braço, alcançando a ma çaneta da porta.
Porém, não conseguiu abri-la. Indignada, girou o corpo e retornou para encará-lo.
— Está se divertindo com esta situação? — perguntou ela com o olhar faiscando de raiva.
— Nós, escoceses, nunca esquecemos.
— Ou perdoam, é óbvio — acrescentou irônica. — Tudo bem. Se o que deseja é conversar, vamos adiante. Mas é melhor falar coisas que façam sentido, para que eu possa entendê-las. Por exemplo: o que tudo isso tem a ver comigo? Posso compreender o noivado rompido, no entanto, invocar uma batalha acontecida quando nenhum de nós dois nem sequer era nascido não leva a nada. Não podemos mudar o passado!
— Está começando a entender...
— O quê?
— O ódio.
Bella ergueu os olhos.
— Será que seu clã é capaz de me odiar apenas porque sou inglesa?
— Não é somente com esse clã que deve se preocupar. No momento em que a notícia do casamento de Edward chegou aos ouvidos de todos, os donos dos feudos se revoltaram. Não consigo acalmá-los.
— Feudos? Estou ouvindo direito? Não é coisa da época medieval?
— Sim. Mas existem descendentes de diversos feudos por aqui. Principalmente nas regiões de fronteira. — Depois de uma pausa para observar se suas palavras surtiam o efeito esperado, concluiu: — Pelo menos não estão tão revoltados quanto da outra vez.
— Outra vez? Quando? — Bella quis saber.
Ele deu um passo atrás e fitou-a com um olhar acanhado.
— Quando minha irmã foi rejeitada pela primeira vez. O clã não perdoou e muito sangue foi derramado.
— Primeira vez?
— Sim, Jane queria se casar com Emmett. Mesmo depois que ele pediu permissão do clã para se casar com uma in glesa, minha irmã ainda o queria.
— Emmett Cullen pediu a aprovação do clã para se casar com uma moça inglesa? — Bella perguntou e sentiu uma tontura pela emoção. — Desculpe-me, mas preciso me sentar.
Aro a segurou antes que caísse e auxiliou-a a acomodar-se numa das poltronas, Ela respirava rápido para tentar recuperar-se. Emmett pedira permissão do clã para casar-se com Rosalie? Essa informação mudava todo o curso da história.
— Está muito pálida! — O lorde abriu um cantil de uísque e estendeu a ela. — Tome isto!
Bella aceitou. O líquido pareceu queimar-lhe a garganta, mas ajudou a recompor-se. No entanto, provocou-lhe um acesso de tosse.
— Por que não avisou que não tem fôlego para um bom uísque escocês? — Aro indagou enquanto lhe dava tapinhas nas costas, tentando acalmá-la.
— Obrigada, já estou melhor. Você me disse que Jane era a pretendida para Emmett que a rejeitou por causa de uma inglesa?
Aro deu alguns passos na direção da lareira e deixou-se hipnotizar pelas chamas da lareira.
— Como eu dizia, a história toda começou com a batalha de Culloden que arruinou com a maioria dos clãs — disse o nobre. — O primeiro líder dos Cullen após a batalha estava compromissado com uma jovem da família Volture. Porém, ele violou o noivado e casou-se com uma herdeira dos Douglas, por causa do dote. A duquesa faleceu logo de pois. — Aro deu uma pausa para recuperar o fôlego. En tão prosseguiu: — Nosso clã encheu-se de esperanças outra vez. Porém, em menos de um ano, o líder casou-se com outra inglesa, também em virtude de um dote valioso. A moça do meu clã acabou por suicidar-se.
Bella espantou-se:
— Ela o amava tanto assim?
— Amor? Não. O que ela não pôde suportar foi a humilha ção, levando o clã a jurar vingança. Muitos lordes Volture foram recompensados por levarem alguns Cullen à Justiça pelas próprias mãos!
— Não estou certa de querer ouvir o final da história...
Aro ignorou o comentário e continuou falando:
— Depois de muitas batalhas e muito sangue desperdiça do, os Volture e os Cullen fizeram as pazes median te acordos milionários. O problema é que o meu clã não con seguiu saldar as prestações acumuladas por mais de vinte anos. Por esse motivo, ofereceram Jane em casamento. Seria a única forma de o clã saldar uma dívida antiga.
Bella ficou chocada com a revelação dos modos rudes com que os clãs se comportavam. Agora entendia a razão de Edward a tratar da maneira como o fazia. Eram todos bárbaros e hostis. Somente seguiriam um líder que agisse de acordo com seus princípios.
— Sempre resolvem os conflitos por meio de indenizações?
— Às vezes é preciso ir um pouco além. Se for o caso de punir um membro do clã, ele pode ser aprisionado na própria casa. E ninguém se importará com isso.
— Acha justo? Não estou certa de querer ouvir mais his tórias, Aro. Para dizer a verdade, vou me esquecer dessa conversa e do senhor — Bella falou com o olhar petrificado. — Agora irei ao encontro de meu marido e participarei da recepção do duque Call. Não permitirei que me im peça. Entende o que digo?
— Claro! Fala como uma legítima inglesa.
— Então vai abrir a porta para que eu saia?
— Não — ele negou com veemência.
— Por que não?
— Bem, fora a intenção que tinha de preveni-la sobre o iminente pé de guerra entre os clãs, surgiu-me a idéia de planejar um seqüestro. Se fosse bem elaborado, poderia re solver o problema da dívida com os Cullen e acalmar os ânimos do meu clã.
— Seqüestro? — ela se alarmou.
— Não precisa se assustar. Mudei de idéia. A senhora significa mais problemas do que vale. Além do quê, não deve nem mesmo saber cavalgar. E também não suporta um bom uísque escocês. — Terminou a frase com uma piscadela.
Bella esboçou um sorriso, sentiu-se como personagem de uma peça tragicômica. Ela havia desejado escapar durante tanto tempo e agora teria a oportunidade, inclusive com a ajuda de Aro! Posso até colaborar com o seqüestro, pen sou. Com certeza faria isso, não fosse o relato de Jasper sobre o comportamento de Edward no dia do casamento, que abalara seu coração.
— E como agiria se realmente pretendesse me seqüestrar?
— Não seria difícil. Este é meu país.
— O senhor também tem poder sobre a Guarda de Honra de Edward?
— Foi um deles que a trouxe até aqui, não foi?
— E como conseguiria me levar sem que alguém nos visse?
— Embry Call tem uma excelente adega no porão, além de um túnel secreto...
— Se eu desaparecesse antes de chegar ao castelo dos Cullen, seria muito oportuno para o seu clã e até mesmo para alguns Cullen, suponho. Por isso está me contando, não é?
— É você quem está dizendo, não eu.
— E, se Edward conseguisse a anulação do casamento, fica ria tudo certo entre as famílias. Não é essa sua intenção?
— A anulação seria aprovada por um juiz escocês e as cortes inglesas não ofereceriam obstáculos, porque não se interessam em interferir nas contendas escocesas...
Bella analisou a questão por um momento, para depois questionar o que lhe pareceu óbvio:
— Digamos que a anulação seja concedida. Será que Jane ainda desejaria se casar com Edward?
— Por que não?
— Os escoceses são todos iguais? Tratam as mulheres como se fossem bonecas de enfeite? Dizem sempre a elas o que devem vestir, fazer ou pensar?
— E existe maneira melhor de tratar as mulheres?
Bella estudou-lhe o rosto com desconfiança. Mas ele pa recia sério.
— Acredite ou não, Aro, se eu concordar com esse se qüestro, será apenas porque tenho minhas razões.
— Respeitarei sua decisão.
— Tudo bem. Precisarei escrever duas cartas: uma para meu banco e outra para Edward. Terá como enviá-las?
— O nome da aia que está lhe servindo é Heidi, e trabalha para minha família. Pode entregar-lhe as cartas que provi denciará para que sejam entregues.
— Ah, isso explica a atitude hostil dela — murmurou Bella.
— E uma boa moça, posso lhe garantir. Acha que estará pronta quando o trem chegar à estação de Inverness?
— Ainda não decidi se vou aceitar.
— Mas também não disse que não.
Naquele instante, a porta foi aberta e o mesmo guarda que a levara até lá informou em voz alta:
— Estão procurando por ela, milorde.
— Tudo bem — Aro concordou e olhou para Bella. — Preciso ir. Promete pensar a respeito?
— Mais do que gostaria — afirmou ela. E, antes que o lorde saísse, fez questão de esclarecer: — Para seu conheci mento, declaro que sei cavalgar!
Faltam apenas mais 2 caps!
Gente eu queria agradecer a todos que estao acompanhando a fic. Obrigada tambem a todos que comentaram e deixaram sua opinioes.
Voces sao muito importantes para mim.
Aproveitando eu queria covidá-los a visitar a minha outra chamada Fallen, que é tambem uma adaptacao(muito, muito boa) Se passarem por lá nao esquecam do coments.
Depois que acabar de postar Indomavel conquistador, vou começar outra adaptaçao. Espero vê-los todos voces lá.
Ate a manhã e apeciem o cap . Muitas emocoes ainda por vir...
Beijinhos
