Fecho
Hermione entrou em seu apartamento, furiosa. Todo o seu corpo estava em combustão quando ela fechou a porta rudemente, caminhando até o quarto com passos brutos. Jogou a bolsa na cama com raiva e se sentou. As mãos pálidas foram em direção ao rosto e ela o apoiou ali, fechando os olhos e pensando em tudo o que havia acontecido com ela minutos antes.
Ela pôde escutar Bichento entrar no quarto miando e sentiu quando ele roçou o corpo levemente em suas pernas. Sabia que o gato ficava preocupado quando ela estava assim, e desconfiava que Bichento a entendia melhor que qualquer pessoa ou amigo.
Abriu os olhos, apoiando-se na cama e balançando a cabeça levemente. Bichento miou e passou uma última vez a pequena cabeça em sua perna, antes de sair do quarto e voltar para onde estava. Hermione se levantou, percebendo que não seria capaz de ficar quieta. As pernas começaram a se mover rapidamente e ela começou a andar de um lado para o outro no quarto.
Sua mente não conseguia raciocinar direito, e ela não conseguia acreditar que havia reencontrado justamente o snatcher que tentara estuprá-la em meio à guerra. Não, definitivamente ela não precisava de tal reencontro. Ela não precisava olhar novamente para o homem rude que ela havia conhecido, o homem que quase a deixara traumatizada pelo resto de sua vida.
Poderia jurar que ele estava morto. Havia lido e acompanhado as notícias das consequências da guerra. Praticamente todos os snatchers estavam mortos ou trancafiados em Azkaban pelo resto de suas vidas medíocres.
Pelo visto isso não se aplicava a ele.
Hermione passou a mão no cabelo, bagunçando-o ligeiramente. Sua mente rápida repassava a conversa inteira, tentando por meio disso, buscar o motivo do snatcher carregar sempre o sorriso sarcástico e debochado no rosto. Ele sabia de algo que ela não sabia. Ainda.
Ele havia dado alguma pista para ela, seu subconsciente dizia que ela havia perdido algo.
Algo que ele falara, e ela não conseguira captar. Estava faltando algo... e por mais que ela não quisesse admitir, o motivo de sua falta de atenção não conseguia lhe deixar a mente. Ele a deixava sem reações, ele conseguia deixá-la incapaz de pensar com clareza e inteligência pelo simples motivo de estar ao lado dela. E quando alguém tirava isso dela, ela se sentia nua e desprotegida.
E ela se odiava por ter ficado assim por causa dele.
Hermione desistiu de tentar raciocinar direito, sabia que seu cérebro não iria funcionar com exatidão enquanto ela estivesse com aquela raiva no corpo. Caminhou em direção à cozinha, decidindo comer algo para se acalmar e retirar o restante de álcool que ainda estava lhe atrapalhando a concentração.
Acenou brevemente com a varinha e os talheres e utensílios começaram a trabalhar por conta própria, preparando um lanche tipicamente trouxa. A faca cortava o pão em fatias e a frigideira já fazia os movimentos certos para deixar o bacon do jeito que ela gostava.
Esperou pelo preparo do lanche sentando-se no balcão da pia. Sem ter com o que distrair a mente, pegou o Profeta Diário com desinteresse e o abriu na página principal. Pessoalmente, não gostava muito do jornal bruxo, achava-o invasivo e desnecessário, mas seus olhos castanhos pararam em uma reportagem específica.
As letras garrafais indicavam que se tratava de uma reportagem sobre o seu Departamento. Hermione conseguia reconhecer alguns colegas de trabalho e de sua própria equipe na fotografia que se mexia. Alguns homens carregavam pacotes grandes e de aparência pesada nas costas. Ela correu os olhos pela foto e leu o título da reportagem.
"Departamento de Cooperação Internacional em Magia intercepta um grande número de tapetes voadores".
Começou a ler a reportagem com um pouco mais de interesse, dedicando sua atenção a todos os nomes que o Profeta Diário havia mencionado. Por mais que quisesse, nunca descobriria como o jornal conseguia tais informações. O copo de suco de laranja voou em sua direção e ela o pegou com a mão livre, enquanto seus olhos castanhos liam o restante da reportagem.
Seu nome era citado algumas vezes como sempre, mas não foi ele que chamou a atenção de Hermione, e sim um que passaria sem ser percebido, se não fosse pelo fato do homem ter sido designado como um ex-snatcher.
- Um ex-snatcher...
Ela falou as palavras em voz alta, como se estivesse concluindo algo brilhante para alguém próximo. De repente sua cabeça voltou a funcionar e o que ela estava tentando se lembrar minutos antes dentro do quarto veio à tona.
"Você continua cheirosa... Pena que intercepta muitos tapetes..."
A voz do snatcher que havia encontrado retumbou na mente de Hermione e ela fechou os olhos, sentindo a onda de raiva e fúria tomar seu corpo pela segunda vez só naquela noite. Era ele, o maldito que estava por trás de tudo. Era ele que a deixava louca para capturar o responsável, era ele que estava conseguindo burlar as regras feitas pelo Ministério. O filho da puta era a pessoa que ela procurava há meses, sempre fora.
Em um gesto de raiva, Hermione soltou um grito e sentiu o líquido do copo cair sobre a mesa, molhando a foto dos colegas de trabalho parcialmente. Ela abriu os olhos, tentando buscar a calma que havia perdido no lapso.
Ela o pegaria. Disso ela tinha certeza.
Scabior fitava os bruxos bêbados no bar com desinteresse. Seus pensamentos estavam focados apenas na bruxa que havia saído horas atrás de onde ele estava. Não conseguia acreditar que tal pessoa tinha entrado por livre e espontânea vontade em um lugar como aquele, e ele se perguntava mentalmente quais os motivos que a levaram a fazer aquilo. Mas não reclamava, pelo contrário, achava que tal acontecimento fora imaginara que reencontraria a garota, muito menos na Travessa do Tranco.
As mãos sujas seguravam com firmeza um exemplar do Profeta Diário. Ele abriu o jornal e correu os olhos azuis escuros atentamente pela reportagem. Ele conseguia reconhecer alguns homens na foto, e sabia que nunca mais os veria. Agora, eles estavam em Azkaban, para dizer o mínimo.
Um bruxo do Ministério carregava a carga por cima dos ombros. Scabior fechou os olhos em fúria ao contabilizar os galeões que havia perdido por causa da estupidez de outros homens. Travou o maxilar e fez um esforço para não ir ele mesmo para a prisão bruxa e matá-los com a própria varinha. Eles mereciam mais do que Dementadores depois de dar tamanho prejuízo a ele.
- Mais um Uísque de Fogo.
Pediu para o garçom de forma rude. O homem gordo apenas arqueou as sobrancelhas e se virou, caminhando em direção à prateleira para pegar a bebida solicitada por Scabior, que foi cutucado por um bruxo mal vestido.
- O que foi?
Scabior o conhecia, e não precisava raciocinar muito para saber o motivo de Edgar estar ali. Não era segredo nenhum quem havia entrado naquele aquele bar; mas felizmente apenas alguns bruxos haviam a reconhecido.
- Aquela menina...
Scabior esperou o bruxo continuar a falar, mas ele apenas desviou o olhar para o garçom, que se aproximava com mais uma dose de Uísque de Fogo nas mãos. O homem depositou o copo em frente a Scabior no mesmo momento que Edgar sentava-se ao lado dele.
- Eu conheço aquela menina, Scabior. Ela é a bruxa responsável pelas missões do Departamento. É ela quem está nos dando dor de cabeça!
Edgar terminou de falar em um tom de voz raivoso e ao mesmo tempo indignado. Scabior sentia o mesmo. A sensação que corria pelo seu corpo, era de impotência e burrice. Não conseguia acreditar que uma menina daquela idade conseguia trabalhar melhor que inúmeros bruxos de mau caráter.
- Sim, é ela.
Ele confirmou as suspeitas do homem. O rosto de Edgar começou a ficar vermelho e Scabior percebeu que era a hora de mudar de assunto. Sabia perfeitamente que o bruxo era passional demais.
- Temos que dar um jeito nela, Scabior. Percebi que ela estava deslocada por aqui... claro que é estranho ver uma pessoa como ela em um lugar como esse. Poderíamos aproveitar isso e retirá-la do nosso caminho de uma só vez...
Ele gesticulava muito enquanto falava e o garçom já havia olhado duas vezes em direção aos dois homens. O corpo de Scabior começou a esquentar e ele não soube dizer o motivo disso, mas não estava gostando nem um pouco de como Edgar estava tentando resolver a situação.
Ele olhou para Edgar e o interrompeu.
- Não faça nada.
Disse em um tom de voz alerta e raivoso. O homem olhou para ele, a testa vincada de dúvida.
- Posso saber o porquê do pedido?
- Não é um pedido seu imbecil, é uma ordem.
Edgar começou a ficar inquieto, sabia que quando Scabior estava com raiva e alterado por causa das bebidas, não ficava um bruxo sociável.
- Pode deixar essa missão comigo. Com aquela maldita bruxa prodígio eu me entendo.
Afirmou, encerrando definitivamente a conversa. Mas Edgar não se deu por satisfeito.
- Por que está tão nervoso?
Scabior fechou as mãos no jornal com força, pedindo a Merlin forças, senão lançaria uma Maldição da Morte em Edgar naquele mesmo momento.
- Não estou nervoso, só acho incrível como vocês conseguem ser burros em certos momentos. Não subestime a garota, Edgar, ela é mais inteligente do que você possa imaginar.
Felizmente, Edgar não insistiu mais, apenas ficou pensativo e parecia levar a opinião de Scabior em conta. A garota não estava naquela posição dentro do Ministério por qualquer motivo, e tomar decisões precipitadas seria uma atitude impensada. Ele apenas acenou afirmativamente para Scabior e se virou, saindo finalmente de perto dele.
Scabior percebeu que estava em fúria quando viu o bruxo sair do bar. O rosto estava quente e a dose de Uísque de Fogo já havia sumido. Não queria ninguém se enfiando em seus negócios; já não bastasse uma multidão de bruxos incompetentes, quando aparecia uma oportunidade única de se dar bem, eles queriam destruí-la.
E ele poderia muito bem manipular a garota sem ajuda nenhuma.
As mãos sujas passaram as páginas do Profeta Diário com impaciência, e ele parou um momento em uma reportagem que lhe chamou a atenção.
"Cincos anos sem Você-Sabe-Quem"
Scabior leu o título e revirou os olhos. Mesmo que passassem cem anos, a sociedade bruxa nunca conseguiria escrever nem ao menos o nome do Lorde das Trevas. Como alguém conseguia ser tão temido mesmo depois de morto?
Os olhos azuis correram com desinteresse pela reportagem, uma espécie de homenagem a Harry Potter e a derrota do Lorde das Trevas. Scabior odiava aquilo, cinco anos atrás, mesmo que ficasse perambulando pelas florestas, ele se encontrava em melhor posição. Ele gostava mais de capturar mestiços em troca de galeões do que tentar contrabandear artigos proibidos para a Inglaterra.
Revirou novamente os olhos ao perceber a foto de Harry Potter, acenando ao lado de uma garota ruiva. Ela era até bonitinha, mas a foto lhe passava uma sensação tão feliz que ele começou a ficar enjoado. Parecia uma foto de capa de revista, daquelas inúteis que as bruxas liam para descobrir Poções do Amor alternativas e consultar Astrologia.
Scabior ia passar a página quando seus olhos capturaram algo dessa vez interessante. A foto de Hermione Granger estava logo abaixo da foto do casal perfeito. A bruxa estava só, e Scabior pôde perceber a diferença da imagem no papel com a imagem da mulher que havia entrado pela porta do bar.
Aquela garota da foto era a Hermione de aproximadamente dezoito ou dezenove anos, a mesma aparência que ela tinha quando ele havia a confrontado anos atrás. Os cabelos estavam mais curtos e ela usava calça jeans adolescente, junto com tênis e blusa comum. Ela parecia tranquila, o sorriso a deixava mais jovial. Scabior só havia a visto com raiva e desprezo, e já sabia que sua presença fora o motivo disso.
De qualquer maneira, a foto não lembrava nem um pouco a mulher que havia entrado pela porta do bar naquela noite, e mesmo que ele não soubesse dizer qual preferia, ele passou o dedo calmamente pelo rosto de Hermione através do papel.
O snatcher olhou para os lados, o bar já estava vazio. Com um puxão, ele rasgou a foto do jornal e a dobrou, guardando dentro do bolso do casaco de couro.
- Hermione Granger...
Relembrou o nome dela e sorriu, tamborilando os dedos no balcão de madeira escura.
Algo lhe dizia que Hermione Granger iria voltar àquele lugar mais rápido do que ele pensava.
