Invocavi Maledictus Ventis (I Invoke Cursed Winds) VII
-Acredito que fui bem claro nas minhas ordens, Dragão Marinho! – O timbre alto do ariano fez Kanon dar um passo para trás.
-Senhor, estou tratando de cuidar disso. Planejei um momento para pegá-lo de surpresa. Sabemos que é um Cavaleiro de Athena poderoso...
-Apenas faça o seu serviço. Senhor, eu avisei que ele não era capaz!
Kanon respirou fundo, clamando paciência, do contrário, não responderia por si.
-Às vezes o Sorento fala demais. – Comentou Thétis, unicamente para o geminiano.
-Estão dispensados. – Finalizou, um sério Poseidon.
O geminiano se dispersava do resto do Exército, quando a Sereia segurou em seu braço. -Seu irmão está melhor? – Ele sorriu.
-Sim. Conversamos a sério... Colocamos algumas cartas na mesa. Por isso retornei, ele pediu para que eu viesse, e não termos problemas.
-Você sabe como fará…?
Kanon pegou no braço da loira e a conduziu até o seu dormitório. Agiu como se estivesse a flertando, pois percebeu o olhar de Sirene – novamente – em cima de si.
Deixou que ela fechasse a porta, antes de responder. -É complicado. O mal nele se manifesta em momentos que apenas o Saga pode perceber, e nessa maioria, eu não estava perto dele.
A escorpiana encostou-se à parede. -Em outras palavras, depende unicamente dele.
-É um processo difícil, sabe? – Sentou-se ao leito, jogando o elmo nos travesseiros. -Julian e Sorento estão me cobrando por um feito rápido, por que eu sou assim nas missões. Sou eficaz. – Disse, em um ar orgulhoso. -Só que Ares é muito mais manipulador. Eles não o conhecem. Eu conheci. – Suspirou -Ares é uma cobra traiçoeira, vem devagar e envenena o meu irmão quando ele está mais vulnerável psico e espiritualmente. Não é o mesmo que estar possuído ou melhor, ser reencarnação. Ele... É uma doença. E é foda ter que esperar o meu irmão adoecer para atacar.
-É exatamente por isso que esses Deuses que querem se vingar de Poseidon e Athena, estão agindo. Manipulando o machucado mais marcante entre todos vocês.
-Exato. Sorento não entende esse assunto, Poseidon no momento só exige. E eu... Compreendo. – Ergueu o olhar à ela, sério. -Eu juro, que compreendo o nosso Deus. E até Sorento, apesar do lado pessoal contra mim. Mas é o meu irmão. Nós pastamos nessa vida, para alguém, quem quer que seja, virar para mim e falar "mate o seu irmão agora". Eu me mataria primeiro. Mas... Não precisamos ser assim. Não farei assim. É o Saga, só eu sei e só eu entendo. Querem que eu faça algo, beleza, mas da minha maneira.
-Julian está inconstante, com receio de outras forças perderem a paciência e atacarem.
-Sim. Ele age assim, por conta de saber como é a situação. Isso ocorreu com Lúcifer. Juntou o Anjo com Poseidon, Abel e Éris, e todos atacaram a Terra. Ares agiria como o Anjo Caído. E a ameaça, não seria impossível, mas não sabemos se é Apolo, Zeus, ou outros Deuses.
-Ou todos. – Ao ouvir a afirmação, Kanon temeu, passando as mãos nos cabelos. -Eu vou lhe contar algo que eu não deveria, mas sei que para você eu posso. – Fez uma pausa, jogando os cabelos loiros e longos para o lado. -Poseidon cogitou intermediar, em sinal do pacto com Athena.
-Ele fazer algo semelhante ao que ela fez com Abel e Ártemis? – A olhou, curioso.
-Sim. Como a credibilidade e poder que Zeus e Hades têm, Poseidon podem fazer essa trégua existir.
-Os deuses têm ainda ressentimento de nós, mesmo depois das nossas demonstrações de respeito para com a Humanidade.
-Infelizmente, nem todos ainda acreditam nisso e nem acreditam em nós.
-A pior coisa é tentar convencer um Deus, Sereia.
-Bian me comentou algo, ontem, que me deixou mais preocupada...
-O quê?
-Ares é o mesmo do passado de vocês?
Kanon juntou as sobrancelhas, não sorvendo aquela pergunta, pois para si era óbvio. Era o mesmo. E assim, a olhou, respondendo-a em silêncio, nessa obviedade. -Por que ele disse isso?
-Veio até nós que os Deuses, mais uma vez, estão furiosos. E se um deles for o Deus da Guerra?
-Thétis, está falando sério? – Ficou perdido no raciocínio. Ainda mais porque não era uma hipótese a ser descartada.
-Agora, levando essa ideia, sabe o quanto ele despreza tudo o que Athena criou. E eles sabem os ocorridos dos Cavaleiros Dela com eles.
-Seria um belo disfarce dele. Se infiltrar em um Cavaleiro de Ouro, fazendo todos a acreditarem que é apenas o Mal do passado. – Parou por um momento e pensou. -Eu ouvi uma vez... Que quando Hades foi até o Santuário, Athena pressentiu isso. – Murmurou.
-Bian e eu podemos estar falando uma bela besteira, Kanon. Ele mencionou isso, pois estava presente em uma reunião ontem. Io, Julian e Krishna também estavam presentes, mas eram apenas os quatro.
Em tempos mais brandos, Julian Solo requisitava alguns dias da semana, uma reunião, discutindo propósitos de guerra e reorganizando seu exército. Kanon é a presença obrigatória nesses momentos, porém, por conta da visita à Saga, não estava presente.
-Não é besteira. Poseidon sempre analisa todas as possibilidades, mesmo que na teoria pareçam estranhas. Nunca é demais estar preparado para todos os polos. -Esse novo argumento lhe deixou ainda mais preocupado. Teria que conversar com Saga, o mais breve possível.
Segundos depois, enquanto Kanon caiu em seus pensamentos acerca das hipóteses, foram interrompidos por uma batida na porta. -Entre. – Ordenou.
Bian apareceu tímido no aposento. –Meu amor... Está ocupada? – A procurou pelo quarto, logo a avistando. Ela sorriu para si. –Kanon, posso roubá-la um pouco? – Riu.
-Só se eu for padrinho. – Olhou Thétis, que enrubesceu.
-Por mim, ótimo. – Observou a amada, ainda mais vermelha. Nisso, estendeu a mão à ela, que retribuiu e ambos saíram. Kanon ainda pensava, mediava tudo o que a comandante havia dito e o que já havia vivido.
Se realmente for Ares, o Deus da Guerra, que conseguiu manipular tudo a bel-prazer para enganar Poseidon e principalmente Athena, usando Saga, as coisas ficariam mais complicadas. A sua preocupação maior, seria argumentar essa possibilidade.
