Dica: ler capítulo ouvindo Brothers.
UMA LUZ NA MINHA VIDA
Autora: Rosana (Rô)
Colaboradoras: Carol e Marjarie
Capítulo 07
- Incompetentes. Estou cercado de incompetentes. – Ludwig gritou batendo a mão na mesa. Dois engenheiros sentados à sua frente pularam nas cadeiras. – Olhe isso aqui. – ele falou estendendo algumas folhas aos homens. – Uma garotinha de 17 anos é mais esperta do que vocês dois juntos. Vejam esse traçado. Por que motivos vocês fizeram esse túnel nessa montanha? Ela desviou. E sabem porquê? Porque a montanha é de rocha sólida, seus idiotas, nem um estudo geológico vocês fizeram. – ele esbravejou jogando os papéis para cima e pegando outro projeto. – E aqui? Vêem aqui que ela passou longe do lago?
- Mas senhor, a viagem seria mais bonita... – um dos homens começou a dizer.
- Bonita? Bonita? Quando na estação das chuvas os trilhos ficassem alagados, seria bonito? Saiam daqui. Saiam antes que eu atire-os pela janela. – berrou Ludwig.
A.J. teria ficado fascinada de ver o sempre certinho Lud saindo de sua mesmice. O homem faltava espumar de tanta raiva.
Quando os dois engenheiros iam saindo apressados, uma mulher entrou na sala.
- Problemas? – ela perguntou.
- Eu não consigo entender como uma pirralha daquelas pode ser tão inteligente tendo tão pouco tempo de vida. – Lud falou soltando um suspiro alto e recostando-se na cadeira.
Lídia sentou-se em frente a ele e franziu o cenho. A.J. de novo. Aquela menininha era uma pedra em seu sapato.
- Não vim aqui para falar daquela coisinha. – ela disse venenosa.
Ludwig deu uma risada sarcástica.
- A inveja não a deixa nada atraente Lídia.
- Eu? Inveja daquela menininha? Ah! – ela riu sem humor.
- Está bem. Você não inveja a riqueza e a beleza de A.J. É claro que não. Você veio a mim por puro altruísmo não é mesmo? Tirar a empresa daquela pobre garotinha e colocar seu marido no comando por benevolência, afinal A.J. é apenas uma adolescente, você estaria fazendo um bem a ela, não foram essas as razões que você me apresentou?
Lídia rilhava os dentes internamente. De fato foram essas as razões, talvez sinceras no início. Acreditava piamente que Sam é que deveria estar no comando da H3 e não A.J., mas as coisas foram tomando um vulto tortuoso, e ali estava ela, metida naquela sujeira até o último fio de cabelo. Era muito tarde para voltar atrás, e nem queria, gostava da vida que tinha, gostava de ter coisas belas: roupas, jóias e móveis caríssimos.
- Temos um problema. – ela disse sem comentar as palavras de Ludwig.
- Não me diga. Seu marido quer pular para fora do nosso trem descarrilado não é? – Ludwig chutou acertando em cheio.
- É um idiota. Eu disse a ele que era muito tarde para voltarmos atrás, mas depois que aquele funcionário morreu, ele ficou com medo. A.J. o ameaçou com a prisão.
- A.J.? O que ela sabe? – Lud perguntou ficando alerta.
- Muito mais do que imaginamos. Ela contratou um detetive. – Lídia disse encarando Lud. – O homem vasculhou nossas contas bancárias, e a impertinente descobriu que não é Sam que paga o hospital, daí para somar dois e dois não foi difícil.
- Não, não deve ter sido mesmo. – Lud disse aparentando calma.
- E agora? O que faremos?
- Nós? Nada. Eu farei o que acho que deve ser feito.
- Não vai me dizer? – ela perguntou curiosa ante a expressão fria do homem a sua frente.
- Não. Não interessa. Agora saia que eu tenho mais o que fazer. – ele disse voltando a atenção para alguns papéis em sua mesa.
Lídia fitou-o de boca aberta, sem conseguir se mexer, ele nunca falara assim com ela.
- Eu não disse a você para sair? – ele perguntou, sem erguer os olhos.
Lídia levantou-se, ergueu o queixo e rodopiando teatralmente saiu da sala batendo a porta com força.
Ludwig largou a caneta em cima da mesa com um baque. Daria a A.J. mais uma chance, caso ela não cooperasse, teria que ser mais drástico em seus métodos de persuasão. A H3 seria sua de uma vez por todas, se como bônus A.J. viesse junto melhor ainda.
FMAFMAFMA
A.J. ia saindo do escritório da ferrovia quando esbarrou em um homem que a segurou pelos ombros para que não caísse, erguendo os olhos deu com Ludwig, o susto foi tão grande que ela se soltou com um safanão, dando um passo para trás.
- O que você quer? – perguntou arisca.
- A.J., isso lá é jeito de cumprimentar um velho conhecido?
- Você não é velho nem novo conhecido coisa nenhuma. Vai se mandando Lud, não quero ver sua cara nem pintada de ouro.
- Mas porque toda essa violência? – ele perguntou surpreso.
- Não me enche que tenho mais o que fazer. – ela resmungou desviando-se dele, mas foi segura pelo pulso.
- Ainda não. – ele falou encarando-a de maneira séria.
- Vai partir para o ataque frontal? – ela perguntou irônica, o pulso doendo onde ele segurava com força extrema.
- Algum problema senhorita Hedwig? – o tenente Havock perguntou parado atrás de A.J.
- Algum problema Lud? – ela voltou a pergunta ao homem a sua frente.
- Mas é claro que não. – Ludwig disse de maneira cortês. - Eu apenas queria conversar com você. Um minuto, pode ser? – ele pediu com um sorriso que a A.J. não enganou.
- Estarei aqui caso precise de mim senhorita. – Havock disse descendo os degraus e ficando a alguns passos deles.
- Obrigada Jean.
- Você mudou mesmo. – Lud falou de modo irônico. – O exército como guarda-costas?
A.J. encarou-o em silêncio, Ludwig não sabia o extremo esforço que ela fazia para se controlar e não lhe dar um soco bem no meio daquela cara arrogante. Olhou o relógio que trazia ao pulso e depois para ele, impaciente.
- Oras, está bem, não precisa se irritar. Este não é o melhor lugar para falar disso...
- É o melhor que você vai receber. – ela cortou-o.
- Pois muito bem. Venda a H3 para mim.
- Eu não acredito. – A.J. falou. – Você veio aqui para dizer isso? De novo? Quantas vezes eu vou ter que dizer não? – e já ia se afastando dele, mas foi segura de novo.
- Você está carregada de problemas, é apenas uma criança, deixe que eu cuide de tudo para você, A.J. Posso cuidar até mesmo de você e do seu irmão.
- Fique longe do Baxter, ouviu? – ela falou apontando um dedo no peito do homem que era uns bons centímetros maior do que ela. – Nem ouse olhar para meu irmão. E quanto a mim, por Deus, preferiria que uma cobra de verdade cuidasse de mim. Lud enfia uma coisa nessa sua cabeça dura, não quero nada de você e nada com você. E se você nunca mais cruzar o meu caminho me darei por satisfeita. Agora solta meu braço que preciso trabalhar. – ela pediu de modo áspero.
- É sua última palavra? – ele ainda insistiu.
- Essa foi minha última palavra da primeira vez que você quis comprar a H3. Você apenas não se deu conta disso.
- Pode ser um problema, você ser tão teimosa A.J.
- Notei uma ameaça no seu tom de voz?
- Imagina. – ele disse de modo sorridente soltando o braço dela. – Dei apenas uma opinião.
- Não se aproxime mais da H3. – ela falou afastando-se.
- Claro A.J. – Lud disse baixinho, mas os olhos a fitavam num ardor de raiva. – Depois não diga que não avisei.
- Está tudo bem? – o tenente Jean Havock perguntou a A.J.
- Está. Mas fique atento, esse homem é mais astuto do que imaginamos.
- Teremos cuidado. – ele garantiu.
- Ah Jean. – A.J. chamou já em cima da moto. – Não conte ao Ed que tive essa visita. Eu mesma falo com ele depois.
- Está bem. – Havock concordou sorrindo. O FullMetal não iria mesmo gostar nada disso, pensou ele.
A.J. ligou a moto e partiu na direção leste, ia seguir os trilhos numa verificação das condições da estrada de ferro. Um dos maquinistas disse que talvez houvesse uma falha a alguns quilômetros da Cidade Central, pois a locomotiva sempre dava uma leve tremida num determinado ponto. O problema poderia ser simples, como um pedregulho, ou mais sério como um desvão entre os trilhos.
Esse era um trabalho para a turma de conserva, mas no momento as equipes estavam todas ocupadas, então decidira ir ela mesma, pois também precisava de um tempo a sós com seus pensamentos, quer dizer, não bem a sós, pensou olhando para o carro do Exército que a seguia de perto. Essa fora a condição para que Ed a deixasse fazer essa vistoria.
- Ah, mas o que estou pensando. – A.J. resmungou para si. – Deixar-me fazer a vistoria. Bah! A que ponto cheguei. Sendo controlada por um chiuahua do exército. Ele deve estar rolando de rir.
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Ed tocou a orelha esquerda com a mão sentindo-a estranhamente quente.
- Alguém deve estar falando mal de mim. Nem preciso pensar muito para saber quem é. – falou com Al que caiu na risada.
- Ela deve estar te xingando por ter que sair acompanhada por vários vira-latas.
- É verdade. – Ed concordou sorrindo.
Ele mesmo queria tê-la acompanhado, mas hoje era o último dia do exame anual de Alquimistas.
- Espero que isso termine logo. – falou ansioso para poder sair dali, não gostava muito que A.J. saísse das suas vistas, ela sempre se metia em encrencas, ele pensou com um estremecimento.
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Ludwig desceu do carro em frente a sua empresa. Viera da H3 por todo caminho muito pensativo. Não vendo sua secretária à mesa, parou em frente à porta do seu escritório e virou-se para o motorista que o seguia de perto.
- Seus homens estão preparados? – Lud perguntou a ele.
- Sim senhor.
- Mande-os. Faça parecer um acidente, mas que ninguém sobreviva. – ele disse de modo implacável.
- Até mesmo ela? – Brahms perguntou.
- Principalmente ela.
O homem se virou indo cumprir as ordens de seu patrão. Nenhum dos dois percebeu um vulto que ouvira tudo atentamente.
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A.J. percorria os trilhos devagar, olhando cuidadosamente as ligações entre um e outro. Atualmente cada trilho tinha cerca de oito metros, mas ela estudava vias para se aumentar o tamanho deles, a segurança seria maior havendo menos emendas. Os encaixes era perfeitos, mas oscilações no terreno e o atrito constante das máquinas faziam com que houvesse desgaste e alterações na estrutura com o passar do tempo, por isso, os maquinistas estavam atentos para qualquer atrito diferente, eram mestres em perceber irregularidades no andar de suas máquinas. Fora eles, as equipes de conserva não deixavam passar nada, mas depois dos últimos acontecimentos, o trabalho andava cada vez mais intenso. Precisava dar um jeito para que as coisas não desandassem ainda mais.
Num determinado ponto ela parou a motocicleta e caminhando, abaixava-se em cada junção onde havia as palmilhas que seguravam os trilhos, observava os encaixes e parafusos de aço bem maiores que o normal. Encontrou um dos parafusos frouxo, se tivesse espanado teria que ser trocado. Pegou uma chave de boca entre as ferramentas que trouxera na garupa da moto e apertou o parafuso, percebendo-o firme e não rodando a esmo. Ótimo, não precisaria de troca, caso precisasse seria mais difícil. O duro de ser mulher era isso, faltava-lhe a força muscular necessária. Suspirando, fez um aceno para os soldados que a esperavam a alguns passos de distância.
- Preciso de um braço forte. – gritou para eles.
- Vai lá Breda. – o tenente Havock convocou o mais forte deles.
- Pois não senhorita? – ele perguntou aproximando-se.
- Será que você poderia apertar mais um pouco para mim? – pediu apontando o parafuso e a chave.
- Claro.
Havock e o segundo tenente Brosh aproximaram-se para observar o trabalho, quando ouviram o barulho de um automóvel aproximando-se em alta velocidade. Jean Havock mais que depressa jogou longe o cigarro que fumava.
- A.J. suba na sua moto e saia daqui. – gritou para ela correndo para o carro.
Brosh e Breda o seguiram já de armas em punho. Queriam estar preparados para qualquer eventualidade.
A.J. ainda lançou um olhar para trás, mas fez o que Jean pedira. Assim que acelerou a moto, ouviu a troca de tiros. Droga! Prometera a Ed não se meter em encrencas, mas ele não poderia culpá-la por isso.
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Ed e Al saíam da sala onde fizeram os testes sorrindo animados de seus feitos, eles eram mesmo imbatíveis.
- Você não tira mesmo A.J. da cabeça. – Al dizia dando risada.
- Dá um tempo. – Ed resmungou embaraçado.
Quando percebera o que fizera já era tarde demais. Com alguns materiais que havia na sala, Ed conseguira fazer uma réplica perfeita da Fumacenta, quase no tamanho original. Quem estava na sala explodiu em gargalhadas tirando sarro no FullMetal.
- Com licença. – um homem falou parando à frente deles. - Não sei se você se lembra de mim... – ele começou a dizer olhando para Ed, mas foi interrompido quando o rapaz imprensou-o contra à parede pelo pescoço.
- Ed! – Al exclamou assustado.
- Lembro. – Ed disse com um olhar mortal ao traidor Samuel Dussek. Talvez hoje pudesse descontar a raiva contra esse rato por ter feito sua A.J. chorar.
Sua A.J.? Ed devaneou ainda apertando o pescoço do homem que começava a ficar vermelho. De fato gostava do som. Sua A.J. Aceitou que estava caído pela Princesa da ferrovia com um sorriso maroto.
- Ed, você está sufocando o homem. – Al falou alto próximo ao ouvido do irmão, que parecia estar em outro mundo.
Ed afrouxou o aperto, mas não soltou.
Sam olhou para Ed um tanto quanto assustado, sabia que não seria fácil.
- Eu sei que fiz algumas coisas erradas... – o homem conseguiu dizer.
- Algumas coisas? – Ed retrucou de maneira irônica.
Sam abaixou os olhos, envergonhado.
- Talvez eu ainda possa fazer o certo. – falou de maneira decidida.
Ed olhou para o homem a sua frente, e depois de alguns segundos de análise soltou-o.
- Vamos ouvir o que você tem a dizer. Dependendo do que for, talvez eu só quebre alguns dentes. – ameaçou de forma assassina, estalando os dedos.
Al atrás do irmão rodou os olhos diante da maneira dramática de Ed.
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A.J. acelerava a moto no último e já distanciara um bom trecho quando parou para olhar o que acontecia onde os soldados do exército ficaram. Arregalou os olhos desesperada, quando viu uma fumaça negra subindo do carro, e mais alarmada ficou quando viu seus perseguidores vindo em sua direção.
- Se eu sair dessa o Lud tá ferrado. – falou com raiva.
A.J. seguiu os trilhos por mais um tempo, quando se lembrou de uma caverna que havia a frente, era uma antiga mina de carvão, já a explorara com seu irmão, foi bem na época que descobrira odiar ambientes fechados, pensar em estar a metros da superfície era o suficiente para um suor gelado escorrer por suas costas, mas não via outra solução de escape, sua moto não tinha combustível suficiente, para conseguir fugir naquele trecho deserto, teria que tentar a mina. Acelerou ainda mais, sempre a observar o carro na sua cola cada vez mais perto.
Viu a boca da caverna quando sua moto começou a querer falhar. Bem em tempo, pensou aliviada.
Entrou com moto e tudo até onde conseguiu, derrapou bem no fundo, e saiu correndo em disparada por um dos túneis, tentando adaptar os olhos à escuridão e não pensar onde estava. Sons de passos apressados a acompanharam, e quando algo passou raspando próximo, ela acelerou na corrida, tropeçando na escuridão, continuou descendo mais e mais fundo.
- Olhe por ali. – ela ouviu um dos bandidos gritar.
A.J. imaginou que os homens estavam se dividindo, já que a mina tinha vários túneis abertos. Parou um pouco para ouvir, vozes abafadas chegaram até ela, bem ao longe, ficando difícil entender o que diziam. Ficou parada, encostada à parede respirando pesadamente, um breu ao seu redor. O ar era abafado e úmido cheirando a mofo, tentava não pensar em seres rastejantes que podiam viver ali, mas ouvia-os correndo, talvez tivessem mais medo da intrusa do que ela estava deles. Ficou paralisada no lugar, o que lhe pareceu horas, mas que não passaram de minutos.
- O que eu faço? – sussurrou mais para ouvir a própria voz. Sair dali? Ficar ali? Sentia arrepios pelo corpo, e tentava não pensar onde estava, quando ouviu sons de tiros. Estavam atirando em quê? Será que os três soldados tinham vindo resgatá-la? Não, o carro explodiu. Tomando uma decisão, A.J. retornou seus passos em direção à entrada da mina, quando um som diferente começou a se ouvir pelos túneis.
Assustada, começou a correr, se desse de cara com seus perseguidores não seria pior do que ser enterrada viva na caverna, pois o som que ouvira era de pedras rolando, a mina estava desabando.
Não houve tempo, pedras e terra caíram do teto da mina, uma nuvem de pó a cobriu inteira, fazendo-a tossir, ergueu a camiseta cobrindo o rosto e abaixou-se colocando os braços na cabeça, foi atingida por alguns pedregulhos, o que a fez se levantar e tentar encontrar um ponto onde fosse mais seguro. A mina era tão antiga que apenas um leve barulho era capaz de fazê-la desabar inteira, enterrando-a junto. Num momento de lucidez em meio ao terror de seus pensamentos lembrou-se do som dos tiros. Os bandidos, não a encontrando provavelmente atiraram nas vigas de sustentação, causando o desabamento de alguns túneis. A morte acidental perfeita, pensou com ironia.
Alguns minutos depois, um silêncio aterrador se fez. A.J. olhava sem nada ver assustada. Estava dentro de uma mina, soterrada, seu pior pesadelo tornando-se real. Tentava conter a onda de pânico que sentia, mas não conseguiu. Lágrimas de desespero rolaram por seu rosto.
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Ed guiava como um alucinado. Juntamente com Al e Bax seguiam para o trecho onde A.J. ia fazer a verificação dos trilhos. Ela partira de manhã, e agora já era o meio da tarde, não queria pensar em possibilidades trágicas para o atraso dela e dos soldados, mas não adiantava ordenar que seus pensamentos fossem tranqüilos, tranqüilidade era a última coisa que sentia.
Atrás deles iam mais dois carros do exército e uma ambulância. Al tivera a idéia e Ed aprovara. Os três dentro do carro estavam em silêncio, Ed olhava Bax no banco de trás que torcia as mãos nervosamente.
- Ela está bem. – disse, sem saber se era para acalmar a ele ou a si mesmo.
Bax olhou para Ed esperançoso, mas não disse uma palavra, Ed acelerou ainda mais o carro.
Sam fora uma surpresa. Procurara-o no quartel dizendo ter ouvido uma conversa entre Ludwig e o motorista deste, apesar de tudo de errado que fizera não queria que ninguém se machucasse, principalmente A.J., então decidira dar um depoimento completo, sobre tudo que havia feito e o que sabia de Ludwig. A.J. ia vibrar com a notícia, agora eles teriam as provas que tanto queriam, e quando Roy voltasse com o administrador da vila como testemunha, Lud ficaria atrás das grades pelo resto da vida. Só precisava achar A.J. antes.
Ed viu antes dos outros o rolo de fumaça mais à frente, mas em seguida Al gritou:
- Olhe!
Bax aprumou-se no banco ficando mais para frente, tentando ver a irmã, mas o que viram foi o carro do exército que a acompanhava em chamas.
- Onde ela está? - Bax perguntou agoniado.
Ed desceu do carro correndo e olhando em todas as direções, mas não havia ninguém. Andou observando o chão, viu onde A.J. parara a moto e de onde ela saíra, pelas marcas no chão, em alta velocidade, viu também marcas de outro carro, mas onde estavam os soldados? Olhou a direção para onde A.J. fora.
- Ed. – Al chamou um pouco mais a frente, ele aproximou-se e viu três pares de pegadas, distanciando-se do local.
- Entrem no carro. – gritou para os meninos.
Ed não andou muito antes alcançar os três soldados que cuidavam da proteção de A.J. Breda arrastava Havock pelo ombro, que tinha a perna ensangüentada. Ele mesmo não estava em melhor forma, uma mancha vermelha se via na lateral de seu corpo. Brosh parecia ser o que estava em melhores condições, um filete de sangue escorria de sua testa. Os três pararam de andar quando Ed se aproximou.
- Entrem. – disse apenas.
Bax passou para o banco da frente para dar espaço aos soldados.
- Eles apareceram de surpresa Ed. – Breda explicou. – Havock mandou A.J. se mandar e nós ficamos, eles chegaram atirando para todo lado, nem deu tempo de seguí-la. Acertaram primeiro os pneus e depois o tanque de gasolina, a explosão foi inevitável, jogou-nos longe, eles ao menos voltaram, acredito que pensaram que estivéssemos mortos.
- Faz tempo? – Ed perguntou.
- Perdemos a noção de tempo, desmaiamos com a explosão. Mas era umas 10:00h quando aconteceu.
- Droga!
Os ocupantes do carro ficaram em silêncio. Ed, de tempo em tempo parava o carro descia e observava o rastro da moto de A.J. e do carro que a perseguia.
- Não. – Bax sussurrou de repente, parando ao lado de Ed e olhando para a frente. – A mina. A mina Ed. – agora já estava gritando.
- Que mina Bax?
- Tem uma antiga mina de carvão mais à frente. Meu irmão uma vez levou A.J. para explorar. Ela deve ter ido para lá. – falou de modo desesperado correndo para o carro.
Ed correu atrás.
- Então é uma coisa boa não é? Se ela conhece a mina pode ter se escondido. - Ed falou olhando o garotinho que tinha um olhar assustado no rosto. - Ela vai ficar bem Bax. Sua irmã é uma garota esperta.
- Não... Ela não vai ficar. Quando o Allan a levou na mina, A.J. entrou e pânico e descobriu sua pior fraqueza. Tem medo de lugares fechados. A.J. deve estar aterrorizada. Anda logo Ed. – Bax pediu.
Ed acelerou ao perceber o desespero de Bax, mas não podia imaginar a garota com pânico de alguma coisa, era a pessoa mais corajosa que conhecia, imprudente e determinada, saber que ela tinha uma fraqueza era uma surpresa para ele.
Chegaram algum tempo depois à mina e perceberam que a entrada havia desmoronado, dos perseguidores, nem sinal.
Ed desceu correndo do carro, com os meninos logo atrás. Os soldados foram um pouco mais lentos devido a seus ferimentos.
- A.J. – Ed gritou, com Bax e Al ajudando.
- Tira ela daí Ed. – Bax pediu.
Ed olhou para o monte de pedras imaginando um jeito de fazê-las desaparecer sem que mais pedras caíssem dentro da mina. Concentrou-se em unir as mãos, na talvez, sua mais importante transmutação alquímica. Colocou-as nas rochas caídas fazendo aos poucos com que elas se transformassem em um monte de areia.
Nesse meio tempo os outros carros do exército e a ambulância chegaram. Enquanto recebia atendimento médico, Havock mandou o restante dos soldados em perseguição aos bandidos que os atacaram.
Ed conseguira tirar a maioria das pedras, e Bax já ia entrando na mina quando Ed o segurou pela gola da camisa.
- Vai buscar uma lanterna. – pediu.
- Ed.
- Bax. Sem discussão.
Baxter olhou Ed por alguns segundos querendo teimar, mas Al passou a mão por seu ombro levando-o dali.
Ed respirou fundo e entrou na mina. Não queria o garoto perto do que quer que encontrasse.
- A.J. - chamou baixinho. Ed sentiu o ar pesado da caverna e um aperto no íntimo. E se ela não estivesse ali? Os bandidos poderiam tê-la levado e feito a mina desabar apenas para segurá-los. Ou pior, e se ela estivesse muito próxima da entrada? Balançando a cabeça em negação, Ed se obrigou a não pensar idiotices, ela está viva.
- A.J. – chamou de novo. – Responde, por favor.
Agora acostumado ao negrume do interior, e graças à parca iluminação da entrada, Ed aprofundou-se pelo túnel central e viu uma forma encolhida num canto.
- A.J.?
Aproximou-se devagar e percebeu a garota com a cabeça enterrada entre os joelhos, ela não se mexia. Tocou-a no braço com medo de que ela estivesse muito machucada, mas ela ao menos sentiu. Ed segurou os braços dela e descruzou-os devagar, mas A.J. manteve a cabeça abaixada, ele ergueu-a com as mãos no seu rosto, e mesmo com a pouca luminosidade, percebeu-o todo sujo de poeira e um rastro de lágrimas nas bochechas.
- Ei, abra os olhos. – ele pediu baixinho, pois ela os mantinha fechados bem apertados.
Ela não o atendeu.
- Você está ferida?
Nada. A.J. parecia estar petrificada no lugar, e Ed já estava quase entrando em pânico, se ela não estivesse respirando diria que... Calma Ed.
Sentou-se ao lado dela e passou o braço por seus ombros.
- Sabe Asdrulba... – começou a dizer olhando-a, mas não obteve reação. – Você me preocupou por um momento. Bom, quando é que eu não estou preocupado com você? É só você sair das minhas vistas que eu fico pensando: O que será que A.J. está fazendo? Está numa confusão? Com certeza, essa garota tem a palavra confusão como nome do meio. Ah não, seu nome do meio começa com J. – ele disse olhando-a de rabo de olho. Será que ela mexera a cabeça? – Talvez seja Jacinta, combinaria com Aristilda. Aristilda Jacinta. É, entendo porque você usa A.J. – ele falou balançando a cabeça.
- Você é ridículo. – A.J. falou depois de um tempo, num tom de voz baixo, quase um sussurro. – Se acha que isso vai me fazer sentir melhor, está perdendo seu tempo. – ela completou com voz rouca.
Ed sorriu aliviado, apertou-a de encontro ao corpo, fazendo-a encostar a cabeça em seu ombro.
- Não vai abrir os seus lindos olhos para mim A.J.? – pediu em tom suave.
A.J. esfregou o rosto com as mãos, e abriu-os devagar fitando o par de olhos cor de mel a sua frente, agora podia ver a sua volta já que Baxter e Al chegavam carregando lanternas.
- Eu estava com medo. – ela disse num soluço contido.
- Eu também. – Ed respondeu abraçando-a e sendo agarrado pelo pescoço, deixou-a afundar a cabeça em seu peito, enquanto chorava baixinho. Quase chorou junto. A.J. tinha esse dom de fazê-lo deixar cair a fortaleza que ele achava que era.
- Ela está bem? – Bax perguntou assustado ao ver o descontrole da irmã.
- Estou. – ela respondeu ainda com a cabeça enterrada no peito de Ed.
- Você não está machucada? – Ed perguntou.
Ela balançou a cabeça no que Ed acreditou ser uma negação.
- Vamos sair daqui. – ele disse erguendo-se com ela no colo.
- Eu posso andar. – ela falou, mas ao contrário de suas palavras, não parecia querer soltar o pescoço de Ed.
- Eu sei, mas prefiro mantê-la segura aqui em meus braços.
- Também prefiro. – ela concordou.
Os meninos seguiram na frente com as lanternas indicando o caminho para Ed. Um dos médicos que veio na ambulância chegou correndo para examinar A.J., mas ela não deixou ou ao menos soltou Ed.
- Al você dirige. – Ed falou entrando com ela no banco de trás do carro.
Havock, Breda e Brosh chegaram à janela, os três já medicados não arredaram pé dali enquanto não viram A.J.
- Ela está bem rapazes. – Ed disse.
- E vocês? – ela perguntou olhando-os meio por baixo do braço.
- Não se preocupe com nós. Queremos pedir desculpas por não tê-la protegido melhor.
- Tá tudo bem. – ela falou com voz abafada.
- Rapazes, acho melhor vocês irem na ambulância para o hospital. Também vou levar A.J.
Os soldados concordaram, mas estavam contrariados com eles mesmos.
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Foi difícil no hospital fazer com que A.J. soltasse o pescoço de Ed, mesmo porque ele não foi de grande ajuda, estava adorando tê-la em seus braços, por ele, ela não sairia mais dali. Mas o doutor Sal tinha outra opinião. Expulsou a ele, Baxter e Al do quarto enquanto as enfermeiras tentavam convencer A.J. a ser banhada, mas os rapazes puderam ouvir sua voz dizendo não ser uma inútil e que tomaria banho sozinha.
- Ela está voltando ao normal. – Bax disse sorridente, ao que os outros concordaram.
- Essa garota. – doutor Sal resmungou saindo do quarto. – Será que ela esqueceu que eu a trouxe ao mundo? Não entendo todo esse constrangimento.
Ed olhou para o médico de maneira aterradora. Não gostava muito da idéia do homem ver sua A.J. como ela veio ao mundo. Não interessa que ele tivesse idade para ser avô dela.
Al percebeu a agitação do irmão, e podia ler na cara dele o que estava pensando, tentou controlar-se, mas não conseguiu, começou a rir alto. Bax olhou-o querendo rir da risada dele e Ed irritou-se com o irmão. Doutor Sal não estava entendendo nada.
- Que foi Al? – Bax perguntou rindo.
- A cara do Ed quando o Doutor Salomão disse que trouxe a A.J. ao mundo, ele deve ter pensado algo indecente, pois lançou chispas em direção ao doutor.
Salomão Sheldon fez uma cara de espanto e de repente entendeu, começou a dar risada do ciúme de Ed. Bax, em sua inocência olhava de um para outro, ria junto, mas não estava entendendo nada.
- Al, você é uma tramela. – Ed resmungou embaraçado.
Nesse momento a porta do quarto se abriu e uma das enfermeiras chamou o doutor Salomão.
O exame em A.J. foi rápido, ela tinha pequenos ferimentos, e o peito estava um pouco congestionado devido a toda a poeira a que ficara submetida. O que mais preocupava o médico era a apatia da garota, sabia o quanto poderia ser traumático a experiência de se ver lacrada em uma caverna, ainda mais ela tendo fobia a ambientes fechados.
- Vai passar a noite aqui. – ele disse a ela.
A.J. suspirou aceitando o inevitável.
- Sem reclamações? – ele perguntou.
- Estou sem ânimo.
- Entendo. Quer falar sobre isso?
Ela negou com a cabeça e virou-se para a janela, levantou-se num repente da cama, abrindo-a inteiramente. Respirou o ar que entrou e deixou-se ficar ali.
- Cadê o Ed? – ela perguntou sem voltar-se. Odiava ter essa dependência, mas nesse momento precisava da segurança que ele passava.
- Vou chamá-lo. – o médico respondeu, ia acrescentar algo, mas desistiu saindo do quarto.
- Como ela está? – Bax perguntou ao ver o médico.
- Fisicamente ela está bem Bax, não se preocupe.
- Estou mais preocupado com o tempo que ela passou lá dentro, para ela deve ter sido o inferno. - Bax disse receoso.
- Temo que você tenha razão meu jovem. A.J. nesse momento precisa de segurança. – virou-se para Ed. - E acho que o Ed pode ajudá-la nesse sentido. Perguntou de você.
Ed ao menos o deixou terminar o que dizia, entrou no quarto rapidamente.
Bax e Al sorriram da impaciência dele.
- Doutor Sal, minha irmã vai voltar ao normal logo, não vai? – Bax perguntou. – Eu pergunto, porque, daquela outra vez que ela entrou na mina, ela ficou meio estranha, não queria nem dormir no quarto dela.
Salomão sorriu com a lembrança.
- Acredito que dessa vez o caso não será tão grave, apesar de ter sido mais preocupante, já que ela ficou presa. Mas A.J. está mais madura e vai perceber que não há o que temer de ambientes fechados e controlados. Só temos que dar um tempo a ela. – Salomão disse mais para tranqüilizar o garoto, pois a reação dela ao ver a janela fechada o preocupara, mas acreditava que ela conseguiria superar o trauma.
Ed encontrou A.J. parada à janela olhando para fora. Aproximou-se rodeando sua cintura, e a fez apoiar-se em seu peito.
- Gosto deste lugar. – ela disse.
- Do hospital? – ele perguntou algo surpreso, mas com um tom de riso na voz.
- Bobo. – ela resmungou batendo de leve na mão dele. Jogou a cabeça para trás fechando os olhos. – Acho que nesse momento esse é o lugar mais seguro do mundo.
- Então não saia mais daqui. – Ed disse baixinho ao ouvido dela.
- Nem que você pedisse.
- Na verdade eu pediria para você ficar aí para sempre.
A.J. virou o rosto, as testas se tocando, fitando-se nos olhos.
- Você me salvou de novo não é Ed? A minha dívida com você não tem mais fim.
- Ótimo, assim você nunca mais sairá de perto de mim.
Ela ia responder quando a porta se abriu, os dois voltaram-se para a entrada dando com Bax e Al.
- Preocupei-me à toa Al. Olha só, os dois estão namorando. – Bax disse dando risada do embaraço da irmã e do Alquimista de Aço.
- Vem cá Bax. – A.J. chamou o irmão estendendo os braços.
O garoto foi correndo, queria manter-se forte, mas quase perdera a irmã, de novo. Estava ficando preocupado demais com ela.
- Você anda aprontando muitas ultimamente. – ele falou com voz abafada pelo forte abraço da irmã.
- Ei você não pode me culpar dessa vez. – ela retrucou com tom de riso.
Bax afastou-se para encarar a irmã.
- O que te deu na cabeça para entrar na mina, quando morre de medo de lugares fechados?
- A gasolina da moto estava acabando. E para falar a verdade quando percebi que o teto da mina estava vindo abaixo, me arrisquei a levar um tiro, mas não deu tempo. – ela falou tentando brincar.
- Não teve graça. – Bax resmungou encostando a cabeça de novo no colo da irmã.
- É verdade. Não teve mesmo. – concordou com ele, olhando para Ed por cima da cabeça do irmão.
FMAFMAFMA
A.J. estava parada à janela do quarto do hospital, na manhã seguinte, já pronta para ir para casa. Na verdade pouco saíra da janela. Tinha consciência que seu medo era infundado, o hospital não iria encolher sobre ela, mas explicar isso à sua cabeça não era uma tarefa fácil. Doutor Sheldon dissera que no começo seria mais difícil, mas que ela tinha que vencer seu medo, que se conscientizar de que lugares fechados nem sempre desabariam sobre sua cabeça ou se fechariam em torno de si. Soltou um profundo suspiro. Estava passando tempo demais no hospital.
- Suspirando por mim? – Ed perguntou ao entrar no quarto.
- Em seus sonhos. – ela respondeu dando risada.
Ele ficou alguns segundos olhando-a com um sorriso meio idiota no rosto.
- Que foi?
- Nada. – Ed balançou a cabeça fechando a expressão, tentando parecer o cara durão que ele não era em se tratando de A.J. – Pronta para ir para casa? Acho que a Ellen deve ter feito as suas comidas preferidas.
- Estou louca por um pedaço de pudim.
- Ah sim, faz um dia que você não come pudim. Realmente é de deixar qualquer um maluco. – Ed brincou com ela enquanto saíam para o corredor.
A.J. deu uma risadinha, que em nada parecia com suas risadas marotas. Ed pegou na mão dela e apertou, dando-lhe confiança. Ela olhou-o agradecida, não queria ficar dependente dele, mas nesse momento isso não era muito importante.
Quando os dois saíram pela porta da frente deram de cara com três soldados, Havock, Brosh e Breda esperavam-nos com expressões muito sérias.
- Pedimos desculpas pela nossa falha ontem, isso não voltará a acontecer. Estamos prontos para fazer a sua segurança A.J.
Ela fitou-os com um sorriso. Os três mal se agüentavam em pé.
- Que é isso meninos. Não foi culpa de vocês.
- Você é muito gentil, mas... – Havock começou a dizer, no que A.J. o interrompeu.
- Rapazes, eu sei que vocês fizeram o possível, mas que tal vocês voltarem para a cama? – ela falou apontando para o hospital.
No que A.J. falou uma enfermeira apareceu à porta fitando os soldados com expressão nada simpática.
A.J. e Ed ficaram observando-os com um sorriso.
- São bons soldados. – Ed falou dirigindo-se ao carro.
- Você ainda não me disse como me encontrou? – A.J. perguntou sentando-se ao lado dele.
- Ah, você vai adorar essa história.
Ed contou como Sam ouvira uma conversa de Ludwig com seu motorista, e que decidira tomar vergonha na cara e falar tudo que sabia.
- Então ele está preso no quartel. – A.J. disse ao descer do carro em frente à casa.
- E cantou como um passarinho. – Ed falou olhando-a por cima do capô do carro.
- Você não bateu nele não é? – ela perguntou estreitando os olhos para ele de modo suspeito.
- Claro que não. – ele respondeu desviando o olhar. – Agora só falta o Roy começar a trabalhar e pegar o Terceiro. Vou levar o carro na garagem, OK? Vai entrando. – disse mudando drasticamente de assunto.
A.J. ficou uns segundos observando-o se afastar, com um sorriso nos lábios. Ed era um péssimo mentiroso. Ficara feliz ao saber que Sam dera um jeito na vida e fizera a coisa certa, e triste ao mesmo tempo por saber que ele ia ter que pagar por estar envolvido com Ludwig. Roy havia voltado de Tula com o prefeito, e o homem já dera seu testemunho em favor de A.J. O único porém, era que Lud estava desaparecido, juntamente com Brahms, seu motorista e cúmplice.
- Eu disse para você entrar. – Ed gritou, ainda um pouco longe quando a viu parada no mesmo lugar.
A.J. acenou sorrindo para ele, quando algo passou veloz por seu braço atingindo-a. A surpresa foi tão grande que ao menos sentiu dor. Viu Ed correndo em sua direção e jogando-se em cima dela, em seguida ele uniu ambas as mãos pousando-as no chão e criando uma barreira sólida para protegê-los, bem no instante em que mais projéteis vinham em sua direção. Agora A.J. se dera conta de que alguém estava atirando neles.
- Você está ferida? – Ed perguntou. – Droga! – ele exclamou ao ver o braço que sangrava profusamente. Rasgou um pedaço da camisa e enrolou no ferimento acima do cotovelo.
- Você viu quem foi? – ela perguntou fazendo uma careta quando ele apertou o curativo improvisado.
Ed nem respondeu, mais preocupado em encontrar de onde o tiro viera, não poderiam ficar ali por muito tempo.
A porta da casa foi aberta, aparecendo Bax e Al.
- Não saiam. – Ed gritou, ao mesmo tempo em que a porta foi metralhada com várias rajadas, mas Al teve reflexos rápidos, conseguindo puxar Bax bem em tempo.
- Vocês estão bem? – Al perguntou.
- Sim. Liga para o exército. – Ed gritou de volta.
- Vamos ficar aqui até eles chegarem? – A.J. perguntou a Ed.
- Se eu soubesse onde ele está. – Ed disse mais para ele mesmo.
A.J. agarrou-o pelo braço virando-o para si.
- Será que dá para responder quando eu pergunto? – perguntou brava.
Ed olhou-a tão sério, os olhos pareciam em chamas, que A.J. assustou-se.
- Se eu olhar para você agora eu vou ficar mais irado do que eu já estou, e posso até acabar matando quem está atirando na gente. Preciso manter a calma, para descobrir onde ele está, e você não está ajudando.
A.J. ficou confusa por um instante, e irada no seguinte.
- Você está bravo comigo? Tem um cara atirando na gente e você está bravo comigo? – reforçou ainda mais o que disse apontando para si mesma.
Ed quase sorriu, quase. Segurou-a pelos ombros, tomando cuidado com o braço ferido dela, e encarou-a nos olhos.
- Estou bravo com o que fizeram com você. – disse olhando para o curativo já todo sujo de sangue. – E é por isso que não posso olhar para você neste momento. Eu posso acabar virando um assassino frio e cruel. – falou soltando-a e voltando a procurar de onde vinham os tiros.
A.J. ficou parada durante alguns instantes analisando o que ele dissera. Olhou-o de costas para ela, tenso e agitado procurando o atirador, devagar aproximou-se e passou o braço bom pelo pescoço dele e disse baixinho em seu ouvido:
- Estou me acostumando a ser protegida por você. Gosto disso... Amo isso. – completou.
- Ah mulher, vai ter que ser mais específica depois.
Ela apenas deu risada, e foi cortada bruscamente quando mais um pedaço da barreira que os protegia foi despedaçada.
- A.J. quando eu disser já, corra para a porta.
- E você?
- Já encontrei nosso atirador, não se preocupe, vou fazer um arco e flecha ou algo parecido para atraí-lo. – Ed falou.
- Por que você não usa isso aqui? – ela perguntou tirando uma arma do cós da calça.
- Onde você conseguiu isso? – ele perguntou surpreso.
- Não saio sem ela já faz um bom tempo.
- Grande garota. – ele falou dando-lhe um beijo nos lábios e pegando a arma.
- Isso significa que eu sou grande em altura também? – ela não resistiu em perguntar.
- De jeito nenhum. – ele falou já fazendo mira. – Prepare-se.
Ela acenou que sim, confiava cegamente nele.
- Já.
A.J. levantou-se e saiu disparada em direção à casa. Ed ao mesmo tempo atirou, e saiu correndo na direção contrária de A.J., pois seu tiro fora certeiro.
Mas o que Ed não previra é que havia dois atiradores. A.J, já chegava aos degraus da escada que levava à porta quando foi atingida de novo, o tiro acertou na perna, derrubando-a.
- A.J. – Baxter que viu tudo por uma fresta na porta, gritou ao ver a irmã caindo e arremessou-se em sua direção.
A.J. tentou levantar-se, tentou gritar para que o irmão não viesse, tentou evitar o que estava para acontecer, mas parecia que a mão do destino já estava em ação. Ouviu o tiro. Viu Baxter caindo lentamente de joelhos, uma mancha vermelha se alastrando rapidamente em seu peito. Nunca soube como conseguiu forças para ultrapassar a dor, mas ergueu-se correndo até o irmão em tempo de pegá-lo antes que caísse ao chão.
- Baxter. – chamou horrorizada. – Baxter! – gritou.
O atirador sorriu malignamente, o tiro não acertara A.J. fatalmente, mas a vingança já valera a pena. Cuidaria dela outro dia, pois nesse momento seria perigoso continuar ali. Vários carros com soldados do exército estavam chegando. Ao longe ele viu o baixinho Fullmetal prendendo seu comparsa. E os gritos agoniados de A.J. eram música para seus ouvidos.
A.J. deitara Baxter no chão e apoiava ambas as mãos no peito dele, enquanto o chamava pedindo, implorando para que ele agüentasse.
- Bax, irmãozinho, você precisa ser forte. A ambulância já está chegando. Agüenta.
Al de pé ao lado dela tinha lágrimas nos olhos.
- A.J. – Bax sussurrou.
- Não... Não fala. Fica quietinho. Vai ficar tudo bem. – ela disse segurando as lágrimas.
Baxter deu um sorriso para a irmã, queria ter ajudado mais, queria tê-la protegido mais.
- Promete... Promete se cuidar. – ele pediu com voz fraca.
- Não... – A.J. quis falar, mas não saiu nada.
- Promete... Não... Se meter em tantos... Problemas, e... Não desistir. – ele ofegava no esforço de falar.
- Bax...
- Promete.
Ela acenou que sim. Não conseguiu falar.
- Sinto... Não ficar com você.
- Bax... Não me deixa sozinha.
- Você não vai ficar sozinha. – ele disse baixinho olhando por cima da cabeça dela.
Ed ajoelhou-se ao lado de A.J., acenou que sim ao garotinho que entendeu que ele não sairia do lado da sua irmã.
Lentamente ele fechou os olhos.
- Não... Não... Bax... Baxter. Não faz isso comigo. – A.J. pedia desesperada. – Não... Por favor Bax, não faz isso comigo. – ela murmurou em prantos com a mão no peito dele, mas este não mais se movimentava.
Ellen parada à porta da mansão colocou a mão na boca para não gritar ao ver o garotinho todo ensangüentado caído no chão. Al foi para o lado dela passando um braço por seus ombros.
- A.J. – Ed tocou-a no ombro, mas ela não sentiu.
Roy e Riza parados mais atrás observavam a cena, chocados.
- A.J. deixa que eu cuido do Bax. – Ed pediu.
Ela acenou que não, pegou o irmão nos braços e tentou levantar-se, mas não conseguiu, ferida no braço e na perna teria sido impossível, mas Ed ao seu lado a ajudou e juntos os dois levaram o garotinho para dentro da mansão.
Continua...
N.A.:
Eu sou tão má... Já faz um tempão que eu escrevi essa cena final, mas hoje relendo, revisando, nossa... Como eu sou má... Snif... Mas, sem morte não seria FMA, um draminha tem que rolar.
Espero que vocês tenham gostado, não que a morte tenha sido legal, longe disso... Mas antes um que outro... E fica quieta, essas mãos que não param de digitar...
Bom, eu gosto desse capítulo... Acontece tanta coisa... É tão fofo A.J. e Ed dando-se conta de que um precisa do outro... Eu gostei do romance desses dois, vai ser difícil escrever outra história de FMA sem a A.J., isso se eu escrever outra história de FMA, claro.
O pânico da A.J. por ambientes fechados, foi uma fraqueza que eu resolvi colocar, eu tenho a mania de fazer minhas personagens femininas meio heroínas e perfeitinhas demais na coragem e força, não sei se deu para aliviar...
Os nomes Asdrulba e Aristilda foram sugeridos pela Marjarie, valeu mana, são bem engraçados...
Obrigada pelos reviews pessoal.
Patilion, Amanda, Uzumaki-Kagome, Danilo, Letícia, Lyka Nightmare...
Beijos a todos que leram, mas tiveram preguiça de comentar...eheheheh...e a todos os reviews até aqui...
Agradecimentos especiais a Bruninha(Yoru), que eu ainda não me perdoei por esquecê-la em SB3... Sou uma amiga muito desnaturada.
Até o próximo.
"Rô"
