Guerreiros
A guerra iniciara-se enfim. Não era um fato feliz, porém agora não precisavam mais sofrer com a expectativa da espera. O dragão destruía tudo em seu caminho, levando tempo e flechas demais para derrubá-lo.
Lutava, não apenas para salvar a própria pele, mas porque desejava, do fundo do seu coração, que sobrevivesse. Não se importava com o destino dos vikings, ou com o seu próprio, apenas esperava encontra-lo uma última vez.
Tinha a certeza de que muitos morreriam dos dois lados, e entristecia-se em pensar que fora ela quem realmente começara tudo aquilo. Talvez sua mãe conseguisse pensar em algo, talvez encontrasse uma saída que não envolvesse entrar em combate, porém ela não conseguia ver outra saída, ainda mais depois de ter iniciado a primeira baixa da tropa inimiga.
- Merida, tire os arqueiros das ameias, eles são alvos fáceis ali.
Duncan estava certo, mas na realidade todos eles eram alvos fáceis para os dragões. Como se defender dessas malditas criaturas poderosas? Como defender aqueles que lhe eram tão caros?
Recebeu um empurrão de Duncan quando outro dragão voltou a sobrevoar o local onde estavam. Precisava parar de pensar demais, assim ela não seria de grande ajuda para ninguém. Agradeceu o amigo com um sorriso e correu escada acima, voltando para o topo da muralha e organizando os arqueiros.
Poderiam não ser tão numerosos quanto gostaria e, com certeza, bem menos poderosos que os inimigos, contudo lutariam como uma única unidade. E se iam para o inferno, levariam a maior quantidade de inimigos possível.
- Ao meu sinal, ataquem os cavaleiros dos dragões que se dirigem aos portões! – os vikings pareciam considerar os arqueiros como o menor de seus problemas, os ataques ali diminuindo de frequência. Ah, faria com que os inimigos se arrependessem dessa decisão. – Agora!
As flechas voavam em um único ataque, atingindo cavaleiros e dragões igualmente. Sua força podia ser de apenas 15 arqueiros, mas ataques concentrados assim eram de grande valia, aumentando em muito seu poder de fogo.
As forças vikings que atacavam os portões precisaram se dividir. Após a queda de 2 dragões perceberam que não poderiam deixar os arqueiros livres para atacarem. A ruiva, percebendo que sofreriam uma represália rapidamente, ordenou que os arqueiros se espalhassem, abandonassem as ameias e se encontrassem com ela no pátio do castelo.
Desviou do ataque de espinhos do dragão azul de Astrid. Ah, como daria tudo para derrubá-la e seu dragão. Infelizmente não era hora, precisava chegar em segurança ao pátio do castelo e organizar nova incursão de seus arqueiros contra os vikings. A loira também era necessária em outra parte da batalha, seus olhares, porém, carregavam uma promessa de que ainda se enfrentariam antes do fim da guerra.
- Se abaixa! – Aidan gritou, já tendo preparado um grupo de guerreiros com lanças, prontos para finca-las na barriga dos dragões que davam rasantes sobre os arqueiros. Merida teve apenas tempo o suficiente para rolar em direção o amigo e torcer para que algum dragão fosse tolo o suficiente para cair na armadilha montada.
Ganharam tempo com o plano de Aidan, os dragões evitavam as pontas das lanças como se soubessem o que esperava por eles. Levantou-se e assentiu para o amigo, enquanto voltava sua atenção para seus arqueiros. Perdera cinco companheiros no ataque, que logo foram substituídos.
Novamente, com sua pequena força, a garota fazia ataques rápidos, derrubando inimigos e desfazendo seu grupo ao final de cada ataque.
Ouviram quando os portões foram destruídos. Escutou o pai gritando para sua tropa se organizar e desesperou-se. Queria correr para o lado do pai, ajuda-lo em sua luta, entretanto não havia como. Precisava correr e esquivar-se dos ataques que estava recebendo.
Agora era Wee que a salvara. O rapaz, em um acesso de fúria lutava contra vikings que perderam suas montarias, recebendo a atenção de muitos inimigos que estavam próximos. Vendo que o rapaz estava em desvantagem numérica, usou suas últimas flechas para ajuda-lo. Conseguiram, juntos, derrubar os inimigos ao seu redor.
- Obrigado, Rida.
Sorriu de lado, aceitando o rápido momento de paz para respirar fundo e descansar um pouco os músculos doloridos. Já não saberia dizer há quanto tempo lutavam, a guerra parecia se arrastar a horas. Olhando o sol, ele se aproximava lentamente de seu zênite.
- Agradeça-me quando vencermos, Wee. Cuide-se. – e recebendo um aceno de concordância, começou a correr para a casa de guarda. Precisava de mais flechas, tendo apenas duas em seu alforje. É claro que não esperava ouvir aquele urro característico vindo dos portões.
Encarou, incrédula, quando Banguela e Soluço abriam um campo entre as duas forças inimigas. O que faria se ele atacasse seus conterrâneos? Seu pai? Ignorando suas necessidades, correu o mais rápido que suas pernas e os campos pontilhados de corpos permitiram. Aproximou-se dos portões estraçalhados e encarou a nova cena que se desenrolava à sua frente.
- Merida, vá para dentro, aqui é muito perigoso.
Seu pai mal lhe lançara um olhar, estava com o ombro sangrando onde um espinho dos dragões o acertara. Havia cortes por todo o seu corpo, mas seus olhos... Seus olhos ainda brilhavam com todo o ímpeto escocês, desejava voltar logo para a batalha, porém o fogo azul de Banguela o impedia.
Encarava Soluço e Banguela. – Não, pai. Se você está aqui, eu estarei ao seu lado. Afinal essa guerra é minha responsabilidade.
Podia sentir quando o pai se encheu de orgulho de suas palavras, mas não havia muito tempo para aproveitarem um momento de pai e filha. Vikings continuavam tentando atacar, que fosse Soluço ou que fossem escoceses, eles não se importavam.
- Saia da frente, Soluço!
- Não, pai! – desviou do ataque do dragão do pai e voltou a parear os ataques dos seus conterrâneos. – Não percebe que essa luta não tem sentido?
- O que diabos esse viking está fazendo? – podia escutar os escoceses tensos e admirados com a coragem do rapaz. Não era qualquer um que enfrentaria um exército viking. – Aproveitem para tirar os feridos da linha de frente.
Enquanto mantinha os olhos na discussão à sua frente, Merida percebeu que seus companheiros de batalha não perderam tempo em pegar os feridos e leva-los para dentro. Aparentemente a luta estava estática, os inimigos pareciam esperar o resultado da discussão na linha de frente para voltarem a atacar.
- Deveríamos aproveitar a brecha nas defesas dele, Fergus.
- Boa ideia MacGuffin.
Estava tão concentrada em ter certeza que Soluço estava à salvo que mal percebeu a mudança das tropas ao seu redor. Quando viu que elas avançavam, desesperou-se. Correu na frente dos lutadores e se postou nas costas de Soluço, arco pronto para atirar e mirando firmemente no peito de seu pai.
- NÃO! Vocês não vão ataca-lo! – tinha a voz embargada e os olhos ligeiramente brilhantes.
Fergus a encarava com um misto de decepção e curiosidade. – Merida, o que você pensa que está fazendo?
Lançou um tiro de aviso quando um outro combatente tentou se adiantar. Não deixaria que ninguém machucasse Soluço. Ninguém.
- Rida, o que diabos você está fazendo aqui? – Soluço a encarou com um sorriso de lado nos lábios – Isso tudo é medo de me perder?
- Foi você quem disse, não eu, viking. – e sorriu pequeno, ainda concentrada nas forças escocesas – Qual a brilhante ideia, Soluço? Conseguir abrir caminho na conversa?
- Era um bom plano... – e voltaram a se defender das duas forças inimigas – Mas estou aberto a sugestões.
- Merida! Por que você o está protegendo?
Era a hora da verdade. Seriam capazes de impedir essa guerra? Ou ao menos o restante da matança? Lançou um último olhar para Soluço e piscou um dos olhos.
- Porque eu o amo, pai. – mais sentiu do que viu o choque que suas palavras tiveram nos dois lados da batalha – Soluço está certo. Essa guerra não tem sentido, somos mais parecidos do que imaginamos e eu estou disposta a tentar a paz. E você?
Fergus pareceu realmente atônito, tentando entender o que as palavras de Merida podiam significar. Mas enquanto os escoceses permaneciam parados, vikings se remexiam não muito satisfeitos com o que viam. Era o seu "príncipe" sendo defendida pela princesa do reino inimigo. Era Soluço lançando um olhar apaixonado para a garota, com um sorriso imbecil no rosto.
- Ora, vamos lá. Vocês não podem estar realmente cogitando depor armas? – Astrid estava muito irritada. Não conseguia apenas assistir a declaração de amor dos dois passivamente.
Stoick havia abaixado sua arma e encarava os dois garotos no centro do campo de batalha. Era a maior demonstração de bravura que vira em muitos anos. E se lembrou do momento decisivo de quando passou a respeitar Soluço, não apenas como um viking, mas como o seu filho. Ordenou que sua tropa baixasse as armas e encarou os olhos verdes do filho. – Eu já estive errado antes e você nos mostrou a verdade, Soluço. Estou disposto a escutá-lo novamente.
E foi então que Astrid perdeu o controle. Ordenou que Tempestade atacasse o casal, já não se importando com quem seria ferido. Merida viu seu movimento e empurrou Soluço da frente dos espinhos lançados.
- Isso é mau, isso é muito mau. – Fergus encarou suas tropas e os mandou recuarem para dentro do castelo. – Garoto! Saia daí!
Banguela já atacava a loira e seu dragão, sendo auxiliado por outros dragões e vikings. Soluço segurava Merida em seus braços, os olhos marejados. – Não ouse me abandonar agora, DunBroch.
- Soluço... – ela arfou, sentindo o urso tomando o seu corpo, a transformação acontecendo e torcia para que ele a deixasse ali, que se escondesse e esperasse que o monstro a deixasse.
- Eu não vou te deixar, Rida. – soltou a garota que se transformava, também não era suicida, não é mesmo? E permaneceu próximo. Conversava tranquilamente com ela, torcendo para que seu tom de voz e as palavras calmantes tornassem a transformação mais fácil ou, talvez, menos agressiva.
- O que está acontecendo, filho? – Stoick encarava a garota se transformando sem acreditar no que via. Seus homens ainda tinham as armas em mãos e estavam dispostos a proteger Soluço.
- Está tudo bem, pai. Não é nada de mais. – levantou as mãos para o urso marrom à sua frente. Era como conhecera Banguela tudo de novo. Se mostrasse que não queria o mal da criatura, talvez tivesse alguma chance, certo? – Ela só está com medo e machucada, não é, Rida?
O urso urrou, os espinhos ainda presos em seu ombro. Rosnava e encarava os vikings, procurando um meio de fugir dali.
- Isso é a garota? – Stoick deu um passo para a frente, o urso logo encarando e levantando-se para ataca-lo.
- Não Merida, aqui, preste atenção em mim. – em momento algum Soluço deixou de sorrir ou mudou seu tom de voz. Entrou na frente do pai e continuou apenas observando a garota-urso, tentando mostrar que não havia perigo.
Enquanto o rapaz continuava tentando encantar o animal enfurecido, os escoceses permaneceram observando a situação. Aidan sorria de lado, com certeza ele era a melhor escolha para Merida.
O urso acompanhava cada movimento do rapaz, rosnando e, algumas vezes, atacando o chão na frente dele, porém nunca próximo o suficiente para machuca-lo. Estava, de certa forma, tentando entender o que se passava à sua frente. E, pouco a pouco, a garota sentia-se mais calma, mais segura. Conseguindo manter a fera sob controle e acalmando seu coração.
Era como se ambos, escocesa e viking, estivessem dançando, controlando a fera a cada fala, a cada passo. Soluço se aproximava vagarosamente do animal, até que pôde tocar seu pelo macio, acariciar seu focinho e olhar no fundo dos olhos azuis de sua escocesa. Sorriu ao abraçar o pescoço do animal e senti-lo lentamente voltar a se tornar a sua Merida.
Fergus se aproximou com um tecido e o colocou sobre as costas do urso-menina. Nunca vira alguém conseguir alcançar sua filha dentro do animal, nunca vira tanta coragem antes, ao menos não em outra pessoa que não Merida.
A garota escondeu o rosto no pescoço de Soluço e ele riu de leve. – Eu disse, Rida. Muito mais fácil que um Fúria da Noite.
E ela o empurrou de leve, um sorriso em seus lábios. – Obrigada.
-x-
N/A: Olá queridos e queridas.
Eu sei, eu sei. Demorei séculos para postar esse capítulo (que ao meu ver não ficou tão, mas sou só uma autora perfeccionista que não consegue passar as imagens para o papel com tanta maestria assim), contudo, cá estou eu, postando!
Agradeço a paciência de todos que aguardaram por esse capítulo e espero que tenham gostado.
SIM! Eu sei que destruí a personagem da Astrid. Pode não parecer, mas eu realmente gosto dela, porém não consegui imaginar uma forma de Hiccup e Merida ficarem juntos sem deturpar a personalidade dela. Sinto muito por isso.
E, quanto ao final, não se preocupem. Sábado postarei um epílogo curto que contará como foi o final da guerra e o que aconteceu depois. Tenham paciência, e, sim, ele está quase todo pronto, então até lá estará postado.
Obrigada por acompanharem até aqui, de verdade.
E, Bubs, espero que esteja do seu agrado. Te amo!
Beijos da Tifa!
