John recebeu uma carta pela manhã da segunda-feira. Mrs. Thérèse Watson, como em dezembro e em setembro. Agora uma em março. Definitivamente era um padrão. Não era esposa, também não parecia alguém por quem o jovem doutor tivesse algum afeto, já que Watson suspirava antes de abri-las e nunca sorria durante a leitura. Papel caro, tinta cara, grafia caprichada demais, mas com muita força no papel; Mrs. Thérèse Watson não tinha o hábito de escrever. Tampouco era sua mãe, a mãe de Watson estava morta há muitos anos, assim como seu pai. Quem era aquela mulher? Considerando que a família Watson era notoriamente inglesa há muitas gerações e o nome do pai de John tipicamente inglês, Henry, também não diria que a correspondente de seu amigo fosse sua tia. Não deveria ser sua irmã, já que Dr. Henry Watson nomeou os filhos por Henry e John, não havia nenhum motivo para dar um nome francês a uma filha. Aliás, Watson nunca mencionara irmã nenhuma, não havia nenhum indício que tivesse uma.

Passou dois dias andando para um lado e para o outro da casa, relendo várias vezes o papel. Haveria algo de novo no que Thérèse normalmente escrevia? No almoço de quarta-feira, John finalmente pareceu ter se decidido se viajaria ou não – passara os últimos dias limpando sua mala de viagem e mexendo nas roupas do armário com um ar distraído. Sherlock decidiu surpreendê-lo. Achava graça nas expressões que ele fazia quando diante das deduções óbvias do colega.

"Sua madrasta finalmente o convenceu a visitar a pobre viúva, Watson?" O médico deixou de morder sua torrada e, abismado, encarou o detetive. Holmes se permitiu um sorriso de satisfação. O rosto de Watson lhe dizia que o palpite estava correto e Mrs. Watson era sua madrasta.

"Como…? Deixa para lá." Desistindo de escutar o processo dedutivo, Watson mordeu a torrada que pairava no ar. Holmes o esperou mastigar e engolir, sabendo que, após isso, seria recompensado por sua pergunta com uma narrativa potencialmente trivial. "Duvido que Thérèse se enquadre na sua ideia de 'pobre viúva', Holmes, ou que ela realmente queira que eu vá a Rosebush Manor, mas, de fato, foi a última carta dela que me motivou a tomar essa decisão. Tenho evitado aquela casa há anos e me alistar na guerra foi o ato extremo de fuga a que me permiti. Porém, infelizmente, fugir me fez abandonar coisas pelo caminho. Pretendo voltar à velha casa em Surrey não para visitar uma pobre senhora e sim uma pobre menina de quinze anos."

"Menina?" Indagou Holmes, curioso. O tom de voz de Watson indicava que havia muito mais debaixo do que dissera e, além disso, por que queria tanto se afastar da casa paterna a ponto de se alistar em uma guerra?

"Não a minha madrasta, claro. Minha irmã caçula, Elisabeth. Ela tem quinze anos agora e eu não a vejo desde o enterro do nosso irmão, há três anos. Ela era uma criança problemática, hoje é uma mocinha problemática." Então havia uma irmã! Curioso, extremamente curioso, que Watson nunca tivesse mencionado-a ou não tivesse pertences da menina. Seria filha do segundo casamento do pai?

"Problemática como, Watson?" O loiro cofiou o bigode cuidadosamente antes de responder. Com calma, com paciência, Holmes ia descobrindo pouco a pouco o passado de Watson.

"Louca, de acordo com as cartas de Thérèse. Fora de controle, agressiva, delirante." Por isso Watson fugira, fugia da loucura da irmã. Seria? Não. Os olhos de Watson indicavam que a loucura da menina vinha do mesmo lugar que sua fuga. O quê? O quê? Agora, Watson queria voltar ao lugar que o repugnava, ver como estava a irmã.

"E você parte ainda hoje para Surrey, suponho." Watson concordou com a cabeça. Holmes não queria se intrometer na vida do companheiro de apartamento, afinal, só moravam juntos a pouco mais de um ano, não tinha esse direito, mas queria ser convidado a ir também. Queria ver com os próprios olhos quem era essa Thérèse, como era aquela casa que parecia assombrar o médico.

"Sim. Holmes… eu não queria… não queria ser abusado, mas…" Teve de se controlar para não interrompê-lo, para não parecer extremamente animado com a perspectiva de invadir o que havia de mais secreto na vida de Watson. "Você iria comigo?"

"Claro que sim." E enxugou os lábios com o guardanapo, para que o pano escondesse o contrair satisfeito de seus lábios. Um caso. Um caso involuntário caíra em seu colo.

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A casa ficava em um imenso descampado, com colinas baixas aqui e lá. A relva crescia alta nos campos, com flores pequenas começando a anunciar a chegada da primavera. Um caminho de terra serpenteava o campo até chegar ao portão principal do terreno. Rosebush Manor era consideravelmente grande – nem de longe grande como Covert Fields, mas grande – com doze quartos de dormir; dois ocupados pelas moradoras, dois conservados como "o quarto de Henry Jr." e "o quarto de John" e oito quartos de hóspedes. Um terreno plano rodeava a construção, com um belo trabalho de jardinagem que, com a chegada da primavera, traria novo frescor à morada. Era uma construção imitando o estilo palladiano, quadrada, alta, pintada em cores claras e com colunas neoclássicas em sua fachada. Pequenas rachaduras nos degraus da escada e nas colunas indicavam que a casa já vivera períodos mais fartos do que aquele.

Uma criada gorducha os recebeu, espantada. A expressão de Watson ao cumprimentá-la indicava claramente que essa mulher não trabalhava lá na última vez que fora à casa paterna. Holmes aprovou a decisão do amigo de só mandar o telegrama avisando que estava indo meia hora antes de pegarem o trem. Ele desconfiava da madrasta, isso estava claro, e queria flagrá-la fazendo algo que nem mesmo Watson parecia saber o que era. Foram conduzidos para seus quartos – John foi alocado no quarto que ocupava quando garoto e Sherlock, o quarto azul de hóspedes – e avisados que Mrs. Watson os esperava para o almoço. Holmes analisou pormenorizadamente o quarto em que estava: observando como a roupa de cama cheirava a guardado, embaixo do suave odor de macela com que fora perfumada; como as janelas haviam sido limpas recentemente, mas a faxina não fora capaz de retirar a poeira que repousava há alguns anos ali; e, mais do que tudo, como as portas dos armários rangiam ao serem abertas. Mrs. Watson não recebia hóspedes há muito, muito tempo.

A sala que arrumaram para o almoço era pequena, aconchegante, decorada com quadros de paisagens que remetiam ao campo lá fora e possuía imensas janelas pelas quais se podia comparar os quadros com o terreno em si. Holmes observou a assinatura e as datas: eram de "Catherine Watson", em anos que iam até 1870. A expressão cheia de dor de Watson indicava que, sem dúvidas, foram quadros pintados pela mãe que amara tanto e perdera tão jovem. Holmes apertou seu ombro em solidariedade e Watson sorriu, triste. Ele entendia o que era observar as obras que a mãe deixara para trás.

"Ela tinha um jeito de trabalhar com as cores bastante fascinante, não acha?" Murmurou o médico. Holmes, que preferia muito mais as artes sonoras às visuais, apenas concordou, acreditando na palavra do outro. Eram quadros bonitos e isso era tudo o que ele era capaz de dizer sobre eles.

Sentaram-se um de frente para o outro na pequena mesa redonda que tinha três pratos esperando por alguém que começasse a comer neles. A menina era tão intratável que sequer podia almoçar com o irmão? Não chegaram a esperar três minutos até a dona da casa irromper no cômodo. Irromper é a palavra mais adequada visto que Mrs. Watson emanava uma energia tão intensa, tão arrebatadora, que Holmes sentiu-se violentado com sua presença. Ela não era incrivelmente bela e a energia que envolvia tudo no cômodo não era fascinante ou agradável. Thérèse era amarga. Coberta da cabeça aos pés de um amargor tão intenso que provocava expressões desagradáveis em seu rosto curiosamente assimétrico. Era uma mulher feita para o sol, com todas aquelas cores que deviam ter sido belas outrora, mas, por algum motivo, mantinha-se claramente reclusa naquela casa e distante de quaisquer prazeres humanos. Pouco mais velha do que John e Sherlock, aparentava ter murchado de uma hora para a outra no ápice da mulher balzaquiana. E estava furiosa com a presença deles dois naquela casa.

"Olá, John, é incrível tê-lo almoçando comigo depois de tantos anos. Achei até mesmo que esqueceu que tinha uma família." Ela falou baixo, em um francês pobre da região de Carcassone. Holmes esfregou as mãos uma na outra por baixo da mesa. Por algum motivo que sua intuição já identificara e sua racionalidade ainda não conseguira deduzir, Thérèse o fascinava daquele modo repugnante que sentia ao encontrar um assassino. Não. O tremor suave de seu estômago dizia que ela era ainda pior do que uma assassina comum. "E trouxe um amigo. É tão íntimo quanto Edmund era de Junior?" Watson contraiu o rosto, em um misto de desgosto e raiva. Sherlock se levantou e caminhou até Thérèse que, sentada ao seu lado, colocava o guardanapo no colo com afetação.

"Meu nome é Sherlock Holmes, madame. Há um bom tempo não me encontro em uma casa onde as pessoas se comuniquem em francês, mas podemos proceder assim se for de seu agrado." Ao invés de corar ou se incomodar ao perceber que Sherlock entendera tudo o que dizia, Thérèse sorriu e aceitou a mão que lhe era oferecida, apertando a do detetive com firmeza.

"É um prazer conhecer o homem que levou meu enteado a finalmente publicar alguma coisa. Quando criança, John escrevia o tempo inteiro, segundo me contou Henry, mas nunca nos deixava ler nada. Um Estudo em Vermelho é uma história fascinante, Mr. Holmes." Ela desviou o olhar dele e acenou para a criada que começasse a servir a refeição. Holmes voltou a sentar-se. "Moram juntos, então? Eu nunca imaginaria que você fosse tão parecido com Junior, John."

"Eu não sou…como o meu irmão." Resmungou Watson, em inglês, profundamente desconfortável. "E não vejo graça nenhuma em falar em francês, Thérèse." A morena riu, mastigando sua carne devagar. Apesar de toda a cena – porque era óbvio para Holmes que o comportamento de Mrs. Watson não passava de um teatro – era possível ver em seus olhos o medo de um animal acuado. Cada segundo que passava na companhia daquela mulher só aumentava o desejo de encontrar a menina, a pessoa que evidenciava todas as fissuras que os outros dois Watson remanescentes lutavam tanto para esconder.

"Façamos assim então, John. Cada um de nós fala na língua que melhor lhe aprouver. Eu fico com o francês, você com o inglês e Mr. Holmes…"

"Alternarei entre as duas por pura diversão. D'accord?"

"Oui." Concordou Thérèse, erguendo sua taça em um falso brinde e rindo mais uma vez.

"Mas eu não vim aqui simplesmente para visitá-la, Thérèse. Onde está minha irmã?" O medo apareceu com toda a força nos olhos dela, que se conteve para escondê-lo.

"Viajando. Andava muito adoentada e o médico recomendou que fosse à casa de sua avó, se recuperar. Sinto muito que tenha vindo até aqui e não consiga vê-la. Se tivesse mandado uma carta avisando com antecedência, eu poderia tê-lo informado disso, John."

"Viajando? Achei que tivesse dito na sua última carta que ela estava impossível de conviver com os outros, que você tinha de mantê-la trancada no quarto…"

"Isso foi semana passada, quando eu enviei a carta. Nesse final de semana, Elisabeth melhorou do espírito e um pouquinho da saúde e eu a mandei para a casa da avó. Viajou ontem mesmo." Mentia descaradamente. Holmes estava completamente fascinado com aquela mulher sem nenhum caráter. Sua voz não tremera enquanto falava isso e ela conseguira manter uma expressão relaxada e levemente entediada enquanto falava, mas cometera o erro de continuar segurando o garfo na mão direita e o tremor estava evidente. Mentia e tinha medo. Não contaria imediatamente para Watson que sua madrasta mentia, não até descobrir mais sobre isso.

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O dia seguinte amanheceu com os calores da primavera que se instalava no continente europeu. Sherlock andou até a janela e, por um breve momento, se perguntou o que fazia longe de tudo, naquele descampado tedioso. Nunca entendera como seus pais e Alex gostavam de morar no campo. Nesse ponto, ele e Mycroft eram mais parecidos. Embora Mycroft tivesse mudado para Londres para ficar solitário, recluso e isolado. Não gostava de teatros, nem nenhum tipo de arte ou convívio social. Afastou-se da janela. Outra coisa que não gostava no campo era que o levava a pensar na família e nas contradições internas dos Holmes.

Descobriu, ao descer as escadas principais, que Mrs. Watson mandara servir o café-da-manhã no jardim dos fundos, em uma mesinha de ferro fundido. Holmes estava certo em sua primeira impressão sobre Thérèse; ela ficava consideravelmente mais atraente sob o sol. Mais magnética e feroz também. Aquela mulher de pele morena tinha uma agressividade velada em cada palavra dirigida a Watson, em cada gesto ao servir-se, e mastigava como se destroçasse alguém. Tudo só ficava mais interessante.

Sentou de costas para o campo, de frente para a casa, porque queria meditar a respeito dos enigmas que os Watson lhe mostravam. Via os movimentos de Thérèse e John com o canto do olho, reparando com o fundo de sua mente que os dois se odiavam e tratavam-se bem por mera civilidade. Civilidade e subserviência, no caso de Thérèse, que continuava morando de favor na casa que era herança de John, e civilidade e culpa, no caso de John. Culpa por ter abandonado a menina?

Foi quando a viu. O susto foi tamanho que quase deixou cair a xícara de chá. Foi apenas por um instante, pois ela tombou logo após o contato visual, deixando apenas a marca de sua mão tão magra no vidro fechado da janela. Um instante e nunca esqueceria os olhos azuis arregalados de medo, os cabelos castanhos curtos demais, desgrenhados, a pele amarelada esticada como um pergaminho por cima dos ossos sobressalentes.

Levantou-se de um salto, sobressaltando ambos Watson.

"Meu amigo, Mrs. Watson mentiu deliberadamente para nós." Ele não conseguia parar de encarar a janela. No fundo, ansiava para que a menina se levantasse, estava preocupado com a possibilidade de ela ter se ferido na queda. Ouviu um barulho de engasgo e presumiu que fosse Thérèse juntando as peças. "Sua irmã está nessa casa. Em um quarto no terceiro andar." John levantou-se também, abandonando o garfo com estrépito em cima do prato.

"Leve-me até ela." Rosnou, agarrando o braço de Thérèse e forçando-a a se levantar. "Leve-me até ela, agora, Thérèse." A mulher foi andando ao lado deles, olhando o tempo todo para os lados como se buscasse um lugar para correr, para se esconder. Holmes queria que houvesse algum jeito de preparar Watson para o que veria. Nunca seria capaz de por em palavras o que dizia o rosto da menina. Com tanto medo, tanta dor e, ao mesmo tempo, parecendo sonhar algo doce. Ele tinha a ligeira impressão de que ela sorrira quando seus olhos se encontraram, antes de cair.

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As mãos de Thérèse tremiam ao abrir a porta do quarto de Elisabeth. John entrara poucas vezes ali, mas lembrava de que era um cômodo pintado em tons de amarelo suave e azul celeste; ouro e azul, correspondendo ao cabelo e aos olhos da menina. Tudo ali parecia restos de outra vida, como John tantas vezes vira em casas que as pessoas abandonaram com a guerra. As paredes do quarto estavam desbotadas, o chão não era limpo há muito tempo e um cheiro ácido no ar indicava que era comum que sua habitante vomitasse por ali mesmo e que ninguém limpasse os restos. Ficou tão impactado com o estado do cômodo que demorou a reparar na pequena figura caída junto à janela. Só a viu quando Holmes, agachado ao lado dela, murmurou: "Está respirando" depois de lhe tomar o pulso. O detetive a ergueu nos braços e depositou-a na única cama do quarto. Aliás, a cama e um minúsculo baú de roupas eram os únicos objetos daquele quarto que fora depenado por alguém. Onde estavam as belas bonecas com as quais papai presenteava Elisabeth? As joias? As fitas?

Andou até a cama e, ao sentar-se ao lado da menina desmaiada, percebeu que o colchão tinha um cheiro forte de urina. Olhou a irmã. Elisabeth era um farrapo de gente. Tão pálida que sua pele tinha a tonalidade de cera de vela, sendo possível vislumbrar a fina rede de veias sob ela. Mas a palidez de sua pele era o menor dos problemas da menina. Não havia nenhuma gordura em seu corpo, nenhum músculo ou tônus sob a pele. Apenas ossos escondidos sob uma tez envelhecida pelo excesso de magreza. Por algum motivo fora do conhecimento de John, seus cabelos estavam curtos como os de um menino, tosados de modo precário e sem nenhum método. Apertou sua mão para controlar o desejo de chorar.

As pálpebras dela estremeceram e Elisabeth despertou. Por pior que estivesse sua condição, o azul de seus olhos continuava fascinante, intocado.

"Pai…? Você veio me buscar…?" Dane-se o que iam pensar dele, John não podia mais segurar as lágrimas. Fazendo força para que a cena fosse o menos ridícula possível, ele beijou a mão imunda da irmã e acariciou seu rosto ossudo. Nisso, percebeu que havia um hematoma em sua testa, na linha do couro cabeludo. Sentiu vontade de matar alguém.

"Sim, querida, eu vim buscá-la. Mas eu não sou o papai. Você não está morrendo. Sou eu, John." Elisabeth pareceu desapontada. Por descobrir que não estava morrendo?

"John…? Mas você nem gosta de mim… Você nunca se importou comigo…" A culpa. Descendo pela espinha dorsal como gelo.

"Tudo vai ser diferente agora. Eu vou cuidar de você. Vamos morar juntos. Longe daqui, em Londres." A menina pareceu fazer força para compreender o que lhe era dito e, por um instante, ergueu ligeiramente a cabeça dos travesseiros.

"Ela nunca vai deixar." A direção na qual Elisabeth olhava e o fato de ter escolhido dizê-lo em francês não deixava dúvidas sobre quem seria "ela". John nem se deu ao trabalho de olhar na direção de Thérèse ao responder à irmã.

"Ela não tem que deixar nada. Comprarei as passagens de trem e partimos ainda hoje, Lizzie." Elisabeth sorriu como se não acreditasse em uma única palavra de John e voltou a dormir. Watson levantou-se e os três deixaram o quarto.

"Você não está falando sério, não é mesmo, John?" Thérèse sequer fingiu que se importava com a saúde de Elisabeth ou mascarava algum arrependimento. Em seus olhos, havia apenas fúria e desespero. "Não está pensando em retirá-la daqui nessas condições, não é? Você mora em um apartamento minúsculo, ela é uma menina doente que precisa de cuidados, e eu sou a mãe dela!"

"VOCÊ NÃO…" John parou de gritar, inspirou fundo e se controlou. Não agiria como seu pai, não perderia a calma, não seria agressivo com uma mulher, por mais que essa mulher não inspirasse nenhum respeito. "Você não tem o direito de dizer que é a mãe dela ou de achar o que é melhor para ela. Você mentiu para mim sobre a condição dela durante todo esse tempo, você tentou me impedir de vê-la ainda ontem e você quer que eu finja que eu não vi os maus tratos a que ela vêm sido submetida? Você quer que eu volte a agir como criança, que eu a abandone aqui? Não, Thérèse. Isso não vai acontecer nunca mais." Andou alguns passos para o fim do corredor, com o intuito de mandar algum criado ir à cidade comprar as passagens de trem e fazer suas malas, quando percebeu que havia uma coisa ainda mais urgente a fazer. "Melhor. Eu não vou embora, você vai. Chega, Thérèse. Saia da casa que minha mãe me deixou de herança, pegue suas coisas e parta ainda hoje."