A batida da lapiseira na beira com a espiral da apostila mantinha um ritmo constante nos últimos seis minutos enquanto as ultimas 12 linhas permaneciam em branco. O pensamento absorto do rapaz que mantinha os olhos fixos na janela que revelada a vista para o jardim já totalmente encoberto pela neve que caia vagarosamente, as ultimas duas semanas trouxeram o rigoroso inverno russo para St. Petersburgo mais cedo do que o esperado.

O suspiro seguido da respiração profunda entraram no contra ritmo da batida que cessou em seguida enquanto ele deixava a lapiseira cair sobre a mesa e desviava os olhos novamente para o caderno. Conclusões, por que sempre tao difíceis, divagou enquanto relia as partes iniciais do texto. Manteve-se absorto por um bom tempo antes de suspirar e começar a escrever, era melhor fazer algo logo do que passar o resto da tarde ali numa atividade que nem do colégio era, não entendia por que ainda se dispunha a ficar fazendo esses exercícios extra.

-Números são mais fáceis- murmurou baixo enquanto fechava a apostila e olhava para as fotos no

mural com um sorriso de canto.

Nana já havia lhe questionado algumas vezes do por que essas escolhas, apesar de varias fotos de momentos felizes achou que deveria ter as dos outros também, sorriu e olhou não vendo novamente nem um problema. Nem uma dessas pessoas lhe traziam pensamentos ruins ou lembranças ruins, pelo contrario cada um deles faz com que seus dias fossem menos complicados, as vezes o irritando, mas no fim fizeram muito a diferença.

A foto do fisioterapeuta o obrigando a fazer um atividade chata era talvez a mais cômica pela cara de Andrey, ele sempre o conseguia fazer rir mesmo nas piores situações. No canto oposto a foto da Terapeuta Ocupacional, devia ter uns 12 anos quando tiraram essa foto no consultório de Natasha, no incio achou a abordagem holística dela um tanto boba, mas os resultados que teve com o tratamento o fizeram entender que toda atividade tinha um grande motivo. Devia muito a essa dupla.

Entre essas fazendo um circulo no centro do mural estavam varias fotos, a primeira era uma foto da turma de quanto tinha 8 anos, tirada na semana em que começara a ter dificuldade para correr e que cairá na educação física e então o inferno começara. Em seguida fotos de todo as fases que passara durante os primeiros 8 meses ate uma foto que ainda se perguntaram quem tirara de logo depois do procedimento cirúrgico na UTI, de canto podia ver parte das costas da mulher de voz agradável que lia para a filha a seu lado, queria a encontrar um dia, agradecer por aqueles momentos de conforto que ela lhe deu tão indiretamente.

A partir dai as varias fotos com pai durante depois de ter retornado para casa, sorriu lembrando da expressão quase cômica de Kai quando falou que queria uma foto de Lilian para usar de tiro ao alvo, nunca teve vontade de perguntar que fim a " mãe" levou e ainda não tinha vontade. Suspirou afastando esses pensamentos enquanto olhava a foto no canto de baixo do par de ruivos, Sasha, do alto de seu 1,90 e de seus ombros largos abraçando seu padrinho, Tala não era de permitir que tirassem muitas fotos de si, e havia sido difícil conseguir essa, ao fundo podia se ver Bryan rindo da situação. Apesar do ruivo ser filho biológico de Tala, tinha o porte de atual marido do padrinho.

Do outro lado estavam Ele, Sasha e Ania com as blusas da Sky Volt com a bandeira russa em mãos no dia que foram definidos como equipe para o campeonato mundial. Relaxou os ombros enquanto voltava-se para o centro do mural e olhava a sua foto favorita, não era muito antiga, faria um ano em aproximadamente 2 meses, se não se enganava nana havia tirado essa foto na véspera de natal, única data festiva a qual Kai se dava o trabalho de fazer os empregados prepararem algo.

Era simples, não estava perto da frondosa arvore de natal, e poderia ter acontecido em qualquer dia, não importava que era um dia comemorativo ou algo do gênero o que importava era que era o único momento em que tinha um registo do pai sorrindo. Apesar de o ver fazer isso constantemente de forma mais discreta, nessa foto enquanto gargalhava podia ser visto um sorriso muito aberto nos lábios de Kai e um olhar de acalanto e doçura que não lhe pertencia normalmente.

Mikhail sorriu enquanto esfregava as cochas devagar, estava tão absorto nos pensamentos e lembranças que não escutou os passos firmes vindo em sua direção e foi surpreendido pelo abraço pelos ombros, mas o cheiro familiar de madeira e café fez relaxar após a surpresa arrancando-lhe um sorriso.

- perdido de novo nessas fotos?- veio a foz firme enquanto ele segurava os antebraços do pai sorrindo e relaxava a cabeça no ombro dele.

- Gosto delas, principalmente da do meio- disse vendo Kai fazer uma expressão de desgosto, não gostava de ter seus sentimentos revelados. - quase ninguém vai ver- disse fechando os olhos e respirando fundo enquanto o pai se desvencilhava do abraço devagar.

- Tudo bem- veio o tom semi derrotado enquanto ele puxava a cadeira do lado da escrivaninha e sentava-se ao lado do garoto. - Nana me disse que ficou o dia todo no quarto.- falou cruzando os braços e as pernas enquanto o garoto virava-se devagar na sua direção. - alguma coisa que eu deveria saber Mikhail?-

Os olhos verdes de Mikhail cruzaram com os violeta de Kai enquanto o garoto suspirava e colocava as mãos no colo.

- consegue me ler tao bem assim?- perguntou olhando para o homem de cabelos bicolores que de um sorriso de canto.

- acho que depois de tudo você é a única pessoa com quem tenho isso- falou dando de ombros e olhando para a janela em seguida.- mas não fuja do assunto.

Mikhail de uma olhada rápida para a estante ao lado do mural onde a Fenix de pelúcia remendada com cuidado pro Nana estava ao lado do livro aberto do barco pirata com seus respectivos bonequinhos arrumados em varias áreas. Não tinha por que esconder o que fosse do pai, já haviam passado por coisas difíceis juntos, mas as vezes sentia-se incomodado em ter que falar tudo que estava havendo mesmo pra ele, certas dores tendia a prender para si mesmo, já haviam tido uma conversa sobre isso, mas mesmo assim voltava a tender a isso.

Respirou fundo olhando para os olhos calmos de Kai e por fim falou:

- um pouco de dor, nada grave pai, acho que é o frio.- a resposta foi rápida e baixa fazendo kai balançar a cabeça negativamente ainda encarando a janela

.- Devia estar com um cobertor nas pernas.- disse serio por fim desviando a cabeça pra ele.

- Eu sei, mas não quis incomodar Nana ou Ivan. As mantas mais finas estão na parte de cima do armario, ate semana passada não estava me incomodando tanto com o frio a ponto de precisar.- falou desviando do olhar do pai sabendo que ia ser censurado pela atitude.

Kai suspirou e levantou indo ate o armário do garoto, alterou a pilha de cobertas em duas para deixar as mantas finas numa altura mais acessível ao filho, pegou a manta vermelha vinho e preto e levou para o garoto, ajoelhou-se e ajudou ele a enrolar as penas e abdômen.

- Isso não é incomodo pivete- disse serio enquanto levantava-se e bagunçava os cabelos do filho – incomodo é te ver de cama por bobeira.- disse serio enquanto sentava-se na cadeira novamente

- sinto muito.- suspirou com a cabeça baixa.

- Mikhail, achei que já tinha superado isso.-

- apenas não gosto de dar trabalho pai- disse num suspiro.- sei que é uma coisa boba, mas...-

- mas então que continue como uma coisa boba e não um bicho de sete cabeças.- disse serio enquanto suspirava.

- certo- disse vencido enquanto Kai deixava um sorriso de canto escapar e conferia o relogio.

- Creio que Nana já deve estar servindo o jantar, vamos aproveitar e já descer- disse com a mão no ombro do garoto.

- tudo bem- disse calmo.

- depois de comer quero dar uma olhada nas suas pernas, e não me olhe assim Mikhail, sabe que eu sempre me preocupo com você.-

- eu sei. - disse abraçando o pai que estava ao lado pelo abdômen

- agora, relaxe um pouco e vamos ir jantar- disse em tom brando – Posso?- perguntou colocando a mão na parte de trás da cadeira de rodas, Mikhail suspirou e confirmou com a cabeça.- garoto estressado, depois reclamam de mim- disse arrancando um sorriso do garoto de 16 anos.

Depois do jantar Mikhail estava com Kai no quarto, estava apenas de meias, cueca e camiseta de mangas compridas enquanto ele averiguava as cicatrizes das varias cirurgias que o rapas passara. O garoto não tinha puderes quanto ao pai sobre isso, achava ate que ele conhecia melhor cada cicatriz do que ele mesmo como dono do corpo.

- Seu joelho direito esta um pouco inchado- disse enquanto dobrava a perna magra do rapas devagar.

- meio dolorido desde ontem- confirmou suspirando.

- se não melhorar em dois dias me avise, e não me olhe com essa cara Mikhail, da ultima vez que ignoramos algo assim foram 3 semanas imobilizado depois de outra cirurgia- disse suspirando enquanto ajudava o filho a vestir novamente a calça do pijama.

- certo pai- disse suspirado, enquanto Kai colocava a mão em seu ombro.

- vai ficar tudo bem- disse suspirando enquanto sentava-se na beira da cama enquanto o garoto sentava-se apoiado na cabeceira.

- as veses acho que não- falou num tom cabisbaixo.

- eu também- admitiu calmo- mas foque-se em vencer o filho do Tyson- mudou de assunto repentinamente fazendo Mikhail balançar a cabeça negativamente, havia pego o pai "discutindo" com Tyson sobre isso na festa de ano novo do , no fim das contas a pressão estava sobre ele e Hakuro, mas não sabia se tinha condições de vencer o amigo Japonês.- mas por hora, é hora de dormir- disse enquanto o filho suspirava e acomodava-se em baixo das cobertas devagar.- quer que fique aqui?- perguntou olhando pra ele suspirando.

- tenho 16 anos pai, não 10.- sorriu enquanto abraçava o travesseiro.

- como se pra mim tivesse uma diferença- bufou acariciando os cabelos dele.

-imaginei- disse fechando os olhos enquanto ele apagava a luz.

- tenta não perder o horário amanha- falou levantando da borda da cama e dando um beijo na cabeça dele antes de sair.

Kai encostou a porta do quarto e encarou a placa bordada com o nome do filho na porta balançando a cabeça negativamente, aquela maldita porta já lhe causaram inúmeros sentimentos e não passava de um relés pedaço de madeira morta com um trinco. Durante 8 meses cada vez que se deparava ali era como seu coração frio era envolto por sentimentos diversos aos quais não estava acostumado.

Fechou os olhos, suspirou, os abriu encarando a placa novamente e virou-se para a esquerda rumando para seu quarto. Minutos depois sentado na cama inda com os cabelos molhados e somente com a calça do pijama encarou as fotos no criado mudo, uma com Mikhail pequeno, devia ter uns 3 anos nessa foto, sentado em seu colo quase caindo no sono, e a outra com o rapaz com 14 anos numa das ultimas internações, tinha dormido ao lado da cama segurando a mão dele e Nana aproveitou a ocasião para tirar a foto.

Suspirou e deitou-se encarando o teto por algum tempo, lembrava no dia que Lilian tinha aparecido gravida, refutou a ideia de ser seu ate o teste finalmente chegar, e ate pegar o garoto no colo pela primeira vez manteve-se a sentimental sobre o assunto, mas da primeira vez que esteve com Mikhail no colo foi como se aquela pequena forma de vida consegui-se instantaneamente o fazer reaver sentimentos que antes não deixava se aproximar. Respirou fundo e sentiu a culpa de não ter demonstrado isso corretamente ao garoto ate tudo chegar no ponto onde chegou, sempre amou Mikhail mais do que qualquer outra coisa, mas não sabia como fazer isso chegar ao garoto. Respirou fundo puxou o cobertor e tentou afastar esses pensamentos.

- No fim das contas, o único amor que consigo ter por alguém é fraterno- suspirou com um sorriso e fechou os olhos para dormir.

Bom, creio que possivelmente terminada...depois de 3 anos? ou 2...

bom, quando eu comecei essa fic nao tinha tido neurologia, então sei agora que a situaçao que eu coloquei o garoto era um tanto impossivel de ocorrer e menos de ser operada. mas fazer o que?

bom, ate a proxima... espero?