O som das ruas ficava distante conforme Jack se afastava da multidão, em direção ao porto. A grande fileira de barcos estendia-se até onde a escuridão permitia, ele caminhava apressado, saíra decidido da Taverna em que passara horas bebendo, e o motivo por sua repentina decisão aparecia agora diante de seus olhos.

Jack subiu a bordo do navio e avistou Lílian na proa, caminhou calmo até ela, sorrindo satisfeito, passou batido pelo casario fétido, e seguiu na direção a ela. Trazia consigo quatro garrafas cheias de rum, uma lembrança gentil, de uma das senhoras que trabalhavam na Taverna, não pôde recusar um presente dado de tão boa vontade. Parou a poucos metros de distancia da jovem, ainda virada na direção oposta, depositou três das garrafas que trazia ao chão, próximas a ele, enquanto destampava a outra que permanecia segurando.

–Ia esperar por mim a noite inteira, luv? – sussurrou no ouvido da jovem, enquanto ela parecia acordar de um longo transe com a chegada dele.

–Porque esperaria? Já imaginava que seu retorno seria pela manha junto de toda a tripulação, não tinha motivos para esperá-lo – Ela permaneceu séria, vê-lo entrando naquela taverna, sendo cercado por meretrizes a magoou profundamente, entregou-o as serpentes naquela tarde, todas sedentas por dinheiro e pela companhia do capitão, não quis lutar, não tinha armas para essa batalha. Manteve a tristeza longe, escondida junto da felicidade repentina que sentia pela volta dele.

– Porque não consegue viver sem mim! Aceite isso Lílian, permaneceu horas a fio neste convés vazio esperando por mim, remoendo-se de ciúmes pela minha ausência – Ele deu passos em direção a ela, oferecendo a bebida.

– Voltou para dizer isso? – Tentou desviar o assunto da investida de Jack, não quis mentir de novo, negando tudo que afirmaria de bom grado a ele. – Perdeu seu tempo Jack, não sou como aquelas mulheres.

–Eu sei que não, é exatamente por isso que voltei... –Jack puxou-a junto a si, abraçou-a, enlaçando seus braços na cintura delicada dela, enquanto a beijava profundamente, com a voracidade que seus instintos pediam. Ela respondeu com a mesma intensidade, não resistiu ao beijo, ao toque dele, passou a noite esperando por sua volta, por esse beijo.

Durante os minutos que se seguiram ele acariciou a face alva dela, olhava fundo em seus olhos, tão azuis quanto o mar, o mar que amava. Não disseram nada, apenas olharam-se por longos minutos.

–Você é linda, Lílian – Jack pensou alto, admirava seus olhos, os lábios rosados, as feições delicadas do rosto dela. Não conseguia naquele momento imaginar como ela era forte, como se mostrou decidida, aventureira, era apenas uma mulher, uma linda mulher que não saia se sua mente, o medo se misturou ao sentimento que compartilhavam naquele momento, a duvida que sentia, o medo por se perder da razão como tantos outros, como o próprio Will... Mas ali, olhando aqueles olhos ele simplesmente se perdeu admirando, não se importou com o futuro, teria ela ali por longos dias, mesmo que somente por esses dias.

– Disse isso a quantas hoje? – Ela não quis brigar novamente com ele, surpreendeu-se com o beijo, e ficou apreensiva, mas o desejava com a mesma intensidade que Jack.

–Muitas, mas você é a única da qual me permito lembrar o rosto, a que olho nos olhos, a que suporto diariamente.

–Devo levar isso como um elogio, Capitão Sparrow?

–Não mais do que esse... –Jack atirou a garrafa com o restante do rum longe, e deu um beijo doce em seus lábios, diferente do ultimo que exaltava seu desejo. Puxou-a pelo braço envolvendo-a num passionante beijo, enquanto levava a jovem em direção a cabine dela, não se separaram por um minuto se quer, apenas aproveitando o momento, envoltos na paixão que crescia em ambos.

– Jack, eu...

– Lílian eu acabei de jogar fora uma garrafa cheia de rum, sem reclamar, tudo por você, e desperdício não é algo que pratico com freqüência, então pare com esse interrogatório inútil. – Jack mantinha o tom de desespero na voz, já não se agüentava, Lílian era mais complicada do que imaginava.

Ela temia por continuar, seguir em frente com Jack significava não se importar com o amanha, apenas aproveitar o presente, sem cobranças depois. Mas as palavras dele a confortaram, sabia quanto o rum significava a ele, e vê-lo se desfazer de uma garrafa sem se importar, a deixou assustada, preferiu esquecer as preocupações. –Tem mais três garrafas ali no chão – Ela disse sugestiva, no pé do ouvido dele. Jack dividiu-se, avistou de longe as garrafas, brilhando, reluzindo na luz da lua.

–Eu já volto... Não demoro – Ele correu em direção as garrafas, Lílian sorriu, divertia-se cada vez mais com ele, entrou na cabine, esperando que ele voltasse logo.


Jack já voltava com as tais garrafas, quando um calafrio passou por seu corpo, olhou ao redor, mas não encontrou nada de estranho, até se deparar com certo par de olhos o fitando na escuridão.

– Você não muda nunca Jack. – A voz rouca, surgiu da escuridão, Jack olhava tudo desentendido com feições confusas, enquanto olhava o canto escuro sem entender do que se tratava.

O velho homem caminhou em sua direção, tinha a postura caída, era baixo, um velho conhecido dos mares, Jack reconheceu o velho companheiro de longe.

–Bootstrap! Não esperava revê-lo tão cedo... Há que devo essa sua visita inoportuna? – Manteve o sorriso desentendido pela visita inesperada dele, seu ultimo encontro não fora muito amigável – Mas me diga, venho aqui cobrar uma antiga divida, já esquecida, ou venho tirar o cheiro de mofo desse velho corpo cansado?

– Nenhum dos dois, Jack. Vim barganhar com você, algo de extremo interesse. – Ele sentou-se em um caixote, fazendo gesto para que Jack também o fizesse.

– Eu estou meio ocupado agora, odeio deixar domas esperando, então se seu filho se meteu em confusão novamente, ele que resolva sozinho. –Caminhou apressado de volta a cabine, já impaciente.

– Pensei que procurasse a água da vida. – Jack parou onde estava, os poucos passos que deu o distanciaram razoavelmente de Bill, ele esperou ainda de costas ao velho homem, curioso.

– O que sabe sobre a água?

– Muito mais do que imagina, você tem os mapas, mas eu tenho o caminho. –Jack virou-se novamente, olhou de relance a cabine onde Lílian o esperava, e viu o lugar se escurecer, sabia que ela ouvia a conversa, não muito contente. Voltou-se a Bill e sentou-se a frente do velho homem.

– O que me oferece?

– Sua ganância é sua maior fraqueza Jack... Quando soube que as cartas estavam em poder de Barbossa imaginei que você não perderia tempo, sabia que esse item em especial despertaria seu interesse, e como supunha você está saindo pelo mundo a fora a procura - lá.

–E qual o seu interesse nela?

– É a única maneira de desafiar o destino.

–Ah claro... Desafiar o destino, muito bonito, poético! – Jack levantou-se gesticulando com as mãos – Eu quero a água da vida, você quer a água da vida, Barbossa quer a água da vida, até Lílian quer a água da vida... Será que ninguém tem outro interesse? Pilhar cidades, roubar, ora vocês são piratas! Isso costumava dar certo antigamente.

– É um item valioso Jack. Desperta cobiça – Bootstrap permaneceu calmo, observando a cena que Jack protagonizava.

–Muita, como venho percebendo – Com o semblante emburrado ele voltou a se sentar, esperando que o outro prosseguisse.

–Como dizia, interessei-me pela história, e vim oferecer parceria. Viajamos juntos, o Holandês e esse navio aqui...

–O Holandês e o Pérola.

–Que seja, bem, seguimos juntos nessa busca, sei quem pode nos indicar o caminho, com precisão, ou próximo a isso.

–E quem seria? – A história tornava-se interessante para Jack, se tudo fosse de fato verdade, pouparia metade do trabalho.

–Lembrasse de Daíra, não?

–Daíra... Daíra... Ah sim, como esquecer, a vi essa noite, belas curvas... – Jack desviou a atenção até a lembrança dispensável daquela noite.

–Não, me refiro à cigana, já recorremos aos seus serviços algumas vezes. Preciso que vá até a ilha de Bonaire, nos encontramos em alguns dias, lá lhe dou as coordenadas certas de como chegar a casa dela, mas como sabe não poso acompanhá-lo até lá.

– Estou ciente de suas limitações físicas, mas porque concordaria com você? Acaba de me dar todas as informações que preciso o resto não deve ser difícil de encontrar sozinho, sua ajuda é o de menos no momento.

– Talvez porque meu filho é o capitão de um dos navios mais temidos no mundo

– O meu Pérola também é temido, e extremamente poderoso! – Jack tentava gabar-se, relembrando o Pérola.

– Mas a sua tripulação não é imortal, nem você é Jack. – O silencio reinou entre eles, Jack voltou a ter o semblante sério, enquanto pensava em algo, já Bootstrap sorria sereno, enquanto esperava pela palavra final de Jack.

– Bom, já que você insiste, eu aceito. Quando nos encontramos? – Jack parecia conformado aos olhos de Bill.

–Em breve, estão mais próximo chegaram rápido, dentro de alguns dias nos veremos de novo, assim lhe indico o caminho.

– Claro... Mas acredito que o jovem William não esteja ciente dessa sua iniciativa. Como guiará o navio até aquela ilha?

– Isso eu resolvo sozinho, esteja lá. Adeus – Levantou-se calmo, caminhou até sumir na escuridão. Jack olhava tudo abismado, o velho homem sucumbiu às sombras, no silencio, como um fantasma

"pelo menos a aparência melhorou".


Jack passou alguns minutos no mesmo lugar, sentado apenas bebendo, pensou em tudo que Bootstrap o tinha dito, principalmente da cigana a qual lembrou ter visto no passado.

Desviou o olhar a cabine da capitã, há horas a escuridão cercava o velho recinto. Lembrou-se do beijo, da conversa que se seguiu e por fim, da interrupção de Bootstrap. Bebeu o ultimo gole da garrafa e caminhou de volta a cabine, decidido a passar a noite lá.

Não encontrou dificuldade em entrar, Lílian não trancará a porta como imaginou que faria, adentrou já descalçando as botas, e desabotoando a camisa, aproveitando para olhar em volta. A cabine era bem ampla, organizada, limpa, pouco lembrava a sua no Pérola, na mesa de canto encontrou alguns papeis, eram anotações de viagens, cartas de navegação e livros referentes ao assunto. Jack não deu muita importância à mesa, abriu as gavetas procurando algo que importasse, mais não encontrou nada além de roupas, e alguns pertences pessoais da jovem.

Seguiu em direção a cama, um velho lampião iluminava com uma luz fraca o rosto de Lílian, ela dormia serena, sem perceber a presença que observava seus movimentos. Jack acariciou o rosto dela, deleitando-se com a imagem a sua frente, deitou-se cauteloso ao lado dela, apagou por fim, a pequena chama que iluminava parcialmente o ambiente, e adormeceu ao lado dela.


Bootstrap voltou rápido ao Holandês, não permaneceu mais do que algumas horas fora, por sorte encontrou Jack rápido, torceu para Will não ter notado sua ausência.

Conforme a noite avançava, mais deserto ficava o navio, a lua brilhava exuberante, assombrosa e bela. Encontrou Julia no convés, sozinha. Antes que pudesse falar-lhe, ela se virou encontrando ele próximo.

– Oi... Bootstrap, não é? – Ela assustou-se um pouco, não esperava encontrar mais ninguém aquela noite, era tarde, e aquela tripulação não parecia muito fã de hábitos noturnos.

– É sim, que bom encontrá-la aqui, preciso pedir um favor, em nome de meu filho. –Ele tinha a chance perfeita de falar com a moça sem que Will soubesse, a única que poderia ajudá-los agora.

– Minha ajuda? – Julia continuava desentendida, sabia que ele era pai de Will, mas falou muito pouco com ele nesses últimos dias, de fato, falou muito pouco com toda a tripulação, a não ser por Will, que fazia companhia a ela por grande parte do dia.

–Sim, como sabe o capitão desse navio não pode ir a terra, e com a entrada de Will não só ele, mas nós também fomos proibidos a pisar em terra antes do prazo de dez anos. Daqui há alguns dias precisaremos descer em terra, trazer informações, porém não existe ninguém aqui que possa faze-lo, então...

–... Eu seria a intermediaria.

– Exato. Preciso que me ajude, não posso depositar inteira confiança em piratas, talvez essa seja a única solução que exista para mudar esse destino tão inserto.

–Eu entendo o que quer dizer, e se é a única maneira, eu não vejo porque não ajudar.

–Obrigada, por ora não comente com ninguém, ainda preciso conversar melhor com Will, convencê-lo. – Ela concordou com a cabeça, ele sorriu meigo, e deixou-a no convés, enquanto caminhava de volta ao casario.

A conversa com Bootstrap deixou Julia um pouco inquieta. O homem mantinha mistério sobre os planos, não viu maldade em seus olhar, mas ele escondia algo grandioso, no qual agora ela também estava envolvida.


Olás!!!

Capitulo enorme esse(mais uma vez)

Peço desculpas a vocês, mas esse acabou saindo maior do que o previsto hehe...

Mais uma vez eu agradeço a todas que me mandam reviews Roxane, Mah, Dorinha, Paula e a Taty

Fico muito feliz com cada review que recebo XD

Bom, acho que agora a fic ta "desenrolando" de vez, mas personagens vêm por ai, mais tramas, respostas, enfim... Espero que gostem!

Bjokas! Até o próximo capitulo...