EPÍLOGO

O pequeno Sasuke berrava incessantemente, enquanto a corajosa Akageki passava as mãozinhas gorduchas em frente aos olhos, como se reclamasse da barulheira que o irmão fazia. Os dois tinham a mesma idade, então ainda não entendiam o que ocorria à sua volta. Para Sasuke, afastar-se do colo da mãe era como perder tudo o que lhe era conhecido e tido como seguro. Para Akageki, tudo era motivo de festa, principalmente quando saía a passear pelas ruas com o papai. Sasuke era, por outro lado, mais apegado à mamãe; era um garotinho sensível, bem mais introspectivo e tímido. Akageki era flamejante e curiosa, sempre metida nas piores confusões. Ela começou a se sentar com cinco meses e deu os primeiros passinhos com sete. Ele, agora com nove meses, apenas começava a se pôr de pé, comicamente caindo após alguns segundos.

— Oh, meu bebê. Acalme-se, acalme-se — disse uma voz fraternal, correndo até o pequenino que apenas começara a se aventurar. — Viu? Já passou.

Vocês devem estar pensando que esta é a mãe do garoto, mas, na verdade, é o pai. No entanto, na maior parte das vezes, o garoto o retrucava com uma rebeldia sem significado. Parecia que nomes carregavam, curiosamente, muitos aspectos da personalidade de seu dono; e, ao que tudo indicava, Naruto e Sasuke eram nomes antagônicos, mesmo depois de muitas vidas.

— Naruto, não deveria se intrometer tanto no aprendizado de seu filho. Não quer que ele cresça forte e determinado? — Disse outra voz, não menos fraternal, mas firme e resoluta.

Esta, por outro lado, era a voz da mãe. Ainda assim, quando o pequeno Sasuke caía, era a ela que ele recorria. O pai sempre ria dessa situação, pois sabia que era um orgulho tolo de criança. Sasuke chorava mais – e muito mais – do que Akageki, mas não era menos dotado de possibilidades do que a irmã.

Akage vinha de ruivo, que aqui significa a cor de cabelo da mãe de Naruto, e ki é o kanji que representa o amarelo. Um só nome com duas singelas homenagens. Akageki parece ter puxado o sangue quente e grande energia dos Uzumaki, lembrando, no rostinho gorducho, olhos expressivos e cabelinhos ruivos, os traços carinhosos e simploriamente belos de Kushina. Por outro lado, Sasuke puxara cabelos louros, deixando Sakura um tanto enciumada.

— Por que nenhum deles puxou minha cor de cabelo? — Ela perguntou, e Tsunade respondeu:

— Porque o seu gene é recessivo. Pensei que já soubesse disso — e deu um pequeno riso, enquanto olhava amorosamente para aquelas criaturas minúsculas e feinhas, que davam sua primeira espiada no mundo externo.

Naruto tentou agir como um pacificador, sugerindo que tivessem outros filhos até que viesse um de cabelos rosados. Mas a gravidez tinha sido tão difícil que deixou Sakura em dúvida. Todavia, era bem provável que se rendesse à vontade nos anos seguintes e que experimentasse ter outros filhos. Tinha a impressão de que, em algum momento, a sensação seria apenas boa e não boa e exaustiva. Ah, tornarem-se pais fora difícil; mas fora uma dificuldade saborosa.

O casamento de Naruto e Sakura havia sido um evento memorável na Vila da Folha. Ocorrera no topo do monumento dos Hokage, contando com seus melhores amigos e padrinhos. Do lado de Naruto, erguiam-se Shikamaru e Temari. Do lado de Sakura, erguiam-se Sai e Ino. Tsunade e Kakashi eram os padrinhos de Akageki. Hinata e Iruka eram os padrinhos de Sasuke. Se algum espertinho fizer as contas, saberá que Naruto e Sakura se casaram durante a gravidez; mas não saberá, contudo, que os herdeiros do Hiperativo-Número-Um-E-Cabeça-Oca e da Testuda foram mantidos em segredo até o quarto mês. Ambos haviam ficado muito envergonhados com como as coisas haviam fluído rápido, tendo de fato chamado as atenções de todos (mais do que de costume).

Ainda assim, todas as notícias, tanto o casamento quanto a gravidez, foram recebidas com muita pompa. O casamento, então, fora festejado por quase dois dias seguidos. A data coincidia com uma simbólica reunião entre Naruto e Gaara, tendo contado com muitos outros membros da Aliança Shinobi. Satoru, por sinal, desempenhava um excelente papel como líder da Vila Oculta do Redemoinho: em alguns lugares já era conhecido como Uzushikage. Também não escondera o romance com Hyuuga Hanabi, tendo causado muita comoção em Hiashi. Com isso, Hinata não teve escolha a não ser herdar o Clã Hyuuga, tendo como principal tarefa encontrar quem sucederia a linhagem principal e assumiria a liderança posteriormente.

Contudo, nenhuma data ou evento causou maior comoção do que a transferência do título de Hokage de Hatake Kakashi para Uzumaki Naruto. O céu estava claro e sem nuvens, com o sol reinando com imponência durante a tarde. Akageki e Sasuke eram gêmeos e os dois juntos não somavam dois anos nessa época. Naquele dia ficaram com os padrinhos Iruka e Hinata, permitindo que o chapéu fosse erguido aos céus pelo então Sétimo Hokage. A capa rubra com detalhes negros se elevava ao ritmo do vento, enquanto seus cabelos dourados refletiam o brilho furioso do sol. Uzumaki Naruto bradou:

— Se liga, pessoal! Eu não volto atrás com uma palavra minha: esse é o meu jeito ninja! — E todos gritaram juntos, saudando o novo Hokage da Folha, o Herói por quem tanto esperavam.

O dia pareceu passar bem rápido. No entanto, havia uma reunião que se fazia bastante necessária: era 10 de outubro. O mesmo dia em que Naruto regressara a Vila é o mesmo dia em que fora nomeado Hokage, sendo também seu aniversário e, infelizmente, o aniversário de morte de muitos companheiros. Dentre eles, alguém muito especial e imprescindível.

Naruto precisava que esse momento fosse reservado, então fez algo muito impróprio: deixou que um Kage Bunshin fizesse o discurso para si. Até então, acreditava que ninguém percebera a manobra, estando sozinho no Cemitério de Guerra construído na Folha. O mesmo lugar onde essa história teve início. Naruto caminhou entre os túmulos com certa leveza, depositando flores por onde quer que passasse. O de Jiraiya não ficava ali – estava para dentro da floresta, onde fizera um pequeno ritual uma vez –, então tomou nota de visita-lo em outro momento.

Mais adiante, em um túmulo bem destacado na multidão, demorou-se mais do que em qualquer outro. Havia cravado ali o símbolo do Clã Uchiha, qual significado não seria mais capaz de transcender as eras. Naruto sentou-se em frente a ele, com um singelo sorriso e uma comedida tristeza, enchendo um tímido copo de saquê e deixando a garrafa ao lado.

— Gaara e eu fizemos votos de irmandade, sabia? Se liga, eu queria que tivéssemos feito isso, também — ele sussurrou, como se falasse ao pé do ouvido de alguém. — Há tanta coisa para conversarmos, Sasuke. É uma pena que haja essa distância. Tudo que espero, então, é que você esteja feliz; e que aceite esses votos egoístas que faço sem a sua permissão.

Naruto brindou o próprio copo com o copo que supostamente pertencia a Sasuke, mas não bebeu. Deixou-os lado-a-lado, junto com a garrafa, dando a entender que aquela seria uma oferenda final. A principal de todas: um sinal de que a irmandade entre eles superaria todas as vidas que vivessem daqui em diante.

O Hokage perdera a conta do tempo que permanecera ali, sozinho. Não havia se passado muitos minutos, contudo. O problema é que sua esposa o conhecia bem, por isso não só sabia que o verdadeiro Naruto não se encontrava no discurso, bem como sabia onde encontrá-lo. Cá estava ele; e ela se sentou ao seu lado, sem tocá-lo ou falá-lo inadvertidamente. A primeira voz a se ouvir foi a dele, firme e segura, como se acabasse de ver a resposta para uma antiga pergunta.

— Se liga, acho que devia essa conversa, sabe? Sei que é comigo mesmo, mas é provável que ele tenha escutado — explicou Naruto.

— Sim, Naruto. Nós estamos ligados, não é? Soki é a prova disso. Sasuke-kun continuará existindo entre nós — Sakura ousou encarar o marido por alguns instantes, mas ele não fez o mesmo. Permanecia focado em algo invisível, ainda demonstrando mais certeza de tudo desde que havia retornado à Vila da Folha.

— É inegável como eles se parecem. A mistura entre Sasuke e Karin foi muito bem-feita, não é? — Sakura concordou. — E agora somos nós que estamos trilhando pelo mesmo caminho tortuoso. É inegável que dá para sentir muito medo.

Sakura deixou que o vento agitasse seus cabelos, sentindo o cheiro da grama lhe invadir. Havia tantas coisas felizes acontecendo na sua vida e tão pouco tempo para apreciá-las, que talvez fosse bom lembrar-se a que custo conquistara tudo aquilo. O túmulo de Sasuke era uma imagem amarga e pesarosa, sempre os lembrando que houve um caminho diferente no passado. Um caminho cujo destino permanece um mistério.

— Eu amo você, Naruto — Sakura suspirou. — Seria muito cruel da minha parte dizer que não queria nada diferente de agora? Nada diferente de você e eu e de Akageki e Sasuke? Que eu temo, mais do que tudo, que nós não estaríamos juntos se as coisas não tivessem caminhado para esse fim?

Naruto olhou para a esposa com uma expressão difícil de se decifrar.

— Acho que nunca saberemos a verdade, Sakura-chan. Mas eu entendo como você se sente, de verdade — Naruto respondeu e Sakura pode respirar aliviada, sabendo que o marido não a julgaria pelo pensamento obscuro. — Mas quer saber algo curioso? Se liga, se o Sasuke estivesse vivo e você decidisse tentar com ele, acho que eu permaneceria sozinho para sempre. Eu nunca me veria com outra pessoa senão você. Quero dizer, apenas você sabe como me tirar da cama nos dias que eu durmo além da conta. Apenas você sabe me chutar para fora do escritório quando eu excedo o limite de trabalho, e também é quem me enfia lá dentro quando eu faço menos do que deveria. Apenas você é capaz de me entender em momentos como este, já que ambos perdemos algo que era muito importante para nós no passado — e agora ele a olhava, como se admirasse o mais frondoso dos tesouros já descobertos no mundo. — Eu também a amo e isso não mudaria, qualquer que fosse o caminho adotado anos atrás.

Sakura sentiu os olhos marejarem, temendo que não conseguiria esconder suas lágrimas por muito tempo. Ela sabia que ele falava a verdade; e sabia, também, que ele não teria deixado a Vila se Sasuke vivesse. Teria ficado lá, encarando a possibilidade de Sakura perseguir um Sasuke que jamais seria dela, até que se tornasse o Hokage – como agora. Ele nunca desistiria dela, porque Uzumaki Naruto jamais voltaria com a sua palavra.

— Idiota. — Sakura resmungou e, então, puxou-o de volta para a cerimônia.

O Sétimo não poderia bancar o rebelde logo no começo de suas funções. Era hora de andar na linha; e ela teria certeza de que ele o faria.