Capítulo 7 – Ouro e prata
A luz se acende no ginásio, iluminando principalmente o ringue de boxe, ali colocado por uma paixão do pai, que foi passada ao filho, e que por coincidência é compartilhada pelo amigo. No ringue, já se encontravam Oliver Queen e Hal Jordan. Nove assaltos, sem luvas: era dessa forma que sempre treinavam.
Ollie desfere o primeiro murro, do qual seu adversário se esquiva habilmente. Hal contra-ataca com um direto, quase acertando o arqueiro. Os primeiros golpes sempre eram mornos e não representavam perigo para nenhum dos dois, mas bastava um deles acertar um "jab" mais forte que todas as regras eram abolidas. A partir daí, até chutes e joelhadas apareciam na luta.
O embate termina com Oliver caindo sentado no chão, de cabeça baixa e ofegante. Hal oferece a mão para que ele se levante e o arqueiro a aceita mostrando que não haveria ressentimentos pela derrota, como nunca houve entre os dois:
—Você andou treinando!
—Eu te contei, eu treinei em Oa com alguns dos melhores guerreiros do universo.
—E ainda assim, seus socos parecem os de uma menininha!
—Pode ser, mas quem está de bunda no chão?
—Foi sorte!
—Mas você acabou de falar que eu andei treinando, logo eu suponho que meu nível esteja acima do seu!
—Ora...seu...
Um dos empregados de Oliver entra no ginásio interrompendo a discussão:
—Senhor, Lex Luthor está aqui para lhe ver!
—Luthor? Pelo amor de Deus, manda esse cara embora! Fala que eu viajei, sei lá!
—Você viajou, Queen? Mas que estranho, e quem é o impostor que tomou seu lugar enquanto você está fora?—O homem entra no ginásio, como se fosse seu próprio: o sorriso e olhar desdenhoso irritavam Oliver de uma forma que mesmo Hal achava demasiada. O jovem homem careca, trajando fino terno, sempre pareceu ameaçador para Ollie, e por isso ele sempre o evitou.
—Vejo que educação não é o seu forte, Luthor!
—Por favor, me chame de Lex, "Ollie".
—Que tal se eu te chamar de "Aeroporto de pernilongos" e você me chamar de "Oliver"?
—Tão agressivo, tão indisposto a me receber...será que Wayne foi tratado dessa mesma forma?
—Ah, então é por isso? Bruce Wayne provavelmente lhe fez a mesma proposta que fez à mim, e você veio verificar se eu tinha aceito!
—Evidentemente. Uma parceria Wayne-Queen é deveras ameaçadora para a LexCorp.
—E por que você recusou a parceria Wayne-Lexcorp? Wayne não é muito confiável, mas você também não. Tem medo que o Babão Wayne te passe a perna, Lexie?
—De forma alguma, Ollie, mas eu tenho meus próprios planos para a LexCorp.
—Aposto que tem...
—O que quer dizer?
—Nada, se você não tiver nada a esconder. Mas você tem, Lexie! Todos temos nossos segredos, mas se os da sua empresa vazarem, você está ferrado, e por isso você rejeitou a proposta de Bruce.
—Eu rejeitei a proposta de Bruce, pois ela de pouco me valia! Como já disse, meus planos para empresa seriam atrapalhados caso eu tenha que conciliar meus interesses com os de outros.
—É melhor ter cuidado, Lex! Você é um mentiroso muito bom, mas eu soube que um morcego anda lhe incomodando! Talvez ele exponha suas mentiras.
—Oras, não me diga que acredita nessa fábula de homem-morcego? Ou nos tablóides que afirmam que ele interceptou um carregamento de armas com o logotipo da LexCorp? Nem tudo que está no jornal é verdadeiro, Ollie!
—Não mesmo, mas agora você terá que abrir mais o olho, ser mais cuidadoso.
—Hmpf, já disse que não tenho nada a temer. Se me perdoa, Oliver, eu tenho que resolver alguns assuntos!
—Sempre um prazer ver você, Lex! Você sabe o caminho da porta.
Luthor se retira, deixando um entediado Hal Jordan bocejando. Oliver pega uma toalha e enxuga o suor:
—Política! Se tem algo que eu odeie mais que criminosos é política! Deus me livre ter que me envolver com essas diplomacias.
—Eu acho que você seria um bom político, Ollie! Você tem a manha, a capacidade de mentir e a cara de pau! Se um dia se encher de combater o crime, poderia se candidatar a vereador, ou até prefeito de Star City!
—Não brinca com essas coisas não, sinto até náuseas só em pensar nisso! Bom, como anda a nossa busca ao "Lanterna Amarelo"?
—Coast City, nessas últimas semanas um suposto herói de amarelo tem aparecido por lá, eu ainda não o encontrei durante minha patrulha, mas sei que ele está lá!
—Ótimo, a Canário me ligou, já está recuperada. Vamos atrás dele!
—Ei, Ollie. Sem querer ser chato, mas...podemos mesmo confiar nessa garota?
Oliver não responde, apenas olha para o amigo de forma intimidadora, como se a pergunta tivesse ofendido um membro de sua família ou algo do tipo:
—Okay! Okay! Foi mal, Ollie! Eu só achei melhor ter certeza, né?
—Vamos atrás dele, Hal!—O arqueiro suspira, enquanto pendura a toalha nas cordas do ringue e se retira do ginásio, sendo acompanhado alguns instantes depois por seu amigo.
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Coast City
O Lanterna Verde voava em alta velocidade, perseguindo o brilho amarelo que tentava lhe escapar. O plano de Oliver tinha sido um fracasso total. De alguma forma, os três tinham sido separados e Hal tinha ficado sozinho contra Gardner, o que tornava o embate ainda mais difícil.
—Arqueiro? Está na escuta? Arqueiro?—Hal tentava contatar seu amigo, mas não tinha resposta, estava apreensivo. Será que alguma coisa tinha acontecido com Oliver?
—Hal?—Era Ollie, deixando Hal menos preocupado.—Hal, onde você está, seu idiota?
—Eu estou perseguindo o Guy! O que houve com vocês?
—Isso não é possível...—Hal escuta o Arqueiro resmungar, e logo um som de explosão chega aos ouvidos de Hal.
—Ollie? Ollie? Está tudo bem com vocês?
—Merda! Merda! Droga! Merda!
—Oliver?
—Eu fui enganado, Hal! De alguma forma, o amarelinho me fez acreditar que estava seguindo ele! Merda!
Hal continuava sua perseguição, em certo ponto, ele dispara com o anel, criando um muro na frente de Gardner, que é forçado a parar bruscamente. Hal percebe ele suspirar antes de virar em sua direção:
—Então, você veio pelo anel de Sinestro...
—Nós não precisamos fazer isso, Guy! Apenas me entregue o anel. Você ainda é um reserva da tropa, pra que desperdiçar isso?
—Cala a boca, Hal!—Guy cerrava os punhos com força, energia parecia soltar-se do anel junto com sua raiva.—Só porque Sinestro destruiu meu anel, eu tive que ser rebaixado à reserva, enquanto você continuou seu treinamento! Onde está a justiça nisso?
—Não cabe a mim decidir, Guy! Isso é coisa dos guardiões.
—Aqueles smurfs? Nem ferrando! Eu tomo minhas próprias decisões!
—Esse anel...Guy...
—Larga mão de ser pau-mandado, Hal! Você nem sabe o motivo de eu não poder usar o anel de Sinestro! Eu estou fazendo o bem com uma arma destinada ao mal!
—Eles devem ter seus motivos! Você quer realmente usar uma arma que pertenceu ao assassino de Abin Sur?—Guy abaixa a cabeça com o comentário. Lembrava de Abin Sur com respeito, como se ele fosse seu verdadeiro mentor.
—Continuo com meus ideais, Hal! Ser um herói, não importa com qual arma! Foi isso que Abin Sur me ensinou! E se você não consegue entender isso, eu só posso lamentar!
Guy dispara uma rajada de energia contra o Lanterna Verde, fazendo-o cair. Hal se levanta e parte para o revide. Os dois lutam com o empenho e a força de vontade que se deveria esperar de membros da Tropa dos Lanterna Verde. Guy não tinha a mesma experiência que Sinestro, portanto a luta não se tornava tão desequilibrada. Hal queria apenas dar tempo de que Ollie e a Canário Negro chegassem, para conseguir uma vantagem.
Oliver corria pelos becos, guiando-se pelo som para chegar ao local do combate, mas subitamente é derrubado com um soco no estomago. Ao erguer o rosto, vê o Homem Morcego de quem os jornais falavam. Ele era ameaçador, não era possível ver um milímetro sequer do seu rosto, e os olhos entalhados na máscara eram incisivos e nada amigáveis:
—O que você quer, morcego?—Oliver se levanta, armando uma flecha em seu arco, esperava o apoio de Dinah na luta, mas ela parecia ter se separado dele enquanto corriam.
—Eu tenho um interesse particular em ver o desfecho dessa luta, não quero que atrapalhe!
—O quê? Vai a merda, seu idiota! Isso não é uma brincadeira!—O Arqueiro tenta avançar, mas é impedido por um chute nas costelas.
—Não, não é uma brincadeira! Você devia saber disso. Não interrompa, não quero te machucar mais.
Oliver se levanta uma vez mais, as mãos na altura das costelas quebradas e o ego estraçalhado no chão. Ele ergue o arco, e o ponto atingido arde como se estivesse em chamas com a puxada da corda. Batman suspira e antes que Oliver pudesse disparar, ele desfere um soco no arco partindo-o em dois:
—Agora você desiste?
—Não me enche o saco!—Mesmo sem poder usar o arco, Oliver parte para a briga. Bruce dá um meio salto, somando seu impulso com a carga que Oliver impôs, atingindo o Arqueiro com uma joelhada no estomago.—Muay Thai?—Oliver pensa enquanto tenta recuperar o fôlego, Batman o atinge novamente dessa vez com um chute no rosto. Oliver vai ao chão pela terceira vez nessa luta, mas diferente das anteriores ele não se levanta:
—Que homem persistente.—Bruce contempla a figura de seu oponente caída, e não consegue imaginar a motivação que Oliver Queen achava para fazer o que ele acreditava ser justiça. Bruce então se ajoelha com a mão na altura do fígado, apertando o local, como se estivesse em dor:
—O quê? O que foi isso? Que dor infernal!—Batman tenta recobrar o fôlego, sabia o que vinha depois de um golpe forte no fígado. Ele remove rapidamente a máscara e vomita, novamente tentando recobrar o fôlego.
—O Arqueiro!—Bruce volta seu olhar para Oliver e percebe que ele ainda não tinha largado o arco, mesmo depois dos sucessivos golpes. A mente do morcego se põe a trabalhar e calcula que a distância do último chute e a posição em que se encontrava, batia perfeitamente com a distância que Oliver poderia alcançar com o que lhe tinha restado do arco. Mas isso seria impossível! O Arqueiro Verde não tem um décimo do treinamento que Bruce possuía! Como poderia ter lhe aplicado uma estocada certeira enquanto sofria um ataque?
Bruce poderia ficar horas pensando em como isso aconteceu, mas sua atenção verdadeira era a luta entre os detentores de anéis energéticos. Ele corre para um local onde pudesse assistir a luta bem escondido: Hal parecia em plena desvantagem, mas também não recuava um instante sequer. O Arqueiro e o Lanterna Verde. Que dupla perigosa eles poderiam se tornar!
Guy atacava com tudo e Hal defendia-se como possível. Num momento, Guy atinge uma seqüência de ataques com o anel, achando que assim poderia vencer seu adversário, no entanto, Hal tinha se deixado atingir, arriscando tudo na esperança de que Guy baixasse a guarda: e tinha funcionado! Hal aproveita e cria vários mísseis atrás de Guy, que o atinge com força, jogando ao chão.
"–Os dois tem métodos parecidos."—Pensa o morcego ao observar a estratégia do Lanterna. "—Ainda não passam de amadores, mas em momentos críticos, podem surpreender. Não posso subestima-los!"
Hal e Guy se levantam aos poucos, exaustos com o combate. A carga do anel de Hal parecia estar se esgotando, não pelo limite de vinte e quatro horas, mas pela intensidade da luta. O de Guy ainda parecia bem carregado, mas o usuário em si não parecia em ótimo estado.
Guy ergue lentamente o braço para atacar Hal. O Lanterna apenas poderia se defender e depois teria que dar um jeito para lutar sem seu anel. Quando o ruivo ia disparar, ele é atingido por uma flecha verde, sem ponta, que o envolve em seguida com uma espécie de rede. Hal olha para trás e vê Ollie em péssimo estado também, o arco destruído no chão e a corda com uma extremidade amarrada num poste e a outra num banco próximo a esse poste:
—Eu não imaginei que ia acerta-lo, a flecha era só pra distraí-lo!—Diz um espantado Arqueiro Verde.
—Sempre surpreendendo, hein Ollie? Que houve com você?
—Problemas com um morcego! Falamos disso depois. Agora eu quero arrebentar com o ruivinho aí que me enganou!
—Desculpa Ollie.—Hal envolve Guy numa bolha esmeralda, e levanta vôo.—Eu e o ruivo temos que conversar.
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—Você está muito bom nisso, Guy! Melhor do que naquela ocasião.
—Naquela vez eu era um novato tendo que me virar com uma arma que eu pouco conhecia, Hal. Eu tive muito tempo pra treinar.
—Guy, se você quiser, eu posso falar com os guardiões, digo que suas intenções eram as melhores quando pegou o anel. E ainda falo sobre suas habilidades, talvez eles deixem você voltar a ser um Lanterna de novo.
—Mas eu não quero ser um Lanterna, Hal!
—O quê?
—Com o anel de Sinestro, eu posso proteger a Terra o tempo todo, e não tenho que responder a nenhum idiota azul que acha que sabe de tudo!
—Você não vai facilitar pra mim, não é?
—Nem pensar Jordan! Quando nos conhecemos você não facilitou pra mim também! Fala pros anões que se eles quiserem o anel de Sinestro, eles que venham buscar com o herói de Coast City: Guy Gardner!
O ruivo parte, deixando Hal sozinho, o anel sem energia, e a cabeça cheia de dúvidas em relação ao papel que desempenhará como protetor do setor 2814.
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—Bruce! É Dinah! Responda!
—Que foi, Dinah?
—É que...o Arqueiro me contou que vocês dois lutaram?
—Ele suspeita de que você o perdeu de vista de propósito?
—De forma alguma, mas ele me disse que acertou um golpe forte em você!
—É verdade.—Bruce responde de forma seca.—Ele me surpreendeu, mas não vai acontecer de novo. Eu vou precisar de você em Gotham pelos próximos dois dias, talvez mais. Não vou poder lutar por um tempo.
—C-Certo...
A voz da mulher some pelo comunicador, deixando Bruce sozinho na escuridão da caverna, cheio de dúvidas em relação ao papel que desempenhará como cavaleiro da Liga das Sombras.
