OS PERSONAGENS PERTENCEM A STEPHANIE MEYER E A TRAMA A ROSEMARY ROGERS, A MIM, APENAS A LOUCURA DE ADAPTAR UM DOS MEUS ROMANCES PREDILETOS.


Bella acordou tarde no dia seguinte. Enquanto bocejava e se espreguiçava, deu-se conta de que deveria ser quase meio dia, pois estava quente e os raios de sol faziam uma enorme mancha amarela no chão, junto a janela. A janela! Sua testa se franziu ao lembrar da noite anterior – aqueles homens e mulheres horríveis com eles. Apesar de ter fechado a janela a ponto de quase sufocar com o calor, as vozes do quarto ao lado continuaram a lhe chegar aos ouvidos, fazendo com que ficasse horas acordada. E agora, quantas horas do dia já perdera?

Espreguiçando-se novamente. Bella se sentou na cama, percebendo que Sue saíra, deixando a janela aberta, felizmente com as cortinas fechadas.

Seus olhos estavam pesados e inchados, e quase cedeu à tentação de continuar dormindo, mas havia muita coisa que queria fazer naquele dia – sair explorando a cidade com Rosalie e sentar-se na praça sombreada por velhas árvores para ver o povo passar. Rose, delicada como sempre, devia ter resolvido deixá-la dormir até mais tarde.

Antes que a coragem lhe faltasse, Bella se levantou rapidamente da cama. Estava ansiosa por um banho, mas não havia tempo de mandar prepará-lo agora e, além disso, estava com fome. Talvez, se se apressasse, pudesse tomar café lá embaixo.

A maioria das roupas ainda estava nas malas, mas Sue havia tirado algumas peças, pendurando-as no pequeno armário do quarto. Despindo-se da camisola de seda, Bella prendeu os cabelos e lavou-se com a água da jarra que estava sobre a mesa. Um banho de esponja, afinal de contas, era melhor do que nada, e sentiu que ele a refrescara.

Escolhendo um vestido leve de organdi, que não estava muito amarrotado, Bella o vestiu e pôs-se criticamente no espelho. Seu tom bege, com pequenas flores verdes e vermelhas, combinava com sua pele pálida.

Certamente era moda ser pálida, mas preferia ter um pouco de cor em suas faces. Na França havia usado rouge algumas vezes, mas Rose a prevenira de que ali as pessoas eram mais convencionais. Olhando-se no espelho, Bella beliscou ligeiramente as fazes e ficou se mirando com ar serio. Se sua boca fosse ao menos um pouco menor, e a testa, mais alta! Ainda assim, não era um rosto todo mau, já lhe haviam dito que era uma beldade, o que, mesmo sendo um pouco de exagero, não deixava de ser gratificante. Acho que sou passável, pensou arrumando o cabelo no alto da cabeça e escovando uns cachinhos que lhe caiam pelo rosto e pescoço. Pelo menos tenho orelhas bonitas, pensou, e gosto desse tipo de penteado. Nada mais de coques lisos e austeros, imitando a imperatriz Eugenié. As mulheres de Paris estavam usando o cabelo diferente, e já não era impróprio deixar as orelhas à mostra. Bella mandara furar as orelhas, antes de deixar a França, e agora usava os seus brincos prediletos – pequenos pedaços de jade montados em abotoadoras antigas, de ouro, que haviam pertencido a sua mãe.

Afastando-se do espelho, Bella se dirigiu impulsivamente a janela e abriu as cortinas para poder olhar a rua. Já estava escurecendo quando chegaram no dia anterior e, sob a luz do sol, tudo lhe parecia diferente.

A claridade refletida na pequena varanda além da janela parecia tomar de assaltos seus sentidos.

Deve ser pouco mais de meio dia, pensou, protegendo os olhos. A rua poeirenta parecia brilhar na claridade excessiva, e não havia a menor brisa para refrescar suas faces. Acreditava que era o calor intenso que fazia com que todos se conservassem dentro de casa, pois não se via a menor atividade nas ruas. Os cavalos, presos aos postes que ladeavam a avenida, mantinham as cabeças baixas, alguns desocupados jogavam dados ou fumavam na taberna em frente.

A rua era larga, mas àquela hora, viam-se apenas ao longo dela, uma ou outra carruagem e algum cavaleiro solitário. Fora informada de que as diligências às vezes atravessavam as ruas de San Antonio, que era uma das cidades mais movimentadas. Nessa tarde, porém, parecia sonolenta e preguiçosa – calma demais.

De repente, chegarem-lhe vozes, através do ar quente e sufocante. Boa cidade para se ouvir a conversa dos outros, pensou Bella, e não pôde deixar de ouvir, devido ao tom tenso da voz que falou em primeiro lugar.

- Ele está na taberna, Laurent. Tem estado bebendo com aquela mestiça desde cedo. Quer que eu o apresse um pouco?

- Não – respondeu a segunda voz, num tom nasalado e monótono. – Se está bebendo, é porque está com medo. Posso esperar. Ele há de sair a qualquer hora.

A curiosidade fez que Bella se inclinasse um pouco, com cautela, para olhar para baixo. Três homens estavam na calçada, embaixo de sua janela, completamente alheios a ela. Um deles era alto e um tanto magro vestido como alguém do leste, de terno preto e um modesto chapéu-coco. Seus dois companheiros usavam roupas típicas do oeste.

O homem a quem haviam chamado de Laurent falou novamente.

- Conseguiu descobrir quem é ele?

- Não. Diz chamar-se Whittaker e veio naquela caravana de Louisiana.

- Parece que ele não usa pistola como um escoteiro – falou o terceiro homem. – Andei perguntando por aí, Laurent. Ninguém o conhece, mas andam dizendo que ele maneja uma arma para Barlow & Sanderson. Espécie de agenciador, viajando muito para todo lado.

Laurent emitiu um ruído curto que bem poderia ser um riso.

- Assim como eu, Rob. Acho que eu já o vi por aí, mesmo que o nome fosse outro. Não há nenhum aviso de captura contra ele, mas aposto que sua cabeça tem um preço.

- Então, o prêmio é seu Laurent. Você é o pistoleiro mais ligeiro que já vi, e acho que ele sabe disso. Não foi à toa que ele ficou tão quieto, ontem, quando você o provocou, não foi?

A voz do homem de preto soou de repente, aguda e perigosa.

O Sr. Brandon não gostou nada do jeito como ele atravessou o rio, com a diligência na frente do gado dele. Perdeu um precioso tempo com isso. Quanto a mim, não gosto do jeito como ele se senta… Tem certeza de que deu meu recado para ele?

- Claro Laurent. Você me viu entrar lá. Vai ver ele saiu pela porta dos fundos… Talvez não goste muito da idéia de encontrar você.

- Ele vai gostar menos, se eu tiver que sair procurando-o por aí.

Acima de onde os homens estavam, Bella permanecia imóvel, com a boca e o coração começando a bater descompassado.

O homem que eles estavam esperando era um dos que ela ouvira conversando na véspera. Que coincidência! Mas… Aqueles homens insinuaram que ele estava com medo, e não lhe parecera assim. Lembrou-se da fria determinação na sua voz quando dissera que ia matar Bluff. Esse deveria ser o homem que chamavam de Laurent.

O que iria acontecer agora? Será que haveria um duelo? Bella sabia que deveria fechar a janela. Esquecer tudo o que ouvira e descer para um lugar seguro. Uma curiosidade mórbida, porém, fazia que ela permanecesse onde estava. Nunca havia assistido um duelo antes, e seu pai lhe dissera que no oeste os duelos eram comuns. Quero ver como é, pensou. Estou segura aqui em cima, preciso descobrir. Será que ele vai sair da taberna? Ou será que fugiu mesmo?

O instinto lhe dizia que aqueles três homens que esperavam como aves predatórias eram matadores. Certamente estavam à espera de um homem que sairia andando da taberna ao crepúsculo e seria morto.

Não quero ver isso, pensou vagamente, olhando para a claridade na rua poeirenta. No entanto, alguma coisa a retinha ali. Precisava ver tudo – começo e fim.

Num movimento rápido, que a deixou atônica, Bella viu a porta da taberna se abrir. Dois homens saíram, parando na sombra da varanda.

- Mate-o agora, Laurent, enquanto os olhos dele ainda não se acostumaram com a luz… – falou um dos homens lá de baixo, com voz aflita.

Mas o homem de preto riu baixinho e debochadamente.

- Não preciso disso. Quero vê-lo sacar contra mim e que todo mundo comprove que sou o mais rápido.

Uma sensação de irrealidade tomou conta de Bella. Sentia-se quase como se estivesse assistindo a uma peça de teatro, no camarote. Viu-se olhando para o homem mais alto, que havia saído da taberna. Esse devia ser o que chamavam de Whittaker. Tinha se encaminhado para a beira da calçada, enquanto o outro que estava com ele dava um passo para o lado e ficava por trás. Atores tomando posição. Precisava se agarrar a essa ilusão!

Whittaker usava um chapéu preto, de copa rasa, puxado sobre a testa e sombreando os olhos, um colete de couro preto sobre uma camisa vermelha, e calças justas, num tom azul-escuro, enfiadas dentro de botas de cano alto. Trazia um cinturão, com o coldre da arma pendente dos quadris, do lado direito. Coisa estranha, ele não parecia ter medo. Estava de pé ali, à beira da varanda, numa atitude quase negligente, exceto pela mão, que acariciava o coldre da pistola.

Embora nada tivesse acontecido ainda, parecia pairar no ar uma espécie de silêncio pesado. Os passantes foram se dispersando, e um grupo de homens que conversavam mais acima na rua, virou-se para observar os acontecimentos.

O homem chamado Laurent deu alguns passos a frente, ficando onde Bella podia ver, sem ter que torcer o pescoço. Era alto, magro, de ombros curvados sob a jaqueta negra.

Sua voz ligeiramente nasalada soou fria e desdenhosa.

- Demorou a sair, Whittaker, se é esse o seu nome. Estava começando a pensar em ir buscá-lo lá dentro.

O homem que estava com Whittaker sorriu, como se estivesse ouvindo alguma coisa engraçada, e seus dentes brancos apareceram sob o bigode fino. Encostou-se à parede da taberna e começou a enrolar um cigarro.

- Volte aqui amigo. Não se esqueça que tem uma bebida para terminar.

Um dos homens que estivera conversando com Bluff riu nervosamente, mas Whittaker apenas encolheu os ombros e desceu a calçada. Começou a andar vagarosamente em direção ao homem que o esperava, e os saltos de suas botas levantavam lufadas de poeira a cada passo. Não desperdiçou gestos ou palavras, e Bella não pôde deixar de notar a graça quase felina com que movia seu corpo esbelto. Será que ele não ia parar? Não ia dizer alguma coisa? Havia algo de ameaçador na maneira como ele avançava, indolente e silenciosamente, e o outro homem devia tê-lo percebido, pois ficou tenso.

- Maldito! O que é que você…

- Bluff, estou andando. Você disse que tinha um assunto a tratar comigo. Faça o primeiro gesto.

A voz de Whittaker soava macia e quase desinteressada, como se as coisas não lhe importassem, de uma forma ou de outra, mas nem parou nem diminuiu o passo, e a distância entre eles foi se encurtando.

A principio, Bella pensava que o homem chamado Bluff era mais perigoso, mas agora mudara de idéia. Whittaker lhe parecia uma fera espreitando sua presa. Apesar do seu jeito displicente, ela podia notar alguma coisa extremamente perigosa nesse homem, e era óbvio que Bluff também o percebera.

Com uma praga entre os dentes, Bluff tomou a iniciativa, deu um passo para trás, de lado, enquanto sua mão desaparecia em direção ao coldre.

Bella deduziu que Whittaker também devia ter se movido. Quando ela se deu conta disso, horrorizada, ele tinha uma arma na mão e estava de pé, com o joelho ligeiramente dobrado, atirando. Pelo menos três tiros foram ouvidos, fundindo-se num ruído ensurdecedor. A arma de Bluff caiu antes que ele a tivesse usado. Parecia que o homem fora levantado e atirado para trás pela força assassina das balas que atingiram o seu corpo.

Bella se recostou ao patamar da janela, com as narinas ardendo devido ao cheiro de pólvora queimada e os olhos fitos, com uma fascinação mórbida, no corpo que jazia desconjuntado como boneco de molas na poeira, enquanto o sangue escorria pelos orifícios das balas no casaco preto.

Quase não se deu conta das vozes que flutuavam até onde estava e dos passos de pessoas que corriam.

- Meu Deus! Bluff nem sequer teve tempo de sacar a arma!

- Nunca vi ninguém sacar rápido assim, desde que nasci…

- É bom alguém ir chamar o chefe de policia, mas Bluff vinha pedindo isso…

- Se o chefe de policia quiser falar comigo, estarei na taberna, terminando minha bebida.

Como poderia uma pessoa que acabara de matar outra mostrar-se tão friamente desinteressada? Os duelos sempre tinham lhe parecido românticos, dramáticos, mas não havia nada de dramático ou nobre naquela cena, mesmo quando fechava os olhos, via o corpo sangrando, estirado no chão.

Doente de revolta, ela saiu cambaleando da janela e se atirou na cama, lutando contra as ondas de náusea que a assaltavam.