VII

Kanon abriu devagar os olhos azuis. A primeira coisa que sentiu foi o cheiro de framboesa que havia permanecido no quarto e... o cheiro de Saga. Virou para o lado, a mente ainda turva de sono, e viu seu gêmeo nu, de bruços, ainda dormindo, seus cabelos um tanto quanto despenteados.

- Hum... pra Saga não ter acordado é porque nossa noite foi... bem...

Olhou o relógio e então... deparou-se com a verdade.

- Dez da manhã!! Saga! Saga, acorda!

O caçula sacudiu as costas do companheiro com vigor.

- Hnnnnn... - grunhiu Saga, ainda cansado - Não, não quero. Me deixa dormir!

- É sério! Dez da manhã, tô falando!

Esfregando os olhos vermelhos de sono, Saga conferiu a hora no relógio e se levantou.

- Nunca mais transo com você três vezes num dia só, ainda mais envolvendo framboesa, pipoca e filme - disse ele, a voz ainda empastada e arrastada - Estou quebrado!

- O que posso fazer se sou irresistível?!

- Engraçadinho! Diz isso porque vai dormir até mais tarde.

Kanon sorriu enquanto observou Saga ir até o banheiro se lavar. Geralmente o acompanhava no banho, mas não o faria daquela vez. Encolheu-se debaixo das cobertas e cochilou mais um pouco, enquanto Saga cuidava de si.

Após lavar bem inclusive o rosto com água fresca, o primogênito já se sentia mais disposto. Foi então que se lembrou.

- Juliana! Droga, esqueci de dar o recado!

Foi a sua vez de sacudir Kanon com vigor para que despertasse.

- Ahn!! Saga, que droga! Só pra me encher a paciência?!

- Não. Veja bem, me escute. Ontem aquela sua amiga, a Juliana, ligou pra cá. Disse que ela e o marido vão fazer uma excursão, dessas de "retiro" mesmo, e quer nos convidar pra participar também.

- Ah... sei. Depois eu ligo pra ela, pelo visto seu horário também é o da tarde. Mas... minha amiga?! Pensei que ela era sua amiga também!

O mais velho fingiu que não escutou e continuou se arrumando. "Não consigo ver com bons olhos essa aproximação", pensou ele. "Minha amiga? Pode até ser, mas não perto de Kanon."

E saiu de casa o mais rápido que pôde. Não demorou muito para Kanon se levantar e ir até seu próprio banho também. Com as preocupações e afazeres do dia, porém, esqueceu de ligar para a italiana e confirmar a participação no tal evento...

Naquele dia, os gêmeos ficaram mais "tranqüilos". Não tiveram a ansiedade por sexo do dia anterior, fator que parece ser primordial para alguns seres humanos, mas não pararam de pensar um no outro enquanto o dia passava. Saga, então, sentia-se cada vez mais preenchido com a figura de Kanon na mente. Sentia como se fosse perdê-lo, ou que o amor deles, tão "heterodoxo" e diverso de todos os modelos presenciados na sociedade onde viviam, tivesse um "prazo de validade".

- Mas que coisa. Pra quê essa insegurança?! Sei que um relacionamento como o nosso não é comum, mas... dez anos! Os fatos são a maior comprovação de nossa estabilidade!

Após seu expediente, o primogênito voltou para casa e não encontrou seu irmão. Com receio de não poder vê-lo durante o dia ou o resto da noite, mesmo que soubesse do seu retorno em breve, ou ao menos um aviso dizendo onde estava ou quando voltaria, resolveu ligar para o celular do irmão. A demora de Kanon para atender apenas oprimiu ainda mais seu coração no peito.

- Alô?

- Kanon, seu safado! Por que não atendeu esse negócio logo?

- Ah, Saga, estou num restaurante, com uns amigos! Desculpe não ter avisado, mas o nosso ex-colega de faculdade, o Gyros, disse em cima da hora.

- Encontro? O Gyros?! Por... por que não me disse?!

- Acabei de falar. Foi em cima da hora! De repente aquele monte de marmanjos invade a casa, me "seqüestra" e me traz pra cá. Praticamente não me deram escolha!

- Sei. E uma ligação rápida pro meu celular ia matar você ou custar muito, não?!

-Ah, Saga! Nem a nossa mãe pega tanto no meu pé!

- Ela não faz isso porque não mora mais conosco. E... veja bem, esse teu celular tá no viva-voz?

- Não. Por que?

- Tem certeza?!

- Tenho! Anda, fala!

- Escute aqui, Kanon! Mais do que ser seu irmão, eu sou... sou seu cônjuge, ouviu?! Além de dividir a casa e o trabalho com você. Portanto,... você me deve duplamente satisfação do que faz e com quem anda!

- Além de compartilhar a mesma cara, as mesmas roupas... até... - e nessa hora cochichou bem baixinho - até a mesma cama! Mas que coisa, Saga, devíamos ter nascido como gêmeos siameses!

- Não desvie o assunto! Seus planos eram me manter aqui, sem saber o que fazia, não?!

- Claro que não! Se quiser, inclusive, pode vir pra cá. Eu passo o endereço!

- Não, obrigado. Estou cansado por causa do trabalho. E por falar nisso... quem vai cuidar da loja agora, hein?!

- Só hoje, Saga!! Pode ligar pra lá e conversar com os vendedores, está tudo OK!

- Olhe lá, hein! Apenas hoje! Eu não o deixarei folgar e "se achar" apenas porque é dono de uma loja agora, hein?

- Claro, claro! à noite a gente se vê, OK?

- OK! Vê se não apronta, hein!

- Claro que não! Logo estou de volta! Tchau.

- Tchau, até breve.

O mais velho desligou o telefone, não muito melhor do que antes em matéria de sossego mental. "Será que foram só homens nessa tal reuniãozinha, ou... ou mulheres também?" Ah, que inferno! Se ele quisesse me trair, o faria com outros homens inclusive!"

Abatido, fez um chá de camomila a si e recostou-se no sofá da sala. A fadiga natural do dia-a-dia, somada à ação relaxante do chá e à sua ansiedade o fez adormecer ainda vestido sobre o móvel. Quando Kanon voltou, o encontrou ainda desta forma.

- Saga, Saguinha... coitadinho, cansado e dormindo!

Sem cerimônias, foi até o gêmeo e acariciou seus cabelos. Com o toque, o mais velho acordou repentinamente.

- Hã?! Ah, Kanon! Que susto, pensei que era alguém... de fora.

- Alguém de fora teria a chave de casa?! Ora vamos! Você anda muito perturbado ultimamente!

E sem esperar uma resposta do irmão, o caçula beijou-o de leve nos lábios.

- Tem razão... preciso relaxar mais a mente. Que coisa! Mas e o tal "encontro" no restaurante, como foi?

- Ah, foi bom! Deu pra relembrar a época da faculdade. Só não foi melhor porque você não estava lá...

- Hum... até parece que você paga todo esse pau pra mim!

- Pago, pago sim! Pago todos os paus do mundo àquele que consegue ser meu irmão, sócio e amante ao mesmo tempo! Só você pra me aturar tanto, Saga!

- Ora, não seja exagerado!

Os dois riram de contentamento, apenas por constatar que tinham a companhia certa e compatível um ao outro, coisa que outras pessoas demoravam tanto para obter, ou sequer obtinham uma única vez. Como celebração de tal condição, ambos se beijaram intensamente mais uma vez. Kanon deitou-se por cima de Saga e o enlaçou, enquanto osculava seus lábios e era correspondido de igual maneira.

O ato verdadeiro e crescente, porém, foi interrompido de forma brusca quando ouviram uma exclamação chocada. De mulher. Vinda da porta do apartamento.

Os gêmeos olharam na direção dela e sentiram uma pontada fortíssima no coração. Não podiam acreditar que era verdade: alguém os havia visto e desvendado o segredo!

- Juliana!

A moça, pálida, sem jeito, tinha a boca aberta coberta com as duas mãos num gesto de assombro. Da mesma forma que os irmãos, ela não conseguia crer que aquilo pudesse ser verdade.

No ímpeto de ir até a figura adormecida de Saga, Kanon esquecera de fechar a porta do apartamento. E justo naquela hora a italiana aparecera. Que tremendo descuido!!

- Eu... eu... - ela conseguiu balbuciar ao final de alguns segundos.

- Escuta, Juliana, a gente... a gente pode explicar! Não pode, Saga?! É, a gente pode! Olha, entra aí que a gente te...

- Não... não preciso entrar... eu...

- Precisa sim! Fecha essa porta e entra, que a gente explica tudo.

Saga escondia o rosto nas mãos, num gesto de vergonha. Kanon levantou do sofá e foi até a italiana, tropeçando uma vez de nervoso nos próprios pés. Juliana ainda parecia estar completamente sem ação. O mais novo passou o braço por seu ombro e a levou até o outro sofá da sala.

- Olha, Juliana, eu... é...

- Não... não acredito que... o homem com quem você disse conviver é...

- É Saga, sim! Pronto, eu namoro meu próprio irmão! Não tem mais como esconder!

Lágrimas escorreram dos olhos da italiana, de forma completamente passional e involuntária.

- Você... me trocou... pelo seu irmão, Kanon?! Você é doente ou o quê?!

- Tá, sou doente! Sou doente pra caramba, desde os dezesseis anos! E daí?!

- E daí?! Você dorme com seu próprio irmão gêmeo e diz "e daí?", como se isso fosse lindo e correto?!

- É, é sim! Nós dois tínhamos e temos a mesma idade, não forçamos um ao outro, pagamos nossas contas em dia e não dependemos de ninguém! E daí que somos irmãos?!

Kanon quase vociferava, nervoso, tremendo. Saga tentou acalmar os ânimos.

- De cabeça quente não se resolve nada! Sei que é um choque, pra nós três! Sem diferenças! Também estou atordoado, mas é necessário agir com bom senso, sem brigas!

- Bom senso, Saga?! - disse a moça, ainda com a voz embargada pelo choro - Eu não esperava uma atitude dessas da sua parte, sempre conhecido como uma pessoa sensata e responsável!

- Acalme-se. Eu mesmo no início também não aceitei bem a situação! Achei horrível, doente e todo o resto. Mas depois... depois vi que não adiantaria de nada negar o que sentia por Kanon!

A italiana parou para refletir por um momento e depois continuou:

- Há quanto tempo se gostam... assim, desse jeito?!

- Há dez anos - foi Saga quem respondeu, tentando fazer o possível para que Kanon não interviesse e pudesse explodir em respostas raivosas.

- Dez... dez anos?! Então Kanon namorou comigo pensando... em você? No próprio irmão?!

- Sim. Sei que isso parece horrendo, mas foi exatamente isso que aconteceu! Na mesma época em que você se demonstrou interessada em Kanon, nós... começamos a ter um comportamento "diferente" um para com o outro. E por conta disso, eu, querendo erradicar o sentimento que já estava forte entre nós, eu... eu disse para ele arrumar uma namorada e tentar esquecer de mim!

- Vocês dois... me usaram?

- Não, não interprete dessa forma!

- Me usaram sim!! Pra tentar esquecer de algo sem cabimento e doentio! E depois... depois, quando voltei a namorar o Giovanni... quando saíamos os quatro juntos... vocês já estavam...?

Era demais para a cabeça da moça. Relembrou os momentos em que os gêmeos estavam consigo e com aquele que viria a ser seu marido, e não quis acreditar.

- Vocês... vocês... como podem?!

- Olha, se não quiser mais olhar na nossa cara, considerar a gente como párias, dignos de nada além de desprezo... por mim tudo bem! - exclamou Kanon, numa nova explosão de nervos - Nós omitimos a nossa "condição" dos outros, mas não arregamos também! Dez anos não são qualquer tempinho desprezível, portanto não estamos brincando! Diga o que quiser aos outros: eles não vão acreditar, e você muito menos vai conseguir provar. A não ser que tenha um gravador embaixo dessa sua roupa!

- Calma, Kanon!! - bradou Saga, impaciente - Mas que saco! Sem brigas, já disse! Juliana, entenda isso: nós não vamos deixar de nos amar da maneira que fazemos. É... algo mais forte do que possamos imaginar! E agora, então, que já nos acostumamos com isso e estamos bem, não vamos viver de outra forma. Tentamos, é verdade, mas não deu certo. Portanto... aja como achar melhor, mas se quiser continuar nossa amiga... terá de nos aceitar como somos.

A moça ficou em silêncio, e assim permaneceu um bom tempo, apenas pensando no que fazer. Ainda em estado de choque e incredulidade, ela se levantou e se dirigiu à porta; antes de sair, porém, ela disse:

- Eu vim apenas pegar a confirmação da excursão. Mas em face de tudo isso... já não sei se vocês vão querer ir!

E sem virar as costas, saiu e foi embora, a cabeça ainda pesada.

Um minuto longo e denso como chumbo transcorreu antes de um dos gêmeos proferir algo ou sequer conseguir olhar para o outro. Finalmente Kanon se levantou e chutou com força e raiva uma almofada que havia caído do sofá enquanto ele e Saga se beijavam.

- Inferno!!

- Não fique assim, Kanon.

- Como, "Não fique assim"?! Ela sabe! Saga, ela sabe!! E vai contar pro Giovanni e pra não sei mais quem! E isso vai se espalhar de forma vertiginosa!!

- Não era você que dizia "Que se dane se souberem"?

- Eu não tinha idéia de como seria caso descobrissem. Droga, Saga!! Como calar a boca dela pra que isso não corra meio mundo?!

- Acalme-se. Não é tão grave assim. A não ser que realmente tivesse um gravador debaixo da roupa, ela não poderá provar o que diz. E também, como foi pêga de surpresa, duvido muito que tivesse.

- Ah, Saga... mesmo assim! Perante a lei ela não poderá nos levar mesmo, pois incesto não é crime tipificado, desde que não seja praticado entre um maior e um menor. Sempre tivemos a mesma idade, até a mesma experiência sexual, então nem tem problema! O negócio é com o "zé-povinho" mesmo: as pessoas, com provas ou sem provas, podem acusar do que quiserem! E se todo mundo acreditar?!

- Daí nós é que poderíamos levá-la a tribunal por difamação...

- Ah, sem essa! Como seria capaz de fazer isso com uma amiga de escola?!

- Se ela nos "dedurar" pra todo mundo, vai pensar em nossa "amizade de escola"?! Ah, mas que seja! Estamos sendo muito precipitados, imaginando caminhos que sequer sabemos se precisaremos tomar. Deixe as coisas se delinearem primeiro.

Apesar de tentar colocar "panos quentes" na situação, o próprio Saga estava aflito e apreensivo. Se a coisa corresse à "boca pequena", de pessoa em pessoa, todos poderiam realmente acreditar... e seria praticamante impossível provar quem começara o boato. E então a vida deles perante a "conservadora" sociedade poderia desabar completamente...

To be continued

OoOoOoOoOoOoOoOoO

Bom, gente... demorei pra caramba, mas atualizei! Peguei pesado, hein... e agora, como os gêmeos vão se virar?

Sobre a parte "legal" do negócio: no Brasil, a coisa funciona assim mesmo. Incesto não é crime, desde que não seja praticado com menores de 14 anos. Aliás, perante a lei, menores de 14 sequer teriam capacidade para consentir sexo, então entraria em estupro presumido. Como na minha história os gêmeos têm a mesma idade, não teriam praticado "delito" algum. A única coisa é que não sei como é a legislação nesse aspecto na Grécia, por isso coloquei a do Brasil mesmo! Rs...

Qualquer coisa, me dêem um toque, OK?

Beijos a todos e todas!