Olá pessoal!

Finalmente terminei este capítulo. Ele é um presentinho de natal!! Espero que gostem bastante, ok?

Quero aproveitar para fazer uma pequena propaganda: estou planejando uma fic nova (mais uma...). Ainda não tenho certeza de quando vou postá-la, mas já escrevi o primeiro capítulo. Ela aborda, como vocês já devem ter imaginado, um UA, e logicamente tem meus queridos personagens preferidos... Fiquem de olho, vou tentar postar logo o primeiro capítulo. Espero que vocês gostem bastante!

Então, sem mais demora, aí vai. Espero que gostem!

Um beijão!

Priscila Black.

Cap. 6 – Dúvidas e certezas.

- Por que você está aqui cuidando de mim?

Lily olhou para James. Ele olhava sério para ela. Lily sentiu um nervosismo inexplicável. Queria sair correndo dali. Mas ficou firme. E respondeu.

- Quem mais cuidaria? – ela respondeu, com uma alfinetada.

James baixou os olhos. E falou, num fio de voz.

- Só você.

Lily Evans acordou num pulo. Seu coração estava disparado. Ela estava suada. Suas mãos pareciam instáveis, trêmulas. Sua respiração não a obedecia.

A garota olhou em sua volta. Seu quarto estava idêntico. Nenhuma mudança. Exatamente como ela tinha deixado, quando saiu no dia anterior, em direção ao hospital.

Então por que tudo parecia tão diferente? E por que ela acordara toa sobressaltada?

Lily levou a mão ao peito, tentando se acalmar. E tentando recordar o sonho que a perturbara tanto, para fazê-la acordar daquela maneira.

Mas ela não lembrou. Apenas fragmentos de memória vinham à sua cabeça. E todos eles tinham apenas um protagonista.

James Potter.

Então Lily recordou-se de todos os acontecimentos da noite anterior. E, principalmente, do momento mais inesperado de sua vida.

James Potter, seu irmão adotivo, tinha lhe dado um beijo. Um beijo na boca.

Lily sentiu suas mãos novamente tremendo. Sua respiração novamente se alterou. Tudo parecia rodar num ritmo alucinante.

O gosto da boca de James ainda estava na dela. Ela não tinha idéia de como isso era possível, mas estava acontecendo.

Ela praticamente sentia a textura dos lábios dele. Da língua dele na sua. Era absurdo, mas ela sentia.

Lily jogou-se na cama novamente. Lembrou das mãos de James, uma em sua nuca, outra em seu braço. Um calor bizarro percorreu o seu corpo.

- Eu estou ficando maluca! – ela falou, em voz alta.

Disposta a esquecer as imagens que martelavam em sua cabeça, ela levantou da cama. Ficou em pé, e percebeu que tinha dormido com a roupa que usara na noite anterior. Abaixou o rosto, e quase sentiu o aroma de James em sua blusa.

Lily respirou fundo; não queria se deixar levar pela loucura.

Retirou todas as peças de roupa o mais rápido que podia. Foi correndo para o banheiro, já nua, e se colocou debaixo do chuveiro. Girou a torneira o máximo que podia, e sentiu a água fria em seu corpo.

Ela precisava retirar de seu corpo todos os vestígios de James Potter.

Com o passar dos minutos, e mais recomposta, Lily passou a raciocinar mais calmamente. De forma mais equilibrada.

Não se importando se isso seria normal para uma pessoa sã, ela começou a falar sozinha, travando uma bizarra conversa consigo mesma.

- Ele estava bêbado. Completamente bêbado. Isso com certeza foi o motivo para... – ela não conseguia falar em voz alta o ocorrido.

Alguns segundos depois, ela mesma respondeu.

- Mas ele parecia tão... tão... consciente.

- Pára de falar besteira, Lily Evans! Você está ficando doida!

Lily enfiou a cabeça debaixo do fluxo constante de água. Precisava parar com essa loucura.

Procurando se distrair, Lily começou a se ensaboar. Mas, em vez da batalha verbal que estava acontecendo antes, ela passou a se questionar em silêncio naquele momento.

Ele estava conversando quase normalmente quando estava no quarto.

Mas esta idéia foi rebatida quase instantaneamente por outra.

Ah, é? E quem estava bebendo num funil, como um louco? Você? Ou era ele?

Lily sacudiu a cabeça, tentando achar uma forma de rebater este pensamento.

É que eu achei que ele...

Mas seu lado racional logo interrompeu, e decretou.

Ele estava cambaleando! Acha que ele sabia o que estava fazendo? Deixa de inventar coisas, Lily!

Lily então ficou parada. Este argumento era realmente difícil de contrariar. Tanto que ela parou com a batalha mental, e desligou o chuveiro.

Enrolada numa toalha, Lily saiu do banheiro. Foi até seu armário de roupas, e vestiu a primeira que encontrou. Decidida a não ficar remoendo o ocorrido, ela decidiu descer para a cozinha, e preparar algo para o café da manhã. Pensou que seria melhor se ela parasse para pensar neste problema depois.

O que ela não levou em consideração é que seria impossível evitar o pensamento por muito tempo. Afinal, ela morava sob o mesmo teto que James Potter.


Lily desceu as escadas numa carreira só. Mas, ao chegar à sala de sua casa, ela suspirou profunda e desanimadamente.

A casa estava um caos. Um caos total.

Lily viu a enorme bagunça deixada pela festa. Coisas espalhadas por todos os lados, copos, cervejas, restos de comida. Ela levaria um século para limpar tudo.

Um pensamento cruel tomou conta de sua cabeça. Ela poderia simplesmente ligar para os pais, e contar tudo que tinha acontecido. Mas, ao imaginar os Potter dando uma bronca em James, ela se lembrou da boca do rapaz, e seu pensamento começou a se perder.

Ela teria devaneado por bastante tempo se algo não tivesse chamado sua atenção. Ela percebeu alguém se mexendo num dos sofás da sala, algo que não tinha notado antes. E, ao se aproximar, ela viu quem era o ocupante do móvel. Seu irmão, Sirius.

- Sirius! – ela exclamou, e o rapaz começou a abrir os olhos – O que você está fazendo aqui? Dormiu na sala?

Sirius espreguiçou-se no sofá. Lily não deixou de notar as três garrafas de cerveja que estavam bem ao lado do rapaz, vazias.

- Meu quarto estava trancado. – ele respondeu, de forma simples.

Lily fez uma careta rápida, e falou.

- Ops. Eu tranquei os quartos quando cheguei. Desculpe.

O rapaz sentou no sofá e respondeu, sem dar muito importância ao fato.

- Já dormi em lugares bem piores. Não esquenta.

Então ele pareceu perceber a bagunça que o cercava. E falou.

- Você está doente, Lily? Por que ainda não surtou com essa zona toda?

Lily piscou os olhos algumas vezes, sem saber o que responder. Assim que se recompôs, e parou de pensar em James novamente, ela tentou dar ao irmão uma resposta que pudesse parecer adequada.

- Alguém vai ser assassinado hoje nesta casa!

Sirius riu, mas sem muito humor. E apenas respondeu.

- Não me culpe, a festa já estava acontecendo quando eu cheguei.

Isso fez Lily se lembrar da ausência de Sirius no dia anterior. Então rebateu imediatamente.

- Ei, e onde foi que você se enfiou ontem? E que papo é esse de Birmingham?

Sirius passou a mão nos cabelos, nervosamente. Mas não deu uma resposta muito clara.

- Estava resolvendo umas coisas. E... acabei demorando mais do que esperava.

- Que coisas, Sirius? – Lily perguntou.

Sirius respirou profundamente. E respondeu.

- Ah, umas coisas sobre minha herança. Nada de muito importante.

Lily conhecia o irmão o suficiente para saber que, pelo menos naquele instante, ele não falaria nada mais sobre o assunto. Ela pensou em questioná-lo num outro momento.

Sirius levantou do sofá, e olhou em volta.

- Acho que temos que começar a reunir essa bagunça. Quer que eu acorde o Jay para você gritar bastante com ele?

Lily vacilou por um instante, e não respondeu. Então Sirius concluiu por si só.

- Ah, você deve querer acordá-lo sozinha, né?

Lily arregalou os olhos por um instante, tomada pelo pânico. Mas Sirius logo esclareceu.

- Deve querer jogar um balde de água fria nele. Com pedras de gelo, pela sua cara.

Então Lily compreendeu o que Sirius dizia, e fingiu rir. E respondeu.

- Não... eu te passo a honra. Pode acordar ele.

Mas Sirius não foi em direção às escadas. Ele se esticou, e falou.

- Daqui a pouco. Estou com fome. Vamos tomar café da manhã?

Lily concordou com a cabeça. E seguiu o irmão até a cozinha.


Um som estridente e ritmado entrava pelos ouvidos de Ellie. A garota se revirou na cama, e colocou o travesseiro sobre a cabeça. Mas o insistente barulho continuava.

Vencida, ela abriu parcialmente os olhos, e entendeu a origem do som. Alcançou o telefone que ficava na sua mesa de cabeceira, e levou o fone ao rosto.

- Hummm... – foi o único som que ela conseguiu emitir.

- Ellie! Está dormindo?

A garota teve vontade de socar quem quer que a estivesse acordando. Como não identificou imediatamente o interlocutor, respondeu numa voz rouca.

- Estou.

- Então acorda e vem pra cá.

Ela tentou novamente recuperar um pouco da consciência. E falou.

- Quem é?

A resposta soou numa voz levemente indignada.

- James!

Então, lentamente, ela começou a lembrar-se da festa da noite anterior. Da enorme bagunça na casa dos Potter. De uma certa conversa num banheiro. De alguém segurando seu braço, e falando: O que importa é que você não deve contar nada para o Remus.

E o pior de tudo. Ela se lembrou da cena entre Remus e Emmeline. Os dois dançando, e o vazio que ela sentiu ao ver a óbvia conexão entre os dois.

- Ellie? Você dormiu de novo? – James perguntou, do outro lado da linha.

Voltando ao presente, Ellie respondeu.

- Estou aqui. Mas por que você quer que eu vá aí?

A voz de James soou bem animada quando ele respondeu.

- Para a inauguração da piscina, claro!

Ellie demorou alguns segundos para responder.

- Achei que tinha sido ontem.

- Ontem foi uma festa. Hoje é só pro pessoal mais próximo. E também serve para uma mãozinha na arrumação da bagunça da festa. Sabe, acho que a Lily vai arrancar minha pele e fritar em óleo fervendo.

- Nada que você não mereça. – Ellie concluiu.

- Ei, pára com isso! – James resmungou – Eu sei que você me ama...

Ellie riu, e respondeu.

- Amo nada. Só finjo para não te deixar desapontado.

A risada de James soou através do telefone. E ele completou, antes de desligar.

- Coloca o biquíni logo, e vem. Estou te esperando em cinco minutos.

Ellie apenas recolocou o telefone no gancho, e se esticou pela cama. E, ao lembrar-se da enorme bagunça que se espalhou pela casa do Potter, ela se lembrou da noite anterior. E dos momentos que precederam sua ida para casa.

Ela se deixou conduzir, sem qualquer resistência. Uma mão tocava delicadamente seu braço, levando-a para a sala. Assim que ela chegou lá, conseguiu raciocinar brevemente sobre o que tinha acabado de acontecer.

- Ellie... você está bem?

Ela não estava bem. Não poderia estar. Era como se a realidade tivesse sido jogada em sua cara, sem qualquer aviso ou delicadeza. Sua vida estava ali, e ela era patética. Ela estava sozinha. Não tinha ninguém.

- Ellie... – a mão morna e suave a tocou novamente, e ela ergueu a cabeça.

Um par de olhos muito azuis a fitava. Cheios de preocupação.

Por um instante, ela se perdeu ali. Mas quando voltou, tudo veio à sua mente. O beijo inesperado dele. A briga. A negação de uma resposta clara sobre o motivo do beijo.

- Eu...

Mas ele a interrompeu, falando num tom excessivamente protetor.

- Não fica chateada. Não aconteceu nada, você só está nervosa...

Ela franziu a testa, e Sirius prosseguiu.

- É só uma dança, não existe problema em...

Mas ela simplesmente se afastou da mão carinhosa, e da voz protetora.

- Eu vou pra casa. – ela falou de imediato. E saiu andando em direção à porta.

Mas Sirius a seguiu. Ele logo a alcançou, na calçada da casa dos Potter. E segurou o braço dela, suavemente.

- Ellie, não fica chateada, eles só estavam dançando...

Mas ela virou de frente para o rapaz decididamente, e falou num tom alto.

- Por que você está defendendo ele?

Sirius congelou no mesmo lugar. Os dois ficaram parados, bem de frente um para o outro. Olho no olho.

Ela viu Sirius engolindo em seco. Quase sem piscar.

Eles ficaram na mesma posição por alguns segundos. E ela não saberia explicar o que estava sentindo, naquele momento. Um turbilhão de emoções tomava conta dela. E, aparentemente, dele também.

Então Sirius abriu a boca para falar. Mas nenhum som saiu de seus lábios. Frustrada, Ellie finalmente virou de costas, e seguiu seu caminho.

Sem ser seguida, desta vez.

A garota então virou de lado, e inspirou profundamente. Ficou remoendo os últimos instantes da sua noite. Principalmente a parte em que ela e Sirius ficaram se olhando, sem falar nada.

Ela tinha a esperança de que, naquele momento, ele fosse revelar o motivo do beijo que ele lhe dera. Tinha esperança de fazer que alguma coisa em sua vida pudesse fazer sentido, e fosse explicada.

Mas Sirius não explicou. Não falou nada.

Vencida, ela apenas levantou da cama. Correu para o chuveiro. E pensou que, durante a arrumação da casa dos Potter, ela poderia esquecer um pouco os pensamentos que tomavam conta de sua mente.

Como se isso pudesse ser possível. A maior fonte de dúvidas de sua vida, naquele momento, morava exatamente na casa dos Potter. E atendia pelo nome de Sirius Black.


James colocou o telefone de seu quarto no gancho. Tinha completado sua lista de telefonemas. Todos tinham sido convidados. Sua primeira missão estava cumprida.

O rapaz levantou da cama. Inspirou profundamente. Em silêncio, caminhou até o armário. De lá, retirou a roupa que considerou adequada. Largou a toalha que estivera enrolada na cintura desde o banho que tomara, minutos antes. E vestiu as peças de roupa, uma a uma.

Parado em frente ao espelho, o rapaz mal conseguia se encarar. Os pensamentos não faziam muito sentido. Tudo parecia um emaranhado. Muito confuso.

A única parte que não estava confusa era a parte com ela. Seus cabelos ruivos refletindo a luz. Seus lábios rosados.

James fechou os olhos lentamente.

Aquilo não podia ser verdade. Simplesmente não podia.

Ele cogitou estar enganado. Poderia ter sido apenas um sonho.

Mas então por que ele sentia que fora tão real? Ele ainda sentia em sua boca o gosto do brilho labial de morango que ela usava. Aquilo não poderia ser um sonho.

James olhou para a cama. Viu que as almofadas que normalmente ocupavam sua cama estavam jogadas no chão. Ele lembrou que Lily as retirou para que ele deitasse. Mais um indício.

Então ele se lembrou da pele macia dela. De seus lábios mornos. Do toque de sua língua.

Repentinamente, ele se afastou do armário. Perturbado, ele caminhou pelo quarto. Ele tinha que estar enganado. Tinha que estar.

Mas não estava.

Aquilo era impossível, mas tinha acontecido.

Só que estava errado. E devia ser remediado imediatamente.

James sentiu um pequeno alívio ao ver que, mesmo sem planejar, ele tinha arranjado algo que lhe comprasse um pouco de tempo. Tempo para raciocinar. Tempo para decidir o que fazer.

O rapaz foi até o armário novamente. Pegou seu violão, e sentou na cama.

Passando os dedos suavemente pelas cordas do instrumento, ele começou a pensar.

Precisava de um plano. E rápido.


Parada em frente à porta da casa dos Potter, Ellie novamente estava com a mão levantada. E novamente não sabia se devia ou não tocar a campainha.

Inspirando profundamente, ela decidiu deixar o receio para lá, e apertou o botão. Esperou alguns segundos até que a porta abriu.

E a pessoa que estava do outro lado era exatamente a pessoa que ela não queria encontrar. Sirius, usando apenas uma calça muito surrada, atendeu à porta. E escancarou a boca assim que a viu.

- Ellie... – ele falou, num tom surpreso.

A garota ficou muda por alguns instantes, até que tomou coragem e falou.

- Sim.

Ele continuou parado no mesmo lugar. Demorou alguns segundos para que ela conseguisse finalmente dizer.

- Não vai me convidar para entrar?

Sirius imediatamente saiu do caminho, para que ela entrasse. Ele tentava colocar a cabeça no lugar, procurando não se deixar levar pelos pensamentos que dominavam sua mente. O que ela estava fazendo ali? Isso significava algo? Ela fora até ele para falar sobre os acontecimentos do dia anterior? Sobre o beijo?

Ellie entrou lentamente na casa dos Potter. Estava extremamente constrangida com a situação. Depois que sua raiva de Sirius passou, por ele ter roubado-lhe um beijo, ela sentia uma enorme vergonha por estar ali, bem na frente dele. Pensou em algo para falar, mas nada lhe ocorreu. Por sorte, ela foi salva por uma voz que se aproximava rapidamente.

- Ellie! Que bom que você chegou!

James vinha descendo apressado as escadas. Ele passou por Sirius rapidamente, e pegou a mão da amiga, sem maiores explicações. Simplesmente falou.

- Vamos lá pro jardim.

Ele percorreu o caminho que levava à parte de trás da casa. Passou pela sala de jantar, e entrou na cozinha, ainda puxando Ellie pela mão. Assim que entrou no cômodo, ele ouviu um grito.

- Ah!

O barulho de um copo caindo, e se espatifando no chão o fez parar.

Lily estava parada, no meio da cozinha, com uma expressão de susto em seu rosto. Ela olhava diretamente para James, com os olhos arregalados.

O olhar dos dois se cruzou por um instante.

Constrangida, Lily desviou o olhar.

A situação não piorou porque Ellie interveio, sem saber o que se passava entre seus dois amigos.

- Lily, o que foi? – ela falou, livrando-se da mão de James, e indo até Lily.

Lily olhou para a amiga, e respondeu.

- É que eu... me assustei.

Ellie passou a mão nos cabelos de Lily, e falou, num tom carinhoso.

- Tadinha...

Lily sorriu para a amiga, e imediatamente abaixou para recolher os cacos de vidro no chão. James deu um passo para frente, como se fosse ajudá-la, mas estacou no mesmo lugar. Ele desviou o olhar da irmã adotiva, e ficou calado.

Sirius logo chegou, atraído pelo barulho do vidro quebrando.

- O que houve?

- Eu quebrei um copo. – Lily se adiantou em responder, ainda abaixada – Não foi nada.

James então começou a andar novamente. Ele pegou a mão de Ellie novamente, e falou, sem olhar pra trás.

- Sirius, ajuda a Lily com o vidro. Eu vou começando com a Ellie aqui no jardim.

Sirius olhou para a vizinha. O olhar dos dois se encontrou por um segundo, mas logo ela estava sendo conduzida novamente por James. E eles desapareceram por afora.

Sirius inspirou profundamente. Abaixou-se ao lado de Lily, e ajudou a irmã a recolher os cacos. Nenhum dos dois falou sequer uma palavra. Ambos perdidos em seus próprios pensamentos.


O clima na casa dos Potter não poderia ser mais estranho. Os quatro jovens estavam recolhendo a bagunça deixada pela festa do dia anterior. Mas o comportamento de todos estava tão estranho que se algum conhecido deles visse a cena, acharia tudo muito estranho. James, normalmente muito brincalhão e palhaço, estava quieto. Só falava, basicamente, com Ellie. Esta também estava muito quieta, coisa muito improvável para uma garota normalmente extrovertida como ela. Sirius era calado e continuava assim, mas agora ele lançava olhares muito insistentes para Ellie, o que ele normalmente evitava fazer. E Lily, em vez de estar dando uma enorme bronca em James, o que seria esperado, recolhia a bagunça em silêncio.

Sirius não estava agüentando mais aquela situação. Ele tinha pensado durante muito tempo, antes de dormir, na noite anterior. Assim que conseguiu acabar com a festa, e expulsar todos de sua casa, ele deitou no sofá da sala e ficou pensando. Ele tinha que corrigir a situação que tinha causado. Ellie agora evitava falar com ele. E ele percebeu que não agüentaria mais ficar longe dela. Mesmo que para isso fosse preciso desviar o rosto todas as vezes que se aproximasse dela. Ele não podia ficar sem a presença dela em sua vida. Então decidido a resolver tudo, ele decidiu arriscar. Pegou algumas das enormes sacolas de lixo que eles tinham recolhido no jardim, e falou, em voz alta.

- Vou levar o lixo lá pra fora. – ele hesitou por um instante, e depois completou. – Ellie, você me ajuda?

Ellie levantou o rosto rapidamente, com os olhos levemente arregalados. Mas ela nem teve tempo de responder. Lily imediatamente pegou duas sacolas que estavam perto dela, e entregou nas mãos da amiga, falando.

- Vai lá com ele, e leva estas sacolas aqui.

Ellie hesitou por um instante, mas seguiu Sirius, que foi caminhando na sua frente. Lily inspirou profundamente. Agora só estavam ela e James no jardim. E ela tentava achar coragem para falar o que estava em sua mente.


Num passo lento, Sirius foi até a parte de fora da sua casa. Depositou as sacolas com o lixo perto da lixeira, e fez o mesmo com as sacolas que Ellie levava. A garota não parava de encará-lo, mas eles mantiveram o silêncio por todo o percurso.

Assim que voltaram para a casa, e fecharam a porta da frente, Sirius conseguiu tomar coragem, e começou a falar.

- Ellie. Eu... queria conversar com você um minuto.

Ellie estremeceu de cima a baixo. Não sabia exatamente porque, mas um nervosismo sem tamanho tomou conta dela. Mas ela se manteve firme, e respondeu.

- Ok.

Sirius então tomou fôlego, e começou.

- É que ontem foi um dia... – Sirius demorou um instante até encontrar uma palavra – estranho.

Ellie mexeu as sobrancelhas, e falou.

- E bota estranho nisso.

Sirius passou a mão pelos cabelos. Sinal de nervosismo. Mas Ellie nem percebeu. E ele prosseguiu.

- Nós não tivemos tempo de conversar e eu queria... eu quero esclarecer algumas coisas.

Ellie passou a encará-lo atentamente. Isso não ajudava o raciocínio dele.

Como Sirius não falou nada, Ellie questionou.

- Então esclareça.

Sirius olhou para o rosto da garota, bem na sua frente. Ela estava tão linda, com os cabelos presos apenas com um arco fino e branco. Os olhos estavam brilhantes, e os lábios rosados. Ele desejou poder beijá-la novamente. Mas sabia que isso não seria possível, e que ela provavelmente teria uma reação ainda pior do que a que tivera na viagem. Então ele precisava fazer o certo. Precisava acabar com aquela esperança inútil, e precisava manter Ellie em sua vida. E a única solução para isso era a mentira.

- Eu... bem eu fiz... aquilo com você.

- Me beijar? – ela perguntou, com uma sobrancelha levantada.

Novamente Sirius sentiu-se desconcertado perto de Ellie. Ela foi tão enfática na pergunta que ele não conseguiu entender se ela estava brava ou ansiosa.

Sem conseguir entender o que ela sentia, ele manteve o plano anterior. E prosseguiu.

- É...

- E por que você fez isso? – desta vez ela soou claramente ansiosa. Mas Sirius não conseguiu identificar se isso era bom ou ruim. Como ela estava atropelando tudo que ele falava, provavelmente por desejar tanto uma resposta dele quanto ele a desejava, ele resolveu ser mais direto. Ou tentar ser.

- Eu fiquei confuso.

Ellie franziu tanto a testa que ela se enrugou imediatamente. Ela abriu a boca para falar, mas ele prosseguiu, falando mais rápido.

- Eu estou numa fase meio... complicada. As coisas não estão normais, e eu estou meio perdido.

Ellie continuava com a testa franzida. Sirius sabia que precisava ser mais convincente, e mentir melhor. Então continuou.

- Olha, o que aconteceu foi uma besteira. Foi um tipo de impulso idiota. Eu... nem sei porque fiz aquilo. Foi só um lapso momentâneo.

Por mais estranho que pudesse parecer para Sirius, Ellie parecia ainda mais surpresa com a resposta dele. Ela ficou com os lábios entreabertos, mas não falou nada. E ele resolveu continuar a farsa.

- Você estava lá comigo, e eu me confundi todo. Eu confundi tudo, acho que passei tempo demais com garotas estranhas e fiz tudo errado. Acho que... sei lá, acho que estou um pouco sozinho demais, aí você estava do meu lado e... acho que naquele momento eu teria feito a mesma coisa com qualquer garota que estivesse ali.

Ellie imediatamente desviou o olhar dele. Ela olhou para a janela, caminhando na direção dela. Parou em frente ao vidro. Sirius não conseguiu ver a expressão de decepção devastadora que tomou conta dela. Por mais que estivesse sentindo emoções estranhas ao ouvir o relato de Sirius, Ellie não conseguiu deixar de sentir uma imensa decepção ao ouvi-lo dizer que ele teria feito o mesmo com qualquer garota que estivesse ali. Era como se a companhia dela, e todo o apoio que ela deu para ele durante toda a viagem e o encontro com o irmão tivesse sido algo completamente trivial para o rapaz. E esta foi mais uma das decepções que Ellie sofreu, causada por Sirius. A lista era enorme.

Alheio aos sentimentos dela, ele se aproximou um pouco, e falou.

- Olha, o que eu quero dizer é que aquilo não foi nada de mais. Então acho que nós não precisamos transformar em algo importante. Foi só uma besteira, um erro.

Ellie continuou de costas para ele, mas imediatamente concordou com a cabeça. Só que ela sentia que tudo estava girando fora de órbita. E ela precisava se acalmar, e raciocinar tranquilamente. Inspirou fundo, e virou novamente.

- Claro. – ela falou, numa voz que achou convincente.

- Eu... não queria que isso atrapalhasse nossa... amizade. É que nós meio que... voltamos a ser amigos e eu não queria...

Ellie inspirou fundo. E Sirius completou.

- ...perder isso.

Ellie expirou o ar. E sentiu um enorme alívio quando o ouviu falando sobre a amizade deles. Isso a fez se pronunciar.

- Eu também não quero, Sirius.

Sirius também sentiu alívio. Não por esclarecer o beijo, já que tudo que ele falou era uma enorme mentira. Mas porque ela disse que queria manter a amizade entre eles. E isso o deixou mais calmo, saber que ela não desapareceria repentinamente de sua vida. Isso era algo com o qual ele não poderia lidar.

- Então... está tudo bem? – ele perguntou.

Ellie concordou com a cabeça. E respondeu.

- Está.

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes até que Sirius falou novamente. Ele não queria tocar naquele assunto, mas precisava saber.

- E a respeito do... Remus?

Ellie desviou o olhar novamente, mas quando voltou a olhar para o rapaz, ela respondeu.

- Se você diz que não foi nada, então acho que não tenho nada para contar.

Os dois se olharam por alguns segundos. Até que Sirius falou.

- Obrigado.

Ellie apenas acenou com a cabeça. Ela ainda estava um pouco confusa com a conversa, mas achava que tudo tinha saído melhor do que ela imaginava.

Já Sirius sentiu que tinha cumprido seu dever. Não tinha deixado sua paixão atrapalhar o relacionamento entre Ellie e Remus, e, principalmente, tinha conseguido manter a amizade da garota. Sabia que era tudo uma farsa, que ele tinha mentido em tudo que tinha falado com ela. Apesar de querer contar que o beijo tinha significado muito mais do que ela poderia imaginar para ele, Sirius manteve seus sentimentos sob controle, e conseguiu fazer com que ela acreditasse nele. Assim ele poderia voltar a sua paixão platônica sem maiores danos. Em vez de fazer três pessoas sofrerem, ele causava sofrimento a si próprio, apenas. Um é melhor que três, ele pensava.

Ellie então lhe ofereceu um sorriso pequenino, e um tanto constrangido, e falou.

- Então... vamos voltar para ajudar o James e a Lily?

Sirius concordou com a cabeça, e seguiu a garota que caminhava em direção ao jardim.


James viu Sirius e Ellie se afastando, carregando as sacolas de lixo. Uma sensação de pânico tomou conta dele. Não sabia o que fazer, agora que Lily estava sozinha com ele. Precisava raciocinar, pensar friamente. Sabia a saída que teria que tomar, e ela não era nem um pouco agradável. Mas tinha que ser feito.

Como ele previra, Lily começou a se aproximar dele. Ela hesitou por um instante, e depois chegou ao seu lado.

- James. – ela falou, num tom incerto.

James inspirou profundamente. Sabia o que iria acontecer, o que Lily iria falar. Tinha que consertar a besteira que tinha feito na noite anterior.

- Sim. – ele respondeu, sem se virar para encará-la.

Lily ficou observando James por alguns instantes, como se quisesse descobrir algo pela postura do rapaz. Mas, como ele simplesmente ignorou este fato, ela perguntou.

- Está tudo bem com você? – ela falou, sem saber como exatamente entraria no assunto.

James pensou rapidamente, e decidiu tomar um novo caminho. E respondeu quase de imediato.

- Estou, se você não contar a ressaca enorme que eu estou sentindo.

Lily franziu a testa. James não era de reclamar muito dos efeitos de uma noite de bebedeira. O que isso significava?

- Você... está se sentindo mal? – ela perguntou.

James, que estava recolocando as espreguiçadeiras novas da piscina em seus devidos lugares, apenas levantou a cabeça, e falou, com uma voz monótona.

- Estou, enchi a cara ontem.

Lily mordeu os lábios brevemente. James desviou o olhar para não ficar encarando a boca dela.

- E você... você... – Lily tentava achar alguma forma de perguntar se ele lembrava de algo, sem precisar falar claramente. Mas James a interrompeu, falando, novamente de costas para ela, e carregando uma espreguiçadeira.

- Acho que exagerei muito ontem. Fazia tempo que não bebia assim. Nem me lembro da festa direito...

Lily arregalou os olhos. James tinha acabado de responder a pergunta que ela queria fazer. Mas isso não bastava. Não era claro o bastante. Ela precisava ter certeza.

- Você... não lembra de nada? – ela questionou.

Droga. Droga. Droga.

A mente de James gritava sem parar. Ela estava tentando saber se ele se lembrava do beijo. Provavelmente estava tão escandalizada que nem tinha coragem de perguntar claramente. James teve certeza que Lily estava se sentindo muito desconfortável com o que ele tinha feito na noite anterior. Ele precisava ser bem claro, mas sem tocar no assunto. Se ela pensasse que ele nem lembrava, poderia imaginar que ele só fez aquilo por estar bêbado. E a situação poderia ser contornada de uma forma mais suave.

- Ah... – ele hesitou propositalmente, como se tentasse lembrar-se de algo – Muito pouco. Lembro de um funil, e de cair na piscina. Nada muito claro.

Mesmo de costas para Lily, James percebeu que ela se manteve parada no mesmo lugar. Ela ficou muda, e ele teve que controlar uma vontade quase irresistível de virar, e olhar a expressão no rosto da garota. Mas ele manteve a postura, e só virou depois de alguns instantes.

Lily estava com a testa ligeiramente franzida. Como se ponderasse algo. James julgou que ela estava raciocinando se o beijo tinha sido um acidente bizarro, ou algo que ele realmente queria fazer. Então, para não deixar dúvidas, ele resmungou.

- Ah, Lily, eu estou com dor de cabeça. Para de me encher com perguntas bestas.

Lily arregalou ligeiramente os olhos. Parecia não esperar aquela resposta um tanto ríspida de James. Em silêncio, e se manteve de frente para ele, sem mover um músculo. James ficou incomodado. Não conseguia saber o que se passava na cabeça da garota. E isso o deixava doido.

Lily mal podia acreditar na resposta de James. Por que ele estava sendo ríspido à toa? Ele não podia estar fazendo aquilo sem um motivo. Ela tinha duas possibilidades: ou ele não se lembrava de nada, e estava realmente com dor de cabeça, ou ele lembrava... e isso abria um novo leque de possibilidades.

Lily então sacudiu a cabeça, tentando afastar esse pensamento de si. James voltou a arrumar o jardim, como se nada tivesse acontecido. E Lily convenceu-se ainda mais de que estava ficando louca.

Ela estava imaginando coisas, e estava completamente convencida deste fato. James não se lembrava de nada. Ele estava bêbado. Provavelmente, no momento do beijo, ele estava imaginando que ela era alguma garota pela qual ele fosse atraído. E não sabia que, na verdade, estava beijando a irmã adotiva.

Tudo resolvido. Lily pensou. Então por que ela não estava satisfeita com o resultado? Lily inspirou profundamente. Agora ela tinha certeza que estava realmente ficando doida.

Lily pensou em tentar questionar James um pouco mais, mas ela viu Ellie e Sirius voltando ao jardim, vindos de dentro da casa. Ela nem percebeu que o tempo que eles gastaram foi bem maior que o que normalmente levariam para levar o lixo para fora. E também não notou as expressões estranhas dos dois.

O quarteto, novamente sem falar nada, voltou a trabalhar. E ninguém teve coragem de questionar o motivo do inesperado e improvável silêncio.


Emmy desligou o telefone da sala de sua casa. Uma pequena ruga se formou entre seus olhos.

James Potter tinha acabado de ligar para a sua casa (ela não se recordava de ter dado o número de seu telefone para ele), e a convidou para ir à piscina de sua casa. Isso era estranho, mas pelo pouco que Emmy conhecia de James, e pelo que ela o viu fazer na noite anterior, ela imaginou que a festa tinha continuado depois que ela foi embora, e estava acontecendo até aquele momento. Ela tinha que admitir, seus novos vizinhos eram realmente muito animados.

Ao pensar em seus novos vizinhos, a jovem não conseguiu evitar a imagem que se formou em sua mente: Remus Lupin. O belo rosto do novo vizinho não saía de sua cabeça o tempo inteiro. O sorriso em seu rosto, a expressão dele quando eles se olharam, instantes antes de começarem a dançar. Emmeline inspirou profundamente. Lembrou que saiu correndo da festa, sem olhar para trás, quando a música que ela e Remus dançaram acabou, e eles voltaram a se encarar. Ela não conseguiu lidar com aquela situação. Não conseguiu lidar com os sentimentos que o olhar e a presença de Remus lhe inspiravam. Ela fugiu, não tinha outra saída.

Ainda perdida nestes pensamentos, Emmy nem notou a chegada de sua mãe. Só acordou quando a ouviu falando.

- Quem era no telefone?

Emmy virou imediatamente, assustada com voz repentina da mãe. Seus olhos estavam arregalados quando ela respondeu.

- Ah... era James Potter.

Emmy viu sua mãe franzindo a testa, e perguntando.

- Potter? Um dos meninos dos Potter?

Emmy concordou com a cabeça.

- E o que ele queria?

Emmeline inspirou profundamente, e respondeu.

- Queria me convidar para... ir na piscina da casa deles.

Agora quem estava surpresa era a Sra. Vance. Ela olhou para a filha com os olhos arregalados, e questionou.

- Como assim, ir à piscina? Que história é essa? E quem é esse garoto que eu não lembro nem da cara dele?

Emmy inspirou, e respondeu com a maior calma que conseguiu.

- Ele está chamando todos os amigos para irem à piscina, não é nada de mais. Ele é o garoto de óculos, o de cabelo bagunçado.

A expressão no rosto da Sra. Vance indicou que ela não aprovava muito a aparência de James. E ela logo recomeçou o interrogatório.

- E esse rapaz... o que ele quer com você?

Emmy tentou se segurar ao máximo para não revirar os olhos. Agora sua mãe estava achando que existia algo entre ela e James? Não poderia estar mais enganada, ela nem conhecia James direito.

- Mãe, ele é só um vizinho. A Lily e a Ellie vão estar lá, é com elas que eu vou ficar durante o banho de piscina.

Mas Emmy viu os olhos de sua mãe se estreitando. E ela perguntou, num tom bem mais incisivo que antes.

- E o rapaz dos Lupin, ele vai estar lá?

Emmy não controlou seus olhos, que se desviaram imediatamente do rosto da mãe. E ela falou, numa voz bem menos segura que antes.

- Não tenho idéia.

Um olhar desconfiado tomou conta dos olhos da Sra. Vance. Ela observou a filha com atenção, e falou.

- Emmeline, o que você está aprontando? Não acredito que vai fazer a mesma coisa que fez...

Mas Emmy não deixou a mãe continuar, interrompendo-a.

- Mamãe! Eu já disse... aquilo tudo foi...

Mas a mãe estava inflexível.

- Foi o que, Emmeline?

A garota abaixou os olhos, encarando o chão. E sua voz saiu fraca, mas alta o suficiente para a mãe ouvir.

- Um erro.

O olhar da Sra. Vance foi duro, inquisidor. Ela encarou a filha por alguns instantes, e Emmy não ousou encarar a mãe de volta. Ficou olhando o chão. Então ela ouviu a mãe falando.

- Você devia se concentrar mais em seu treino, e não na sua... vida social. Vai acabar jogando fora todos os anos de esforço e dedicação por um...

Ela não completou a frase, apenas inspirando profundamente. Então Emmy levantou o olhar, e falou.

- Eu não vou largar tudo, mamãe. Vou me dedicar completamente aos treinos, você pode ter certeza. Não vou... te desapontar.

Mas a expressão da Sra. Vance desmontou ao ouvir a frase da filha. Ela pareceu bem mais emotiva quando falou.

- Minha filha, você não está fazendo isso por mim, está? Você tem que entender que se eu cobro tanto de você, é porque sei que você pode fazer mais do que faz. Você pode ser uma estrela, Emmy. Mas tem que fazer isso por si mesma, não por qualquer outra pessoa.

Emmy encarou a mãe, e sua expressão era de surpresa. Não imaginava que ouviria algo assim da mãe, não num momento que elas estavam discutindo um assunto tão delicado, e ainda tão recente. E, sentindo-se mais confiante com o que a mão acabara de dizer, ela falou.

- Pode deixar, mamãe. Eu quero isso para minha vida. Não estou fazendo para agradar ninguém. Eu sei que tenho uma responsabilidade muito grande e não vou esquecê-la.

A Sra. Vance observou a filha por um instante, e falou. Numa voz que tinha um pequeno toque de surpresa.

- Acho que você amadureceu um tanto desde o ano passado.

Emmy levantou do sofá em que estava sentada, e falou.

- Só vou lá conversar um pouco com as meninas. Não demoro. E depois treino a tarde inteira.

A Sra. Vance sorriu ao ouvir a filha. Mas completou de forma simples.

- Não demore.

Emmy concordou com a cabeça, e correu até seu quarto. A conversa tinha sido melhor do que ela poderia imaginar. Devido à delicadeza do assunto, ela poderia até dizer que a conversa foi bastante positiva. Talvez um dia sua mãe percebesse que ela não pensava mais da mesma forma, e passaria a confiar mais nela.

Mas este último pensamento fez Emmy parar no meio de seu quarto, e encarar a janela. Seu olhar baixou, e ela se flagrou pensando no morador da casa ao lado.

Talvez ela não fosse tão confiável quanto imaginava. Talvez ela estivesse adentrando uma situação ainda pior do que a que vivera no passado. Mesmo não querendo, ela parecia cada vez mais sugada para um problema ainda maior do que o anterior.

E o pior é que ela não tinha idéia de como impedir o que estava acontecendo.


Lentamente, a casa dos Potter foi recebendo os convidados de James. Alice e Frank foram os primeiros a aparecer. Logo os gêmeos Prewett chegaram, e já começaram a agitar trazendo um aparelho de som, e ligando numa rádio. Marlene Mckinnon apareceu com o namorado, um rapaz mais velho que já estava na faculdade. E finalmente Emmy chegou, carregando uma bolsinha a tiracolo, e com um olhar tímido, já que não conhecia os outros amigos dos novos vizinhos.

Lily abriu a porta para Emmy. O clima dentro da casa dos Potter estava muito mais leve, depois das conversas entre James e Lily, e Sirius e Ellie. Com a chegada dos amigos, todos acabaram se descontraindo, e participando da arrumação-banho de piscina. Quando as duas chegaram ao jardim, Lily apresentou Emmy aos amigos.

- Pessoal, essa é Emmeline Vance, ela é nossa nova vizinha.

Emmeline acenou para os novos conhecidos, mas logo ficou corada. Ela deu de cara com Ellie. E a nova amiga estava olhando para ela com uma expressão estranha, como se não soubesse o que pensar dela. Emmy disfarçou, e se afastou, seguindo Lily.

Ellie não esperava encontrar Emmy tão cedo. Ela ficou tão presa ao assunto entre ela e Sirius que esqueceu temporariamente a visão de Emmy e Remus dançando na festa. Não sabia o que pensar da garota. Por um lado, ela achava que Emmy era uma boa garota, e que não havia nenhuma má intenção nela. Mas, por outro lado, ela sabia que não estava imaginando quando percebeu a ligação entre Emmy e Remus. Aquele tipo de coisa não aparecia do nada. E também não era uma ilusão. Era algo real, e por mais inocente que fosse, da parte de Emmy, era algo que existia.

Ellie se remexeu na cadeira que estava sentada, visivelmente incomodada. Não percebeu o olhar que praticamente não se desviava dela: Sirius mal conseguia deixar de olhar a garota. Ele percebeu o incômodo de Ellie ao ver Emmeline, e isso fez aflorar ainda mais os sentimentos de ciúme que ele nutria. Se Ellie estava incomodada com Emmeline, isso queria dizer que ela sentia algo por Remus. Mesmo sendo óbvio que Ellie gostasse de Remus, já que eles eram namorados, assistir isso bem na sua frente fazia Sirius se sentir ainda pior.

Alheios ao que acontecia entre os moradores da casa e seus vizinhos, Gideon e Fabian começaram a tentar animar a festa improvisada ainda mais. Eles aumentaram o som, e foram até a cozinha buscar cervejas que tinham sobrado da noite anterior. Quando voltaram, começaram a distribuir a cerveja entre os amigos. Lily não aceitou, ela não gostava de cerveja. Emmy também negou. Ellie já estava com a mão estendida quando lhe ofereceram, e logo levou o líquido à boca. Sirius praticamente virou a longneck que lhe ofereceram. Mas, quando Gideon estendeu a garrafa para James, ouviu uma resposta inesperada do rapaz.

- Não. Bebi muito ontem.

Gideon e Fabian riram, incrédulos.

- Qual é, James! Passou mal ontem? – perguntou Fabian.

- A última vez que eu te vi, você estava virando uma garrafa que nem rótulo tinha... o que aconteceu com você depois? – perguntou Gideon.

James sentiu uma corrente gelada percorrendo seu corpo. Os olhos de Lily estavam pregados nele quando ele finalmente respondeu.

- Sei lá, nem lembro. Só sei que acordei na minha cama hoje.

Gideon riu, e falou num tom malicioso.

- Sozinho?

James engoliu em seco, mas respondeu.

- Sozinho sim.

Lily não conseguiu evitar um pensamento louco. Ela visualizou, muito rapidamente, James e ela dividindo a mesma cama, os dois despidos, ele beijando ferozmente seu pescoço...

A garota imediatamente levantou da cadeira em que estava sentada. Olhou para o próprio braço, e ele estava todo arrepiado. Tentando afastar o pensamento de sua mente, ela foi andando até o rádio. Alice estava parada ali, mexendo no botão de sintonia, buscando uma estação de rádio para eles ouvirem.

- Quando eu te vi, a Lily estava te carregando para seu quarto. – Lily ouviu Ellie falar. Ela olhou para trás discretamente, e viu a melhor amiga em pé, ao lado de James. Ela estava pegando sua segunda garrafa de cerveja – Você mal se agüentava em pé.

Lily tentou olhar discretamente a reação de James, mas não conseguiu, já que Alice falou com ela.

- Não consigo achar nada. Me ajuda aqui, Lily.

Lily então voltou sua atenção para Alice, e não ouviu a resposta de James. As duas procuraram por algum tempo, até que finalmente acharam uma música que agradou Alice. Ela deu um gritinho animado, e falou.

- Ai, adoro Abba!

Lily reconheceu a música, que já estava mais para o final. E aceitou a escolha de Alice, se afastando do rádio. Alice, toda animada, puxou Lily pela mão, e falou.

- Dança comigo, Lily!

You are the Dancing Queen
Young and sweet, only seventeen
Dancing Queen
Feel the beat from the tambourine

Alice puxou Lily para dançar com ela. A ruiva aceitou, e logo Alice estava chamando as outras garotas.

- Lene, Emmy, venham também! E você também, Ellie, larga esse marmanjos aí.

Marlene e Emmy foram até Alice e Lily, e começaram a dançar com as duas. Ellie, que estava bebendo cerveja com os rapazes, apenas riu, e continuou onde estava.

You can dance
You can jive
Having the time of your life
See that girl
Watch that scene
Digging the Dancing Queen

Enquanto dançava com as amigas, Lily acabou esquecendo o mal estar em relação a James. Alice cantava animada, e Emmy e Marlene riam. Gideon, Fabian, Frank e Anthony, namorado de Marlene, assoviaram e brincaram com as meninas. Mas James e Sirius ficaram quietos. Sirius lentamente foi se aproximando do grupo dos rapazes e Ellie. Ele parou não muito perto dela, mas ficou satisfeito por ela não ter se afastado quando notou sua aproximação.

James, ao contrário dos outros, fez cara feia e resmungou.

- Abba? Credo, isso é uma droga.

Frank riu do amigo, e falou.

- O que foi, James? Não gosta de música disco?

James cruzou os braços, e respondeu.

- Não, é um lixo. Eu gosto de rock.

Ellie riu da resposta de James, mas ele olhou indignado para ela.

- Ei, do que você está rindo? Você também só gosta de rock e punk!

Ellie terminou o conteúdo de sua garrafa. A música que tocava acabou, e o locutor da rádio começou a falar. Aparentemente, estava passando um especial, só com músicas do Abba. E logo Ellie respondeu.

- Sim, eu gosto de rock e punk, mas eu não sou... esnobe como você. Eu sou capaz de ouvir outros tipos de música.

James arregalou os olhos.

- Esnobe? Eu?

Ellie ia responder, mas Lily acabou interrompendo, e respondeu pela amiga.

- É sim. Totalmente esnobe!

James olhou para Lily por um instante. Mal acreditava que ela estava falando aquilo. Parecia que ela estava levando de forma muito normal o ocorrido na noite anterior. Isso fez James pensar que ela não estava dando importância ao beijo dos dois. E isso fazia James se sentir de uma forma estranha. Ele não sabia se queria ou não que ela se importasse com o que aconteceu.

Alice riu do comentário de Lily, e logo todos a acompanharam. James fechou a cara, não gostava de ser alvo das brincadeiras de todos.

Logo o locutor parou de falar, e uma nova música começou a tocar. Alice deu um gritinho animado, e falou.

- Adoro essa!

James revirou os olhos, e Ellie se aproximou dele. Ele ainda fazia cara feia. Ele realmente não gostava de Abba. Mas Ellie começou a rir do amigo, e falou.

- Deixa de ser chato, Jay! Vem cá! – ela foi até ele, e o puxou pela mão. E começou a dançar, forçando-o a dançar com ela.

James pareceu contrariado por um instante, mas acabou cedendo e riu, se deixando levar pela mão de Ellie. Ela riu da cena e falou.

- Canta também!

I've been cheated by you since I don't know when
So I made up my mind, it must come to an end
Look at me now, will I ever learn
I don't know how but I suddenly lose control
There's a fire within my soul
Just one look and I can hear a bell ring
One more look and I forget everything

Vencido, James acabou entrando na brincadeira. Ele começou a dançar no meio das meninas, e logo estava rindo de forma animada. Frank foi até Alice, e começou a dançar com a namorada. Anthony fez o mesmo com Marlene, e Fabian rapidamente seguiu até Emmy. Ele sorriu para a loira, e pegou a mão dela. Emmy ficou um pouquinho corada, mas aceitou dançar com o ruivo. Gideon foi até a cozinha pegar mais cerveja. O único que ficou onde estava foi Sirius, que se ajeitou numa espreguiçadeira bem na beira da piscina.

Ellie e James dançavam no meio de todos, e Ellie tentava convencer James a cantar junto com ela.

Mamma mia, here I go again
My my, how can I resist you
Mamma mia, does it show again
My my, just how much I've missed you
Yes, I've been brokenhearted
Blue since the day we parted
Why, why did I ever let you go
Mamma mia, now I really know
My my, I could never let you go

Sirius continuava sentado em sua espreguiçadeira. Ele apenas olhava a cena, vendo os irmãos e amigos dançando e cantando. Ele sorriu brevemente. Pelo menos era uma desculpa boa o suficiente para seu constante olhar em direção à Ellie. Ela e James faziam uma interpretação propositalmente brega e exagerada da música, cantando a letra e fazendo gestos engraçados.

Lily morria de rir, e mal conseguia se manter em pé. Ela e Alice cantavam juntas, segurando microfones invisíveis. Mas nenhuma das duas resistiu quando James pegou Ellie no colo, e fez uma dança esquisita, como um patinador artístico. Ellie esticou os pés e os braços, entrando na brincadeira de James. Mas o rapaz, no instante seguinte, correu em direção à piscina com a garota no colo, e pulou na água.

I've been angry and sad about things that you do
I can't count all the times that I've told you we're through
And when you go, when you slam the door
I think you know that you won't be away too long
You know that I'm not that strong
Just one look and I can hear a bell ring
One more look and I forget everything

Imediatamente os outros reagiram. Ellie emergiu da água já brigando com James, e toda descabelada. Mas Frank pegou Alice também, e pulou na água. Ela tentou se segurar em Emmy, e acabou levando a garota junto com ela. Lily se aproximou de Sirius, e pegou a mão do irmão. Sirius não queria entrar na piscina, mas acabou se rendendo. Ele empurrou Lily na água, e acabou mergulhando sozinho.

Marlene nem viu quando Anthony a pegou no colo e pulou na água. E os gêmeos pularam jogando muita água para todos os lados.

Mamma mia, here I go again
My my, how can I resist you
Mamma mia, does it show again
My my, just how much I've missed you

Sirius não conseguiu deixar de encarar Ellie no momento em que ouviu a frase que as cantoras cantavam num tom animado. Ellie estava sorridente, jogando água em James, que revidava com a mesma intensidade. Ela tinha retirado o vestido, agora todo molhado, e o jogou para fora da piscina. E ficou só de biquíni. Sirius suspirou ao olhar para a garota daquela forma. A quem ele estava tentando enganar? Ele não conseguiria resistir a ela nem que tentasse. Por sorte, eles estavam com vários amigos à sua volta. Se estivessem sozinhos, Sirius achava que não seria capaz de evitar um novo beijo roubado na garota.

Yes, I've been brokenhearted
Blue since the day we parted
Why, why did I ever let you go
Mamma mia, even if I say
Bye bye, leave me now or never
Mamma mia, it's a game we play
Bye bye doesn't mean forever

Lily ria, enquanto tentava escapar da água que todos jogavam uns nos outros. Ela estava feliz, parecia que tudo estava voltando ao normal. Nenhum clima estranho. Nenhuma situação embaraçosa.

Ela estava tentando jogar água em Alice quando sentiu alguém puxando suas pernas, e a afundando para debaixo d'água. Quando ela emergiu, viu que quem a tinha afundado era James. O rapaz ria abertamente. Lily ia dar uma enorme bronca nele, mas quando ela viu o sorriso estampado no seu rosto, e o peito desnudo dele, ela desistiu no mesmo instante. Apesar de estar dentro da piscina, ela sentiu uma onda de calor tomando conta de seu corpo.

Mamma mia, here I go again
My my, how can I resist you
Mamma mia, does it show again
My my, just how much I've missed you
Yes, I've been brokenhearted
Blue since the day we parted
Why, why did I ever let you go
Mamma mia, now I really know
My my, I could never let you go

A música finalmente acabou, mas a brincadeira dentro da piscina continuava bastante animada. Agora estavam todos tentando afundar uns os outros. Lily já estava gritando com James, porque ele não parava de tentar fazê-la engolir água. Frank tinha colocado Alice nos ombros, e Anthony fez o mesmo com Marlene. E elas tentavam derrubar uma à outra.

Até Sirius estava rindo. Ele se aproximou de Ellie, mas a garota percebeu a intenção dele, e eles começaram a brigar, um tentando segurar a mão do outro, e afundar o adversário. Ellie ria, e Sirius estava cada vez mais satisfeito por estar divertindo a garota.

Todos estavam distraídos, até que uma voz tirou os amigos do devaneio.

- Oi. – alguém falou, num tom sério.

Emmy virou para a direção da porta, e falou num tom mais alto e assustado do que pretendia.

- Remus!

Ellie imediatamente virou para olhar. Remus estava parado, em pé, olhando para a piscina. Sua expressão era séria. Ellie estremeceu. Aquilo não poderia ser bom.

- Oi Remus. – James saudou. – Entra aqui com a gente.

Mas Remus não sorriu. Ellie sentiu os dedos de Sirius se afrouxando de seus pulsos. Isso a fez acordar, e reagir. Ela foi até a beirada da piscina, e se apoiou para sair. E Remus respondeu a James.

- Depois. Antes eu quero falar um instante com a Ellie.

A garota já tinha alcançado uma toalha, e se enrolou. Sua cabeça estava baixa quando ela se aproximou do namorado.

Emmy mal conseguia encarar Remus. Mas, num instante que conseguiu olhar na direção do rapaz, o viu encarando-a fixamente. Ele lançou um olhar estranho, que englobava ela e Fabian, que estava bem próximo a ela, e estivera brincando com a garota durante quase o tempo inteiro. Emmy sentiu seu rosto pegando fogo.

Sirius fez menção de seguir o casal, mas logo ficou quieto. Não podia fazer nada. Não podia interferir. Por mais que quisesse ouvir a conversa dos dois, ele sabia que não era assunto dele.

Alheios ao que acontecia entre os quatro, o resto da turma continuou a bagunça normalmente. E nem repararam que tanto Sirius quanto Emmy pararam de participar, e passaram a olhar constantemente para a porta da casa, local pelo qual Ellie e Remus desapareceram.


Remus foi caminhando até a cozinha dos Potter. Ellie o seguiu, enrolada na toalha, e preocupada em não molhar o chão da casa. Ele parou, e virou para trás. A garota se aproximou lentamente do namorado. Eles ficaram se olhando em silêncio. Ambos sem saber exatamente como iniciar a difícil conversa. Até que Remus entreabriu os lábios, e falou.

- Achei que você não estava na cidade.

Ellie baixou levemente a cabeça, e falou.

- Remy...

Mas Remus estava sério, e deu um passo na direção da namorada. E falou, usando um tom um pouco mais seco.

- Você me deve uma explicação.

Ellie levantou a cabeça, mas mal conseguia encará-lo. Ela fechou os olhos por um instante, e depois os abriu, respondendo.

- Eu queria te avisar, mas...

- Mas o que?

Ela ficou movendo os lábios, mas nenhum som saiu dali. Novamente baixou a cabeça, e ficou muda. Remus aproveitou para falar.

- O que há de errado com você, Ellie? Você simplesmente sumiu sem me falar nada!

Ellie levantou a cabeça rapidamente, e se adiantou na direção dele. Sua expressão era urgente.

- Remus, desculpa! Eu não queria... eu...

Mas Remus continuou falando.

- Eu fui à sua casa, e sua avó falou que você tinha ido viajar! Até achei que era uma brincadeira na hora que ela falou, mas era verdade. Você nem se deu ao trabalho de me ligar e avisar!

Ellie continuava com a expressão de súplica, e falou, numa voz falha.

- Eu... desculpe, eu não pensei antes de agir, eu acabei...

O olhar sério de Remus a fez parar de falar. E ele completou, num tom ácido.

- E quando você pensa antes de agir?

Ellie desviou o olhar, e falou, num tom magoado.

- Você não está sendo justo comigo. Eu tenho me comportado bem ultimamente.

Mas Remus levantou uma sobrancelha, e rebateu.

- Justo? Ellie, eu estou cansado desse seu tipo de comportamento. Quantas vezes eu já tive que te livrar de enrascadas? Quantas vezes você simplesmente fez o que te deu na telha, sem pensar nas conseqüências?

Ellie imediatamente lembrou-se do beijo de Sirius, e isso a fez ficar com um nó na garganta. Mas ela conseguiu se manifestar, dizendo.

- Eu estou melhor agora. Você... me deixa mais calma. Você me faz bem, Remy...

A frase dela surtiu um efeito imediato nele. De fria, a postura dele passou à suave, e ele se aproximou dela. Seu tom de voz ficou mais brando.

- Ellie... você não pode sair por aí fazendo essas loucuras. Eu fico preocupado.

Ela nem pensou, e se jogou nos braços do namorado. Ele a abraçou, passou a mão pelos cabelos dela, e disse.

- Mas isso não está certo. Você...

Mesmo abraçada a Remus, Ellie levantou a cabeça, e perguntou.

- Eu?

Remus se afastou um pouquinho para falar.

- Você não pode depender de mim para se acalmar. Não pode esperar que eu fique o tempo todo contendo seus ímpetos. Tem que aprender a fazer isso... sozinha.

Ellie franziu a testa imediatamente. Ela se afastou dele, e falou, num tom incrédulo.

- O que você quer dizer com isso?

Remus inspirou, e respondeu.

- Eu não acho que seja a pessoa mais indicada para ficar ao seu lado, neste momento.

Ellie abriu a boca, ainda mais incrédula. E falou, numa voz falha.

- Você... você está... terminando comigo?

Remus desviou o olhar, e Ellie avançou na direção dele. Parou bem em frente ao namorado e o encarou fixamente.

- É por causa da Emmy, não é?

Remus franziu a testa, não acreditando nas palavras dela. E rebateu.

- O que a Emmeline tem a ver com isso tudo?

Ellie cruzou os braços na frente do peito, e respondeu.

- Eu vi vocês dançando ontem à noite.

Remus pareceu desconcertado por um momento, mas rebateu num tom amargo.

- E você por acaso vai me explicar o que diabos você foi fazer em Birmingham com o Sirius?

Ellie recuou imperceptivelmente. As imagens dos lábios de Sirius tocando os seus, os dois dormindo abraçados, a música que ela cantou, tudo rodava em sua cabeça. Mas ela conseguiu manter um pouco de postura, e falou.

- Eu... fui ajudar ele.

- Ajudar? Com o que?

Ellie demorou um instante para responder.

- Eu... não posso te dizer.

Remus olhou para Ellie, e sua expressão era completamente incrédula. Ele riu de nervosismo, e falou.

- Não pode me dizer?

Ellie levou uma mão à nuca, tentando achar uma saída. Mas não tinha nenhuma. Tinha feito uma promessa a Sirius, e não ia quebrar de maneira alguma.

- Não é um assunto meu, não posso te contar.

Remus olhou para a namorada de uma forma estranha, que ela nunca tinha visto antes. Ele ficou examinando a expressão dela atentamente, como se tentasse descobrir algo ali. E finalmente falou.

- E desde quando você fica guardando segredos para o Sirius? Vocês nem são amigos!

- Somos sim! – Ellie rebateu de imediato, sem pensar. No instante seguinte se arrependeu, ao ver a expressão no rosto do rapaz.

Remus parecia ainda mais desconfiado. Ellie desviou o olhar quando ele começou a falar.

- Vocês são amigos? Eu preciso por acaso te lembrar as inúmeras vezes em que ele te tratou mal? Ou mesmo da última vez que você saiu chorando daqui porque ele foi grosseiro com você?

As constatações de Remus doeram em Ellie mais do que ela podia imaginar. Recordar como Sirius a tratou mal era dolorido demais, muito mais dolorido do que deveria. Mas Ellie manteve sua determinação, e falou, com uma voz embargada.

- Eu... prometi.

Remus sentiu-se amolecer ao ver a expressão no rosto de Ellie. Ele se aproximou dela, e a envolveu com os braços. Ela apoiou a cabeça no ombro dele, e o rapaz falou.

- Eu detesto brigar com você.

Ellie fungou de leve, e respondeu.

- Eu também.

Os dois ficaram abraçados por um bom tempo, em total silêncio. Até que Remus falou, suavemente.

- Não precisa ser algo definitivo... podemos, sei lá... tentar durante um tempo.

Ellie apenas levantou o rosto, e falou, num tom conformado.

- Mas... eu gosto tanto de você...

Remus beijou a testa dela, e falou.

- Eu também, Ellie. E é por gostar tanto assim de você que acho que você deve tomar suas decisões sozinha. Eu não gosto de ficar te cobrando nada, e acho que nem deveria. Talvez...

Ellie franziu a testa, e ele esclareceu.

- Talvez eu é que não seja a pessoa certa para você. Você não tem que mudar para ficar comigo, e eu fico te exigindo isso...

Ellie respirou fundo. Estava confusa. Não sabia o que pensar. Queria ficar perto de Remus, mas no fundo sabia que ele tinha razão. Eles eram muito diferentes. Mas ela não queria deixá-lo, ele fazia muito bem a ela, ele sempre fora uma espécie de porto seguro. Só que prendê-lo num relacionamento que não estava dando certo era errado, e ela não era egoísta a este ponto. Ela tinha que deixá-lo ir embora.

- Eu sinto muito. – ela falou, sem saber mais o que dizer.

- Não sinta. – Remus respondeu – Isso não quer dizer que nós não possamos ser amigos, ou que, quem sabe no futuro...

- Você acha que isso é possível? – Ellie perguntou.

Remus olhou diretamente nos olhos de Ellie. E falou.

- Eu acho que tudo é possível.

Lentamente, Remus foi aproximando seu rosto do de Ellie. Ela fechou levemente os olhos, e os lábios dos dois se uniram. O beijo foi suave, delicado, cheio da intimidade que somente duas pessoas que estão juntas há muito tempo partilham. Quando eles se afastaram, Ellie tinha uma pequena lágrima correndo solitária pelo rosto. Remus secou a lágrima, e observou o rosto dela.

Ele também não queria deixá-la, mas aquela situação estava se prolongando por muito tempo. E a última coisa que ele pretendia no mundo era magoar Ellie. Só que seus novos sentimentos estavam deixando o rapaz muito confuso, e ele preferia terminar o namoro com a garota do que acabar fazendo uma besteira. Ele jamais se perdoaria se acabasse traindo Ellie. Ela não merecia isso, e não tinha culpa, quem estava confuso era ele. Ela não podia pagar por isso. Então essa era a melhor solução.

Lentamente, eles se afastaram um do outro. Ellie estava sentindo um enorme vazio. Parecia que ela estava oca por dentro. Ela não conseguia chorar, a lágrima solitária foi a única que rolou em seu rosto.

Ela observou Remus, e viu um tanto de alívio no rosto dele. Ela também queria sentir aquele alívio, mas não conseguia. Algo a estava deixando nervosa. Algo que ela não sabia o que era. Parecia que seu coração estava acelerado, descontrolado. Ela respirou profundamente algumas vezes, e Remus falou.

- Ellie... você está bem?

Ela concordou com a cabeça, e falou.

- Estou sim. Só quero ir para casa, quero... pensar um pouco.

Ele tocou levemente os cabelos da jovem, e falou.

- Eu também vou embora.

Ellie ficou incomodada com a frase dele, e falou.

- Não, fica com o pessoal. Eu vou.

Ao terminar a frase, ela saiu andando até o jardim. Como um zumbi, Ellie simplesmente foi até suas coisas, reuniu tudo, sem olhar para ninguém.

Obviamente Sirius notou quando ela chegou, mas não conseguiu formular algo bom o suficiente para dizer. E então, quem se manifestou foi Lily.

- Ellie, aonde você vai?

Ellie mal levantou o rosto para responder.

- Eu vou... para casa. Tenho que ir... depois falo com você.

Terminando a frase, ela simplesmente virou de costas, e foi embora. Lily franziu a testa, e falou.

- O que foi que aconteceu?

Sirius engoliu em seco. Teve que reprimir um ímpeto de sair da piscina e seguir a garota imediatamente. Mas não podia, não com tantas pessoas para assistir a cena. E, principalmente, não com Remus, que estava agora parado na frente da porta que ligava a casa dos Potter ao jardim.

Lily viu o amigo ali, e perguntou.

- Remus, o que aconteceu com a Ellie? Ela saiu correndo sem falar nada...

Remus estava com o olhar perdido, mas logo se recuperou e respondeu.

- Ela... teve que ir. E eu acho que vou também.

- Mas você acabou de chegar. – falou James.

- Não estou muito no ânimo para piscina. – ele respondeu, tentando usar um tom normal.

Emmy observou o rapaz, e notou que havia algo errado com ele. Mas, sem coragem de perguntar o que era, ficou calada.

A única coisa que ela pode fazer foi observar Remus Lupin se afastando, e saindo de sua visão. Desaparecendo porta afora.


A festa na piscina perdeu em animação quando Remus e Ellie foram embora. Um clima estranho se instalou na casa, e logo os convidados estavam indo embora. No final, sobraram apenas James, Sirius, Lily e Emmy. Mas logo a loira deu uma desculpa, e foi embora.

Lily caminhava em direção a casa. Ela estava satisfeita com o fato da bagunça da festa ter sido arrumada, e assim ela não teria que ligar para os pais contando o ocorrido. E também estava satisfeita por achar que toda a situação estranha com James tinha sido resolvida.

Mesmo que de tempos em tempos ela se lembrasse do beijo, agora Lily estava convencida de que James tinha lhe dado aquele beijo porque estava muito bêbado. Provavelmente nem sabia que era ela ali. Por mais reconfortante que esse pensamento fosse, ela ainda sentia uma ponta de dúvida e nervosismo, mas eles eram prontamente ignorados pela garota. Ela precisava esquecer tudo aquilo, e seguir sua vida normalmente.

Quando apenas os três irmãos se encontravam em casa, Lily anunciou que iria fazer o almoço. Mas as reações dos dois foram bastante inesperadas. Sirius, assim que ouviu a irmã, falou.

- Ah, Lily... não precisa se incomodar. Eu vou... dar uma volta. Como qualquer coisa na rua.

Antes que ela pudesse protestar, Sirius subiu as escadas da casa, e sumiu pela porta de seu quarto. E James imediatamente falou.

- Não estou com fome não, Lily. Vou tomar banho e dormir um pouco.

Sem olhar para trás, James subiu as escadas, deixando Lily sozinha no primeiro andar da casa.

Lily franziu a testa, e colocou a mão na cintura. O que estava acontecendo com todo mundo naquele dia?


Assim que entrou em seu quarto, James fechou a porta. Encostou suas costas na parede ao lado, e fechou os olhos.

Sirius ia sair. E ia deixar Lily e ele sozinhos em casa.

Ele precisava ficar afastado de Lily.

A imagem dela, só de biquíni, ficava perturbando o rapaz a cada instante. Ele tinha conseguido se forte, e ignorar este fato na presença dos amigos. Mas agora, que eles iam ficar sozinhos, era muito difícil deixar a visão de lado.

Então ele arrumou uma desculpa qualquer, e subiu para seu quarto. Precisava espairecer.

O rapaz foi até o chuveiro, tirou a roupa de banho, e entrou debaixo da água fria. Lutou muito para esquecer a visão do corpo de Lily, e acabou girando ainda mais a torneira do chuveiro, buscando a água mais fria que conseguisse. Logo saiu do chuveiro, e enrolou a toalha na cintura.

Foi só ele deixar a água fria que os pensamentos voltaram.

O biquíni dela tinha lacinhos nas laterais.

Ele passou um bom tempo durante a manhã imaginando se ele puxasse o lacinho, o biquíni dela cairia.

O sol batia nos cabelos ruivo-escuros da garota. Ela ficava ainda mais linda assim.

Volta e meia a parte de cima do biquíni dela saía um pouco do lugar, e o movimento que ela fazia para recolocá-lo na posição correta iria certamente mandá-lo para um hospício. Era totalmente tentador.

James fechou os olhos, e imaginou Lily deitada sobre ele, em sua cama, usando só aquele maldito biquíni verde claro que ela estava usando mais cedo. Ele visualizou os lábios dela se colando nos dele...

- Chega! – ele falou em voz alta.

James foi até o armário, buscou algo para vestir. Pegou apenas uma bermuda velha qualquer, e vestiu. Largou-se em sua cama, tentando evitar o pensamento constante que lhe ocupava: Lily.

Mas era impossível. Desde o beijo, da noite anterior, ele mal conseguia raciocinar. Mal conseguia pensar em outra coisa. Estava tentando o tempo todo se distrair, para não pensar nos lábios dela, mas estava sendo cada vez mais difícil.

E o pior é que ele nem soube direito de onde isso surgiu.

Lily sempre fora aquela garota que vivia na casa dele. Inicialmente, ele não gostava dela. Achava que ela estava invadindo sua família. Sirius era seu parente de sangue. Lily era apenas uma estranha que apareceu em sua casa, e passou a morar lá.

Com o tempo, ele foi acostumando com ela. A garota não era tão ruim assim, era até legal. Mas o hábito de sempre implicar com ela foi mantido, principalmente porque as reações dela era tão engraçadas que ele continuou. E, como todo hábito, ele acabou se solidificando, e não foi embora nem mesmo quando eles cresceram.

À medida que Lily crescia, James passou a perceber como ela estava ficando bonita. Mas, inicialmente, isso não lhe chamou a atenção. Ele conhecia muitas garotas bonitas. Algumas lindas. Mas Lily era diferente de alguma forma, e ele não conseguia identificar o motivo. O sentimento foi gradativamente aumentando com o tempo, mas ele ainda estava convencido de que Lily era sua irmãzinha caçula, e ele apenas estava sendo protetor como todo irmão mais velho.

Ele não conseguia notar a diferença gritante do comportamento de Sirius com Lily, para o próprio comportamento com a garota. Sirius era como um irmão mesmo para Lily. Ele a ajudava, a defendia. Mas James não. Ele continuava implicando com ela. Até o dia que ela anunciou que iria sair com um rapaz de Hogwarts.

James nunca soube de um encontro de Lily antes daquele dia. Raciocinando friamente, ele sabia que ela já tinha tido outros encontros, mas ela provavelmente era muito discreta, e não contava para ninguém da família, com exceção talvez da mãe. Mas, quando ela anunciou que iria sair com Kyle Wilshire, James notou que havia algo diferente ali. E foi neste instante que ele percebeu o sentimento que já o dominava há muito tempo.

James não queria que Lily saísse com ninguém. Ele demorou alguns dias para entender o porquê, mas logo ele percebeu o motivo.

Ele não queria que Lily saísse com ninguém porque queria ela somente para si.

Neste dia, James destruiu todas as cordas de sua guitarra durante o ensaio de sua banda. E ainda tentou chutar um cachorro que encontrou na rua, apesar de não conseguir porque o bicho fugiu correndo.

Aquilo era errado. Ele tinha certeza. Tentou fugir, se enganar, mas era verdade. Ele queria Lily. E a queria somente para ele.

Esse sentimento, que parecia latente e adormecido por muito tempo, explodiu de uma forma que ele não conseguia mais controlar. Por noites e noites seguidas ele parava na porta do quarto de Lily, e ficava lá, em pé, sem coragem de bater na porta. Ele queria falar com ela o que sentia, mas não podia.

Com o passar do tempo, seu sentimento de culpa aumentou. Ele estava se sentindo no limite. E foi aí que ele teve a idéia.

Numa tarde qualquer, ele estava em seu quarto. Tinha pegado vários livros na biblioteca de seu pai, e os lia, tentando se distrair. Foi quando, folheando um livro com sonetos de Shakespeare, que ele teve uma idéia. Não podia revelar exatamente a verdade para Lily, mas podia ao menos contar o que sentia. Sem revelar sua real identidade para ela. Buscou um dos sonetos que conhecia, e transcreveu, com uma máquina de escrever, linha por linha do poema. Colocou num envelope, e escreveu o nome dela do lado de fora. Esperou um momento em que ninguém estivesse por perto, e colocou a carta na caixa de correio. E esperou.

Obviamente James notou quando ela recebeu a carta. Lily ficou alucinada. Ele tinha certeza que ela não sabia quem era o remetente. Viu a garota buscando alguma fonte de informações, vigiando de maneira não muito discreta a caixa de correio da casa. Isso o divertiu por algum tempo. Mas acabou se mostrando insuficiente. Ele precisava de mais.

Enviou outra carta. Lily novamente ficou paranóica. Mas, desta vez, ele não se divertiu tanto quanto imaginava. Ele sentiu vontade de ir ao quarto dela, e contar que era o remetente das cartas. Mas nunca tinha coragem, e morria de medo da reação dela. Tinha certeza que Lily iria considerar seus sentimentos algo absurdo, algo doentio.

Então ele nunca reuniu a coragem que precisava para revelar a verdade. Assim, ele achou que conseguiria levar a situação até que fosse para a faculdade, e saísse de casa. Achava que o afastamento da garota poderia ser uma boa saída. Mas o destino lhe pregou uma peça, e ele viu Lily se aproximando cada vez mais, desde que seus pais tinham ido viajar. E tudo culminou com o beijo da noite anterior.

Perturbado com a lembrança, James sentou-se na sua cama. Passou a mão pelo rosto, de forma nervosa. E, decidido, levantou-se, indo até sua escrivaninha.

Abriu uma das portas do pequeno armário. Atrás de alguns livros e revistas, escondidos, estavam alguns pequenos livros com capa de couro. O rapaz folheou rapidamente um deles, e depois o deixou de lado. Folheou o segundo, cuja capa dizia apenas, em letras douradas: Pablo Neruda. Buscou em suas páginas, e achou o que queria.

Leu e releu o soneto. E sabia que era aquele.


Lily almoçou sozinha naquela tarde. Ela ainda tentou convencer Sirius a comer junto com ela, mas o rapaz apenas tomou banho, e saiu apressado porta afora. James, então, ela nem tentou chamar. Ele ficou trancado no quarto a tarde inteira.

Quando Sirius trancou a porta de sua casa, ele sabia exatamente onde estava indo. Saiu com sua moto, mas a estacionou no quarteirão seguinte de sua rua. E voltou caminhando, a pé.

Ele não queria que Lily ou James soubessem onde ele estava indo. Mas seu destino estava marcado desde o instante que ele viu a expressão de Ellie, quando ela saiu de sua casa. Ele não conseguia pensar em mais nada. Apenas no olhar vazio e triste da garota.

Então isso fez o rapaz parar em frente à casa dos Dumbledore. E tocar a campainha.

Alguns minutos depois, uma das empregadas da casa abriu a porta. Sirius agradeceu internamente que não fosse a Sra. Dumbledore, avó de Ellie. Não saberia explicar o que estava fazendo ali.

- Ah... a Ellie está? – ele perguntou.

- Sim, ela está no quarto dela. Pode subir. – foi a resposta que ele recebeu.

Sirius apressou-se em subir as escadas. Conhecia muito bem aquele caminho, mas não o fazia há muito tempo. Por um instante, ele se lembrou de tempos passados, que aquele caminho era percorrido quase diariamente. Agora, ele era quase um estranho naquela casa.

Ao chegar à porta do quarto de Ellie, Sirius hesitou. Não tinha exatamente um motivo para estar lá, e seria um pouco estranho ter que admitir que ele fora vê-la porque estava preocupado com sua expressão. E, só de pensar o olhar que ela lhe daria de volta, ao falar isso, ele sentia calafrios. Seria melhor que ela simplesmente ignorasse sua presença ali.

Mas Sirius foi vencido pela preocupação. Ele bateu três vezes na porta do quarto da garota, que estava fechado. Depois de dois segundos, ela respondeu.

- Entra.

A voz dela estava estranha. Mau sinal.

Sirius abriu a porta suavemente. E encontrou Ellie deitada em sua cama, de pijamas.

Ela apenas levantou o rosto brevemente, com uma expressão desanimada. E quase deu um pulo quando viu que era Sirius que entrava ali.

- Sirius! – ela exclamou.

Ele quase ficou feliz com a reação da garota. Ela certamente perdeu o ar de desânimo.

- Oi. – ele falou. – Posso entrar?

Ellie rapidamente sentou na cama, e responder.

- Ah... claro, entra aí.

Sirius lentamente entrou no quarto de Ellie. Não sabia exatamente o que fazer, então parou em frente à cama dela. E olhou para o rosto da garota.

Todas as suas dúvidas se dissiparam. Mesmo com a expressão de surpresa por encontrá-lo ali, Sirius viu que ela estava triste. Parecia até que estivera chorando.

- Ellie, o que aconteceu? – ele perguntou diretamente, se aproximando ainda mais.

Ellie baixou a cabeça por um instante, e respondeu.

- Ah... é que...

Ela não conseguia dizer. Não conseguia contar para Sirius. Era como se, no momento que ele soubesse que ela e Remus tinham terminado o namoro, tudo mudaria entre os dois.

Mas Sirius simplesmente sentou na cama dela, mesmo sem convite, e ficou de frente para a garota. Numa estranha inversão de valores, ele agora estava preocupado com ela, e era ela que precisava de atenção. Ela era a pessoa que precisava de ajuda, e ele era a pessoa que iria ajudar.

- Conta pra mim.

A frase simples, mas dita com tanta delicadeza fez Ellie levantar o rosto, e encarar o rapaz sentado em sua frente. E, como se não pudesse conter sua boca, ela falou.

- O Remus terminou comigo.

O choque da notícia fez Sirius arregalar os olhos, e não medir a resposta.

- Ele o que?

Ellie ficou constrangida em ter que repetir. Mas falou, agora numa voz mais incerta.

- Ele terminou o namoro comigo. Quer dizer... acho que fomos os dois... eu não sei. Só sei que... nós não estamos mais juntos.

Sirius sentia seu coração acelerado, batendo descompassado no peito. Aquilo não podia ser verdade. Não parecia verdade. Ele sempre sonhara em ouvir da boca de Ellie aquelas palavras, mas agora que ele tinha ouvido, parecia tão surreal que ele não conseguia acreditar.

Mas ele logo viu o rosto dela descendo, e sua expressão murchando, e isso o fez esquecer-se de si mesmo. Ela estava triste. Estava chateada. Tinha perdido o namorado.

- Eu... sinto muito. – Sirius conseguiu falar.

Ellie apenas sacudiu a cabeça. Mas ficou muda.

Sirius não sabia o que fazer. Queria ficar ao lado dela, dizer que tudo ficaria bem. Mas não conseguia, e ainda temia que seus sentimentos se sobressaíssem, magoando-a de alguma forma. E isso era o que ele menos queria.

Ellie se afastou um pouco, e encostou as costas num dos travesseiros apoiados na cabeceira da cama. Sirius sentiu algo inesperado. Era para ele estar comemorando internamente. Ellie estava solteira, e ele poderia nutrir algum tipo de esperança. Ele deveria estar muito feliz.

Mas não estava. Ela estava triste, e isso acabava com qualquer possibilidade dele ficar feliz. Era impossível. Ele sentia por ela.

Ellie ficou olhando para o nada, e Sirius sentiu uma necessidade absurda de fazer com que ela se sentisse melhor. E ele começou a falar, sem pensar direito no que dizia.

- Não fica assim, vai ver... isso tudo muda. E vocês... sei lá, se entendem de alguma forma.

Ellie franziu a testa, e falou.

- Por que você está dizendo isso, Sirius? Por acaso você se importa se eu e o Remus estamos ou não juntos? Você nem ligava para minha existência duas semanas atrás.

Sirius não podia dizer, mas teve vontade de falar o quanto ele sempre se importou com ela. Ficou calado por alguns instantes, e isso a fez entender errado o silêncio dele. Ela achou que ele estava concordando com o que ela dizia.

Encolhendo-se em sua cama, Ellie apenas falou.

- Eu... quero ficar sozinha. Por favor...

Sirius tentou falar alguma coisa, mas nada lhe vinha à mente. Resignado, ele apenas levantou-se, e se despediu.

- Tchau...

Ellie não respondeu, mas ele a viu afundando a cabeça no travesseiro de maneira bem mais intensa. Antes de fechar a porta, e sair, ele ainda observou a garota deitada na cama. Com o peito apertado, ele pensou que tinha que fazer alguma coisa. Era doloroso demais sequer pensar em Ellie sofrendo.


Alguns dias se passaram, e eles pareciam se arrastar lentamente e de uma forma um tanto incômoda.

Lily mal via os irmãos. James e Sirius estavam sempre saindo, ou então enfurnados nos próprios quartos. Ela falou brevemente com Ellie pelo telefone, e uma vez pessoalmente, quando a amiga lhe contou sobre o término do namoro. Lily ficou preocupada com Ellie, mas a amiga não chorou, disse que era a melhor solução, e que só queria que Remus fosse feliz. Lily achou que Ellie estava escondendo algo dela, e tentou ficar próxima da amiga, mas Ellie sempre dava uma desculpa, dizendo que estava muito ocupada ajudando a avó em seus afazeres. Lily ficou desconfiada, mas nada podia fazer. Até porque ela mesma estava escondendo algo de Ellie: ela não tivera coragem de contar para a melhor amiga o que tinha acontecido entre ela e James na festa.

Lily até pensou em contar, mas a vergonha era tanta, e ela não tinha certeza da reação de Ellie, entoa acabou desistindo. Era algo tão estranho, e seus sentimentos estavam tão embaralhados sobre o que sentia a respeito do beijo, que ela resolveu não contar para ninguém.

Mesmo tendo certeza de que James a beijara por acidente, Lily não conseguia parar de pensar no assunto. E James estava tão distante, e por vezes até grosso com ela, que isso a fazia ficar cada vez mais confusa. Normalmente ela teria dado uma enorme bronca nele, reclamado, mas agora ela nem isso conseguia. Só de ver James, ela ficava nervosa. Suas mãos suavam, e ela não sabia o que dizer.

Emmy também tinha sumido, assim como Remus. Ela sabia que a nova vizinha estava ensaiando muito, e Remus também. Emmy contou, por telefone, que tinha sido escolhida para participar da apresentação de Balé do estúdio da Sra. Clark, a mesma em que Remus tocaria, no Royal Opera House. Ela agora precisava ensaiar constantemente, e isso a fazia ficar quase o dia todo fora.

O rapaz estava obviamente ensaiando sua participação, e Lily se via cada vez mais sozinha.

Ela estava deitada no sofá, numa tarde preguiçosa, lendo um livro. James não estava em casa, e Sirius estava trancado no quarto dormindo. Ela estava distraída pelo livro, até que ouviu um barulho do lado de fora da casa. O som chamou sua atenção, e ela viu sua origem.

O carteiro colocava as cartas na caixa de correio. Uma ansiedade estranha percorreu seu corpo. Ela tinha praticamente esquecido do seu correspondente misterioso. Será que ele tinha colocado uma nova carta lá para ela? Fazia algum tempo que ele não mandava nada.

A garota levantou num pulo, e correu até o lado de fora da casa. O carteiro já tinha ido embora quando ela abriu a caixa de correio.

Passando rapidamente a correspondência entre as mãos, ela finalmente localizou, na última carta, o que procurava. Um pequeno gritinho acompanhou a constatação. Ele novamente mandara algo.

Lily correu para dentro de casa. Pensou em ligar para Ellie, mas mudou de idéia ao lembrar que a amiga tinha acabado de terminar o namoro, e provavelmente só ficaria ainda mais chateada ao ler uma carta de amor.

Lily subiu as escadas correndo, depois de largar a correspondência comum na sala. Ela entrou em seu quarto, e fechou a porta. Abrindo o envelope sem muito cuidado, ela logo chegou ao conteúdo da carta. Novamente apenas uma folha. Novamente datilografado.

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio

ou flecha de cravos que propagam o fogo:

te amo como se amam certas coisas obscuras,

secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva

dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,

e graças a teu amor vive escuro em meu corpo

o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,

te amo diretamente sem problemas nem orgulho:

assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és

tão perto que tua mão sobre meu peito é minha

tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

Lily ficou totalmente sem fôlego quando terminou de ler a carta. Ela releu diversas vezes depois, para ter certeza que tinha entendido tudo. E, a cada vez que lia, via um significado oculto em cada palavra.

Aquela carta era a mais intensa, a mais íntima que ela tinha recebido desde então. Era como se o remetente estivesse revelando mais de si mesmo, mais de sua alma, para ela.

- Oh meu Deus... – escapou dos lábios de Lily, muito baixo.

A garota se jogou na própria cama. A carta ainda nas mãos. Leu mais uma vez.

Seu correspondente estava ficando cada vez mais próximo. Mas íntimo. Falava mais abertamente o que sentia.

Foi então que, relendo pela milésima vez o poema, que Lily teve um pensamento estranho. Ela franziu a testa, e voltou a ler a carta.

- Não... não pode ser...

Lily tinha certeza que estava imaginando coisas. Não podia ser verdade. Nem sequer fazia sentido.

Mas ela se permitiu imaginar um pouquinho. Será que podia ser possível? Será que seu correspondente secreto podia ser... James?


Ellie passou os dias após o término com Remus praticamente trancada em seu quarto. Ela não queria sair, não queria fazer absolutamente nada. Lily tentou animá-la algumas vezes, mas ela inventou algumas desculpas para a amiga. Não queria que Lily tivesse que partilhar seu péssimo humor.

Ela teve muito tempo para pensar. E refletir sobre seu namoro com Remus. Ela sentia muita falta do namorado, agora ex, mas entendia o ponto de vista dele, e inclusive acabou concordando. Eles eram muito diferentes, invariavelmente, aquilo iria acabar acontecendo.

Mas isso não a fazia sentir-se melhor, ou mais animada. Isso só mostrava como ela estava realmente fadada a ficar sozinha. Ou era nisso que ela acreditava.

Mais uma vez, Ellie encontrava-se deitada em sua cama, sem fazer nada. Olhava para o teto, sem pensar em nada. Até que o telefone de seu quarto tocou. Mesmo sem muito ânimo, ela atendeu.

- Alô.

Uma voz masculina soou do outro lado da linha.

- Alô. Ellie? É você?

Ellie franziu a testa. Não reconheceu imediatamente a voz.

- Sim.

Agora o dono da voz parecia mais animado. E ele falou.

- É o Regulus. Tudo bom?

Ellie levantou-se na cama, ficando sentada. E seu ânimo aumentou consideravelmente.

- Regulus? Nossa, que bom falar com você! Como estão as coisas aí em Birmingham?

O rapaz riu do outro lado da linha.

- Está tudo bem. Poxa, eu até achei que você não ia lembrar-se de mim...

Ellie riu, e respondeu.

- Que besteira... lógico que eu lembro. E aí, o que você manda?

Regulus ficou em silêncio por um instante, e baixou um pouco o tom de voz.

- É... que eu queria te contar... Bem, eu falei com ela...

Ellie estava bem mais animada agora.

- Com a Beatriz? E aí?

Regulus deu uma risadinha rápida, e contou para Ellie sobre o encontro não programado com a garota brasileira. Eles tinham conversado brevemente no portão da casa dela, num dia que ele estava saindo para comprar algo que a mãe pedira, e ela estava indo passear pela cidade. Não foi uma conversa longa, mas Regulus estava muito animado.

- Ela me pediu para chamá-la de Bia... – o rapaz falou, derretendo-se.

Ellie riu, e falou.

- Acho que vocês dois tem futuro mesmo!

Regulus, no seu tom empolgado de voz, falou.

- Agora conta as novidades de Londres. Como estão as coisas com você? E meu irmão, está bem?

A menção de Sirius fez Ellie estremecer. Ela se lembrou do beijo ao por do sol, e, sem saber exatamente o motivo, ela acabou contando para Regulus o que escondeu de todos, inclusive de sua melhor amiga, Lily.

- Bem, as coisas estão... bem, um pouco estranhas. – ela tomou fôlego, e concluiu – Seu irmão me beijou.

Regulus ficou em silêncio por alguns segundos. Até que ele falou, num tom levemente espantado.

- Beijou... na boca?

- É. – foi a única coisa que Ellie conseguiu responder.

- Quando? – ele perguntou.

Ellie hesitou um pouco para responder, mas finalmente disse.

- Quando estávamos voltando daí. Na estrada. Paramos um pouco e ele... me beijou.

Regulus ficou quieto por um instante, até que finalmente caiu na gargalhada. Ellie ficou espantada, mas nem teve tempo de perguntar o que estava acontecendo. Ele mesmo falou.

- Ah, eu não disse? Eu disse pra você. Ele olhava para você de uma forma...

Ellie ficou calada. Nem lembrava o que Regulus tinha falado quando eles conversaram em Birmingham. Mas, naquele momento, ela recordou-se das palavras do jovem, e isso a fez reagir instantaneamente.

- Ei, espera aí. Nós conversamos depois, e ele esclareceu tudo. Falou que foi um engano, e está tudo certo agora. Não tem nada... nada disso que você falou.

Mas Regulus continuou rindo, e falou.

- Até parece! Ele só falou isso porque você tem um namorado!

Ellie gelou de cima a baixo. Agora ela nem namorado mais tinha.

Regulus não podia estar certo. Sirius tinha explicado tudo, e parecia coerente o que ele tinha dito. Provavelmente o jovem rapaz estivesse enganado, afinal ele não conhecia o irmão direito. Sim, ele certamente estava enganado.

Ellie ia responder Regulus, mas desistiu de argumentar sobre aquele assunto. Ela desviou a conversa, perguntando sobre a mãe do rapaz, e eles logo estavam num outro assunto.

Depois de alguns minutos, e vários conselhos de Ellie para Regulus, de como puxar conversa com Beatriz, eles desligaram a ligação. Apesar do bom humor por ter conversado com o novo amigo, Ellie novamente se jogou na cama, e ficou encarando o teto.

Ela ficou pensando sobre o que Regulus tinha dito. Ele afirmava que o irmão tinha inventado que o beijo não significava nada porque ela tinha um namorado. Aquilo parecia fazer um pouco de sentido, mas Ellie não queria acreditar. Sirius tinha sido bem convincente com o que falou, e parecia real. Ele, sim, estava confuso, e estava passando por uma fase difícil. Então a chance das coisas serem exatamente como ele dissera era muito grande.

Novamente presa num assunto angustiante, Ellie se entregou à melancolia e desânimo. Ficou encarando o teto até um barulho, e uma voz a tirarem de seu devaneio.

- Ellie! Ei, Ellie!

A garota apenas virou o rosto, e viu uma cabeça entrando pela porta de sua varanda. Sirius a buscava com os olhos.

- Posso entrar?

Ellie nem se moveu. E apenas respondeu.

- Você já entrou, não é?

O rapaz foi andando até a cama. Ellie ainda estava de pijamas, e já tinha passado, e muito da hora do almoço. Então ele simplesmente falou, num tom sério.

- Levanta daí.

Ellie franziu a testa, e retrucou.

- Por quê?

Ele cruzou os braços, e falou.

- Não vou deixar você ficar fazendo isso com si mesma. Você me ajudou quando eu precisei. Minha vez de retribuir.

Ellie olhou para o rosto do rapaz. Ele parecia determinado. Ela abriu a boca para argumentar com ele, dizer que queria ficar em casa, e que não estava com bom humor, mas ele não deixou. Simplesmente se aproximou mais, e falou.

- Levanta da cama, vai tomar um banho. Vou te levar para dar uma volta.

Algo na voz dele, e na certeza absoluta que ela emanava, fez Ellie levantar sem contestar. Ela foi até o closet, pegou uma roupa qualquer, e entrou no banheiro. Tomou um banho rápido, colocou as roupas limpas, e saiu de lá penteando os cabelos úmidos.

Por mais que o cheiro do shampoo dela o deixasse inebriado, Sirius resistiu bravamente. Ele falou para a garota, numa voz firme.

- Pronta?

Ellie concordou com a cabeça. Sem saber para onde iria, e qual seria o resultado daquele dia.


Emmy estava atrasada. Recolhia suas coisas apressada, olhando sem parar o relógio. Droga, ela repetia mentalmente sem parar. Ia chegar atrasada no ensaio.

Por sorte, o estúdio da Sra. Clark era relativamente próximo, e ela pegaria um táxi na rua principal. Ela desceu as escadas rapidamente, e foi correndo até a porta. Assim que saiu, foi correndo pela calçada, tentando poupar tempo. Chegou rapidamente numa rua principal, e começou a buscar com os olhos um táxi. Localizou um, e ia acenar, até que uma voz a fez virar repentinamente.

- Emmeline?

Emmy sentiu seu corpo inteiro gelando ao som daquela voz. Ela virou, e viu Remus parado, com as mãos nos bolsos da calça. Ele parecia um pouco mais pálido que o normal, e estava com uma expressão séria no rosto.

Emmy não sabia o que dizer. A única coisa que conseguiu sentir foi um calafrio percorrendo sua coluna quando os olhos dele se focaram nela.

- Está indo para o estúdio?

Emmeline apenas acenou com a cabeça. E ele completou.

- Eu também.

Novo calafrio da garota. Agora ele estava se aproximando, e isso fazia a sensação de desespero aumentar. Ela queria sair correndo dali, mas estava completamente pregada no chão. Sem conseguir se mover.

Então a jovem reuniu coragem, e perguntou.

- Por que você está indo lá?

Remus moveu o canto da boca por um instante, e respondeu.

- Amelia pediu para que eu começasse a ensaiar minha parte com as garotas, já que eu vou tocar na apresentação, em duas músicas.

Emmy franziu a testa. Isso significava que ela iria ensaiar sua coreografia ao som da música de Remus. Se ela tivesse sorte, sua parte na apresentação não seria ao som do piano do rapaz. Mas ela iria acabar se encontrando com Remus no estúdio todos os dias, mesmo que eles não fizessem parte do mesmo programa da apresentação. E esse pensamento deixou Emmy ainda mais nervosa.

Alheio ao que se passava na mente de Emmy, Remus perguntou.

- Você está indo para lá todo dia neste horário? Achei que só ia mais tarde.

Emmy inspirou, tomando fôlego, e respondeu.

- É que eu... bem, eu vou fazer parte da apresentação também, então... tenho que ensaiar mais.

Remus ficou observando o rosto de Emmy por alguns instantes, antes de falar.

- Vai participar? Que bom, parabéns.

Emmy sentia seu rosto pegando fogo. Sabia que estava vermelha, e sabia que não conseguiria falar uma frase inteira sem gaguejar, então se limitou a agradecer.

- Obrigada.

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes. Então um táxi apareceu, e eles entraram juntos.

Emmy não sabia o que dizer. Ficava pensando em algo que não fosse completamente estúpido, mas tudo que ela pensava em dizer soava tão bobo que ela nem arriscava. E Remus, calado ao seu lado, não parecia muito disposto a conversas animadas como costumava ser.

Então Emmy resolveu arriscar, tentando eliminar o clima estranho que os cercava. E falou a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

- E como estão as coisas com você? Tudo bem?

Ela arrependeu-se imediatamente depois de falar, Inclusive porque a resposta dele foi muito vaga e sem ânimo.

- Tudo.

Emmy inspirou profundamente, e tentou dar um ar mais casual a conversa. Então procurou algum assunto que ele pudesse falar.

- E a Ellie, como está? Faz tempo que não falo com ela.

A resposta de Remus foi seca, e enfática.

- Nós terminamos.

Emmy franziu a testa. Achou que não tinha entendido direito.

- O que você disse?

Remus virou seu rosto para Emmy, e falou, desta vez de uma forma mais suave, mas mesmo assim com um toque de mágoa.

- Nós terminamos o namoro, eu e ela.

Emmeline não sabia o que dizer. Ela estava tão abismada com a informação que não conseguiu reagir. Era como se tudo estivesse muito confuso, e ela estivesse perdida. Era uma informação tão estranha, e parecia tão irreal que ela apenas ficou muda. Em completo silêncio.

Antes que ela pudesse se recompor, eles chegaram ao estúdio. Remus pagou o táxi antes que ela pudesse protestar, e foi caminhando até a porta. Mesmo em silêncio, ele abriu a porta para Emmy, que entrou sem conseguir formular uma frase para o rapaz.

Os dois logo foram cercados pelas outras bailarinas do estúdio, e Emmy não conseguiu se aproximar de Remus. Algumas de suas colegas logo engataram uma conversa sobre a coreografia, e Emmy não pode fazer nada senão ver Remus se afastando, e se encaminhando para a sala de ensaios.

Antes de entrar no vestiário, Emmy ainda olhou para a porta da sala em que Remus tinha entrado. De longe, ouviu uma melodia melancólica saindo do piano que ele tocava.


Ellie sentia o vento batendo em seu rosto. A sensação era ótima, como se a liberdade estivesse fazendo um carinho delicado em sua face. Ela fechou os olhos, e segurou um pouco mais forte na cintura de Sirius. Ele dirigia sua moto velozmente pelas ruas de Londres.

Assim que eles chegaram ao Hyde Park, ele parou a moto. E eles saltaram.

Ellie passou a mão brevemente pelos cabelos. E olhou para Sirius, dando um pequeno sorriso para o rapaz.

- Obrigada. – ela falou, de forma simples.

Sirius sabia exatamente o que ela queria dizer com aquilo. Apenas acenou a cabeça, e respondeu, usando uma frase que ambos já tinham usado entre si.

- Estou às ordens.

Ellie sorriu, e Sirius soube que ela reconheceu a frase. Ficou internamente satisfeito por eles terem pelo menos aquela pequena coisa que pertencia apenas aos dois. Era como um pequeno elo, e por mais bobo e insignificante que fosse, ele sentia que era um elo com Ellie. E ele nunca menosprezaria nada a respeito dela.

Ellie ficou alguns instantes em silêncio, esperando Sirius falar alguma coisa. Ele tinha tirado ela de casa, e agora ela esperava que ele falasse o que eles iriam fazer. Sirius ficou olhando para o rosto dela por algum tempo, encantado com o pequeno sorriso que brincava em seus lábios. Então ela finalmente quebrou o silêncio, falando.

- E agora?

Sirius franziu a testa, e ela explicou.

- O que vamos fazer? Você me tirou de casa por algum motivo, né?

Sirius franziu a testa. Não tinha planejado algo específico, apenas queria que ela saísse daquele circulo vicioso de tristeza no qual estava presa. Ele queria animar a garota, mas não pensou em nada. Agora ele percebeu que deveria ter planejado algo, em vez de simplesmente sair de casa, ir atrás dela e a retirar de casa. Ele nem pensou, só queria que ela se sentisse melhor.

- Ok. Bem... não tenho idéia do que fazer.

Ellie olhou para Sirius. Levantando uma sobrancelha, ela falou.

- Você é oficialmente o pior animador de pessoas do mundo.

Sirius ficou olhando para ela durante alguns segundos. Era incrível como ela conseguia ser de uma sinceridade tão natural ao falar com ele. E, no momento seguinte, ele começou a rir.

Ela ficou observando o rapaz rir. Inicialmente ela estranhou, mas logo se rendeu, e o acompanhou no riso. Ela sentiu peso saindo de seus ombros. Foi como se rir junto com Sirius fosse algo muito fácil e natural. Algo confortável. E algo também muito bom. Era muito bom vê-lo rindo. Era como se eles estivessem novamente durante a infância. Como se nada de ruim tivesse acontecido.

Quando eles pararam de rir, Sirius retomou.

- Certo, certo. Você já se divertiu o suficiente à minha custa.

- Não o suficiente ainda. – ela rebateu, rindo novamente.

Sirius sorriu de lado, e devolveu.

- Ok, espertinha. Vamos fazer alguma coisa divertida ou não?

Uma imagem muito rápida de Sirius com os lábios colados nos dela passou voando pela mente de Ellie. Ela balançou imperceptivelmente a cabeça, afastando a imagem. E falou, num tom bem próximo ao normal.

- O que você sugere, espertalhão?

- Quer ir ao cinema? Ou tomar um sorvete?

Apesar de adorar as duas atividades, Ellie colocou as mãos na cintura, e falou, com um olhar irônico.

- Eu não tenho dez anos, sabia?

- Então o que você sugere, já que não gostou das minhas idéias?

Ellie pensou durante um instante, e respondeu.

- Algo emocionante. Algo diferente.

Todas as possibilidades que Sirius conseguia pensar envolviam os dois em locais reservados, usando muito pouca ou nenhuma roupa. Tentando evitar essa seqüência de pensamentos que invariavelmente teriam sempre o mesmo fim, ele olhou para o lado. E uma idéia bem mais aceitável lhe ocorreu.

- Quer... que eu te ensine a dirigir?

A garota franziu a testa. E rebateu imediatamente.

- Eu sei dirigir.

O rapaz começou a esboçar um sorriso enquanto completava.

- Dirigir... a minha moto.

Ellie foi lentamente abrindo um sorriso tão grande quanto animado. Seus olhos brilhavam de empolgação. Ela sempre desejara aprender a dirigir uma moto, mas ficou tanto tempo afastada de Sirius que nunca teve a coragem de pedir que ele lhe ensinasse.

- Mas é claro que eu quero! – ela falou, toda animada.

Satisfeito por tê-la agradado, Sirius sentiu uma onda de felicidade invadi-lo. Ellie foi logo em direção à moto, e queria subir imediatamente. Mas Sirius a impediu, falando.

- Ei, calma. Tenho que te passar a parte teórica primeiro.

Mas ela parecia muito excitada para isso. E logo retrucou, sorridente.

- Mas eu sei a parte teórica! Quantas vezes já andei na sua garupa? Sei tudo de cor.

Sirius franziu a testa. Ela parecia uma criança na noite de natal. Estava tão animada que seria mesmo uma maldade ter que obrigá-la a ouvir uma enorme lista de recomendações. Então Sirius resolveu que a ajudaria na prática. Ele montou na moto, e falou.

- Ok. Sobe na frente. Vou te ajudar da garupa, assim você não corre o risco de cair com o peso da moto.

Ellie obedeceu imediatamente. Colocou as mãos no guidão, e falou.

- Estou pronta.

Sirius sorriu brevemente, e começou.

- Ok, espertinha. Pode sair. Mas lembre-se de acelerar bem devagar.


O treino no estúdio de Amelia Clark foi quase uma tortura para Emmy. Não que ele fosse muito puxado, ou que ela não estivesse gostando. É que a presença de Remus, ali tão perto, a estava deixando completamente desconcentrada. Ainda mais quando ela descobriu que ele seria o solista de piano exatamente nas duas vezes que ela participaria como bailarina principal da apresentação. Segundo Amelia Clark, os dois tinham uma excelente química juntos, e aparentemente os outros membros da companhia concordavam com isso. Emmy não pode fazer nada senão aceitar.

Quando ela saiu do vestiário, já de banho tomado, esperava ver o estúdio quase vazio. Algumas meninas ficavam até mais tarde treinando, e ela até queria ficar, mas ficou receosa em voltar sozinha para casa de noite. Preferia ficar treinando em casa, sozinha. Num lugar onde Remus não estaria presente, e ela poderia se concentrar totalmente apenas em seus movimentos.

Emmeline então jogou sua mochila nas costas, e saiu do estúdio. Foi caminhando até a calçada, mas logo ela parou, estática. Remus estava parado ali, em pé. E ele parecia estar esperando a garota.

Lentamente, ele se aproximou. E olhou para Emmy diretamente nos olhos.

O silêncio tomou conta dos dois. Após alguns segundos, Remus falou.

- Terminou por hoje?

Emmy concordou com a cabeça. Ainda não sabia o que falar com ele.

Por sorte, um táxi vazio foi se aproximando, e ela se adiantou para chamá-lo. E os dois entraram no veículo.

Depois de acomodados dentro do táxi, Remus virou seu rosto para Emmy, e falou.

- Olha, Emmy, eu queria te pedir desculpas...

A garota olhou para ele com uma expressão assustada. E falou, imediatamente.

- Por quê?

Remus inspirou profundamente, e falou.

- Eu fui rude com você mais cedo. Você não tem culpa do meu mau humor.

Emmy baixou a cabeça. E falou, numa voz baixa.

- Você não foi rude.

Remus moveu os lábios muito rapidamente, num pequeno sorriso. E ele falou, também num tom baixo.

- Você é muito generosa.

Emmy levantou o rosto, e o observou por um instante. Agora ele parecia muito mais com o rapaz que tinha conhecido em frente a sua nova casa. Parecia mais tranqüilo.

- Você é que é generoso. Você me ajudou, e nem me conhecia direito. – ela falou, e estava sendo sincera.

Remus deu um pequeno sorriso, e falou.

- Então seja generosa comigo, e diga que me perdoa.

Emmy manteve seus olhos nos olhos de Remus. E respondeu. Sua voz era suave e baixa.

- Não tem nada para perdoar. Está tudo...

Emmy se perdeu no que ia dizer. Os olhos de Remus estavam sendo hipnotizantes novamente.

Os dois se encaravam em silêncio. Remus abriu a boca para falar, mas o taxista o interrompeu.

- Chegamos.

Emmy acordou do devaneio, e rapidamente buscou na bolsa o dinheiro para pagar o táxi. Quando levantou o rosto, viu que Remus tinha sido mais rápido, e tinha pagado ao motorista.

Levemente contrariada, ela saiu do carro, e reclamou.

- Ei, você pagou as duas vezes. Era minha vez!

Mas Remus apenas fechou a porta do táxi, e falou, sorrindo, para ela.

- Não posso nem ser cavalheiro com você?

Mas ela não achou graça, e resmungou.

- Devia ser cavalheiro o suficiente para me deixar pagar pelo menos a volta.

Remus então riu da frase dela. Mas se aproximou lentamente da garota, e falou, agora num tom mais sério e baixo.

- Eu deixo você pagar a próxima se continuar a frase que estava dizendo dentro do táxi.

Emmy recuou um passo. Seu rosto ficou corado, e ela baixou um pouco a cabeça. Mas isso não fez Remus se afastar. Ele novamente diminuiu a distância entre os dois. Agora eles estavam exatamente no meio da distância entre a casa dele e a casa dela.

Remus foi um tanto mais ousado, e levantou a mão suavemente, tocando a ponta dos cabelos dela. E falou novamente.

- Termina a frase que você estava dizendo.

Emmy respirava mais aceleradamente. E ela começou a falar.

- Eu disse que não tinha nada para perdoar.

Remus inclinou o rosto para mais perto dela, e falou, ainda mais baixo.

- E você disse que estava tudo...

Emmy engoliu em seco, mas continuou.

- Que está tudo... perfeito.

O rosto dos dois estava um de frente para o outro. Eles se olhavam fixamente. Ficaram se encarando por longos momentos, até que uma voz os fez acordar.

-Remus!

Os dois voltaram o rosto na direção da voz. E viram um homem vindo na direção deles. Remus o reconheceu imediatamente, já que ele era John Lupin, seu pai. Emmy não o conhecia, mas a semelhança entre ele e Remus denunciava o parentesco. Os dois eram da mesma altura, e tinham o mesmo tom de cabelo. E o rosto era semelhante, apesar de não idêntico.

- Boa noite, pai. – Remus falou, se afastando um tanto de Emmeline.

John parou bem em frente ao filho. Seus olhos imediatamente foram até Emmy, e ele a analisou atentamente, e depois olhou para o filho. Remus imediatamente falou.

- Esta é Emmeline Vance, filha dos Vance, os novos vizinhos.

John Lupin sacudiu a cabeça lentamente, e estendeu a mão para a garota. Emmy ficou um pouco constrangida, mas cumprimentou o pai de Remus.

- Sua mãe já deve estar servindo o jantar. Vamos, meu filho?

Remus concordou com o pai, e, como ele não se afastou, simplesmente falou.

- Boa noite, Emmy.

Emmy, ainda corada, respondeu.

- Boa noite.

A garota foi se afastando imediatamente, em direção à própria casa. E Remus a acompanhou com os olhos.

John Lupin, ao contrário, ficou olhando para o rosto do filho. Quando Emmy entrou em sua casa, Remus fez menção de ir para a própria casa, mas o pai o impediu, falando.

- Só um minuto, filho. Quero falar com você.

Remus franziu a testa, mas ficou parado. Esperando o pai falar.

- Essa menina nova... Emmeline, não é? – Remus concordou com a cabeça – Por que você estava com ela aqui fora?

Remus não entendeu o que o pai queria com aquela pergunta, mas respondeu.

- Ela treina no estúdio da Amelia. Voltamos juntos de táxi.

John Lupin acenou com a cabeça, mas logo prosseguiu.

- Não acho que seja uma boa idéia você ficar de papo com ela aqui na rua.

Remus franziu a testa, e olhou para o pai, admirado.

- Por quê?

- Porque você tem uma namorada, e ela mora aqui em frente. Ela pode não gostar, filho.

Remus se remexeu, incomodado. Mas mesmo assim falou.

- Não, pai. Eu não tenho mais. Eu e a Ellie terminamos.

Remus esperava que o pai falasse algum tipo de palavra de consolo, ou que dissesse que eles se entenderiam no futuro e voltariam, mas nada o preparou para a reação que ele teve.

- Vocês terminaram? Como assim, terminaram? Que brincadeira é essa?

Remus entreabriu os lábios. Mal podia acreditar. Mas mesmo assim esclareceu.

- Nós não estávamos nos entendendo bem, achei que seria melhor terminar que acabar brigando.

John arregalou os olhos, e falou, num tom incrédulo.

- Você terminou com ela? Você está louco?

Remus não entendia mais nada. Nunca soubera que ele gostava tanto de Ellie para ficar tão indignado com o término do namoro.

- Pai, o que você quer dizer...

Mas John o interrompeu, num tom acusatório.

- Você não terminou com a Ellie por causa dessa garota, não é?

- Pai, você...

Mas John parecia nervoso, e exigiu.

- Terminou ou não por causa dela?

Remus se viu encurralado, mas respondeu.

- Não!

Alivio percorreu a face de John Lupin. E ele então falou, mais calmo.

- Ótimo. Então você vai à casa dos Dumbledore, e vai pedir desculpas para a Ellie. E vai reatar o namoro.

Remus franziu a testa, sem compreender nada. Mas logo protestou, e seu tom era enfático.

- Não vou não. Foi uma decisão madura, não quero magoá-la.

Mas essa resposta pareceu irritar John ao ponto máximo. Ele pegou o filho pelos dois ombros, e falou, olhando diretamente em seus olhos.

- Será que você não enxerga um palmo diante de seus olhos? Você é igualzinho a sua mãe, com esses sentimentos nobres e essas besteiras. Veja as coisas pelo lado prático uma vez na vida.

Remus ficou muito perturbado com a frase do pai. E, raivoso, ele afastou as mãos dele, e retrucou, num tom bem mais alto.

- Então por que você não me explica em vez de ficar falando o quão idiota eu sou?

John apenas esfregou o rosto, e se acalmou. Quando se recompôs, olhou para o filho, e falou.

- Meu filho, eu sou um homem de negócios. Eu vejo as coisas de uma forma muito mais real que você. Então eu te digo que sua decisão de terminar o namoro com a Ellie só vai te prejudicar.

Remus franziu a testa.

- Prejudicar?

John inspirou profundamente, e respondeu.

- Sim. Você escolheu um caminho muito difícil na vida. Viver como um pianista exige muita sorte, ou então as conexões corretas. Você não pode se dar ao luxo de perder as melhores conexões que alguém tão jovem poderia sonhar.

Remus ainda não entendia claramente. Então perguntou.

- E o que a Ellie tem a ver com isso?

John Lupin suspirou, resignado.

- Ela é a sua conexão.

- A Ellie? – Remus perguntou.

- Você é tão igual a sua mãe... – John falou, sacudindo a cabeça. Mas ele explicou – Sua namorada é simplesmente herdeira de uma fortuna. E ela tem sangue nobre, além de ter os parentes mais bem conectados ao mundo da arte e cultura da cidade. Você nunca notou isso antes?

Remus baixou a cabeça brevemente, e respondeu.

- Não.

John colocou a mão no ombro do filho, e falou.

- Pense pelo lado prático. Ela vai receber toda a fortuna dos pais quando fizer 18 anos. Praticamente em um ano, Remus. É mais dinheiro que ela possa gastar ao longo de quase uma vida. Vocês teriam uma vida tranqüila, sem qualquer preocupação. E ela pode te apresentar a todas as pessoas importantes da área. Eles têm até um camarote exclusivo no Royal Opera House! Você vai ter uma carreira brilhante com ela ao seu lado. Sem qualquer preocupação em trabalhar com outra coisa. Vai poder se dedicar ao seu talento, meu filho. Vai dar tudo certo desta forma.

Remus encarava o chão. Aquilo tudo era demais para ele. Era um pensamento estranho, que ele nunca conseguira ver até o pai mencionar.

Mas soava tão... errado. Frio. Calculista.

Remus sentiu um gosto estranho na boca. Então John envolveu o ombro do filho com um braço, e falou.

- Vamos para casa. Você pensa melhor sobre tudo isso, e vai lá falar com ela amanhã de manhã. Vocês podem se entender, conversar. É a melhor decisão, meu filho. Você vai ver. Não é como se você não gostasse dela. E ela é uma garota tão bonita, não é nenhum sacrifício namorar com ela, é?

Remus apenas acenou com a cabeça brevemente, e acompanhou o pai até sua casa. Lá, ele apenas subiu até seu quarto, e fechou a porta. Largou-se deitado na cama, e pensou por alguns momentos.

Realmente não era nenhum sacrifício namorar uma garota tão bonita como Ellie.

E ele realmente gostava muito dela.

Então por que isso tudo soava tão errado para ele?

Porque era errado.

E ele não podia fazer aquilo.

Remus virou de lado, apoiando a cabeça num travesseiro. Sua mente foi tomada pela imagem do rosto de Emmy, e seus cabelos loiros.

Ele fechou os olhos. Desejou estar falando com o pai sobre o namoro com Emmy. E não com Ellie.


Quando Ellie saltou da garupa da moto de Sirius, o céu já estava escuro. Ela ria abertamente, e o rapaz a acompanhava.

A tarde tinha sido extremamente divertida. Sirius estava comunicativo como não era fazia muito tempo, e sorridente também. Eles ficaram um bom tempo andando de moto, e Ellie finalmente conseguia equilibrar a moto completamente, e andar com ela normalmente. Segundo Sirius, com mais dois dias ela saberia andar no trânsito.

- Nem tenta me convencer. Só depois que você tirar a carteira. – ele falou, quando ela propôs que ele deixasse que ela saísse dirigindo sua moto no dia seguinte.

- Ah, você é muito chato... – ela reclamou, mas sorrindo.

Sirius apenas observou o rosto da jovem. Ela parecia genuinamente melhor. E ele mal continha a satisfação por ser ele a pessoa que a estava alegrando.

Ellie retribuiu o olhar de Sirius. Ela estava muito grata a ele. Sirius se mostrara um bom amigo, alguém que ela poderia contar se precisasse. E ela queria retribuir aquela ajuda de alguma forma. Então ela teve uma idéia repentina. E falou.

- Ei, que tal se amanhã eu escolher o que vamos fazer?

Sirius franziu a testa brevemente, e falou.

- Não quer continuar aprendendo a andar de moto?

Ellie sorriu, e falou.

- Quero sim. Só estava pensando, você foi tão legal comigo hoje... – Sirius sentiu seu estômago se revirando ao ouvir a frase dela – Eu queria te retribuir de alguma forma.

Sirius abaixou a cabeça brevemente, mas a levantou quando respondeu.

- Não precisa, você já me ajudou tanto...

Ellie levantou uma das sobrancelhas, e falou.

- Está me rejeitando?

Sirius ficou sério imediatamente. Queria poder gritar que jamais a rejeitaria, que sempre ficaria ao lado dela, que faria o que ela quisesse. Mas ele obviamente não falou, e se esforçou para responder apenas uma palavra simples, e sem muitos significados ocultos.

- Não.

Mas Ellie não percebeu a batalha interna do rapaz, e falou, sorridente.

- Ótimo. Então amanhã à noite eu vou te levar a um lugar que eu adoro.

Sirius franziu a testa, e perguntou.

- Que lugar?

Ellie riu brevemente, e foi caminhando em direção à sua casa. Do outro lado da rua, ela virou e, com um sorriso sapeca no rosto, respondeu.

- Surpresa!

Sirius ficou acompanhando Ellie entrar em sua casa. Quando ela sumiu porta adentro, ele falou, num tom baixo, para si mesmo.

- Essa garota ainda vai ser minha perdição.


Sirius entrou em casa de muito bom humor. Ele encontrou Lily na cozinha, preparando o lanche para os três. Ele sorriu, agradeceu, e falou que já tinha lanchado na rua. Lily ia questionar o irmão, mas como ele parecia tão tranqüilo e feliz, resolveu deixar para lá. Ela estava bastante satisfeita por ele estar se recuperando bem. Naquela noite, então, ele estava quase normal. Parecia o Sirius de alguns anos atrás. E isso deixava Lily muito feliz.

Ela viu o irmão subindo para o próprio quarto, falando que iria tomar banho e deitar. Ela acenou com a cabeça, e continuou fazendo os sanduíches.

Quando terminou, Lily teve uma idéia. Sua cabeça martelava sem parar, desde que abrira a carta do seu admirador. Ela tinha consciência de que era uma loucura, mas precisava saber. Algo dentro de si dizia, ininterruptamente, que seu correspondente secreto podia ser James.

Isso é loucura.

Ele vai achar que eu estou doida. Ou vai rir na minha cara.

Mas Lily não conseguia parar de pensar nisso.

Então ela tomou coragem, pegou o prato com o sanduíche que tinha preparado para James, e rumou decidida até o quarto dele. Precisou de toda sua determinação para não desistir, e voltar atrás.

Finalmente chegou à porta do quarto. Inspirou fundo, e bateu.

Alguns segundos depois, James respondeu.

- Quem é?

Lily vacilou por um instante, mas respondeu.

- É a Lily.

Silêncio. Lily esperou por alguns instantes, mas finalmente ele apareceu para abrir a porta. Ele demorou um pouco para destrancar a porta, e apareceu na frente da garota.

Lily sentia que seu rosto estava tão vermelho quando seu cabelo. Mas inspirou fundo, e falou.

- Fiz um sanduíche para você.

James ficou quieto, como se não soubesse o que responder. Lily ficou ainda mais constrangida, já que a expressão dele não era de muitos amigos.

- Você... não quer? – Lily perguntou, e quase se arrependeu quando viu que a expressão dele ficou ainda mais feia.

Finalmente ele abriu a boca. E falou, num tom de desprezo.

- E eu te pedi para fazer alguma coisa pra mim?

Lily recuou um passo. Arregalou os olhos. Esperava qualquer coisa, menos aquilo. Ela entreabriu os lábios, e falou. Numa voz mais fraca.

- Eu só... estava tentando ser gentil.

James revirou os olhos, e esticou a mão. Mas seu rosto revelava enorme impaciência.

- Tá. Então me dá a droga do sanduíche.

Mas Lily ficou ainda mais chateada com a resposta dele. E reagiu de acordo.

- Não! Você é um grosso, James!

James deu um sorriso amargo, e falou.

- Posso ir agora? Achei que a porta fechada fosse sinal suficientemente bom para indicar que quero ficar sozinho. Mas acho que me enganei.

Lily o olhou com desprezo, e virou as costas para ele, descendo as escadas velozmente.

James ficou um instante observando a garota se afastar, e então entrou novamente em seu quarto. E trancou a porta.

Lily chegou na cozinha transtornada. Sentia seus olhos queimando, mas ela se recusava a chorar. Largou o prato de qualquer jeito em cima da pia. Pegou um copo, encheu com água, e bebeu rapidamente.

James era um idiota estúpido.

Era um grosso mal educado.

E certamente não era seu correspondente. Como ela poderia ter se enganado daquela forma? Ele nem ligava para ela, iria ficar escrevendo cartas de amor?

Lily deu um riso nervoso. De onde mesmo ela tirou a idéia de que James poderia estar gostando dela? Agora ela via como isso era absurdo.

O beijo era mesmo um engano. Agora Lily tinha certeza absoluta.


Assim que James trancou a porta de seu quarto, sentiu as próprias costas escorregando pela porta. Ele caiu sentado no chão, de olhos fechados.

- Eu sinto muito. – ele falou, muito baixo. – Eu sinto muito.

A expressão de desprezo no rosto de Lily o corroia por dentro. Mas ele não podia fazer mais nada.

Ele estava condenado. Tinha que fazer aquilo.

Lily não podia descobrir o que ele sentia por ela. James tinha certeza que isso a deixaria escandalizada. Que arruinaria tudo.

O enorme erro que ele cometeu, beijando-a, tinha que ser consertado. E ele só via uma saída para isso.

Fazer com que Lily o detestasse. Assim ela não desconfiaria de que, na verdade, a única coisa que ele conseguia pensar, nos últimos dias, era ela.

O rapaz ficou ali, parado, sem saber o que fazer. A vontade de ir atrás dela o perturbava. A vontade de pedir desculpas, de convencê-la de que ele só queria o bem dela. E, principalmente, a vontade de beijar novamente os lábios dela.

James estava sentindo que iria perder o controle muito em breve. Então ele precisava ser forte. Precisava evitar o contato com Lily, por mais difícil que fosse.

Precisava esquecer a irmã.

O rapaz contorceu o rosto. Só pensar a palavra irmã o deixava com náuseas. Imagina o que ela sentiria, se soubesse.

Por isso ele mandava as cartas. Para conseguir expressar o que sentia, sem que ela soubesse que era ele. Mas o beijo complicou tudo, e ele se viu numa situação difícil. Por um instante, James achou que Lily estava desconfiando do que ele sentia.

Mas Lily não podia saber. Nunca.

E se dependesse dele, ela jamais saberia.


O dia seguinte amanheceu melancólico. Uma névoa incomum para o verão cobria a capital inglesa, e combinava totalmente com o sentimento que Lily estava sentindo.

Ela estava desanimada. Não queria sair da cama. Não queria fazer nada.

E ela não era a única de sua casa a sentir isso.

James ficou enrolando para levantar. Não queria dar de cara com Lily. Não queria ter que lidar com a irmã adotiva. Não queria ver no rosto dela a mágoa que ele causou.

O único que acordou animado foi Sirius. Ele levantou muito cedo, e mal continha sua ansiedade. Olhava o tempo todo para o relógio. Queria que o tempo passasse logo. Queria poder ir ver Ellie. Eles tinham marcado de se encontrar no final da tarde, e o tempo parecia estacionado quando ele estava em casa. Resolveu arranjar algo para se distrair, e evitar pensar na bela vizinha.

Remus também não estava muito disposto naquela manhã. Não conseguia parar de pensar no que seu pai havia dito, na noite anterior. Ele tinha total consciência de como aquilo tudo parecia errado, mas o assunto não deixava sua cabeça o tempo inteiro. E ele ficou se arrastando pela casa durante toda a manhã, sem saber o que fazer.

Emmy acordou cedo, e foi treinar logo que terminou seu ritual matutino. Ela precisava se focar no treino, e não ficar pensando na proximidade que ela e Remus partilharam, na porta de casa. Ela tinha certeza que tinha visto algo nos olhos dele, algo novo. Mas não se atrevia a fantasiar sobre o que era. Não podia se deixar levar desta forma. Tinha que impedir esses sentimentos que se sedimentavam cada vez mais dentro dela.

Ellie acordou bem humorada, coisa que não acontecia desde o término de seu namoro com Remus. Pela primeira vez ela não ficou remoendo a sensação de que iria ficar sozinha para sempre. Em vez de alimentar pensamentos destrutivos, ela começou a arrumar seu quarto, e acertar os detalhes do que tinha planejado fazer naquela noite. E isso imediatamente a fez pensar em Sirius. Um sorriso brotou em seu rosto sem que ela percebesse.

E assim a tarde chegou. E ela trouxe algo de inesperado aos jovens vizinhos.


Emmy partiu para o estúdio assim que terminou de almoçar. Não queria perder tempo de ensaio, e também não dar chance para que ela esbarrasse em Remus casualmente, como acontecera no dia anterior.

Então ela logo chegou ao estúdio, e foi ao vestiário se trocar. Com sua roupa de ensaio, Emmy saiu do vestiário, e chegou à sala de ensaios principal. Nenhuma das bailarinas estava lá ainda, e ela pode se aquecer apropriadamente.

Com o passar do tempo, as jovens foram aparecendo. Elas cumprimentaram Emmy, e começaram a se aquecer também.

Logo Amelia Clark entrou na sala. Mas ela não estava sozinha; Remus entrou junto com ela. E Emmy sentiu seu rosto pegando fogo.

Amelia iniciou o ensaio, ao som do piano de Remus. Emmy precisou de toda sua concentração para não ficar encarando constantemente as costas do rapaz, levemente curvado sobre o piano.

Ela então fechou os olhos, e ouviu a música.

Cada nota que ele tocava, cada som que aquele piano emitia, era como um passo a mais para o transe da garota. Ela se mesclava à música, se fundia ao som, s se deixou levar por ele.

Era como se só os dois estivessem naquela sala. Somente Remus e sua música, e Emmy e sua dança.

Eles eram partes separadas, mas juntos eram um só.

Como se fizessem parte um do outro. Como se cada som dele propiciasse um movimento dela.

E Emmy deslizou pela sala. Apenas sentindo o que Remus proporcionava.

Ela nem notou quando a música terminou.

Foram os aplausos que a fizeram acordar.

- Emmy, isto foi perfeito. Emocionante! – Amelia se derretia.

Mas Emmy mal notou a frase de incentivo da tutora. Ela buscou Remus com os olhos, e ele virou para trás.

Seus olhos também buscaram os de Emmy.

Aquela seria uma longa tarde.


Ellie olhava para sei relógio constantemente. Ele parecia parado. Ela jurava que ele estava há mais de cinco minutos no mesmo lugar.

Inquieta, ela resolveu sair do quarto. Estava pronta há bastante tempo, apenas esperando o horário combinado com Sirius para descer, e ir encontrá-lo.

Quando percebeu que ficaria inquieta onde quer que estivesse, resolveu sair da casa. Despediu-se brevemente da avó, e foi até a porta. Numa sensação súbita de insegurança, olhou para a própria roupa. Achou que a camiseta preta e a calça jeans escura estavam de acordo com o local que iria. Mas um nervosismo estranho percorreu seu corpo, e ela ficou na dúvida. Acabou desistindo de se trocar, e abriu a porta.

Ao avistar a entrada de sua casa, percebeu uma pessoa parada ali. Sirius estava em pé, apenas olhando para a casa da garota. Ele ficou surpreso ao vê-la ali, e consultou o próprio relógio. Ainda faltavam 10 minutos para o horário combinado.

Ellie sorriu para o amigo, e foi até ele. Sem qualquer constrangimento, ela simplesmente o abraçou, e falou.

- Vamos?

Sirius estava com uma expressão de que tinha levado um soco no rosto. Ellie franziu a testa, e falou.

- Você está legal?

Mas o rapaz logo se recuperou, e falou, montando na moto.

- Sim. Tudo bem.

Ellie o imitou, sentando em sua garupa. E eles saíram em velocidade pela rua.

- Aonde nós vamos? – Sirius perguntou, enquanto dirigia.

Ellie apenas riu, e falou.

- Você vai ver! Primeiro minha aula de pilotagem, e depois te digo aonde vamos!

Sirius concordou com a cabeça, e foi até o Hyde Park novamente. Lá, voltou a ensiná-la a pilotar sua moto.


Lily se arrastou pela casa por toda a tarde. Tentou ler, tentou escrever uma carta para Kyle Wilshire. Ao ver que não conseguia se concentrar em nenhuma das duas tarefas, desistiu, e saiu de seu quarto.

Ao caminhar pelo corredor de sua casa, Lily percebeu que estava sozinha.

Sirius tinha saído mais cedo, ela tinha ouvido o barulho da moto dele partindo na rua. Ela franziu a testa, imaginando o que estava deixando o irmão de tão bom humor. Seria uma garota? Lily riu do pensamento. Apesar de estar sempre cercado de garotas, Sirius não costumava ficar com qualquer uma delas mais de uma vez. E certamente não fazia o tipo que namorava sério. Então imaginar o irmão todo feliz por causa de uma garota parecia uma idéia muito estranha.

Mas Lily não notou quando James saiu. Ela sequer ouviu a porta do quarto dele abrindo. Era provável que ele tivesse saído quando ela ouvia música, ou enquanto estava tomando banho. Estranho. James geralmente fazia barulho quando saía de casa. Ou então avisava que estava saindo.

Pensar em James fez Lily se sentir estranha. Ela ainda estava chateada pela grosseria de James. Mas algo estava diferente. Era como se sua mágoa estivesse se dissipando rapidamente. Muito mais rápido que das outras vezes em que discutira com ele.

Sozinha, a garota decidiu fazer algo par se distrair.

Ela foi até a sala de televisão, e ligou o aparelho. Deitou no sofá. Olhou pela janela, e viu que já estava anoitecendo.

Quem sabe a televisão conseguiria distraí-la?


Remus terminou de tocar as últimas notas. Emmy permaneceu na sua posição final até a música se encerrar. Assim que se fez completo silêncio, apenas as palmas foram ouvidas.

- Oh, excelente!

Amelia Clark veio até a jovem, em seu caminhar leve como se ela pisasse em nuvens, e sorriu para a garota, dando leves batidinhas em seu ombro.

- Vamos encerrar por hoje, Emmeline. Você foi ótima!

Emmy sorriu, levemente embaraçada. E Amelia tocou de leve o queixo da garota, falando.

- Você tem que aprender a receber elogios, minha querida. Você os merece. – ela falou, com um sorriso bondoso no rosto.

Mas Emmy não conseguiu evitar o rosto corado. Amelia apenas sorriu para ela, e virou o rosto na direção de Remus.

- Remus, querido, você acompanha nossa estrela até em casa?

Remus manteve-se sentado ao piano, mas virou a cabeça para responder a dona do estúdio.

- Claro, Amelia. Ela é minha vizinha, não será trabalho nenhum.

Amelia sorriu, satisfeita. E logo tratou de conduzir as outras bailarinas para o vestiário, falando mais alto.

- Vamos, meninas! Logo para o chuveiro!

Emmy ainda se alongava quando percebeu que a sala estava vazia. As únicas exceções eram ela mesma, e Remus, ainda sentado em frente ao piano. Ele fechou a partitura que estivera tocando, e permaneceu observando as teclas brancas e pretas do instrumento.

Ela aproximou-se suavemente, sem fazer qualquer ruído no chão de madeira lisa. Só falou quando estava logo atrás dele. E o fez com uma voz suave.

- Remus...

O rapaz pareceu acordar de um longo devaneio. Voltou seu rosto levemente para trás, e Emmy completou.

- Está tudo bem? – ela estava genuinamente preocupada.

Remus suspirou profundamente, e falou. Seu tom era desanimado.

- Você já teve a impressão que não tem nenhuma escolha na vida? Que sempre tem alguém que planeja as coisas para você? Planeja o seu futuro?

Emmy o observou por um segundo, e falou, tentando sorrir de forma divertida, apesar de não achar graça nenhuma no que falava.

- Você não conhece minha mãe, conhece?

Remus franziu a testa, e Emmy deixou de lado a tentativa de brincadeira. Imediatamente ela falou, dando dois passos para o lado, contornando o banco do piano, tentando visualizá-lo mais de frente.

- Do que você está falando, especificamente?

Remus inspirou novamente, e falou.

- Nada, é besteira. Deixa para lá.

Imediatamente Emmy reagiu. Sem perceber o que fazia, ela simplesmente sentou ao lado dele no banco do piano. E tocou de leve o braço do rapaz, falando.

- Lógico que não é besteira, Remus! Fala o que está te chateando...

Remus virou seu rosto completamente para o dela. Naquela posição, com os dois sentados no banco, eles estavam bem próximos um do outro. Remus pode perceber que os olhos azulados dela tinham um contorno esverdeado, como se uma linha perfeita em tinta verde tivesse sido desenhada nos olhos da garota. Aquilo era meio que... hipnotizante. Mas, ainda assim, ele conseguiu se concentrar, e responder.

- É o meu pai.

Emmy percebeu pelo tom de voz do rapaz que aquele era um assunto delicado. Mas, mesmo assim, tentou incentivá-lo a falar. Quem sabe ele não se sentiria melhor se desabafasse?

- Ele planeja o seu futuro? – ela perguntou, da forma mais delicada que conseguiu.

Remus não sabia o que responder. Se falasse alguma coisa, acabaria tendo que revelar a conversa com o pai, em que ele disse que ele deveria reatar o namoro com Ellie. E aquele assunto estava atravessado em sua garganta. Seu pai queria que ele retomasse o namoro com Ellie simplesmente pelo fato dela ser herdeira dos Dumbledore. Pela família dela ser tão bem conceituada, e ter excelentes contatos. E, o pior de tudo, por ela ser herdeira de um título de nobreza, e de uma fortuna em dinheiro. No dia que ela completasse 18 anos, o que aconteceria em praticamente um ano, ela teria tanto dinheiro quanto Sirius. O que certamente não era pouco. Muito pelo contrário.

Remus não tinha coragem de falar sobre essa conversa com ninguém. Sentia vergonha pelas coisas que seu pai lhe falou. Sentiu mais vergonha ainda dele ter sugerido que Remus deveria reatar o namoro com a garota por interesse. Pelo que Ellie poderia fazer pela carreira dele.

E, acima de tudo, Remus sentia vergonha de sequer dizer uma palavra desse assunto para Emmy. Ele tinha medo da garota, por qualquer motivo que fosse, pudesse imaginar que o motivo que ele tinha para namorar Ellie era a vantagem financeira que ela pudesse lhe proporcionar, no futuro. Essa idéia, mesmo que racionalmente fosse absurda, deixava Remus apavorado. Ele precisava ter certeza que Emmy nunca pensaria mal dele. Naquele momento, a opinião dela era a opinião mais importante do mundo.

Sem ter como fugir daquela resposta, ele simplesmente falou.

- Ele tenta. Mas eu não quero fazer o que ele está sugerindo.

Emmy observava o rosto de Remus, assim como ele fazia com a garota. Ambos temporariamente presos um no outro. Olhares conectados. Respirações ritmadas. A mão dela permanecia no braço do rapaz. Pele na pele.

Num tom mais baixo, quase num sussurro, Emmy falou.

- Então... não faça.

A voz dela foi como o estopim de uma bomba. Remus não se conteve. Ele levou as duas mãos diretamente ao rosto de Emmy, e a puxou para um beijo.

No momento em que os lábios se tocaram, Emmy esqueceu todos os seus receios. Tudo que a impedia de deixar acontecer o que estava sentindo. Todo seu medo de criar um problema. Tudo foi embora.

Os lábios de Remus eram suaves, mornos, delicados. Tudo que ela sonhava que eram. E, como se fosse possível, eram ainda melhores na realidade.

Num instante ela o envolveu com seus braços. Habilmente, ele deslizou as mãos do rosto da garota, para a parte de baixo das costas dela, e a virou delicadamente no banco, colocando-a mais de frente para ele. O beijo se aprofundou, quando ele, de forma quase exigente, puxou-a para mais perto, deixando os corpos dos dois quase colados. Quando Emmy percebeu a manobra, viu que tinha ido parar quase no colo de Remus. Ele a enlaçou pela cintura firmemente, como se quisesse impedir que ela fugisse. Emmy já não conseguia raciocinar direito. Sua cabeça girava. Os beijos de Remus estavam ficando cada vez mais quentes, possessivos, como se ele soubesse que ela poderia escapar a qualquer instante. Mas, mesmo se essa fosse a intenção da garota, ela jamais conseguiria ter força mental suficiente para resistir ao magnetismo que ele exercia nela, naquele instante. Era impossível resistir. E também seria uma tortura sem igual sequer tentar.

Os lábios se tocavam intensamente, devorando um ao outro. Mãos quentes percorriam cada centímetro de pele, buscando refúgio. Era um frenesi completo, e inevitável.

Depois de longos minutos naquela entrega, eles se afastaram, e o fizeram ao mesmo tempo. Remus fechou os olhos, com uma expressão de pesar, e falou, repetindo as palavras num tom baixo e suave.

- Desculpe, Emmy. Desculpe, desculpe... Eu não devia...

Emmeline apenas sacudiu a cabeça, num movimento curto. Ela estava entorpecida demais para pensar. Queria novamente os lábios de Remus, mas sabia o quanto isso era errado. Ela continuava ouvindo a voz baixa dele, repetindo as desculpas como um mantra, até que não resistiu, e o beijou novamente.

Desta vez, o beijo já começou intenso. Remus a abraçou firmemente, suas mãos eram possessivas e exigentes. Seus lábios queriam mais, sempre mais. A respiração dele era descompassada como a dela. Eles eram como uma pessoa dividida em duas.

Mas Emmy conseguiu se afastar, e sair daquela espiral de loucura a qual eles estavam se entregando. Ela levantou decidida, e falou, numa voz trôpega, como se estivesse bêbada.

- Remus... eu não... eu não posso...

Partindo imediatamente, como se soubesse que se não se afastasse naquele momento perderia as forças, Emmy apenas pegou suas coisas o mais rapidamente que pode, e foi até a porta da sala. Remus ainda falou, e ela sentou seu coração se partindo em mil pedaços quando ouviu o tom de voz dele.

- Emmy...

Engolindo as lágrimas que já se formavam em seus olhos, a garota abriu a porta, e desapareceu do olhar de Remus.


- Será que agora você pode me contar aonde nós vamos?

Ellie ria. Sirius estava dirigindo sua moto, e seguia as indicações que ela dava. Mas Ellie se recusava a dizer o nome do local, e isso estava irritando Sirius.

- Você é muito curioso! – ela falou, entre risos – Mas não precisa ficar assim mais. Já chegamos.

Sirius olhou para o local que Ellie indicou. Viu um letreiro vermelho, que exibia o nome em branco, escrito "100 Club". Sirius franziu a testa. E Ellie sorriu para ele, e perguntou.

- Gostou?

Sirius concordou com a cabeça. Não imaginava isso. Ellie o tinha levado num clube de rock. Ele não a imaginava num local assim, meio underground, enfumaçado e barulhento. Mas essa imagem foi desfeita assim que eles entraram lá. Ellie cumprimentava diversas pessoas, e alguns garçons também. Ela certamente era freqüentadora do local.

A garota o conduziu até o bar, e conversou com o barman por um instante. Logo ele serviu duas canecas de chopp para os dois, e Ellie sorriu.

Sirius pegou sua caneca, ainda um tanto incrédulo. Mas ele não falou nada, já que o show da noite começou, e a banda iniciou a primeira música, num tom altíssimo. E as várias músicas que a seguiram eram todas no mesmo volume.

Ellie olhava para o palco, assistindo ao show da banda. Não pode evitar o sentimento de felicidade, e alívio. Finalmente ela sentia que as coisas poderiam se acertar. Ela podia ter terminado o namoro com Remus, mas, pensando honestamente, ela sabia que isso um dia aconteceria. Ele era uma das melhores pessoas que ela conhecia, e ela jamais o esqueceria. E, sendo otimista, ela estava até pensando que, num momento não muito longe no futuro, eles poderiam retomar a amizade que sempre tiveram.

Só que uma parte dela ainda sentia a falta do namorado. Ele era muito bom com ela. Ellie duvidava que encontraria um melhor namorado que Remus. E os sentimentos, ainda muito recentes, eram confusos. Por um lado, ela achava que era mais sensato terminar o namoro, e manter o amigo. Mas por outro lado, a segurança que Remus lhe trazia era por demais importante, principalmente para alguém como ela, que sempre precisou de alguém que a contivesse. Ela temia que, sem Remus, seus ímpetos mais selvagens não teriam mais controle, e ela fatalmente teria um destino muito parecido com o de seus pais. E esse destino era algo que ela estava totalmente disposta a evitar.

Isso imediatamente a fez pensar na pessoa ao seu lado. Sirius observava ao show com tanta atenção quanto ela. Ela o observou de canto de olho. Ele mantinha uma postura ereta, mas levemente voltada para a garota. Algo como uma postura de proteção. Ellie franziu a testa ligeiramente. E repassou mentalmente os últimos acontecimentos importantes de sua vida. Sua conclusão foi apenas uma: praticamente todos envolviam Sirius Black. Seriam todos, se ela não estivesse tentando inutilmente excluir a participação óbvia de Sirius no seu término de namoro com Remus.

Tudo em sua vida agora parecia ter a participação, ou algum tipo de contribuição de Sirius. Até um novo amigo, Regulus, era conectado intimamente com Sirius. Era o irmão mais novo do rapaz.

Sem conter seu pensamento, ela passou a perceber as atitudes de Sirius em relação a ela. Em praticamente todos os casos, ele tinha uma postura de proteção. Quando fez o que pode para arranjar um quarto para eles dormirem, quando viajaram. Ao tentar evitar que ela bebesse, no pub. Ao consolá-la quando ela contou que terminou com Remus. E, a que mais contou, quando ele singelamente pegou na sua mão, ao ver que ela assistia, em choque, a Remus e Emmy dançando na festa de James.

Sirius a protegia. Mas esse não era o papel de Remus? Não era Remus o seu namorado?

Não. Não mais.

Ellie parou de dançar. Desta vez ela virou o rosto na direção de Sirius. O rapaz que, mesmo tendo-a beijado, estava ali, ao seu lado, dizendo que queria ser seu amigo, e que estaria ao seu lado para o que quer que acontecesse.

Sirius notou que Ellie o observava. Ele também virou o seu rosto para ela. Franziu a testa, e falou, sem entender a atitude dela.

- Ellie? O que foi?

Foi como se ela tivesse levado um soco no rosto. A voz de Sirius. Era aquela voz. A voz que ela tinha ouvido. No instante seguinte que ela se deu conta daquilo, Ellie olhou diretamente para os olhos do rapaz. Um flash se passou por sua mente. Os olhos. Os olhos azuis que ela tinha visto em sua cabeça, quando estava com Remus. Eram aqueles olhos. Eram os olhos de Sirius.

Ela tentou falar. Tentou até gritar. Mas não conseguiu.

Ellie deu um passo cambaleante para trás. Sirius avançou em sua direção, e falou, tentando ampará-la.

- Ellie, você está bem?

A garota finalmente conseguiu falar. As palavras saíram emboladas de sua boca.

- Eu vou... lá... tomar ar...

E sumiu por entre as pessoas que se aglomeravam no pequeno pub. Sirius ficou um instante parado. Sem entender o que acontecia.


Por alguns momentos, Sirius ficou apenas parado, olhando para o nada. Ele estava ficando louco? Vendo coisas? Ou ele viu, nos olhos de Ellie, algo que nunca vira antes? Ela estava olhando para ele de uma forma completamente diferente. Uma forma nova. Uma forma que não era mais... de amizade. Tinha algo ali, algo que não batia mais. Algo estava fora do lugar, desencaixado. Ela não o via mais como o amigo que a consolava. Parecia que ela tinha esquecido completamente o término de seu namoro, e estava ali por inteiro. Só os dois.

Inspirando profundamente, Sirius percebeu que não estava enganado. Ellie, naquele momento que tinha se passado, estava olhando para ele como um homem, não um amigo. Um homem.

Ele precisava fazer alguma coisa.

Aquela era a oportunidade que ele esperou durante anos.

Deixando de lado todos os receios, Sirius saiu andando na direção que Ellie tomara. Não queria pensar, não queria racionalizar sobre o que era certo ou o que era errado. Precisava agir.

E aquele era o momento certo.


Meio andando, meio cambaleando, Ellie conseguiu fugir do ambiente enfumaçado e apertado. Sentia sua respiração superficial. Era como se o ar não entrasse totalmente. Ela levou a mão ao peito, tentando controlar forçadamente a entrada de ar em seus pulmões. Mas não estava adiantando muito.

Ficou alguns minutos ali, do lado de fora do pub. Ela tinha saído por uma porta lateral, que dava numa pequena viela escura, vazia numa hora como aquela. Encostou suas costas numa parede, e olhou para cima por um instante, e viu o céu sem nuvens. Obviamente não conseguiu ver estrela alguma, já que as luzes da cidade, em sua parte central, impediam a visualização. Ainda estava com seu rosto voltado para cima quando ouviu a voz que ela achava que povoava apenas sua imaginação, mas que agora se provara mais real que nunca.

- Ellie... – não era uma pergunta. Era como se ele apenas quisesse chamar sua atenção.

Ellie virou seu rosto na direção da voz, mas se manteve parada, ainda com as costas na parede do bar. Ela tentou seriamente responder, mas sua voz não saiu. Então Sirius veio andando até ela, e parou exatamente na frente dela. Por algum motivo que Ellie desconhecia, ele tinha uma expressão de certeza incontestável em seu rosto, como se tivesse decidido a fazer algo, e nada o demoveria dessa idéia.

Eles se encararam por um instante. Ellie mirou novamente os olhos dele, e se perguntou como nunca tinha reparado que os olhos de Sirius, de um azul tão inconfundível, eram os olhos que ela havia visto em sua mente. Já Sirius observou o rosto dela, e viu que estava certo da decisão que tomara. Não iria voltar atrás. Não podia. Aquela situação já tinha se arrastado por muito tempo. Muito já tinha acontecido para ele tentar manter sua postura de não buscar o que queria, achando que assim evitaria o sofrimento de pessoas próximas a si. Ele finalmente percebeu, no olhar de Ellie, naquela noite, que existia uma pequena chance. E ele resolveu se agarrar a essa chance como podia.

- Por que você fugiu lá de dentro? – ele perguntou.

Ellie abriu a boca, mas não conseguiu responder. Ela mesma não sabia exatamente a resposta. Sirius deu mais um passo em direção à garota, e percebeu que aquele era o momento. Tomando coragem, ele finalmente agiu. Olhou para ela, diretamente nos olhos, e falou.

- Eu menti para você.

Ellie franziu a testa, e finalmente conseguiu falar. Sua voz não estava muito estável, mas ela foi capaz de dizer.

- Mentiu? Sobre o que?

Sirius se aproximava lentamente, mas de forma constante. Sem tirar os olhos dela, ele respondeu.

- Quando eu disse que te beijei porque estava confuso. E estava solitário. E que misturei as coisas, e na verdade cometi um erro. Porque eu não acho que cometi um erro, Ellie.

Ellie entreabriu os lábios. Sua respiração se intensificou, e ela novamente não encontrava palavras para expressar o que sentia. Sirius prosseguiu seu discurso, e mantinha a aproximação lenta, mas constante.

- Na verdade, eu te beijei naquele dia porque eu quis te beijar. Tanto. Por tanto tempo.

Ellie sentiu todo o ar escapando de seus pulmões. Sirius agora estava com seu rosto bem em frente ao dela. A poucos centímetros. Ellie não era capaz de reação alguma. Congelada no mesmo lugar.

Sirius ainda falou, a centímetros do rosto de Ellie.

- Exatamente como eu quero... agora.

Ele extinguiu o espaço entre os dois, e tocou os lábios dela com os seus. Eles se encontraram de forma suave. Ellie achou que ficaria congelada, sem reação, como na primeira vez em que ele a beijou. Mas, desta vez, algo muito diferente aconteceu. Uma arrebatadora sensação tomou conta de seu corpo inteiro. Era como se todo seu ser estivesse em brasa. Mas não havia dor. Havia algo indescritível, dominador, irresistível. Algo nunca experimentado por ela antes.

No instante seguinte que essa sensação tomou conta de seu corpo, ela passou a corresponder o beijo. E ele se tornou cálido, íntimo. Ellie nem sentiu quando seus braços envolveram o pescoço de Sirius, mas se arrepiou toda quando sentiu as mãos dele em sua cintura. Ele a puxou para mais perto, colando os corpos dos dois. Ellie achou que explodiria a qualquer momento. Não era possível que alguém se sentisse daquela forma, e sobrevivesse por mais que alguns segundos. Mas, inexplicavelmente, ela continuava viva, e sentindo a boca quente de Sirius na sua, a língua dele na sua, suas mãos a puxando cada vez mais para perto dele.

Aquela sensação não existia. Não podia existir. Mas por que ela só aumentava, e cada vez ficava mais intensa? Mais arrebatadora?

Ellie sentiu suas costas serem pressionadas contra a parede. Aquilo só a fez aumentar a intensidade de seu beijo. E só a fez sentir mais intensamente a chama que a consumia por dentro. Ela sentiu Sirius retirando as mãos de sua cintura, e percorrendo-as em seus braços. Subindo até seu rosto. Ele segurou o rosto dela entre as mãos. E se afastou para poder olhá-la. Ellie lentamente abriu os olhos, e deu de cara com o rosto de Sirius. Ele a olhava atentamente. E, assim como ela, ele estava sem fôlego.

Os dois ficaram se olhando por alguns segundos. E Ellie finalmente conseguiu ver o que ela nunca tinha visto antes. Ela viu o olhar de Sirius.

O olhar dele a fez lembrar-se de como ele costumava olhá-la no passado. Antes de eles começarem a se desentenderem. Antes de todos os problemas de Sirius começarem.

Mas agora era algo diferente. Era algo a mais. Era muito mais intenso. Era algo que ela nem sabia que existia. Era o tipo de olhar que ela vira poucas vezes, em sua vida. E, em nenhuma destas oportunidades, esse olhar era destinado a ela.

Ela a olhava como se ela fosse a coisa mais especial e preciosa do mundo. Como se a vida não existisse sem ela. Como se ela fosse necessária para que ele sobrevivesse.

E Ellie nunca tinha visto alguém olhar assim para ela. Nem ao menos... Remus.

Pensar no nome do ex-namorado foi como um tapa no rosto da garota. Ela começou a perceber coisas que nunca vira antes. Como Remus e ela nunca foram o casal perfeito que Lily imaginava. Como Remus nunca a beijara da forma que Sirius tinha acabado de beijar. E como seu primeiro beijo em Remus tinha sido completamente diferente.

A lembrança do primeiro beijo entre os dois a fez lembrar imediatamente do dia em que ele ocorreu. Cerca de um ano e meio antes. No dia do aniversário de 17 anos de Sirius.

Todos os acontecimentos daquele dia passaram com um raio em sua mente. Ela se lembrou da alegria de Sirius antes da festa. Ela se lembrou de que ele disse que queria conversar com ela a sós, antes do fim da festa. E lembrou que essa conversa nunca aconteceu. Remus se aproximou dela antes, e a beijou enquanto eles dançavam.

Ellie então sentiu outro choque. Foi exatamente depois desse dia que Sirius mudou. Não foi repentinamente, mas ele começou a se afastar lentamente. Passou a evitá-la. Aos poucos a amizade deles ruiu. E eles pareciam mais dois estranhos.

Ellie finalmente percebeu. E o nó na garganta dela voltou.

A culpa disso tudo era dela. Sirius tinha se afastado da família, quase destruído sua vida. Remus e ela tinham terminado o namoro por conta de toda a confusão que ela arranjara com Sirius. E agora ela tinha acabado de beijar o melhor amigo de seu ex-namorado. E sabia que isso só pioraria tudo.

Ellie abaixou a cabeça, e Sirius percebeu que ela parecia perturbada. Tanto que ele aproximou seu rosto do dela, e falou.

- O que foi?

O tom de voz que ele usou a fez entrar em desespero. Era tão suave, tão carinhoso. Tão... amoroso.

Ellie começou a hiperventilar. Aquilo não poderia estar acontecendo. Sirius não podia estar... apaixonado. Isso não podia acontecer.

Ellie sentiu-se à beira de um precipício. E ela não podia resolver o que fazer. Não podia saltar, apostar tudo em algo tão potencialmente problemático. E também não podia voltar atrás. Porque ela não tinha mais para quem voltar. Remus tinha ido embora, e não voltaria. Mesmo assim, ela sabia o quanto o magoaria se ele soubesse o que tinha acabado de acontecer. Como ele nunca mais confiaria nem em Sirius, quanto nela própria. E como isso destruiria tudo.

Não existiam mais possibilidades para ela. Ou ela corria daquela loucura, ou ela destruía todos à sua volta com sua insanidade.

Ela não podia deixar isso acontecer. Ela tinha tentar preservar sua sanidade, e esquecer esse lapso que tinha acabado de acontecer.

Ellie levantou a cabeça. Ela encarou Sirius, e viu que ele parecia preocupado. Ela inspirou fundo.

Sirius então a olhou diretamente nos olhos. Ela o viu inspirando profundamente, e como se tivesse sido iluminada por algum tipo incomum de visão inconsciente, ela soube exatamente o que ele ia fazer no instante seguinte.

Ele ia abrir a boca. E ia falar. Não só isso, ele ia falar o que ele sentia.

Ellie percebeu que não poderia deixá-lo falar. Se ele conseguisse dizer tudo que sentia, ela sabia que estaria condenada. Ela estaria presa naquela situação para sempre. E apenas sofrimento poderia vir dali. Para ela. Para Sirius. E, principalmente, para Remus.

A amizade de todos seria condenada. Nada seria o mesmo. James e Lily seriam forçados a tomarem partido. E ela sabia que isso destruiria os laços entre todos os seus amigos.

Então a única saída era a fuga. E foi isso que ela fez.

Ellie se desvencilhou de Sirius. O rapaz ficou surpreso, e parecia imaginar que ela não iria querer se afastar. Mas Ellie começou a andar pela viela. Sabia que Sirius a seguiria, mas era a única solução para aquela situação, naquele instante.

- Ellie! – Sirius chamou.

A garota chegou à rua principal. Ela estava um pouco movimentada. Ela olhou freneticamente para os lados, procurando um táxi. Como ela parou de andar, Sirius a alcançou. Ele segurou o braço dela de forma suave, e falou.

- Aonde você vai?

Ellie olhou para Sirius. O aperto na garganta aumentou loucamente, mas ela precisava fazer o que pretendia. Então ela falou.

- Eu vou embora. Desculpe Sirius, mas eu... não posso.

- Ellie... – ele falou, em tom de súplica.

Ellie teve que desviar o rosto para que ele não visse sua expressão de choro.

- Eu sinto muito.

Ela conseguiu localizar um táxi, e correu até ele. Tentando não olhar para trás, e tentando segurar as lágrimas teimosas que pareciam brotar em seus olhos, ela entrou no veículo. Sirius ainda correu para tentar alcançá-la, mas ela rapidamente fechou a porta do carro. E disse o seu endereço para o motorista.

O carro arrancou. Mas Ellie ainda conseguiu ver a expressão desolada de Sirius pela janela do veículo.


Já era tarde da noite. Lily estivera assistindo televisão por bastante tempo, até que adormeceu sem perceber. Agora, a garota estava deitada, encolhida no sofá, com a luz da televisão brilhando sobre ela.

Lily sonhava algo estranho. Era como se ela estivesse percorrendo um labirinto, e estava acompanhada sempre de uma voz misteriosa. A voz a dizia para seguir em frente o tempo todo, que assim ela revelaria o segredo. Mas Lily não sabia qual era esse segredo, e ficava rodando como uma louca, sempre no mesmo lugar. Quando ela percebeu que as paredes do labirinto começaram a se mover, e que isso a esmagaria, Lily deu um grito, e abriu os olhos, sobressaltada.

A garota levou um novo susto. Ela não estava sozinha.

Lily deu de cara com o rosto de James. Ele estava sentado no tapete, bem na sua frente. Seu rosto imediatamente se contorceu numa expressão de susto, e ele se afastou.

Os dois ficaram se olhando por um instante. Então Lily sentou no sofá, e, recuperando o fôlego, falou.

- James... o que você está fazendo aqui?

James parecia seriamente transtornado. Ele desviou o olhar de Lily, e olhou para o chão. Depois disso, ele levantou do tapete, e fez menção de sair da sala.

Mas Lily franziu a testa, e protestou.

- Ei, responde minha pergunta!

James a ignorou, e continuou andando. Lily ficou furiosa, e o seguiu, reclamando.

- Não finja que não me ouviu. Estou cansada de você me ignorar!

James foi andando febrilmente até seu quarto, mas Lily seguiu em seu encalço. Ele tentou fechar a porta, mas ela colocou a mão para segurá-la, e o impediu.

James ficou parado no meio do quarto, e Lily foi até ele. Numa reação inesperada, Lily ouviu James gritando.

- O que você quer?

Mas Lily gritou de volta.

- Quero uma resposta!

Os dois ficaram se encarando, os olhos faiscando, as respirações pesadas. Parecia que o quarto estava tomado por uma corrente elétrica, que soltava energia para todos os lados.

- E que resposta você quer? – James reclamou – Me deixa em paz, garota!

Mas Lily avançou até ele, e ficou bem de frente para o irmão adotivo. E ela despejou o que estava sentindo.

- Você me tratou como lixo ontem! Eu só queria ser legal, e você me enxotou daqui como um bicho! Foi grosso à toa, e agora fica me vendo dormir. Quando te pergunto o que está havendo, você simplesmente foge!

James começou a respirar mais profundamente ainda. Ele parecia quase descontrolado.

- E daí? – ele retrucou – Eu faço o que quiser!

Mas Lily inclinou-se ainda mais para ele, e, com ainda mais raiva, rebateu.

- Ah, mas não faz mesmo! Pelo menos não comigo. Não sou seu capacho!

A proximidade de Lily estava deixando James cada vez mais descontrolado. Ele cerrou os punhos, e, reunindo as últimas forças, virou de costas. Ele foi andando até a janela, e falou, numa voz mais controlada, sem gritar.

- E o que você quer, então?

Lily se acalmou um pouco com a distância dele, e falou, num tom mais brando.

- Quero um pedido de desculpas.

James inspirou profundamente. Já não tinha mais forças para lutar contra aquilo tudo.

Sua voz saiu num fio. O tom dele era melancólico, e certamente arrependido.

- Me desculpe.

Lily sentiu no mesmo instante a diferença no tom dele. Foi como se uma onda de alívio a percorresse por inteiro. Seus sentimentos pareciam menos raivosos, mas não eram menos intensos. Ela sentiu uma nova onda de nervosismo bizarro a invadindo, um arrepio percorreu sua pele. E ela não controlou seus lábios quando a frase simplesmente escapou.

- Por que você me beijou no dia da festa, James?

James virou seu tronco lentamente. Seu rosto estava pálido, branco como papel. Ele tinha os olhos muito arregalados. E de seu lábio escapou, quase como um sussurro.

- O que?


Músicas do capítulo:

Dancing Queen – Abba (trecho)

Mamma Mia – Abba

Fim do capítulo. Espero que tenham gostado. O próximo capítulo começa exatamente do ponto onde esse terminou, então vocês verão a conversa de James e Lily na íntegra.

Muita coisa aconteceu neste capítulo, né? Mas garanto que no próximo acontece ainda mais! Além das idas e vindas de nossos casais, o próximo capítulo vai ser marcado por um acontecimento bem triste. Mas ele será um divisor de águas, e uma reviravolta vai acontecer por causa dele.

Aguardo muitas reviews de vocês. Obrigada aos quem perdem seu tempo lendo o que eu escrevo, e agradeço muito se deixarem sua opinião. Ela ajuda muito, acreditem!

E minhas queridas amigas do coração, que sempre escrevem emails e reviews lindas e completíssimas, muito obrigada mesmo! Vocês em têm idéia do quanto me ajudam, e me dão ânimo para continuar escrevendo. Amo vocês, meninas!!!

Beijo!

FELIZ NATAL!!!

Pri