A única reação que ele se permitiu ter foi colocar a mão em meu ombro. Qualquer arfar de surpresa que eu pudesse ter soltado foi abafado pelo meu coração, que martelou feito louco.

Mesmo que ele não mexesse um músculo de sua face, o beijo parecia tão intenso. No momento em que ele segurou meu ombro, demorou tempo demais para me afastar, era como se ele não quisesse fazer isso. Aquele instante despertara algo a mais em mim.

Eu não conseguia supor nada. Eu só queria congelar e não ter que aguardar reação seguinte de Sasuke.

Assim que seus lábios se afastaram dos meus, ele continua me olhando. Com os olhos arregalados de surpresa, eu não conseguia dizer nada. Será que eu devia fingir que desmaiei?

Tiro os óculos que estavam um pouco embaçados.

— Eu... Err.. — tento dizer algo, mas até eu estou perplexa com meu ato.

Busquei uma centelha de sentimento naqueles olhos negros, mas não encontrei. Não consegui decifrá-lo. Então ele desvia o olhar e se levanta.

— Se sente bem pra voltar pra sua casa? — Ele questiona pegando as nossas xícaras de café. Meu queixo caiu.

Sinto-me a pessoa mais ridícula do mundo! Eu dei o meu primeiro beijo, e justamente em meu professor de Literatura, onde eu estava com a cabeça? Quer dizer, eu nem sabia se sentia algo por ele — além de realmente querer estar perto.

Pelo olhar de Sasuke, eu podia perceber que ele queria dizer: "Você não pode ficar aqui."

— Sim — respondo. Eu não conseguia dizer o contrário, todo o medo que senti anteriormente foi substituído por um misto de euforia e subsequente de frustração.

Levantei do sofá e limpei meus óculos na barra da minha blusa. Volto a apoiar os óculos no nariz. Assim que Sasuke volta da cozinha vejo que ele está com as chaves do carro na mão.

Eu queria negar uma carona, dizer que iria de táxi, ou sei lá o que, mas eu apenas fiquei lá parada. Deixando cair os braços, senti meus ombros se encolhendo.

A cada passo que ele dava, a temperatura na sala subia um grau, ou até mais.

— Vamos? — ele questiona bem próximo de mim.

Afirmo com a cabeça e saio do apartamento assim que ele abre a porta. Eu queria dizer algo, mas a sensação de ter ido longe de mais me consumia. Eu só conseguia ficar com a cabeça baixa e segui-lo. Quando entramos no elevador percebo um suspiro longo de Sasuke.

Olho para ele, que naquele momento, também olhava para mim. Sustentei o olhar dele, sentindo-me um pouco tonta conforme eu me perdia naqueles olhos.

Por um breve instante, ele manteve o olhar preso ao meu, paralisado. Parecia pronto a falar, mas desviou-se bruscamente. Continuei ali, de pé, com o corpo desengonçado, até que a porta se abriu. Meus pés não se moveram. Eu não conseguia ficar calada, eu só queria que ele falasse algo!

Sasuke segura à porta com a mão ao sair.

— Você não vem? — ele questiona.

— Não até você falar algo — digo, com toda a coragem que consegui reunir.

Novamente, um suspiro alto.

— Sakura, por favor. — ele pede.

— Só isso? —insisti. — É só isso que você tem a dizer?

Esperei por uma resposta sincera, por um breve instante, me perguntei se tudo fora minha imaginação. Os flertes, os olhares, o jeito que ele segurou meu ombro. Eu só queria uma resposta para confirmar que eu não estava louca.

— Eu não quero ser rude, Sakura.

Essa era a resposta dele. Eu não merecia sequer uma resposta.

Saio do elevador e pisando duro vou até o carro. Não quero parecer derrotada, mas tenho vontade de chorar e me bater ao mesmo tempo.

Sasuke liga o carro e por um segundo me olha novamente.

— Se aparecer qualquer pista sobre esse sequestrador, avise a policia, o quanto antes — diz antes de dar ré. Não respondo. Apenas permaneço ali, estática, sentada no banco. Não demora muito para sairmos do condomínio, mas a cada sinal, a cada parada do carro, eu sentia meu coração se esmagando.

Grande erro. Merda de atitude impulsiva!

No fundo, parte de mim rezava para que ele dissesse algo sobre o beijo, contudo, era melhor conviver com a incerteza do que com uma vergonhosa rejeição.

Eu me sentia sem ar, incapaz de apagar as imagens cálidas da minha mente.

— Sakura... — Sua voz me tirou do transe. — Onde fica a rua da sua casa? — ele questiona.

Dito o caminho e me encolho ainda mais no banco. Assim que Sasuke estaciona em minha casa, eu abro a porta do carro.

— Obrigada... Por... — Não sabia o que dizer. — Obrigada pelo café... — Murmuro.

— Não se esqueça de trancar a porta — ele diz. Novamente usando um tom formal.

Fecho a porta do carro, e percebo que ele me espera entrar em casa antes de sair com o carro. Entro em casa e fecho a porta. Sinto lágrimas quentes descerem pelas minhas bochechas e traçar uma linha até o meu queixo.

Meu corpo inteiro fica fervendo, como se alguém tivesse me enfiado de cabeça em um forno.

Era vergonhoso. Eu nunca havia tomado uma atitude tão inesperada. Eu só me sentia muito idiota, e queria ter a minha amiga Karin por perto pra desabafar, e naquele momento quando me lembro dela, mais lágrimas descem pela minha face. Eu sentia muitas saudades da minha amiga, eu só queria que elaestivesse bem.

|... |

No livro Jane Eyre. Charlotte Brontë mostra como uma mulher também pode tomar a iniciativa. A protagonista, criada para ser uma dessas damas "resistentes, abnegadas e pacientes", é capaz de enfrentar as dificuldades e dizer a Rochester — O homem, o qual ela sentia uma paixão. —, com muita naturalidade, que está apaixonada por ele. Um verdadeiro feito para uma mulher do século XIX.

Eu não disse que sentia algo por Sasuke, mas definitivamente eu tomei uma atitude. Impulsiva, mas que não poderia ser apagada.

Passei uma boa parte do meu tempo do final de semana remoendo cada segundo que passei no apartamento de Sasuke, além de tentar entender que tipo de sentimento eu tinha pelo meu professor.

Eu sabia que me sentia atraída por ele, afinal, quem não se sentiria? Ele era bonito, ótimo com as palavras, e sua presença era tão boa... Que não tinha como não nutrir algo por ele.

É claro que esse lampejo de sentimento teria que desaparecer. Não só pelo fato dele ser meu professor, mas também filho do homem que traiu minha mãe, entre várias razões óbvias, eu era uma colegial e ele um homem adulto. Quaisquer faíscas que pudessem surgir entre nós, são rapidamente apagadas pelas inúmeras razões que não poderíamos ficar juntos.

Quando encontro com Ino na frente do colégio na segunda feira, ela me pareceu um pouco mais animada. Aproveito sua animação para conversarmos. Ultimamente era difícil conversar com ela. Ela parou de se importar com o desaparecimento de Karin, se tocávamos no assunto, sua face se aborrecia. E, às vezes, ela para no meio de uma conversa e simplesmente se cala como se colidisse contra uma barreira.

— O que aconteceu de bom? — Questiono.

— Me chamaram pra sair.

— Quem? — questiono. Rezando para que não seja um homem mais velho, que vá raptar mais uma amiga minha.

— O Gaara, o lançador do time de futebol da escola — ela responde.

— O Gaara? — Questiono. Afinal ele não era um cara muito falante, as garotas se interessavam por ele, mas ele nunca se interessava por elas.

— Sim! — ela estava extasiada.

— Wow! Que legal — expressei. Embora estivesse preocupada com essa repentina aproximação.

— Vamos nos encontrar no Vanilli após as aulas. O que é ótimo, pois você pode nos observar e dizer como estou me saindo.

— Claro. Eu vou observar — falei. Principalmente pelo fato de que não queria ver uma amiga de coração partido.

Entramos na sala de aula e dessa vez sento-me na carteira do meio da penúltima fileira. Ino me segue e se senta ao meu lado.

— Trouxe o dever? — questiono a ela. Pois havíamos feito o trabalho juntas. De repente a expressão de Ino muda. E eu me preocupo.

— Ino! Você esqueceu? — Questiono ao ver que ela não conseguia falar.

— Eu meio que na pressa de sair de casa, deixei na escrivaninha. Desculpe-me!

— Estamos na merda — resmungo. Novamente, eu deixaria de entregar uma lição. O que estava ficando frequente na matéria de literatura. Era horrível a sensação de não entregar uma lição, mas não entregar uma lição para Mrs. Uchiha era ainda aterrorizador.

— Bom dia pessoal. Vamos começar a aula falando sobre o Naturalismo — Mrs. Uchiha entrou na sala, logo dizendo.

Por um milagre, ele não solicitou de imediato o Dever de Casa.

Assim que ele iniciou a aula, permaneci de cabeça baixa, apenas acompanhando a aula pelo livro. Recebi mensagens pelo meu celular, mas não desviei meu olhar.

Minha mente se torna vaga, nebulosa e cinza.

— Professor, na aula passada, já discutimos sobre esse paragrafo — um dos alunos interrompe a aula.

— Falamos? Perdão... Vamos prosseguir para o próximo.

Quando Mr. Uchiha prossegue, novamente ele é interrompido.

— Nós paramos na página 40, paragrafo 5. — o aluno o ajudou.

— Me desculpem. Creio que adicionei a marcação errada em meu livro. — Mrs. Uchiha se desculpa e prossegue.

— Você não vai corrigir o dever professor? — Mais alguém o interrompe. Merda! Porque alguém tem que se lembrar do bendito dever.

— Ah... O dever. Bem lembrado. Vamos corrigir ao fechar esse capitulo. Tudo bem? — ele questiona. Parecia que ele estava distraído.

Pouco tempo antes de a aula acabar, Mr. Uchiha é questionado sobre o dever, novamente.

— Me desculpe por esquecer de novo pessoal! Eu corrijo na semana que vem. Como recompensa, vou dobrar a pontuação, tudo bem? — ele pergunta. Passa a mão pela nuca e vejo seu olhar ir de encontro ao meu. Eu desvio o olhar para baixo rapidamente, meu rosto esquentando de repente e uma coceira nervosa atingindo minha barriga.

O sinal toca e eu ando rápido para sair logo as dala. Sentia-me sufocada, e queria correr para longe dali.

— Tivemos sorte de o professor estar distraído hoje — Ino diz saindo atrás de mim.

— Sim, me mande o dever por e-mail, que eu mesmo trago para a próxima semana — peço.

— Não fique brava comigo — Ino pede enquanto vou para o meu armário.

— Não estou brava. Só não esqueça de novo, ok? — Peço.

— Está bem. Vemo-nos no almoço — Ino diz e eu assinto.

|... |

Mais tarde, no café Vanilli começo limpando as mesas e depois fico no caixa recebendo os pedidos. Era a folga de Hinata, então Utakata assumiu o caixa.

Quando Ino e Gaara chegam, eu recebo o pedido. Gaara pede um Expresso, e Ino pra acompanhar pede o mesmo. Eu sabia que ela achava o Expresso amargo demais, contudo, ela não quis fazer outro pedido.

Eles se se sentam à mesa do canto esquerdo. E percebo que abrem os cadernos para estudar. Isso era um encontro ou uma reunião de estudos? — fiquei me perguntando.

Pouco tempo depois, vejo Haruki entrar seguida de Hotaru Katsuragi e Fūka, suas amigas, que por sorte, frequentavam outro colégio. Hotaru era uma garota com os olhos verdes-água, e um cabelo ondulado loiro que vai além de seus ombros, sua estatura era a menor do grupo. Já Fūka era bastante alta e sempre se vestia de forma provocante. Ela tinha olhos azuis e ondulado cabelo castanho vermelho longo, que se estendia até a cintura, e pele clara.

Os trios de garotas sempre chamavam a atenção. Não fiquei surpresa quando Utakata ficou embasbacado ao vê-las.

Tive que fazer o esforço de atendê-las. As três pediram Café Caramelo, mas sem antes, zoarem o fato de eu estar de uniforme.

Ino e Gaara não passam despercebidos por Haruki. Ela despeja um olhar fulminante sobre Ino e senta-se à mesa ao lado deles.

— Estou sentindo cheiro de porco — Ouvi Haruki dizer. Olhei para Ino, que tentava não demonstrar intimidação. Quando fui entregar os cafés fiz questão de dizer algo:

— Aqui não é o colégio Haruki. Ninguém aqui vai aceitar suas brincadeiras — falei.

— Garota, eu não falo com empregados — Haruki alfinetou.

Respiro fundo e decido ignorar aquela situação. Ainda faltava muito para acabar o expediente, e eu precisava me manter calma. Volto para o balcão e continuo atendendo aos pedidos.

Recebo uma mensagem. Pego o meu celular.

"Cuidado ao voltar pra casa hoje, não queremos outra garota desaparecida na cidade, não é?" — a mensagem faz minha boca secar. Novamente, número desconhecido. Olho pelo café e percebo que há muitas pessoas com celulares na mão, será que esse desconhecido, estava ali? Sempre me observando?

Um frio na espinha toma conta de mim. Eu não queria entrar em pânico, mas depois dessa mensagem eu precisava tomar uma atitude. Dizer para minha mãe ou até mesmo para Naruto, ainda hoje.

Não demorou muito para que Ino fosse embora. Ela sai do café seguido por Gaara, com uma expressão de chateação. Mesmo que fosse um encontro de estudos, tudo foi arruinado com a chegada de Haruki.

Pouco depois, Haruki também vai embora. Vou até as mesas para limpa-las. Percebo que na cadeira havia ficado um celular. Não sabia se o celular pertencia a Haruki ou uma de suas amigas, contudo, apenas o guardei no meu bolso para deixar nos achados e perdidos, posteriormente.

Quando volto para o caixa, uma figura conhecida aparece para fazer um pedido.

— O que deseja? — questiono. Mr. Uchiha fica ali parado, olhando para o menu, como se fosse a primeira vez que estivesse entrando no café.

A fila aumenta e tenho que pedir para que ele tome uma decisão.

— Já se decidiu? — Questiono. Mas ele não me ouve. — Mr. Uchiha, o que vai querer? — falo mais alto. Ele então sai do transe e me olha.

— Um Macchiato, por favor. — por fim, se decide.

— Ok. É pra levar, ou tomar aqui? — questiono, mas ele já havia dado as costas. Ele se senta no canto mais escondido do café e permanece lá. Recebo os pedidos e Konan serve o café para Mr. Uchiha. Não demora muito para que ele faça mais um pedido. Novamente, um Macchiato e cookies para acompanhar.

Dessa vez, sou eu quem faz a entrega.

— Um Macchiato e Cookies para acompanhar. Deseja mais alguma coisa? — Questiono.

Percebo que ele não me olha. Parecia novamente distraído. Respiro fundo e questiono:

— Mr. Uchiha está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

— Sasuke. Eu te pedi para me chamar de Sasuke — ele diz, dessa vez me encarando.

— Não... — nego. — Vamos manter as coisas como você gostaria, Mr. Uchiha — insisto.

— Sabe o que está acontecendo comigo Sakura? — ele questiona. A ansiedade em sua voz faz meu coração saltar.

— O que?

— Estou distraído demais. Está difícil me concentrar. Veja, não consigo escrever nada — ele me mostra o notebook com o Word em branco.

— Está distraído? Com o que?

Você. Você é a minha distração. — ele responde. Ele sorri discretamente, apenas algo breve e efêmero.

A respiração escapa de meu corpo com um ruído e tudo congela por um segundo. Constato que ele sentia algo por mim. Mesmo que fosse uma simples atração, ele sentia alguma coisa.