- Rachel, você não pode estar falando sério.

Rachel suspirou, levando as duas mãos aos olhos cansados. Sua rotina diária, tão meticulosamente planejada assim que chegava à escola (porque sua memória de diva se recusava a decorar os horários das aulas), fora destruída juntamente com sua saia, ainda na hora do intervalo.

- Kurt, eu juro pra você. Ela só... Me ofereceu.

- Você sabe muito bem que a essas horas, Santana deve ter espalhado pra metade da escola que você conseguiu essa saia de alguma maneira não lícita... – Kurt deixou que os olhos baixassem para as coxas de Rachel, e ela agradeceu em silêncio quando não achou nos olhos dele o mesmo que achava nos olhos de todos os outros representantes do sexo masculino que haviam repetido o gesto (inclusive Schuester), muito pelo contrário – Não que eu a ache lá aquelas coisas. E se particularmente eu tivesse que bater em alguém pra conseguir isso aí... – Torceu o nariz e não foi necessário que terminasse a frase para que Rachel o entendesse.

Estavam na sala do coral. E depois de repassar qual seria a tarefa da semana, William pediu para que se dividissem em duplas. Quando Finn tentou se aproximar, Rachel simplesmente o ignorou. Culpa de frases não necessárias que haviam feito o fim de semana o mais desastroso possível.

Agora, estavam Kurt e Rachel, fingindo debater como fariam a glória dos anos oitenta transpassar através de influência nas músicas contemporâneas. Rachel, curiosamente, não tinha se oposto à proposta de atividade. Mas depois do ocorrido com Finn, o clube do coral simplesmente aceitou que talvez ela estivesse em mais uma das famosas crises Berry.

Suspirou, olhando sobre o ombro uma última vez, só para se certificar.

Não, Quinn realmente não estava ali. E aquela nada comum ausência só serviu para intensificar a sensação de Rachel de que a qualquer momento a saia vermelha que em nada combinava com seu suéter cairia no meio do pátio e uma vez mais, ela seria a piada da semana.

Porém, alguns pares de horas haviam se passado desde que Quinn cedera-lhe a peça de roupa e o mais perto que tinha acontecido, eram os tais olhares que a vinham acompanhando desde a hora do lanche. Não que isso fosse lá culpa de Quinn...

- Você acha que ela pode ter enlouquecido, ou alguma coisa assim?

O tom de fofoca chamou a atenção de Rachel e quando ela se voltou à nova voz que tinha de uma maneira ou de outra entrado na conversa também, Mercedes e Tina se debruçavam sobre um Kurt que ainda a olhava com desconfiança.

- Ela só foi... Gentil. – Rachel defendeu.

Não que Quinn precisasse de defesa. Não que Quinn merecesse defesa. Não que Rachel estivesse à vontade com aquela gentileza toda.

Mas uma diva precisa ser justa, certo? Certo.

- Rachel, por favor. Ela é Quinn Fabray. Você se esqueceu? – A irritação transpareceu na única voz masculina daquele grupinho e Kurt revirou os olhos, cruzando os braços.

- A mesma Quinn Fabray que organizou um campeonato de tiro ao nerd com um dos meninos do clube de xadrez.

- A mesma Quinn Fabray que pagou aquele menino do primeiro ano pra colocar pulga na sua mochila.

- Por favor, não me lembra disso...

- Então seja racional, Rachel! – Kurt jogou os braços para cima. Exaltado, não conteve a voz... – Desculpe. – Ensaiou um sorrisinho sem graça, quando Schuester o olhou pelo canto dos olhos. – Rachel...

Outro suspiro. Demais para uma diva só, era o que ela pensava quando se levantou.

- Mr Schue, eu preciso ir ao banheiro.

Willian apenas concordou, um gesto de cabeça, sem tirar os olhos do que Rachel pensou ser uma partitura ou algo do tipo.

O suspiro comprido e entrecortado escapou antes que ela conseguisse contê-lo. A mão nas costas apenas intensificou a carícia delicada, enquanto Quinn tirava uma mecha do cabelo loiro que colava-se à bochecha molhada. Levou o lenço de papel que usava para secar as lágrimas pelo que julgou ser a décima quinta vez aos olhos que sempre ficavam extremamente verdes quando chorosos.

A cabeça doía-lhe como nunca... Fazendo com que se perguntasse como ela não tinha previsto uma reação assim. Era óbvio que o assunto de Beth não estava e nem nunca estivera superado... E a ferida muito superficialmente cicatrizada sangrava agora como tinha sangrado na manhã daquele dia em que abrira mão de seu bebê.

O choro recomeçou antes que ela pudesse sequer lutar contra ele. Baixou a cabeça, derrotada, sentindo o toque não-real de Mick em ambos os ombros.

Sua Rachel não falara desde que haviam entrado no banheiro, demonstrando uma calma que a verdadeira Rachel não possuía.

Mick havia lhe contado nas divagações durante a aula de história americana que aquela não era sua filha de verdade. Que Beth tinha os cabelos negros como os do pai.

Que aquela era a Beth de Puck... Só a de Puck...

Mas não, não tinha adiantado.

Era sua filha. Ela sabia que era sua filha. Reconheceu cada centímetro de cabelo loiro, que embora não fosse "real", estava lá, a apenas alguns metros de seus braços. Braços que não a seguraram enquanto ela chorava. Braços que nunca serviram de apoio e de abrigo para seus sonhos infantis.

O primeiro soluço veio com força. O grito contido na garganta apertada se fez extravasar em puro desespero. O choro se tornou copioso. O nome foi chamado ao fundo... Uma voz conhecida... Alguém que pareceu hesitar, antes de por fim aconchegar o corpo pequeno contra o seu próprio.

Mãos gentis se enfiaram entre os cabelos loiros e Quinn se deixou abraçar, a cabeça repousada contra o estômago macio de Rachel. E foi só quando Mick voltou a afagar as costas femininas, que Quinn teve ciência do que estava acontecendo.

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Rachel entrou no banheiro puxando a saia de Quinn um pouco mais para baixo. Não que adiantasse lá alguma coisa, mas a sensação de alivio momentâneo valia a pena. Aquele banheiro não era lá tão movimentado... Um pouco mais afastado das outras salas de aula. O murmúrio que ouviu tão logo abriu a porta era muito característico para ser ignorado.

Quem quer que fosse, além dela, que estivesse ali naquele banheiro, estava chorando.

Aquele era um bom local pra se chorar... Rachel sabia por experiência própria.

Era um bom lugar pra ser ficar sozinho também... Mas quem quer que fosse que estivesse atrás do primeiro cubículo cuja porta estava entreaberta, poderia estar se sentindo meio mal, no sentido físico da palavra, ou alguma coisa assim, não poderia?

Ignorando a fagulha de bom senso de que qualquer pessoa tem o direito de chorar onde e como quiser, Rachel se aproximou a passos lentos da fonte do barulho. Abriu a porta com cuidado... E os fios loiros que caiam longos pelos ombros da menina que se encolhia eram inconfundíveis. Chamou-lhe o nome com cautela... Quinn não respondeu.

Rachel sabia que o mais sensato seria sair dali o mais rápido possível, afinal de contas, como estavam discutindo não havia nem cinco minutos, aquela era Quinn Fabray, o filhote Sylvester. Certo?

Não, não estava certo.

Aquela era Quinn Fabray, sua colega de classe há mais de cinco anos, embora Rachel suspeitasse que Quinn não sabia que realmente dividiam as mesmas classes por tanto tempo.

Chamou mais uma vez... E outra... E cada vez mais preocupada, era quase impossível de conter o ímpeto de se aproximar da chorosa Fabray.

Quando percebeu, Rachel tinha Quinn agarrada às suas pernas. O rosto colado ao suéter e os cabelos loiros entre os dedos.

Então Quinn enrijeceu. Os soluços aos poucos foram parando...

Nenhuma das duas teve consciência de quanto tempo realmente ficaram naquela posição. Mas foi Quinn quem se afastou primeiro.

Os olhos extremamente vermelhos e inchados, o nariz também vermelho e os cabelos que se grudavam à pele molhada da bochecha, quase fizeram Rachel trazer Quinn novamente para o abraço do qual ela se desvencilhara segundos atrás. Mas novamente Rachel foi golpeada por uma rajada de realidade e por algumas frações de segundos, encarou Quinn com ligeiro temor, certa de que a qualquer momento a enxurrada de ofensas característica de Fabray lhe acertaria com forças renovadas.

Mas Quinn apenas a encarava, sentada sobre o vaso sanitário. Assim, debaixo...

Na verdade, os olhos dourados brincavam de Rachel para um outro ponto do espaço minúsculo. E foi só quando Quinn por fim tentou se levantar, que Rachel percebeu o quanto era realmente pequena aquela cabine.

O espaço pessoal lhe foi invadido e Rachel desviou os olhos dos de Quinn, ciente de que estavam próximas demais. Ligeiramente desconfortável, a pequena pigarreou, também ciente dos bons centímetros que Quinn era mais alta.

Força física nunca a havia intimidado... Mas por alguma razão, com Quinn assim, tão perto, o ar ficava rarefeito, respirar era complicado.

Quinn não parecia assim tão incomodada.

Inclinou-se, abriu a porta e se espremeu na parede oposta à saída, esperando que Rachel fosse primeiro. E foi o que Rachel fez, depois de alguns segundos, como se não soubesse o que fazer.

Quinn a seguiu, se dirigindo imediatamente para a enorme pia de mármore que ocupava quase toda a parede do banheiro.

A água fria que ela trouxe com a ajuda das mãos para o rosto muito quente foi um alívio sem tamanho. Alívio que chegou a roubar-lhe um suspiro longo e entrecortado.

Rachel apenas a olhava, ainda tentando assimilar o que acabara de acontecer ali, naquele banheiro.

Ainda tentava entender quando Quinn por fim fechou a torneira da pia. A toalha de papel pega no recipiente próprio fixado numa parede não muito longe dali ajudou (e muito) com o estrago que as lágrimas haviam feito na maquiagem discreta e antes perfeita.

Então a postura "Quinn Fabray, líder de torcida" voltou. Os ombros delicados foram aprumados. Quinn se encarou através do espelho por mais alguns segundos... Voltou para dentro da cabine sob os olhos preocupados de Rachel e trouxe consigo a bolsa que jazia esquecida no chão, ao lado do vaso, quando voltou para fora.

Abriu o bolso pequeno, na frente da mochila, e Rachel reconheceu a caneta cor de rosa, cheia de glitter.

Os olhos continuavam fixos na caneta quando Quinn se aproximou... E então a mão que segurava a tal caneta foi estendida. Rachel, ainda muito confusa, ergueu os olhos com vagar, franzindo as sobrancelhas.

Quinn ainda tinha os olhos inchados e muito vermelhos, mas o nariz e as bochechas já haviam voltado ao tom ligeiramente rosado original e a pele já estava seca. Os cabelos também já haviam sido ajeitados... E Quinn parecia pelo menos um pouco mais recomposta.

- Obrigada. – A voz firme, não falhou.

Rachel pegou a caneta ainda encarando Quinn. E então Fabray se foi, sem dizer exatamente sobre o que se referia quando agradeceu.

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"Isso vai acontecer sempre?"

Sem resposta... Quinn se referia a ter que ver Beth... E as consequências que isso lhe traria.

"Vai, não é?"

Um suspiro.

"Você não precisa respirar. Pode me explicar o que exatamente foi isso então?"

Quinn desviou a atenção do trânsito do caminho de volta para casa por uma fração de segundos. Mickahill simplesmente a ignorava, olhando para frente, como se nada estivesse acontecendo.

- Mick.

A voz alta era desnecessária. Quinn estava ciente. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto... Os anos ao lado de Sue Sylvester a haviam ensinado que as vezes, o tom que você dá à sua voz, pode conseguir muito por si só.

E funcionou.

Mick a encarou e Quinn refletiu se alguma vez, iria ver em Rachel a expressão de impotência que a sua própria Rachel tinha agora.

- Sua Rachel?

A expressão de Mick mudou em uma fração de segundos e Quinn estreitou os olhos, pensando se havia um jeito de inferir dor a um ser que não tem corpo físico. Mick gargalhou e a vontade de machuca-la aumentou.

- Você me entendeu.

- Entendi.

- Então não se faça de idiota.

- Quinnie, Quinnie...

Foi a vez de Quinn suspirar, estacionando o carro na garagem dos Fabray.

Estaria sozinha, sabia que estaria, então não havia assim tanta necessidade de ficar se explicando sobre o porquê de estar em casa duas horas antes do término normal das aulas. A mochila foi abandonada logo no sofá da sala, junto com os sapatos delicados e a calça jeans foi aberta no caminho para a cozinha. Quinn não entendia o porquê exatamente das pessoas terem que usar roupas. Nunca entendera...

Ou melhor, entendia sim.

Entendia que o ser humano é o mais pervertido dos animais, porque todos os outros andam sem roupa por aí sem problema nenhum.

Queria poder ter deixado Mick também na sala, como fizera com os sapatos... Mas o anjo chegou na cozinha antes mesmo dela e quando Quinn fechou a porta da geladeira, com o suco de laranja em mãos, Mick a encarava da maneira mais maliciosa e irritantemente Berry de se fazer.

- Eu vi.

- O que, Mick? – Quinn revirou os olhos, enquanto seguia para a pia.

- Eu vi vocês, oras. Josselyn viu também.

- Quem é Josselyn?

- O anjo da menina, oras.

- A Barbra? Ela estava lá também?

- Você nem percebeu então..,

- Mick, você está realmente começando a me irritar.

- Porque?

Quinn fechou os olhos, esfregou os olhos com irritação.

- Eu achei que fosse você. Só isso. E justamente por causa disso.

- Mas era, não era?

- Como assim? – Meneou a cabeça, só então encarando Mick por vontade própria.

- Bom... Eu sou ela. Então ela sou eu também.

- Não, não era você. Rachel Berry e sua imensa falta do que fazer além de meter na minha vida. Foi só isso que aconteceu naquele banheiro.

- Uhum... – A concordância mais falsa que Quinn tinha ouvido na vida. Mick desviou os olhos dos dela, com aquele irritante sorriso ainda maior. Levou o dedo indicador à boca, mordendo-lhe o cantinho da unha. Outro gesto estupidamente Berry.

Quinn bufou, desistindo de conversar por fim.

Anjos!

Seguiu para a sala com o maior copo da casa cheio de suco.

Suco de laranja e horas seguidas de série policial. Era só isso o que ela precisava para o dia ficar bom de novo.


Meus amores...
Eu não abandonei vocês. Nunca vou abandonar.
A questão é que... Eu não estava num momento muito legal.
Muita coisa acontecendo junto. As vezes é dificil aguentar tudo sozinha.
Enfim... Não tenho muita coisa.
Mas está tudo melhor e o meu bloqueio para com essa história também tá sendo resolvido aos poucos.
Prometo não sumir mais desse jeito.

Estou perdoada?

Com amor,

Larissa.