APENAS AMIGOS?

por Nina Neviani

Capítulo VII

11 de junho

A noite, como tantas outras, tinha sido muito agradável. Eu e Aiolos tínhamos ido ao cinema ver uma dessas comédias românticas sem maiores pretensões. O filme até que era bom. Talvez eu fizesse uma crítica levemente positiva e a publicasse no jornal. Entretanto, isso não me preocupava no momento. O que me preocupava era o que deveria acontecer para deixar a noite mais agradável ainda, e... não acontecia.

– Foi uma ótima noite, querida.

– Com certeza, – concordei, para então dizer – mas você sabe que ela poderia ficar melhor. Não quer entrar? – Convidei esperançosa.

– Acho melhor não, Minu.

Certo. Agora eu via toda a minha esperança escorrer rapidamente pelo ralo da decepção e da rejeição.

– Por quê?

– Ainda é cedo.

– Nós já namoramos há um mês. Estamos no século XXI. Não se preocupe, você não vai me chocar. Não mesmo!

– Para que a pressa, Minu?

Então uma possibilidade assustadora passou pela minha cabeça.

Nããããooo!

– Aiolos,, você não tem nenhum... "problema", não é?

– Problema? – Ele parecia confuso.

– Sim. Digo, você consegue...

Ele entendeu - felizmente - e riu.

– Oh, sim, Minu. Eu "consigo". Não tenho problema nenhum, fique tranqüila.

– Ufa. Menos mal. Se você não quer entrar mesmo. Tudo bem.

Despedimo-nos com um maravilhoso beijo que ficou por aí mesmo. Pelo menos eu sabia que, teoricamente, era só uma questão de tempo.

19 de junho.

Malas. Gente chorando. Mais malas. Gente correndo e mais gente chorando.

Aeroporto.

Não levo malas. Não choro. Aiolos leva as malas. Não corremos, pois ele está adiantado, como sempre. E eu estou começando a ficar triste pela despedida, mas estou longe de chorar.

O vôo do Aiolos foi anunciado.

– Boa viagem. E resista aos encantos das professoras de História.

– Obrigado. Resistirei, mas não estarão apenas professoras e professores de História nesse congresso.

– Reformulando: resista a tudo o que usar saia. E que não usar também.

– Certo. – Um beijo – Até semana que vem. Eu ligarei quando chegar lá.

– Ótimo. Até semana que vem. Bom congresso.

Saí do aeroporto um pouco triste. Despedidas sempre me deixam triste. Por sorte essa era uma despedida temporária.

Olhei no relógio. 18 horas. Em duas horas começaria o encontro daquele mês. E eu iria sem o namorado. Paciência. O que era o encontro comparado ao congresso onde Aiolos iria apresentar um trabalho? Entretanto, o problema não era o fato de eu ir sozinha. Mas o fato de eu ir sozinha e encontrar Ikki Amamiya. Com Aiolos perto do Ikki, eu tinha a prova viva de que estava tão bem do que estaria se estivesse com Ikki. Provavelmente eu estaria, ops, estou – afinal ainda sou namorada dele! – melhor do que estaria com o Ikki. Mas com o Aiolos longe...

Hora de ir para casa e me arrumar.

19 de junho. 20 horas.

Acho que pela primeira vez em todos aqueles anos, eu cheguei em ponto a um encontro. Nem adiantada como na última vez e nem atrasada como em todas as outras. Tanto que na entrada do pub, que fora o mesmo do último mês, encontrei Shiryu e Shunrei. Sentamos e logo depois os demais chegaram. Ikki entrou, minutos depois, junto com Eire e Hyoga. Ele riu de alguma coisa de Hyoga contou. Ikki estava de bom humor.

Mais suportável.

Porém, quando ele sentou-se a mesa, adivinhe quem foi a primeira pessoa que ele começou a provocar?

Três alternativas:

1 – Eu.

2 – A namorada do professor de História mais bonito da cidade.

3 – A única pessoa desacompanhada na mesa.

Bingo! Você acertou não importando qual das três alternativas tenha respondido.

– Ah! Não me diga que o namorado perfeito já deixou você?

Respirei fundo, e entrei na batalha.

– Primeiro: Oi, pra você também, Ikki. Segundo: Eu, ao contrário de você, não sou "deixada". E terceiro: o meu namorado só não está aqui por que ele tem um trabalho para apresentar no Congresso mais importante de História do país.

Chocolate: 5,00 reais.

Um vestido fashion: 250,00 reais.

Deixar Ikki Amamiya sem palavras: não tem preço.

Passada a batalha inicial, começamos a falar do tema principal daquela noite. O casamento do Seiya e da Saori. Por esse motivo no mês que seguinte, não haverá encontro, já que estaremos todos no casamento.

Os garotos conversavam sobre o fato de Seiya passar a ser um homem sério, como se isso fosse remotamente possível. Ikki se vangloriava das vantagens de ser solteiro, Shiryu falava do privilégio de ser casado, e Hyoga e Shun estavam neutros, uma vez que as suas namoradas estavam perto de mais e tudo o que eles falassem poderia ser usado contra eles algum dia.

Nós, as garotas, conversávamos sobre coisas mais importantes, como o vestido da Saori. Shunrei procurava acalmar a noiva dizendo que tudo se realizaria perfeitamente na cerimônia e que os problemas que aconteciam antes eram apenas para testar a paciência das noivas. Conversamos também sobre as roupas que usaríamos e outros detalhes.

A noite passou rápido. Quase esqueci que Ikki se encontrava ali. Quase.

Os quatro casais saíram, eu fui ao banheiro antes de sair e Ikki foi pagar a conta.

Nada. Nada. Nada. Nada.

Não agüentei e soltei um palavrão. Acho que esse era o primeiro desde que comecei a namorar o Aiolos.

Uma voz falou quase que exatamente o que eu pensei naquele momento.

– Onde está o namorado perfeito quando mais se precisa dele?

Para aumentar a minha frustração, adivinhe de quem era aquela voz?

Três alternativas:

1 – Ikki Amamiya.

2 – O ser mais irritante do mundo.

3 – O Lobo Mau.

Não importa qual alternativa você tenha escolhido, você acertou, afinal todas elas correspondem a mesma pessoa.

Aliás, foi para essa pessoa que eu dirigi o meu olhar mais mortal.

E como resposta, ele aumentou o sorriso.

– Venha, eu te dou uma carona.

– Não, obrigada. Prefiro chamar um táxi.

E peguei o meu celular para... para ver que ele estava sem bateria. Tinha gastado o pouco que sobrara falando com Aiolos quando ele ligou para avisar que já tinha chegado.

– É parece que hoje não está sendo um bom dia. Deixe de ser teimosa e venha, Minu.

– Tenho certeza de que o gerente vai me deixar fazer uma ligação.

– É claro que vai, Minu. Mas... Tudo bem. Faça como quiser. Tchau, Minu, e boa sorte. E não esqueça de mandar esse seu carro para um ferro velho.

Certo. Exceto pela parte de mandar o carro para o ferro velho, ele tinha razão. E era horrível admitir isso, mesmo para mim mesma.

– Ikki. Eu aceito a sua carona.

– Sabia que você ainda tinha um pingo de juízo, mesmo namorando professores de História.

– Não comece, Amamiya.

– Certo, Setsuna.

Então naquele momento eu pensei que o mundo tinha acabado e eu ainda não tinha a certeza se iria para o céu ou não.

Ikki Amamiya abriu a porta do carro.

Pior: Ikki Amamiya abriu a porta do carro pra mim.

– Ei, eu não tenho todo o tempo do mundo.

Refeita do susto, entrei no carro.

Novamente a viagem foi enervantemente silenciosa. Ainda mais silenciosa pelo fato do carro do Ikki ser muito silencioso. Bem diferente do meu. Afinal esse até agora era o meu primeiro e único carro. Eu já o tinha há quase oito anos. Talvez Ikki não estivesse totalmente errado quando sugeriu o ferro velho. E talvez eu devesse deixar de comprar vestidos e trocar de carro.

– Chegamos.

Ótimo. Dessa vez tínhamos chegado, realmente, na minha casa.

– O que eu lhe devo, Ikki?

– Você não acredita mesmo na bondade das pessoas, não é, Minu?

– Pelo contrário. Eu acredito na bondade das pessoas. Eu não acredito é na sua.

Ele riu, antes de dizer.

– Tem razão. Eu tinha pensando seriamente em não "cobrar" nada. Mas já que você está sendo tão enfática.

– Diga logo, Ikki.

– Não se trata de dizer. Trata-se disso.

Então ele me beijou.

Fui pega de surpresa, então se pode dizer que eu correspondi o beijo.

Ok, talvez não tenha correspondido por ter sido pega de surpresa. E por que...

Meu Deus! Eu tenho um namorado.

Um namorado maravilhoso!

Voltando ao meu estado mental normal, empurrei Ikki.

– Uau! Tudo isso já é saudade do seu namorado. Ou será que ele não é tão maravilhoso assim no que diz respeito a...

Não o deixei terminar de falar.

– Cala a boca, Ikki.

– Pelo jeito eu estou certo.

Sem pensar muito levantei a mão para dar um tapa nele, mas ele foi mais rápido e segurou o meu braço.

– Não faça isso – ele disse, apenas.

– Por quê? – Desafiei. – Vai me bater se eu bater em você?

A expressão dele ficou estranha antes de dizer.

– É lógico que eu não vou bater em você. Não se bate em mulheres. Com que tipo de homem você está andando?

– Então o que você vai fazer?

Eu esperava por todas as respostas, menos para a que ele deu.

– Eu vou beijar você novamente.

E soltando o meu pulso, disse.

– Você escolhe, Minu. Pode me dar o tapa se quiser, mas já sabe o que vai acontecer depois.

Aproveitei que a minha mão estava livre, e abri a porta do carro. Lembrei-me que instantes atrás ele é quem tinha aberto a porta do carro para mim. Como alguém podia ser... tão instável? Saí sem me despedir. Afinal já tinha "pago" a carona.

Continua...

Revisado em 25/01/2010.