Disclaimer: Saint Seiya não é meu. Nem os outros santos, ou cavaleiros, que o sejam. Eu estou nessa só por diversão.

Aviso: Este capítulo tem angst. Hum...


Caminho de volta


Kanon sentia dor. Não uma dor igual a que sentira naquela noite; era um cansaço, um incômodo...

Abriu os olhos. Via um teto branco, com luzes fluorescentes ligadas.

Estava... vivo? Ao que parece, sim... Dolorido, tonto, mas vivo...

Havia algo em sua garganta?

"Calma, Kanon."

Não conhecia aquela voz. O que estava em sua garganta o incomodava profundamente. Ouvia barulhos, apitos, máquinas sibilando... Seus punhos estavam atados a alguma coisa. Tentava livrá-los, mas seus braços doíam... Um homem de meia idade estava do seu lado. Nunca o tinha visto.

"Calma, rapaz. Eu sou o Dr. Nikos Skalandakis. Você está no hospital. Se consegue me entender, pisque duas vezes."

Kanon parou de se debater, posto que era inútil resistir contra as amarras que o prendiam, e lentamente piscou duas vezes.

"Ótimo, muito bom mesmo... Agora, preciso que você me ajude a tirar esse tubo da sua garganta. Pode ser?"

Claro! Piscou duas vezes. E o médico retirou o tubo de sua garganta, o que fora muito pior do que pensava. Tossia muito, seu peito doía. Mas doía bem menos do que antes.

"Não tente falar agora, Kanon. Apenas respire devagar, sim?"

Nem que ele quisesse, não conseguiria falar agora. Respirava, e sentia a tosse melhorar.

"Isso, rapaz. Aqui está você, consciente. Honestamente pensei que não veria isso. Você quase não conseguiu, sabia?"

Estava cansado, mas tentou responder.

"Quanto... tempo..." Disse com dificuldade.

"Shh, rapaz. Não fale, sim? Ainda está se recuperando. Descanse. O pior já passou. Mas, para que não repita a pergunta, foram vinte longos dias nessa UTI."

Kanon fechou os olhos. Estava cansado... Sabia que deveria ter morrido... Cedeu aos apelos do médico e deixou que seu sono o levasse.

***

Horas depois, Kanon acordava. Estava deitado numa cama confortável, no que reconhecia ser um quarto de hospital, com monitores e outras máquinas conectadas a si. Tinha uma cânula de oxigênio no nariz e um soro em sua veia. Estava um pouco tonto, mas seus punhos estavam livres. Vestia um pijama de seda, que não era seu...

Virou-se para o lado, Shion estava acariciando seus cabelos.

"Bom dia, Kanon..."

O Mestre estava de rosto desnudo, sorridente. Kanon devolveu o sorriso, mas seus olhos estavam tristes...

"Você sabe, tem uma multidão de gente esperando você acordar. Pedi para que eles esperassem lá fora, afinal eu sou o Mestre e eles têm que me obedecer..." Abaixou-se e lhe deu um suave beijo em sua cabeça, ainda afagando seus cabelos. "Não sabe como ficamos preocupados, rapaz... Mas agora está tudo bem."

Kanon fechou os olhos. Podia estar vivo, mas não ficaria bem por muito tempo...

Shion podia parecer tão novo quanto ele, mas não era. E sentiu a tristeza dele.

"Não fique assim. Sei que dói, mas estou aqui, sempre estive aqui para te ajudar com isso... Posso deixar os outros entrarem? Vão acabar derrubando essa porta."

"Deixe-me só ver como estou..."

O mestre lhe deu um espelho. Viu seu reflexo, seu rosto quase sem marcas. Recuperara-se bem das pancadas, mordidas e arranhões, embora sobrassem alguns ainda cicatrizando, provavelmente ficariam poucas cicatrizes. Estava mais magro, o rosto um pouco cavado.

Doía ver seu reflexo no espelho. Saga...

Afastou-o de si. Pediu para que os outros entrassem. A porta se abriu e Milo, Ikki, Aiolos, Aiolia, Camus, Afrodite e Carlo entraram. Estavam felizes em vê-lo. Trouxeram flores, chocolates, doces... e faziam tamanha algazarra que a enfermeira veio repreendê-los várias vezes.

Kanon podia ver o alívio em seus rostos. Mas ninguém tocou no nome de Saga. E ele também não tinha coragem de perguntar.

Ainda no final do dia, Kanon teve alta da unidade semi-intensiva onde estava, indo para um quarto. E lá, mais algazarra. Shion voltara ao santuário, embora não dissesse, agora teria de cuidar de Saga. Ikki, Milo, Camus, Carlo e Afrodite ficavam sempre lá, sem lhe dar um minuto de paz. Todos os outros vieram, e Kanon ficava imaginando se o hospital algum dia aceitaria mais alguém do Santuário, tamanha a confusão que aqueles cavaleiros faziam.

Mas... Shaka, Mu e Shura pareciam cansados, embora felizes de vê-lo bem.

Em poucos dias, teve alta do hospital. Uma comitiva veio buscá-lo, e no Santuário a própria Athena veio felicitar sua volta. Havia um certo ar de alívio em todos... Mas não vira Saga em lugar nenhum. E ninguém tocava nesse assunto em sua presença...

Foi reconduzido ao Templo de Gêmeos. Estava tudo arrumado, perfumado, cortesia de Afrodite. Até comida quentinha ele tinha feito.

Só que Saga não se encontrava em lugar nenhum.

***

Shaka entrou no quarto onde Saga estava.

Saga era uma sombra do que foi. Magro, apático, já não tinha sequer os ataques de desespero de antes. Seus olhos estavam estáticos, vazios.

"Saga..."

Nada. O outro não movia um músculo.

"Kanon está de volta. Teve alta do hospital."

Nem uma reação.

"Saga..."

Ele estava imóvel. Nem a notícia de que o irmão estava bem o fez sair do estupor onde se colocara. Shaka suspirou, sentou-o na cadeira e o ajudou a comer. Ele apenas se levantava para comer, tomar banho e ir ao banheiro. Isso tudo com ajuda.

Shaka deixou o quarto. Assim que a porta se fechou, Saga passou a encará-la insistentemente.

***

Na madrugada, Saga levantou-se. Forçou a porta de seu quarto, que abriu sem dificuldade. As pessoas se acostumaram tanto com seu estupor que não tomavam as devidas precauções, caso ele quisesse fugir.

Saiu da enfermaria, e deixou as dependências do Santuário. Andou e andou, vagarosamente se dirigindo até o penhasco onde ficava o Cabo Sunion.

A maré estava baixa. A hora estava boa.

Desceu até a prisão onde trancara seu irmão treze anos atrás. Riu baixinho do absurdo da situação. Ele, Saga, julgara e condenara seu irmão, e pelo quê? Por tudo que ele mesmo acabara fazendo. Ele, sob o domínio de sua metade maligna, fizera todas as insanidades que seu irmão idealizara, e muito mais. Instalara um reinado de terror no Santuário de Athena, por treze anos. Até mesmo os cavaleiros de ouro tinham que se curvar à sua vontade, ou...

As lembranças doíam. Via-se novamente com o sangue de Shion nas mãos. Via-se novamente brandindo a adaga contra Athena, um bebê. Via-se novamente golpeando o amigo Aioros e o levando à sua morte precoce. E tantas outras se mesclavam a essas... Para então ver em sua mente, pela enésima vez, o que fizera ao seu irmão. Sim, porque ao contrário do que se imaginava, ele conseguia se lembrar de algumas coisas que o Outro fazia. E sempre eram as piores; como se fosse uma forma de castigo.

Mas o que doía mais, o que ardia em sua alma, não eram as lembranças; mas sim o fato de que tudo que ele desejava mas não podia, não se permitia ter, Ares fazia e conseguia.

Ares já não falava mais em sua mente. Saga percebia o quanto foi hipócrita em considerar Ares uma entidade diferente de si... Em culpar Kanon pela existência dele...

Ares era parte dele. Sempre fora. O santo, puro e imaculado Saga que ele mostrava para as pessoas é que era a ilusão. Uma ilusão que ele mesmo desfez, ao golpear duramente sua psique até que não restasse pedra sobre pedra. Uma ilusão criada para agradar o mundo à sua volta. Uma ilusão que encobria seus verdadeiros anseios e desejos, ao ponto de sua identidade partir-se em uma entidade de mal absoluto, descarregando sua raiva e frustração em pessoas inocentes, como Shion, Aiolos, Athena, e agora Kanon.

Agora não havia mais Ares, não havia mais Saga, não havia mais nada, além de sua dor.

Sabia abrir a prisão, mesmo sem seu cosmo. E o fez. Entrou, a prisão estava quase seca. Bateu a porta, e sabia que a partir dali, nada abriria aquela prisão. Não havia mais tridente de Poseidon, ou passagem para o reino dos mares. Não seria salvo como seu irmão foi.

Trancou-se na prisão do Cabo Sunion. E jogou a chave fora.

Se julgara, e se condenara.

Os pecados de Ares eram seus. E por isso ele não merecia viver.

***


Happy new year, folks!