Todos temos nossos capítulos favoritos. Esse é um dos que mais gosto. Aliás, a partir deste, o prazer em escrever esta fic só aumentou.
Mais uma vez obrigada a:
Sadie (que dispensa apresentações, grata, por tirar leite de pedra e dar uma olhadinha no texto)
Reggie Jolie autora de Of Elves and Humans (Fic em português, apesar do título internacional...)
Gessi - Ane Sekhmet ( esperamos ansiosamente que os dias turbulentos de provas lhe concedam uma trégua para atualizar 'As Areias do Tempo')
Dani ( Que se propôs a atualizar sua "Se Você Partir", uma história cheia de surpresas e sustos deliciosos, que a inspiração não tarde!)
Vindalf Dvergar, que tem compartilhado comigo essa paixão pelos khazâd. Suas fics O Problema Com Kili e O Mundo de Acordo com Dis são TDB
Marina, querida Marina, como esquecer de você? Beijos mil!
Gilda H, que infelizmente não possui conta no ffnet e que não posso responder aos reviews. Partilhamos a mesma obcessão, minha linda! E pode cobrar o quanto quiser. Tais cobranças só me fazem feliz!
Gostaria de mandar um abraço especial à minha querida Myriara, minha eterna mestra, da qual sou fã incondicional. Sua Trilogia com Haldir e Darai é insuperável. Que Mordor não a mantenha por muito tempo longe de nós.
Todas as fics indicadas estão nos meus favoritos. Cliquem e confiram que vale a pena!
Um 'xero' nos que leram e não puderam comentar. Acessos vindos de lugares que nem imaginaria: Bulgária, Croácia, Itália, França, EUA, Reino Unido, Alemanha, Austrália, Países Baixos, Portugal, Espanha, Rússia, Suécia (Ufa! Espero não ter esquecido ninguém.) Grata por me brindarem com seu carinho que lamento não poder agradecer à altura.
E um grande abraço a todos do Tolkiengroup, pois se for começar a citar nomes esquecerei alguém, o que seria imperdoável.
Reviews! Please! Deixem-me saber o que acharam. Sugestões, críticas, impressões e questionamentos serão vistos com carinho e respondidos no menor tempo possível.
Thorin observava a cidade a seus pés. Sentia o vento batendo no rosto. Respirava o ar das montanhas a fim de que por alguns instantes os aborrecimentos recentes o deixassem e permitindo-se admirar as construções, a muralha, a habilidade de seu povo. Pensara que uma mudança de ares o ajudaria a desfazer-se da ânsia que o consumia. Enganara-se. A perturbação parecia persegui-lo, e agora, além dela, havia uma noiva problemática com a qual lidar. E seu pai lhe dissera que um casamento o favoreceria...
O rapaz, com certeza, não deixava de impressionar pelo porte, pensava Frigga enquanto o observava de longe. Era mais alto do que a maioria dos khazâd que conhecia. E, sem dúvida alguma, o pretendente que mais a intrigara. As mãos às costas, os cabelos soltos por sobre a roupa azul-marinho... qual seria a expressão em seu rosto? Com que humor estaria? Até que ponto as palavras do pai refletiam a situação como realmente era? Gostaria de saber antes de arriscar-se a tirá-lo de seus pensamentos.
O filho de Thrain, aparentemente, não percebera sua presença, ou, se percebera , ignorara. Fosse como fosse, não poderia esperar mais. Caso o príncipe de Erebor se desse conta de que o analisava, seria um constrangimento a mais.
- Incomodo? – indagou a princesa.
A princípio, Thorin não se movera. Parecia mesmo que não ouvira a pergunta de Frigga.
Ouvira. E percebera a presença muito antes de a mesma ser anunciada. Todavia ignorara. Assim como ignorava agora o chamado da moça. Já fizera mais do que poderiam esperar dele.
- Uzbad Thorin? – chamou um pouco mais alto, entretanto a voz não refletia nenhuma insegurança. E embora tenha admirado a firmeza, ele não cedeu.
Frigga respirou fundo. Só poderia estar testando sua paciência, aquele Khuzd arrogante. Surdo não era. De qualquer forma, o pai tinha alguma razão. Falhara. Por motivos justos, estava certa, mas falhara. Cabia a ela salvar aquela aliança. Sim. Trataria dessa forma sua relação com príncipe de Erebor. Não passava disso, afinal.
Deu mais alguns passos em sua direção. A distância que estava, se o noivo a ignorasse,ficaria evidente que era de forma deliberada que o fazia.
- Uzbad?
Thorin ergueu ainda mais a cabeça como caçador que se delicia com o desespero da presa. Chegou a ensaiar um olhar para o lado como quem iria dar a atenção solicitada. Iria, mas não deu. Algo em si estava apreciando muito testar a paciência da moça a fim de ver até onde suportaria. Queria fazê-la perder aquela pose de prudência que nela via desde que se conheceram.
Frigga tinha as faces vermelhas de ira. Havia sangue em suas veias e não água. Ganas de esmurrar aquelas costas duras como a muralha que os abrigava.'Argh! Teimoso. Pode ignorar minha voz. Vamos ver se conseguirá ignorar minha imagem'.
A princesa avançou lentamente como se houvesse chegado naquele momento. Pôs-se frente a frente com seu noivo. Seu opositor; seria mais apropriado de se dizer. Ele era alto, digno da linhagem do primeiro Pai, forçando Frigga a erguer a cabeça. A distância de pouco mais de um palmo entre os dois.
Ao ver a filha de Nain postar-se diante dele, não pode deixar de admirar a determinação e o autocontrole da moça. Encarando-o friamente. Contudo, o príncipe de Erebor podia ver, por trás daquela máscara dura, os olhos em chamas. 'Baraz!*2' pensou, como vestido que usava e os cabelos que lhe emolduravam o rosto.
Frigga chegou a abrir a boca, mas foi Thorin quem falou primeiro.
- O que deseja? – disse displicentemente, como se realmente só houvesse notado sua presença naquele instante.
A princesa respirou, procurando acalmar-se. O noivo parecia-lhe tão frio quanto o vento que soprava em seu rosto.
- Soube que me procurou... – principiou a dama.
- Soube? Ao que me consta, desde o desjejum, tanto para mim quanto para a senhora, parecia ter ficado claro que eu a procuraria.
Frigga engoliu seco. Ele a pegara pela palavra.
- Gostaria de me desculpar.
- Outra vez?
Ante sua pergunta, o príncipe pôde ver as chamas nos olhos da princesa se intensificarem como um vulcão enfurecido.
A jovem fechou os olhos. Pouco importava que ele estivesse vendo ou não. Cerrou as pálpebras para não ver por alguns segundos aquela expressão irritantemente desafiadora. Respirou mais uma vez, deixando que o ar preenchesse seus pulmões. Ainda que ele a interrompesse, ela prosseguiria. Determinou-se, armando-se com a obstinação dos khazâd.
- Sei que tenho falhado. E que não tenho lhe dado a devida atenção.
- Que bom que admite.
- Perdi alguém que me era muito querido e por infortúnio essa perda coincidiu com sua chegada.
- Eu sei.
- Sabe?
- O ferreiro.
Frigga deixou-se abalar por um momento. Ele sabia? Então por que tanta frieza? Não tinha sentimentos aquele khuzd insensível?Fato era que não o imaginara assim tão frio. Contudo não pararia para pensar nisso agora. Deveria manter diante dos olhos seu objetivo.
- Pois bem, sei que isso não me redime de meus erros, mas estou disposta a fazer o que o senhor achar razoável, a fim de deixar esses incidentes para trás para que a aliança entre nossos reinos não seja prejudicada.
- Aliança?
- Sim – respondeu, estranhando o tom com o qual o noivo a indagou sobre o compromisso.
- Está preocupada em perder a aliança com Erebor? É mais arguta do que pensei, esmerando-se assim em defender os interesses de seu reino. Para alguém que discursou vigorosamente sobre a leviandade de nossas riquezas...
Os olhos da princesa quase incendiaram. Ele que desde o início se referia a aliança e não ao casamento, agora a acusava de agir pensando em seu reino. 'Resista, Frigga',ordenava a si mesma. Por graça que, enquanto procurava as palavras certas pra continuar o diálogo, Thorin se pronunciou.
- Julga-me um khuzd sem palavra? Acha que por conta dos caprichos de uma mocinha eu voltaria atrás no compromisso assumido? Quanto a aliança, não há com que se preocupar.
- Agradeço sua boa vontade – disse aliviada, lembrando-se das palavras do pai.
- Já quanto a isso – disse apontando para ele e para ela – caiu muito em minha estima. Saiu-se, a bem da verdade, uma ótima negociante, já como noiva...
Thorin não concluiu, ou melhor, encerrou a frase meneando a cabeça em desaprovação e saiu caminhando após dar as costas à Frigga que só não pulou por sobre dele tentando enforcá-lo porque sua condição de princesa das Colinasde Ferro não o permitia.
As palavras, contudo, queimavam em sua garganta.
- Decaí em sua estima? – indagou a dama.
Thorin parou, permanecendo de costas.
Frigga buscava ar, tentando manter o que restava de sua compostura.
- E quando, por Mahal, fui agraciada com tamanha honra? Desde a primeira vez que nos vimos só recebi censuras de sua parte!
- Censuras e uma pulseira de ouro maciço cravada de diamantes – disse voltando-se para a noiva – feita especialmente para a bem-aventurada jovem escolhida para reinar a meu lado em Erebor.
Frigga levou a mão ao pulso que usava a joia. E desejou se mutilar. Teve ganas de arrancar a própria mão para poder se livrar daquela promessa infeliz. Contudo, procurou acalmar-se. Nada de bom poderia vir da ira que crescia em seu peito. Precisava pensar claramente, e a raiva jamais era boa conselheira. A princesa soltou a pulseira deixando que os braços tomassem novamente seu lugar ao longo do corpo.
Thorin observou atentamente os movimentos da noiva. Sentira a ira que movera a mão da princesa em direção ao artefato. Não duvidara sequer por um momento que a jovem seria capaz de arrancá-lo. Todavia, não executara o ato. Os olhos do príncipe ainda observavam a mão que carregava a joia retornar a seu lugar junto ao corpo da dama quando ouviu a voz de sua dona chegar-lhe aos ouvidos.
- Não respondeu à minha pergunta, uzbad – disse a princesa recuperando seu autocontrole – Quando, em nome de Durin, fui agraciada com sua estima?
O anão piscou por um momento, buscando retomar de onde parara e reconhecendo interiormente que muito poucos havia em Arda capazes de distraí-lo daquela forma.
- Vim de Erebor até aqui demonstrando toda minha boa vontadesem saber o que poderia encontrar– começou a falar cadenciadamente - Submeti-me a seu capricho de me conhecer, como se lhe fosse dado o direito de me avaliar, e não levei em consideração seus atrasos e descasos por mais de uma vez. É o bastante? – arguiu calmamente, embora já se pudesse perceber uma pequena alteração em seu ânimo.
- Quer me convencer de que essa boa vontade foi por mim? Ou pelo casamento? O tempo todo se preocupou apenas com a Aliança, assim como meu pai e meu avô. Não tente me fazer sentir culpada, pois tal fardo não me cabe.
Os argumentos da moça faziam todo sentido. Contudo, Thorin não o admitiria nem em mil anos.
- Já que quer falar em fardos e culpados, diga-me então por que me culpa por não haver estado à cabeceira de seu amigo? Acha, por ventura, que planejei minha chegada para tal fim? Saiba: no que depender de mim, está liberada da obrigação de usar essa bendita joia. Peço apenas que a guarde, pois presentes assim não se devolvem.
- Como sabe que lamentei não estar à cabeceira de Davur? – indagou ante a revelação inesperada. Um turbilhão de possibilidades inundando sua mente.
Thorin congelou. Fato era que não haveria como explicar seu conhecimento de causa se não revelasse a verdade. 'Que seja', pensou.
- Fui a sua busca após seu pai me liberar como prometi. Sempre cumpro minhas promessas – disse buscando uma saída honrosa.
- Seguiu-me?
- Por quem me toma?
- Então?
- Informei-me de seu paradeiro e fui procurá-la, como combinamos. Encontrei-a na oficina.
Nesse momento, Thorin já havia recuperado a calma. Percebera que a afirmação desarmara a princesa. A surpresa suplantara a ira, pelo menos por enquanto.
Frigga caminhou em sua direção vencendo a pouca distância que os separava. Uma preocupação estampada no rosto.
- O que ouviu? – disse com voz rouca, compreendendo agora o motivo da frieza do rapaz ao encontrá-lo há pouco.
Thorin começou a falar lentamente. Testando as palavras e o efeito que estas fariam sobre a filha de Nain.
- Encontrei-a contando histórias. Mais precisamente a história de nossos avós.
- E?
- E vi-a consolando algumas crianças pela morte do velho ferreiro – Thorin sentiu o coração amolecer um pouco ao recordar-se da delicadeza de Frigga. Não refletira sobre sua ternura até então.
- Apenas isso? – indagou a moça.
O príncipe de Erebor deu um passo adiante deixando seu rosto bastante próximo do rosto da jovem.
- E o que mais havia para ouvir? – disse com voz baixa.
A princesa nada respondeu. E não conseguiu mais encarar o khuzd ao lembrar-se de seu comentário sobre a chegada do mesmo. Sobre seu presente e sua presença. Baixou a cabeça. Abriu a guarda. Não possuía mais argumentos.
Thorin aproximou a boca do ouvido da noiva.
- O que mais havia para ouvir, Frigga? - indagou em um sussurro, provocando a jovem inconformada com a própria impotência ante os fatos incontestes.
Seu corpo estremecera. Pela primeira vez a chamara pelo nome. Justamente naquele momento em que se via encurralada. Thorin agindo como um caçador que deseja demonstrar domínio sobre um animal selvagem acuado.
A moça não se mexia. Não conseguiria, mesmo que quisesse.
O jovem afastou o rosto. Mirou filha de Nain. 'Não', pensou consigo mesmo, 'não a liberarei assim não facilmente'. Aproximou novamente orosto do outro ouvido prosseguindo:
- O que eu não poderia escutar?
O rapaz conseguia sentir o tremor que vinha da princesa. E algo nele estava apreciando muito o fato de haver conseguido dobrá-la. Prosseguiu:
- Que não está satisfeita em vir comigo para Erebor? Que preferiria ficar naquela oficina contando histórias? Que por minha culpa não pode assistir seu amigo em seus últimos momentos? Que só não arrancou essa pulseira do braço, como quase fizera há pouco, por causa de uma promessa feita a si mesma e não por consideração a quem a presenteou?
Afastou o rosto, mas não deu sequer um passo atrás. Quedou-se aguardando pela resposta da princesa. Demorasse o quanto demorasse, não sairia dali sem uma reação da parte dela.
Chegou a cogitar a possibilidade de, abalada como estava, a moça saíssecorrendo de sua presença aos prantos como faziam as mocinhas em Erebor quando ele, usando de provocações ainda menores do que estas, desejava afastá-las. Mas não. Não a filha de Nain, pode constatar o príncipe.
Frigga finalmente se rendeu à verdade inconteste. Não poderia negar nada. Ele ouvira tudo. Mas que coração frio era aquele que não via que suas reações estavam afetadas pela morte de Davur? Seu mundo desmoronando...
Fosse como fosse, mais uma vez cabia a ela o papel de se desculpar. Mahal! Quantas vezes mais deveria se desculpar com aquele Khuzd?
- Eu o ofendi – iniciou, erguendo os olhos, superando mais uma vez as expectativas de seus interlocutor–não é sua culpa, nunca foi. Os fatos se sucederam de forma a me roubaram a serenidade necessária a minha posição. Fui injusta consigo. E por tal culpa, retrato-me.
Frigga buscava se superar, na verdade. Contudo, nem todo sentimento poderia ser contido assim tão facilmente. Parecia não suportar mais tanta pressão. A perda do amigo doendo-lhe no peito. Os olhos da princesa brilharam com as lágrimas que ser formaram, todavia não chegaram a molhar-lhe o rosto. A filha de Nain não permitira. Por Durin, que não permitiria. Não na frente do príncipe de Erebor. Não passaria por mais fraca do que o que já aparentava.
Todavia, tal juízo severo que fazia de si mesma não era partilhado pelo herdeiro de Thror que não estava habituado a ver tamanha grandeza de alma. 'Por Durin', pensou consigo mesmo, 'nada é capaz de lhe roubar a compostura?' A humildade de Frigga, que agora o mirava aguardando por sua reação, fizera-o baixar os olhos por um momento. Ele, que pela força do machado, da voz e da linhagem do qual se considerava guardião subjugara tantos inimigos, era, naquele instante obrigado a se dobrar, ainda que apenas por alguns segundos, diante de uma força maior que a sua.
O rapaz aproximou o rosto. Face a face. A mão masculina acercando-se do pulso que carregava a joia. Tocou-a. Sentiu o ouro. As pedras. Estranhamente seus dedos queriam ter entre si não mais a peça, e sim a mão que ela ornava. Todavia, não se atreveu a tanto.
Abriu os lábios a fim de fornecer a resposta aguardada. A voz do príncipe não era propriamente gentil, mas perdera muito do tom provocativo assumido até entã olhos dizendo mais do que suas palavras.
- Não precisa continuar a usá-la se não quiser. Não foi feita para carregar uma má lembrança e sim para celebrar a alegria da abundância de tempos de paz e prosperidade.
Frigga deu um passo atrás. A proximidade física fazendo-a esquecer-se por um momento de quem eram e do assunto que estava sendo tratado. Por alguns segundos, viu diante de si tão somente um filho de Mahal possuidor de algo que a inquietava. Sua voz? Seu porte? Sua arrogância? Não saberia dizer caso fosse questionada. Algo parecia haver mudado na forma como o príncipe a mirava.
- Eu a pus em seu braço. Deseja que a retire? – indagou fazendo a moça piscar e retomar o raciocínio.
A princesa balançou a cabeça em uma negativa.
'Teimosa' – pensou Thorin esboçando um sorriso.
Frigga tentou se recompor.
- Posso considerar minhas desculpas aceitas?
- Por hora sim, pelo menos até que me apronte alguma novamente.
Frigga fitou o khuzd. Algo divertido em seus olhos. De certa forma, conciliador. Não se tratava de uma provocação.
- Devo ir agora – disse a princesa antes de se retirar – Meus respeitos.
Thorin baixou a cabeça em resposta a solicitação da moça e observou a jovem enquanto se afastava.
'Uma adversária de valor', foi o que pensou. Mas não apenas isso.
*1rakhâs: orcs, plural;
*2baraz; vermelho.
