Capítulo 6 – 3° Ano – Parte 1 de 1
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Outubro, 2019. 2ª semana
'E Roxy, o artilheiro, mostra do que realmente é capaz' a narradora debochou.
"Preste atenção, Reece" Pietra gritou antes de atirar a goles para Albus. Ela tinha acabado de fazer uma defesa que não precisaria nem ser feita se seu irmão não houvesse perdido a goles por bobeira. Scorpius ouviu um zumbido e desviou bem na hora que um balaço vinha em sua direção.
Ele e Albus haviam conquistado as vagas de artilheiros e um quartanista chamado Aaron Mitchell havia ocupado a vaga de batedor que fora de Taisan Trenchard, irmão de Gusto. Aquela era a estréia deles no time e jogavam contra a Corvinal.
"Aqui!" Scorpius acenou e imediatamente se viu cercado, o que fez Albus tomar a decisão de jogar a goles para Reece.
E Reece fez o favor de perder um gol, atirando no aro central, onde Fawcett, o goleiro corvinal, conseguiu defender calmamente, coisa que a narradora não deixou passar novamente.
'Roxy continua dando um show de habilidade, pessoal! Ele é grande e esperto!'
"Droga" Scorpius esbravejou. "Ele é uma toupeira!"
"Mas o que é aquilo?" a expressão de Albus era perplexa.
Scorpius se voltou bem no momento em que o goleiro caía da vassoura como se tivesse desmaiado. Reece se afastou com um sorriso satisfeito.
'Oh, eu não vi a varinha, mas Fawcett bem que sentiu! Esse é o jeito sonserino de resolver as coi... Está bem, diretora. Eu vou guardar minhas opiniões sobre as habilidades dos sonserinos para mim, obrigada.'
A platéia fez um 'Ohh!' enquanto Madame Hooch levitava o garoto antes que este tocasse o chão. Pelo canto do olho Scorpius viu os dedos de Albus ficarem brancos de tanto apertar a vassoura.
"Ah, isso não vai ficar assim!" Albus deu meia volta até Pietra, fazendo o sinal para pedir tempo. Assim que eles tocaram o chão, Albus se adiantou para Reece, furioso. "O que você pensa que está fazendo?"
O que foi uma estupidez, na opinião de Scorpius, já que o irmão gêmeo de Pietra era duas vezes maior que ele, tanto na altura quanto na largura.
"Você está me acusando de alguma coisa, pirralho?" Reece rosnou, mas Pietra se pôs no meio dos dois.
"Parem, seus idiotas! Agora não é hora para vocês brigarem. Nós estamos jogando há apenas dez minutos e..."
"E esse trasgo já azarou Fawcett!"
"Shhh!" o restante do time silenciou Albus.
"Cale essa boca, Potter" Pietra ralhou, mas Albus se voltou para ela sem se abalar.
"Se ele fizer isso novamente eu saio".
"Seu insolente..." Reece deu um passo para frente e Scorpius engoliu em seco, mas Albus não retrocedeu.
"Eu estou falando sério, Pietra. Você escolhe. A varinha do seu irmão ou eu".
Pietra rangeu os dentes e virou-se para Reece com a mão estendida.
"Me dê a sua varinha, Reece".
"O quê?"
"Me dê a porcaria da sua varinha AGORA e talvez eu a devolva inteira no final do jogo. Caso você não tenha percebido, esse é nosso último ano em Hogwarts e eu realmente gostaria de levar meu time pelo menos perto da vitória uma vez na vida!"
"Eu não..."
"Você não precisaria de uma varinha se soubesse jogar, Reece" ela provocou, o que fez o irmão corar de raiva e ressentimento.
"Então fique com seu precioso Potter, maninha. Eu estou fora" ele deu as costas para o time em direção aos vestiários.
Pietra passou a mão pelos cabelos, xingando e praguejando.
"O que está acontecendo aqui?" Madame Hooch se aproximou, olhando para as costas de Reece. "Roxy, eu tenho vários jogadores do time adversário acusando seu artilheiro de azarar Fawcett. O que você tem a dizer?"
"Meu irmão acabou de deixar o jogo, madame" Pietra falou, parecendo cansada.
"Bem, isso já é uma punição, mas receio que terei que zerar o placar de vocês".
Houve uma porção de murmúrios, mas ninguém ousou reclamar. Afinal, eles só tinham marcado um gol até o momento contra outro da Corvinal. Seria fácil recuperar.
"Você tem algum reserva?" Madame Hooch perguntou, após acenar a varinha para o placar.
"Sim. Thickey vá chamar Peppers" Pietra ordenou, ao que o batedor saiu correndo para o vestiário.
"Me avisem quando estiverem prontos" a treinadora se afastou.
"Certo" Pietra voltou-se para os demais jogadores. "Davis, você já viu o pomo?"
"Achei ter visto um segundo depois de vocês pedirem tempo" Shannon Davis, a apanhadora, havia se saído bem no ano anterior no jogo contra a Lufa-Lufa, mas havia perdido o pomo para o apanhador da Corvinal e, é claro, para James Potter.
"Esse pomo tem que ser nosso hoje entendeu?" Pietra exigiu, faíscas saindo de seus olhos. Thickey e Peppers se aproximaram e ela voltou-se para o mais novo integrante do time, o mesmo garoto que havia concorrido com Albus e Scorpius à vaga de artilheiro. "Peppers, parece que você conseguiu um lugar no time. Não me decepcione ou eu abrirei outra seleção para a vaga de Reece".
"Reece não vai voltar?" perguntou Mitchell.
"Se eu o conheço bem, não,. Mas talvez seja melhor assim. Potter" ela voltou os olhos estreitados para Albus, que parecia ter perdido um pouco da valentia. Mas só um pouco. "Você quer um jogo limpo, nós teremos um jogo limpo. Mas ganhe essa Taça de Quadribol para nós ou eu não vou precisar deixar meu irmão matar você, pois vou fazer isso eu mesma, entendeu?"
Albus assentiu, sério.
"Vamos jogar para valer agora!" ela gritou e acenou para a juíza.
Todos montaram em suas vassouras. Peppers, Albus e Scorpius subiram numa rodinha.
"Peppers, você deve..." Scorpius começou, mas o garoto o interrompeu.
"Eu conheço a estratégia de vocês. Treinei junto ano passado, lembra?"
"Ótimo!" Scorpius respirou aliviado. "Isso vai ser interessante".
'Parece que Reece Roxy jogou a toalha, pessoal! E o nome do novo jogador é Stan Peppers!'
A partida realmente foi interessante. Peppers parecia disposto a impressionar a capitã do time e deu o melhor de si. Com meia hora de partida, a Sonserina estava ganhando por 90x40. E num jogo limpo. Scorpius se sentia muito mais confiante em relação aos balaços, o que permitia que se concentrasse mais no jogo. As arquibancadas estavam barulhentas. Scorpius nunca tinha jogado uma partida oficial, sempre fora um expectador, mas tinha a impressão de que havia mais pessoas torcendo por eles do que os sonserinos. Talvez alguns grifinórios, quem saberia...
'Potter toma a goles de Quirke bem debaixo do seu nariz e passa para Peppers num movimento ágil... Agora, isso é que é quadribol de verdade! Lá está Peppers cercado pela Corvinal, oh não ele vai... e Malfoy consegue salvar uma bola praticamente perdida para a Corvinal... ele vai em direção a Fawcett, ele vai marcar, ele... ele MARCOU!'
Scorpius havia achado a voz da locutora familiar e logo descobriu ser Roxanne Weasley. Ela não estava exatamente se esforçando para esconder que estava torcendo pelo primo. Houve uma explosão de vivas da platéia e Scorpius bateu nas mãos estendidas dos seus companheiros, desviando de um balaço logo depois.
'É isso mesmo que vocês estão vendo pessoal! Acreditem em seus olhos quando verem o placar mostrando inacreditáveis 100x40 para a Sonserina! Com o time praticamente todo renovado, parece que a Sonserina está finalmente voltando para a batalha depois de um longo tempo nos últimos lugares! Quem tem a goles é Peppers agora... ele passa por baixo e pelo meio dos adversários e... Quirke parece que está nervoso. Ele avança para o... Será que eu estou vendo direito? É o pomo! E Davis está na dianteira!'
Scorpius se permitiu tirar os olhos da partida por um momento para olhar para o céu. Não conseguia ver o pomo, apenas um brilho dourado esvoaçando ao longe, sendo perseguido por Davis. Crosfield, o apanhador da Corvinal, estava logo em seu encalço. Scorpius foi obrigado a voltar para o presente e quase perdeu a goles atirada por Albus.
'Davis parece querer se livrar de Crosfield a todo custo! Hey, aquilo foi uma manobra arriscada de Potter, mas ele continua com a goles! Ele dribla Nash com facilidade e... a goles é de Peppers. Fawcett que se cuide... Oh, sim, ele marcou! É ponto para a SONSERINA! Vejam! Davis está caindo ou...? Ah, meu Deus, ELA PEGOU O POMO!'
O coração se Scorpius quase saltou para fora de tanta euforia. Eles tinham ganhado uma partida para a Sonserina com louváveis 260x40! Albus voou até ele e passou um braço pelos seus ombros em comemoração.
"Nós conseguimos, Scorpie!" ele gritou por cima da algazarra da platéia. No instante seguinte os dois estavam no meio do time inteiro.
Scorpius achou estranho ver Pietra sorrindo. Mas pelo menos Albus não ficava mais corado perto dela, ele se deu conta. Assim que eles tocaram o chão, os alunos da Sonserina os envolveram. Scorpius nunca apertou tantas mãos nem recebeu tantos tapinhas nas costas. Muito menos beijos no rosto e abraços, principalmente de garotas mais velhas. Ele bem que tentou se afastar delas, mas acabou desistindo de resistir. Albus estava sorridente e corado de felicidade.
Logo um bando de grifinórios conseguiu se aproximar.
"Eu vi o que você fez, Al" Rose envolveu Albus num abraço e Scorpius pôde ouvir suas palavras. "Estou orgulhosa de você! E de você também, Scorpius!"
Ela o pegou de surpresa, o abraçando também.
"Ah, eu bem que desconfiei" James tinha se aproximado, dando tapinhas nas costas do irmão. "Por que não dá um beijinho nele, Rose?"
"Cala a boca, James!" Rose falou, com toda dignidade, mas James não lhe deu atenção.
"Você mostrou para eles, Al!"
"Obrigado, Jimmy!"
"Você também não foi mal, Malfoy" James acrescentou, torcendo os lábios. Scorpius agradeceu, mas devolveu a careta.
"Al! Você arrasou!" Lily veio correndo e se lançou no pescoço do irmão. Scorpius revirou os olhos.
Depois da família inteira de Albus, veio o time da Corvinal, apertando suas mãos e dizendo que tinham feito um bom jogo. No final, Scorpius se perguntou se Albus não estaria com câimbra de tanto sorrir.
"Meninos, festa nas masmorras!" anunciou Myrtes.
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"Cara, estou com câimbra de tanto sorrir" Albus confessou para Scorpius, aceitando o copo que ofereciam e cheirando. O cheiro de álcool queimou suas vias nasais. "O que é isso? Não me parece cerveja amanteigada".
"É Uísque de Fogo" Tatcher, o monitor chefe, esclareceu. "Mas é só para os caras de verdade. Se não quiser..."
"É claro que ele quer" Scorpius se adiantou, pegando um copo também.
"É assim que se fala. A propósito, foi um ótimo jogo".
"Obrigado" Scorpius sorriu presunçoso e baixou a voz para Albus logo que Tatcher se afastou. "Não tome de uma vez, apenas molhe a língua primeiro. E não inspire com o nariz dentro do copo ou você vai se engasgar".
"Certo" Albus já não sabia mais se queria. "Você primeiro".
"Está bem" Scorpius fez pose e fingiu que tomava um grande gole. Então quase fez uma careta. Quase. "Meu pai me deixou experimentar uma vez. Não é minha bebida favorita, se quer saber".
Albus tomou coragem e levou o copo aos lábios, tentando se lembrar de todas as dicas do amigo, mas ainda assim não conseguiu deixar de tossir quando o líquido desceu queimando por sua garganta.
Scorpius riu.
"Eu também tossi, apesar do que meu pai me disse" ele tomou outro gole. "Hey, não fique bêbado ou Roxy vai comer você vivo assim que você cair no chão. E eu não estou falando de Pietra".
Albus levantou os olhos e seu estômago afundou ao ver Reece Roxy lhe lançando um olhar ameaçador do outro lado da sala comunal enquanto cochichava com outro garoto.
"Não liguem para ele" Pietra havia se aproximado. "Ele tem a cara feia mesmo. Não puxou a mim, coitado" ela se abaixou para cochichar e Albus quase se engasgou com seu hálito de uísque. "Eu ameacei sumir com as bolas dele se alguma coisa acontecer a um dos meus artilheiros próximo das partidas".
Ela piscou e se afastou.
"Ela disse 'próximo das partidas'?" Albus perguntou e Scorpius assentiu.
"Também reparei nisso".
"E aí, Al!" Gusto fez um brinde a eles, de certa distância.
"Acho que isso tudo significa que teremos que eleger um novo mascote, não é mesmo?" Juniper brincou, a voz já um pouco enrolada indicando um possível excesso de uísque.
Albus retribuiu o brinde, sorridente.
"Que tal aquele rapazinho ali?" Lyan apontou e os três foram importunar o primeiranista em questão.
"E aí, meninos?" Myrtes e Karen haviam se aproximado.
Scorpius terminou de tomar sua bebida e anunciou.
"Vou ao banheiro".
"Grosso!" Myrtes reprovou, diante da visível decepção de Karen.
"Tudo bem. Eu vou pegar algo para comer" Karen falou, se afastando cabisbaixa.
"Oh, pobre Karen..." Myrtes se lamentou. "Está apaixonada, coitadinha".
"Hmm... ele não gosta dela" Albus se viu na obrigação de avisar a amiga, mas Myrtes apenas rolou os olhos.
"Nem dela, nem nenhuma garota, você quer dizer".
Albus se lembrou de Scorpius ter dito a mesma coisa antes. Porém algo na entonação insinuante de Myrtes chamou sua atenção.
"O que você quer dizer?" questionou o moreno.
Myrtes o encarou, desconfiada.
"Vai dizer que você nunca reparou?"
"Nunca reparei o quê, Myrtes?" Albus sentiu irritação pelo tom da garota.
"Al! Eu não acredito!" ela usou um tom condescendente que só fez irritá-lo mais.
"Fale de uma vez, Myrtes!"
"Ele é meio gay, não é mesmo?"
Albus levou um momento para entender, então riu.
"Claro que não!" assegurou o moreno.
"Como você tem tanta certeza?"
"Bom, ele me contaria algo assim".
"Não se ele estivesse interessado em você, certo?"
Albus engoliu em seco. Olhou para o copo em sua mão, mas desistiu de beber, colocando-o sobre a mesinha mais próxima. Ainda achava tudo aquilo ridículo, mas a curiosidade falou mais alto.
"Ok, eu estou ouvindo".
"Al, ele não gosta de garotas. Ele fica incomodado toda vez que nós nos aproximamos dele. E," ela fez suspense. "Ele morre de ciúmes de você".
Albus riu, aliviado.
"Não é nada disso, Myrtes. Esse é só o jeito dele! Ele não gosta de conversar com Lyan e os outros, também. E tem ciúme de mim porque me considera seu único amigo! Só isso!"
Albus voltou a pegar o copo, feliz por ter esclarecido o assunto. Mas Myrtes não parecia nada convencida. Ela deu de ombros.
"Se você prefere pensar assim..."
"Al, você quer jujubas?" Scorpius tinha voltado e se postara entre os dois.
"Hmm... não, obrigado. Estou com o estômago ruim, para dizer a verdade".
"Por isso mesmo. Coma alguma coisa ou você vai passar mal se só beber isso".
Scorpius ofereceu, atencioso, e Albus fingiu que não viu o olhar presunçoso de Myrtes ao se afastar.
'Não dê ouvidos a ela' Albus disse a si mesmo. 'Ela só está com ciúmes'.
Apesar de não acreditar, Albus não pôde deixar de prestar mais atenção nas atitudes do amigo dali em diante.
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Outubro de 2019. 4ª semana.
A Dedos de Mel estava uma loucura. Nem as lojas do Beco Diagonal eram tão lotadas na época de volta às aulas quanto a Dedos de Mel em dia de visita de Hogwarts. Do lado de fora ventava bastante, o que fazia com que todos buscassem abrigo dentro das lojas.
"Hmm você quer mais alguma coisa, Scorpie?"
"Eu quero sair logo daqui" Scorpius falou, irritado por ter de ficar desviando das abóboras de Halloween encantadas com todo mundo se trombando.
"Ok, vamos para o caixa".
Eles contornaram uma estante e tiveram um vislumbre da fila para pagar. Scorpius gemeu.
"Se você quiser, pode esperar na porta. Eu fico na fila" Albus ofereceu. Ele já estava carregando as compras do amigo, de qualquer forma.
"Não, tudo bem".
Eles foram até o final da fila, mas Rose chegou primeiro.
"Gente, isso aqui está impossível! E está muito frio lá fora. Vou precisar de uma cerveja amanteigada antes de voltar para Hogwarts, o que acham?"
"Ótimo!" Albus respondeu e deu uma olhada para as sacolas da prima das Gemialidades Weasley*. "Você comprou um freesbie dentado?"
'Comprar' era um modo de dizer, já que o pai dela era um dos sócios da loja.
"É para Trixie. Ela não pôde vir, não está se sentindo muito bem pobrezinha".
"Hey!" Gusto acenou. Ele, Lyan e Juniper pareciam já ter saído do caixa. "Estamos indo para o Três Vassouras. Nos encontramos lá?"
Albus acenou afirmativamente. Lyan se aproximou e olhou para as mãos vazias de Scorpius.
"Scorpius, você não quer vir com a gente? Quero dizer, se não se importar de deixar Albus por alguns minutos, claro" ele tirou sarro e os outros riram.
Scorpius torceu os lábios para eles.
"Não, obrigado".
"Pode ir, Scorpie. Eu pago os seus doces" Albus ofereceu, sabendo que Scorpius estava doido de vontade de sair dali.
Scorpius pensou por um momento, então remexeu nos bolsos, retirando algumas moedas.
"Está bem. Até mais".
"Nós cuidaremos bem dele, Albus" Juniper zombou e eles saíram.
"Nossa, esses são seus amigos?" Rose visivelmente os reprovava.
"Sim. Eles gostam de fazer piadinhas idiotas".
Mas os pensamentos de Albus já tinham se voltado para suas observações sobre o comportamento de Scorpius e ele ficou tentado a perguntar para a prima. Se havia alguém que pudesse saber, esse alguém era Rose.
"Rose?"
"Sim?"
"Hmm... você acha que Scorpius é gay?"
Rose se voltou para o moreno, surpreendida pela pergunta direta.
"Por que você está me perguntando isso?"
"Porque Myrtes fez algumas insinuações e... eu tenho reparado como ele às vezes fica encarando alguns garotos mais velhos e... essas coisas".
Ele pensou em dizer o quanto o amigo era atencioso com ele. E somente com ele. Mas pensou melhor. Talvez fosse coisa da cabeça de Myrtes mesmo. Talvez tudo aquilo fosse coisa da cabeça de Myrtes.
"Ele é seu amigo, por que não pergunta para ele?" Rose se virou para frente novamente querendo encerrar o assunto, mas Albus insistiu.
"Mas, Rose... eu não posso fazer uma pergunta dessas! E se não for nada disso? Ele pode se ofender!"
"Bem..." Rose suspirou. "Ele bem que ficou secando o Teddy na sua casa..."
"Teddy?" Albus se arrependeu amargamente de ter perguntado. "Você está brincando comigo..."
"Olhe, se você não queria saber a resposta, então porque perguntou? Aliás, qual é o problema se ele for gay?"
"Se quem for gay?"
Albus enterrou o rosto nas mãos ao ver James surgir do nada.
"Ninguém" Rose encerrou o assunto.
Mas não foi tão fácil assim.
"Acho que eles estão falando de Malfoy" Wilbur, que também havia se aproximado sem ser notado, analisou.
"Malfoy... Malfoy?" James surtou. "Scorpius, você quer dizer?"
"Calem a boca!" Albus ralhou, olhando ao redor para ver se alguém estava prestando atenção neles.
"Mas não é possível!" disse James incrédulo.
"Impossível é que não é" Wilbur ofereceu. "Eu vi como ele ficou encarando o batedor da Lufa-Lufa um dia desses. Se eu fosse você, arrumava logo uma namorada, Albus. Ou vão pensar que vocês são... você sabe".
Albus franziu a testa e engoliu. Ainda estava muito chocado para pensar nas implicações.
"Oh, Deus!" James enterrou o rosto nas mãos do mesmo modo que Albus havia feito momentos antes. "Al, nós vamos arrumar alguém para você, não se preocupe. Eu diria para você se afastar dele, mas..."
"Eu não vou me afastar dele, James!" disse Albus indignado.
"É, eu achei que você diria isso" James rolou os olhos.
"Nem quero que arrumem uma namorada para mim. Escutem" ele continuou, antes que alguém fizesse mais algum comentário. "Esqueçam esse assunto, está bem? Isso tudo pode ser uma bobagem. Eu vou... eu vou conversar com Scorpius. E vou saber se esse assunto vazar, entenderam?"
"Por mim..." Wilbur fingiu passar um zíper na boca.
James espalmou as mãos na frente do peito.
"Eu também não vou dizer nada a ninguém, mas eu realmente..."
"Chega" Rose se intrometeu novamente. "Circulando, vocês dois".
"Mas nós queríamos que vocês passassem nossas compras também..." James tentou, mas Rose apontou o dedo para o final da fila.
"A fila é ali".
"Chata" James parecia que ia mostrar a língua para a prima, mas não o fez. "Vamos Will".
Eles eram os próximos a serem atendidos. Pagaram as contas e saíram para o vento, passando os cachecóis e fechando os agasalhos enquanto se encaminhavam para o Três Vassouras.
"Por que ele não me disse nada?" Albus perguntou o que o estava incomodando.
"Não sei" Rose deu de ombros. "Talvez ele ainda vá lhe contar, só está esperando o momento certo. Ou talvez esteja com medo da sua reação. Você se incomoda com isso?"
Albus pensou por um momento, mas seus pensamentos ainda estavam confusos.
"Não sei".
"Então. Talvez ele não esteja preparado para essa sua dúvida. Você é o melhor amigo dele! É natural que ele tenha medo de afastar você, de alguma forma".
Albus se calou quando eles entraram no Três Vassouras. Rose acenou para algumas amigas e se desculpou, indo se juntar a elas. Albus seguiu para a mesa de seus colegas. O pub estava cheio, mas ainda assim não chegava nem perto da lotação da Dedos de Mel. Scorpius parecia relaxado e até sorria de algo que Juniper contava.
"Olá" Albus tomou um lugar entre Lyan e Juniper. Não admitiu isso a si mesmo, mas queria observar o amigo.
"Al, você perdeu a história do Juny sobre o casaco que perseguiu ele no quarto andar. Conte para ele, Juny!" Lyan encorajou e Juniper contou sua história.
Albus até que conseguiu relaxar um pouco, mas em determinado momento percebeu que Scorpius olhava de tempo em tempo para algum ponto à direita e resolveu checar disfarçadamente entre um gole de cerveja amanteigada e outro. Demorou para Albus encontrar, mas havia um garoto devolvendo os olhares para Scorpius do outro lado do pub. Ele tinha um sorriso branco e natural e usava uma franja discreta nos cabelos castanho-claros escorridos e bem aparados.
Albus pediu mais um pouco de cerveja. Conhecia o garoto de vista. Ele também estava no terceiro ano e era da Corvinal. Se não se enganava, seu nome era Bessemer.
"Eu preciso ir ao Correio" anunciou Gusto um momento depois. "Prometi que ia mandar um lembrol novo para o meu irmão e minha coruja não é muito confiável para entregar pacotes".
"Sua coruja é uma anciã, Gus! Mas nós vamos com você, certo pessoal?" disse Lyan, mas Scorpius recusou.
"Eu vou ficar. Não terminei minha cerveja ainda".
"Certo, então os dois pombinhos vão namorar mais um pouco. Vamos" Lyan se despediu.
Eles deixaram moedas na mesa e saíram. Albus balançou a perna debaixo da mesa, sem saber por onde começar.
"Você não acreditou naquela história do dente do trasgo, acreditou?" foi Scorpius quem puxou assunto.
Albus riu, nervoso.
"Não. Acho que o irmão de Gus pregou uma bela de uma peça nele".
"Pois é. Ele é meio lerdo mesmo" Scorpius bateu os dedos na mesa e olhou ao redor. À direita, mais precisamente. Albus não agüentou mais.
"Você está flertando com aquele garoto?" Albus perguntou, torcendo para que ele desmentisse de uma vez toda aquela história.
'Minta para mim' ele pensou, esperançoso.
Mas não foi o que aconteceu. Scorpius deu de ombros e falou com toda naturalidade, levando a caneca aos lábios.
"Bem, foi ele quem começou".
Albus apertou a borda da mesa com força, sem saber se sua raiva era pela resposta ou por ter sido deixado no escuro.
"Por que você não me contou?" perguntou sem conseguir esconder a mágoa.
"Que eu gosto de garotos?" Scorpius deu de ombros novamente. "Porque você nunca perguntou".
Ele encarou Albus nos olhos e pareceu ler sua indignação.
"Olhe, Al, você nunca me disse que gosta de garotas, mas só pelo jeito como você fica olhando para o decote de Pietra, qualquer um pode saber disso".
"Hey, eu não... eu não fico..." Albus se sentiu corar. "Mas é normal eu gostar de garotas! Ninguém precisa..."
"Então eu sou anormal, Al?" foi a vez de Scorpius soar magoado.
Albus soltou o ar dos pulmões lentamente. Percebeu que a aparente calma de Scorpius era na verdade uma defesa dele. Ele tentava parecer despreocupado quando não estava.
"Não, não é. Eu só... você podia ter me contado" desabafou.
"Ok" ele falou, como se nada tivesse acontecido.
Mas Albus sabia que o havia decepcionado. Apenas não tinha certeza sobre o que dizer, então achou melhor não dizer nada.
Foi então que ele percebeu uma coisa. Um fio cor de pele que parecia sair de trás de Scorpius. Ele conhecia bem demais aquilo para não seguir o fio até ver Reece Roxy segurando a outra ponta de uma orelha extensível.
Albus se levantou de um pulo, assustando Scorpius, e arrancou a orelha das costas da cadeira dele. Jogou-a no chão e apontou a varinha.
"Reducto!" a orelha extensível sumiu numa pequena explosão.
Duas mesas atrás deles, Roxy gritou, tapando os ouvidos.
"O que foi isso?" Scorpius perguntou.
Albus fechou as mãos em punhos enquanto Roxy se levantava e o encarava de volta, os olhos estreitados.
"Aquele idiota do Roxy estava ouvindo nossa conversa".
"Ele o quê?" Scorpius arregalou os olhos enquanto Roxy se aproximava com um sorriso presunçoso.
"Vocês estão ferrados" ele disse e passou direto.
Albus percebeu que estava tremendo, mas não sabia se de raiva ou de medo. Olhou para o lado e viu que Scorpius estava pálido.
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Dezembro, 2019. 2ª semana.
"Primeiro as damas" disse um sextanista amigo de Reece dando passagem para Scorpius e Albus entrarem na sala comunal da Sonserina.
Scorpius o ignorou e entrou. Albus resmungou alguma coisa atrás dele.
Reece havia espalhado pela escola inteira sobre a preferência sexual de Scorpius e ele tentava fingir que não se importava. Várias pessoas haviam olhado com curiosidade para ele no início, mas a maioria parecia não se importar agora. Porém na Sonserina as coisas estavam durando mais, por causa de Reece. Principalmente entre os alunos mais velhos.
Sempre havia um cochicho, uma provocação ou uma piadinha. A maioria das vezes a fofoca incluía Albus, insinuando que eles eram um casal, já que não se desgrudavam. Scorpius pensou em propor que eles ficassem mais afastados, mas teve medo do amigo aceitar. De qualquer forma, Albus estava sempre por perto, apesar de talvez um pouco mais distante que o usual. Ou talvez Scorpius estivesse ficando paranóico.
"Vai melhorar depois da próxima partida de quadribol que nós vencermos" dissera Pietra no último treino. Ela não parecia muito preocupada com o que seu irmão fizera, uma vez que aquilo não os impediria de jogar. Ela também parecia não se incomodar com o fato de Albus apreciar seus seios, quando Reece mencionou aquilo diante do time todo.
Scorpius se encaminhou para o banheiro masculino. Albus tossiu.
"Eu vou indo levar minha mochila. Quer que eu leve a sua?"
Scorpius passou sua mochila para ele.
"Os óculos, Al" Scorpius avisou.
"Uh...? Ah, obrigado" ele tirou os óculos e guardou no bolso, continuando em direção ao dormitório.
Eles também evitavam ir ao banheiro juntos. Já fora bastante constrangedor da última vez. Ele abriu a porta e quase trombou com alguém que saía.
"Na-na-não. O banheiro feminino é no outro corredor" disse Reece Roxy, os cabelos molhados do banho.
Scorpius mordeu a língua para não retrucar e passou direto, esperando que Roxy se contentasse com aquilo e fosse embora, o que não aconteceu.
"Hey, Malfoy, pare de secar Tatcher" ele gritou da porta.
O monitor chefe, que saia de um dos boxes com o quadril enrolado numa toalha, olhou para Scorpius, depois para Roxy.
"Há, há. Já perdeu a graça, Reece".
O sorriso de Roxy morreu. Ele bateu a porta ao sair. Os demais ocupantes do banheiro pareceram não se abalar, apesar de Scorpius ter visto um deles ajeitar melhor a toalha na cintura.
"Não ligue para ele, Malfoy" Tatcher tranqüilizou, enquanto espalhava uma loção espumante no rosto. "Ele só está com dor de cotovelo por ninguém ter pedido para ele voltar para o time de quadribol".
Scorpius agradeceu o apoio, mas saiu de lá o mais depressa possível. Assim que chegou no dormitório, Lyan deu um grito e cobriu o peito branquelo e nu com a camisa que acabara de despir.
"Não olhe para mim, eu estou nu!" ele zombou e Scorpius se sentiu grato pelas brincadeiras dos colegas de quarto. Pelo menos eles pareciam achar aquilo tudo uma grande piada.
"Eu não olharia para você nem que sapateasse na minha frente. Vestindo só os sapatos".
"Ouch!" Lyan levou a mão ao coração. "Essa doeu".
Os outros garotos riram. Albus já esperava perto da porta, pronto para sair.
"Vamos?" ele chamou e Scorpius o acompanhou.
Eles caminharam em silêncio até o Grande Salão para o jantar. Scorpius não se sentia particularmente tentado a relatar o que acontecera no banheiro e Albus também não parecia tentado a perguntar. Eles estavam tendo um monte daqueles silêncios constrangedores ultimamente.
Assim que eles chegaram ao Grande Salão, Albus parou. Scorpius o encarou numa pergunta.
"O que acha de jantarmos na mesa da Grifinória hoje?" Albus ofereceu.
Scorpius deu de ombros. Não gostava da idéia, mas talvez fosse melhor fugir um pouco da Sonserina. Enquanto eles se dirigiam para lá, Scorpius sem querer capturou o olhar de Bessemer da mesa da Corvinal, que lhe sorriu. Ele retribuiu o sorriso da melhor forma que pôde, mas não se sentia no humor para flertar com o garoto novamente. Nem com ninguém, na verdade. A fofoca de Reece tinha feito com que algumas propostas aparecessem também, até de garotos mais velhos, mas ele se viu desinteressado.
"Olhe só quem apareceu!" Rose cumprimentou. "Vocês vão jantar conosco?"
"Sim. Tem lugar?"
Eles abriram espaço para os dois se sentarem entre James e Lucy.
"Hey Albus!" Lily e Hugo passaram acenando.
"Nós pegamos o lugar deles?" Albus perguntou.
"Não, eles têm a turminha deles" assegurou Rose.
Scorpius se desligou da conversa várias vezes enquanto comia seu frango. Todos pareciam estar preocupados com o Baile de Inverno. Scorpius se forçou a prestar atenção quando Albus o cutucou.
"Rose teve que arrumar um par para Jimmy ano passado" ele explicou, sem perceber o quão alienado o amigo estava.
"É, mas esse ano eu consegui sozinho" James se gabou.
"Quem é?" Albus perguntou e Wilbur apontou.
"Corvinal, terceira garota depois de Nash, a artilheira. De cabelos ruivos. Seu nome é Jodie Shaw. Setimanista" Wilbur arqueou as sobrancelhas sugestivamente.
"Setimanista?" Albus se admirou.
"É, meu bem. Sentiu o poder?" James estufou o peito.
"Foi ela quem o convidou" esclareceu Lucy.
"Linguaruda" James se inclinou para frente e ameaçou Lucy com o garfo. "Mas isso é só um detalhe. Hey, Al, sabe o que eu fazia quando não podia ir ao baile, como vocês?" ele mudou de assunto.
"O quê?"
James abaixou o tom de voz.
"Eu usava a Capa para me esgueirar pela cozinha e pegar ponche. Ninguém se lembra de vigiar a cozinha durante o baile" ele pensou por um momento e acrescentou. "Hey, eu empresto a Capa para você, se quiser".
Scorpius sabia que eles falavam da Capa da Invisibilidade, por isso não estranhou o excitamento de Albus.
"Você faria isso?"
"Claro!"
"Você ouviu isso, Scorpie?" ele parecia tão animado que foi impossível para Scorpius não sorrir de volta.
"Albus, você não pode!" Rose ralhou e deu início a uma discussão.
xXxXxXx
Dezembro, 2019. 3ª semana.
"Eu tenho quase certeza de que meu pé está aparecendo" Scorpius cochichou, as mãos levantadas para suster o tecido pesado da Capa da Invisibilidade.
"Relaxe" Al tranqüilizou, consultado o Mapa mais uma vez. "Não tem perigo se a gente ficar bem junto. Além do mais, não tem ninguém à vista. Vire aqui. Ops, encoste na parede. Rápido!"
Eles se encostaram bem no momento em que um elfo doméstico passava com um monte de panelas empilhadas diante do nariz. Scorpius analisou o ambiente. Exatamente como o Mapa descrevera, eles estavam debaixo do Grande Salão num aposento com as mesmas proporções e as mesmas mesas compridas do de cima.
"Ali está o ponche" Albus apontou, cochichando. "Hmm e tem torta de fígado também!"
"E tortilhas! Hmmm" Scorpius salivou.
Eles saíram para o corredor e planejaram. Ambos concordaram que um deles iria sozinho na Capa para pegar ponche, pois se moveria melhor. Enquanto isso, o outro apelaria para a boa vontade dos elfos pedindo comida. Não foi difícil decidir quem faria o quê.
Albus apareceu para os elfos se fazendo de esfomeado, ao que foi prontamente rodeado e mimado, escondendo comida na capa sempre que possível e distraindo os elfos, para que não olhassem na direção do ponche e flagrassem a concha subir e descer sozinha enquanto Scorpius enchia uma garrafa invisível.
"Muito obrigado, muito obrigado mesmo" Scorpius ouviu Albus se despedir, enquanto rumava para a porta arrolhando a garrafa cheia.
"Coma mais uma tortilha! O menino gostou tanto!"
"Obrigado" Albus aceitou prontamente. "Eu vou comer essa no caminho. Vocês não vão contar para ninguém mesmo?" ele fez cara de coitadinho.
"Claro que Catchy não conta! Pobre garoto, perdeu o jantar por causa de uma detenção" dizia um dos elfos pesaroso.
"O menino pode ficar tranquilo. E tentar não se meter em encrencas" dizia outro.
"Ok, vou tentar. Adeus!"
"Volte sempre!"
"Aqui!" Albus deu um pulo quando Scorpius cochichou em seu ouvido logo na saída, jogando a capa por cima dele. "Você se divertiu, não foi?"
Albus conteve o riso enquanto eles se distanciavam.
"Você viu? Pobrezinhos, eles caíram direitinho. E o ponche?"
"Está aqui. Vamos sair de vista".
Albus sacou o Mapa novamente. Eles desviaram de algumas pessoas que deixavam o Grande Salão, esticando o pescoço para ver seu interior no breve momento em que a porta ficou aberta. A música e o barulho pareciam tentador. Mas eles teriam que esperar até o próximo ano.
"Já sei! O armário de vassouras!" sugeriu Albus. "Por aqui".
Ele indicou uma porta ao lado do Saguão de Entrada e ambos entraram, rindo e esvaziando os bolsos. Iluminados pelas varinhas dentro de um armário empoeirado fizeram um piquenique descontraído ouvindo as músicas abafadas do aposento vizinho. Eles se divertiram como não faziam desde a visita a Hogsmeade e Scorpius se deu conta do quanto sentira falta daquilo.
Aumentaram o volume da conversa sem perceber e, quando já haviam esvaziado a garrafa e terminado de comer, alguém se intrometeu na conversa.
"Ora, ora, não é que meus ouvidos acertaram?"
"Pirraça!" os dois se levantaram no instante seguinte, sacando as varinhas com o susto. Scorpius ajudou Albus a recolher a capa e eles ficaram preparados.
O poltergeist sorriu, animado com a descoberta.
"Hmm, o que eu vou fazer para que vocês sejam pegos" ele fingiu pensar. "Já sei! Vou gritar no meio do salão! Vocês sabiam que a maioria dos professores está lá dentro agora? Aqui, ao alcance da minha mão?" ele fez a mão atravessar a parede, numa ameaça.
"Não se atreva" Albus apontou a varinha.
Scorpius gemeu. Isso não era muito esperto da parte dele. Pirraça sorriu ainda mais.
"Oh, o que você vai fazer? Vai derrubar essas vassouras em cima de mim?" ele zombou.
"Langlock!" Albus gritou e jogou a Capa por sobre os dois. "Alorromoha! Corra!"
Scorpius fitou atônito o poltergeist silenciado e raivoso, então correu junto de Albus pela porta escancarada por Albus. Foi horrível correr debaixo da Capa, mas felizmente não havia ninguém no corredor.
"O que você fez?" Scorpius perguntou, quando já haviam se afastado o bastante.
"Usei um feitiço que meu pai me ensinou. Ele está vindo?" Albus se virou para olhar para trás enquanto corria, o que foi um erro. Ele tropeçou na Capa e caiu, levando Scorpius junto. "Ouch!"
Scorpius caiu por cima, num emaranhado de pernas e tecidos, batendo a testa no queixo de Albus e sentindo a pancada dos joelhos dele em suas coxas.
"Shhhh!" Albus fez e eles ficaram imóveis do jeito que caíram, olhando para os dois lados do corredor. "Eu acho que ouvi um miado" ele sussurrou. "Você consegue pegar o Mapa no meu bolso?"
Scorpius levantou a cabeça do ombro do amigo e tentou vasculhar suas vestes, ambos ofegantes por causa da corrida, mas antes que conseguisse, ele também ouviu o miado e vislumbrou um vulto de um gato. Assim que este alcançou a luz do archote, porém, eles respiraram aliviados.
"Lynx!" Albus suspirou e relaxou debaixo de Scorpius.
Eles ainda estavam emaranhados na Capa e, pelo jeito que Lynx olhava, devia haver pés e pernas aparecendo, mas Scorpius se concentrou em respirar aliviado, primeiro.
"Scorpius, quer sair de cima?" Albus sugeriu e Scorpius riu, de repente achando graça em tudo.
Levantou o queixo para fitar Albus de perto.
"Nós estamos parecendo dois bêbados".
"Quer sair de cima?" Albus repetiu, com um tom de urgência que Scorpius não havia notado antes. Ele estava sério. Talvez... incomodado.
O sorriso de Scorpius morreu e ele sentiu um ardor de raiva no peito. O loio lutou para levantar o mais rápido que pôde, sem se preocupar se estava machucando Albus no processo. Assim que se desvencilhou da Capa, lançou um olhar furioso para Albus.
"Sabe de uma coisa, Albus? Você é igualzinho a todo mundo! Ou até pior, por fingir que está tudo bem".
"Scorpius, eu..." Albus tinha jogado a Capa para o lado e se sentado no chão, parecendo arrependido, mas isso não ajudou para diminuir a raiva que Scorpius sentia dele.
"Não desperdice saliva. Pode sumir da minha vida também. Não vai fazer falta nenhuma".
Scorpius saiu, pisando duro, fazendo Lynx se desviar de seu caminho, assustado. Sentindo a vista se turvar, passou reto pelo corredor em direção à Masmorra nº 5, que deveria estar trancada àquela hora. Mas ele sabia que havia uma passagem secreta logo na curva do corredor. Sabia também que era inútil se esconder de Albus quando este possuía o Mapa do Maroto, mas talvez ele aceitasse seu conselho e se mantivesse afastado.
Encostou a varinha numa saliência depois de uma estátua monstruosa e uma pequena porta se abriu. Ele acendeu a varinha e entrou, se encostando à parede. Estava em um cômodo de dois metros quadrados, vazio e empoeirado. Talvez tenha sido um depósito algum dia, mas estava abandonado.
Scorpius percebeu que estava respirando curta e ruidosamente, passou a mão numa das faces para pegar uma lágrima, então não conseguiu segurar um soluço. E outro depois daquele. Olhou para o alto e respirou fundo. Fazia muito tempo que não chorava.
Estava se sentindo traído, apunhalado por quem confiara por tanto tempo. Nenhum dos insultos de Reece e seus amigos havia feito com que se sentisse daquele modo. Rangeu os dentes de raiva e mágoa quando a porta se abriu e estreitou os olhos para Albus.
"Se você entrar, eu saio" Scorpius disse e agradeceu por pelo menos sua voz ter saído firme.
"Scorpie..." Albus tinha um semblante desolado de culpa e encostou a bochecha na porta em vez de entrar. "Eu sinto muito".
"Não é o bastante".
O que quer que Albus sentisse, ele se sentia pior. Mas Scorpius se pegou torcendo para que Albus insistisse, que não desistisse dele assim tão fácil.
"Me perdoe!" Albus pediu, os olhos se tornando mais brilhantes. "Eu não devia ter feito aquilo, não sei o que me deu. Não queria magoar você, não queria mesmo! Se eu pudesse voltar atrás..."
"Você não pode" Scorpius olhou para cima novamente, para conter outro soluço.
"Me deixe entrar. Por favor".
Scorpius desviou os olhos e deu um passo para o lado, escorregando para se sentar no chão. Albus entrou e murmurou alguma coisa, causando uma claridade bruxuleante. Scorpius não havia reparado no archote no alto da parede. Albus se sentou ao seu lado. De alguma forma, Lynx também havia se esgueirado para dentro sem que nenhum deles percebesse e foi se acomodar no colo de Scorpius, que o acariciou mecanicamente.
"Eu fui um idiota. Me deixei levar pela conversa dos outros e acabei ficando com caraminholas na cabeça".
"Tipo o quê?" Scorpius tentou parecer indiferente, mas teve que limpar mais uma lágrima.
Albus suspirou.
"Myrtes falou que você estava a fim de mim".
Scorpius o encarou, indignado.
"E você acreditou naquela garota? Ela me odeia!"
"Não, ela não odeia você. É só que... bem, não importa. Me desculpe".
"Se você for ficar ligando para o que os outros vão dizer, é melhor nem tentar voltar às boas comigo" ele avisou, vendo a razão nas próprias palavras e temendo que Albus concordasse com ele.
"Eu não me importo! Não me importo mesmo. E acabei de me dar conta disso" ele riu tristemente. "É por isso que me sinto péssimo agora. Magoei você por nada".
Scorpius ficou em silêncio por um momento, então o encarou nos olhos e falou, por entre os dentes cerrados.
"Você é como um irmão para mim, entendeu? Nunca mais pense algo diferente disso! Ficou claro?"
"Mais claro impossível" Albus lhe ofereceu um pequeno sorriso. "Você também é como um irmão para mim, Scorpie. Sei que não mereço sua confiança depois do que acabei de fazer, mas queria que você não escondesse mais as coisas de mim, também. Poderia ter me contado que gosta de garotos. Seria melhor do que eu ter descoberto pelos outros, como aconteceu".
"Eu vou esganar aquela Buckingham!"
"Olhe, vocês dois são terríveis! Você sente ciúmes dela e ela sente ciúmes de você. Eu não queria ter que escolher um de vocês dois sabe? Mas, se tivesse, você sabe quem seria, não sabe?"
Albus se levantou e estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar. Scorpius de repente se lembrou de seu primeiro ano, quando Albus o derrubara sem querer e oferecera a mão da mesma maneira. Ele não sabia naquela época, mas aquele gesto iniciara uma grande amizade.
Scorpius olhou nos olhos de Albus e quis acreditar em tudo o que ele lhe prometia, aceitando sua mão. Ele não imaginava, mas estava selando o início de outro grande sentimento.
xXxXxXx
Janeiro, 2020. Dia 1º.
Harry passou perto da escada e viu um quadro tremer na parede. Aquilo já era demais. Mandaria James baixar o volume ou tiraria o aparelho de som de seu quarto. Subiu os degraus rapidamente.
Assim que alcançou o andar superior, a porta do quarto de James se abriu, fazendo o volume do som se tornar insuportável no corredor. Albus, com um baralho de Snap Explosivo na mão gritava da porta para ser ouvido:
"Mas James..."
"Eu não estou a fim!" gritou James de volta. "Vá escrever para o seu namoradinho e me deixe em paz".
Albus abriu a boca para reclamar, mas a porta foi batida no instante seguinte. Ele fechou a cara e deu meia volta, quase trombando no pai.
"Papai, por que James está tão chato, ultimamente?"
Harry suspirou. Também queria saber.
"É a idade, não ligue para ele. Eu jogaria com você, se vocês não estivessem de castigo" Harry aproveitou para relembrar. O castigo por James ter roubado o Mapa da sua escrivaninha e por Albus ter acobertado o irmão era que eles não sairiam de casa nem poderiam chamar ninguém para brincar. Exceto no Natal, quando a família toda se reuniu.
Parecia meio sem sentido agora, vendo o filho tão desanimado.
"Ah, tudo bem..." Albus voltou para o quarto, cabisbaixo.
Harry olhou para a porta fechada de James, os quadros tremendo no corredor e achou que aquilo podia esperar um pouco. Ele foi para o quarto de Albus e se sentou na beirada da cama. Albus tinha se deitando e Lynx o acompanhou, se acomodando a seu lado.
"Quer conversar, Al?" perguntou.
"Sobre o quê?"
"Sobre Scorpius, por exemplo?"
Albus pensou por um momento.
"Ele é gay, papai. É verdade o que James disse. Quero dizer, não a parte sobre sermos namorados. Mas ele só está sendo chato".
Harry ficou feliz por pelo menos um de seus filhos ainda querer conversar com ele. Lily geralmente procurava sua mãe para conversar, o que era melhor para todo mundo. E James estava... bem, sendo um adolescente.
"E você se incomoda com isso?" Harry especulou. Não porque Ginny tinha pedido que o fizesse, mas por sua própria curiosidade. Seus filhos haviam crescido longe dos preconceitos trouxas a respeito da homossexualidade e mesmo James, quando importunava o irmão, não o fazia na mesma proporção de agressividade e condenação que um adolescente trouxa faria.
"Não, não me incomoda. Mas isso não me impediu de agir como um idiota com ele" Albus se lamentou.
"Por quê?"
"Porque ele não me contou isso. Eu descobri por causa de umas insinuações de outras pessoas. E eu sou o único amigo dele. Amigo de verdade, sabe? Não apenas colega de classe. Então eu achei que ele não queria contar porque..."
Albus mordeu o lábio inferior envergonhado.
"Por que achou que ele gostasse de você?" Harry adivinhou.
"É..." Albus soltou o ar dos pulmões. "Mas acontece que ele não gosta. Não assim. E eu agi como um imbecil sem motivo nenhum. O afastei quando ele já estava passando por um bocado de problemas e... acabei magoando ele de verdade".
Albus parecia realmente arrependido.
"Mas você já disse o quanto se sente por isso?"
"Sim. E ele me perdoou. Mas não sei se vai ser a mesma coisa daqui para frente. Eu acho que estraguei tudo".
"Não, não estragou" Harry assegurou. "Você só vai ter que conquistar a confiança dele novamente".
"E como é que eu faço isso?" Albus se exasperou.
"Sendo paciente. Apoiando-o quando ele precisar, sendo compreensivo e companheiro. É muito fácil fazer alguém perder a confiança em você. É como derrubar um muro. Depois você tem que ir colocando tijolo por tijolo até erguê-lo novamente".
"Certo. Eu posso fazer isso" Albus garantiu, mais para si mesmo que para o pai. "Quero dizer, não erguer um muro, mas... bem, o senhor me entendeu".
"Claro que você pode" Harry sorriu. "Não ligue para as coisas que seu irmão faz ou diz".
"Eu não me importo" Albus assegurou.
"Mas eu vou ter uma conversa séria com ele assim mesmo. E quando eu voltar, vou jogar um pouco com você, está bem?"
"Ok!" Albus concordou, animado.
Eles ouviram um agitar de asas do lado de fora e se voltaram para a janela, onde uma coruja marrom avermelhada de olhos amarelos pairava em frente ao vidro.
"Gurthang**!" Albus correu para deixar a coruja de Scorpius entrar, trazendo consigo uma rajada de vento e floquinhos de neve.
Harry já estava de saída quando o filho se dirigiu a ele, afagando as penas da coruja e segurando uma carta.
"Hmm não seja muito duro com Jimmy, papai. Não por minha causa".
"Não é só por sua causa. Ele está precisando escutar algumas coisas além de Rock".
Harry foi até a porta do filho e abriu, sem bater. Tentou não recuar quando sentiu como se esbarrasse em uma barreira de som. James estivera deitado em sua cama, ouvindo Rock trouxa em seu aparelho estéreo num volume absurdo. Pareceria um adolescente trouxa, não fosse a varinha apontada para o alto, escrevendo a letra da música no teto. Assim que Harry entrou, James escondeu a varinha.
"Hey!" James fez questão de parecer aborrecido enquanto assistia o pai desligar o aparelho de som com um aceno de varinha. "Por que fez isso?"
"Porque você está de castigo por usar magia em casa".
"Eu não estava..."
"E se responder de novo, vai perder mais do que o aparelho de som".
James se calou. Era bom saber que ainda inspirava algum respeito no filho mais velho. Seria uma longa conversa.
xXxXxXx
"Então o filho está seguindo os passos do pai, não é mesmo?" Lucius tinha entrado na sala sem que Draco percebesse.
Draco pensou em ignorá-lo, mas decidiu não dificultar mais as coisas para si mesmo. Fechou o livro que lia e encarou o pai.
"Do que está falando?"
Lucius se serviu de uma xícara de chá e se sentou a sua frente, apoiando a bengala na mesinha de centro e puxando um jornal.
"Demorou mais para eu ouvir rumores a seu respeito. Você estava no quinto ou sexto ano quando vieram as fofocas. Agora não sei se você foi mais cuidadoso ou menos precoce que seu filho".
Draco decidiu não responder àquilo. Nenhuma fofoca havia chegado aos seus ouvidos ainda, mas talvez fosse melhor assim. Preferia que o próprio filho lhe dissesse o que quer que tivesse acontecido em Hogwarts.
Lucius o encarou por cima do jornal por um momento, então o baixou.
"Você sabia".
Draco deu de ombros.
"Draco, você teve algo a ver com..."
"Não" Draco o cortou, torcendo o lábio superior pelo tom acusatório do pai. "Foi ele quem começou a conversa. Tudo partiu dele".
Lucius o encarou por mais alguns segundos, desconfiado, então voltou a examinar seu jornal.
"E o senhor, pretende fazer algo a respeito dessa vez?" Draco perguntou.
"Não. Deixe o menino aproveitar enquanto ainda pode. Ele vai ter tempo para pensar em constituir família quando estiver mais velho. Foi assim com você, porque seria diferente com ele***?"
Draco assentiu. Seria melhor se Lucius acreditasse nisso pelo maior tempo possível. Mas Draco não estava disposto a influenciar qualquer decisão que seu filho viesse a ter no futuro. Nem permitiria que ninguém o pressionasse.
"Com licença" Draco pediu e saiu, rumando para o segundo andar.
Hesitou ao chegar ao quarto do filho, mas bateu na porta e abriu em seguida. Scorpius estava debruçado na janela, olhando através do vidro.
"Oi papai" ele falou, finalmente se virando com um fraco sorriso.
Draco se aproximou e copiou a posição do filho, vendo os morros cobertos de neve do lado de fora.
"Aconteceu alguma coisa, filho? Você parece triste".
'Como eu não reparei nisso antes?' Draco se questionou.
Scorpius suspirou.
"Algumas... coisas. É uma longa história. Lembra do que eu escrevi sobre Reece Roxy, o ex-artilheiro?"
"Sim" Draco se lembrou de seu espanto ao ler numa das cartas de Scorpius que Albus Potter tinha conseguido afastar um Sonserino setimanista de seu cargo quando a própria irmã gêmea dele era a capitã do time.
"Bem, ele estava procurando uma oportunidade de se vingar de nós dois, então..."
Draco ouviu o relato de seu filho com uma ruga na testa. Scorpius contou sobre a fofoca, a reação dos alunos e - o que parecia ter maior importância do que tudo aquilo - a reação de seu melhor amigo.
"Mas ele se de arrependeu, então" Draco recapitulou, ao final.
"Sim".
"E você o perdoou" novamente não era uma pergunta, mas o filho assentiu. "Então qual é o problema? Aliás, por que você não contou para ele pessoalmente? Seria melhor do que deixá-lo descobrir, da maneira como aconteceu".
"Eu... eu não sei" Scorpius baixou os olhos para as mãos. "Acho que tive medo. De tudo não ser mais como antes".
"E você realmente não está interessado nele?" daquela vez era uma pergunta.
"Não!" Scorpius respondeu, rápido e indignado. Então suspirou e repetiu, mais calmamente. "Não. Por que é tão difícil entender isso? Nós somos amigos! Só por que eu gosto de garotos não significa que eu goste dele dessa forma, certo?"
"Se você diz, eu acredito, meu filho" Draco reconfortou, diante da atitude defensiva do filho. "Mas eu entendo sua preocupação. E acho que você não deve se preocupar com Albus se afastar de você. Se ele quisesse fazer isso, teria aproveitado a primeira oportunidade. E então teria provado que não valia o esforço".
"Certo".
"Mas talvez não seja tudo como antes, porque vocês dois estão diferentes. Não significa que vai ser pior, também. Talvez vocês sejam ainda mais amigos, depois dessa... crise".
Scorpius assentiu, sem parecer muito convencido. Draco se sentiu triste pelo filho. Queria poder passar por aquilo no lugar dele. Queria que nada daquilo o atingisse. E realmente aconselharia Scorpius a se afastar de Albus se não soubesse que aquilo apenas o magoaria ainda mais.
"Você sabia que Albus Dumbledore era gay?" Draco falou, de repente se dando conta da ironia.
"Não" Scorpius olhou para o pai, confuso.
"Bem, era um fato conhecido. Ele só era solitário, mas conhecidamente gay".
Scorpius o encarou em silêncio, uma pergunta muda estampada no rosto. Ele provavelmente estaria se perguntando o que aquilo tinha a ver com o assunto.
"Ele foi um dos maiores bruxos da história. E Harry Potter o considerava digno o bastante para homenageá-lo através de seu filho".
"Oh..." as sobrancelhas de Scorpius se elevaram em compreensão.
"Não se preocupe com o que os outros vão pensar. E, se Albus se preocupar, o que eu acho improvável, então não perca mais seu tempo com ele, está bem?"
Scorpius respirou fundo.
"Ok" ele concordou, parecendo mais leve.
Draco alisou seus cabelos.
"O que acha de jogarmos uma partida de xadrez?" Draco ofereceu, ao que o filho concordou. Seu sorriso também pareceu mais verdadeiro.
xXxXxXx
Fevereiro de 2020. Dia de S. Valentim.
As coisas estavam voltando ao normal, Albus pensou quando um grupo de alunos mais velhos acenou para eles antes de deixarem a sala comunal. E o quadribol era a causa daquilo. Eles haviam vencido a partida contra a Lufa-Lufa e estavam em segundo lugar na pontuação das Casas. Era algo que não acontecia havia alguns anos e os Sonserinos estavam felizes por poder provocar a Grifinória novamente com esperanças de vencer. A Grifinória tinha uma vantagem de apenas 20 pontos e o confronto entre ambas as Casas seria em maio, o que dava tempo para Albus deixar para se preocupar com isso depois.
"Falta meia hora para o passeio, pessoal!" anunciou Juniper, se encaminhando para a saída também. "Nós estamos indo esperar lá fora. Vamos?"
"Daqui a pouco" resmungou Scorpius, confortavelmente esparramado em uma poltrona. Eles haviam acabado de almoçar e estavam preguiçosos, ainda que a idéia de passear em Hogsmeade os mantivesse animados.
Lynx ronronava no colo do dono, que por sua vez também estava acomodado no sofá maior. Albus suspirou. Era bom poder se sentir parte daquilo novamente, sem se preocupar com a atitude hostil dos alunos mais velhos. Até mesmo Reece parecia mais conformado, quando eles estavam tão próximos da vitória.
"Hey, vocês não vêm?"
Albus levantou os olhos para Karen, que parecia mais conformada depois de saber que a aversão de Scorpius não se dirigia somente a ela, mas a todas as garotas do mundo. Myrtes também se aproximou.
"É, o que acham de irmos juntos? Se nós não formos atrapalhar nada, é claro. Quero dizer, hoje é dia de São Valentim e tudo..." ela provocou e se jogou no sofá ao lado de Albus, mas pulou de pé no mesmo instante.
Lynx havia mudado totalmente a linguagem de seu corpo relaxado para agressivo num piscar de olhos, arrepiando os pelos e soltando um miado sinistro.
"Lynx!" Albus tentou repreendê-lo, mas sabia que não havia maneira de mudar a opinião de um amasso sobre certas pessoas.
"Gato estúpido!" Myrtes resmungou, irritada tanto com Lynx quanto com Scorpius, que ria abertamente.
"Ora, Lynx é muito esperto, isso sim" Scorpius disse e, como que para provar o que dizia, levantou-se e pegou o felino do colo de Albus sem que este manifestasse nenhum desconforto. "Não é mesmo, Lynx? Eu vou dar comida para ele, Al".
"Ok" Albus voltou a se esparramar no sofá, tentando também não rir da cara de poucos amigos de Myrtes. "Sinto muito, Myrtes. Você conhece Lynx. Ele é genioso".
Myrtes levantou o nariz, petulante.
"Claro que conheço. Mas perdi a vontade de acompanhá-los no passeio. Até logo".
Ela girou nos calcanhares e se foi, com Karen logo atrás. Albus se obrigou a levantar e foi para o dormitório pegar seu cachecol. Pelo jeito como todos estavam se agasalhando, devia estar bastante frio lá fora. Encontrou Scorpius afagando Lynx enquanto este comia.
Eles tinham voltado ao normal, mais ou menos. Albus tentava seguir o conselho de seu pai, dando espaço a Scorpius para voltar a confiar nele e talvez as coisas estivessem ficando mais fáceis com o tempo, como seu pai havia dito que aconteceria. Mas eles ainda evitavam certos assuntos e Albus sentia que estava na hora de transpor aquele obstáculo.
Albus pegou o cachecol e limpou a garganta teatralmente.
"Scorpie, você gostaria de ir a Hogsmeade comigo?" ele perguntou, solene, fazendo Scorpius o mirar com desconfiança. "Nós poderíamos ir de mãos dadas ao Café Madame Puddifoot e eu poderia pagar um chocolate quente para você. A menos que você já tenha outro par, é claro".
Scorpius então compreendeu a brincadeira e se empertigou.
"Não, eu não tenho. Mas não sei se quero ir com você" ele desdenhou. "Sair por aí de mãos dadas com você provavelmente queimaria meu filme".
"Ah, mas eu sei quais são seus chocolates preferidos! E tenho um dom natural para escrever poemas. Tenho certeza que você vai gostar da minha companhia".
"Certo, talvez eu vá, então" Scorpius pegou o próprio cachecol e vestiu uma capa por cima das vestes.
"Ótimo!"
"Mas nada de dar as mãos, por enquanto. Você vai ter que merecer isso" ele avisou.
"Combinado, então".
Eles riram e Albus passou um dos braços pelos ombros de Scorpius quando eles deixaram o dormitório e um Lynx lambendo os lábios, satisfeito.
xXxXxXx
Maio, 2020. 4ª semana.
Scorpius sorriu ao arriscar uma olhada para James Potter, sobrevoando mais acima deles, os dedos apertados no cabo da vassoura em concentração. O placar mostrava incríveis 140x50 para a Sonserina e se James não achasse logo aquele pomo, a Sonserina poderia muito bem passar na frente só com a quantidade de pontos, se continuasse daquele jeito.
Não que Shannon Davis fosse deixar barato, também. Ela tinha adquirido bastante confiança nos jogos anteriores e parecia disposta a fazer de tudo para capturar o pomo.
"Eu ainda vou fazer Potter engolir sua arrogância. Sem ofensas, Albus" dissera a garota no último treino, fazendo Pietra arreganhar os dentes, satisfeita.
"Malfoy!" Peppers chamou sua atenção de volta para o jogo, passando-lhe a goles, que Scorpius quase perdeu quando teve que desviar de Lucy Weasley e um balaço ao mesmo tempo.
'Malfoy quase perde a goles, mas parece ter fincado garras na bola agora que a pegou. Se prepare, Stray, ele está chegando, ele vai atacar, ele vai... oh, essa foi por pouco.'
Scorpius teve que desviar de outro balaço, o que estragou sua tentativa de marcar. Mas felizmente Albus passou, pedindo a goles no momento seguinte e eles estavam partindo para outro ataque ininterrupto quando Lucy, num movimento bem calculado, desviou seu arremesso com as cerdas da vassoura.
'Wow! Esse jogo está emocionante, não está pessoal? Honestamente, os dois times não estão a fim de entregar os pontos' Roxanne elogiou, mas então acrescentou, furiosa. 'Mas se eu fosse você, James, pegaria logo a droga desse pomo, o que você está esperando? Oh! Ele viu?'
No exato instante em que um artilheiro grifinório tomou a goles e rumou para os aros, a arquibancada rugiu e Scorpius arriscou outra olhada para o alto. Potter e Davis estavam voando acelerados, um de encontro ao outro, o que fazia parecer que se colidiriam a qualquer momento. Scorpius fechou os olhos instintivamente ao impacto, ao mesmo tempo em que a multidão parecia suspender o fôlego. Então...
'ELE PEGOU!'
James havia segurado o pomo em uma mão e Shannon Davis na outra, ao que parecia, pois a garota teria caído, não fosse seu aperto firme em suas vestes. Davis esperneava tentando se soltar.
Scorpius sentiu um pouco de decepção quando a Grifinória começou a comemorar, mas então Albus voou até onde ele estava, oferecendo um sorriso.
"Nós fizemos o possível" ele reconfortou, ao que os outros jogadores se juntaram a eles.
"Vocês arrasaram, caras" disse Mitchell, cumprimentando com um aceno de cabeça.
"É, eu nunca vi os Grifinórios tão desesperados quanto hoje" afirmou Thickey.
"E vocês viram a cara de Potter nos últimos minutos? Ele parecia que ia quebrar a própria vassoura em duas" disse Peppers.
"Eu mato aquele desgraçado" Davis se juntou a eles, ajeitando as próprias vestes. "Eu mato ele! E não me olhe desse jeito, Albus!"
Albus levantou as duas sobrancelhas, parecendo divertido, apesar de tudo. Eles desmontaram finalmente.
"Segundo lugar" Pietra havia se juntado ao restante do time. "Acho que eu vou ter que matar você, não é mesmo, Potter?"
Albus se encolheu conforme a garota se aproximava, mas até mesmo Scorpius não estava preparado para o beijo que Pietra deu na face de seu amigo.
"Nós não teríamos chegado nem perto disso sem você Albus!" ela bagunçou os cabelos de um Albus roxo de vergonha e se virou para os outros. "Ou melhor, sem vocês! Vocês salvaram o time, meus caros!"
Ela levantou a mão, ao que todos também levantaram, comemorando. Mas nem por isso eles deixaram de fazer caretas quando o time da Grifinória veio apertar-lhes as mãos.
"Foi um bom jogo" Lucy apertou suas mãos, apesar de manter distância, aparentemente com o orgulho ferido.
"Vocês acabaram comigo" Stray foi mais simpático, piscando um olho, brincalhão. "Mas nós vencemos e é isso que importa, não é mesmo?"
"Parabéns, vocês dois" James Potter apertou a mão de Scorpius, contrariado. "Apesar de que seus esforços não valeram de nada, no final".
"Cala a boca, James" Albus se esquivou do aperto do seu irmão, apesar de sorrir.
"Então..." James se aprumou e passou a mão pelos cabelos ao dar uma olhada para Shannon Davis, que estava logo ao lado de Albus. "Você esteve..." James havia estendido a mão para a garota, esperançoso, mas esta o fuzilou com o olhar e se afastou antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. "Qual é o problema dela?"
"Além do fato de você tê-la humilhado completamente?" Albus deu de ombros. "Não sei. O que poderia ser?"
"Eu não a humilhei. Só sou melhor que ela! Se ela não sabe viver com isso, o problema é dela" James desdenhou, apesar de acompanhar o movimento dos quadris da garota enquanto ela se afastava.
"O que houve com Jodie Shaw?" Albus cochichou para Wilbur.
"Ah, eles só ficaram na festa. Depois ela deu um pé da bunda dele".
"Isso já está virando costume" Albus riu e teve um sobressalto quando Lily se lançou no seu pescoço. "Hey, Lily, eu não venci, sabia?"
"Mas você foi fantástico! Vocês dois foram" ela acrescentou, apertando a mão de Scorpius. "Você vai passar uns dias em casa de novo esse verão?" Lily perguntou, provavelmente tentando ser simpática.
Scorpius coçou o nariz.
"Não. Vou viajar para a Suíça. Acho que não vai dar dessa vez".
"Que pena. Eu queria uma revanche" ela piscou e saiu, o rabo de cavalo acaju balançando enquanto ela se afastava.
"Suíça?" Albus perguntou enquanto eles se afastavam da multidão.
"É. Meu pai já planejou tudo. Três semanas conhecendo os principais pontos turísticos bruxos da região" ele tentou parecer animado.
"Deve ser legal. Nós não costumamos viajar para o exterior" Albus comentou, provavelmente tentando encobrir a decepção. "Mas eu mando lembranças suas para Teddy" ele subitamente sorriu, maroto, enquanto Scorpius sentia as faces esquentarem.
"O quê?"
"Ora, você está corando?"
"Claro que não! Eu não... por que você acha...?" gaguejou.
"Relaxe, Scorpie. Eu prometo que não conto para ninguém sobre sua paixonite. Mas que foi legal deixar você constrangido, isso foi".
"Falou quem quase molhou as calças quando Roxy beijou sua bochecha" Scorpius se sentiu obrigado a provocar de volta, irritado por ter sido pego desprevenido.
"Ora, pelo menos eu ganhei um beijo de alguém. Não sei se Teddy faria algo..."
"Cale a boca!" Scorpius o cortou.
"Olá, Malfoy. Potter. Belo jogo".
Scorpius levantou os olhos para ver Roy Bessemer passar por eles, ajeitando a franja castanho-clara com uma mão, enquanto a outra descansava no bolso de um jeito descontraído.
"O-obrigado" Scorpius gaguejou, se sentindo afundar, novamente pego desprevenido.
Só que ao invés de zombar, daquela vez Albus esperou o garoto se afastar e sugeriu, normalmente.
"Você devia chamá-lo para sair, algum dia desses".
Scorpius se viu sem ter o que responder. Albus e ele já haviam brincado várias vezes sobre todos acharem que eles eram namorados. Era bom poder rir daquilo tudo. Mas eles nunca tinham chegado a tocar naquele assunto novamente, a sério. Scorpius tentou encontrar na expressão do amigo algum sinal de desconforto ou o que fosse, mas Albus parecia tranqüilo. Então se sentiu grato por aquele gesto de Albus.
"Talvez eu o convide para o Baile de Inverno, ano que vem" Scorpius deu de ombros. "E você, já tem alguém em vista?"
"Não" Albus torceu o nariz. "Mas não estou procurando, para dizer a verdade. E minha musa, Pietra, vai se formar esse ano! Justo agora que nós estávamos ficando íntimos!"
Os dois gargalharam, felizes.
xXxXxXx
N.A.:* A Zonko's foi fechada em 1996 e os gêmeos Weasley manifestaram o desejo de abrir uma franquia da Gemialidades Weasley no local. Eu imaginei que George e Ron levariam o plano a diante.
** Gurthang é o nome da espada do Titã Hyperion segundo a Wikipédia.
*** Lucius pode não ter preconceitos homofóbicos, mas imagino que o fato de Draco e Scorpius serem filhos únicos lhes confira - na opinião de Lucius - a responsabilidade de continuação do nome da família, portanto ele não abriria mão de casar o filho e o neto nem diante de suas preferências.
Ao falar no Carnegie Hall, em Nova York em 19 de outubro de 2007, J. K. Rowling foi questionada por uma criança se Dumbledore encontra o "amor verdadeiro". "Sempre vi Dumbledore como gay", respondeu J. K. "Ele se apaixonou por Grindelwald... Não se esqueçam que a paixão deixa qualquer um cego. Ele ficou muito atraído por sua personalidade brilhante e essa foi sua tragédia". Se Grindelwald retornava suas afeições, Rowling não explicitou (Fonte: Wikipédia).
Nha, até que não demorou, não é mesmo? E isso se deve a vocês que foram tão compreensivos! Mais uma vez agradeço.
Yves o site sumiu com o seu e-mail (¬¬) então vou responder por aqui: obrigada! Sim, a fanfic vai até eles se formarem. E obrigada por oferecer ajuda. Se a situação fugir ao nosso (meu e da Dany) controle eu dou um grito rss. Mas não se preocupe, não abandonaremos a fic!
N.B.: Gostaria de agradecer a todos a compreensão de você no atraso. Deram ânimo para que a betagem saísse a tempo, embora não antes da viagem da Amy-chan.
O segredo da preferência do Core - ou Scorpie pra vocês - saiu, teve seus problemas e soluções. Por agora xD Espero que tenham gostado do capítulo.
Como um prêmio por vcs terem sido tão generosos, vou dividir um segredinho sobre Segunda Chance com vocês. Enquanto a Amy-hun escrevia, sugeri uma música como trilha que escutei e que achava que tinha bem o ritmo da história. A música é It's Gonna Be Love da Mandy Moore.
Curiosidade, a música quase mudou o nome da fic no fim das contas ^~
See ya
