Chapter 7: Sétimo Movimento: Hanare


Oito Movimentos para o Disparo Perfeito

Hanare: Liberação da Flecha.

...

Sétimo Movimento –

Hanare

...

Imonoyama Nokoru, que há pouco tinha sido um lobo feito de sombras, deu mais um passo na direção de Watanuki. Doumeki imediatamente disparou com seu arco. Queria proteger Watanuki dos lobos, das ayakashi – que se acumulavam em torno deles como um enxame cada vez mais próximo, audacioso, e terrível. Queria protegê-lo de Imonoyama, e de qualquer outro perigo, para sempre. Proteger.

Mas sua flecha de energia não atingiu nada, apenas foi para frente. E, no ponto exato onde estaria a cabeça de Watanuki se ele estivesse de pé, a luz que era a flecha parou de voar, e começou a se expandir. Um contorno tridimensional e transparente, uma redoma em forma de flecha que se estendeu para cobrir pelo menos dois quilômetros cúbicos daquele bairro de prédios altos e muitos mistérios.

Watanuki sentiu a palavra vir à mente, junto com uma sensação de alívio indescritível. Kekkai, barreira. Era como Yuuko chamaria isso. Eles estavam dentro de um pequeno mundo paralelo, agora.

Não havia mais nenhuma das ayakashi dentro desse mundo paralelo. Havia apenas Doumeki, Watanuki, e, talvez surpreendentemente, os lobos. Um lobo com olhos prateados, um lobo com olhos dourados, e Nokoru-kun, de pé, brincando com o sensu fechado, com suavidade. Nenhum deles exalava a maldade que Doumeki e Watanuki aprenderam a associar com os lobos, provavelmente por efeito da barreira.

"A minha vida pode não ser um sonho," pensou Watanuki, "mas às vezes eu queria acordar no meio dela."

Nokoru-kun se ajoelhou, e ajudou um Watanuki quase bom a se levantar. Doumeki já estava com o arco novamente apontado, e não baixaria a guarda – embora já soubesse bem o que estava acontecendo.

– Watanuki-san... – Nokoru-kun disse, e esse tratamento formal saindo de sua boca soou muito estranho aos ouvidos de Watanuki. – Eu lhe devo explicações.

Watanuki se sentia emocionalmente exausto. Parte de si ainda confiava em Nokoru-kun, mesmo que ele fosse um lobo ou o que quer que fosse – outra parte estava profundamente machucada pela traição, pelas mentiras. E pelo fato de Doumeki ter tanta razão, sempre.

– Não precisa.

– Não, Watanuki-san, eu faço questão. – Nokoru-kun parecia mais do que nunca um jovem príncipe, usando keigo¹, agindo com elegância. – Para começar, eu gostaria de dizer que não foi tudo mentira.

– Mas também, – a voz veio de um dos lobos, que aos poucos se transformava em um garoto de cabelos azuis. – não foi tudo verdade.

Watanuki deu um ou dois passos na direção de Doumeki, inconscientemente, enquanto o lobo de olhos prateados se transformava em um garoto sorridente, de cabelos pretos.

– Watanuki-san, eu lhe apresento Takamura Suoh, e Ijyuin Akira. Meus amigos e companheiros de maldição.

No meio da cidade, havia uma flecha gigante e transparente. Dentro dela, ninguém que fosse de carne e osso ou de espírito, com exceção daquele pequeno grupo.

Doumeki, que tensionava a corda do arco incansavelmente, sem dar demonstração de dor ou cansaço. Watanuki, fisionomia um tanto fatigada, mas valente, apesar de tudo. Takamura Suoh e Ijyuin Akira, cansados, mas plácidos e tranqüilos. E Imonoyama Nokoru, que caminhava de um lado para o outro, brincando com o leque fechado nas mãos, tentando resumir sua história.

– Fomos amaldiçoados... num dado momento, por um certo motivo... a carregar o espírito do lobo. Ele está em nós e nos força a... bem, coisas horríveis. Nós lutamos contra eles, em espírito, mas... mesmo nossos corpos saem feridos, e por isso que parei de praticar kyudou. Consultamos incontáveis livros, e pesquisamos como pudemos, por isso que começamos a devorar coisas preciosas, elas amenizam a dor da possessão, das batalhas internas. – fez uma rápida pausa para respirar e pensar o que mais deveria contar. – E quando vimos Watanuki-san... Nós chegamos à conclusão que matá-lo e... bem, fazer coisas com o sangue dele, poderia nos libertar.

– Mas, – continuou Ijyuin Akira – Imonoyama-senpai que ficou encarregado de se aproximar de Watanuki-san.

Takamura Suoh continuou, parecendo algo entre exasperado e divertido.

– E ele se ap... apegou. Ele se apegou à nossa... vítima. Precisávamos de outro plano.

– Eu analisei Doumeki-san. – Ijyuin Akira disse respeitosamente – E ele poderia servir como... sacrifício.

– Mas Nokoru não permitiu. – continuou Takamura Suoh, sem deixar de perceber o olhar que Nokoru e Watanuki trocaram. – Decidimos, então, conseguir a flecha com que ele ganhará o campeonato.

– Eu... Watanuki-san me contou a história da flecha e do menino-raposa. – Nokoru-kun estava vermelho, envergonhado, e também parecia estar sentindo muita dor. – Nós três pesquisamos e chegamos à conclusão que seria um artefato de poder suficiente e adequado. Além de ser uma "coisa preciosa".

– Mas chegou em um ponto, – a voz feminina e sedutora vinha de trás deles, se aproximando pela esquina – que os espíritos-lobo estavam mais fracos, perdendo o controle sobre vocês três. Especialmente sobre Nokoru-kun. Que está morrendo, depois de lutar tanto contra o lobo; contra uma face de si mesmo.

Yuuko-san apareceu na esquina. Usava um magnífico vestido azul-marinho, todo fendas e decotes, e um chamativo jogo de colar e pulseiras de contas douradas e vermelhas. Mokona estava sobre seu ombro esquerdo.

– Senhorita Yuuko, suponho. – Nokoru-kun fez um cumprimento formal e elegante. – É uma honra sem igual poder contemplar sua beleza.

Yuuko respondeu com um aceno de cabeça e um pequeno sorriso. Andou languidamente até Watanuki, que estava sério e calado, mas feliz em vê-la. Yuuko voltou a falar.

– E chegou a um ponto, que ficou difícil continuar mentindo. Não é, garotos? – Yuuko sorriu e os três assentiram, Ijyuin Akira e Takamura Suoh olhando furtivamente para Nokoru-kun – Então resolveram dar um ultimato. Porque descobriram que Doumeki-kun poderia resolver essa situação.

– Ele poderia exorcizar o lobo. – completou Ijyuin Akira. – Então, nos nossos planos mais recentes, fingiríamos colocar Watanuki-san em perigo, e Doumeki-san o salvaria, matando o lobo em nós.

– Mesmo que vocês pudessem morrer também. – Watanuki falou com voz firme. – Suas almas humanas. Porque há essa possibilidade, não há?

Ele via isso nos olhos de Nokoru-kun.

– Há. – respondeu Yuuko-san – Depende do quanto o lobo já dominou o corpo e a alma deles, e isso não há como saber. Mas essa barreira magnífica...

– Essa barreira mantém o espírito-lobo mais fraco. – completou Takamura Suoh.

– Então, eu quis aproveitar a barreira, desistir de ameaçar Watanuki-san, e explicar tudo. – Nokoru-kun continuava vermelho, respiração difícil, mas já abria o leque e retomava o controle – E pedir, por favor, para Doumeki-san disparar uma flecha em cada um de nós.

– Mas você pode morrer!

– É minha escolha, Watanuki-san. É a nossa escolha. – Nokoru-kun fez um gesto amplo que englobava os outros dois, que assentiram com a cabeça. – É difícil demais viver assim. E... o lobo já está me matando, mesmo.

– Doumeki! Você vai disparar?

– Se os lobos retomarem o controle, e tomarem o controle total, você estará em perigo.

Yuuko-san deu um passo à frente.

– Tudo depende do desejo de Doumeki. Quanto mais ele desejar destruir apenas os espíritos-lobo, mais chance há de os garotos sobreviverem. Você sabe, não é, Doumeki?

– Eu li nos livros do meu avô. Eu sei.

Ela podia sentir desejo de Watanuki de gritar coisas como "Doumeki os odeia! Tem ciúme de Nokoru-kun! Vai matá-los!" e quase sorriu, porque Watanuki fingia não conhecer Doumeki melhor que ninguém.

– Tanto faz. – Nokoru-kun sorriu, triste, brincando com o leque. – Vamos acabar logo com isso.

Yuuko se afastou. Watanuki se colocou mais perto de Doumeki, resignado.

O arqueiro soltou a corda, respirou profundamente, e com seu estilo característico a retesou novamente. Nela, agora, havia três flechas. Proteção. Ele inclinou minimamente o arco para a direita, soltou a corda. As três flechas atravessaram o espaço entre Doumeki e os meninos-lobo, enquanto um leque fazia o mesmo, no sentido contrário.

Cada uma das três flechas atingiu o coração de um dos três garotos, no exato instante que o sensu de Nokoru-kun alcançou a mão de Watanuki.

Os três caíram, e uma nuvem negra pareceu ser expulsa de seus corpos, e se dissipar.

Yuuko, Watanuki e Mokona foram verificar se os três estavam bem. Constataram que sim, estavam vivos. Olhos fechados, respiração tranqüila.

– As almas deles...

– Estão aí, Watanuki. Embora eu duvide que eles terão alguma memória de tudo isso... Não vão lembrar de nada que tenha acontecido depois da maldição. E as cicatrizes... – apontou para a cicatriz sob a manga do quimono de Nokoru-kun – ...as cicatrizes e seqüelas que surgiram depois de cada batalha dos espíritos-lobo contra os espíritos humanos, vão permanecer. No corpo, e na alma.

– E você. – Watanuki perguntou para Doumeki, que se mantinha distante. – Não quer saber o que aconteceu com eles?

– Eu sabia que não queria matá-los. Então, feri apenas os espíritos-lobo.

– Mas que excesso de confiança...

Yuuko levantou, e bateu palmas duas vezes.

– Bem! Doumeki, desfaça a barreira. Aliás, parabéns! Está perfeita!

– Está mesmo, hyu! – Mokona concordou, pulando para o colo de Watanuki. Que ainda segurava o leque.

– Não sei desfazer.

– Hahahahah, mas que incompetência, Doumeki! – Watanuki provocou.

– Pelo menos eu soube criá-la.

– Seu idiota!

– É só se concentrar para que desapareça. – Yuuko disse, sorrindo – E não se preocupe, não vão voltar todas aquelas ayakashi.

Doumeki estendeu a mão direita, e fechou os olhos. A barreira diminuiu gradativamente, rapidamente, até se apenas uma flecha de luz na mão estendida de Doumeki. E então, desaparecer quando ele fechou a mão.

Yuuko sorriu, parecendo muito satisfeita. Aquilo iria ser muito útil, em breve. Mokona voltou para perto dela.

– Bom, rapazes, agora vão para o templo de Doumeki. Deixem que eu cuido de tudo por aqui!

– Mas tem três corpos caídos no meio da rua, Yuuko-saaan!

– Hahahahahahahah, tudo bem, não se preocupem! Vejo vocês amanhã no ginásio! E leve bentou para mim, Watanuki!

E os dois foram para o templo, deixando Yuuko "cuidando" de tudo por ali. Doumeki precisava descansar, e tratar o braço dolorido de ter ficado tensionando o arco por tanto tempo. Watanuki precisava fazer o bentou, descansar, e pensar.

Sabia que sentiria falta de Nokoru-kun. Mas sabia também que agora ele estava vivo, bem, e livre.

Tudo poderia recomeçar e ficar bem. Não havia mais lobos, nem mentiras, nem ciúmes, nem medos...

Mas havia um tom vermelho nas bochechas de Watanuki quando ele viu que não sabia se estava falando de Nokoru-kun, da situação toda dos últimos dias... ou de Doumeki.


Continua


¹ Keigo é como é chamada a forma mais formal e educada de se falar japonês, considerada delicada e feminina.

Wah, mais um capítulo. E esse ficou bem maior... e eu espero que vocês tenham gostado. E esse tem free talk... o outro não tinha, pra nada amortecer a cena de suspense! 8´D (#idiota#)

Esse capítulo aqui tem o que foi a motivação número um para que eu começasse a escrever essa fic: "os poderes do Doumeki são de exorcizar e proteger. Seguindo esse caminho, e se esses poderes evoluíssem a ponto de ele poder criar uma kekkai, uma barreira mística como as de X – e, mais recentemente, de Tsubasa? Nesse caso, que formato ela teria? Se fosse em forma de flecha, ele poderia lançar com o arco..." e assim nasceu Oito Movimentos para o Disparo Perfeito! XD E aí, gostaram?

E para quem achou que eu forcei a barra depois com ele atirando as três flechas e acertando com perfeição, bem... saibam que eu concordo. Mas ficou uma imagem legal, então foda-se se eu exagerei XD O Dou-chan é bom mesmo, e daí? XD

Obrigada pelas reviews, e até fim-de-semana que vem, no oitavo e obviamente último movimento. Ele já está escrito – desde pouco depois do Natal – portanto ninguém precisa ter medo que eu não termine a história... XD