As Estranhas Faces do Amor

Capítulo 7

Jeffrey despertou cedo, sentindo um par de olhos esverdeados o observando de perto.

- Como você está? – Jared sorriu, vendo o quanto o outro lutava pra manter os olhos abertos.

- Eu... O que diabos você me deu ontem à noite? Calmante pra cavalo? Eu ainda me sinto zonzo... – Esfregava os olhos, enquanto bocejava.

Jared deu risadas – Melhor você não querer saber.

- Jensen voltou pra casa?

- Não. Eu liguei pra ele, depois que você dormiu. Disse que estava em um hotel e iria passar a noite por lá.

- Oh... – Jeffrey ficou pensativo por um instante. – Jared, as coisas não aconteceram da maneira que ele... – Passou as mãos pelo rosto sofrido, se lembrando das palavras cheias de dor do filho.

- Jeff, você não precisa falar nisso, se não quiser.

- Quando eu resolvi assumir aquele relacionamento, a primeira pessoa em que pensei e com o que me preocupei foi o Jensen. Por isso, antes de tudo, eu fui falar com a mãe dele. Eu contei a ela e pedi que me ajudasse a prepará-lo para a notícia, mas ela... Eu devia ter ido falar diretamente com ele - Suspirou. - A Sarah ficou muito brava comigo, disse que ainda tinha esperança de reatarmos o casamento, me xingou de um monte de coisas horríveis e saiu, batendo a porta na minha cara. O que eu não esperava é que ela fosse jogar tudo pra cima dele daquela maneira...

- Uau! Que tipo de mãe faz uma coisa dessas?

- As pessoas falam muita bobagem na hora da raiva, Jared.

- Oh, e você vai defendê-la agora... – O mais novo balançou a cabeça, indignado.

- Eu a respeito. Apenas isso. Querendo ou não, ela sempre será a mãe do meu filho. E ela só estava enciumada, sei lá...

- Não deixa de ser uma vaca homofóbica – Jared se levantou da cama, furioso, e foi para o chuveiro, deixando Jeffrey sozinho na cama.

Quando saiu do banheiro, com uma toalha em volta da cintura, o mais velho foi ao seu encontro e o abraçou forte.

- Não fique zangado comigo também, por favor – Jeffrey falou com o rosto encostado na curva do seu pescoço.

- Eu não estou zangado. Isso tudo nem tem nada a ver comigo, só que... Eu não consigo entender. Será que ela pelo menos tem noção do estrago que fez?

- Provavelmente não. Se eu bem conheço o Jensen, ele não deve ter dito nada a ela. Mas não adianta de nada ficar procurando um culpado, nada vai mudar o que ele passou durante todos esses anos, calado, fingindo ser o que não era. Nada vai apagar isso, Jared. – Jeffrey falava com pesar. Era doloroso demais constatar o estrago que tinha feito na vida do seu único filho.

- Eu sei. Mas talvez vocês possam consertar as coisas daqui pra frente, não é? Você precisa conversar com ele, Jeff.

- Sim, embora eu não acredite que ele queira falar comigo depois disso. Você sabe como ele é teimoso.

- Mal de família? – Jared deu risadas, provocando. – Dessa vez você terá que ser mais teimoso que ele e insistir.

- Eu só queria saber uma coisa... – Jeffrey o encarou com as sobrancelhas levantadas. - Quem te nomeou chefe por aqui?

O mais novo gargalhou. – Todo mundo sabe que sou eu quem decide tudo por aqui. E você faz tudinho o que eu quiser. – Jared segurou o rosto de Jeffrey entre as mãos, o encarando com malícia.

- É mesmo? – Franziu o cenho, contendo a vontade de atacar aqueles lábios macios que tanto amava e de jogá-lo na cama.

- Quer que eu prove? – O olhar malicioso se tornou desafiador. – Tire as calças agora e me fode até eu dizer que chega! - Falou em tom autoritário.

Jeffrey gargalhou, jogando a cabeça para trás. – Okay. Preciso admitir... Você é quem manda, baby...

- x -

Jeffrey ficou surpreso ao entrar no escritório e encontrar Jensen lá, concentrado no trabalho. Cumprimentou-o e ficou algum tempo pensando em como começar aquela conversa, quando seu filho interrompeu seus pensamentos, falando sobre o trabalho.

- Fiquei preocupado por você não ter voltado pra casa ontem à noite. – Jeffrey decidiu não deixar o momento passar.

- Sim. Eu fui para um hotel, mas como não consegui dormir, logo vim pra cá e acabei dormindo aqui mesmo. O sofá é bem confortável, até.

- Jared me falou que você tinha ido para um hotel, eu fiquei preocupado...

- Não precisava se preocupar, eu estou bem. – Jensen falava sem tirar os olhos dos papéis à sua frente.

- Jensen, eu...

- Está tudo bem, pai. Mesmo. Você não precisa me explicar nada. Só vamos esquecer aquilo, está bem? – Era sempre mais fácil fugir do que falar a respeito do que sentia.

- Nós já adiamos isso por tempo demais, filho. Eu só quero que você saiba que eu não fazia ideia do que se passava com você. E este foi o meu maior erro, um erro que não tem perdão.

- Pai...

- Eu devia saber. Como seu pai, depois da separação, eu deveria ter estado próximo, mesmo contra a vontade da sua mãe. Eu falhei com você. – Jeffrey se amaldiçoou por não ter enxergado isso antes.

- Eu não deixei que você se aproximasse, lembra? Eu vivia arranjando desculpas pra não ter que sair com você, e... Na verdade eu só queria distância daquilo tudo, e acabei te afastando cada vez mais.

- Jensen, eu sinto muito. Eu fiz tudo errado, eu... Quando eu assumi aquele relacionamento eu já estava separado da sua mãe há mais de um ano. Eu devia ter falado diretamente com você e não com ela, deveria ter te contado tudo com as minhas próprias palavras. Não imaginei que ela fosse... Bom, isso não vem ao caso agora. Eu sempre quis saber por que você tinha tanto ressentimento comigo, e agora... Sinto que não há nada que eu possa fazer pra mudar isso. Eu daria tudo pra poder voltar atrás e consertar meus erros, filho... Mas não é possível.

- Você não estava errado, pai. Só assumiu quem realmente era e no fundo eu sempre te admirei por isso. Você não teve culpa e eu sempre soube disso, mas... Culpar alguém fazia as coisas parecerem menos dolorosas pra mim, e... Como eu vivia com a minha mãe, foi mais fácil culpar você do que ela.

- Eu realmente sinto muito, filho. Queria que as coisas tivessem sido mais fáceis pra você.

- Por isso eu nunca falei sobre o assunto. Maldita hora que eu fui falar aquilo pro Jared. Ele me deixou puto, e... Acabei falando demais.

- Devo agradecer a ele por isso, então. Ou eu jamais saberia como você se sente.

- O que passou, passou, pai. Falar a respeito não vai mudar nada.

- Não. Mas depois de encarar nossos erros de frente, quem sabe nós possamos tentar melhorar as coisas daqui por diante? Quem sabe a gente possa pela primeira vez, ter uma relação de pai e filho, tentar sermos amigos, sem ressentimentos?

- Podemos tentar, não é? – Jensen mordeu o lábio inferior, os olhos banhados em lágrimas.

Não saberiam dizer quem deu o primeiro passo, mas o abraço que se seguiu, emocionado, selou aquele acordo e acalmou seus corações, tão machucados pelos acontecimentos.

Pai e filho trabalharam duro nos dias que se seguiram, e realmente algo tinha mudado. Jensen parecia mais leve, as provocações tinham diminuído, pelo menos quando se tratava de Jeffrey.

No sábado, o loiro saiu com os amigos. Jared e Jeffrey aproveitavam o momento a sós, na beira da piscina.

- A água está numa temperatura deliciosa. Por que você não vem me fazer companhia? – Jared parou na beirada da piscina, enquanto Jeffrey lia uma revista, sentado na espreguiçadeira.

- Prefiro ficar apenas admirando a vista – O mais velho sorriu, pegando uma toalha para Jared se secar.

- Não sabe o que está perdendo – Saiu da água e deixou o outro envolver seu corpo com a toalha macia.

- Jensen falou que não volta hoje, não é mesmo? – Jeffrey empurrou Jared gentilmente para que se deitasse na espreguiçadeira.

- Falou – Jared sorriu em expectativa. – Por quê? Você está tramando alguma coisa?

Jeffrey se deitou sobre o corpo úmido do outro, beijando e lambendo as gotas de água do seu peito e pescoço.

- Só pretendo ajuda-lo a se aquecer um pouquinho. Não quero que você tenha uma crise de hipotermia...

- x -

Jensen tinha programado passar o final de semana com os amigos em Nova Jersey, mas devido a alguns aborrecimentos, acabou mudando de ideia e voltou para casa ainda no final da tarde de sábado.

Entrou em casa e, ao não encontrar ninguém na sala, subiu diretamente para o seu quarto, pensando em descansar um pouco.

Ia fechar as cortinas do quarto, quando olhou para fora e se deparou com seu pai e Jared em uma cena muito íntima. Sua primeira reação foi desviar o olhar, mas a curiosidade falou mais alto e, mesmo sabendo o quanto aquilo era patético e vergonhoso, continuou os observando, sem que eles sequer imaginassem.

Jared estava deitado em uma das espreguiçadeiras, completamente nu, e Jeffrey estava inclinado sobre ele, beijando e acariciando seu corpo.

Jensen queria sair dali, mas sentia-se hipnotizado ao ver Jared com os lábios entreabertos, os olhos fechados e uma expressão de puro prazer no rosto, enquanto tinha seu membro sendo chupado.

Mal podia ouvir seus gemidos, mas a maneira como ele arqueava as costas... Aquela visão fez o membro de Jensen ficar duro e o trouxe de volta à realidade. Jogou-se na cama, chorando desesperadamente. O que estava fazendo, afinal? Jared era o namorado do seu pai, como podia deseja-lo daquela maneira?

Estava errado. Estava tudo muito errado.

Levantou-se da cama, tentando preservar o restinho de dignidade que ainda tinha, afinal, sentia-se a pior criatura do planeta. Era cruel ter que admitir para si mesmo o quanto invejava o seu pai. O quanto queria estar no lugar dele naquele momento. Precisava tirar Jared da sua cabeça, mas como?

Saiu do quarto correndo, antes que alguém percebesse a sua presença na casa. Entrou em seu carro e dirigiu sem rumo por quase uma hora, então parou em uma rua deserta qualquer, e se permitiu chorar, com a testa encostada no volante do carro.

A confusão de sentimentos parecia querer rasgar seu peito. O desejo que sentia por Jared, o medo, a culpa... Quando finalmente, depois de tantos anos, tinha conseguido se acertar com seu pai, ou pelo menos melhorar a convivência com ele, o universo parecia estar conspirando contra ele.

Jensen estava ciente de que era um homem bonito, inteligente, desejado... Praticamente podia ter quem quisesse, a hora que quisesse em sua cama. Por que tinha que se apaixonar pela única pessoa que não estava ao seu alcance?

Paixão? Não sabia definir o que sentia a respeito de Jared. Não era apenas atração, ou algo sexual, era algo muito maior. Gostava de ficar na companhia dele, de ter sua atenção, de ouvi-lo falar, das suas risadas... Quantas vezes já tinha flagrado a si mesmo apenas o observando, com um sorriso bobo no rosto? Ou achado qualquer motivo para ligar pra casa, apenas para ouvir sua voz?

Precisava urgentemente sair daquela casa. A proximidade com Jared era algo muito perigoso. Mas ao mesmo tempo, não conseguia mais se imaginar vivendo longe do moreno. As manhãs seriam vazias demais sem a presença dele na cozinha, tagarelando o tempo todo enquanto tomava o café. Sua vida seria um completo vazio sem ele. Mesmo sabendo que os olhares, sorrisos, e os toques dele eram direcionados para o seu pai, presenciar aquilo era menos doloroso do que a sua ausência.

Jensen voltou a ligar o carro e dirigiu até o centro da cidade, entrando no primeiro bar que encontrou. Pediu uma garrafa de uísque e ficou ali, bebendo sozinho, esperando que a bebida pudesse amenizar um pouco a dor e o desespero que estava sentindo.

Já era madrugada quando voltou para casa. Tropeçou nas próprias pernas ao entrar na sala, derrubando alguma coisa que não conseguiu identificar.

- Jensen, você está bem? – A voz preocupada de Jared o pegou de surpresa.

- Tinha que ser você – Jensen deu risadas e deixou seu corpo cair sobre o sofá. – Eu devo estar pagando pelos meus pecados. – Continuou rindo e Jared franziu o cenho sem entender nada.

- Quer ajuda pra ir até o seu quarto?

- Não. Eu não preciso de babá. Só quero ficar aqui... – O loiro falava com a língua enrolada. – Você não devia estar dormindo? – Se ajeitou no sofá, deitando e puxando uma almofada pra debaixo da cabeça.

- Eu desci pra pegar água e escutei você tropeçar. Tem certeza que está bem?

- Bem? – Jensen riu novamente. – Estou muito longe de estar bem, Jared.

- Você está machucado? – Jared se ajoelhou no tapete em frente ao sofá, ficando bem próximo para examinar o loiro. - Está sentindo alguma coisa ou é só efeito da bebedeira?

- Estou sentindo... – Jensen olhou bem dentro dos olhos do moreno e segurou seu rosto com as duas mãos. – Que a vida é injusta demais, Jared.

- Do que você está falando? – Jared fez menção de se afastar, mas Jensen o manteve no lugar.

- É injusto que o sabor dos seus lábios – Jensen deslizou o polegar pelo lábio inferior do moreno - da sua pele, que os seus sorrisos e o seu coração, sejam todos do meu pai.

- Jensen... – Jared tentou dizer alguma coisa, mas teve os seus lábios tomados num beijo desesperado. Correspondeu por um breve momento e então se deu conta do que estava fazendo, se afastando bruscamente do loiro. – Que merda você está fazendo? – Jared se sentiu desnorteado, ficou de pé e passou a mão pelos cabelos, nervoso, com a respiração ofegante.

- Desculpe. – Jensen se sentou no sofá, tentando recuperar a sanidade. – Eu precisava... Eu... Eu estou apaixonado por você, Jared.

- O quê? – O moreno não conseguiu esconder a surpresa. – Olha Jensen, é melhor você ir dormir. Você bebeu demais e está confundindo as coisas.

- É, eu bebi demais. Mas nunca tive tanta certeza do que eu sinto como hoje. Isso é patético, não é? Amar o homem que é do meu pai? – O loiro forçou uma risada. - Só agora eu entendi por que sempre quis te afastar de mim... Era medo. Medo do que a sua proximidade me causava.

- E-eu vou dormir... Você deveria fazer o mesmo. – Jared saiu praticamente correndo em direção às escadas. Entrou no quarto e se enfiou embaixo do edredon, envolvendo seus braços ao redor do corpo do seu namorado adormecido. Jensen só podia estar ficando louco – pensou. Provavelmente estava bêbado demais para pensar qualquer coisa coerente. "Eu precisava... Eu... Eu estou apaixonado por você, Jared" As palavras do loiro ainda ecoavam em sua cabeça. Não, aquilo não podia ser verdade. Quando tudo parecia estar se acertando, quando finalmente Jeffrey estava feliz por estar de bem com o filho, Jensen aparecia com uma bomba dessas?

Ao mesmo tempo em que Jared não queria mais pensar sobre o assunto, de repente algumas coisas passaram a fazer sentido. As implicâncias de Jensen, sem nenhum motivo aparente, os olhares que sempre tentara ignorar, achando que era provocação do loiro... Não. Definitivamente não podia ser verdade. Devia ser mais alguma brincadeira sem graça de Jensen. Mas por que aquilo o estava incomodando tanto?

- Hey. – A voz rouca e sonolenta de Jeffrey arrancou Jared dos seus devaneios. – Está tudo bem?

- Hey. – Jared sorriu e deu um selinho nos lábios do namorado. – Sim, estou bem.

- Ok. Então vamos voltar a dormir.

- Jeff?

- Humm?

- Me abraça? – Jared se virou de costas e puxou o braço do mais velho sobre si.

- Claro. – Mesmo sem entender nada, Jeffrey o envolveu com seus braços e beijou seu pescoço, com carinho.

Continua...


Resposta às reviews sem login:

Gabi: Okay! Continuando...

Luna: Olá! Seja bem vinda! Não pretendo parar, pois adoro escrever. Fico feliz em saber que tenha gostado! Obrigada por ler e comentar!

Perola: Oi linda! Realmente, acho que se for para culpar alguém, seria a mãe do Jensen, por dizer aquelas palavras sem saber que estava atingindo diretamente o próprio filho. Concordo que Jared esteja errado ao dizer que a vida é feita de escolhas, sabemos que nem sempre temos escolha, mas de qualquer forma, grande parte dos nossos erros são causados por escolhas ruins. Obrigada pelo seu comentário, querida! Love you, too!

Luluzinha: Olá! Então, Jeffrey realmente não é culpado, mas ele se sente responsável de qualquer maneira, né? É uma situação complicada, tanto para o pai, como para o filho. Jared está dando um empurrãozinho e ajudando a reaproximá-los. Mas talvez a proximidade com Jensen seja algo perigoso... rsrs. Vamos ver! Beijokas e obrigada por comentar!