FOI-SE A METADE

A cada vela que acendíamos do menorah, eu pedia fervorosamente que Finn Hudson pudesse voltar a namorar comigo. Mas confesso que a força da minha prece era menos intensa a cada dia. Santana cumpriu o que prometeu no banheiro e não mexeu mais com ele. Foi muito difícil admitir que Finn continuou a flertar mesmo assim. Sempre que ela passava o ignorando, ele se virava, checava o traseiro e ficava com aquele sorriso de lado que era característico. Depois dizia que se importava comigo apesar de tudo. Aquilo estava me matando. Eu mal conseguia encarar a minha irmã na volta para casa com o olhar de "eu te avisei" escancarado. Será que era tão errado assim ter um pouco de esperança em retomar tudo que tínhamos de bom?

"Rachel, querida" – Kurt disse ao telefone – "o que você pensaria se Jewfro te deixasse em paz?"

"Acho que primeiro eu nem repararia, depois acho eu ia estranhar... ei! Entendi!" – traduzindo: se começasse a ignorar Finn, ele olharia para mim como Rachel. Não como a garota desesperada que grudou no pé dele.

"Esse é o mesmo conselho que Blaine me deu com uma freqüência considerável quando cheguei aqui: se esforce menos. Santana está na dela e que não quer nada com Finn, certo? Significa que você tem tempo para desenvolver a estratégia. Não atropele as coisas, querida!"

Kurt não sabia lidar muito bem com os próprios problemas. Ele era apaixonado por Blaine, estudava com ele, mas não sabia como se iniciar esse tipo de conversa. Mas na hora de aconselhar outras pessoas, era incrível, por mais contraditório que fosse. Senti mais confiante depois que falei com Kurt. Uma pena que a gente só tenha se tornado mais próximos, a ponto de trocar algumas confidências, quando ele saiu na nossa escola. Seria bom tê-lo por perto, mesmo sendo o meu maior adversário em potencial vocal nas Novas Direções. Era bom ter algum amigo que não fosse meu namorado para variar.

Estava a caminho do último ensaio do coral da semana. Por hora, estávamos testando algumas canções para que a gente pudesse chegar mais fortes e organizados até as regionais. Aprendemos a lição no ano passado: talento e coração não eram suficientes. Para vencer as regionais, e mais ainda se a gente quisesse chegar bem às nacionais, teríamos de estudar os corais adversários, identificar fraquezas e virtudes e tentar montar uma apresentação onde nossas maiores qualidades pudessem ser ressaltadas e, ao mesmo tempo, mostrar uma melhor solução para as falhas dos outros.

Ensaiamos essa estratégia em "Valerie" com a dança de Brittany e Mike. Não vou analisar a balada de Quinn e Sam porque a desconsidero. Prefiro estudar "Valerie", que em minha opinião, e também na de Santana, foi a que contou. Santana não tem técnica de canto, mas ela teve personalidade, agressividade (não que ela tivesse qualquer problema com a parte da agressividade), e foi instintiva. Minha irmã tem voz potente e um timbre diferenciado, mas precisa domar alguns engasgos e vibratos. Uma pena que seja tão difícil convencê-la a ir à uma aula de canto que tenho todos os sábados de manhã logo após o balé. Ela também precisa deixar de ser preguiçosa e fazer melhor os exercícios técnicos que o professor Schue nos passa. Não são ideais, mas ajudam.

A coreografia de Brittany e Mike foi espetacular, mas tirou um pouco da unidade, um quesito que vale pontos na avaliação técnica. Nossos passos não ficaram bem sincronizados e eu esbarrei duas vezes em Laurie. Ninguém poderia exigir coisa alguma dela naquela ocasião porque ela caiu de pára-quedas no coral para salvar a nossa pele. Mas agora, se ela quiser ficar, vai ter de suar a camisa. Os vocais de apoio estavam ótimos, no entanto. Harmonizaram muito bem com o timbre "Winehouse" de Santana.

"Acho que você está exagerando, Rachel" – professor Schue me repreendeu novamente. Por alguma razão, esse tipo de coisa está perdendo o efeito – "Novas Direções não foi montado para ser uma máquina como o Vocal Adrenalina. O nosso grupo é sinônimo de coração, de alma. Nós estamos aqui, sobretudo, para nos divertirmos, para colocar os nossos corações na arte da música. Dar vazão aos inúmeros talentos que temos aqui."

"Manter corais competitivos é caro para as escolas, professor Schue. Auditório, banda, profissionais de iluminação, engenharia de som, figurino... uma coisa a treinadora Sue tem razão: se a gente não joga para vencer, então qual o ponto? Seria melhor transformar o coral numa mera atividade de recreação. Mudar de mentalidade não significa perder o coração, ou nossa alma."

"Estou com a smurfete" – Santana disse enquanto lixava as unhas. Típico!

"Agora o mundo vai cair!" – Mercedes disparou e recebeu um "high five" de Quinn.

"Fica parecendo aquela vez que a gente passou dias ensaiando "The Rocky Horror Show" para, nos final, apresentarmos o espetáculo para nós mesmos e a senhora Pillsburry" – Mike também deu opinião, o que era incrível – "Vão me taxar de maluco, mas estou com Rachel e Santana: um pouco mais de produção e cuidado não vai tirar o que temos de melhor".

"Eu não entrei aqui para enfrentar a mesma pressão do time de futebol" – Sam retrucou.

"Professor Schue" – era Tina – "o senhor mesmo vive promovendo competições entre nós. De duetos, meninos contra as meninas... o senhor sempre joga para ganhar."

"Competições servem para manter o time motivado" – Finn falou em tom de liderança – "E nós sempre nos viramos bem com o improviso."

"Sim, sempre nos demos bem diante de jurados estranhos e pouco qualificados" – rebati – "No momento em que uma cantora profissional, atriz de musicais, esteve no júri, nós perdermos. E Verdade seja dita, vocês não estavam lá para saber, mas o Vocal Adrenalina foi épico".

"Nós vamos chegar a algum lugar?" – Artie ergueu os ombros.

"Eu nem sabia que a gente estava andando!" – eu ameacei rir de Brittany, mas Santana, que estava logo atrás de mim, chutou a minha cadeira. Não foi nada discreta.

Por fim, o grupo ficou dividido e o professor Schue decidiu (que surpresa!) promover uma nova competição como forma nos fazer enxergar as vantagens e defeitos tanto de um ponto quanto de outro para termos uma melhor avaliação. Eu, Santana, Mike, Tina e Puck teríamos de planejar um número onde o foco principal seria técnica e produção. Quinn, Finn, Sam, Mercedes, Brittany e Artie fariam outro com foco no improviso. Laurie, senhora Pillsburry e um "convidado especial" iriam julgar e o grupo vencedor seria diretamente responsável pelos números das regionais.

"Temos de ser épicos e para isso temos de escolher uma música igualmente épica" – disse enquanto ajudava meus pais a colocar as malas no carro. Eles estavam nos esperando chegar da escola para que pudéssemos pegar a estrada para Cleveland passar o último dia do hanukkah com meus avós.

"No que você pensou?" – papai era quem mais gostava de escutar as minhas idéias para o coral.

""Champagne Supernova", do Oasis. Todos vão esperar que façamos algo mais Broadway... mas se ao contrário a gente provar que consegue fazer uma apresentação visceral e, ao mesmo tempo, tecnicamente perfeita, as regionais vão ficar em nossas mãos."

"Eu gosto de Oasis" – Santana vestiu o casaco de frio e ficou de pé diante porta da esquerda do banco de trás do carro. Era sempre assim quando viajávamos juntos: ela se sentava no lado esquerdo e eu no direito do banco de trás – "a música é ótima, mas se você pensa em algo assim, não acha mais legal fazer Radiohead?"

"Só porque você gosta mais deles do que do Oasis."

"O olho caolho do Thom Yorke é sexy."

"Eu NÃO ouvi isso!" – meus pais reclamaram ao mesmo tempo.

"Acho que a gente deveria considerar também "It's Oh So Quiet", da Bjork. Ficaria bem na sua voz. É jazz, indie e épico ao mesmo tempo. E não é Broadway."

"Desde quando você pesquisa música indie?"

"Há muitas coisas que você não sabe ao meu respeito, Rachel."

"Vocês nunca pensam em Carlos Santana ou algo em espanhol?" – meu pai reclamou fechando o porta-malas.

...

O Hanukkah na casa dos Berry não costumava mudar ao longo dos anos. Zaide aproveitava a presença do meu pai para garantir consultas médicas gratuitas. Há algum tempo que ele sofria de diabetes, que era um foco de interesse nas pesquisas do meu pai. Operar diabéticos era mais delicado e arriscado do que uma pessoa sem a doença. Ele, como cirurgião geral, queria descobrir uma forma de promover a cicatrização mais rápida em um diabético. Zaide tinha plena consciência do trabalho do meu pai e por isso mesmo se aproveitava: mostrava todos os exames que tinha feito recentemente, pedia para medir a pressão e falar de prognósticos. Zaide achava que ia morrer a qualquer instante de algum mal súbito. Meu pai não reclamava dessa parte. Os dois se bicavam quando zaide insinuava que Santana deveria assumir os negócios, virar uma empresária. Papai também não gostava da pressão. Ele sofreu a mesma coisa quando jovem e não desejava o mesmo para a filha dele.

Acho que Santana não se importava tanto assim. Ela tinha muita paciência para lidar com zaide, mais até do que com Brittany. Os dois falavam a linguagem dos números, algo que nem eu e nem meus pais conseguíamos acompanhar. Santana era capaz de resolver uma equação matemática de cabeça ao passo que eu ainda tinha de contar os dedos. E eu era boa aluna. Acho que por isso mesmo que minha irmã permitia que zaide a azucrinasse com o assunto das fábricas, em ela ir para uma escola preparatória e tentasse entrar em Harvard. Aliás, esse era o sonho maior de zaide: Harvard. Ele não pôde freqüentar uma universidade por ser pobre e ficou frustrado por papai entrar na OSU para fazer Biologia (com especialização em Botânica). Zaide sabia muito bem que eu não tinha a menor vontade ou talento pra ser empresária. Sobrou para Santana: o gênio da família quando falávamos de Matemática. Ele dizia abertamente que pagaria todos os estudos da minha irmã caso ela passasse em Harvard para fazer a Faculdade de Negócios. Meu pai ficava irritado sempre que isso era insinuado e papai... bom, ele ignorava.

Bubbee não participava desta ou qualquer outra discussão que envolvesse o futuro de Santana ou o meu. Ficava sempre quieta, meio desinteressada. Uma imagem forte que tinha de bubbee era da quase general nos cuidados da casa. Ela comandava o trabalho das empregadas de perto e costumava estressar com a cozinheira. Mas havia o lado da música que nos aproximava. Bubbee era dona de uma coleção impressionante de músicas clássicas, de partituras e a biblioteca de autores judeus. No meio da biblioteca da casa ficava o imponente piano steinway de calda preto que ela tocava à perfeição.

Mesmo com esses poréns, celebrar o último dia do hanukkah com meus avós era sagrado. Papai, zaide e Santana colocavam os kipá. As mulheres judias não precisam do pequeno chapéu redondo que era um lembrete de que deus estava acima de nós, mas Santana passou a usar porque foi uma determinação do próprio rabi Amnon. Numa das traquinagens dela foi flagrada por papai e rabi antes de conseguir concluir a arte. Rabi tinha a repreendido e ela prometeu vingança e estava planejando subtrair as cuecas dele durante uma recepção e ia fazer uma fogueira. Papai ficou furioso e mortificado de vergonha. Rabi disse que Santana deveria usar o kipá pelo resto da vida, como os homens, porque o pecado do orgulho era forte nela, então precisava se lembrar que a humildade era mais importante.

Rezávamos à mesa, bubbee pedia para que eu a acompanhasse nas canções e nossas vozes harmonizavam bem. Acendíamos a última vela do menorah e então ceávamos: um banquete e tanto para nós seis. Depois trocávamos presentes, em geral pequenas jóias ou lembranças com motivos judaicos.

Aproveitávamos para passar o fim de semana em Cleveland, curtindo o que a cidade oferecia de melhor. Era a minha oportunidade de assistir a uma peça de teatro decente, já que Lima era fraca nesse sentido. Meus pais, zaide e Santana iam ao estádio para ver algum jogo do Cleveland Browns e voltavam com aquelas camisetas pretas e laranjadas com a estampa de um bulldog ou de um capacete com uma listra no meio. Às vezes eu ia ao estádio, mas preferia fazer companhia a bubbee. Ela tocava o piano e eu cantava clássicos da Broadway. Era um momento que ela se abria para mim e a gente se divertia dessa maneira. Nada foi diferente em nosso hanukkah: celebramos a data, curtimos nossos avós e a cidade e fomos embora no domingo no início da noite.

...

Cheguei animada para reunir o meu grupo do coral para apresentar minhas propostas. Tinha pesquisado algumas coisas na internet como alguns dos novos musicais inspirados em bandas de rock, clipes do Oasis, figurinos, possíveis arranjos para aproveitar as cinco vozes. Mostraria ao professor Schue que poderíamos ser épicos e tecnicamente perfeitos sem perder o coração. Mas primeiro, teria de esperar a aula de cálculo.

"Santana e Rachel" – a senhora Pillsbury interrompeu a aula – "vocês poderiam pegar as suas coisas e me acompanhar?"

Meu coração disparou. Olhei para Santana duas cadeiras atrás e ela tinha perdido a cor. Olhei para os outros estudantes da nossa turma. Quinn e Mercedes estavam com a testa franzida, pareciam preocupadas. Segurei na mão da minha irmã e ela estava gelada.

"Sabe o que aconteceu?" – sussurrei para Santana, mas ela me fez sinal negativo.

A senhora Pillsbury nos acompanhou até os armários e pediu para que guardássemos tudo. A essa altura, estava prestes a vomitar no meio do corredor de ansiedade causada por aquela atitude. O rosto da nossa orientadora não era dos melhores.

"Senhora Pillsbury, você poderia dizer o que está acontecendo?" – minha voz foi quase um sussurro.

"Ligaram do hospital para a escola e pediram para que levássemos as duas até lá" – me apoiei em Santana porque as minhas pernas estavam bambas.

"Pelo amor de deus, o que aconteceu?" – lágrimas já corriam nos nossos rostos.

"Será que a gente poderia..."

"Não!" – Santana segurou o braço dela com força – "Só diga o que sabe ou eu não sei se vou conseguir dar dois passos além."

"Houve um acidente... com o pai de vocês, Hiram. Eu não sei de mais detalhes, meninas, juro. O que sei é que o seu outro pai, o dr. Lopez, está neste momento na sala de cirurgia..."

Não ouvi mais nada. Tudo ficou escuro.

...

Hiram Joel Berry-Lopez nasceu em 14 de agosto de 1962 em Nova York. Era filho de Sarah e Joel Berry: um casal de judeus pobres que venceu na vida a base de muito suor. Fez high school em Cleveland, Ohio, época em que se descobriu homossexual e teve o primeiro namorado. Mas precisou esconder sua sexualidade dentro de casa porque Joel Berry era um conhecido homofóbico. Contrariando a vontade do rigoroso pai, dono de pequenas fábricas de tecido, cursou Biologia em Ohio State University. Papai contava que o dia que saiu de casa para ir morar num dormitório da OSU foi um dos dias mais felizes da juventude dele. Foi como se os pulmões dele se enchessem de liberdade.

Foi em OSU que conheceu o estudante de medicina Juan Lopez durante uma festa de uma amiga em comum. Juan era ex-jogador de futebol americano que por três temporadas defendeu as cores dos Buckeyes para depois abandonar a carreira esportiva em favor da Medicina. Os dois disseram que foi à segunda vista. A primeira não foi agradável. Hiram, meio bêbado, tentou beijar Juan, que retribuiu com um soco no nariz. Eventualmente eles ficaram amigos. Um ano depois, na festa da mesma amiga que antecedia a formatura de Hiram, os dois se beijaram e, dessa vez, sem necessidade de correr para o hospital.

Ao contrário da expectativa geral, não houve dramas por parte da família Lopez quando Juan apresentou o namorado. Houve sim, um grande choque porque o ex-atleta e futuro médico cirurgião só tinha tido relacionamentos com mulheres até Hiram. Apenas tia Maria foi publicamente contra e demorou a aceitar a nova realidade do irmão mais moço. Quanto aos demais, o drama foi minimizado tão logo o amável biólogo judeu foi conquistando espaço.

O drama de verdade aconteceu entre os Berry. Joel rejeitou o filho único por anos. Hiram ainda tinha contato com a mãe, mas com certas ressalvas. Sarah não queria perder o filho ao mesmo tempo em que rejeitava o companheiro dele. Mãe e filho também ficaram muito tempo sem se verem, mas ainda mantinham contato por telefone.

Hiram e Juan realizaram um casamento simbólico em Lima testemunhado por poucos amigos e os Lopez. Na época, Juan era residente no hospital e Hiram passava por alguns apuros para manter o emprego de professor na Community College. Mas eles superaram os obstáculos e passaram a ter uma boa vida juntos. Um dia chegou a necessidade de formar uma família só deles, com filhos. Procuraram por uma doadora enquanto economizavam dinheiro para pagar a barriga de aluguel e todo o tratamento de fecundação. Encontraram a jovem Shelby Corcoran num catálogo de uma clínica e entraram em contato. Shelby aceitou doar dos óvulos e gerar o filho do casal por um dinheiro que seria suficiente para ela tentar a sorte na Broadway com segurança por três bons anos, no mínimo. Acabou gerando dois, ou melhor, duas garotinhas: eu, Rachel Berry-Lopez, e minha irmã, Santana Berry-Lopez.

Nosso nascimento foi muito comemorado entre os Lopez e ainda promoveu a reaproximação de Hiram com os pais. Desde então, formamos uma família não-convencional muito feliz. A estabilidade do relacionamento dos meus pais sempre foi um porto seguro para todas as crises que eu e minha irmã passamos típicas ou não da nossa idade. Mas a magia foi quebrada às vésperas do nosso 17° aniversário.

Aquele dia começou como qualquer outro: exercícios, banho, arrumar apara ir à escola. No café da manhã, meu pai comeu ovos mexidos, eu e papai fomos de salada de frutas, e Santana comeu cereal favorito dela com leite e bananas. Comíamos enquanto conversávamos sobre a agenda do dia. Eu e Santana tínhamos escola e fomos as primeiras a sair de casa. Meu pai só deveria voltar ao hospital no início da noite. Papai tinha mencionado uma chácara que ele visitaria como parte de um trabalho de consultoria que ele estava desenvolvendo em paralelo às aulas na Community College. Era um belo dinheiro extra, ele dizia. Santana e eu nos despedimos dos nossos pais com a rotineira bitoca nos lábios.

Hiram Berry-Lopez, papai, se despediu do marido com um carinhoso beijo na boca prometendo chegar pouco depois do almoço. Saiu do perímetro urbano de Lima e pegou a rodovia estadual. Dizem testemunhas que um dos pneus estourou. O carro descontrolou e capotou várias vezes depois de cair em uma pequena ribanceira.

Enquanto os paramédicos comunicavam o hospital mais próximo (o de Lima), meu pai, dr. Juan Lopez, foi avisado sobre o acidente. Ele decidiu correr para lá e fazer alguma coisa. Preferiu trabalhar para salvá-lo a simplesmente esperar desesperado no corredor. Os dois chegaram ao local praticamente juntos. Papai tinha múltiplas fraturas e sangramento interno e meu pai foi o homem a tentar concertá-lo. Ele ficou mais de cinco horas lutando pela vida do marido em cima da mesa cirúrgica. Enquanto isso, uma enfermeira ligou do hospital para a escola para avisar.

Desmaiei quando soube do acidente. Foi rápido, mas a senhora Pillsbury e a treinadora Sue, que observava a cena e correu para ajudar, consideraram me fazer ficar na enfermaria da escola e, por tabela, forçar Santana a também permanecer.

"Ela vai" – Santana disse firme, desafiadora, sendo que por dentro poderia ter um colapso nervoso a qualquer segundo – "É o nosso pai, treinadora! Vai ser muito pior se você nos obrigar a ficar aqui."

As cenas ficaram confusas em minha mente. Lembro de Santana gritando no corredor com as duas professoras e me sustentando em pé ao mesmo tempo. Lembro de alguns alunos no corredor que saíram da sala e passaram a assistir o drama. Lembro de Santana ganhar a briga e começarmos a andar em direção ao estacionamento. Em vez do nosso carro, a senhora Pillsbury nos levou até o hospital no dela porque sabiamente não confiaria em Santana no trânsito naquele estado emocional.

Assim que a recepcionista nos viu, pediu para que entrássemos na sala de espera privativa do centro cirúrgico. Não era um procedimento encaminhar parentes ao espaço em questão, mas tivemos esse privilégio por sermos filhas do chefe cirurgião e, àquela altura, todos os funcionários mais bem articulados já estavam cientes do que acontecera.

Eu estava tonta, com náuseas. Permaneci não sei por quanto tempo sentada no sofá aparada no corpo da minha irmã. Santana tinha os braços sobre meus ombros, me protegendo e consolando ao mesmo tempo. Na poltrona ao lado, a senhora Pillsbury parecia uma secretária e se levantava de tempos em tempos para falar baixinho com alguém em um dos três celulares: o meu, o de Santana e o dela. Um médico residente, aluno de meu pai, chegou para nos dar alguma notícia e aproveitar para conferir nosso estado de saúde. Eu mal conseguia respirar.

"O pai de vocês conseguiu deter o sangramento interno e estabilizá-lo" – eu estava meio zonza, ainda assim capturei o tom de admiração, como se meu pai tivesse operado um milagre. Enquanto isso, ele verificava a minha pressão e ouvia meus batimentos cardíacos – "ele está lá na sala iniciando os procedimentos finais da cirurgia..." – e olhou para a Pillsbury – "o outro pai das meninas, o paciente, precisa de doadores de sangue. Uma vergonha que o estoque do hospital esteja baixo. Se for possível convocar a família e amigos..."

"Eu vou doar!" – Santana logo se prontificou.

"Você não deve por causa do peso" – o médico advertiu – "e mesmo assim não adiantaria porque fui informado que o tipo sanguíneo de vocês duas é do tipo B+. O pai de vocês é do tipo O+."

"O meu sangue é O+" – senhora Pillsbury se prontificou – "eu posso doar e aviso outras pessoas para fazerem o mesmo."

"Obrigada!" – minha voz saiu um sussurro.

"E quanto a você, Rachel" – o médico colocou a mão no meu rosto – "vou te colocar na enfermaria. Você precisa tomar um soro com um medicamento para aliviar esse mal-estar.

"Não!" – respondi firme – "você traz o soro e o remédio que eu tomo... mas vou ficar aqui."

"Bobagem. Nós vamos mantê-las informadas aqui ou na enfermaria da mesma maneira. Você não vai naquelas lá de baixo, se é o que está pensando. É uma aqui deste andar."

"Ray..."

"Ok. Pode ser" – as minhas pernas já não me respondiam mesmo!

Senhora Pillsbury informou que havia algumas pessoas aguardando notícias no hall do hospital, a três andares abaixo do nosso, e que nossos amigos do coral já estavam cientes e a caminho. Santana mandou dizer para ninguém ir até o hospital. Ela conversou com o professor Schue pelo telefone e agradeceu, mas que preferia só a família. Eu concordei. Soubemos depois que algumas pessoas do coral, alunos de papai e colegas de trabalho vieram doar sangue e esperar por notícias, mesmo que a gente não estivesse disposta a vê-los. Achei comovente.

"Você acha que ele vai conseguir?" – perguntei a Santana.

"Papai que não se atreva a nos deixar" – ela brincou e apertou a minha mão – "Eu ficaria em desvantagem na disputa pela televisão".

Meu pai apareceu na enfermaria ainda com a touca cirúrgica. Ele estava exausto e arrasado. Cumprimentou a senhora Pillsbury e agradeceu por ela estar conosco todo esse tempo. Abraçou Santana primeiro, me abraçou com certo cuidado por causa do soro para em seguida sentar-se pesadamente na cadeira.

"Hiram chegou..." – deu uma pausa como se tivesse de se lembrar das palavras. Santana e eu começamos a chorar mais forte – "em péssimo estado. Eu consegui estabilizá-lo, e as máquinas agora estão fazendo o trabalho delas para sustentar a vida dele, mas vai ser uma luta muito difícil!"

Meu pai quebrou bem na nossa frente. Foi comovente e assustador ao mesmo tempo. Ele era o tipo do homem que não se permitia extravasar emoções na nossa frente. Sim, eu já o tinha visto chorar, mas lágrimas discretas e olhos marejados. Nunca o choro aberto e desesperado. Santana o abraçou e chorou junto. Eu não conseguia chegar até eles por causa do maldito soro. Tirei a agulha do meu braço e me uni aos dois.

...

Senhora Pillsbury teve a gentileza de nos levar até em casa no meio da tarde, quando a gente pôde tomar um banho rápido e trocar de roupa. Meu pai tinha dito que deveríamos ficar em casa, mas nós iríamos dar ouvidos. Santana trocou o uniforme por uma calça jeans, tênis e camiseta, além do casaco de frio. Eu também troquei o meu vestido por uma roupa semelhante.

"Meninas?"

A voz feminina que nos chamou no andar de baixo definitivamente não era da senhora Pillsbury. Das escadas vi a mulher mais alta, cabelos negros, segurando no colo um bebê loirinho de meses de vida. Shelby e Beth.

"O quê..." – estava confusa. Santana veio logo atrás.

"Juan me ligou e pediu para que eu viesse para cá. Tenho ordens expressas de segurar as duas aqui e vou cumpri-las custe o que custar. Juan disse que não há necessidade de vocês voltarem para o hospital porque Hiram não pode receber visitas na UTI de qualquer maneira" – e voltou-se para a senhora Pillsbury – "Emma, não tenho como agradecer por toda a assistência e apoio. As meninas estão em boas mãos agora e se você não se importa..."

"Tudo bem. Rachel..." – ela me abraçou e me beijou no topo da minha cabeça – "estarei disponível para o que precisar" – e abraçou Santana com igual carinho antes de ir embora. Para em seguida voltar de repente – "quase ia me esquecendo..." – tirou da bolsa nossos celulares e os colocou em cima da mesa da sala. Agradecemos mais uma vez.

Beth estava linda. A semelhança que ela tinha de Quinn era notável. Estava em roupas quentes por causa do inverno que já se fazia presente e olhava para todas as direções, curiosa com o novo ambiente. Logo ficou inquieta e Shelby a colocou no carpete para que engatinhasse um pouco. Aproveitou o momento para romper o silêncio estranho.

"Depois que Juan me telefonou, vim para cá o mais rápido que pude. Mas sempre que vou sair com Beth, preciso arrumar uma mala antes" – de fato, havia uma sacola de bebê enorme em cima do sofá – "senti a falta de vocês."

"Obrigada Corcoran, mas eu acho que eu preferia ir para o hospital dar apoio ao meu pai"

"Estou com Santana!"

"Ok, vamos esclarecer algumas coisas aqui. Em primeiro lugar, nada de 'Corcoran'. É 'mãe' para vocês. No máximo 'Shelby'" – ela passou a mão pelos cabelos e continuou – "Vocês têm que ser um pouco racionais aqui: Juan está neste momento cuidando do pai de vocês. Ele está concentrado toda a energia e o coração dele nisso. Daí vocês aparecem no hospital e aí? Ele vai ficar preocupado com as duas e também com Hiram. Isso não vai ajudar em nada, muito pelo contrário. O melhor que podem fazer é ficarem aqui, comer alguma coisa e rezar pelo pai de vocês."

"Mas..." – Santana tentou contra-argumentar, apenas para ver Shelby com o dedo estendido e uma expressão repressora.

"Não apenas eu sou a adulta aqui, como também sou a sua mãe. Independente da nossa história prévia, você vai me obedecer agora".

Santana suspirou e se resignou. Shelby também relaxou um pouco mais. Eu aproveitei para abraçá-la brevemente. Apesar de tudo, estava grata por Shelby ter aparecido no momento em que mais precisávamos. Santana preferiu sentar-se no carpete para brincar com Beth, nos ignorando.

"Está com fome?" – ela me perguntou.

"Não... eu... nem sei o que fazer."

"Manter a mente ocupada faz bem. Vamos deixar Santana com a irmãzinha dela. Pelo visto, as duas se deram muito bem. Enquanto isso, você me ajuda a preparar alguma coisa na cozinha. Soube que foi preciso você tomar soro e medicamentos na veia. Sinal de que precisa comer, ficar firme para ajudar seu pai, ok?"

Shelby tinha razão. Fiz pouca coisa além de indicar onde ela poderia encontrar panelas, talheres, comida na cozinha. Eu não conseguia parar de pensar em papai, mas dar atenção a ela ajudou a me distrair, a me sentir menos fraca. E Shelby mostrou que estava ali por querer, para nos ajudar com o que precisássemos. Foi reconfortante, de certa maneira, saber que mesmo a mãe que tinha me rejeitado duas vezes quis estar presente num dos piores momentos da minha vida apenas para me apoiar. A comida estava ótima, mas a gente mal conseguiu tocá-la. Não tínhamos estômago.

A casa encheu no final da tarde. Todos do coral e o professor Schue apareceram, além de abuela, alguns primos e tia Maria. Parece que houve alguma tensão com o reencontro de Noah e Quinn com Shelby e Beth. Não consegui prestar muita atenção no drama. Aquela casa cheia estava me deixando claustrofóbica e acabei me isolando no meu quarto. Não sei precisar quanto tempo depois, Santana juntou-se a mim com Beth no colo.

"Shelby, Quinn e Puck estão conversando lá em baixo na biblioteca e acho que Sam está surtando" – ela deitou-se na minha cama e colocou o bebê entre nós. Comecei a brincar um pouco com Beth – "Brittany me beijou na boca na frente de todo mundo, e deus sabe o quanto eu estava precisando, só que agora a tia Maria está surtada por causa disso e Artie está com uma tromba de elefante. Mike e Tina foram buscar o nosso carro lá na escola e já devem estar chegando. Finn só passou. Queria te ver, mas eu não deixei. Então ele disse alguma coisa estúpida que não lembro e foi embora. Tia Rosa ligou e disse que estará aqui amanhã de manhã. Júlio está dando em cima da Mercedes" – nosso primo mais velho tinha um fraco por gordinhas e acho que ele seria ótimo para Mercedes. O problema é que Júlio tinha 24 anos e Mercedes completou 17 não fazia muito tempo. Por enquanto um romance entre os dois seria crime – "professor Schue pensa que é relações públicas. Abuela está a um passo de mandá-lo à merda" – nosso avô Antônio Mendes Lopez (que já morreu) era um escritor menor e refugiado político do Chile. Era um intelectual e abuela, Miranda Lopez, apesar do jeitão expansivo e simples, era militante do partido comunista. Ela dá aula de marxismo se for preciso e odeia "esses americanos metidos a sabichões". Por isso abuela tem pouca paciência com pessoas como o professor Schuester.

"Não perdi muita coisa, então."

"Não mesmo!" – Santana virou-se para o meu lado – "segurando bem?"

"Eu só queria que meu pai chegasse logo com notícias."

"Duas."

O quarto ficou quieto, silencioso. Apenas Beth fazia sons adoráveis de bebê no alto dos sete meses de idade. Ao menos ela me fazia rir.

"Santy..." – olhei para a minha irmã, que cochilava. Devia estar exausta físico e mentalmente. Eu também estava.

Voltei a minha atenção para a minha outra irmãzinha, que babava em cima dos meus bichos de pelúcia. E eu achando aquilo a coisa mais adorável do mundo. Foi quando alguém bateu em minha porta e em seguida a abriu devagar, hesitante. Era Quinn.

"Oi" – ela estava colada à porta, sem tirar os olhos do bebê – "eu conversei com sua mãe e... ela..."

"Quer segurar Beth?"

Quinn mordeu os lábios, limpou as lágrimas e então se aproximou com cautela. Primeiro sentou-se no fim da cama e assistiu a filha rolando de lado e batendo a mãozinha no rosto de Santana, que imediatamente resmungou o nome da pequena. Mesmo eu vivendo toda a crise, só de observar a cena, me emocionava e era positivo. Quinn inclinou-se na cama e acariciou de leve primeiro as perninhas e depois todo o corpinho do bebê. Ela ria e chorava.

"Quinn" – Santana resmungou – "pegue sua filha no colo de vez, criatura!"

"Santana, porque mesmo dormindo você consegue ser irritante?" – rebati.

Quinn não comentou, parecia estar num transe enquanto continuava a acariciar Beth, perdida no próprio mundo. Depois levantou-se e voltou a posição inicial, sentada.

"Aos poucos" – murmurou mais para si mesma e depois nos olhou como se finalmente tivesse notado nossa presença pela primeira vez – "Shelby disse que permitiria que eu a visite de vez em quando... em datas especiais, como aniversário ou em alguns feriados."

"Bom pra você, Quinn" – Santana foi sincera.

"Você não deveria cometer com sua filha o mesmo erro que Shelby."

"É" – limpou mais uma vez as lágrimas no rosto e riu quando Beth rolou mais uma vez para cima de Santana, que pegou o bebê e a ergueu. Beth abriu um largo sorriso e mexeu as perninhas e os bracinhos. Santana a colocou com cuidado de volta a cama e então se sentou.

"Tem certeza que..."

"Não... se eu a pegar no colo agora..."

"Entendo!" – Santana e Quinn trocaram olhares cúmplices.

"Eu sinto muito pelo o que aconteceu ao pai de vocês. Rezo para que ele possa se recuperar."

"Obrigada" – Santana e eu respondemos ao mesmo tempo.

"Vou deixar vocês descansando" – levantou-se da minha cama e foi em direção à porta – "eu... se vocês precisarem de qualquer coisa... eu não tenho muito que oferecer, e sei que a nossa relação nunca foi das melhores... com nenhuma das duas... mas quero que saibam que podem contar comigo. De verdade. Eu realmente me importo com vocês. Mais do que imaginam."

Acenamos positivo e Quinn deixou o meu quarto.

"Isso foi intenso!" – comentei, mas Santana me ignorou, perdida nos próprios pensamentos.

Não muito depois de Quinn, Shelby entrou no nosso quarto e foi menos formal e hesitante do que a nossa colega de escola e coral. Ela nos avisou que a maioria das pessoas já tinham ido embora, só ficando na casa tia Maria e abuela. Ela própria já estava de saída, mas não antes de mostrar que deixou o telefone e o endereço dela gravados em nossos celulares. Exigiu que mantivéssemos algum contato regular, o que considerei uma mudança e tanto para a mulher que praticamente correu de nós na primeira vez. Talvez Beth tenha operado alguns milagres em nossa família.

Santana e eu descemos para ficar com abuela. Eu não sei o que de especial aquela velha senhora chilena tinha, mas só de ficar próxima, eu me acalmava. Era quase o mesmo efeito que papai transmitia quando me abraçava na sala de TV e me ninava dizendo palavras doces e reconfortantes.

"De cualquier manera, Dios sólo se reserva lo mejor. La confianza en Dios, mi niña."

Eu e Santana ficamos encostadas em abuela, nos beneficiando do amor de nossa avó. Santana acabou dormindo no colo de nossa velha até o momento em que meu pai chegou ainda com o jaleco no corpo. Ele passou direto para a biblioteca, onde se sentou na poltrona favorita dele. Nós o seguimos ansiosas por qualquer informação.

"Hiram... eu sinto minhas filhas" – começamos a chorar novamente, dessa vez mais forte – "eu fiz de tudo... juro que fiz. Mas ele teve morte cerebral. Ele não vai voltar mais para nós."

Hiram Joel Berry-Lopez morreu jovem, aos 48 anos, em 16 de dezembro de 2010. Ele deixou duas filhas e um marido. Eu vou sentir tanta falta do meu pai...