Capítulo 06 – Gwen's POV
Sempre soube disso, mas tentava me enganar. Quando era mais nova, adorava o jeito que o Ben olhava para mim, me admirando, como se eu fosse a pessoa mais importante para ele.
Claro que o Vovô Max era seu ídolo e herói, como ainda é até hoje. De qualquer maneira, ele sempre me admirava, pelo fato de ser esperta. Tudo bem que muitas vezes usava isso de má fé, tentando me colocar numa posição acima do Ben.
Porém, tudo mudou no momento em que nós conhecemos Kevin. A partir dali, meu primo nunca mais me admirou como antes e passou a ter olhos apenas para seu novo amigo.
Ele sempre foi muito agitado e alegre, daquele tipo de criança que dava preocupação para os pais por ser elétrica demais, mas obedecia e era educado. Mesmo com a traição dele, Ben nunca deixou de falar sobre Kevin. Muitas vezes eu o flagrava sozinho à noite no trailer, depois que o vovô dormia, sentando num canto, tristonho.
Me lembro como se fosse ontem o momento que ele disse não para o convite...
-Vem com a gente, você pode morar comigo! –Ben sorriu, estendendo a mão direita.
-Eu... –ele balançou a cabeça, parecendo confuso. –Não!
-Por quê? Vamos ser melhores amigos e... –seu sorriso carinhoso se desmanchou.
-Não dá! –Kevin levantou o olhar, numa expressão mista de medo e raiva. –Será que você não percebe que sou diferente de você?
-Mas... –Ben sentiu as lágrimas começarem a rolar pelo rosto. –Por favor, vem comigo! Vamos morar juntos!
-Nunca serei igual a você, Tennyson! Você tem família, pessoas que te amam e nunca te abandonam, ao contrário de mim! –ele também começou a chorar, fechando os punhos.
-Eu vou ser sua família, Kevin! –o mais novo tentou sorrir novamente, apesar das lágrimas que desciam pelo seu rosto.
-EU TE ODEIO!
Foi dessa maneira que começou a luta que definiria os próximos cinco anos. Nesse tempo, Kevin ficou preso no Vácuo Nulo, enquanto Ben tirou o Omnitrix e passou a viver como uma pessoa comum.
Quem diria que o encontraríamos novamente aqui na Terra, com sua aparência humana recuperada? Quando os meus olhos encontraram os dele e percebi o quanto ele mudou, tanto por dentro, quanto por fora, meu coração palpitou.
Sempre escondi isso da melhor maneira que eu podia, mas estava gostando do Kevin. Isso era um fato concreto, não tinha como mudar. Tudo nele me atrai. Ele tem 18 anos e é completamente independente, tem seu próprio carro e dinheiro.
Não precisa ficar dando satisfações para ninguém, sobre o que vai fazer e com quem, apenas sai de casa e pronto. É muito inteligente, apesar de ficar escondendo isso sobre uma máscara de badboy. Ele sempre me surpreende com o conhecimento que possui sobre assuntos alienígenas. Kevin sabe o que quer, mas ainda não entendi o motivo dele querer ficar fingindo ser alguém que não é.
Sei que por debaixo daquela cara de mal, ele é uma boa pessoa, gentil e carinhoso. Apenas ainda não encontrou alguém que consiga fazer com ele coloque isso para fora da maneira certa.
Assim que Kevin me deixou em casa, fui direto para o quarto e me joguei na cama. Estava rindo a toa, toda feliz com o pequeno encontro que tive com ele. Eu já estava nesse estágio, aquele no qual você fica todo alegre com qualquer momento que se passa ao lado do amado. Mesmo sendo segundos, mesmo a pessoa nem gostando de você da mesma maneira...
Levantei e fui tomar um banho, o dia tinha sido longo e eu precisava descansar. A brisa noturna que entrava pela janela do quarto era refrescante, as cortinhas de linho esvoaçavam levemente.
Era muito bom, ficar ali deitada com os olhos fechados, apenas sentindo o vento acariciar a pele. Acabei dormindo profundamente, como não fazia há muito tempo. Na manhã seguinte, acordei animada.
Depois que tomei o café, resolvi ligar para o Kevin, saber se ele estava com vontade de fazer alguma coisa, porque o dia estava ensolarado e pedia uma praia.
-Oi, Gwen. –ele atendeu, meio sonolento. –O que houve para você me ligar tão cedo?
-Kevin, são onze e meia da manhã! –comentei, não conseguindo segurar o riso. –Seu dorminhoco!
-Para mim ainda é de madrugada, só funciono depois do meio-dia. –ele resmungou. –Mas então, por que você me ligou?
-Eu estava pensando em ir à praia e achei que talvez você quisesse ir comigo... –perguntei, sentindo minha garganta ficar seca. –E então?
-Tá, por mim pode ser. –Kevin ainda estava meio sonolento, mas parecia um pouco mais animado. –Você pode passar aqui em casa? Enquanto isso eu vou tomando um banho e tomo café.
-Onde você mora mesmo? –peguei um bloco de notas e uma caneta.
-Rua George Washington, número 91, apartamento 2.
-Estarei aí em quinze minutos, esteja pronto, hein?!
-Tudo bem, estou te esperando.
Peguei o ônibus que para perto da minha casa e em dez minutos cheguei ao centro da cidade. Andei mais um pouco e consegui chegar onde Kevin morava, uma rua sem saída, paralela à avenida principal.
O lugar era bem familiar, com várias crianças brincando no meio da rua de hockey com patins. Passei por elas e fui até o único prédio nas redondezas. Como não havia porteiro, toquei o interfone na grade e esperei que Kevin atendesse.
-Oi...
-Cheguei, pode abrir o portão para mim? –pedi, falando bem perto do interfone.
-Okay. –o portão fez um barulho e destravou. –Abriu?
-Abriu.
Atravessei o pequeno pátio e subi as escadas. O prédio parecia ter sido construído nos anos 50 e apesar disso, se mantinha novo e bem conservado. Depois de subir três lances de escadas, finalmente cheguei ao quarto andar.
Pelo que eu havia percebido, eram apenas dois apartamentos por andar, o que me fez pensar que o interior pudesse ser grande. Assim que vi a porta com o número 2, toquei a campainha.
Segundos se passaram até que Kevin abrisse a porta e colocasse a cabeça para fora, os cabelos pingando.
-Oi Gwen, você chegou antes do que eu imaginava. –ele comentou, forçando um sorriso amigável.
-Desculpa, estou atrapalhando? –perguntei, sentindo o rosto corar de vergonha.
-Não, tudo bem. Mas eu acabei de sair do banho, você se incomoda em esperar só mais uns cinco minutos?
-Sem problemas.
-Pode entrar... –ele abriu mais a porta e fez um gesto para eu entrar.
Naquele momento, achei que poderia ter um ataque cardíaco fulminante e morrer ali mesmo, no vão da porta. Simplesmente, Kevin estava usando apenas uma toalha enrolada na cintura, com o corpo molhado.
Água escorria pelos seus cabelos negros e caia pelo peitoral, descendo pelo abdômen definido e molhando a toalha, que estava bem abaixo da linha da cintura.
-Senta aí no sofá que eu já volto. –comentou, antes de me deixar sozinha e ir para o quarto.
-Seu apartamento é legal... –tentei puxar assunto em voz alta, para que ele pudesse me ouvir lá de dentro. –Mora aqui há muito tempo?
-É... Mais ou menos. –ele respondeu, enquanto se trocava. –Minha mãe era a dona.
-Ah tá... –me senti no sofá olhando ao redor. –Aqui, posso pegar um copo de água?
-Tem na geladeira.
-Obrigada...
Eu realmente não fazia a mínima idéia de como era a família dele, mas de uma coisa eu tinha certeza, ele era tinha dinheiro. Não que Kevin fosse rico, não era isso. Mas toda a casa estava equipada com o melhor da tecnologia.
Seja na televisão de plasma de última geração, com mais de quarenta polegadas, ou no home theather que distribuía o som de forma límpida e surreal, assim como na geladeira size to size, com duas portas e tão grande que eu caberia dentro facilmente.
Não sabia o que ele fazia para ganhar tanto dinheiro para sustentar esses luxos, mas com certeza o salário que ele recebia na oficina não era tão alto. Podia ser talvez alguma reserva que sua mãe tinha deixado, sei lá.
De qualquer maneira, tomei a água gelada e logo em seguida fomos para a praia. Kevin vestia bermuda, camiseta e óculos escuros, além da mochila que carregava, com toalhas e algumas roupas.
Coloquei minha bolsa no banco traseiro e percebi que tinha mala de metal, que eu nunca tinha visto antes. Fiquei um pouco curiosa para saber o que poderia ser, mas resolvi deixar de lado. Kevin odiava quando mexiam nas suas coisas sem ele estar por perto.
Depois de vinte minutos, estávamos na praia, no limite com a próxima cidade. O lugar estava cheio de turistas e resolvemos ficar afastados da multidão, junto à arrebentação da praia, nas pedras do farol.
O dia correu normalmente. A água estava muito boa e consegui finalmente um bronze decente. Kevin ficou reclamando sobre os playboys que ficavam se amostrando para os turistas, como se fossem produtos à venda.
A parte mais engraçada foi quando dublamos as pessoas ao longe, sobre o que elas estariam conversando. Não conhecia esse lado mais engraçado e menos sarcástico do Kevin.
Acho que nunca vou me esquecer do que ele disse quando me trouxe de volta para casa: "Meus dias ficam mais divertidos com você ao meu lado."
