O DESAFIO 2011 do TOLKIEN GROUP - confraria que reúne gente tão fascinada pela obra de Tolkien que, após devorar filmes, livros e todo material disponível sobre o assunto, continua com fome de histórias relacionadas ao universo que o grande Professor nos legou - este ano toma como inspiração os 10 anos do lançamento do primeiro filme da trilogia de PJ (momento-chave da conjuração deste fanatismo bem humorado mas respeitoso que nos uniu).
A história compartilhada por Kiannah se compõe dos registros de uma elfa que presencia a partida da Sociedade do Anel e relaciona cada instante com uma lembrança sua. (Observação aos leitores com a permissão da Mestra Myri: Gíl-Dínen, que protagoniza essa shortfic, é a personagem principal de "Estrela Silenciosa", e que durante sua jornada, cruza com a Sociedade do Anel na casa de Elrond. Embora não seja necessária a leitura de "Estrela Silenciosa" para a compreensão dessa shortfic, convido os leitores a espiarem as aventuras dessa elfinha. O link para está no meu perfil. )
Disclaimer: JRR Tolkien é o autor ao qual pertencem os personagens, o próprio universo em torno dos quais giram as histórias desenvolvidas pelos membros do Tolkien Group, portanto não temos nenhum direito sobre elas ou sobre eles – exceto, talvez, aqueles nascidos do amor talvez não de todo sensato que lhes devotamos, como diria Sadie Sil ...
A história apresentada aqui está ligada diretamente ao capítulo III do livro II de A Sociedade do Anel – O Anel Vai para o Sul, que entre outras coisas, conta o momento em que a Sociedade do Anel parte de Imladris.
"(...)Muitos outros habitantes da casa de Elrond estavam nas sombras, e assistiam à partida da Comitiva, dando-lhes adeus em voz baixa. Não ouve riso, nem canção ou música. (...)"
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Registros
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Havia sido um dia frio, como ocorrera durante todo o mês de Dezembro.
O vento Leste diminuía, e ainda assim as poucas nuvens que salpicavam o céu durante todo o dia haviam sido sopradas para longe, revelando o céu escuro e iluminado pelas estrelas de Varda.
Gíl-Dínen estava sentada na beira da mesa que servia como escrivaninha. Observava o céu estrelado e as sombras, nascidas das lamparinas de seu quarto, se esconderem entre as cortinas soltas que lhe davam alguma privacidade, para pensar e registrar os acontecimentos daquele dia. Tudo havia sido, de certo modo, especial. Na verdade essencial para o destino incerto de toda a terra que se estendia de leste a oeste, norte a sul.
Sua mão deslizou para o lado e alcançou o livreto envolto em couro, decorado com desenhos delicados filigranados em ouro e prata. Aquele era seu. Repleto de muitas páginas ainda em branco.
Na aparência, exceto pelo couro ainda viçoso, era tal qual o segundo volume que mantinha junto, e que era de seu pai, e havia sido caprichosamente preenchido com datas, desenhos cheios de pormenores, e citações preciosas que ouvira tantas vezes.
Era mais um daqueles objetos que a aproximava daquele que estava tão distante.
Sentia-se reconfortada quando lia um dos diários de Aegnor. Aquele era seu volume favorito. Lóthwen havia lhe presenteado na última noite que passaram juntas na Terra-Média. Junto àquele, a mãe havia lhe dado um volume em branco. Era um dos volumes que nunca havia sido preenchido por Aegnor, mas que o poderia ser por ela, que compartilhava de sonhos e determinações muito semelhantes aos do pai.
Vez ou outra desde os Portos Cinzentos, Gíl-Dínen havia escrito algumas páginas, mas embora ainda não soubesse a melhor maneira de trabalhar aquela arte, tinha a sensação de que ali poderia despejar o que se esforçava tanto para ocultar de tudo e todos. Seus medos, algumas de suas opiniões, coisas que não se sentia à vontade de fazer tão abertamente na presença de alguém. Nas poucas vezes em que se ocupara com o diário, havia se perdido em detalhes e ilustrações, que lhe significavam muito mais do que as palavras.
A elfa suspirou enquanto se esticava e tomava nas mãos o tinteiro e a pena depositados na escrivaninha.
Talvez valesse a pena, ainda duvidando que houvesse alguém para, um dia, ler o que registrava, como havia ela para ler os diários do pai. Porém sabia que aquilo não era como os importantes e imponentes registros feitos por Elrond e Erestor, ou dos sábios estudiosos e historiadores que registravam a passagem dos dias na Terra-Média. Um pensamento reconfortante, pois seriam registros pessoais.
Então encontrou um canto, próximo à sacada, e se sentou apoiada em almofadas e no chão frio de rocha. Dali mesmo havia visto tanto nos últimos dias, mas nada havia sido como há poucas horas, quando o crepúsculo ainda se aproximava, cobrindo o sol para mais uma noite de descanso.
Cuidadosa com a pena testou uma pequena porção de tinta, apenas registrando o dia. 25 de Dezembro de 3018. Início da Demanda da Montanha da Perdição com os nove caminhantes.*1
Letras caprichosas e levemente inclinadas para a direita, como Lóthwen havia lhe ensinado quando ainda era uma elfinha descobrindo as artes criadas por seus ancestrais. Sorriu orgulhosa apenas para si, sozinha no quarto.
Continuou.
Durante a tarde, as despedidas haviam sido feitas no Salão do Fogo, entre aqueles que desejavam, e os integrantes da Sociedade do Anel, como Elrond havia nomeado.
Lembrava que por toda Imladris, música, canção e riso haviam dado lugar a preces e adeus em voz baixa e cautelosa. Ela mesma havia se mantido em silêncio, afastada sob a sombra de um alpendre, apenas observando o grupo que se reunia para partir.
Lembrava-se do olhar esperançoso e perseverante de Allaran como se o visse ali mesmo. Enxergava com clareza aqueles olhos de verde tão encantador e tão único.
Quando deu por si, havia traçado linhas na lateral da página que se transformavam no registro permanente e fiel daquele fitar de olhos. Realmente gostava do olhar do jovem curador. Há pouco tempo que o conhecia. Meses. E o elfo já havia se tornado muito querido.
Então continuou, tentando não se perder naquele trabalho, e se lembrando de instante a instante na chegada da noite.
Espalhados entre escadas sinuosas, estrebarias, sacadas e portas, ocultos pelas folhas de verde envelhecido, e pequenas quedas d'água, ou cuidadosos e mais presentes, havia percebido os elfos que observavam a Comitiva.
Bilbo também acompanhava a partida com genuíno interesse, ainda que tremesse de frio no topo da escadaria, e acompanhado de Erestor.
Logo percebeu a intenção dos caminhantes de levarem consigo pouca bagagem.
Viu Aragorn descer vagarosamente as escadarias da grande Casa enquanto pesava cada passo dado na direção da estrada que tomaria em instantes. Estava em silêncio e cabisbaixo, ainda que seu olhar fosse penetrante e confiante. O dúnadan carregava uma bagagem muito além de qualquer peso suportado por homens comuns, e somado a ela, trazia apenas Andúril, a Chama do Oeste, outrora Narsil, a espada de Isildur, reforjada com suas gravações, estrelas, runas e linhas elegantes encobertas por uma bainha surrada, e nenhuma outra arma.
Logo em seguida veio Boromir. Junto com sua espada, carregava um escudo com desenhos de linhas mais duras que os élficos, e sua corneta de guerra. Por mais que Gíl-Dínen tentasse reproduzir aquelas desenhos das terras de Gondor, sua mão insistia em tentar trazer um pouco mais de leveza a eles, até que os abandonou torcendo os lábios tal qual o esboço de sorriso que Allaran se esforçara para manter enquanto observava o guerreiro de Gondor. Porém as palavras do elfo soavam sob uma sombra tensa e preocupada, como achava nunca ter visto no rosto do curador.
"É de certo um homem de bondade sem tamanho, cuja força e determinação de salvar seu reino trespassam os limites de seu coração, porém possui um orgulho imprudente, maior do que consigo compreender, mellon-nin" disse Allaran, com a voz inquieta enquanto observava o capitão de Gondor. E como da primeira vez, a elfa engoliu em seco, e sentiu sua pele arrepiar enquanto tamborilava os dedos delicados sobre os rascunhos do escudo de Boromir. Ao mesmo tempo fitava o desenho seco do olhar sem cores de Allaran.
Não desejando pensar em como aquelas palavras soavam, desvencilhou-se delas seguindo com os registros, acompanhando mentalmente a chegada dos demais integrantes da Demanda da Montanha da Perdição. Não que se sentisse grande prazer em falar de Gimli dos anões, pensou desapontada. Nunca se sentira muito à vontade na presença deles, embora em momento se recordasse de ter passado por descortesia de sua parte ou deles. Mas julgava-os barulhentos demais, fanfarrões em excesso, duros e teimosos como a rocha. Mas talvez pudesse um dia ainda entender algo sobre os anões. Ou ao menos poderia tentar. Desejou que isso pudesse acontecer, assim como o retorno da Comitiva.
Talvez quando Legolas Verde Folha retornasse, ele poderia então contar sobre o tempo em que passara com o anão. O elfo havia chegado bastante silencioso ao ponto de partida do grupo, e também carregava suas responsabilidades como representante das terras do Rei Thranduil. Mirkwood teria que travar suas próprias batalhas sem um de seus grandes guerreiros. Como seria o peso de saber que, enquanto distante, suas terras estariam igualmente em guerra?
O elda sindarin seguia os passos do anão, e como todos os integrantes carregava pouca coisa, além de seu arco e a aljava repleta de flechas. E as facas de caça gêmeas, tão semelhantes às herdadas por Gíl-Dínen de seu pai, guardadas em suas bainhas brancas. Teriam sido forjadas na mesma época? Pelas mesmas mãos? Pelos mesmos instrumentos e calor?
A noite avançava.
Nenhuma música era ouvida, e nenhum elfo havia ainda ousado cantar. Nem mesmo Lindir levantara a voz por um instante. Aquilo era verdadeiramente incomum em Imladris. Será que estava mesmo se acostumando com aquelas terras, a ponto de seu silêncio tornar-se um incômodo?
Então se levantou para espiar um pouco além da sacada do quarto. Imladris havia sido coberta por um manto de quietude como se fosse o décimo integrante da Comitiva, viajando em segredo e contornando o campo de batalha para surpreender o inimigo.
A grande casa estava quieta, embora tivesse movimento e muitos continuassem despertos. Podia ver o brilho amarelado que vinha da biblioteca de Elrond, que ali permanecia desde que a comitiva desaparecera na última curva sobre uma das quedas do Bruinen. Podia ver também as luzes na outra ponta daquele alto pedaço de terra, que abrigava mais construções como as Casas de Cura, onde Allaran estava estudando, assim como podia ver as luzes das cocheiras, sendo apagadas calmamente uma a uma, e encerrando os trabalhos de mais um longo dia.
Fora daquelas cocheiras que viera Sam trazendo tranquilamente Bill, o pônei que acompanharia os nove. Elrohir havia se encarregado de ajudar e ensinar Sam de como cuidar do maltratado pônei. E de fato os dois haviam tido sucesso. Naquela tarde Bill exibia uma pelagem lustrosa, com o vigor de dias mais jovens.
Ela mesma ouvira alguns conselhos de Elrohir no trato com Galrillion. Gostava da maneira que Elrohir se dedicava aos cavalos. Apreciava mais ainda os raros momentos em que encontrava o elfo sozinho e entregue àquelas tarefas. Era como se ele se despisse de tudo, das armas, da armadura, das pesadas responsabilidades como capitão e herdeiro de Imladris, de suas dores tão profundas, e fosse apenas um elfo apaixonado por cavalos, escovando-os, tratando-os, alimentando-os como se apenas aquilo, em toda a Terra-média, fosse a única tarefa a ser feita.
Por momentos invejou aquela habilidade de se desprender de tudo, e ficar tão desarmado. À vontade. Uma vez até desejou compartilhar de sua opinião com o elfo, mas não fora capaz de revelá-la, nem foi necessário diante das palavras dele. "Um dia você também se sentirá assim. Sem precisar estar sempre armada, em prontidão...". Escreveu lentamente no topo da página como um lembrete cada vez que lesse aquele diário.
Parte de si desejou que as palavras de Elrohir se tornassem verdade um dia. E que se as ouvisse novamente, que fosse apenas para rir satisfeita e ao lado dele.
Por algum tempo ainda se manteve observando as páginas em branco, antes de mergulhar mais uma vez a pena no tinteiro a seu lado, enquanto recordava-se da chegada dos hobbits. Criaturas que com imensa simplicidade eram capazes de surpreender. Sempre.
Junto com Sam, chegaram Merry e Pippin carregando não mais do que as espadas que haviam conseguido durante a viagem até Imladris, e Frodo munido com Ferroada. A lembrança daquela espada fez Gíl-Dínen recordar as muitas noites em que ouvira Bilbo, nos limites do Condado, à beira do fogo reconfortante e de um belo banquete, contar sobre suas aventuras com os anões rumo a Erebor. Lá e de volta outra vez como dizia o bom hobbit. E de como Frodo ria tranquilo e divertido das aventuras do tio.
Bons dias foram aqueles, quando a sombra mais ameaçadora era a de nuvens carregadas com a chuva de verão. Sentiu seu coração apertar com as lembranças. Parecia tudo tão entrelaçado, impossível de não partir das lembranças mais recentes rumo às mais antigas. Essa parecia ser mesmo uma das sinas dos elfos. Viver de lembranças por toda a longa vida na Terra-média. Se ao menos algumas não fossem tão tristes e fantasmagóricas, ainda que fossem doces também.
A Comitiva estava completa quando Mithrandir apareceu munido de seu cajado e de Glamdring*2, sua espada élfica. Não havia elfo na Terra-média que não tivesse ouvido sobre a espada usada pelo mago, encontrada na mesma aventura em que se metera Bilbo e os anões. Pois Glamdring era mais uma das espadas forjadas na Primeira Era. Na mesma Era em que a espada de Maglor havia sido forjada. E então Gíl-Dínen se sentiu estranhamente mergulhada em ignorância. Nunca fizera um único registro, sob seus olhos, da espada de Maglor. E muito menos sabia seu nome. Tinha que pedir a Elrond que lhe permitisse desenhar aquela peça, e talvez conseguisse descobrir mais sobre ela nos livros de Erestor. Além, é claro, de ouvir os relatos de Elrond e Glorfindel como vinha fazendo quase todos os dias desde a primeira vez que entrara no estúdio do Senhor de Imladris para lhe mostrar o que trazia dos Portos Cinzentos.
Enquanto esperava a tinta negra e brilhante secar, voltou a observar o céu limpo. Estava bem mais escuro. A noite se aprofundava, e finalmente uma voz surgiu cantando a Elbereth. Era suave e baixa, ainda que se sobrepusesse cristalina aos rugidos do Bruinen.
Então se voltou para o diário observando as longas páginas que havia preenchido descrevendo a partida da Sociedade do Anel. Sentiu-se satisfeita por poder presenciar e registrar aquele momento da história da Terra-Média. À sua maneira. Tranquila e desarmada como nas palavras ditas por Elrohir. Sem nenhuma obrigação, e apenas para o seu deleite.
Talvez fosse um bom começo para o seu diário. E quem sabe porventura um dia, algum elfinho ou elfinha, ou os dois poderiam vir a fazer a mesma coisa com aquele pequeno legado. Como ela fazia com o de Aegnor.
Orgulhosa e satisfeita como uma elfinha, Gíl-Dínen fechou com cuidado o livro, colocando-o junto com o do pai sobre o colo, enquanto voltava-se para as estrelas, e cantava baixinho com Lindir.
"A Elbereth Gilthoniel
silivren penna míriel
o menel aglar elenath!
Na-chaered palan-díriel
o galadhremmin ennorath,
Fanuilos, le linnathon
nef aear, sí nef aearon!"
"Óh, Elbereth estrela cintilante
Brancas faíscas derramam-se como jóias brilhando
do firmamento, na glória da lua estrelada
Em terras distantes, contempladas à distância
de regiões da Terra-média enredadas em árvores
Fanuilos, a ti eu cantarei
em terras distantes, além do mar!"
*3
*1 Conforme a cronologia da Terceira Era apresentada nos Apêndices de O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei – O Conto dos Anos – A Terceira Era. Edição Martins Fontes – Pág 381 – 2ª Edição.
*2 Glamdring – Espada que foi forjada para Turgon de Gondolin na Primeira Era. Durante milhares de anos esteve desaparecida, até que Gandalf e Cia. a encontraram juntamente com a Ferroada e Orcrist em O Hobbit, e reclamou-a para si mesmo. Gandalf continuou a usá-la durante toda a obra de O Senhor dos Anéis, e Elrond refere-se à espada como "Martelo dos Inimigos, que o rei de Gondolin outrora usou". Glamdring significa o "Martelo dos Inimigos", mas os orcs em "O Hobbit" chamavam-lhe simplesmente a "Batedora".
3* Tradução do hino "Elbereth Gilhthoniel" – Encontrado no portal Dúvendor, no artigo Uma análise do poema A Elbereth Gilthoniel por Anderson Frossard.
4* Apesar de sempre colocar uma trilha sonora em todas as fics que escrevo, aqui poderia simplesmente sugerir a trilha sonora completa de O Senhor dos Anéis. Não encontrei nada mais perfeito que as músicas compostas para o filme, porém entre todas indico "Leaving Rivendell" e "The Last Debate Including. Asëa Aranion" – Músicas da trilha extendida de SdA. (Tem no youtube!) :)
