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Beijos especiais para Rosa, Taíza, Nay, Nessa Reinehr , Gio.

Esperamos que gostem do que estão lendo tanto quanto estamos gostando de escrever.

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Se Tudo Fosse Diferente – Capítulo Sete

"Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;"

Gibran Khalil Gibran – "O Profeta"

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Marguerite andou pela sala indo até a cozinha. Ainda tentara dormir um pouco, mas as palavras de Roxton não lhe saiam da cabeça. Surpreendeu-se ao encontrar Verônica com os cabelos molhados e vestindo o roupão que pertencera a seu pai, sentada na penumbra na mesa de jantar, tomando uma xícara de chá. A herdeira se serviu e foi sentar-se na mesa em frente a outra mulher.

"Perdeu o sono?" - perguntou Verônica.

"Foi. E você?".

"Tomei um banho e resolvi ficar mais um pouco por aqui. A propósito já deveria ter comentado com você antes, mas as costuras ficaram lindas. Obrigada".

"Lord Roxton me forçou" – a loira sorriu lembrando do capricho com que as roupinhas foram feitas.

"Mesmo assim obrigada". – Marguerite sorriu.

"O garoto está bem? Não que eu me interesse, mas pra puxar assunto sabe?".

"Ele está ótimo".

"E você?".

"Estou bem" – Verônica sentiu que a morena estava preparando terreno para alguma coisa.

Marguerite hesitou e finalmente resolveu fazer a pergunta.

"E você e Challenger?" – A loira levantou a cabeça surpresa.

"Eu não quero falar sobre isso Marguerite".

"Está bem. Então falo eu" - Marguerite pensou no que Roxton lhe diria se a visse ser tão direta e tão pouco diplomática.- "Vocês dois estão nessa situação a um bom tempo: 'Bom dia, boa tarde, boa noite'. Estão parecendo crianças. Tão orgulhosos e teimosos que não conseguem nem sentar para discutir como adultos que cheguei a pensar que fossem".

"Challenger não aceita Thomy" – Defendeu-se Verônica. "E se ele não o aceita, não me aceita também. Não tem mais o que se discutir".

"E você alguma vez já pensou em escutar o que ele tem a dizer?" A loira olhava fixamente para a xícara.- "E digo mais. Isto há muito tempo já deixou de ter alguma coisa a ver com o garoto. Vocês não querem é ceder. Esta situação não está fazendo bem a nenhum de nós. Colocaram-se em lados opostos e ainda deixaram eu, Roxton, Malone e principalmente Thomy bem no meio. E além do mais você insiste em fazer tudo sozinha. Ned em especial está sempre pronto a ajudar, mas você não aceita ajuda de ninguém. Droga, ele a está apoiando então respeite a escolha que ele fez." - Marguerite levantou-se – "Bem, acho que era isso. Boa noite Verônica". – disse isso e saiu.

"Boa noite Marguerite" – sussurrou a jovem. ........................................................

"Tão cedo de pé Summerllee?".

"Bom dia Malone... bem, eu acordo cedo todos os dias...".

"... Sim acorda cedo, mas depois de Verônica, que ainda está dormindo...".

Summerllee sentou-se e acompanhou Malone em um chá recém preparado.

"Pesadelos professor?" Malone sorriu.

"Pra dizer com sinceridade, sim meu jovem... Tive um sonho nada bom...".

"Se quiser conversar sobre isto professor, sinta-se à vontade...".

"Obrigado Malone, mas como disse, só um sonho ruim...". Os dois tomaram um gole do chá, saboreando o delicioso aroma de erva-doce.

"O chá está muito bom Malone, meus parabéns...".

"Obrigado... Verônica me mostrou esta receita e um dos livros de culinária de seus pais, há muitas receitas lá...".

"Sim, são muitas..." Summerllee saboreou mais um pouco a bebida e voltou a falar. "Posso lhe fazer uma pergunta?".

"Sim professor".

"Quanto tempo se passou desde que o pequeno Thomy está conosco?".

Malone vagueou o olhar pensativo na sala tentando recordar-se. "Acho que são exatos dois meses... Mas, por que a pergunta?".

Summerllee sorriu com sua própria doçura e continuou ternamente. "Quero marcar este tempo, pois quero fazer algo especial para seu aniversário de um ano...".

Malone ouviu as palavras e sorriu retribuindo o mesmo carinho com que foram ditas. "Sim, boa idéia... Já tem algo em mente?".

"Ainda não, mas acredito termos muito tempo pela frente, pelos meus cálculos. De qualquer modo é uma coisa a mais para se distrair".

"Ele já cresceu bastante, não professor? Está um menininho muito peralta e forte também... E é muito inteligente...".

"... E afetuoso, não é?".

"É! Thomy é muito especial...".

Summerllee estava prestando atenção no modo como o jornalista se referia à criança.O brilho nos olhos era perceptível, e a suavidade de sua voz ao tocar no nome do menino o fez perceber que Malone estava mudando, dia após dia seus conceitos. E isto era maravilhoso. Era essa a idéia que ele queria passar ao jovem, com aquela conversa que os dois tiveram em um dos muitos dias de pesca, e ficou muito feliz de saber que suas palavras foram bem compreendidas por Malone. Este era o primeiro passo para que ele e Verônica se entendessem completamente, e que Thomy ganhasse mais um amigo na casa da árvore.

"Bom dia meninos!". Verônica chegou sorridente com Thomy na cintura, de capuz cinza, mordendo uma bolinha. "Já de pé professor?".

"Bom dia querida. Sim, não tive uma boa noite de sono...".

"Oh, lamento... Mas hoje será melhor, tenho certeza!" Ela se aproximou e lhe deu um beijo na bochecha. Summerllee sorriu para o bebê que escondeu o rostinho no colo de Verônica.

"E como vai o meu garotão!!!". Ned disse logo estendendo os braços para pegar Thomy que se atirou para ele dando um grito de alegria. Verônica lhe deu o menino e ela e Summerllee trocaram olhares.

"Hum... Tem alguém de ótimo humor esta manhã ou é minha impressão?". Verônica brincou com Malone que lhe retribuiu o sorriso.

"Bem... Vou organizar algumas coisas em meu quarto..." Arthur pegou a xícara com o chá e levou consigo.

Os dois esperaram Summerllee sair. "Ned, você pode colocar Thomy na cadeirinha para mim, hoje estou cheia de coisas para fazer...".

"Na cadeirinha? Por que ele não pode ficar no meu colo?".

Verônica pensou um pouco. "Está bem, não vou demorar mesmo...".

"Aonde vai?".

"A lugar nenhum, apenas vou preparar a mamadeira e depois vamos passear!". Ela brincou com a criança.

"Verônica, se quiser... Posso cuidar do Thomy enquanto você faz suas...".

"Não Ned. Obrigada, mas dou conta dele sozinha...".

"Está bem...".Malone não escondeu uma certa decepção, mas manteve sua postura.

Ela foi preparar o leite. Quando Malone lhe mostrou uma colher o menino, que estava com as mãos nos pequenos pés, se esticou para tentar pegar.

"Espertinho... Aposto que se lembrou daquele dia não foi?".

Ned foi aproximando a colher perto do garoto, e quando ele ia pegar, a afastava outra vez.Os dois gargalhavam e eram controlados por Verônica, para fazerem menos barulho.

"Eles se dão tão bem juntos... Thomy gosta dele, já percebi isso. Talvez seja ele quem mais se interesse..." Verônica observava os dois brincando, enquanto amassava as frutas em um prato, para levar ao piquenique.

Em seguida guardou o lanche como de costume. Foi até Ned e estendeu os braços para Thomy que se atirou alegremente para ela.

"Obrigada Ned" - disse sorrindo para ele. Já ia saindo quando de repente virou-se para o jornalista – "Você...gostaria de vir conosco?"

"Não seria incomodo? Digo, não quero atrapalhar vocês dois."

"De forma alguma. Vamos apenas dar uma volta e tomar o café da manhã ao ar livre."

"Eu vou então." Ned pegou a pequena cesta de lanche da mão dela. "E eu levo isto."

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"George" – disse Roxton sentado desconfortavelmente no alto da árvore ao lado do amigo. "Você tem certeza de que aqueles raptors vão passar por aqui?"

"Tenho sim. Há meses os tenho observado e quero fazer mais algumas anotações. A não ser que com as chuvas eles tenham mudado seus hábitos."

"Meu traseiro está dormente."

"Você se ofereceu para vir comigo."

"Eu sei, mas você poderia pelo menos ter me avisado assim teria trazido uma almofada pra sentar em cima."

"Pare de reclamar Roxton." - resmungou Challenger observando o movimento com um auxílio de um binóculo. O caçador ajeitou-se na melhor posição que encontrou observando o cientista por mais alguns instantes.

"Quando é que vocês dois vão conversar George?" – Challenger não tirou os olhos do binóculo – "Não finja que não está me escutando. Eu fiz uma pergunta."

"Desculpe, mas esse não é um assunto seu John."

"Vamos lá George. Você sabe que não é bem assim. Moramos debaixo do mesmo teto, qualquer coisa afeta a todos."

"Tenho pensado sobre isto também."

Roxton assustou-se. "No que você está pensando?"

"Estou estudando opções."

"Olhe pra mim George" – Challenger olhou para o amigo – "Isso já era pra ter sido resolvido há algum tempo e está se tornando uma bola de neve. Como cientista você sabe muito bem que se crescer muito, vocês não poderão para- la." – Roxton ficou em pé no galho e começou a descer – "Acho que até os raptors sentiram que tem alguma coisa errada e foram embora. Não se atrase para o almoço".

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Após o almoço, acompanhada por Summerllee, Verônica desceu com Thomy até o laboratório. Ele vestia apenas uma fralda e uma camisa pagão que Marguerite havia costurado. Challenger os estava esperando.

"Arthur, verônica" – cumprimentou Challenger – "Podemos começar?"

Ela parou na entrada do lugar abraçando ainda mais Thomy. Sempre se sentira a vontade naquele lugar, mas de repente lhe pareceu assustador. Summerllee aproximou-se.

"Mudei de idéia professor." – disse ela baixinho.

"Está tudo bem ninguém vai machuca-lo." – consolou Summerllee esticando os braços para pegar o garoto. Ele agarrou-se chorando ao pescoço de verônica que com o coração apertado soltou-lhe os bracinhos, firme, mas carinhosamente.

Summerllee colocou-o na bancada previamente coberta com um lençol. Ele e Challenger despiram-no, mediram, pesaram, verificaram coloração de pele, auscultaram coração e pulmões, de um Thomy que chorava e se debatia cada vez mais. E quando Challenger tirou uma amostra de sangue, Arthur observou as lágrimas correndo suavemente pelo rosto de verônica que se abrigara em um canto da escada.

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Roxton chegava com Malone da moagem de café e este preocupou-se ao ver verônica agarrada a Thomy levando-o rapidamente para o quarto. Obviamente estivera chorando. Olhou para Summerllee.

"Está tudo bem." – assegurou ele – "Challenger examinou Thomy."

Roxton tomou o saco de café que estava com o jornalista e sinalizou para Malone que sorriu indo em direção ao quarto da loira.

Summerllee acompanhou o caçador até a dispensa.

"Como foi o tal exame professor?"

"Rotina John. Challenger está fazendo algumas análises."

"E George e verônica?" – Summerllee suspirou.

"Mal trocaram duas palavras."

"Eu falei com ele e Marguerite com Verônica."

"Acha que adiantou alguma coisa?"

"Aparentemente não."

"Eu gostaria de falar com eles, mas receio que possa piorar a situação."

"E enquanto isso nós devemos tapar os olhos e fingir que nada está acontecendo?"

"Vamos fazer o seguinte. Hoje a noite, depois do jantar. Eu, você, Malone e os dois cabeçudos reunidos. Talvez dê algum resultado"

"Tomara que sim Summerllee."

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Com Malone a seu lado verônica deu um banho no menino, alimentou-o e após mais tempo do que o normal conseguiu faze-lo dormir. Thomy ficara muito nervoso após o exame então o passeio antes do jantar ficaria para o dia seguinte. Apesar de tudo precisava saber mais sobre ele e a pessoa que podia dar essas informações era George Challenger.

"Posso falar com você Challenger? Apenas por alguns minutos." – disse Verônica entrando no laboratório.

O cientista parou o que estava fazendo e virou-se esboçando um sorriso formal.

"Claro. Em que posso ajuda-la?"

"Sobre Thomy. Você o examinou." – ela hesitou ao fazer a pergunta – "Ele é...humano?"

"Tem algumas características interessantes. Cresce mais rápido do que qualquer pessoa que eu tenha visto, suas funções motoras também se desenvolvem bem mais rapidamente. Ele já esta tentando ficar em pé sozinho?"

"Já." – ela sorriu lembrando-se do único dia que havia acontecido. Estava mexendo no jardim quando o viu colocar as mãozinhas no chão, esticar os joelhos, e finalmente levantar as os braços rindo, feliz com a conquista. Depois caiu sentado no chão.

"Tem boa saúde. É bem forte também. Sua constituição física é admirável. Acredito que ande muito em breve. No que diz respeito a entendimento, pelo que observei até agora, não existe nenhum problema."

"Ele é humano Challenger?"

"E isso faria alguma diferença para você?"

"Sabe muito bem que não. Mas gostaria de saber. Ele é humano?" - Verônica começava a demonstrar impaciência.

"Eu não sei." – respondeu o cientista irritado com sua própria ignorância. – "Não consegui determinar. Talvez ele tenha alguma dificuldade quanto a atividades motoras finas, mas, poderá ser treinado."

Verônica fechou os olhos sentindo todo o impacto da palavra que o homem acabara de dizer.

"Obrigada Challenger" – ele assentiu com a cabeça e ela virou-se pronta para sair, mas resolveu voltar.- "O que eu deveria ter feito? Deixá-lo para morrer?"

Verônica não notou uma ligeira elevação no tom de sua voz, e nem o cientista na dele.

"Eu nunca disse isso" - ele encarou-a profundamente contrariado.

"Então me diga. O que você faria?"

"Certamente eu não o traria para cá pra ter alguém que lhe fizesse companhia."

"Como é que é?"

"Tão orgulhosa, tão senhora de si que não precisa de ninguém. Você pensou: Os pobres exploradores estão se tornando independentes também e em breve não precisarão mais de mim. E eles com certeza acharão a saída do platô e eu ficarei sozinha mais uma vez. Ai você encontra uma criança perdida e pensa que durante muitos anos vai ter companhia além de continuar bancando a boa samaritana."

"Por que você nunca diz o nome dele?"

Nenhum dos dois havia percebido Summerllee, Roxton, Marguerite e Malone parados na entrada do laboratório, atraídos pelas vozes cada vez mais elevadas dos dois.

"Porque até que se prove o contrário, ele não passa de um filhote, seu bichinho de estimação. Alguma vez já pensou no perigo a que nos expôs. Já lhe passou pela cabeça que ele vai crescer e pode se virar contra nós? Marguerite está com uma alergia que não se sabe de onde vem."

"Isto não é verdade George." - Falou a herdeira imediatamente. Mas ignorando-a o cientista continuou cada vez mais alterado.

"Alguma vez você pensou que ele pode trazer alguma doença? O mínimo que deveria ter feito era tê-lo deixado em quarentena."

Challenger a muito deixara de pensar no que dizia e Verônica era a próxima a fazer o mesmo.

"Você o traria para cá sim, para estuda-lo como um espécime raro. Aposto como já teria uma jaula prontinha para ele. Me diga uma coisa. Foi você quem não quis ter filhos não foi? Posso até imaginar os motivos. Você teve medo de que sua preciosa ciência ficasse em segundo plano? Teve medo de ter que dividir seu tempo? Você é um egoísta. E o que você fez George Challenger. Veio pra esse fim de mundo, para esse mundo perdido onde você se diverte com sua maravilhosa ciência, onde você é o grande gênio. George Chalenger o deus e senhor. Aquele que em todos manda. Em sua casa, em seu laboratório, em sua expedição" – Ela chegou bem perto dele com um ar desafiador.

"Verônica não" – falou Summerllee baixinho como se tivesse a certeza do que viria a seguir. Ela continuou.

"Eu não faço parte da sua família, do seu laboratório nem sua expedição, portanto quando falar comigo tire esse ar de superior do rosto e nunca me olhe de cima para bai..."

Quando Challenger a esbofeteou no rosto, ela olhou-o com fúria e não disse mais nenhuma palavra. Apenas saiu passando pelos outros moradores como se não os tivesse visto. Ninguém se moveu, ainda tentando entender o que havia acontecido. Challenger permanecia no meio do laboratório como se paralisado. O choro da criança pareceu despertar a todos. Malone correu em direção ao quarto de Verônica, mas tudo o que pode ver foi a moça já descendo no elevador com Thomy nos braços.

CONTINUA...