Capítulo 5

O que o passado tentou esconder

Acordou com o que parecia ser uma pequena brisa na cara. Primeiro pensou que se tinha deixado dormir no sofá da sala, de janela aberta, e aproveitou os três maravilhosos segundos antes de se lembrar de tudo o que tinha acontecido naquela noite. Logo quando ela queria alguma paz na vida é que apareciam situações daquelas, exactamente depois de se conseguir convencer que não ia viver em constante sobressalto. Abriu os olhos, deparando-se com alguma claridade, e constatou que já devia passar do meio-dia. Resmungando qualquer coisa, Cassidy sentou-se na cama, antes de reparar que estava lá alguém sentando a observá-la. Pela pose elegante e pela calma, não era difícil identificar quem era.

- Alteza… o que pretende? – Perguntou, estreitando os olhos, e reparando que estava sem óculos. A outra nem os olhava, pois não era das melhores visões. Cassidy tinha olhos de serpente, amarelos, claros como ácido e argutos. Numa palavra, feios.

E pior ainda, ela sabia que a ivoriana suspeitava de algo, tendo até razões para isso. Havia, de facto, algo, um pormenor. Um pequeno detalhe que não confidenciara a ninguém, com receio. Mas com medo ou sem medo, algum dia teria de os avisar. Mais valia ser agora do que tarde.

- Quando eu tinha dez anos, Barrows ainda era sociável e compunha para espectáculos no Palácio. Num desses espectáculos confidenciou-me que não era ele que compunha tudo, e que aquela era de outro compositor, de um outro lugar. Apenas eu, ele, um tal Doctor e o outro sabíamos da verdade. Depois disso, Barrows quase teve um acidente, na carruagem em que seguia, e começou a isolar-se em casa, sem sair.

- E quem era o plagiado? – Cassidy, entretanto, já se tinha vestido e empurrava as duas malas para a porta.

- Não me lembro muito bem do nome, era estranho. Wolfgang… e mais não sei. Não me disse mais que isso. – Também ela se tinha levantado, e apresentava agora um semblante carregado, visivelmente preocupada com algo. – Depois daquele dia, ele queimou aquelas partituras. Destruiu-as completamente.

- Então, nessa altura, ele já sabia o que estava para acontecer. Durante este tempo todo… mas porquê contares-me isso agora? – Perguntou-lhe apenas para ver se ela admitia saber ainda mais do que aparentava, se ela suspeitava. Nos três segundos em que se entreolharam, chegou a pensar que ela sabia do Paradigma, ou da chave.

- Eu ainda e lembro de partes da obra. Se é disso que andam à procura, então receio não ter muito mais tempo, ou sorte. Se ele vier atrás de mim… bem, é uma possibilidade. Começo a acreditar que já não existem coincidências, e que acontecimentos passados tenham sido mal interpretados.

Pararam as duas. O ambiente adensara-se ainda mais, o ar parecia mais pesado. Afinal aquela verdade estivera mais tempo escondida do que seria desejável, e Cassidy perguntou-se há quanto tempo teriam começado os sinistros aparecimentos de Miroir.

- O meu pai morreu com uma doença desconhecida. Além de mim, ninguém que tenha feito parte da antiga corte, que assistiu, está vivo. – Confidenciou-lhe a rainha, em voz baixa, antes de chegarem à sala. E assim que lá chegaram, a conversa foi interrompida bruscamente, uma vez que estavam todos à espera.

A viagem até à Universidade foi feita em silêncio, e demorou mais do que se podia imaginar. Ninguém falava, com medo de denunciar algo que nem eles próprios sabiam o que era, e cada rua parecia mais estreita, cada esquina parecia mais sombria. Parecia que andavam em câmara lenta, e cedo lhes chegara a vontade de abrir a porta e abandonar a viatura a correr. Cassidy, embora não o quisesse admitir, começava a ficar irritada com aquela atmosfera estagnada. Olhou para Ringo, que costumava ter uma piada na ponta da língua, mas esta estava muda e inexpressiva. Rudolph revirava um revólver, a olhar para o vazio, de olhos desfocados, Nofrure estava distraída na paisagem que mal se mexia.

Fechou os olhos, inclinando a cabeça para trás, murmurando algumas imprecações, e qualquer coisa lhe caiu em cima da barriga. Sem saber muito bem como, talvez por instinto, invocara o instrumento, branco como neve, e agora o violino estava no seu colo. E, pareceu-lhe, estava desafinado. Como estava apenas rodeada por pessoas mais conhecidas, não haveria problema se quebrasse um pouco o clima tedioso.

Posicionou o instrumento e pousou o arco nas cordas. Com calma, experimentou uma corda, e apertou a cravelha. Isto antes de sentir todos os olhares fixos em si. Cassidy odiava, profundamente, estar a ser observada, principalmente em momentos como aquele. Podia ser muito orgulhosa de si mesma, mas aquela não era das melhores alturas para o seu ego.

- O que é? – Perguntou, um tanto exasperada, e os outros encolheram os ombros e viraram-se. Todos menos Rudolph. Esperou até que ela acabasse de afinar, e depois estendeu-lhe a mão.

- Posso experimentar? – Perguntou-lhe, com um ar inocente, que não lhe ficava nada bem. No entanto já tinha guardado a arma.

- Sabes tocar? – Perguntou-lhe enquanto lho entregava, mas ele não respondeu e virou a cara. Estreitou os olhos ao ver a pose toda torta, mas nada a preparara para resistir ao som que dali saiu.

Nem se assemelhava a qualquer som natural. O único som que mais se aproximava daquilo era guinchos estridentes, mas nem mesmo esses eram tão arranhados ou horripilantes. Nofrure e Ringo gritavam também, em coro com o ruído, agarradas aos ouvidos, e até o condutor se despistara no meio da confusão, encolhido. Aquele som era um horror torturante, e ninguém conseguia pensar com aquele martírio.

- Rudolph Liddell… - Mas era inútil. Cassidy nem conseguia ouvir a sua própria voz, quanto mais ouviria ele. Os vidros das janelas estavam a começar a abanar em ressonância, e ameaçavam estilhaçar a qualquer minuto.

Não ouve outra alternativa. Fechou o punho e os olhos, e no minuto seguinte tinha acabado. O violino desvanecera-se antes de cair, e ele agarrava-se ao maxilar, com dores. Cassidy, no entanto, também sentia dores na mão, pelo murro, mas, ao menos, já não tinham aquele ruído hediondo a invadir-lhes a cabeça. Lentamente começavam a voltar ao normal.

- Da próxima vez que quiseres matar alguém, fá-lo com as tuas próprias mãos. Eu não to empresto mais vez nenhuma. – Resmungou, agreste. Ele também não estava com melhor cara.

- Toco tão bem como tu. – Não só sabia o que a irritava, como também era um excelente actor. Estava a imitá-la tão perfeitamente que a ivoriana sentia o sangue a ferver.

- Como assim?

- Oh, sim. É horrível, temos sempre que tapar os ouvidos, felizmente sempre dá dor de cabeça a quem estiver no caminho. Eu não sei o que te deva oferecer, se um livro se aulas numa escola. – Nofrure estava de costas, a olhar para fora, e Ringo tinha a cara tapada, mas, naquele momento, pareceu-lhe que até o condutor se ria da cara dela.

E aquilo atingira-a num ponto inesperado. A verdade é que ela só era relojoeira por não ter tido coragem para realizar qualquer um dos seus sonhos. Concluíra o curso na escola, de encantamentos e alquimia, mas o diploma estava perdido nalgum canto, a ganhar pó. E fora, na verdade, negada cinco vezes para entrar numa orquestra, fora o número de concursos em que, simplesmente, nem sequer conseguira entrar por não ter "nível" suficiente. Acabara por manter o negócio dos pais, mais como uma obrigação para si mesma do que por favor à família.

- Muito bem. Se achas que podes fazer melhor. – Estava outra vez a falar baixo, mas calma. Entregou-lhe o instrumento sem mais uma palavra e saiu, uma vez que, entre toda aquela confusão, já tinham chegado aos portões da Universidade. Rudolph ficou a olhar para aquilo com um ar estupefacto, sem saber o que lhe fazer.

- Sabes, Liddell? Achei que depois de tudo o que ela te fez, já tinhas aprendido a ficar calado. Pois eu vou fazer apostas. Quanto tempo de missão achas que ele vai aguentar sem ser estrangulado, isto é, se ele chegar inteiro à TARDIS? Aposto que dura meia hora. Ou menos!

Ringo ria-se, contando pelos dedos, e Rudolph voltava a estar desesperado, e a sentir um aperto na garganta. Detestava admitir, mas estava com medo.