N.A.: Aeeee, acabou. Não sei se alguém lerá isso, mas eu me orgulho demais dessa fic! Finalmente a terminei!
Espero que gostem do fim!
Sem bategm, sorry!
Boa leitura!
Capítulo 6 - Hardest Of Hearts
Quantas vezes havia ficado com medo? Quantas vezes sentira dor? Quantas vezes vira o herói perecer e o vilão triunfar? Entretanto, aqueles eram outros tempos. Já não mais existia somente certo ou somente errado. Não, aqueles tempos eram outros e existiam meios termos. Aqueles tempos eram outros e mesmo com a morte do homem mais temido do mundo bruxo e do mundo muggle, ainda existiam pessoas que conheciam o certo e o errado, e os faziam do mesmo modo. Afinal, o que consideramos certo e errado esconde-se dentro de cada um de nós, e cabe apenas a nós mesmos fazerem disso lei.
Não conseguia entender como fora cair em tal truque. Como se deixara enganar com facilidade em tempos como aquele. Porém, já não havia nada que pudesse fazer. Nada que pudesse ser desfeito, seu destino estava traçado e sua vida seria aquela. O fim dela seria aquele. Respirou fundo, a dor em suas costelas quebradas a fizeram gemer baixo.
Levantou a cabeça e sentiu sangue escorrer de sua testa para a lateral de seu rosto e sua língua - inconscientemente - vasculhou a boca para saber quantos dentes tinha perdido. Lembrava-se há quantos dias estava ali? Lembrava-se qual fora a última palavra que dissera para Charlie? Para Harry e Draco? Para a última pessoa que vira? Quem fora a última pessoa que vira? Engoliu em seco, mas não havia nada a não ser sangue a ser engolido. E o gosto metálico seguiu-se de outro gemido de dor.
Fechou e abriu os olhos com o barulho da porta de ferro abrindo-se a suas costas. Não precisava virar a cabeça, ele sempre fazia o mesmo barulho arrastado e a bengala lhe ajudava a andar, ritmando seus passos. Ele não lhe disse uma palavra desde que a capturara, não havia necessidade. Ele apenas precisava torturá-la e matá-la, apenas isso. Ele estava eliminando as pessoas erradas de sua vida, e ela fora uma das maiores. Um dos maiores empecilhos quando era apenas uma pré-adolescente, quando era uma garota e agora quando era uma mulher. Uma bruxa inteligente, sensitiva, guerreira; porém, nascida muggle.
Não levou tempo algum para aproximar-se dela, parando a sua frente, olhando-a. Via como ela o observava, esperando pelo fim. Esperando pelo desfecho que ambos sabiam qual era. Puxou sua varinha da bengala. Não era apenas o fim de mais uma de suas inimigas, mas era também o fim de mais um muggle. Não que aquilo importasse agora. O recado havia sido dado, Voldemort plantara o preconceito, o medo, a dor e a destruição no coração de cada uma das pessoas vivas no planeta. Não precisava preocupar-se com apenas uma muggle, mas aquela era especial. Aquela em particular estava em sua lista há anos. Aquela em particular era uma das que Lucius teria mais prazer em matar.
O silêncio do cômodo era apenas quebrado por ambas as respirações. A de Lucius mais baixa, calma, ritmada, como as batidas de seu coração. A de Hermione mais alta, mais chiada e entrecortada, como estava seu coração. E esse coração quebrava-se junto com a dona amarrada aquela cadeira, com o corpo machucado, torturado e sangrando.
Olhou Lucius apenas mais uma vez e foi como se toda as pessoas mortas naquela Guerra insana aparecessem atrás dele. Como se estivessem ali para ajudá-la a atravessar essa ponte, a finalmente, ir embora, ser feliz, ser alguém. Ron, Ginny, Lupin, Sirius, Molly, Severus, Dumbledore, Minerva, Moody, Arthur, Tonks e seus pais. Todos estavam ali, da forma como ela lembrava deles, da forma como eles eram, sem acrescentar nada, nem diminuir. Cada um com sua particularidade e cada um com seu modo de olhá-la diferente. Sentiu cada sentimento entrando por suas feridas, sentiu-os subindo por cada pequena célula, inundando seu sangue, aquecendo suas veias. Eles estavam ali para levá-la para casa, e nada que Malfoy fizesse agora, poderia tirá-la daquele alívio.
Olhou os olhos cinza frios e mortos daquele homem já tão velho e debilitado mentalmente e sorriu. Fechou os olhos e levantou a cabeça para o teto, apenas esperando o fim. Não havia nada mais que pudesse fazer, a não ser esperar, e não esperou tempo demais. Logo a cabeça de Hermione pendia para a frente, a vida já havia deixado o corpo e Lucius Malfoy abaixava a varinha, apontada pela última vez para a garota mais inteligente de todos os tempos.
Entrou em desespero, já haviam se passado mais de três dias e ninguém, exatamente ninguém, de nenhum dos lados, de nenhum dos mundos a tinha visto. Draco temia pelo pior, e observava Harry pelo canto dos olhos. Era um constante estado de alerta, um estado constante de tristeza. Hermione Granger estava desaparecida, e todos ali temiam o pior, mesmo que ninguém falasse.
"Harry, considere Lucius."
Draco disse alto o suficiente para que todos os presentes escutassem. Sim, ninguém dissera o nome dele temendo a quebra total de Harry, mas Draco já o via quebrado, não temeu. Não teve medo algum de dizer o que todos pensavam, e não teve medo algum da reação de Potter. Não mais o temia, há tempos.
"Ela foi um grande empecilho na vida dele." Continuou sem comentários extras. Olhos azuis, verdes, sérios, raivosos, tristes lhe observavam. A coragem de Draco ofendia e orgulhava. Alguns já perdiam as esperanças, alguns já haviam desistido, alguns ainda a procurariam até o fim de suas vidas. Harry não encaixava-se em nenhuma das alternativas. Draco aproximou-se dele. Os olhos verdes frios lhe miravam sérios, mas Draco via a dor. Via que a cada palavra ele desacreditava mais que a achariam, e se a achassem, nunca seria viva.
Segurou o braço magro e de pele fria dele. Viu-o fechar os olhos, a máscara fria e sem emoções tornando-se uma máscara de dor. E todos ali parecia ligados as emoções de Harry. Draco viu que após a demonstração de Harry todos começaram a demonstrar. Todos começaram a sofrer, chorar, entender. E doía cada vez mais neles, conforme doía cada vez mais em Harry.
"Tem que entender que ele pode ter a encontrado..."
"Eu sei."
Olhou Draco nos olhos e quis chorar. Quis gritar e chorar, e berrar e bater. Porém, ele não era o culpado. Ele não ficaria ali esperando pela próxima leva de culpa, não seria quem eles apontariam o dedo, ele estivera ali o tempo todo. Malfoy estava há seu lado, e isso eles nunca poderiam dizer que era traição. Ele fora morto pelo pai, e agora era apenas alguém diferente a seu lado. Encostou sua testa no ombro dele, a camiseta branca encardida raspando contra sua pele. Sentiu-o rodeando sua cintura com os braços magros. Sentiu a respiração dele e os lábios em sua cabeça. Quis chorar, mas não mais sabia o que aquilo era. Como fazer aquilo.
"Ela está morta."
Charlie ouviu as palavras de Harry, e por mais que não acreditasse, sentia a paz dela. Sentia a paz que sentira quando Ron morrera, quando seu pai e sua mãe morreram. Charlie sentira que ela nunca mais poderia sofrer, nunca mais poderia chorar. Estava em paz. Finalmente. Prometeu ali que morreria, mas que ajudaria a acabar com essa Guerra.
Era como se fosse aquele começo, aquela cena que ele não poderia impedir, que não conseguia impedir. E por mais difícil que fosse, era a única saída. Ele não via vida, não via fim, não via felicidade. Amor era para quem sobrevivesse, amor era para quem pudesse ter. Eles estavam fadados a morrerem, estavam destinados a sucumbir perante o mal, e esse mal sucumbir perante eles. Era um ciclo, e ali todos eles encontravam o fim.
Primeiro foi a notícia concreta de que Hermione Jean Granger estava morta. Seu corpo fora encontrado em um parque no centro de Londres. Logo após as notícias correram rápidas - em jornais muggles e bruxos - sobre a dizimação de dois grupos de Aurors e muggles da resistência. A notícia da morte de Remus Lupin, o Lobisomem, não chocou quase ninguém. As pessoas sabiam que ele não voltaria da empreitada e os que ainda guardavam alguma esperança, a perdiam naquele momento.
A notícia seguinte devastou ambos os lados; Death Eaters e Aurors. Muggles estavam montando uma resistência contra bruxos - em seu geral -: armas químicas, armas de fogo, de destruição em massa, assassinos de aluguel, toda sorte de morte. O mundo tornara-se um campo de Guerra, e não podia se confiar em ninguém. Tudo estava em cacos, e nunca mais seria o mesmo. Ninguém seria mais o mesmo.
Olhou-o nos olhos e viu o ódio, a raiva, o medo, e a tristeza. Afinal, o único sentimento em comum em cada pessoa viva no mundo era a tristeza. E todos conseguiam identificá-la. Era como uma marca permanente nas íris, um emblema usado em todas as roupas, um compasso marcando a batida do coração. E machucava quem via, quem sentia, quem sabia que ela existia, e o porque dela existir.
Levantou-se soltando devagar o corpo de Harry no chão, os olhos colados aos olhos dele. Não tinha medo de Lucius, nunca o tivera. Mas tinha medo de si. Medo do que seria capaz antes de morrer, medo do que faria com ele. Draco vira sua mãe morrer e Lucius nada fazer. Draco ouvira as mentiras do pai contra Potter, e nada fizera. Draco fizera uma Guerra acreditando que um lado apenas estava certo, e aquilo tudo estava errado.
"Os dias foram mais curtos depois de..." Balançou a cabeça e passou os dedos sujos e magros pelos fios platinados imundos. Balançou a cabeça novamente e olhou para trás.
Não tinha a mínima ideia de como Lucius descobrira onde eles estariam, mas isso já não importava. Todos conheciam seus rostos. Todos sabiam quem eles eram. Não seria estranho que mais Death Eaters aparecessem, ou a nova Resistência, ou mesmo a ajuda atrasada como sempre. Não, aquilo já não importava. Enterrar os amigos, aliados, poderia ser deixado para outra pessoa, eles agora estavam ali próximos da morte.
Desceu seus olhos cinza para Harry. Sabia que ele estava morto, frio como o inverno. Sabia que ele não morrera com arrependimentos. Ele queria morrer, e sabia que em poucos minutos Draco o seguiria. Draco vira em seus olhos, aquele brilho que só estava presente quando estavam juntos, abraçados, sentindo o corpo um do outro, o sentimento forte chamado amor, que sentiam um pelo outro.
Sorriu e virou-se de frente para Lucius. Harry entrara na frente do feitiço por si, e morreria por ele. Pelo mundo, pela Guerra, por Severus, por Granger, pelos Weasleys, por Lupin, por Death Eaters, por muggles, por tudo que fora destruído, por tudo que ainda seria destruído.
Mordeu o lábio machucado e abriu os braços. Lucius observava-o com raiva, mas ao mesmo tempo Draco via o ódio e a tristeza. A dor de matar o último de sua linhagem, o único filho, o que ele ainda poderia chamar de família, mas decidira não o fazer.
"Você me enoja."
Draco sorriu e permaneceu na mesma posição, fechando os olhos e dizendo as últimas palavras que queria que fossem ditas por sua boca.
"Estou indo, mãe. Já te encontro, Harry. Adeus, pai."
A maldição da morte quase não foi ouvida por Draco, mas Lucius a disse, e da ponta de sua escura varinha, um jato de luz verde escapou, acertando o rapaz de braços abertos e roupas imundas, em cheio.
O corpo de Malfoy foi lançado brevemente para trás e caiu alguns metros longe de onde o corpo de Harry estava. Lucius viu que ambos estavam magros, sujos, brancos demais. E nada disso lhe trouxe arrependimento. Entretanto, a cena que tinha presenciado antes de acertar Potter, lhe fez sentir como se fosse Voldemort. A felicidade de outra pessoa sendo seu veneno, e sua felicidade sendo a dor e a tristeza de alguém.
Viu quando eles chegaram no cemitério, os olhos procurando pelas lápides certas dos amigos que seriam enterrados. Lucius sabia que eles estariam ali, eles estava saindo do esconderijo, eles estavam enfrentando o perigo. Porém, antes de atacá-los, viu. Viu Draco abraçando Potter, viu como Potter o beijava, como eles pareciam apenas um. E aquilo o feriu. Aquilo o machucou.
Draco estava finalmente e genuinamente feliz, e ele nada tinha com isso. Ele estava o mais afastado, o mais contrário ao que a felicidade de Draco era, e aquilo lhe machucou. Matar Potter foi apenas um alívio, mas matar Draco lhe tirou o último pedaço de sanidade. De vida. De dor. De tristeza e de alegria. Sentou-se, jogando a varinha de lado. Logo os Aurors estariam ali. Logo eles lhe levariam preso. Logo receberia o beijo que levaria sua alma, mesmo que essa já estivesse longe há anos.
Respirou fundo e observou o sol se pôr. Lucius terminava o curso que começara há muitos anos. E que levara vidas demais. Mas que nunca mais terminaria. Nunca mais se esqueceriam o que houve naqueles anos. Nem mesmo bruxos ou muggles. Ninguém nunca mais esqueceria o que houve, quem começara a Guerra e quem terminara. E quem matara o herói e quem eliminara o vilão. Ninguém esqueceria nada. E uma Guerra tem esse propósito, marcar, ferir, abrir diariamente o machucado que nos lembra o que houve, e como devemos temer uma nova Guerra, chorar, sofrer, viver ao máximo e ser o mais feliz possível. Sempre. Até a morte.
Fim.
