Porque você não pode sair dos trilhos

Somos como carros num cabo

E a vida é como uma ampulheta colada à mesa

Ninguém consegue achar o botão de "voltar" agora

Então coloque a mão na consciência

E respire, apenas respire

Sandor abriu os olhos e viu apenas a escuridão, uma vez que velas já tinham se consumido por completo. Seu coração batia fortemente contra o peito, lutando para sair pela sua boca. O suor escorria frio em sua nuca e todo o seu corpo tremia, em medo.

Puxou uma garrafa de whisky debaixo da cama e entornou-a, esvaziando quase completamente seu conteúdo de uma só vez e sentindo-se um pouco, mas só um pouco, melhor.

Ao seu lado, Sansa murmurou alguma coisa ininteligível enquanto dormia. Algo pequeno se mexeu debaixo de seu braço e Sandor suspirou aliviado, mas ainda tremendo de medo.

Ele pegou Aryanna no colo e a deitou em seu peitoral, apertando-a contra si com o máximo de força que o seu corpinho de recém-nascida o permitia. Ela tinha pouco mais de trinta e cinco centímetros e cabia perfeitamente na mão de Sandor. Vista de cima, parecia ainda menor e mais frágil.

A cena em que Gregor a matou brutalmente passou pela cabeça de Sandor, e Aryanna emitiu um grunhido involuntário quando ele a apertou com força demais.

Sansa abriu lentamente os olhos e sorriu ao observar Sandor abraçar a bebê, que parecia ainda menor nos braços dele. Escorregou para mais perto dele, abraçando-o.

Ele retribuiu o abraço com mais força do que ela esperava, como se estivesse desesperado e com medo de perdê-la.

– O que houve? – ela perguntou pondo a mão em cima da dele, nas costas da bebê.

– Eu prometo que nunca vou deixar nada de ruim acontecer a você ou a Aryanna – ele entrelaçou os dedos nos dela e os apertou firmemente.

– Eu sei que sim – ela murmurou contra o peitoral dele e voltou a adormecer minutos depois.

Sandor passou o resto da madrugada balançando Aryanna em seu peito ou acariciando o rosto de Sansa.

Quando os primeiros raios de sol iluminaram o quarto, Aryanna acordou inquieta à procura de leite materno. Sandor descobriu um seio de Sansa, que ainda dormia, e fez com que a bebê mamasse sem acordá-la. Minutos depois Aryanna afastou-se do seio de Sansa com uma mãozinha e se espreguiçou lindamente.

Sandor sorriu e levantou, pegando-a no colo e pondo-a sentada em seu braço com a coluna reta e a barriga contra o peito dele. Com a outra mão ele batia levemente nas costas dela, estimulando-a a arrotar. Não demorou muito tempo para que ela emitisse um curto e rápido arroto e regurgitasse um pouco de leite. Ele a limpou com um paninho que estava na cabeceira da cama e saiu do quarto em direção à cozinha, onde encontrou Arya afiando sua espada.

– Acordou cedo, garota – ele comentou pondo um pouco de água para ferver.

– Não se espera que alguém possa dormir enquanto sua irmã divide a cama com um assassino – ela replicou friamente.

– O sujo falando do mal lavado – ele riu - Vai me dizer que nunca matou ninguém com essa belezinha que tem nas mãos, Arya Stark? Você tão assassina quanto eu.

– Eu tenho meus motivos.

– E eu, os meus – ele deu de ombros – Mas que motivos você poderia possivelmente ter para matar uma pessoa? – perguntou – O cara que você estava a fim te deixou sozinha, foi? – ele não obteve resposta alguma da garota, que encarava fixamente a lustrosa espada a sua frente, com uma expressão indecifrável – Sério? Sério mesmo? – ele riu alto e trocou Aryanna de braço – Sansa vai adorar saber disso.

Ela não respondeu nada, apenas o observou jogar a água quente num balde e misturar com água fria, testando a temperatura com a mão e acrescentando mais água fria. Tirou a fralda de pano de Aryanna e jogou no canto da cozinha, pondo devagar a bebê na água morna, segurando a cabeça dela com cuidado.

Arya assistia à cena genuinamente surpresa.

– Eu nunca imaginei que gostasse de crianças – ela disse.

– Oh, eu as odeio, tenha certeza disso.

– Não parece odiá-la.

– Claro que não. Ela é minha filha. – Sandor a encarou, perplexo.

– Nem todos os pais amam os filhos, sabia? – ela disse, como se fosse óbvio – E tome cuidado com o umbigo - ela o preveniu quando o viu passar o sabão neutro diretamente no local – Pode inflamar, e acredite, você não quer que isso aconteça.

– Como...?

– Eu via minha mãe fazer isso com Bran e Rickon.

– Certo – ele murmurou, surpreso.

[...]

Sansa acordou e procurou por Sandor e Aryanna ao seu lado, mas tudo que encontrou foi uma cama fria e vazia.

Levantou-se e foi para a sala, deparando-se com a cena mais inusitada de sua vida.

– Ótimo – Arya disse, sentada de frente para Sandor – Agora deslize a ponta dos dedos, do meio da testa para os lados, ao longo das sobrancelhas.

Ele estava sentado no chão com as pernas esticadas e Aryanna deitada sobre elas. Ele fez o que Arya lhe disse e a bebê fechou os olhos, apreciando a sensação.

– Coloque os dedos entre os olhos e deslize pelas laterais das narinas, contornando a boca e o maxilar em direção às orelhas. – virou-se para Sansa – Lembra que a mãe costumava fazer massagem no Rickon quando ele estava muito inquieto?

– Eu lembro que ela te massageava quando você estava inquieta.

– Oh, você nunca vai adivinhar – Sandor disse para Sansa – Ela se apaixonou e o cara a largou.

– Pobre Arya – Sansa caminhou em sua direção, abraçando-a – Deve estar tão desiludida.

Arya se desvencilhou dela com uma careta no rosto.

– Não, não estou! Eu não o amava, nem nada do tipo! Ele só era lindo e eu queria beijá-lo, apenas isso.

– E por que...

– Sansa, você não quer ouvir isso. Até porque no momento eu estou tentando fazer com que o incompetente do seu marido massageie decentemente a minha sobrinha.

[...]

– Sansa – Sandor chamou-a baixinho para não acordar Aryanna, que dormia tranquilamente entre eles.

– Sim? – ela respondeu no mesmo tom.

– Quando chegarmos em Winterfell, o que faremos?

– Como assim?

– Estamos indo morar lá ou vamos apenas visitar? – ele perguntou e ela demorou um pouco antes de responder.

– Também estive pensando nisso. Eu quero rever minha família, certamente, mas eu não sei o que faremos a seguir. Eu não quero morar no norte. Eu... estou feliz, aqui. Robb agora é rei. Se ele quiser me ver, ele poderá vir até mim. Arya vai regressar e informa-los sobre nós. Tudo ficará perfeito.

[...]

– É melhor que você cuide delas – Arya advertiu Sandor num sussurro antes de se pôr a caminho de Winterfell montada em seu alazão, após ter se despedido de Sansa e de Aryanna com beijos.

– Essa é a única certeza que você terá na vida – ele a respondeu, entrando na casa assim que ela sumiu de vista – San? – ele a chamou.

– Na cozinha – ela o informou sua localização.

– Vou à Vila e volto daqui a pouco, certo? – ou talvez não volte.

Sandor a beijou profundamente e tocou a bochecha de Aryanna, para dar sorte,pensou.

[...]

Quando Sandor fechava os olhos ele ainda podia ver Gregor segurando sua filha de cabeça para baixo e decapitando-a, além do sangue jorrando do lado esquerdo do peito de Sansa.

Sandor brandiu sua espada tão violentamente que o gorjal de Gregor não fora suficiente para protegê-lo do ataque furioso de Sandor contra o seu pescoço.

Viu o sangue dele manchar a terra de vermelho e dessa vez pôde sorrir, sabendo que suas garotas estavam sãs e salvas em casa.