Ponteiros desajustados


Capítulo 7


Pouco tempo depois de começar a fazer os trabalhos com Tenten e, portanto, a andar e conversar mais com ela, Neji concluiu que se conheciam o bastante para poder cumprir a "promessa" que fizera aos pais sem causar um enorme estranhamento a ela.

- Se importa se finalizarmos o trabalho de história na minha casa, amanhã? – Ele perguntou.

- Não, por mim tudo bem – sequer levantou os olhos do livro que estava estudando.

Era sexta-feira e eles estavam buscando mais informações para o trabalho na biblioteca municipal.

- Que horas?

- Ah, eu não sei. Por mim qualquer horário está bom. Não costumo fazer muita coisa aos sábados.

- Pode ser de manhã? Umas dez horas talvez?

- Não vamos conseguir acabar antes do almoço – ela finalmente olhou para ele, erguendo bem o rosto para poder vê-lo sem a aba da boina que usava atrapalhar.

- Acho que não. E qual é o problema?

- Onde eu almoçaria? Eu não sei você, mas eu não costumo pular refeições.

- Ah, você pode almoçar em casa.

- Neji, já vai ser bem duro de os seus pais me engolirem só indo para fazer o trabalho. Se eu almoçar lá, alguém vai me pôr pra fora a tapas – esclareceu.

- Isso com certeza não vai acontecer – ele baixou a cabeça, como quem tem um problema.

- Como pode assegurar?

- Ah, é que meus pais... Ah, eles foram com a sua cara.

- E o que isso quer dizer, em termos mais claros?

- Quer dizer que foram eles que pediram para você ir um dia desses lá em casa...

Ela encarou seus olhos por um bom tempo, como se tentasse analisar as chances de estar sendo enganada.

- Está bem. Dez horas, amanhã, na sua casa.

- Tem alguma coisa que você não goste de comer? Minha mãe vai perguntar isso mais tarde.

Mais uma vez ela o encarou. Ele percebeu que a expressão dela era de estranhamento. Talvez nunca tivesse estado numa situação daquelas. Por fim, ela respondeu sucintamente à pergunta dele:

- Detesto ameixas.

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- Neji, vem abrir a porta! A campainha não está funcionando – ele a ouviu gritar do lado de fora de sua casa, enquanto tomava chá com os pais.

- Já vou – respondeu.

Ele levantou da mesa. Himawari e Hizashi limitaram-se a sorrir amplamente, sem comentários a mais.

Logo os dois adolescentes adentravam a cozinha. Neji sentou sem constrangimento à mesa, mas Tenten ficou em pé, observando. Os pais do rapaz lhe devolviam o olhar, mas com divertimento.

- Por que não se senta, jovem? – Himawari ofereceu.

- Ah, eu me sentiria uma intrusa. Está bom para mim do jeito que está – sorriu.

- Tudo bem, então, mas, mesmo assim, tome chá. Não está quente, não. De quente já basta o dia de hoje. Não sei como conseguiu andar com essa roupa debaixo deste Sol.

Tenten olhou para suas vestimentas, fazendo uma breve análise de si mesma: o macacão tinha pernas compridas – nada bom para dias quentes; a camiseta era larga e branca – não fazia mal vestir no calor; os tênis eram escuros – realmente poderiam cozinhar os pés de alguém; as luvas não tinham dedos – o que não mudava o fato de esquentarem; e, finalmente, um boné azul claro encobria os cabelos – era bom usar bonés para caminhar no Sol, certo?

Depois disso, concluiu que boa parte da roupa só fazia aumentar sua temperatura, mas mal sentia isso:

- Já estou acostumada – acabou respondendo.

- Bom, costume ou não, o chá gelado vai refrescar – desta vez, fora Hizashi que oferecera o chá. Já tinha o copo dela em mãos.

- É, acho que vou aceitar – rendeu-se.

Não demorou muito e ela e Neji foram para a sala de estar fazer seu trabalho.

- Para quê o livro sobre feudalismo, se estamos fazendo um trabalho sobre revoluções burguesas, Neji?

- Achei que seria bom comparar a passagem do feudalismo para a era dos reis com a passagem da era dos reis para a era das burguesias.

- Está arrumando para nossas cabeças – ela lamentou.

O trabalho foi todo permeado por comentários daquele tipo – o porquê disso e daquilo, o que saía e o que ficava, como seriam os tópicos. Enfim, boas horas só de "informações escolares".

Perto do meio dia, Tenten viu o pai de Neji – que ela sequer havia visto sair – voltando da rua com uma sacola de compras.

- Seu pai foi fazer compras?

- Ah, provavelmente só umas comprinhas bobas para ele fazer o almoço – o garoto respondeu, enquanto lutava para apontar um lápis teimoso.

- Seu pai vai fazer o almoço?

- Deve ser o dia dele.

- Dia dele?

- Meu pai e minha mãe trabalham, embora minha mãe dê aulas particulares aqui em casa mesmo, então eles dividem todas as tarefas... A divisão doida deles me inclui para cuidar de não bagunçar e dar jeito nas minhas coisas e às vezes me escolhem aleatoriamente para alguma tarefa qualquer, mas eles dividem todo o resto. Desde passar pano nos móveis até cuidar de lavar, estender, passar e guardar a roupa. Tudo. É meio irritante.

- Seus pais fazem mesmo isso? Quero dizer, dá certo mesmo com eles? – Ela perguntou com surpresa.

- Ah, nunca vi brigarem por isso.

- Puxa, isso não se parece muito com a maioria das famílias que conheço...

- Meus pais não são normais... – Ele resmungou.

- Acho seus pais perfeitamente normais. Eles só não são comuns. Além disso, eu vou te dizer uma coisa, mas porque eu me sinto sua amiga, só.

- Diga.

- O meu pai não foi capaz sequer de dividir com a minha mãe a responsabilidade por mim.

A reação dele foi apenas silêncio. E, de toda forma, pouco importava a ela se ele quisesse interrompê-la. Não daria a ele esse gosto, não nesse assunto.

- Em vez de reclamar de que isso ou aquilo é irritante, perceba a sorte que você tem. Seus pais estão juntos e cuidam de você. Dê-se por satisfeito com as poucas tarefas que te sobram.

Neji sentiu certo aperto no peito, mas não daria o braço a torcer tão fácil. Manteve ainda o silêncio por um tempo, ruminando a fala dela, para pouco depois rezingar:

- Você tem um jeito estranho de encarar as coisas... – Ele analisou o que acabara de dizer e tirou de lá uma terrível conclusão: - O mesmo jeito doidão dos meus pais! Ah, credo! É por isso que eles simpatizaram com você antes de te conhecerem!

- Não seja estúpido, Neji! – Ela retrucou, com a face zangada.

- Ei, crianças – Hizashi chamou-os, sabendo que a nomeação infantil poderia incomodar os dois adolescentes.

- Pai, criança não, né? Aí você força – Neji ralhou.

- Ora, Neji, deixe de ser ranzinza. Eu só queria saber se podem me dar uma ajudinha aqui. Eu demorei demais para chegar e já é hora do almoço. Preciso adiantar.

- Pai, estamos no meio do trabalho.

- Vocês estavam conversando e não era do trabalho – seu pai tornou.

- O almoço nem tem pressa... – Neji choramingou.

- Não tem problema – Tenten se manifestou. – Você pode adiantar o trabalho e eu vou ajudar seu pai.

- Vai me deixar fazendo o trabalho sozinho?!

- Não seja dramático, Neji! É sua vez de escrever o trabalho. Vá passando a limpo o que já está finalizado.

- Você é... Ah... Droga! – Deu-se por vencido, enquanto ela já se dirigia à cozinha.

-0-

- Obrigado por se oferecer para me ajudar, Tenten. Neji não é muito dado à cozinha, a menos que seja para se sentar à mesa e comer.

- Tudo bem. Eu gosto de cozinhar... – Ela sorriu.

- Então, vamos.

- Ah, senhor Hyuuga?

- Sim?

- Teria um prendedor de cabelo?

- Desde que comecei a seguir o exemplo do meu filho – referiu-se ao cabelo comprido –, sempre tenho um ao alcance – respondeu, entregando a ela um prendedor preto.

Ela olhou para o prendedor e depois para o homem que o emprestara a ela. Suspirou. Não tinha mesmo o que fazer.

Tirou o boné e seus cabelos caíram. Começou a trançar os fios e, então, prendeu o penteado.

- O boné atrapalha, mas eu não posso deixar o cabelo cair na comida – explicou-se.

- Fica bem de trança, mocinha – foi a resposta que obteve.

- Minha mãe... Diz a mesma coisa – sorriu.

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- Hizashi, o tempero do seu frango está muito bom! O que colocou de diferente? – A senhora Hyuuga perguntou.

- Eu bem que queria saber – ele riu.

- Não acredito que foi jogando os temperos aleatoriamente de novo, Hizashi Hyuuga!

- E nem precisa acreditar, Himawari Hyuuga – ele continuou rindo. – Eu não aprontei nada desta vez.

- Não? Mas eu juro que está diferente... – Ela estranhou.

- E está. Mas a culpa não é minha.

Ela o olhou sem entender. Ele sorriu e continuou:

- Nossa convidada – apontou para Tenten, que comia em silêncio – foi quem temperou os filés.

- Mesmo? – Ela olhou para a mais jovem, que já usava mais uma vez o boné, buscando a resposta.

- Bem, eu realmente temperei o frango a meu modo – respondeu, olhando ora para sua interlocutora, ora para o prato. – Espero que não seja um problema...

- Imagine, está bom deste jeito. O que usou?

- Nada especial. Azeite, limão, tempero para aves e curry.

- Mas só? Não pode ser.

Neji sentia vontade de enfiar a cara na salada de frango ouvindo aquela conversa.

- Mãe, para de conversar sobre... cozinha!

- Não tem problema nessa conversa, menino!

- Ah, mãe, não... Não é essa a questão. É que... – Tentou apontar discretamente para a amiga com a cabeça, mas falhou.

- Neji, eu gosto de cozinhar. Esse assunto não é nem um pouco incômodo para mim –respondeu, com o rosto ligeiramente enrubescido, evitando olhar para ele. Parecia se dividir entre vergonha e raiva. Ela entendeu muito bem onde ele queria chegar.

Hizashi percebeu a situação ruim em que seu filho metera a si próprio e desconversou:

- Sobre o que é mesmo o trabalho de vocês?

- Revoluções burguesas.

- Muito interessante...

- E o que concluíram de diferente sobre elas durante o trabalho? – A mãe de Neji manifestou seu interesse.

- Na verdade, acho que de diferente nada – Tenten dialogou de verdade pela primeira vez desde que se sentara àquela mesa. – Penso sobre elas o que penso da maior parte das revoluções: cria-se um ideal muito bonito e sedutor. As pessoas caem de amores e pensam que ali está a solução de seus problemas. Elas lutam, guiadas por pessoas que raramente se enfiam nos mesmos buracos que elas em nome da causa. Elas sofrem e até morrem. Um dia, o ideal deixa de ser fictício e se torna real. E as pessoas descobrem, uma vez mais, que a realidade é muito mais tirana do que o doce sonho em que acreditaram...

- Diz isso por causa de Robespierre, penso? – Himawari continuou.

- Sua mãe sempre gostou de história – Hizashi sussurrou ao filho.

- Só para começar! Ele não era o único responsável pelo Terror, afinal – Tenten continuou falando com a mulher mais velha.

De alguma forma que Neji não soube precisar, o assunto se estendeu. Em minutos, a conversa havia pulado de Revoluções Burguesas para sociólogos renomados, seguindo para geopolítica atual e, de uma forma ainda menos precisa, para o programa de humor do sábado anterior.

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- Então, Neji, tinha o hábito de "confundir" sua jovem amiga Tenten com um rapaz? – A senhorita Mitarashi perguntou.

- Ah – ele engasgou um pouco. – Eu já disse para a senhora que eu passei a fazer dela um amigo.

- Sim, Neji Hyuuga, mas fazer dela um amigo pode simplesmente querer dizer que vocês faziam somente "coisas de garoto" juntos. Não quer dizer que falar dela no masculino fosse rotineiro.

- Vai mesmo me fazer dizer, não é?

- Eu estou aqui para isso, jovem Hyuuga. Tem que admitir e aceitar suas falhas.

- Está bem. É verdade, eu fiz exatamente isso. Eu usualmente, costumeiramente, cotidianamente falava dela como quem fala de um homem.

- O quanto acha que aquilo incomodava a ela?

- No mínimo muito.

- E por que continuava?

- Eu não sei, não era proposital. Era... Eu não sei...

- Instintivo?

Ele não foi apressado em responder. Ele realmente avaliou o significado daquela palavra. Queria ter certeza de que era ela a palavra certa para explicar sua situação.

- Sim, creio que era isso mesmo.

- Compreende o que é o instinto, jovem Hyuuga?

- São comportamentos irrefletidos baseados em um estímulo-chave qualquer.

- Uma definição simplista, mas adequada. Muito bem colocado, Neji. Agora, conversemos dos estímulos. O que sabe deles?

- Ah, o que qualquer leigo sabe. A necessidade de procriar a espécie nos leva ao acasalamento. A de nutrição, à busca por alimento. Coisas assim.

- Sim, você deu alguns exemplos clássicos. Basicamente, o instinto é estimulado por algo que, teoricamente, favorece a sobrevivência da espécie. Você concorda?

- Eu creio que sim.

- Então, Neji, qual era seu estímulo para, instintivamente, fazer daquela garota um rapaz em sua cabeça?


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Boa dia, boa tarde ou boa noite, pessoa. Eu sinto muito por me atrasar mais uma vez, mas eu tive uns problemas com um trabalho remunerado e isso ocupou meus últimos três dias (e talvez volte pra me assombrar hoje) de uma forma que eu mal tive tempo de comer. C'est la vie, certo?

Para compensar minha falta, estou mandando um capítulo ligeiramente mais longo que o normal. Se isso vai funcionar ou não é com você, afinal, ainda dá pra você achar que foi um saco de chatice ler isso. NO seu lugar, talvez eu pensasse isso, porque francamente de útil esse capítulo só tem o fim – isso se eu não estiver sendo gentil... Enfim, foco!

Ah, bom, acho que eu não tenho mais nada a declarar (o.Õ). Já que é assim, vou aproveitar meu surto de "não tenho o que dizer" e vou me despedir antes que eu volte a ter ideias.

Espero que o capítulo não tenha sido deveras entediante, que não haja muitos e intoleráveis erros atrapalhando sua doce leitura e que ainda haja paciência em você para suportar o que vem pela frente.

Muito grata por sua atenção,

Eu.

Besitos&Mordidas