Era uma Vez em Veneza
.5.
Seamus desviou o olhar de mim e encarou Andrej de forma suspeita.
"Quem é esse garoto?"
Andrej se encolheu, olhando para o chão e apoiando o corpo nas laterais dos pés. Fitei-o com certo aperto no peito. Tão novo... E em breve, eu não tinha dúvidas, começaria a fazer mais do que dançar e cantar no bordel de Pansy.
"É um amigo." Falei, e ele ergueu o olhar, sorrindo para mim. Sorri de volta, mas o bufo que Seamus soltou fez com que eu o olhasse, minha mente enchendo-se de perguntas.
"Eu preciso te levar de volta para o palazzo imediatamente. Vamos." Seamus segurou meu braço e começou a me puxar a passos largos. Tudo que pude fazer foi olhar para Andrej e oferecer-lhe um abano de despedida. Ele ficou parado no meio da praça, apenas olhando-nos de forma melancólica enquanto avançávamos através da variedade de pessoas que por ali transitavam.
Quando enfim chegamos a um canal e subimos em uma gôndola, Seamus mirou-me avaliativamente antes de suspirar aliviado por ver que eu estava inteiro e bem. Seus ombros pareceram tornar-se vários quilos mais leves. Depois que o alívio passou, ele me encarou com fúria.
"Eu não falei para você correr de volta para o palazzo? Sabe a confusão que criou? E a encrenca em que me meteu? Eu quase perdi meu emprego por sua culpa! Onde você passou a noite, afinal? Será que você não pensou na preocupação que iria causar no Sr. Potter e nos outros por ter sumido desse jeito logo depois de quase ser estuprado? Sinceramente, que cabeça de vento! O Sr. Potter despachou uma busca atrás de você, por praticamente toda a noite e toda a manhã! Ele está uma fera, é melhor que caía de joelhos e implore por perdão quando o vir!" Seamus descarregou tudo com os olhos faiscando como brasa quente. Eu o olhei quase chorando pelas palavras duras, sabendo que ele estava certo, e ele pareceu incerto e envergonhado ao ver-me assim, e soltou outro bufo, desviando o olhar para a água e remando mais depressa.
"Me desculpe. Eu não pensei..."
"Então pense da próxima vez!" Ele me cortou ainda sem me olhar, seu rosto transfigurado e corado.
"Obrigado." Falei baixinho, e então ele me encarou incrédulo. "Por ter me salvado, ontem. Se você não houvesse aparecido..."
"Era o meu dever." Seamus falou rápido, seu rosto ficando um pouco mais vermelho enquanto ele apertava o remo com força. Notei que três de seus dedos estavam enfaixados e duros, como se não conseguisse dobrá-los. "O Sr. Potter me mataria se eu deixasse alguma coisa acontecer com você. Ele já quase me matou por ter perdido você de vista." Ele explicou mal-humorado.
"Mesmo assim. Obrigado." Repeti com sinceridade. Ele resmungou alguma coisa e não falou mais nada pelo resto do caminho. Meu coração começou a retumbar com força conforme nos aproximávamos da casa. Eu estava com medo de encarar Harry. Eu nunca havia feito nada que o desagradasse antes, e tampouco o havia visto brabo ou irritado. Não realmente. Torci as mãos, nervoso.
Quando chegamos, observei os ornamentos mouriscos da entrada do palazzo, com sua fachada de pedra polida e seus arcos estreitos e pontiagudos. Era de um verde tão denso que a tinta usada parecia ter sido misturada com a água turva e esverdeada dos canais. Senti-me melhor quando entramos. O palazzo sempre seria o lugar onde eu me sentiria protegido e aquecido. Na entrada, as escadas que desciam curvas pelas laterais pareciam querer abraçar os recém chegados, e o tapete vermelho que as cobria e chegava até a porta dupla da entrada era como um convite de boas-vindas.
"O Sr. Potter não deve estar aqui. Ele... está resolvendo o assunto com o rapaz que... você sabe." Ele falou, subitamente sem-jeito. Mordi o lábio inferior enquanto avançávamos até a cozinha.
"Você contou a ele? Tudo? Contou tudo a ele? Você não deveria ter feito isso!" O recriminei, desejando mais do que tudo que Harry não soubesse de nada. Sentia vergonha de não ter sido capaz de me defender sozinho. Era minha culpa. Eu havia esquecido meu florete no palazzo porque era mais fácil correr e alcançar os gatos sem ele.
"É claro que eu contei! O que você queria que eu fizesse? Ele me levou até o escritório dele, chaveou a porta, mandou que eu sentasse e começou a me interrogar..." Seamus estremeceu. "Não havia como mentir."
Senti como se engolisse uma bola feita com os pelos de Mordred.
"Eu consegui fugir daqueles caras um pouco depois que você correu. Mais dois apareceram. Eu acabei com três dedos quebrados, um lábio cortado e vários hematomas... mas fugi antes que apanhasse ainda mais. Cheguei ao palazzo e me desesperei quando vi que você não estava aqui. Voltei para a rua e fiquei te procurando por horas. Quando já estava bem escuro, desisti e passei no hospital, para enfaixar os dedos. Quando voltei... bem, era melhor nem ter voltado..."
"Ele estava muito brabo?" Perguntei temeroso.
"Eu dei a ele a descrição dos rapazes. Ele já encontrou e já prendeu o que tinha uma cicatriz na bochecha esquerda. O garoto trabalhava no Arsenale, foi fácil encontrá-lo. O Sr. Potter o prendeu hoje pela manhã. Eu não quero nem imaginar o que aconteceu com ele, mas, seja o que for, ele certamente mereceu."
"Draco!" Alguém gritou quando chegamos à cozinha, e então senti braços apertados ao meu redor. Abracei Emmelice em retorno, escondendo meu rosto no peito dela. "Por Deus, fiquei tão preocupada! Como você está? Está bem?" Ela segurou meu rosto e olhou-me consternada.
"Estou bem." Garanti. Senti-me péssimo por toda a preocupação que havia causado.
"Não faça mais isso, está bem? Prometa." Emmelice pediu com os olhos úmidos de lágrimas. Meus lábios se entreabriram e me agarrei a ela novamente, começando a chorar. Romilda, Anna, Parvati e Padma também se aproximaram e me abraçaram. Frei Gorducho deu palmadinhas carinhosas nas minhas costas e falou que iria preparar um jantar bem gordo e suculento para mim aquela noite.
Quando olhei em volta, depois de toda aquela comoção, percebi que Seamus não estava mais ali.
"Ele foi atrás de Harry, avisar que você está aqui, e a salvo." Disse Anna em um tom baixo. Minhas entranhas se retorceram pelo nervosismo que eu acabei por esquecer naquele meio tempo. Tive vontade de correr para o meu quarto e me esconder lá.
E foi o que eu fiz.
Quando ouvi a chegada de alguém a casa, corri para o terceiro andar e entrei no meu quarto, fechando a porta às minhas costas e me apoiando nela. Mordred veio saltitante atrás de mim e eu me precipitei até ele, ajoelhando-me e pegando-o no colo. Ele parecia choroso ao me ver; até ele eu havia preocupado, deixando-o sozinho por um dia inteiro naquele quarto. Acariciei seus pelos e cocei seu queixo, e ele fechou os olhinhos e jogou as orelhas para trás.
Meu coração saltou quando ouvi o barulho da porta sendo aberta – passos – e depois fechada.
"Draco."
Eu me levantei e me virei com os olhos já cheios de lágrimas, mas segurei-as firmemente. Ergui o olhar e vi seu rosto fechado em uma expressão séria, os cabelos negros espetados para todos os lados e uma ruga em sua testa. Ele não parecia nada contente, e tive certeza de que estava zangado.
Ele caminhou até mim, e eu segurei a respiração quando ele segurou meus ombros e me encarou avaliativamente, como todos os outros haviam feito antes, mas os outros não possuíam olhos tão verdes que pareciam queimar contra minha pele.
"Seamus falou que encontrou você na Praça de São Marcos com um garoto ruivo. Quem era?"
Eu puxei o ar pela boca. Se eu contasse, ele rapidamente associaria Andrej com Pansy Parkinson, e eu teria mais um motivo para que ele não ficasse nada satisfeito comigo. Mas era impossível mentir para ele, como Seamus havia dito. A forma como ele me encarava, como se lesse minha a alma e estivesse atento à menor dar hesitações, ou qualquer sinal de inverdade, deixava-me completamente vulnerável.
"Andrej." Respondi, torcendo para que isso fosse o suficiente, mas, claro, não era. Meu corpo todo tremia enquanto ele mantinha o aperto firme em meus braços. Estranhamente, eu não queria que ele me soltasse.
"E quem é Andrej, Draco?"
Fechei os olhos com uma careta sofrida.
"É o garoto ruivo... que você entregou à Srta. Parkinson." Ele me soltou e virou de costas por um rápido momento, passando uma mão pelos cabelos em um gesto exasperado e suspirando pesadamente.
"Você foi até aquele bordel mesmo quando eu lhe proibi de ir até lá?" Ele questionou virando-se novamente para mim. Mas era uma pergunta que não precisava de respostas. "E por que não mandou alguma mensagem? Você tem noção do quanto eu fiquei preocupado?"
Engoli em seco. Quis dizer que não pretendia desobedecê-lo; que não quis que ele me visse naquele estado lamentável, nervoso e fraco. Não queria desapontá-lo. Nunca. Harry seria a pessoa a quem eu sempre tentaria agradar, e arrancar um olhar de orgulho. Mas não havia nenhum orgulho em seu olhar agora. Senti-me frio sem o toque dele, mas engoli as lágrimas. Homens não choram, era o que o meu pai dizia, e eu não queria mais ser um garotinho aos olhos de Harry.
"Eu não pensei. Me desculpe." Pedi baixinho.
"Eu não deveria tê-lo mandando caçar aqueles gatos. Foi um erro." Ele falou, inflexível. Eu o encarei incrédulo. "Está proibido de sair do palazzo novamente, até que prove que é responsável para tanto."
"Não pode fazer isso!" Exclamei sem pensar, sentindo os pelinhos loiros do meu braço se arrepiarem de indignação. "Eu sou responsável!"
"Correr de Seamus e se enfiar em uma rua deserta não é uma atitude responsável. Enfiar-se em um bordel e não mandar nenhum aviso muito menos! Não há discussão, Draco. Isso não é um pedido." O tom de Harry era de quem encerrava o assunto, mas eu senti meu corpo inflamar. Era isso, ele me estava tratando como um garoto inconsequente, como se a culpa de tudo fosse apenas minha!
"Eu não sou seu prisioneiro! Você mesmo falou, naquele primeiro dia, que eu era livre! Você é um mentiroso!" Praticamente gritei com uma coragem tirada não sei da onde. Mordred soltou um 'Hic!' assustado e escondeu-se embaixo da cama. Os olhos de Harry pareceram pegar fogo. "Eu deveria ter ficado naquele bordel, com a Srta. Parkinson! Ao menos ela dá liberdade de ir e vir aos seus protegidos!"
Harry avançou novamente e segurou meu queixo, obrigando-me a encará-lo nos olhos. Ele parecia furioso, mas seu toque não machucava. Senti meu coração disparar como um louco, rápido como as correntezas do Adriático.
"Você tem ideia do que está falando?" Ele perguntou, e sua outra mão passou pela minha cintura e me trouxe mais para perto dele. Eu ofeguei e espalmei minhas mãos em seu peito, mirando-o com os olhos arregalados. A expressão dele continuava tão séria quanto antes. "Sabe o que fariam com você? Como adorariam corromper o anjo de cabelos loiros? Você gostaria de algo assim?"
Meu corpo tremia inteiro de encontro ao dele. Seus cabelos negros pendiam para baixo enquanto me olhava e eu podia sentir seu perfume amadeirado. Fechei os olhos esperando por algo que eu não sabia o que era. Senti a mão que estava na minha cintura subir para o meu pescoço e gemi baixinho com o toque dos dedos ásperos. Eu não sentia repugnância ao toque de Harry, mesmo sabendo que não suportaria o de qualquer outro homem depois de tudo que eu passara. Quase pude sentir a respiração quente dele contra meus lábios, e estremeci, arrepiando-me.
Mas então ele afastou a gola que protegia meu pescoço, e eu abri os olhos, como se houvesse sentido a dureza de seu olhar.
"O que é isso?" Ele perguntou, tocando de leve o local onde o rapaz havia mordido e sugado minha pele. Eu soltei uma lamúria baixa de dor e fugi do toque. Uma raiva sem precedentes pareceu encher os olhos verdes de Harry. Ele se afastou de mim, parecendo atormentado por um momento.
"Você poderá sair do palazzo, mas não mais do que alguns metros. Não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre isso." Ele avisou. "E não volte àquele bordel. Está proibido."
"Mas...!"
"Chega." O tom de Harry fez com que eu me calasse. "Também está de castigo no seu quarto até segunda ordem."
Dito isso, ele saiu do quarto. Eu continuei parado, com o queixo caído. Mordred achou que era seguro sair debaixo da cama e se aproximou aos pulinhos de meus pés, pondo-se a roer a barra de minhas calças. Peguei-o no colo e deitei na cama. Uma mistura de mágoa, raiva e indignação pressionando meu peito.
XxX
"Eu não aguento mais. Vá embora." Falei ao professor de filosofia, levantando-me da cadeira e dirigindo-me até o meu armário. Abri a porta e tirei dali uma capa, vestindo-a enquanto o homem encarava-me incrédulo. Fazia cinco dias que eu estava preso dentro daquele quarto. Tinha aulas ali, dormia ali, não saía para nada. Ou seja, sem aulas de esgrima, tampouco de música ou pintura. Eu já me sentia sufocando ali dentro.
"Senhor, ainda faltam vinte minutos para o fim da sua aula." Meu professor, um homem idoso, de nariz adunco e um princípio de corcunda, disse-me ao ajeitar os óculos redondos no nariz. Ele não era mau professor, mas se eu ouvisse mais alguma palavra sobre Zenão de Cício, Heráclito e Epicuro eu perderia toda a minha sanidade.
"Não importa, você está dispensado." Falei, pegando Mordred no colo e deixando o quarto, mesmo sem permissão. Harry parecia ter-se esquecido de mim. Ótimo, então ele não se importaria se eu desse uma escapulida. Eu precisava sair um pouco daquele quarto. Nem esperei para ver a reação do professor.
Quando cheguei à cozinha, encontrei apenas Frei Gorducho por ali, esfregando ardorosamente uma grande panela de metal, suor escorrendo por sua testa oleosa pelo esforço. Ele me olhou de esguelha e não pareceu impressionado por eu estar fugindo do castigo.
"Eu já estava me perguntando quando você apareceria por aqui." Ele comentou sem parar de esfregar. "Você faz falta, pequeno! Nem que seja para torcer o nariz para os meus temperos."
Fiz uma careta.
"Você é ótimo cozinheiro, mas tem de parar de inventar novas combinações de temperos." Falei, internamente sentindo-me ótimo por simplesmente poder conversar com alguém diferente de um professor. Larguei Mordred em cima do balcão da cozinha e alcancei uma cenoura a ele.
Frei Gorducho soltou uma risada espalhafatosa.
"Mas esse você vai gostar, venha cá experimentar! Deixei separado aqui para você." Ele falou largando a panela e a bucha e esfregando as mãos no avental branco engordurado. Torci o nariz, mas logo me via experimentando um Risoto Nero, feito com lula, cebola, alho e vinho branco.
"Coloquei um pouco de erva-doce e salsa também, o que achou?" Ele perguntou ansioso. Não consegui esconder meu desgosto, e ele pareceu levemente decepcionado. "Pensei que dessa vez havia acertado!" Ele murmurou tristemente, voltando à sua panela.
Ofereci uma colherada a Mordred, mas ele torceu seu nariz rosado, exatamente como eu havia feito.
"Draco!" Anna exclamou assim que entrou na cozinha e correu até onde eu estava sentado, jogando-se no meu pescoço. "Ai que saudades! O Sr. Potter liberou você do castigo?" Ela perguntou. Visitas ao meu quarto também ficaram proibidas naqueles cinco dias, mas isso não impediu que eu e Anna trocássemos cartas por baixo da porta algumas vezes.
"Não." Murmurei baixinho, delicadamente tirando-a do meu pescoço. "Mas eu não aguentava mais ficar naquele quarto."
"Eu imagino. Fica tranquilo. O Sr. Potter não tem parado em casa esses dias. Tem trabalhado dobrado." Ela se sentou na cadeira ao meu lado, apoiando o cotovelo na mesa e mirando-me com um sorriso. "Tenho algo para lhe contar: eu e Justino enfim estamos juntos. Nós até trocamos um beijo hoje!" Anna segredou adquirindo um tom rosado nas bochechas.
"Mesmo? E como foi? Foi bom...?" Perguntei, curioso. Anna nunca havia beijado antes, pelo que me havia dito. Eu também nunca havia feito isso, e vi-me bastante interessado no assunto. Não fazia ideia do que havia de tão bom em trocar saliva com outra pessoa, apesar de às vezes já ter tentado fingir um beijo com minha própria mão... Não foi bom.
Anna riu, sem-jeito.
"Foi meio estranho, na primeira tentativa. Eu não fazia ideia do que fazer com a língua e virei o rosto, mas então ele disse que eu estava indo bem e tentamos de novo. Aí melhorou. E melhora a cada nova tentativa." Ela suspirou. "Eu o amo, de verdade."
Torci internamente para que ele a amasse também, pois odiaria ver Anna com o coração quebrado. Ficamos conversando por um tempo. Emmelice apareceu e me repreendeu por fugir do castigo, mas acabou cedendo quando implorei para que ela não contasse nada a Harry. Romilda se juntou à conversa por um tempo, mas depois saiu com a mãe para irem às compras. Tentei me voluntariar para ir junto, mas elas negaram.
Um tempo depois, tive de voltar para o quarto para minha próxima aula que passou se arrastando. Parvati e Padma vieram me buscar depois e me surpreendi quando me levaram para a rua, não muito longe do palazzo, onde um homem vendia alguns artefatos relacionados à música.
"Já tocou flauta, rapaz? Gaita, quem sabe? Tenho de todos os tipos! Essa daqui, dizem, foi a usada pelo flautista de Hamelin. Ele usou-a para tirar todos os ratos da cidade alemã!" O homem estendeu a gaita para mim, mas eu havia cravado os olhos em uma flauta menor, de uma madeira em tom de mel que parecia brilhar mais do que todas as outras.
Depois que a comprei, fui almoçar com os outros. Harry não apareceu para o almoço, e eu acabei me distraindo, com ambos os braços apoiados sobre o balcão da cozinha e a cabeça apoiada entre eles enquanto escutávamos uma história de Frei Gorducho, sobre como ele havia fisgado um grande salmão lutador certa vez e fizera um delicioso bacalhau com ele. Soava-me como uma grande mentira, mas todos nós fingíamos que acreditávamos no talento de Frei como exímio pescador.
Quando começaram a tirar a mesa, e eu entregava algumas sobras de comida para Mordred, que apesar de sedentário continuava magrinho e pequeno, Harry apareceu à porta da cozinha. Nossos olhares se encontraram, e todos caíram em um silêncio que arrepiou até minha alma.
"Draco, venha comigo. Precisamos conversar." Ele demandou, virando de costas e se afastando. Olhei para a Anna e ela mordeu o lábio inferior, um olhar condescendente. Respirei fundo e segui Harry até seu escritório.
O escritório era do tamanho exato para que alguém não se sentisse nem sufocado, nem pequeno demais ali dentro. Os móveis eram de mogno escuro, mas as cortinas na janela eram claras, iluminando bem o lugar. Sobre a escrivaninha de Harry, havia um globo feito apenas com tiras de metal, que formavam os meridianos e paralelos, e placas de bronzes os continentes; e um guarda-penas, um livro aberto, uma pequena maleta e um cinzeiro de vidro. Harry não fumava, mas os homens com quem ele negociava, talvez.
Atrás da escrivaninha, havia uma prateleira repleta de livros que cobria toda a parede. Perguntei-me se ele já teria lido todos, e concluí que sim. Harry era tão culto que eu por vezes me sentia envergonhado por saber tão pouco. Experimentei uma forte sensação de culpa por ter cabulado parte de minha aula de filosofia mais cedo.
Olhei para Harry, que havia se apoiado à escrivaninha e cruzado os braços sobre o peito, escrutinando-me com seus olhos verdes. Estava sério, mas não parecia irritado.
"Eu juro que foi só hoje!" Garanti com a voz ansiosa. Ele ergueu uma sobrancelha. "Eu não queria desobedecê-lo de novo. Juro! É só que... eu não aguentava mais ficar naquele quarto." Deixei meus ombros caírem.
"Está tudo bem, Draco." Ele disse, e eu o encarei incrédulo. Esperava um sermão e um novo castigo, e quase não acreditei em suas palavras. "Você está livre do castigo."
"Mesmo?" Perguntei, mas seu rosto não revelava nada. Havia algo de indiferente em sua postura, e eu senti meu coração se apertar com isso. "Por quê?"
Ele franziu a testa.
"Preciso de um motivo?" Houve um brilho de divertimento tão fugaz em seus olhos, que pensei tê-lo imaginado. "Só não saia sozinho, nem se afaste do palazzo. Pode me prometer isso?"
"Sim." Abaixei o olhar. Ele assentiu e começou a se dirigir à porta. "Harry, espera!"
Ele se virou e me olhou, a expressão impassível. Por que estava tão frio? Ainda estaria brabo por eu ter ido ao bordel de Pansy? Por eu não ter mandado nenhum aviso? Se eu ao menos pudesse voltar no tempo... jamais teria perseguido aquele gato idiota!
"Isso quer dizer... que você vai voltar a me dar aulas de esgrima?"
Ele precisou apenas de um segundo para desviar o olhar e levar a mão à maçaneta da porta.
"Combinaremos isso depois."
E de novo ele me deixou sozinho.
E percebi logo depois que sua indiferença e distanciamento machucavam mais do que palavras duras.
XxX
"Ele me odeia." Reclamei para Anna, alguns dias depois. Estávamos sentados em uma ponte, não muito longe do palazzo, enquanto aproveitávamos o sol de final da tarde e jogávamos pedrinhas no canal, vendo-as quicar seis ou sete vezes antes de afundarem nas águas levemente avermelhadas que refletiam o céu no mesmo tom. Soprava um vento gelado, que todos chamavam de Sirocco, e atormentava a superfície do canal.
Era início de novembro, e o outono já estendia suas garras por Veneza. Anna se encolheu mais em seu xale enquanto eu apenas experimentava um leve frescor na pele. Em nada aquele vento se comparava às nevascas de minha antiga vida.
"Não seja bobo. É claro que ele não te odeia." Ela revirou os olhos. "Ele só anda muito ocupado."
Mordred, que estava encolhido entre nós, mais peludo do que nunca, como uma grande e felpuda bola de pelos, soltou um 'Hic!' como se concordasse com Anna. Acariciei seus bigodes e ele me deu uma dentadinha carinhosa. Ele ainda era todo branco, mas suas orelhas se haviam tornado cinzentas como meus olhos. Era como se ele houvesse crescido de modo a ficar parecido com o dono, pois seu tamanho não chegara a mais do que a metade de um coelho normal.
"Ele sempre foi muito ocupado, mas sempre encontrava tempo para me dar aulas de esgrima, e fazer as refeições comigo. Agora, ele passa o dia inteiro fora, e volta só tarde da noite..." Lembrei-me do que Anna havia dito, sobre o que ele fazia quando chegava muito tarde, e toquei a pedrinha na água com mais força. Ela quicou apenas quatro vezes antes de afundar.
"Mas ao menos você não está mais preso naquele quarto, não é? E também voltou a ter aulas de música e pintura. Não são suas preferidas?" Ela também tocou uma pedrinha, e humilhou-me ao fazê-la quicar oito vezes. "E também há a minha adorável companhia."
Soltei um muxoxo e tirei minha pequena flauta de um bolso escondido entre minhas roupas.
"Tudo culpa daqueles gatos idiotas..." Falei antes de levar a flauta à boca. Coloquei-me a tocar, uma música desajeitada. Ainda não tinha muita prática. Vi um gato em uma janela, mirando-me com seus argutos olhos oblíquos, e fiquei ainda mais carrancudo.
"Você não cumpriu a tarefa de caçá-los. Talvez por isso o Sr. Potter não lhe tenha dado mais aulas." Ouvimos o tom jocoso às nossas costas. Anna bufou ao ver Seamus parado logo atrás de nós.
"Não seja ridículo!" Anna exclamou com a mandíbula apertada. Mas eu fiquei quieto, refletindo sobre as palavras dele. Seamus deu de ombros. "O que você veio fazer aqui afinal, hein?"
"Nada." Seamus sentou-se na mureta da ponte. Do nosso lado, não havia mureta, e podíamos sentar diretamente no chão, com as pernas pendendo para o canal. "Só estava entediado."
"Então vá ficar entediado em outro lugar!" Anna replicou, tocando uma pedrinha nele. Seamus se desequilibrou e quase caiu de costas na água.
"Não... ele tem razão." Murmurei, tão baixo, que acho que nenhum deles me ouviu. Voltei a tocar, pensativo, e só percebi minutos depois que o gato que estivera na janela pulara para a ponte e se aproximara cautelosamente, atraído pela música.
Acariciei seu pelo cinza-sujo e sorri. Acabava de ter uma ideia.
XxX
Apenas cinco noites mais tarde, eu aguentei acordado até ouvir sons de passos no corredor. Afastei os lençóis e levantei da cama em um pulo, arrancando um 'Hic! Hic!' indignado de Mordred por ter sido acordado tão bruscamente. Estava frio fora da cama, mesmo com as janelas fechadas. Eu vestia apenas uma túnica branca, bordada com pequenas flores-de-lis francesas em fios grossos de ouro.
Saí do quarto quase na ponta dos pés, descalço, e o frio do piso subia por minhas pernas e arrepiava todo meu corpo enquanto avançava pelo corredor enegrecido até a porta do quarto de Harry. Ela estava entreaberta, com uma luz suave de lâmpadas a óleo escapando pela fresta, e eu espiei com medo de rever a cena de alguns dias antes. Mas vi apenas Harry, retirando a parte de cima da roupa, o gibão azul-escuro por sob uma camisa branca. Usava luvas de couro preto que também retirou, jogando-as junto com as outras roupas em cima da poltrona da escrivaninha.
Ele me notou assim que coloquei o primeiro pé para dentro do quarto, e pareceu ligeiramente surpreso pela visita inesperada. Mordi os lábios ao ver boa parte de seu peito exposto pelos botões entreabertos de sua camisa de mangas longas.
"Draco," A voz dele estava rouca, provavelmente pelo frio que deveria estar lá fora. "O que faz acordado tão tarde?"
Avancei alguns passos tímidos para mais dentro do quarto.
"Há algo que gostaria de lhe mostrar." Falei, fitando-o nos olhos. "Se você puder me acompanhar... Está lá embaixo, na dispensa da cozinha."
Harry franziu as sobrancelhas.
"Não pode mostrar-me amanhã? Estou cansado agora-"
"Por favor!" Implorei, avancei mais e segurei seu braço. "É importante."
"Posso ao menos saber do que se trata?" Ele afastou de meu rosto alguns fios de cabelo e colocou-os atrás de minha orelha, surpreendendo-me com o toque gentil. Percebi ainda mais intensamente o quanto eu havia sentido falta disso. Mordi o lábio inferior, sem conseguir desviar o olhar de seu rosto, seus cílios e sobrancelhas negras e seus lábios mais cheios que os meus, perfeitamente desenhados.
"Você não está mais irritado comigo?" Perguntei com a voz falha, e ele me olhou confuso antes que as linhas de seu rosto se suavizassem.
"Irritado com você? Por que pensou isso?" Ele segurou meu rosto com uma mão e ficou acariciando minha bochecha, e seu toque deixava-me desnorteado e sem forças, mas não menos ansioso. Eu havia caçado os gatos, com ajuda da flauta, é verdade, pois eles ficavam estranhamente mais dóceis quando eu a tocava, mas mesmo assim eu tive algum trabalho, principalmente por não poder me afastar do palazzo.
Enchi meus pulmões de ar.
"Porque eu o desobedeci! Duas vezes! O decepcionei! E agora você não deseja mais minha companhia, e tampouco quer dar-me aulas de esgrima novamente. E eu sei por quê! É porque eu não cumpri a tarefa, não é? Porque fracassei, então não sou bom o suficiente para que me ensine... Mas eu consegui capturar os gatos! Eles estão lá embaixo! Se você vier comigo, vai vê-los. Eu sei que já passou o prazo que você me deu para capturá-los, mas eu juro que dei meu melhor! Por favor, venha ver." Eu falei rápido e com os olhos cheios de lágrimas, e tentei virar-me e puxá-lo comigo.
Mas ele não cedeu. Pelo contrário, segurou meu braço e puxou-me de volta, e então senti seus braços fortes envolvendo meu corpo em um abraço apertado.
"Draco, me desculpe." Ele pediu, e eu arregalei os olhos, pelo abraço e pelo pedido. "Eu não estava brabo ou tampouco irritado com você, mas comigo mesmo."
"O-o quê?" Perguntei, trêmulo em seus braços. Ele se afastou um pouco e segurou meu rosto, e sua expressão era da mais pura consternação e angústia.
"Quando Seamus me contou o que aconteceu, eu entrei em desespero. Quis matar o homem que fez aquilo com você, que teve a ousadia de o tocar e fazer chorar." Ele limpou com o polegar uma lágrima que eu não havia percebido ter deixado cair. "Seu sumiço deixou-me ainda mais preocupado e fora de mim. Se alguma coisa houvesse acontecido com você, eu jamais me perdoaria por ter-lhe mandado realizar essa tarefa idiota de caçar gatos."
Ele suspirou.
"Na manhã seguinte eu consegui encontrar o desgraçado, e o joguei na pior cela da prisão. Deixei-o para morrer... mas não sem que antes sofresse naquela cela o que merecia." O brilho duro que surgiu nos olhos de Harry ao falar do homem fez com que eu puxasse o ar com força. "Você não imagina como eu fiquei aliviado quando Seamus avisou-me de que você estava a salvo no palazzo. Mas eu ainda estava cegado pelo ódio. Eu não conseguia me perdoar por você quase passar por aquilo de novo."
Ele voltou a me abraçar com força, quase me sufocando, mas não me importei. Abracei-o de volta, escondendo meu rosto em seu pescoço.
"Admito que não fiquei feliz ao saber que você esteve no bordel de Pansy, mas essa era a menor de minhas preocupações. Quando eu vi a marca em seu pescoço..." Ele murmurou, tocando meu pescoço no local onde havia ainda uma leve mancha roxo-clara e fazendo-me estremecer e ofegar baixinho. "Perdi todo o controle. Desculpe por ter agido daquela forma. Eu não estava pensando direito. A sede de vingança me atormentou durante todos esses últimos dias, junto com o medo de deixar você sair da segurança do seu quarto e sofrer de novo."
"Harry..." Minhas mãos se fecharam no tecido da roupa dele quando senti os lábios dele no meu pescoço, no exato local onde eu havia sido machucado antes.
"Nunca mais vou deixar alguém te machucar." Ele murmurou, e a respiração dele fez cócegas em minha pele sensível. Ele se afastou um pouco e acariciou gentilmente meu pescoço. "Sua pele é tão sensível. Mesmo depois de todos esses dias, continua arroxeada."
Minha pulsação estava acelerada e um calor sem precedentes queimou em meu corpo, contradizendo o frio da noite, e eu me afastei de súbito de seus braços, olhando-o assustado. Dei alguns passos em falso para trás e ele me encarou realmente confuso. Eu apenas virei e corri para o meu quarto.
Tranquei a porta quando entrei, e me apoiei a ela, segurando meu peito e respirando com dificuldade. Gemi baixinho e encostei a testa à madeira. Não entendia o que estava acontecendo comigo.
"Draco?" Afastei-me da porta quando Harry deu duas batidas nela do outro lado do corredor.
"Me deixe em paz!" Gritei, e corri para o banheiro, fechando a porta novamente. Ainda ouvi mais algumas batidas e chamados, mas os ignorei e apenas enchi a banheira quadrangular de meu banheiro com água.
Tirei as roupas e entrei, antes mesmo que a água alcançasse a borda. Meu corpo todo tremia, e eu me sentia excitado, vacilante e inquieto. Segurei a borda escorregadia da banheira com força e toquei-me entre as pernas, algo que eu nunca havia feito antes. Senti-me endurecer mais e mordi fortemente o lábio, sufocando os gemidos enquanto apertava os olhos e deslizava a mão pelo meu pecado. A água quente lambia meu corpo deixando-me ainda mais arrepiado e abrasado. Eu parecia estar imerso no fogo, e não na água, e gemi longamente o nome de Harry quando não pude mais me segurar.
E depois permaneci deitado na banheira, ofegante, envergonhado e confuso, incapaz de entender o que havia acabado de acontecer.
XxX
