Capítulo VII
Um Retorno Frio
Agosto literalmente voara, se perdendo em algum lugar do passado, juntamente com aqueles ares quentes do verão de dias claros e noites de grandes luas. O frio viera para imperar durante todo o mês de setembro, e a impressão que deixava era a de que continuaria dominando o clima para sempre. Assim, as férias foram passando entre os livros de Hermione, os trabalhos da Ordem e os ciúmes de Edwiges.
A coruja, com seus grandes olhos que tudo viam, distribuia bicadas a torto e a direito em quem ousasse dispensar atenção à ave rival. Harry reparou como suas caçadas noturnas ficavam cada noite mais longas, e chegou mesmo a fazer um teste, endereçando correspondência para os gêmeos Weasley que insistiam, apesar dos choramingos de Molly, a manter o comércio no desértico Beco Diagonal. A carta extraviara-se no caminho, assim como todas as outras testadas posteriormente.
Edwiges começava a se tornar mais um motivo de preocupação, quando Muriel se ofereceu para levar o "canário exótico" aos aposentos, tomando conta no lugar do novo dono. Houve muitos pedidos iguais ao dela, mas no fim das contas, Fawkes foi montar guarda no lastro da cama da tia Muriel, e parecia estar satisfeita com seu novo habitat.
Esparramada no tapete do quarto que dividia com Gina, Hermione não descansava entre suas pesquisas, a quantidade de livros se multiplicando a cada dia. Ela fingia não se importar quando Rony reclamava o tédio pela sua obssessão ou nas ocasiões em que Harry concordava com o amigo, se zangando verdadeiramente com ela.
- Harry, traga o seu Alquimia Secular – ordenou, após folhear com dedicação um grosso exemplar de "História da Magia Negra", adquirido com dificuldade na pequena livraria do Beco Diagonal, meses antes, quando acompanhara as compras da lista de materiais e livros do sétimo ano.
- Han? – ele limitou-se a continuar com a cara enfiada no pedaço amassado de papel, levantando mil e uma hipóteses e teorias mentais sobre o "R.A.B".
- O livro que te dei de aniversário! – ela contemporizou, zangando-se – Vai me dizer que nem leu o título?
- Li, li – ele falou vagamente, a vista ainda colada no bilhete.
- Francamente, poderia pelo menos fazer o favor de me escutar quando falo com você!
- Não enche, Hermione, não vê que eu estou distraído com isso aqui – e mostrou aquela escrita de letras finas e apressadas de modo brusco e excessivamente perto do rosto dela.
- Me poupem! – Gina interveio, de cima da cama, deixando a leitura de um livro velho e bolorento – Mione, deixa que eu pego para você!
Horas depois, Rony animava-se a procurar o tema horcruxe em mais de 600 páginas do primeiro exemplar que encabeçava a enorme pilha no quarto da irmã, mas desistiu logo, farto de só achar fórmulas e ingredientes de cosméticos caseiros para "bruxas descoladas".
- Mione, já pensou em montar sua própria biblioteca? – questionou, se desfazendo com prazer do livro.
- Há uma grande no escritório do meu pai, e tenho uma no meu quarto, que está em formação, ainda faltam cento e vinte e dois títulos para ficar razoável – respondeu, sem levantar os olhos da página 241 de "Alquimia Secular".
Harry, na última semana de férias, irritou-se profundamente com o fato do Ministério estar controlando viagens, fossem elas por intermédio de vassoura, rede de Flu, aparatação, chave de portal ou outras formas ilegais e suspeitas que vinham surgindo na tentativa de burlar a falta de privacidade imposta. Godric's Hollow, conseqüentemente, ficara adiada na expectativa do Ministério inventar outra atividade para prosseguir no faz de conta da eficiência. Sua restrita possibilidade ficava por conta da Trans Ball aperfeiçoada, que os gêmeos lhe entregaram secretamente, naquela noite de seu aniversário, com garantias e promessas de que a esfera não falharia novamente. Harry argumentou que continuava achando a bola alaranjada inútil e não estava a fim de fazer outra visita ao St. Mungus e nem sentia saudades das sopas de bégula, mas como os ruivos insistissem em devolvê-la como presente, aceitou.
***
O expresso de Hogwarts partiria dali há 30 minutos, cortaria as rajadas de vento, provocaria atrito nos trilhos e somente chegaria ao seu destino quando uma noite sem estrelas se estendesse pelo céu.
Mas, por ora, os estudantes aguardavam na plataforma aquele que seria o embarque mais calado dos últimos anos. Os rumores e conversas se perdiam em sons abafados, monossílabos, conversas sobre o tempo. Ninguém foi visto com doces ou pertences pessoais em mãos; pareciam haver só adolescentes dispostos à partida, as crianças, cujos pais não tiravam os olhos, eram tão raras que contava-se nos dedos.
Foi nesse clima funesto de dia frio que o pessoal da Toca chegou, faltando 10 minutos para a saída do trem. A Sra. Weasley se agitava de nervosismo, abraçava os filhos, desejava boa sorte a Harry, recomendava uma infinidade de cuidados para, em seguida, vacilar, olhar para o marido e questionar com o olhar pesaroso se estavam fazendo a coisa certa. O Sr. Weasley confirmava, escondendo suas próprias preocupações, encorajando, dando conselhos ainda que soubesse intimamente que nem todos seriam seguidos.
Tonks despediu-se de Gina e Hermione, depois de dizer uma ou outra piada, que ficou sem risos, mas serviram para desanuviar os semblantes. Shaklebolt, sempre sério, agora sorria sem motivos aparentes. Moody não escondia seu frasquinho de vinho que trazia preso por um cordão de prata sob a capa, e, quando não estava sendo muito observado, relaxava com um longo gole. Lupin, por sua vez, convidou Harry para sentar-se em um dos bancos de espera da estação.
- Tonks, Shaklebolt, eu e Moody estaremos vigiando Hogwarts – contou, abotoando a capa, depois de ter sido sacudido por uma corrente de vento – Além dos outros aurores que formarão conosco a Patrulha de Ronda e Vigia. Se depender dos nossos olhos atentos, Harry, não haverá Comensal da morte ou força das trevas que consiga adentrar em Hogwarts este ano.
- Bom saber que vamos nos ver mais vezes. Pena que o senhor não tenha aceitado voltar como professor.
- Foi tentador, e você sabe, era um convite da Prof.ª Minerva. Mas eu já causei muitos problemas para todos vocês, então, julguei mais prudente recusar o convite. Fico feliz, porém, em voltar à Hogwarts, de qualquer forma - e estremeceu após outra violenta passagem de ar por suas costas – Apesar dos pesares, McGonagall me pareceu contente com seu novo contratado.
Harry deixou transparecer toda sua curiosidade, mas Lupin elucidou:
- Sinto muito, será surpresa para mim também, eu não tenho idéia de quem ocupará o cargo.
- Eu realmente gostaria de passar só um ano tranqüilo com um professor de Defesa Contra as Artes das Trevas - e olhou sério para Lupin - Não seria desejar muito. Mas o senhor não foi um problema, de modo algum. Foi o melhor professor que eu tive.
- Cuidado para o Moody não ouvir isso – confidenciou – Ele, sempre que tem oportunidade, diz que foi o seu preferido.
Os dois riram juntos, sem pressa, quando o expresso produziu o som de alerta para partir.
- Até mais, Harry!
- Até!
***
Embarcavam, desorganizados, mas rápidos, procurando pela cabine mais afastada. Muriel, que tomava conta da pequena Gabrielle, se dependurava nas janelas, com lágrimas no olhar, observando a movimentação deles no interior do expresso. Acompanhou, por fora, a escolha da cabine e não resistindo à insistência da menina e à própria vontade, entrou expresso a dentro, mão dadas com Gabrielle, até encontrar Rony, Hermione, Harry e Gina.
- Ainda bem que deu tempo para despedidas! – ofegou, o volumoso peito subindo e descendo pelo esforço da corrida – Vou ficar com tantas saudades! – e, sem cerimônias, foi distribuindo abraços e beijos estalados para todos os lados – Trouxe a menininha, ela também queria se despedir.
Gabrielle disse palavras de até logo, desejou boa sorte, bom estudo e, em seguida, surpreendeu Harry com um forte abraço.
- Também vou terr saudades. Tenha um bom ano, Harrry Potterr - e quando ia saindo com Muriel, virou-se, e num instante, disse – Eu vou convencerr mamãe a me deixarr passarr o Natal na Toca, vou esperrar você virr, Harrry!
- Ah, sim, todos nós vamos, Gaby – explicou Harry, ainda um pouco corado depois do abraço inesperado.
Quando o expresso finalmente partiu, o troca-troca de cabines começou, como era de costume. Mas o número de estudantes em regresso a Hogwarts era tão inferior que permitia o livre movimento pelas acomodações, até que encontrassem a que melhor reunisse seu grupo de amigos, a mais confortável ou a que, deliberadamente, tivesse uma melhor vista da paisagem montanhosa.
Gina esquecera-se de trancar a porta da cabine eleita pelos quatro, permitindo, assim, minutos mais tarde, Romilda Vane e um grupinho de garotas futéis e histéricas a invadisse. Todas, embora mentissem que as demais acomodações estavam ocupadas, procuravam pelo "escolhido" desde o momento de embarque, distribuindo risinhos e olhares para Harry quando o localizaram no local mais afastado do vagão.
- A cabine já tem dono – resmungou Hermione, mal-humorada com a invasão.
- Eu não estou vendo seu nome aqui na porta, garota – retrucou Romilda, se sentindo a poderosa no meio do grupo de moças que emitiam, ininterruptamente, risinhos de aprovação.
- Eu poderia escrever nossos nomes, mas de que serviria para um bando de garotas analfabetas e mal-educadas? – irritou-se Hermione, levantando-se, disposta a resolver no braço se fosse necessário.
- Vamos, não vale a pena, Mione! – argumentou Gina puxando Harry pelo braço, fazendo-o levantar num salto – Ou eu posso ter um problema sério de estômago – e colocou o dedo na boca, simulando vômito ao passar por Romilda e as demais. No corredor do vagão ainda podia perceber aqueles olhares de cobiça voltados para Harry, como se a nova moda fosse conseguir sair com o garoto mais famoso da escola.
- São umas interesseiras... essas garotas – dizia Rony que vinha ligeiramente atrás de Hermione pelo estreito da passagem, deixando a cabine para seguir Gina. Porém, quando esta deu uma volta à esquerda com Harry, Hermione encontrou, à direita, uma cabine vazia.
- Aqui, Rony - ela chamou-o – Parece um bom lugar e tem uma vista bonita.
- O Harry e a Gina tomaram a direção errada, vou avisá-los! - mas quando ia saindo, sentiu a mão de Hermione o trazendo de volta:
- Deixa, talvez eles queiram ficar sozinhos...
***
O vagão que Neville e Luna dividiam com Gina e Harry não era dos maiores e sequer mostrava a melhor vista da tarde nublada com os ventos uivantes varrendo a paisagem exterior. Conversaram durante um bom tempo, trataram de amenidades, depois dos acontecimento recentes que o Profeta Diário alardeara nos últimos meses e finalmente discorreram sobre as expectativas do ano em Hogwarts e do cancelamento prematuro das aulas. Harry prestava muita atenção em Neville, mas inexplicavelmente o garoto não parecia estar afetado por nenhuma emoção mais forte. Observava, sereno, Trevo implicar com o mini-pufe de Gina, assustando-o cada vez que coachava.
- Uma rival como Gabrielle é covardia – dizia a ruiva, sorrindo marota para Harry.
- Não me faça rir, Gina – comentou, corando de leve, embora continuasse observando, discretamente, Neville. – A Gaby é só uma menininha...
- Uma menininha que já é apaixonada por você – disse, fazendo-se de ciumenta - E ainda por cima tem o desaforo de ser linda!
- Você também é – ele disse meio baixo, convencido de que nem Luna ou Neville entretidos com um exemplar do Pasquim pudessem ouvi-lo.
Gina o olhou admirada, algo dentro de si se revolvendo numa vontade intensa de jogar para o alto o acordo, a separação, os horcruxes e o perigo que impediam sua união com Harry.
- Não, se chamam Estínfalos, Neville – explicou Luna, o rosto colado no exemplar novíssimo da revista – É uma espécie de gigantescos pássaros com bico de metal que se alimentam de carne humana. Meu pai localizou-os nas montanhas rochosas da Ásia. Vivem mais de cento e quinze anos...
- Tem certeza? – Neville encarou os olhos grandes e arregalados de Luna – Eu não imaginava que animais assim existissem de verdade.
A garota remexeu-se zangada, detestando quando duvidavam das descobertas de seu pai: - Claro que tenho! Não é por que você não conhece alguma coisa que ela não possa existir. Veja, aqui na página seis tem até uma foto – e mostrou a criatura com o imenso corpo recoberto de penas cinzas espetadas como espinhos, o bico metálico abrindo e fechando na fotografia, semelhante a uma pinça forjada para destroçar o primeiro humano que encontrasse.
- Meu pai foi muito corajoso, os estínfalos podem agüentar até dois anos sem comer... e olha a cara deste – indicou uma outra imagem, abaixo da anterior, tão viva que passava a sensação de poder saltar da revista e devorá-los – deve estar faminto.
- Sim... seu pai foi bastante corajoso! – concordou Neville, sem tirar os olhos do estínfalo.
Sutilmente, quem não tirava os olhos de cada reação, expressão ou frase de Neville era Harry. Como era possível reagir daquele modo indiferente? Será que sabia?
"Óbvio que ele sabe, faz quase dois meses"
Então por que razão, contradizendo seu pensamento, Neville prosseguia como se tivesse a mente apagada por um feitiço de memória potente?
"E se não souber?"
Impossível, pensava, não tinha o Profeta Diário noticiado a tragédia há três semanas? Sim, fora uma publicação completamente atrasada e infeliz, porém estava lá na edição de agosto, com direito a sensacionalismo barato e absoluta falta de respeito para com a dor alheia, mas estava.
Ele lembrou-se de que a notícia se espalhara pela Toca, no Ministério, de boca-em-boca nas ruas londrinas, e pelo que ficava tendo conhecimento com Fred e Jorge, os remanescentes do Beco Diagonal não comentavam outra coisa. Recordou-se de Arthur ter lhe confidenciado, que soubera do falecimento do casal Longbotton no dia em que o acompanhara no trabalho. Aquele homem que o chamou; a demora inesgotável; e, por fim, a indigestão da madrugada. A Toca ficou silenciosa por alguns dias, Molly projetou na morte do casal que não conhecera o perigo iminente que eles corriam, passou a dormir abraçada com o relógio dos nove ponteiros. Muriel permaneceu três dias sem sorrir ou beijar ninguém. Hermione grudou-se com mais determinação nos livros, Rony mandou Gina se danar, Gui e Fleur viajaram em lua de mel para Paris com uma felicidade reduzida, Gina revidou e mandou Rony para um desses lugares inóspitos. Era a confiança de que tudo daria certo se perdendo.
- Harry, ouviu o que eu disse? – Gina cutucou-lhe o braço, ele voltou-se para ela, desviando a visão de Neville – Daqui a pouco estaremos chegando, vamos descobrir onde raios se meteram Hermione e Rony - levantou-se, revirou a mala, pegando seu uniforme – Vou me vestir, deveria fazer o mesmo, sabe.
Passaram ainda alguns minutos com Neville e Luna, mas então foi Harry quem alertou a ruiva a agilizarem a busca ou não desembarcariam juntos. Das cabines vinham sons mais amenos, o carrinho de doces indo e voltando cheio, não ouviram risos nem vozes afetadas. Gina tentava recordar-se de em qual ponto os quatro se separaram, mas era certo que não estavam no último vagão, ao passar por lá ouviu a voz enjoativa de Romilda.
Harry checou algumas cabines sem sucesso. Numa dessas, sem entrar, ouviu sonserinos rindo e falando idiotices. No canto afastado, deslocados como cães sem dono, Crabbe e Goyle encaravam a paisagem morta com uma careta de inutilidade. Pareciam dois armários em dia de mudança, quando não se sabe exatamente em que canto colocá-los. Blaise Zabini lia uma edição do Profeta, comentando vez que outra com um colega ao lado. Pansy Parkinson, com uma cara triste, sentada sozinha no banco, cingia com os braços o próprio corpo, sentia frio.
- É melhor voltarmos lá com Luna e Neville – a voz afetada de Gina surgiu por trás de sua cabeça – Depois a gente encontra a Mione e o meu irmão.
- O que houve? – suspeitou Harry, divertindo-se com o rubor no rosto de Gina.
- Vamos voltar – ela insistiu, agora corando também nas orelhas – Você não vai exatamente gostar de saber.
Mas Harry não lhe deu ouvidos, sorrindo curiosamente, seguiu os rastros do local onde a ruiva apareceu, virou à direita, abriu a porta sem ser convidado e levou um tremendo susto.
- Harry! – Hermione, instintivamente abriu os olhos, corando até a raiz dos cabelos lanzudos.
Abraçados, Harry se deparou com os dois se beijando como se estivessem completamente a sós no expresso. Hermione escutou o ruído da porta aberta martelando em sua cabeça e tentou se recompor rapidamente, desgrudar a boca da do ruivo. Rony, porém, não parecia perceber a tentativa da garota, continuou beijando-a, e só parou quando ela gritou o nome do amigo.
- Desculpe-me – Harry coçou os cabelos desalinhados, tentando parecer simpático com um sorrisinho amarelo – Eu não sabia...
- Eu que peço desculpas – agilizou-se Hermione a dizer, enquanto se afastava rapidamente de Rony levantando-se e pisando no rabo de Bichento, que miou tão desesperado, perdendo a pose dos "ron-rons".
- Tadinho do Bichento, Mione! – exclamou Gina, deixando de espiar por fora e entrando de vez na cabine – Eu juro que avisei o Harry, mas você sabe, ele não costuma ouvir – completou, olhando para Harry com as mãos na cintura, o trejeito de Molly quando zangada.
O gato ainda reclamou com um ronronar dolorido, e foi se refugiar abaixo do acento de Rony. O garoto, de tão envergonhado, parecia um tomate ao molho de pimentão, o rosto, as orelhas, os cabelos, todo vermelho.
- Poderia bater antes de ficar invadindo cabines, Harry – reclamou, mal-humorado. Depois fitou ainda mais irado a irmã caçula: - Foi você! Viu e foi correndo espalhar a boa-nova. Deixa estar, eu ainda pego uma recaída sua.
- Vai ser difícil, Harry é mais firme em decisões do que você.
- Não precisavam guardar segredo para mim – Harry considerou, pensando no que Rony e Hermione não estiveram escondendo dele durante as férias.
- Nós não contamos porque... se você e Gina não estão juntos por uma nobre razão, não é justo Rony e eu ficarmos e acabar arriscando a segurança de todos nós – se explicou Mione, os cabelos ainda mais arrepiados como se estivessem sob efeito de choque elétrico. Virando-se para o ruivo, ajuntou, mandona: - Foi a última vez, Rony, você sabe que não podemos agir assim.
- Eu já sabia...- considerou Gina, com um sorriso leve.
- Você é mesmo terrível! – declarou Rony para a irmã, passando as mãos pelos cabelos e repousando-as sobre a testa como se conferisse uma febre súbita.
- Harry e eu também tivemos uma recaída – disse simplesmente Gina, sem achar mais graça da situação, catando Bichento de debaixo do banco.
Harry percebeu um calor subindo pelo rosto, embora fosse insuperável atingir uma cor mais rubra que a de Rony. Não gostou do que Gina disse mas não se pronunciou.
- Eu desconfiei – Hermione fez um carinho no pêlo do arredio gato deitado sobre as pernas da ruiva, que lhe devolveu um miado chateado em resposta. Ela riu secretamente com Gina.
- Qual o problema com essas garotas? – indignou-se Rony, olhando sério para Harry – Elas basicamente descobrem tudo!
***
A noite entrava céu adentro pelo vasto Salão Principal, indo refletir-se no conjunto tremeluzente de velas espalhadas pelo teto, percorrendo as quatro longas mesas de Hogwarts, refletindo as feições dos rostos que teimaram em continuar. O motivo, a essas alturas, não tinha mais aquele caráter elevado ou heróico. Eram muitos. Voltavam para contradizer os pais, provarem a si mesmos, pelo estudo, por rebeldia, por necessidade de conseguir um emprego num futuro próximo.
Grifinórios apoiavam-se na coragem, mas esqueciam que bravura sem sabedoria não é sinônimo de nobreza. Corvinais louvavam o conhecimento, sem se importarem com as destrezas da vida e deixavam, muitas vezes, o impulso natural benéfico restrito aos moldes frios da pseudo-ciência. Lufa-lufas julgavam possuir toda a grandeza de coração que quase sempre acabava sufocada pela ausência de autoconhecimento e confiança cega, quando não se tornava, em alguns casos, vaidade encoberta. Sonserinos, amantes da ambição e confiantes supremos da astúcia, ignoravam que a malícia tem um prazo de validade, e, quando este se esgota, caem como máscaras, prisioneiros de suas próprias armadilhas.
Hogwarts tinha ainda sua beleza. Uma beleza sinistra espalhada pela densidade do ar noturno. As velas insistiam em se apagar, mas acendiam-se subitamente com movimentos de varinha daquela que agora tinha o fardo pesado de sustentar a Escola de Magia e Bruxaria com coragem, sabedoria, fidelidade e astúcia. Dumbledore, pela força dos acontecimentos, não só repassava sua direção à Prof.ª Minerva McGonagall, mas, principalmente, a glória dolorida, construída ao longo de mais de um milênio.
Ela não poderia simplesmente fechar Hogwarts. Manteve as portas abertas da escola assim como faria Alvo Dumbledore. Reforçou a segurança como um quartel general. Não poderia parar, a ordem é seguir sempre adiante, mesmo quando os mais próximos caem e não se tem o poder de fazê-los levantar, de trazê-los de volta.
Descobriu que não era tão afeita a discursos. Jamais os faria com a maestria de Alvo. Entretanto, alteou a voz segura e constante, exigindo atenção. Falou. As palavras foram fluindo como que inspiradas. Não precisou pedir silêncio, como tanto fazia Dumbledore, a vitalidade da audiência era pequena demais para preencher a natureza morta do Salão.
Harry olhou em volta, contou facilmente apenas umas cento e vinte pessoas na mesa da Grifinória. Desviou seus cálculos para Corvinal e Lufa-lufa, ambas tinham em torno de noventa alunos cada. A mesa da Sonserina era a mais deserta, a matemática lhe indicou apenas sessenta estudantes ou menos.
- Hei, alguém aí viu o Trevo? – Neville perguntou baixinho, enquanto a diretora alertava os perigos de colocarem o pé porta afora sem o prévio acompanhamento da Patrulha de Aurores. Um ano atrás e a restrição realmente severa dizia respeito a uma afastada Floresta Proibida.
- Houve algumas mudanças no corpo docente de Hogwarts esse ano...- continuou Minerva, a frente da mesa dos professores e funcionário onde, de longe, poderiam ser vistos dois lugares vazios – Com a minha ascensão à diretoria, ficamos com o cargo de vice-diretor desocupado, mas esta noite creio que já posso anunciar o escolhido. Porém, gostaria antes de lhes esclarecer a respeito da disciplina de Defesa Contra as Artes das Trevas que ficará com o nosso veterano prof. Horácio Slughorn. Ah, estão vindo! – e de fato, Hagrid entrou pela imponente porta de carvalho com um ruído tremendo de passos, acompanhando um homem de vestes negras, capa ondulante nas costas e chapéu estreito à moda trouxa. Atravessaram entre as mesas de Grifinória e Corvinal. Hagrid muito sem jeito, sorrindo contido e acenando para Harry, os cabelos negros espessos penteados. O mago todo de negro ao seu lado, sorriso aberto, um perfume exagerado que recendia no ar, os cabelos molhados lhe caindo em porções na testa, cobrindo-lhe vez que outra os olhos grandes e redondos. Piscou sutilmente para Harry quando passou.
- Prosseguindo, após muita insistência, Rúbeo Hagrid, o atual prof. de Trato das Criaturas Mágicas concordou com sua nova delegação de vice-diretor. – um longo e sonoro "ah" percorreu as mesas, seguido de aplausos. Os sonserinos, porém, vaiaram discretamente. Hagrid, envergonhado, sentou-se no lugar reservado à direita de McGonnagal agradecendo os aplausos. – Outra boa notícia, teremos o qualificado prof. Andrew Hadwing assumindo Poções. – Andrew sentou-se entre Flitwick e Slughorn, sorrindo avassaladoramente. – Para quem não sabe, Hadwing lecionou, anos atrás, Defesa Contra as Artes das Trevas em Hogwarts. Quanto às nossas aulas de Transfiguração, espero continuar ministrando se não for inconveniente às implicações que um cargo de direção traz.
- Ouviu, Mione? – sobressaiu-se Rony, miraculosamente prestando atenção em discursos de início de ano – Esse novo professor já deu aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas!
- Eu não sou surda, Rony. Claro que ouvi! Provavelmente, isso foi bem antes do Quirrel assumir o cargo. Harry, o que foi? – preocupou-se, Harry parecia estar quilômetros dali.
- Eu conheço Andrew Hadwing. Desde que fiquei internado em St. Mungus... ele trabalha no Ministério, ou trabalhava...
Os dois encararam Harry.
- Você não me contou – Rony disse chateado, olhando o amigo como se não o conhecesse.
- Eu nem sei porque... depois de St. Mungus esqueci completamente disso, mas aquele dia em que consegui permissão para acompanhar seu pai no Ministério, me encontrei com Hadwing e descobri que ele trabalha no Departamento de Investigações.
- Um investigador?! Tem certeza disso, Harry? – e como Harry confirmou, Hermione se interessou mais que de costume por conversas fora de ocasião – Aí tem. Porque a Prof.ª McGonagall daria cargo à um investigador?
- Não seria porque ele lecionou em Hogwarts no passado, como a própria Minerva acabou de explicar? – o ruivo sorriu convencido.
- Não se faça de engraçadinho, Rony, eu já estou passada com você por hoje. Ah, e você Harry, belo amigo, hein! Quando vai colocar nessa cabeça dura que tudo, simplesmente tudo, pode ter importância vital de agora em diante?
- Eu não tinha uma opinião formada sobre ele.
- E agora? – insistiu a amiga, magoada.
- Sim, agora eu tenho. Hadwing sabe mais sobre meu passado do que eu mesmo, ele trabalhou com Dumbledore no Ministério e também...
- Deixe suas explicações para depois, Harry – advertiu Hermione pedindo silêncio com o dedo sobre os lábios – Você vai nos contar em detalhes... ah, francamente, Harry, não confiar nos seus melhores amigos!
Gina encontrou o sapo de Neville em uma tentativa frustrada de escalar suas canelas. Devolveu-o ao garoto e voltou-se para Harry, como se perguntasse às horas:
- O que você procurava no vagão dos sonserinos, quando te chamei?
- Draco – Harry disse distraído, evitando falar com Hermione e observando o Chapéu Seletor ser colocado na oitava e última cabeça de 11 anos, para após declarar alto: - Sonserina!
Hermione e Rony se entreolharam, Gina mirou Harry com os olhos muito abertos.
- Que foi? – ele voltou-se arredio aos três, não entendendo o porque daquelas reações.
- Nada... apenas que você chamou o Malfoy de Draco – esclareceu a ruiva, meia escandalizada.
Harry viu-se obrigado a concordar que mencionara Malfoy pelo primeiro nome. Rony não riu como daquela vez em que o próprio se apresentou, há seis anos atrás. A memória de Malfoy fugindo com Snape enquanto a cabana de Hagrid ardia em chamas fugiu de algum compartimento trancafiado na lembrança de Harry, tão viva quanto na noite em que acontecera. Sentiu raiva por procurar, discretamente, Malfoy no expresso. Ele não estava lá, muito menos ali, na mesa da Sonserina. Que se dane, era o que seus neurônios confabulavam internamente. Lembrou da dor que Malfoy lhe causara ao quebrar seu nariz, mas lembrou também de quando lhe azarara com Sectumsempra, ficando, de certa forma, quite. Recordou dele tremendo, a varinha abaixando, ouvindo Dumbledore pela primeira vez...
Sentiu uma dor estranha se revolvendo em seu estômago e parou de pensar. Achou melhor atribuir à fome.
***
