DO JEITO CERTO

Capítulo 7. Relembrar

Algum tempo se passou. Aoi não soube dizer o quanto, já que decidira não olhar mais para o relógio. Ainda estava jogado no sofá, olhando para a tela de Tv, sem o mínimo interesse. Estava apenas... pensando, o que não era muito comum.

Nada comum, pra dizer a verdade. Se pensasse com mais freqüência, não teria feito o que fez. Não teria ferido Kouyou, nem estaria naquela situação.

Bem, não tinha o direito de reclamar... tinha que se concentrar em consertar as coisas.

Estava tentando lembrar de tudo... do momento da briga, mas nada que ajudasse muito. Apenas tornava tudo pior, fazia-o parecer cada vez mais culpado.

Estavam de férias... finalmente! Tinham acabado de sair de uma turnê, e era tudo o que precisavam. Finalmente teriam descanso. Todos esperavam ansiosos por esse dia, e Kouyou não era uma exceção. Aquela seria a primeira noite em duas semanas, e pelo sorriso dele podia perceber que estava cheio de planos.

Lindo sorriso, aliás... riso de criança. Estava feliz por ter um tempo livre. As vezes estavam tão cansados no fim de um ensaio que mal conseguiam mais de que algumas palavras carinhosas. Agora, com essas duas semanas, poderiam se dar ao luxo de ficar juntos e esquecer que existia agenda e relógios. Aoi também estava louco para passar esses dias com Uruha.

Então, na primeira noite, resolveram comemorar. Foram a uma boate, podia parecer bobagem, mas apesar de cansados, ainda queriam se divertir um pouco. Queriam agir como pessoas comuns, e não celebridades e também se divertir como gente de sua idade. Depois disso teriam todo o descanso que quisessem... o problema foi que aquela festa não durou. Os planos terminaram de uma forma desastrosa. Nunca deviam ter esquecido que eram famosos, e que tinham milhares de fãs, a maioria garotas histéricas e desesperadas que buscavam bem mais que um simples autógrafo.

Estava tudo bem, os dois dançando na pista, a música dominando o corpo e as emoções de ambos. Yuu não podia tirar da memória a imagem de seu namorado, iluminado pelas luzes coloridas do lugar completamente entregue ao ritmo ditado por aquele som e sorrindo lascivo, num contraste com a sua carinha de criança, convidando-o para um beijo.

Claro que Aoi não ignorou esse convite, puxando-o delicadamente pela cintura e tomando seus lábios macios e sendo exigente ainda que não o machucasse. Quando afastou-se, quebrando o beijo, viu sua expressão descontente, um biquinho ao qual não costumava resistir. Na realidade, nunca se esforçara para resistir aos encantos dele. "Vou pegar uma bebida pra nós" disse-lhe, ao pé do ouvido em um tom de voz que ele pudesse escutar.

Afastou-se dele, indo até o balcão e pedindo os drinques. Sentado em um dos bancos e esperando, olhou para a pista. Kouyou continuava lá, no mesmo lugar, de olhos fechados, sentindo a música enquanto dançava. Sentimento era mesmo aquilo que o realçava e o definia. Kouyou era passional, embora não transparecesse para qualquer um. Ele realmente sentia: fosse a música, o trabalho, a amizade, a tristeza, o humor e o amor, especialmente o amor.

O problema, é que ele parecia ter um imã que atraia as pessoas a sua volta, e não necessariamente se dava conta disso. Não era por ser famoso. Sabia que mesmo se ele não tivesse a fama, ainda assim atrairia os olhares e o desejo alheio. Não condenaria ninguém por olhá-lo, afinal quem não ficaria encantado por aquele rapaz alto, de traços delicados, cabelos loiros e um sorriso inocente? Mas não impedia Aoi de se irritar com fato de as pessoas o cercarem de uma forma tão... invasiva.

Sim, porque bastou se afastar por poucos minutos para ver que Uruha estava sendo rondado. Homens, se aproximando aos poucos, lascivos, mas logo acabavam indo embora. Nessas horas, Yuu agradecia ao fato de serem famosos, caso contrário a recusa de Uruha não seria levada a sério e ele certamente seria violentamente atacado quando colocasse os pés pra fora da boate.

Mas a fama trazia inconvenientes graves. Fangirls loucas e obcecadas eram um exemplo disso. Uruha era um alvo fácil, não podia negar. Carente, gostava do assédio, tratando todas os fãs com carinho e dificilmente demonstrando impaciência ou cansaço. Assédio normal, obviamente, mas mesmo para aqueles mais afoitos ele mantinha o pacto de respeito, tentando fazer vista grossa para algumas loucuras... mas naquela noite foi impossível.

Tentando esquecer do cansaço, Aoi desviou os olhos para o balcão, esperando os drinques, e quando olhou novamente para a pista, deparou-se com a cena que o faria arrepender-se amargamente de suas atitudes. Uma garota enlaçando o pescoço de Uruha e grudada nos lábios dele. E Uruha, praticamente sem reação de sua parte, ainda com a boca grudada na dela. Talvez estivesse assustado demais pra esboçar qualquer coisa... mas Yuu não se deu conta disso naquele momento. Sentiu os olhos saltarem das órbitas, e o sangue ferver. Apenas uma palavra em sua mente.

Traição.

Céus, como se arrependia por ter pensado nisso! Era um pensamento idiota e errado, mas que naquele momento parecia fazer todo o sentido. Seu namorado aceitando aquele oferecimento ridículo daquela fangirl louca! Isso era o que o ciúme dizia para si mesmo, como se fosse seu lado mal, um daqueles que pesavam nos ombros dos personagens de desenhos animados e contos de fadas. Só que o seu lado bom, ou simplesmente a racionalidade não se manifestaram naquele momento. Era visível que Uruha tinha ficado assustado e sem saber o que fazer naquele ataque. Era uma fã! Ele nunca faria nada que pudesse ferir os sentimentos daquela garota.

Mas era tarde demais para os pensamentos corretos. Não havia racionalidade ou lógica presentes nos seus atos. Enxergava apenas uma traição. E por isso a desastrosa seqüência de eventos acabou ocorrendo. A hora em que deixou e balcão e foi até eles e puxou Kouyou pelo braço, levando-o para um lugar mais reservado onde despejaria toda sua raiva sobre ele, exigindo explicações que não aceitava, mesmo sendo as certas e despejando acusações que feririam o loiro profundamente.

Palavras como "vadio," "traidor" e "puta" foram pronunciadas tão acidamente que tornavam o simples ato de recordar algo muito violento e que tiveram o mesmo efeito de uma agressão física para o namorado. Kouyou tentava argumentar, fazê-lo entender o óbvio e prender o choro, mas tudo isso parecia impossível.

– Mas é claro que uma hora isso tinha que acontecer!- havia um tom de ironia na sua voz, aliada ao inconformismo - Eu sabia! Ia ser mais cedo ou mais tarde! Me envolver com alguém como você só podia dar nisso!

– Como eu? – Uruha tentava se controlar, e fazer com que ele entendesse o que acontecera. Sabia que com ele estando de cabeça quente não iria adiantar nada - Do que está falando?

– Alguém que quer provocar todo mundo... que se oferece pra qualquer um! Eu não sou o bastante pra você, não é, Kouyou? Você quer o mundo inteiro também! Será que o mundo é suficiente pra você?

– Yuu...? - disse seu nome, tentando assimilar aquelas palavras. Sua expressão já era de tristeza, como se pudesse prever o que estava por vir, mas ainda assim tentasse evitar aquilo, tentando não acreditar na veracidade das palavras más.

Talvez Kouyou já esperasse por alguma ofensa ou algo assim, mas não do jeito que foi. Não com toda aquela brutalidade. Agora podia perceber isso.

– É! Isso mesmo! Daqui a pouco você vai se oferecer pro barman, pro segurança... pras amiguinhas daquela fangirl...

– Yuu! Eu nunca me ofereci pra ninguém! – exclamou, já exasperado. Apesar de estar tentando se defender, parecia implorar por compreensão.

– Hã? Como é que é? Nunca? Nunca mesmo? – sua voz soou incrédula, e insuportavelmente irônica para depois tornar-se ácida. – Você é um bêbado que não merece respeito... que quando dança fica se oferecendo como se fosse uma vadia qualquer.

– Se eu sou um bêbado que se oferece como uma vadia qualquer, se sou tudo isso, por que ainda está comigo? – tentou falar mais alto, defender-se. O problema é que não havia defesas para aquilo que ia ouvir. Nem defesa e nem resposta.

– Por que você é uma boa foda! – rosnou.

Aquelas foram as palavras finais. Duras. Ácidas. Violentas. Poucas palavras, mas com um potencial de destruição imenso. As que mais poderiam ferir alguém como Kouyou, que era puro sentimento.

Naquele momento, hora da raiva, não dera atenção, mas agora que já havia esfriado a cabeça, lembrou-se da reação de Uruha. A palidez, as lágrimas que a esta altura já riscavam o seu rosto sem que pudessem ser paradas, dos olhos escuros que se arregalaram num misto de descrença e decepção. Muito pior que uma agressão física. Aoi sabia que aquilo ia machucá-lo. Tocou no ponto onde sabia que ia doer.

E alcançara seu objetivo. Cego pelo ciúme, queria apenas puni-lo por uma suposta traição. Uma traição que só existira em sua mente, porque agora que era capaz de enxergar isso, percebera o tamanho de sua burrada.

A cegueira o fez machucar a pessoa que mais amava no mundo.

Depois ainda foi embora, deixando-o sozinho, sem qualquer sombra de lucidez ou arrependimento. A compreensão de seus atos veio tarde demais, quando o estrago já estava feito, quando Uruha quase morrera.

"Kami-sama... o que foi que eu fiz?" pensou, exasperado com seus atos, enterrando os rosto em suas mãos, num ato de desespero. Não podia ser perdoado. Não havia perdão para isso. A cada vez que se lembrava de suas palavras, de todos aqueles momentos, do rosto triste de Kouyou e do que quase acontecera depois da discussão, a sensação de culpa vinha de forma esmagadora.

"Ele tem toda a razão." pensou, tentando controlar a vontade de chorar. Não tinha o direito de chorar depois de tudo o que fizera... e sim de consertar a besteira que provocara.

"Mas... mas como?"

Decidiu tentar não pensar nisso, pelo menos não enquanto não estivesse tão nervoso. Não podia meter os pés pelas mãos outra vez. Já estava sendo castigado, e por mais que merecesse toda a rejeição, não queria piorar as coisas.

"Será que ele está precisando de alguma coisa?" pensou. Queria dar uma olhada nele, e precisava de um pretexto para entrar no quarto. Isso Aoi tinha: muitas perguntas sem resposta e inúmeras desculpas, afinal aquele quarto era seu. Poderia querer pegar algo que estivesse lá dentro... mas ainda preferia a verdade: sua preocupação com Uruha. "Será que já comeu? Está sentindo frio?"

Levantou-se do sofá, onde até então estava afundado há horas, afogando-se em pensamentos inúteis a respeito de culpa e em passos silenciosos, aproximou-se do quarto. A porta, que estava apenas encostada, não fez barulho quando foi aberta, revelando o que tanto queria ver: Kouyou estava deitado, em posição fetal, aparentemente dormindo, e a bandeja posta de lado.

Será que estava mesmo dormindo? Sua aproximação era segura? Não seria mal interpretada? Fosse como fosse, acabou entrando, controlando ao máximo o sim de seus passos. Aproximou-se da cama, lentamente, mas não foi percebido.

Sim, ele estava dormindo. A franja loira que caía sobre seu rosto escondia os olhos, mas sabia que era sono. Apostava que não tinha conseguido dormir no hospital. Pelo menos não um sono decente, que o fizesse descansar. Aquele era o repouso ao qual o médico se referira e esperava que depois disso Uruha pudesse se sentir melhor.

Olhou para a bandeja, posta pouco ao lado, longe de seus braços. Estava vazia. Nos pratos, apenas os restos dos alimentos. Não pode conter um sorriso em perceber que seus cuidados não foram recusados.

Sentou-se no chão, ao lado da cama, ficando da altura certa para contemplá-lo. O rosto ainda estava pálido, mas seu aspecto era bem melhor. A respiração era leve e tranqüila, mas perfeitamente audível devido ao silêncio. Parecia uma criança dormindo. Sim, Uruha tinha ares de menino desprotegido. Sua personalidade também era essa: dócil, carinhoso... as vezes inocente, apesar de engraçado e sacana. Mil faces, mil jeitos, e Aoi amava todas elas.

Não sabia como, mas não podia deixar que a situação ficasse daquele jeito. Amava-o demais para deixá-lo acreditar nas bobagens que dissera. Não era só sexo. Era amor! Estava ligado a ele de tal forma que não sabia mais como era ficar sem Kouyou. Não conseguiria viver sem o seu namorado, por que o loiro era tudo o de mais valioso que poderia ter.

Como poderia viver sem a sua doçura e o seu sarcasmo? E sem ver os seus olhos bonitos e preguiçosos quando acordavam juntos em um fim de semana? Sem sua voz manhosa e seu sorriso?

Não, não podia perdê-lo assim. Tinha de haver alguma solução. Tinha que fazer alguma coisa, qualquer coisa! A questão era que não podia perdê-lo sem ao menos lutar.

"Eu vou lutar por você, Kou. Eu vou fazer tudo pra te merecer o seu amor." prometeu a ele e a si mesmo, enquanto arriscava o gesto mais íntimo desde que tudo aquilo começara: um carinho em seus cabelos. O primeiro toque, depois de tudo.

Furtivo. Silencioso. Roubado, mas ainda assim um toque. Um pretexto para lhe dar forças para o que viria a seguir.