Capítulo VII – A maçã podre

O hotel Queen Mary era uma grande estrutura de vários pavimentos, em arquitetura tradicional estilo palácio real. A decoração era apurada e as diárias tinham valor tão monumental quanto o prédio.

– Boa noite, o quarto reservado para o e o Sr. Hamish, por favor – solicitou Sherlock ao pé do longo balcão de mármore negro.

– Temos um quarto reservado com o seu primeiro nome e o meu segundo nome? – John cochichou ao lado de Holmes.

– É claro. – confirmou o detetive recebendo a chave do quarto 347.

– Posso saber a razão?

– Pode. – o moreno disse puxando o amigo para dentro do elevador que acabara de chegar ao térreo. – Como já havia comentado com você, eu mandei uma mensagem para meu irmão informando a presença de um traidor na equipe de agentes dele, a maçã podre no cesto. Na mesma mensagem eu pedi que me informasse quem era e onde encontrá-lo, queria fazer a minha abordagem antes dos agentes do governo pegá-lo. Mycroft me respondeu enquanto conversávamos na sala minutos atrás, me informou que o agente está hospedado aqui e me deu trinta minutos com o homem que poderá ser a nossa ponte para a Mensageira. Temos que ser rápidos, logo os agentes surgirão para pegar o coleguinha traidor.

– Certo, e a história do quarto?

– Não é óbvio?

– Não para mim.

– John... Está tão na cara a razão pela qual precisamos de um quarto nesse hotel... Você não percebeu mesmo?

– Percebi o quê? – o médico ficou nervoso e começou a transpirar levemente.

Sherlock o encarou com seu perigoso olhar incisivo e John sentiu o elevador ficar muito pequeno e abafado.

– Muito simples meu caro John, não poderíamos chegar aqui e dizer "olá, eu sou Sherlock Holmes e esse aqui é John Watson, precisamos que avisem o ocupante do quarto 346 que precisamos subir para termos uma conversa séria". Ora, John! Qual seria o melhor meio para chegar à "maçã podre" sem chamar atenção dela?

– Se passando por hóspede... – sussurrou o médico compreendendo o artifício num misto de alívio e decepção.

– Isso mesmo. – disse o detetive aproveitando a abertura das portas do elevador para tomar rapidamente o rumo do quarto 346, deixando um John meio atordoado seguindo-o logo atrás.

Sherlock tirou um objeto fino e pontiagudo do bolso e concentrou-se na fechadura da porta onde havia parado.

– O que pensa que está fazendo, Sherlock? – sussurrou o médico.

– Abrindo a porta, não está vendo?

– Está me dizendo que vamos invadir o quarto do agente?

– Exatamente. Sua capacidade dedutiva está melhorando, John.

– Ora, não ironize, se nos pegarem aqui tentando arrombar uma porta, seremos presos!

– Se acalme, John. Vai dar tudo certo. Agora, cale a boca, está me desconcentrando.

Nesse momento o vulto de uma camareira apareceu no campo de visão do canto esquerdo do olho de Sherlock. Iriam ser descobertos e a chance dele poder avançar na investigação se perderia, foi então que Sherlock puxou John com força pelo casaco jogando-o contra a parede. O médico sentiu todo o ar fugir dos pulmões, não teve tempo de entender o que tinha acontecido, pois foi pressionado contra a parede, recebendo o incisivo contato dos lábios do detetive que pôs os braços apoiados na superfície onde o mantinha pressionado, formando uma espécie de prisão, impossibilitando a fuga do loiro. O médico debateu-se nos primeiros segundos, arregalando os olhos, sufocando, surpreso com um turbilhão de sensações que cortaram subitamente o seu corpo.

– Colabore, John, seja convincente ou seremos descobertos – sussurrou Sherlock que desgrudara os lábios da boca do amigo para orientá-lo rapidamente antes de voltar a pressionar seus lábios nos do médico.

John sentiu o coração querer arrebentar suas costelas, ter os lábios de Sherlock tomando posse dos seus era uma doce realização de uma de suas muitas fantasias nada inocentes, ao mesmo tempo, sabia bem ele, essa experiência seria o seu inferno pessoal pelo resto da sua vida. Provar o céu uma vez e depois ser expulso dele sem a menor chance de retorno, seria muito doloroso.

Já que seria expulso do paraíso em breve, enxotado por um anjo malévolo portador de cachinhos negros infantis e olhar cristalino, John agarrou forte o tecido que revestia as costas do detetive, puxando-o mais para perto de si, enquanto movia os lábios em resposta, invadindo a boca do moreno com a língua e recebendo a dele na sua numa obscena e estimulante dança de reconhecimento, posse e degustação. Pelo menos para o médico aquele beijo era tudo isso, ele estava nas nuvens.

Passados alguns segundos que representaram o puro paraíso para John, Sherlock se afastou provocando um som estalado por conta da separação dos lábios no momento em que o médico estava concentrado em sugar o lábio inferior do detetive. O loiro sempre sonhara em fazer aquilo e agora sabia o quanto sentia prazer nesse ato.

John foi largado na parede entre o quarto 346 e 347, respirava pesadamente, mantinha os olhos fechados e a boca estava úmida e vermelha. Suas pernas tremiam tanto que se não estivesse escorado à parede, certamente teria caído. Depois de uns segundos, ouviu um estalido metálico e o mover da porta ao lado.

– Vamos, John, ou você pretende fazer parte do papel de parede do hotel? – Sherlock falou entrando no quarto.

Watson se moveu seguindo-o com uma forte vontade de dar um soco na cara do amigo.

– Posso saber por que você me beijou lá fora? – John perguntou ao fechar a porta atrás de si.

– Fale baixo. – o moreno repreendeu percebendo que o ocupante do quarto estava no banheiro. Podia-se ouvir alguém se lavando enquanto cantarolava uma música dos Beatles. – Uma camareira surgiu na ponta esquerda do corredor, precisava constrangê-la o suficiente para que fosse embora o mais rápido possível e demorasse voltar. – explicou sentando-se no sofá, encarando John que ainda trabalhava na normalização da própria respiração.

– Ah, tá, entendi... – o médico se jogou na outra ponta do sofá, ainda vermelho pela experiência no corredor, sentindo-se usado pelo amigo e miserável por ter gostado e desejado mais daquilo.

Exatos dois minutos depois, um homem alto de cabelos castanhos saiu do banheiro dando de cara com Sherlock parado, com as mãos no bolso, de frente para ele e ostentando um simpático sorriso, que no fundo dava medo e fazia correr um frio pela espinha.

– Olá, Sr. Dylan Connor, tenho umas perguntas que só o senhor poderá me responder, tem alguns minutos para mim?

Num ato reflexo, Connor tentou pegar sua arma deixada numa mesinha próxima, mas foi parado pela pressão gélida de uma arma de uso exclusivo do exército em sua têmpora esquerda.

– Se eu fosse você, eu concederia os minutinhos que o Sr. Holmes tão educadamente pediu. – John aconselhou num tom calmo, porém bastante ameaçador.

– Ok. Se vocês estão aqui é porque o governo já tomou conhecimento do meu deslize. Não irei muito longe. – o homem respondeu.

– Até que você é esperto. – Sherlock comentou.

– O que desejam saber?

– O óbvio e um pouco mais. Foi você quem fez o corte na filmagem do vestiário masculino do São Bartolomeu, sabemos disso, mas o que queremos saber é: quem mandou fazer o corte?

– Eu não posso dizer.

– Foi uma mulher não foi? – perguntou o detetive percebendo uma expressão de susto surgir na face do agente. – Sim, claro que foi, minha dedução estava correta então.

– Eu não disse nada. – o agente parecia nervoso.

– Não precisava, sua cara me disse tudo. Agora vamos para as perguntas de resposta menos óbvias: quem ela é? – Sherlock o encarava como se fosse perfurar seu crânio com os olhos metálicos de curiosidade.

– Eu não sei. Nunca me encontrei com ela de verdade.

– O quê? – John parecia incrédulo – Você trai o Governo Britânico a mando de uma pessoa que nem sabe quem é? Conta essa história direito! – o loiro irritou-se segurando mais forte sua arma que permanecia apontada para a cabeça de Connor.

– Calma, John, ele está falando a verdade. Parece de fato não ter encontrado a Mensageira pessoalmente. Diga-me, Connor, como ela entrou em contato com você? Como o convenceu a cometer um deslize tão grave? – o detetive perguntou sentando-se elegantemente no sofá de frente para o agente que permanecia em pé e de costas para largas janelas por onde a brisa fria do inverno britânico entrava impiedosa.

– Ela sabia de coisas... e... bem...

O homem curvou-se repentinamente e começou a convulsionar.

– Envenenamento! – gritou Sherlock se aproximando do homem que se debatia e conseguiu perceber algo espetado na nuca do agente.

Sherlock olhou para trás do ponto onde o homem esteve de pé, no sentido em que o dardo parecia ter vindo e encontrou a visão da janela aberta.

– Droga! – o detetive socou o parapeito da janela ao olhar para todos os lados sem poder definir nada e ninguém que pudesse ter lançado o projétil venenoso.

– Sherlock! – John gritou agachado perto de Dylan Connor. – Chame uma ambulância, rápido, podemos salvá-lo! Ele ainda está respirando!

– Excelente! – os olhos do detetive se iluminaram – Ainda posso fazê-lo falar alguma coisa! Salve-o, John, precisamos dele vivo para nos dar pistas sobre a Mensageira! – disse se preparando para discar o número da emergência.

Antes que a discagem se completasse a porta foi aberta e um grupo de sete homens armados invadiu o quarto.

– Afastem-se desse homem, ele está sob nossa custódia agora! – ordenou um agente careca de olhos verdes.

– Me afastarei com todo prazer, mas agora, se não se importam, preciso salvar a vida dele, caso contrário, não terão ninguém para levar preso. – Watson respondeu com cara de poucos amigos prestando os primeiros socorros à vítima.

Os agentes abaixaram as armas e procederam a chamada de uma equipe médica e deram suporte aos procedimentos do Dr. Watson até a ambulância chegar. Quando os paramédicos chegaram, Sherlock agarrou John pelo braço e o afastou do agente inconsciente.

– Vamos para o nosso quarto, John. – o moreno convidou.

– O quê? – perguntou o loiro meio confuso.

– Não adianta ficar aqui, os agentes de Mycroft irão acompanhar tudo com atenção quintuplicada, vamos descansar em nosso quarto. Temos uma reserva aqui ao lado, lembra? – explicou o detetive parecendo um menino para quem disseram que o bolo que tanto ansiava iria demorar a sair do forno.

– Ah, claro... – John murmurou acompanhando o amigo para o quarto 347.

O quarto era grande, possuía uma elegante antessala com um luxuoso sofá ladeado por duas poltronas confortáveis, adiante aflorava majestosa uma larga cama de casal com dossel, o piso era revertido por um enorme tapete marfim e as janelas amplas exibiam caras cortinas de seda que passaram a dançar com o vento que entrou no recinto após terem suas vidraças abertas por Sherlock que voltou a observar a rua com olhar impaciente, como se esperasse ver quem lançou o dardo envenenado no meio daquela escuridão gelada.

– Fique à vontade, o quarto é cortesia do Governo Britânico. Aproveite e faça o pedido de algo bem caro para comer. – Holmes disse se afastando da janela e pegando uma toalha dando claro sinal de que irai tomar um banho.

John também queria tomar um banho para relaxar, aquele dia havia sido muito estressante e ainda estava perturbado com o beijo que Sherlock lhe deu para poder afugentar a camareira. O médico riu com a lembrança dos lábios do detetive pressionando os seus. Não é que o amigo sabia beijar? Acreditava que o moreno era uma criatura assexuada que nunca havia se permitido qualquer tipo de experiência que implicasse ter que tocar e beijar alguém. Subitamente esse pensamento fez o monstro venenoso do ciúme perfurar o coração de Watson com longas garras infecciosas deixando uma dor ácida em seu peito. Alguém pode, em algum momento da história do seu amigo, ter tido dele mais do que o loiro teve no corredor do hotel. Aquilo não lhe pareceu justo.

Suspirou e pegou o telefone do quarto para realizar o pedido de algo para o jantar. Quando a comida chegou, sentiu-se animado para comer. Deixou de lado a paranóia com alimentos envenenados e jantou enquanto aguardava o amigo desocupar o banheiro.

Minutos depois, Sherlock apareceu enxugando os cabelos e trajando um longo roupão azul marinho com a logo do Queen Mary.

– Bom, agora é minha vez de tomar banho. Eu já me alimentei, vê se come alguma coisa, ok? – John falou pegando uma toalha limpa no caminho para o banheiro.

O banheiro do Queen Mary era grande, o médico acreditava que o recinto era maior que o seu quarto na 221B, tinha um enorme espelho, chuveiro largo e uma ampla banheira feita para caber duas pessoas folgadamente. O loiro prendeu ligeiramente a respiração com essa última constatação, estava tão cansado que tinha deixado passar em que categoria de quarto estava. Tudo ali era para casal. Respirou fundo sentindo forte impulso de esmagar o pescoço de Mycroft por essa piada sem graça.

Tomou banho sentindo os músculos relaxarem consideravelmente em contato com a água morna que descia do chuveiro realizando uma deliciosa massagem no seu corpo tenso. Depois que concluiu o banho, vestiu-se com um roupão semelhante ao de Sherlock e foi para a antessala do quarto onde esbarrou com o detetive consultor esparramado no sofá.

Holmes estava de olhos fechados e mãos unidas à altura dos lábios, certamente perambulando em seu palácio mental, deduziu Watson. Antes de desviar os olhos percebeu que o roupão afrouxara no peito do moreno deixando parcialmente visível seu peito branco onde despontavam alguns pelinhos claros. Aquilo fez as pupilas do loiro dilatarem e seus lábios secarem subitamente. Apertou as mãos buscando manter a lucidez, controlando o desejo insano de alisar aquela parte do corpo do amigo.

– O que está pensando, John? – o moreno perguntou abrindo lentamente o olhar felino, encarando-o com curiosidade.

– Oi? Não... eu... não tava pensando... nada. – John respondeu desajeitado olhando em volta avistando a cama larga logo adiante. – só tem uma cama aqui, você viu?

– É óbvio, é um quarto para casal, imaginei que até você teria percebido isso sem esforço. – Sherlock se levantou rumando para cama e sentando-se no lado esquerdo.

– É claro que eu percebi sem esforço, não sou burro. Mas nós somos dois.

– Eu sei e casais geralmente são compostos por duas pessoas. Isso também é bem óbvio.

– Sherlock, não teste minha paciência, o que eu quero dizer é que somos dois homens e uma cama só.

– Casais também podem ser formados por pessoas do mesmo sexo, John, quando nos conhecemos me fez entender que sabia dessas coisas e que não tinha nada contra.

– Sim, eu sei que casais também são formados por pessoas do mesmo sexo e não tenho preconceito! – o loiro estava perdendo a paciência. – Mas a questão é que não somos um casal, somos dois amigos, o correto é ter uma cama para cada um!

– Ora, John, não seja egoísta, não somos um casal, mas a cama é grande o suficiente para caber quatro pessoas, então poderá acolher nós dois tranquilamente. – o detetive respondeu de forma displicente dando batidas afofadoras no travesseiro que pretendia utilizar.

John comprimiu os próprios lábios buscando equilíbrio e respondeu:

– É claro que ela pode nos caber, mas é esquisito. Por que tinha que ser esse quarto? – John deitou-se no lado direito da cama sentindo o quanto ela era confortável.

– Porque era o único quarto livre no corredor do homem que precisávamos surpreender e interrogar. –Sherlock respondeu se levantando do lado da cama onde havia sentado e afrouxou a faixa do roupão.

– O que está fazendo? – o médico quis saber e sua voz soou meio engasgada.

– Ficando mais à vontade para uma noite de sono relaxante, Dr. Watson. Não pretendo dormir com esse roupão úmido e aconselho você a se livrar do seu também, como médico deve saber que não é muito recomendável. Pode resfriar. – concluiu fazendo a peça felpuda deslizar pelo seu corpo alto e branco.

John ofegou involuntariamente vislumbrando estarrecido o amigo só de cueca diante dele. Sherlock era uma escultura em mármore representando a idealização da beleza e sensualidade masculina, a pele parecia diabolicamente convidativa e apetitosa, não conseguiu evitar o passeio dos olhos ao longo de toda aquela estrutura física do homem que se moveu graciosamente enfiando-se debaixo das cobertas, ignorando estar sendo devorado pelos olhos sedentos do colega de quarto.

"Maldito! Não sabe que está me matando desse jeito!" – John lastimou-se em pensamento refreando um gemido profundo no último segundo, prendendo a respiração.

– John?

– O que foi, Sherlock?

– Você está bem?

– Claro que estou, por quê?

– Nada, é que tive a impressão de que você estava sem respiração, só isso. – respondeu o moreno virando de costa para ele.

"Oh, Deus!", o loiro suplicou ajuda divina. Estava cada vez mais difícil esconder o seu desejo pelo amigo. Não iria tirar o roupão por nada. Temia muito que seu atual estado de extrema excitação pela visão que acabara de apreciar, fosse revelado caso tirasse a peça que agora era seu escudo protetor.

A noite ia ser longa... E que os anjos tivessem piedade do pobre John Watson.

Continua...