Ela caminhou na minha frente o tempo todo.
Estávamos tão próximos até algum momento atrás, agora estávamos visivelmente afastados. Eu estava curioso, de verdade. Muito curioso. Eu sou uma velha curiosa. Ou sou pior que a velha curiosa de sua vizinhança.
Desde pequeno sempre fui assim.
Minha mãe costumava gostar de me deixar envergonhado contando para seus amigos como a minha fase de criança curiosa foi muito maior que das outras por aí. Afinal, eu já tenho dezoito anos e continuo da mesma forma: querendo saber de tudo. Quando eu era pequeno desejava poder ler a mente das pessoas. Seria mais pratico do que sair perguntando tudo o que eu quero saber para todo mundo.
Acho que eu aprendi a ficar um pouco mais calado quando era quinta série e uma das garotas da minha sala apareceu com o seu short de educação física manchado de sangue. Todos acharam que ela ia morrer. Ela estava sangrando, e o short era num tom azul claro. Passado o terror um professor nos juntou dentro da sala e explicou que ela tinha apenas menstruado pela primeira vez.
Eu fui o babaca que quis entender aquilo e acabei prendendo a turma no horário do almoço, pois o professor deixou bem claro que só liberaria a turma quando esclarecesse todas as duvidas.
Como lição, os meus amigos me jogaram dentro do armário. Eu fiquei lá até que o zelador me encontrasse.
– Aprenda a lidar com sua curiosidade Cullen.
Eu só tinha dez anos e estava chocado. Apesar de entender como isso acontece, na época era totalmente inaceitável para mim que as garotas sangrassem todo mês e isso fosse normal.
Eu queria perguntar para Bella quando era o aniversário dela. Mas ela prontamente me cortou na primeira oportunidade.
– Edward, você pode por favor me passar a fita métrica? – Ela pediu ainda sem olhar para mim.
Eu a ajudei a tirar a medida de Blondie.
– É incrível. – Ela comentou sorridente. – Em dois meses teremos um potro aqui.
– Nove meses então?
– Exato. – Bella finalmente olhou para mim sorrindo e depois começou a guardar as coisas. – Sabe Edward, o que eu conversei com você mais cedo... não fale para ninguém. Ta bom?
– Você acha que eu iria falar para alguém?
– Eu não sei. – Ela olhou para mim novamente. – É estranho confiar tanto em você, mas entenda que eu confio em você, mas não confio em mais ninguém na escola.
– Não vou falar sobre isso com ninguém. Eu prometo.
– E pare de olhar para mim. – Ela rolou os olhos irritada. – Sei que estou ridícula com essa roupa.
Eu deveria dizer que ela estava linda?
A oportunidade foi embora na mesma hora que ela se afastou me mandando cuidar das outras coisas.
Tá bom.
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A casa estava silenciosa e a cozinha apagada. Provavelmente estavam todos na sala. Mas assim que Bella abriu a porteira para entrar na cozinha o coro começou.
– Parabéns pra você...
– Ah não... – Eu só ouvi ela resmungar por estar ao seu lado. A luz foi acesa e Alice veio saltitante até ela.
– Parabéns Bella!
O aniversário dela era hoje?
– Hoje você completou dezoito anos! – Alice continuou saltitante. – Quais são os planos para a nova idade?
– Bater em você. – Bella riu. – Bem muito!
– Mas aí você já pode ser presa querida. – Esmé avisou vindo dar um abraço nela.
– Chega de confusões nessa família, não é mesmo?
Carlisle não perdia a oportunidade de me alfinetar. Inferno.
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Alice tinha dado a ideia de irmos para o gazebo conversar um pouco antes de dormir. Bella não parecia muito feliz, mas eu me lembrei dela mais cedo na igreja.
– Jacob sabe que hoje é seu aniversário? – Perguntei tentando não parecer tão curioso.
– Claro que sabe. – Alice fez uma careta. – Ele até me perguntou se Bella realmente não faria nada hoje!
– Parem com isso, ok? – Bella pediu. – Eu não me importo com meu aniversário. Eu só estou ficando mais velha, o que significa mais responsabilidade. Apenas isso.
– Jasper gostaria muito de estar aqui. – Alice falou um pouco magoada.
– Eu amo estar com vocês Alice, mas não vejo graça em comemorações. Não mais...
Não era difícil entender que ela estava falando dos pais dela.
Bella era o meu oposto. Mesmo sem Carlisle eu adoro comemorar o meu aniversário. Minha mãe sempre jantava comigo em algum lugar legal e depois dava uma festa no quintal. Alice não sabia como mudar de assunto e eu lembrei que aqui tem uma piscina que não é usada.
– Então... – Apenas Alice me olhou. – Temos uma piscina aqui. Mas ela está coberta.
– Ninguém usa. – Bella deu os ombros. Mas eu podia ver que ela estava grata por eu mudar de assunto. – Quando eu era pequena Carlisle e Esmé já a mantinham sem uso.
– Na verdade só lembro dela estar pronta para uso uma vez. – Alice comentou animada. – Lembra Bella? Da festa que Carlisle deu para Jasper por ele ter sido aceito em Princeton?
– Alice! – Bella chamou atenção por minha causa. E eu tive certeza disso quando Alice falou novamente.
– Me desculpe, Edward.
– Não é culpa sua. A gente não se da bem. Ponto. – Bella bocejou.
– Eu acho melhor dormir. Alice, você fica?
– Claro que fico. Garanto que hoje à noite você não vai escapar para comer mais da sua torta.
– Mas a torta que sua mãe faz é maravilhosa! – Bella resmungou. – É meu aniversário, não é?
– Não é mais. – Alice olhou o seu celular. – Já passa da meia noite e você tem um monte de… – Bella a interrompeu.
– Coisas de mulherzinha para usar.
Eu estava tendo uma crise de riso com elas duas.
– O quê? – Elas perguntaram ao mesmo tempo.
– Vocês, mulheres, são estranhas!
Elas bufaram e saíram andando na minha frente. Eu aproveitei para comer mais um pedaço da torta e dar espaço para elas, já que Alice ia dormir aqui.
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Eu acordei com muito calor. Muito, muito calor. Assim que me levantei ouvi as vozes das duas. As portas do banheiro estavam um pouco abertas. Eu prontamente me deitei.
– Mas ele é bonito demais!
– Alice...
– Vocês já se beijaram, não foi? – Ouvi alguma das duas batendo palmas. – Eu sabia!
– Não. Ele saiu com Jessica no sábado.
– EW! Logo Jessica?
– Eu sei... mas entre nós dois não aconteceu nada.
– Mas pode acontecer.
– Ninguém olha para mim assim, Alice.
– Agora vão olhar. Vou levar todas as suas roupas velhas e doar.
– Isso não é justo!
– Justo é o nosso outro assunto! O filho bonitão de Carlisle.
– Aham, ele vai me ajudar com Jacob.
– Você vai deixar tudo isso livre?
– Ele vai embora em pouco tempo. – Bella ficou em silêncio por algum tempo. – E eu não acho ele bonito.
O barulho do meu despertador me chamou atenção. E delas também.
– Droga Alice, a porta estava aberta!
– Ele deve ter acordado agora...
– Não importa! – A ultima coisa que eu escutei foi o barulho da porta sendo batida.
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Nos despedimos de Alice e fomos para a aula. Assim que Bella estacionou a caminhonete ela bufou. Jessica estava vindo em nossa direção.
– Que tipo de vadia ela pensa que é?
Era impossível não rir dela falando palavras impróprias.
– Ei Bella. – Chamei sua atenção antes de sair. – Confia em mim?
– O que você aprontou?
– Vamos fazer o colégio ser um território neutro também. Venha se sentar comigo no almoço.
Ela corou. E mordeu os lábios. E eu me lembrei das palavras de Esmé.
E das palavras dela sobre eu ir embora. Isso poderia acontecer a qualquer momento mesmo. Então eu precisava ajudá-la com Jacob.
– Confie em mim, ok? – Ela puxou ar com força.
– Ok.
Saímos do carro e ela seguiu o seu caminho. Jessica parou envergonhada na minha frente.
– Edward, eu queria trocar algumas palavras com você.
– Não sei se temos muito o que conversar.
– Vamos lá. – Ela pediu. E me entregou algo. – Eu quero me desculpar. De verdade.
Um maço dos cigarros que eu costumo fumar e meu isqueiro.
– Comece tendo uma boa atitude com Bella, ok?
– Ok...
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Nós tínhamos almoçado juntos. Nenhum problema nisso. No inicio pessoas estranharam, mas Jessica entendeu o meu comando. Apenas um olhar e ela afastou para que Bella tivesse espaço na mesa também.
Ela reclamou quando eu sai para fumar.
No vestiário eu ouvi alguns babacas comentando das pernas dela. Ou como ela parecia gostosa com as novas roupas.
Eu tive que deixar passar. Ela precisava mesmo chamar atenção.
E eu precisava treinar. Ocupar a minha cabeça e ganhar uns pontos por comportamento.
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– Você corre bem! – Jacob falou comigo pela primeira vez, esbaforido.
– Valeu cara. – Eu me sentei no banco e ele se sentou do meu lado.
– Até que para quem fuma você corre bem. – Ele comentou.
– E é por isso que você vai ter que cortar seus cigarros Cullen. – O treinador falou se sentando junto de nós dois. – Você poderia ter um tempo melhor se não fosse fumante. As primeiras voltas você não esteve bem.
Eu abri a boca para dar um fora nele, mas alguém me chamou atenção.
– Edward! – Bella acenou para mim, o que foi uma surpresa boa.
– Sem cigarros Cullen. Ou eu vou ter que ter uma conversa com seu pai.
– Tudo bem... – Resmunguei.
– Então você é o famoso filho do Doutor Cullen. – Jacob falou rindo.
– Famoso?
– Sim. Ele fala bastante de você no hospital.
– Seu pai é medico?
– Não. Mas minha mãe era. – Mais uma vez eu fiquei sem saber o que falar. – Deve ser dose ficar perto dela, não é mesmo?
– De quem?
– De Bella. – Ele abriu um enorme sorriso. – Ela é tão bobinha que dá dó. Mas eu entendo que deve ser difícil viver sem os pais. Não é fácil eu viver sem minha mãe...
– Ela é muito mais esperta que você imagina.
– Oh! – Ele sorriu – Certo. Até parece que você já deu uns pegas nela.
Estúpido, nojento, filho da mãe.
– Desculpa cara. – Acho que grunhi alto demais. – Mas eu fico pensando se ela realmente só está perdida morando aqui ou não.
– Ela está menos deslocada do que eu. – Garanti.
– Então vocês...
– Não. – Respirei fundo antes de continuar. – Até gostaria. Mas Carlisle me mataria e minha namorada também.
Ele sorriu entendendo o recado.
O que eu falei Foi uma verdade, seguida de algo que eu não me importava e uma mentira. Eu olhei para trás novamente e vi que ela estava lendo algum livro.
Olhei para o meu lado e vi um babaca.
O que é isso que está me incomodando?
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– Ei Edward. – Bella me chamou do lado de fora do galpão. – Você pode vir aqui fora?
– Posso! – Eu terminei de fechar um dos sacos de ração de Budd que saiu correndo assim que Bella assobiou.
– Eu quero te mostrar um lugar legal. – Ela comentou assim que eu cheguei perto dela. – É um dos meus lugares favoritos aqui.
– O seu quarto? – Perguntei brincando.
– Não. – Ela se virou rindo. – É um lugar que eu gosto de chamar de meu, sabe?
– Certo. – Comentei rindo – Onde é?
– Temos que andar uns quinze minutos.
– Você me ensina a direção?
– Enh? – Eu a peguei no colo. – Edward! Me solta.
– Eu gostaria de conhecer o lugar ainda hoje.
– Certo. Não sabia que eu era a rainha dos passos lentos.
– Apenas considero você como uma tartaruguinha. – Comentei enquanto ela se ajeitava em minhas costas.
– Certo. – Ela deu um tapinha na minha cabeça. – Siga em frente. Quando você chegar à cerca velha, entre no pequeno bosque depois da plantação.
– Você que tem medo de aranhas. Lembre disso.
– Apenas siga o caminho calado!
Eu ri, seguindo as direções que ela coordenou.
Nós chegamos a uma campina. Aberta, com um gramado não muito alto, muitas flores. Na mesma hora eu pensei em minha mãe. Ela adorava acampar. Adorava fazer caminhadas ao ar livre, adorava poder cuidar do seu pequeno jardim.
– O que foi?
– Eu lembrei da minha mãe.
– Vem. – Bella pegou na minha mão sorrindo e me puxou. – Vamos tomar um pouco de sol saudável!
Eu ri e me joguei no gramado junto com ela.
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Um mês passou.
Todos os dias depois de nossas obrigações nós caminhávamos até a campina. Bella estava um pouco menos tímida e tinha voltado a ser uma das populares no colégio. Ela e Jacob trocavam mais do que algumas palavras pelo corredor. Na verdade, ela o ajudou em um trabalho de literatura.
Eu fiquei ansioso, pensando que o convite para sair acontecesse, mas nunca acontecia. Jacob a tratava como se ela fosse de vidro e talvez não estivesse querendo comprar uma briga ou má impressão com Carlisle.
– Ei! – Ela e chamou atenção e eu olhei como ela estava linda hoje.
– Oi. – Comecei a brincar com uma mecha do seu cabelo.
– Você pode me responder uma coisa com sinceridade?
– Posso sim boba. – Ela corou ainda mais. – Você fica linda assim. – Toquei em sua bochecha – corada...
– Não pedi por mentiras Edward. Pedi que você fosse sincero.
Eu me levantei um pouco para que pudesse ficar sentado de frente para ela.
– Mas eu estou sendo sincero.
– Bem... – Ela arfou e desviou os olhos dos meus ficando ainda mais corada. – Deixa para lá.
– Não. – Segurei seu rosto para que ela olhasse para mim. – Começou, termina. – Ela riu um pouco.
– Tem como alguém descobrir se alguém nunca beijou antes de estar beijando aquela pessoa que nunca beijou, mas disse que já?
