Sete

Aúnica vantagem disso, reflito, esfomeada, é que talvez a minha aparência sirva para afugentá-lo. Mas ele me dirige um daqueles imensos sorrisos, e eu o xingo por dentro.

- Está com uma boa aparência, Rin.

- E você obviamente está muito atrevido - replico; e, de certo modo, seu sorriso enfraquece.

Droga, são esses olhos que me tiram do sério. Esse clássico olhar de peixe morto, ao mesmo tempo transparente e impenetrável, o ambar tão sereno que chega a parecer translúcido. E o sombreado da barba. O qual, pensando bem, é permanente. Talvez os barbeadores elétricos venham com algum tipo de dispositivo para pêlo eriçado, permitindo ao homem fazer um estilo de displicência elegante o dia inteiro. E, por fator, conte-me o que leva tantas mulheres - incluindo esta que lhe fala - a acharem isso tão sexy? Quem precisa de seios arranhados por barra malfeita?

Não me pergunte o que faz com que os meus pensamentos sigam por esse caminho, pois não estou nem um pouquinho excitada. Quem está aqui é Sesshoumaru, e eu só sinto muito calor. Calor mesmo, não calor de tesão. E, se o homem é tão sexy assim sem estar se insinuando para uma mulher, pode imaginar como ele é quando está?

Isso me confunde.

Enfim, acabo desviando a atenção dos olhos dele, da barba espetada e... da... boca..., e percebo que ele traz em um dos braços um saco enorme, já aberto, de alguma ração de cachorro fantástica e, no outro, um enorme saco de papel pardo, do qual emanam os aromas de gengibre e molho ferrugem. Geoff, por sua vez, decide que vale a pena arrastar-se até aqui para investigar.

Tenho um mau pressentimento quanto a isso.

- Você trouxe comida chinesa para o cachorro?

- Fiquei na maior dúvida se ele preferiria carne bovina com pimenta verde ou com pimenta Szechuan - diz Sesshoumaru, impassível. - Então comprei as duas.

Ele passa por mim, entra no apartamento e deposita a comida chinesa sobre a bancada e a ração no chão, em frente ao cachorro. Deixa Geoff fuçando o saco de ração e granindo, vai para a cozinha e começa a abrir os armários.

- Por que as mulheres guardam tanta porcaria na cozinha? - pergunta, suponho que metaforicamente. A esta altura, ele já está na quarta porta de armário, e posso perceber que sua paciência está se esgotando. - Onde ficam os pratos, afinal?

Claro que eu ainda estou em pé no vão da porta, de queixo caído. Sim, eu sei que foi uma gentileza da parte dele trazer a comida, mas isso não impede que a minha reação seja de espanto ao ver o meuprecioso espaço privado invadido. Claro, estou sempre recebendo, mas...

O que Sesshoumaru acabou de fazer? Invadir assim? Para começar, esta foi precisamente a razão pela qual optei por alguém como Kohaku. Não gosto muito de estar com pessoas que me deixam agitada. E, se havia algo que eu podia dizer a respeito de Kohaku, era que ele não era dado a fazer coisas diferentes do esperado. Quero dizer, com a notável exceção daquele pequeno número que ele aprontou há duas semanas. Mesmo assim, Kohaku nunca invadiu o meu espaço, física ou mentalmente - ou eu o dele -, exceto por consentimento mútuo. Eu me sentia confortável com aquilo.

Não me sinto confortável com... isto.

Sabe o que mais? Acho que eu poderia simplesmente agradecer a Sesshoumaru por trazer pessoalmente a comida de Geoff e depois, educada mas firme, mandá-lo embora junto com a comida chinesa. Ou poderia cerrar os dentes e seguir o fluxo dos acontecimentos, o que seria aprimeira escolha do meu estômago que não pára de roncar. Considerando que Sesshoumaru já pôs a mesa com dois pratos de cerâmica e guardanapos e agora está procurando os talheres nas minhas gavetas - da cozinha, não as ressoais -, imagino que a opção número dois é provavelmente a escolha mais lógica. Mesmo que esteja me causando um ataque de suor frio.

- Por quê? - pergunto.

Sesshoumaru olha para mim, dá de ombros e abre a primeira caixa. Ele procura um pedaço de alguma coisa - carne, eu acho - e joga para o cachorro, que engole sem mastigar.

- Porque eu estava mesmo saindo do trabalho e concluí que seria mais fácil eu mesmo procurar a ração do que designar alguém para isso. E porque estava perto da hora do jantar, e eu imaginei que você também podia estar com fome. Já que não vai tomar uma xícara de café comigo quando surgir a ocasião, pensei: ei, por que não aproveitar a oportunidade?

Sem querer, lembro da oportunidade que surgiu há dez anos e nós dois aproveitamos.

Falando em invadir espaços.

Mas aquilo foi há dez anos. E devo admitir que encorajei o que quer que tenha acontecido entre nós. Agora, contudo, não estou encorajando nada. Sei que não sou a mesma pessoa de antes. De algum modo, também duvido que Sesshoumaru seja.

- A... - tento lembrar o nome. - A Amy sabe disso?

- Sabe, sim. Telefonei para ela e contei o que estava fazendo. Vamos tos encontrar mais tarde esta noite, quando terminar o turno dela no hospital. - Ele me observa curioso. - Deixe-me adivinhar. Você não gosta de surpresas.

- Não muito, não.

- Ah. - Ele coloca dois pares de pauzinhos na mesa e ri. - Legal. Então sente-se e coma. Sabe que está com fome.

Sim, estou. Mas também não estou.

Eu me aproximo da mesa.

- Tem certeza que não tem problema você confraternizar com uma possível suspeita?

Sesshoumaru sacode a cabeça, senta e começa a servir-se de arroz.

- Você não é suspeita. Seu álibi foi confirmado. Tem algum refrigerante, chá ou coisa parecida?

Dirijo-me à geladeira, pensativa.

- Mas eu disse que estava sozinha. Aqui, no apartamento, me arrumando para o trabalho. Ninguém me viu. Serve Coca sabor cereja?

- Serve - diz ele depois de fazer uma careta.

Entrego-lhe o refrigerante; ele tira a tampa, depois enfia outra colher na caixa seguinte e remexe o conteúdo por um instante, antes de colocá-lo sobre o arroz. Depois, olha para mim, novamente com aquela fisionomia impassível. - Se vai ficar andando nua aqui, seria bom pensar em fechar as cortinas. Um dia desses, vai provocar um ataque cardíaco no pobre velhinho que mora no apartamento do outro lado da rua.

Só depois que me recupero dessa pequena novidade é que consigo falar.

- Nossa, como vocês são eficientes.

- É para isso que você paga imposto, madame. Gosta de frango xadrez?

Uau. É meio surreal essa idéia de ser amiga de um homem, mas acho que estou começando a entender o espírito da coisa. De verdade. Veja bem, Sessoumaru já está aqui há duas horas, e os meus mamilos ainda não se manifestaram nenhuma vez. Pelo menos depois dos primeiros 15 minutos. Quero dizer, agora que tive realmente oportunidade de conversar com o homem, é tão óbvio que não há a menor chance de alguma coisa séria existir entre nós - com ou sem Kohaku - que nem sei o que eu temia. Agora, quando fito esse queixo sombreado, penso simplesmente: "Ei, vai fazer a barba."

Mas com certeza foi uma noite de muito papo. Eu me vi falando da minha infância maluca e confusa, e ele, por sua vez, contou sobre seumedo de atirar depois que a esposa o deixou, o que durou muito tempo. Claro que fiz a conversão de tempo, pois sei perfeitamente que a definição masculina de "muito tempo" raramente coincide com o uso feminino do termo. Mas ele realmente pareceu sincero ao dizer que, quando via o irmão Bankotsu e Kikyou com os filhos, também desejava ter algo parecido, antes que fosse tarde demais para poder aproveitar. O problema, contudo, é que ele adora o que faz (como eu suspeitava, se bem que não consigo compreender por que alguém adoraria ser um alvo) e não está pensando em abandonar sua profissão. Mas onde ele poderá encontrar alguém com colhões - palavras dele - para casar com um policial e com ele formar uma família? Devo admitir que refleti e fiquei frustrada. Eu, com toda certeza, não quereria.

Em todo caso, ele acha que talvez Amy seja a pessoa certa. Ela trabalha no pronto-socorro, portanto é uma pessoa corajosa e acostumada a atuações estressantes. Pode ser.

Se você quiser saber a minha opinião, acho que ele está mais cansado de procurar do que propriamente apaixonado. De onde tirei essa idéia? Primeiro, seus olhos não brilham quando fala nela, se bem que tenho certeza que ele não sabe disso. Também não sabe que a carreira é o que menos importa para qualquer futura Sra. Taisho. O lado italiano daquela família - o lado que conheço e evito encontrar — já é suficientemente enlouquecido. E, pelo que vi do clã dos Taisho no casamento de Kikyou, eles também não são nenhum modelo de sanidade. Contudo, foi muito interessante conhecer a versão masculina dos relacionamentos. Eu já ouvira dizer que os homens têm mais dificuldade em aceitar a rejeição do que as mulheres, mas, até esta noite, para mim, isso não passava de mais uma tática para conseguir levar uma garota para a cama em um primeiro encontro. Depois de sair com homens nesta cidade durante 15 anos, acabei por me tornar um pouco desterrada. Porém, por baixo daquela capa de policial durão, quando Sesshoumaru contou sobre como foi abandonado pela esposa, pude perceber seu sofrimento.

Não estamos falando de um homem que está voltado para o seu lado sensível, não me compreenda mal. Algumas vezes, tive de me esforçar para ouvir o que ele dizia nas entrelinhas. Mas ouvi, sim, ou melhor,senti.

Em todo caso, como passamos os últimos 15 minutos conversando sobre a Gloria, a ex, agora estou falando de Kohaku e da minha ambivalência. Quando Sesshoumaru assume uma atitude inflexível e volta a criticar Kohaku por me tratado mal, só posso dizer:

- Mas e se existir de fato uma explicação razoável para ele ter agido assim? E se o seu desaparecimento na verdade for um pedido de ajuda ou coisa parecida?

Ele reage bufando, o que só confirma a minha convicção inicial de que é um típico representante do sexo masculino que está sentado diante de mim.

- Está bem, talvez eu o esteja defendendo. Mas ele não veio logo dizer que ia arcar com as despesas?

- Ele estava tentando amenizar o estrago, Rin.

-Talvez. Não estou dizendo que tenho um plano para o meu coração. Aconteceu muita coisa desde então para eu ficar ruminando sobre esse aspecto da minha vida. Mas isso não significa que eu não possa manter as coisas em fogo brando por algum tempo, pelo menos até eu ter certeza absoluta.

Sessshoumaru me olha desconfiado.

- Como manter a sopa quente para o caso de alguém aparecer para o jantar?

- Mais ou menos isso.

Ele me fita por um longo momento.

- Só não consigo ver você como o tipo capacho, entende? Endireito os ombros.

- Há uma diferença entre deixar a porta aberta para o perdão e ser capacho, Sesshoumaru. - De repente eu mesma enxergo o que sinto, o que Kanna procurou me fazer compreender. - Kohaku e eu combinamos. Nós queríamos as mesmas coisas da vida. Nossos objetivos, pontos de vista e ideais eram semelhantes. Sim, estou confusa, irritada, ferida com o que ele fez, mas aquela foi uma atitude tão diferente dele...

- Em outras palavras, Munson era tudo que a sua infância não foi.

- Sim, acho que era. É. Acha isso ruim?

Sessshoumaru dá uma dentada em um rolinho primavera e sacode a cabeça.

- Acho que talvez seja mais fácil para você prender-se ao que já conhece do que tentar algo novo.

- Palavras do homem que acabou de admitir que depois de ter sido abandonado pela esposa ficou com medo de se envolver novamente.

- Já superei isso - diz ele com um sorriso. E acrescenta, sério: -Além do mais, isso não me fez pensar que a aceitaria de volta. Qual seria o sentido disso?

Recosto-me na cadeira e brinco com uma fatia de cebola no meu prato.

- Você tem alguma idéia de como são poucos os homens saudáveis, normais, disponíveis?

Ele dá uma gargalhada.

- Está perguntando isso a um policial?

- Então você deveria entender por que não é fácil para mim virar a página, simplesmente.

Após um breve momento, ele diz:

- O que percebo é que você está com medo de virar a página.

Hora de mudar de assunto.

- E então, alguma pista do assassino de Jaken?

Ele me analisa por um segundo. Imagino que esteja se ajustando à troca súbita de assunto. Depois, sacode a cabeça.

- Sabe que não posso falar sobre isso, Rin. - Ele suspira ao ver unha expressão de curiosidade. — Só posso dizer que estamos trabalhando.

- E quanto mais demorar, menores serão as chances de solucionar o caso.

Do outro lado da mesa, ele me olha fundo no olho.

- Li isso em algum lugar — explico.

Sesshoumaru dá uma última dentada no rolinho primavera e se recosta na cadeira com ar preocupado.

- É engraçado. Comecei trabalhando no leste do Bronx. Naquela época, assassinato não era propriamente uma ocorrência rara, mas geralmente nós tínhamos uma noção de quem procurar. Não estou dizendo que fosse fácil finalizar os casos, com o sistema judiciário que temos, mas pelo menos eu podia fazer a minha parte, entende? Não eram criminosos sofisticados. Mas aqui, posso contar nos dedos de uma mão o número de homicídios a cargo da nossa delegacia em um ano. Agora estou lidando com uma raça diferente de assassinos, pessoas que sabem cobrir suas pistas.

- Está dizendo que talvez não encontre o assassino de Jaken?

Ele dá só um meio sorriso.

- Se eu acreditasse nisso, entregaria o meu distintivo amanhã. Não, não é bem assim. Só estou querendo dizer que esses casos são um desafio. E como eu nunca fui dado a fazer as coisas da maneira mais fácil... — Ele deixa a frase solta no ar.

A comida esfria. A conversa também começa a esfriar. Ainda não são 8h30 quando Sesshoumaru se levanta para ir embora. Eu o acompanho até a porta, ciente de que ele não está fazendo nenhum movimento para me tocar, nem mesmo um roçar inocente no meu braço. Ofereço-lhe a sobra da comida chinesa - o homem trouxe quantidade para seis pessoas -, mas ele se recusa a levar. Abro a porta. Ele se agacha para coçar as orelhas de Geoff e diz:

- Você não disse tudo o que estava pensando, não é? Quando eu estava falando de Amy?

Assustada, solto uma risada nervosa.

- Por que você diz isso?

Sesshoumaru está na minha frente, a jaqueta jogada em um dos braços, as mãos nos bolsos. Não sei que fim deu à arma e ao coldre. Seus olhos perfuram os meus, não ameaçadores mas... suplicantes, de um jeito que não consigo definir. Sentimos uma energia muito forte entre nós mas em um nível ainda mais primitivo do que o sexo, se isso for possível.

- Sou um policial, Rin. Leio muito bem a linguagem do corpo. E você é péssima em ocultar os sentimentos. Por que, quando eu estava falando de Amy, não disse simplesmente o que estava na sua cabeça?

É, talvez ele seja mais intuitivo do que eu imaginava.

- Não sei... Talvez porque a maioria dos homens não tenha de fato muito interesse em ouvir a opinião de uma mulher?

Ele me olha pensativo mas não faz nenhum comentário. Parece-me que teria alguma coisa a dizer, mas preferiu calar-se.

- Boa noite - despede-se e anda em direção ao elevador, lentamente, em passadas cansadas mas firmes.

Observo-o até entrar no elevador. Depois, viro-me para o cachorro que está em pé no vão da porta - se é que se pode dizer que um bassê fica em pé.

- Você notou que ele nem sugeriu um novo encontro?

Geoff boceja, absolutamente desinteressado.

E eu também deveria estar, se fosse inteligente.

Já faz uma semana que perdi meu emprego e meu apartamento. Meus olhos estão cansados de tanto ler anúncios, e o meu celular passou a ficar permanentemente preso ao meu ouvido. Juro que ouço aquela coisa tocar durante o sono.

O pouco que consigo ter.

Oficialmente, atingi o nível de pânico há dois dias, quando Matsumotu, o contador de Jaken, me enviou um e-mail com a feliz notícia de que, apesar de ele ter examinado os livros da Fanning várias vezes, parece que Jaken tinha entrado indevidamente em umas contas - provavelmente com a intenção de repor o dinheiro antes de vencer a folha de casamento. Contudo, como ele morreu antes de fazê-lo, basicamente não há nenhum dinheiro. Pelo menos no momento. Matsumotu me garantiu - assim como o advogado de Jaken quando me telefonou ontem - que, tão logo os bens sejam liquidados e os credores pagos, os funcionários receberão o que lhes é devido, mas, agora, não há nada que se possa fazer. Especialmente porque a polícia ainda não liberou a propriedade.

Essa notícia, além de tudo, deixou-me sem paciência, razão pela qual o cara desagradável que está tentando aproximar-se na plataforma do metrô deveria pensar duas vezes antes de fazer o que pretende, seja lá o que for. Quero dizer, tenha dó, eu por acaso pareço uma turista?

Meus pés estão me matando depois de andar vinte quarteirões de saltoalto, em um calor sufocante, para entrevistas de emprego com duas firmas diferentes de design de interiores, sendo que ambas ficaram impressionadas com o meu currículo mas não estão contratando ninguém (o que me levou a me perguntar por que diabos eles marcaram as entrevistas, afinal). Agora, estou indo ver outro apartamento que, se for de algum modo parecido com os últimos seis, sem dúvida me fará vomitar. Ah, e não almocei.

Sinto, mais do que vejo, que o homem é mais alto e mais magro do que eu. A plataforma não está cheia a esta hora do dia, mas tampouco está vazia. Estou no ângulo de visão do guichê de venda de bilhetes e bem longe da beira da plataforma, sendo difícil algum lunático empurrar-me para os trilhos. Portanto, se esse atrevido está pretendendo me assaltar, deve ter cojones do tamanho de bolas de basquete.

Dou uma espiada e vejo os tênis de skate, vermelho e preto, novos, mais perto do que há dez segundos. Meu coração acelera, mantendo-me alerta, e eu seguro firme a alça da minha bolsa com a mão direita, dividindo o meu torso em dois, como sempre. Mas hoje também tenho comigo minha pasta de documentos, cuja alça, que está na mão esquerda, eu também aperto com força.

O camarada diminui a distância entre nós; eu decido que não vou jogar esse jogo. Viro-me, assustando o garoto, pois é isso que ele é, olho bem nos seus olhos e depois corro em direção à roleta.

Logo em seguida, sinto uma mão pousar na minha bunda.

Um segundo depois, o garoto está esparramado de costas, no chão da plataforma, segurando o braço no local que atingi, certeira, com a pasta de documentos.

- Sua puta! - grita o garoto, percebendo tarde demais que o funcionário no guichê observa tudo com muito interesse.

Sorriu diante dos aplausos que me acompanham enquanto atravesso a roleta e subo a escada. Por mais que as coisas fiquem ruins, são momentos como este que me fazem entender por que eu amo esta cidade.

Infelizmente minha alegria não dura muito. O apartamento era uma boa merda, como Kagome definiria sucintamente. E falta menos de uma semana para Annie chegar. Seis dias, para ser exata.

Sento-me com o meu material no banco de um parque que fica em algum lugar de Washington Heights, cansada e deprimida demais para conseguir me mexer. Olho para o relógio. São 6h30 da tarde. Sinto algo semelhante a uma brisa, mas o calor ainda é intenso o suficiente para assar um cachorro-quente. Meu Deus. Eu deveria estar casada - franzo o cenho ao contar - há 16 e eu já teríamos retornado da lua-de-mel e já estaríamos morando no nosso pequeno - está bem, não tão pequeno assim - ninho de amor em Scarsdale há mais de uma semana. Procuro não me alongar na idéia de que, mais ou menos neste instante, eu poderia estar servindo um agradável jantar ao ar livre. Ou me divertindo no quarto refrigerado...

Um adolescente com as calças caídas deixando a cueca à mostra passa por mim carregando um aparelho de som de onde sai uma música rap.

...com Mozart.

Suspiro.

Para melhorar o meu humor, passa por mim o cortejo de um funeral. Meu primeiro pensamento é querer saber se o apartamento está disponível.

Mas ficar aqui não vai adiantar nada. Levanto-me do banco e procuro lembrar onde é a estação do metrô. Como fazem os cães, levanto o rosto e decido que énaquela direção a esta altura, já não distingo leste de oeste ou qualquer outra coisa). E lá vou eu, sentindo-me como se fosse aquilo que o Geoff vomitou no meu tapete esta manhã.

Durante algum tempo, caminho com dificuldade, sem destino, e finalmente encontro um velho judeu baixinho que passeia com seu cocker spaniel mais velho ainda. Com o solidéu preso por um grampo aos três fios que lhe restam de cabelo branco, o gentil velhinho me informa, no seu inglês carregado de sotaque ídiche, onde fica o ponto do metrô. Surpreendo-o admirando as minhas pernas e me afasto.

Viro a esquina no cruzamento indicado. A rua à minha frente é incrivelmente limpa, como se todas as manhãs um batalhão de duendes saísse dos prédios de tijolos claros artdéco para varrê-la. E é absolutamente tranqüila.

Flores coloridas enfeitam os peitoris das janelas em vasos e floreiras. Alguém teve um bebê; na janela de um primeiro andar, uma faixa de corviva anuncia: "É Uma Menina!" Na esquina, duas mulheres de meia-idade, com as cabeças cobertas por véus, trocam mexericos. Ouço um animado "Mazeltov!" ao passar por elas. Uma delas me olha desconfiada. Um casal oriental discute aos risos como montar um teimoso carrinho de bebê dobrável, enquanto a mulher embala contra o peito, protetora, um bebezinho de cabeleira preta.

Estou encantada.

Quando um homem de origem latina de cerca de cinqüenta e poucos anos surge de um dos prédios, me pego perguntando a ele se, por acaso, sabe de algum apartamento vago.

Ele me observa cauteloso com seus olhos escuros - ei, eu agiria da mesma forma comigo, considerando a minha aparência - e responde que sim.

- Um apartamento de um dormitório, no quarto andar. Sou o porteiro. Posso levá-la para ver, se desejar.

Meu coração dá pulos.

- Qual é o preço do aluguel, o senhor sabe?

Ele dá de ombros.

- Mil e duzentos, ou mil e quinhentos por mês, não estou bem certo. Mais as taxas. É um bom apartamento. Recebe muita luz e tem bons armários.

Juro que ouço um coro de anjos. Abro um sorriso.

- Posso vê-lo agora?

Ele dá de ombros novamente.

- Claro, por que não?

- Tem certeza que não há nada de errado com o apartamento? Dois dias depois, Onigumo está no meu sofá, escolhendo uns CDs que resolvi esta manhã não querer mais. Enquanto isso, a cerca de um metro de distância, arrumo pilhas intermináveis de livros dentro de várias caixas que consegui na Kinko's que fica perto daqui. Uma tarefa extremamente prazerosa, mesmo no apartamento abafado. Sim, eu pensava que adorava este lugar - e adorava mesmo -, mas o meu novo apartamento...

Uma onda de pura alegria toma conta de mim.

- Oni-kun, é incrível. A sala é ampla e dá para o sul, portanto recebe luz o dia todo. Tem um quarto com um closet imenso e uma cozinha separada... e tudo por US$ 1.200,00 por mês!

- Não entendo. - Ele pega uma pilha de CDs. -Vou ficar com estes, se não se importar.

- Claro que não, pode ficar.

- Deve haver alguma coisa errada com ele. Por esse preço?

- Pelo menos nada que eu pudesse ver. Está recém-pintado, e a geladeira é relativamente nova. O fogão é mais para velho, e o chão á madeira está um pouco arranhado, mas isso não é problema para mim. Dá até para ver o rio da janela da sala, é só esticar um pouco a cabeça.

Onigumo revira os olhos.

- E por que razão ele calhou de estar vago?

- Isso é que é incrível. O inquilino anterior acabara de se mudar poucosdias antes. Saiu antes de terminar o tempo do contrato ou algo assim, não entendi bem a história. Eles tinham acabado de arrumá-lo, mas ainda não estava nas mãos de um corretor. E as boas notícias não param aí. Consegui um emprego também.

- Não brinca! Onde?

Cito o nome de uma das maiores lojas de departamentos da cidade.

- Eles tinham uma vaga?

- Exatamente. Começo na segunda-feira. E óbvio que levarei um tempoaté conseguir boas comissões como antes, mas, assim que me limiar, telefonarei para algumas clientes minhas para informar que volteia trabalhar.

Para dizer a verdade, não estou tão animada quanto pareço com essa parte dos acontecimentos. Primeiro, eu jurara nunca trabalhar em uma loja dedepartamentos, cuidando de velhinhas que só querem venezianas pequenas para suas cozinhas. Mas o comprador de mobílias da loja parece competente, e sempre é possível fazer uma encomenda especial. E se eu conseguir os meus clientes de volta, tudo ficará bem. Além do mais, um emprego é um emprego.

Pelo menos é o que repito para mim mesma.

Levanto-me para buscar mais uma caixa da pilha oscilante ao lado da porta e quase tropeço no cachorro. Estou preocupada. Mesmo com seu problema de alimentação resolvido, Geoff ainda não está feliz aqui. Não me parece que esteja doente ou algo assim, mas não está exatamente transbordando de alegria de viver.

- Creio que ele sente falta de Jaken - comento. - O que é um pouco difícil de acreditar, considerando a maneira como o canalha tratava os seres humanos, mas devia ser bom para o cachorro.

- Há pessoas assim. - Onigumo levanta-se e passa por cima do cachorro, que revira os olhos para ele. - Mas acho que Geoff só está puto porque a vidadele virou de cabeça para baixo.

- Justo o que eu precisava: um cachorro com problemas. Ei – digo para o cachorro, cutucando carinhosamente seu traseiro com os dedos dos pés descalços. Relutante, ele levanta a cabeça e pisca para mim. -Se eu posso enfrentar toda a reviravolta que está acontecendo na minha vida, você também pode. Nunca ouviu falar em adaptabilidade, sobrevivência do mais forte e toda essa baboseira?

Com um suspiro desolado, Geoff volta a deitar a cabeça no chão.

- Isso poderia significar a extinção da sua raça, sabia?

Onigumo inclina a cabeça para um lado e inspeciona o traseiro de Geoff.

- Querida, odeio dizer isto, mas a fase de procriar deste cão já faz parte do passado.

- Sei disso. Faz parte da vida. Mas não gosto de vê-lo tão infeliz. Só consigo pensar que a culpa deve ser minha.

Onigumo olha para mim.

- Não sei bem qual de vocês dois precisa mais de uma terapia.

- Como não tenho condição de pagar para nenhum dos dois, parece que vamos ter que resolver isso sozinhos. - Abaixo-me para coçar o peito de Geoff. Por um instante, ele parece lutar com sua consciência; depois, lacônico, levanta uma pata para facilitar o meu acesso. - Só não consigo deixar de pensar que ele não vai estar muito mais feliz com lá quem for.

No final, a única coisa que Jaken deixou para alguém foi o cachorro. E esse alguém é um bichinha que me recordo de ter visto borboleteando na firma faz alguns anos. Quero dizer, depois de morar em frente a Onigumo e Jakotsu, que conseguem despertar o interesse das mulheres o tempo todo, se bem que inutilmente, esse camarada foi um choque.Ele era simpático e parecia ser boa gente, talvez um pouco nervosinho demais. Nem sei por que terminaram a relação, muito menos por que Jaken deixou o cachorro para ele. O que, no momento, não passa de teoria, pois o advogado ainda não conseguiu entrar em contato com esse Curtiss.

Não sei se ficarei feliz quando tiver de entregar o Geoff. Este animal exige tanto quanto um bebê chorão de três anos de idade. Por outro lado, é bom ouvinte. É ótimo ter alguém que não se importa se a primeira coisa que você faz ao acordar é reclamar com ele. E que também não me atormenta com conselhos inúteis.

É claro que não acredito que Geoff realmente se importe. Ele ouve, mas dá para ver que seu coração não está muito voltado para aquilo. Mas então por que diabos estou me apegando tanto a ele?

- Já contou à sua mãe que vai se mudar? - pergunta Onigumo.

Levanto-me, volto para a caixa que estou arrumando e passo os olhos nas pilhas da minha vida oscilando pelo apartamento. Quando me mudei para cá, eu não tinha literalmente nada. Agora, olha só todo esse lixo. Jakotsu tem razão, pareço um daqueles ratos que têm mania de carregar tudo para o ninho.

- Você enlouqueceu? - pergunto.

- Se ela vier visitá-la e não a encontrar, concluirá que aconteceu alguma coisa.

- Eu não disse que não contaria à minha mãe sobre a mudança. Se bem que a idéia é tentadora. Mas só telefonarei para ela quando já estiver no outro apartamento. Não quero lhe dar nenhuma chance de tentar me convencer a morar com ela.

- Mas não seria uma má idéia. Quero dizer, até você se recuperar financeiramente.

Afasto do rosto uma mecha de cabelo e fito Onigumo bem nos olhos.

- Você moraria com a sua mãe?

Ele empalidece, de verdade.

- Jamais.

- Pensarei na idéia de morar com a minha mãe logo depois que você contar à sua que é gay.

Onigumo me fita com raiva, permitindo-me vislumbrar como deve ter sido em criança.

- Por falar nela - digo porque estou cheia de ser o assunto -, quando é que o seu irmão vem para sua casa?

- Na sexta-feira à noite.

- E ficou decidido que nós vamos lidar com ele... como?

- Àmoda antiga. Mentindo deslavadamente.

Eu me endireito e coloco as mãos na cintura.

- Essa é a idéia mais estúpida que já ouvi na minha vida.

- Ninguém perguntou a você, certo? - retruca Onigumo.

Eu pigarreio.

- Olha, Rin - continua ele -, é só uma semana. Ko ficará com a mãe a dela. Jakotsu dormirá no quarto dela, eu continuarei no nosso, e Inuyasha dormirá no sofá-cama da sala. Pensará que apenas dividimos o apartamento

- Não pensará mesmo. Oni-kun, é evidente que o quarto de Ko pertence a uma garota de 12 anos. Se você quer mesmo esconder a verdade do seu irmão, isso não vai funcionar. O que, na minha opinião, é uma tolice.

- Já disse isso.

- Mas vale a pena repetir.

Onigumo suspira.

- Não somos burros, Rin. Nós vamos esconder todas as coisas de menina.

- Oni-kun, a parede do quarto é cor-de-rosa.

- Então nós manteremos a porcaria da porta fechada. Ele não tem mesmo nenhum motivo para entrar no quarto de Jakotsu, certo?

- Eu já disse que acho que é uma idéia tola? Enfim... - ele resmunga mas eu continuo, pois é uma boa oportunidade de lançar a idéia -, isso realmente não é da minha conta...

- Obrigado.

- ...mas, já que o seu irmão estará aqui mesmo, ele poderia juntasse a vocês dois para me ajudar na mudança.

Onigumo me encara espantado.

- Como é?

- Já pensei em tudo. Alugarei uma van. Imaginei que, se você e Jakotsu puderem carregar os itens maiores, Kagome, Sango e eu poderemos cuidar das caixas e de todos os itens menores. Quero dizer, quanto tempo devemos levar para esvaziar um apartamento-estúdio? E, com o seu irmão aqui, será muito mais rápido. - Sorrio triunfante. - Um de vocês dirige, está bem?

- Ah, sim, claro, mas...

- Ótimo. Providenciarei a comida e a bebida, e vocês me ajudarão na mudança. Será divertido.

- Imagina só - diz Onigumo após um breve instante -, há dez minutos eu estava pensando na falta que você me faria. - Ele abre a porta sai para o corredor. - Já me arrependi.

Estico meu corpo para beijar seu rosto. Ele se limita a revirar seus lindos olhos negros.

Chega o sábado. E, com ele, a primeira chuva em um mês. Ultimamente não tenho ouvido o noticiário, portanto não estava a par de que estávamos na mira das sobras do ciclone Betsy ou Becky, ou seja lá que nome tem a coisa. O raio da tempestade desaguou justo na costa e parou bem em cima de Long Island.

Hoje.

E Kagome telefonou às seis horas da manhã (o que não foi um problema porque passei a noite inteira acordada empacotando) para dizer me teria que trabalhar esta manhã e pedir que eu ligasse para ela quando estivéssemos saindo, que nos encontraria no prédio novo para ajudar a descarregar.

De algum modo, ela não parecia muito amolada com isso. E eu sei como Kagome odeia ter de trabalhar aos sábados.

Ainda há este cachorro neurótico que, nos últimos três dias, está ido de medo, choramingando em um canto atrás do sofá. Talvez ele pense que não vou levá-lo, sei lá. Pobre cão. Muitas vezes tentei explicar o que estava acontecendo, mas creio que ele não consegue superar problema de adaptabilidade.

Como nunca me mudei para nenhum lugar além de Manhattan, não idéia de como seja isso em outro lugar. Suponho que a tarefa não seja agradávelmesmo sob as melhores condições, como um dia de sol e a possibilidade de chegar com a van bem próximo da porta. Aqui em Manhattan, porem, é preciso lidar com vários obstáculos normalmente não encontrados subúrbios, sendo que, hoje, o mais crucial é o fato de Jakotsu só ter ido estacionar a van no final do quarteirão. Um quarteirão comprido, do tipo que atravessa a cidade. Decidimos então que Sango – que, por alguma razão inexplicável, achou que seria divertido trazer seus dois filhos, Sakura e Shipoo - pode ficar vigiando, enquanto nós levamos para a portaria, que, felizmente, é cerca de quatro vezes maior que o apartamento. Uma vez que todos os meus bens materiais estejam reunidos aqui, poderemos carregar tudo para a van, como uma fila de ursas. Com alguma sorte, até lá a chuva terá passado e/ou um estacionamento mais perto do prédio já estará aberto. Não que eu esteja preocupada, mas, enquanto há vida, há esperança.

Primeiro, temos de levar tudo para a portaria, o que nos leva ao obstáculo número dois: o elevador que a) comporta quatro pessoas conforto e seis apertado, e b) se movimenta a uma velocidade semelha à de uma mulher de 90 anos caminhando com andador.

Por alguma razão, outros inquilinos não vêem com simpatia a idéia de terem de esperar enquanto uns idiotas do oitavo andar carregam elevador com um milhão de caixas, especialmente quando descobre que não sobra espaço para eles quando chega ao seu andar. Pessoas que antes me ignoravam ou murmuravam saudações ao passarem por mim agora estão querendo briga. Percebo que, quando for embora, nunca mais poderei voltar.

Mas a melhor parte de tudo isso é a descoberta de que o meu sofá-cama, que pesa três milhões de quilos, não cabe no elevador, nem em pé sobre um dos lados. Conseqüentemente, os rapazes - incluindo Inuyasha (que por sinal é um gato) - são obrigados a levá-lo pela escada.

Todos os oito andares.

Calculo mentalmente quantas pizzas e cervejas serão necessárias remediar isso. Duvido que toda a Manhattan tenha tanta cerveja.

Ofegantes, suando e ocasionalmente xingando, eles conseguem chegar ao quinto andar. Todos nós estamos usando camisetas e shorts em variados de decência, sendo que a umidade e o suor há muito tempo grudaram o tecido ao corpo. Neste clima, o meu cabelo faz o estilo Medusa, bamboleando enquanto sigo os rapazes na descida da escada e os oriento nas duas plataformas entre cada andar. Sei que é só um sofá, mas é meu, e eu o adoro. Além do mais, não tenho condições de comprar outro.

- Cuidado! - grito, talvez pela décima vez, quando as costas do sofá estão prestes a bater em um pilar de apoio da escada de metal. A minha voz, que não é agradável nem nos meus melhores momentos, reverbera na escadaria como quando uma criança bate com uma colher em uma panela.

Os três homens me fitam furiosos.

- Ei - tento animá-los -, lembrem que é a última coisa a sair apartamento. A não ser pelo cachorro, mas ele pode caminhar.

- Rin - responde Onigumo, descendo as escadas de costas com cuidado, as mãos cheias de pêlos de veludo cor de amora —, estou errado - cuidado, Inuyasha, droga! -, ou vamos ter que repetir este processo ao inverso quando chegarmos no outro apartamento?

- E... ah! Cuidado com aquela quina! Mas lá são apenas quatro andares, não oito.

- Quatro andares de subida - Jakotsu consegue dizer num gemido.

É, ainda tem isso.

Talvez eu possa alimentá-los durante todo o próximo sábado também.

Finalmente chegamos à portaria, o sofá e o humor dos homens razoavelmente intactos. Sem nenhuma eficácia, Sango ralha com as crianças que escalam a pilha de caixas. Uma mulher que nunca vi entra pela porta com o guarda-chuva encharcado, pára, fita a minha poltrona de leitura com algum interesse, depois aponta para ela e dirige-se a quem quer que a responda:

- Quanto quer pela poltrona?

- Não está à venda! Está sendo transportada! - respondo tão irritada que ela corre para o elevador agora livre.

Convenço-me que não está chovendo tanto quanto antes, mas desembrulho o primeiro de vários plásticos que comprei esta manhã, logo que a loja de ferragens abriu. Enquanto os homens discutem a estratégia - devo dizer que todos estão sendo muito camaradas - envolvo o sofáem dois plásticos, amarro com uma corda e avalio a minha obra, muito satisfeita comigo mesma. Pensando bem, se esse novo emprego não deslanchar, talvez eu possa abrir minha própria firma de mudança...

- Rin? O que está acontecendo aqui?

Viro-me e deparo com a expressão de frustração da minha mãe.