Capítulo VII
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Eu ouço os sinos de Jerusalém tocando
Os corais da cavalaria romana cantando
Seja meu espelho, minha espada e escudo
Meu missionário em uma terra estrangeira
Por um motivo que eu não sei explicar
Eu sei que São Pedro chamará meu nome
Nunca uma palavra honesta
Mas, isso foi quando eu regia o mundo
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Roma era uma cidade bonita ao longe, principalmente quando emoldurada pela luz solar. Uma luz brilhante, que Nero gostava de admirar da sala imperial, sentado em seu trono. Era uma pena que ao entardecer, tanta luz e tanta beleza se esvaíam e a cidade se tornava fria e um tanto sombria. Se ao menos houvesse uma maneira de tornar Roma tão cheia de luz e vida durante a noite...
Um brilho se formou nos olhos de Nero...
Ah, mas é claro que havia uma maneira de fazê-lo...
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-Aldebaran, traga-me um cavalo, depressa! Eu preciso ir atrás da minha irmã! – pediu Mirielle, muito nervosa e gesticulando muito, se Julia estava mesmo nas mãos de Afrodite, não podia perder mais um minuto sequer em sua aldeia.
O homem, abatido e sem orientação por conta do acontecido com o filho, apenas fez um sinal afirmativo com a cabeça e foi atrás de um cavalo. Máscara da Morte, que estava por perto, adiantou-se até Mirielle, chamando-lhe a atenção por um instante.
-Eu irei com você e não adianta contrariar o que digo! Julia está nas mãos de Afrodite por minha causa, disso tenho certeza.
-Não vou dizer nada em contrário, mas quero que saiba que quando voltarmos, você deixará esta aldeia, sem olhar para trás, entendeu?
-Isso, conversaremos quando tudo estiver acabado!
A contragosto, Mirielle assentiu e voltou ao terreiro, onde Aldebaran já estava com dois cavalos, pois Máscara já havia lhe pedido um animal também. Ambos montaram e a jovem mulher, antes de partir, ainda fez um último pedido ao amigo.
-Cuide de tudo por aqui, Aldebaran... E, se por um acaso eu não voltar... – ela disse, por um momento melancólica – Cuide de Julia, Helene e Marco, assim como de todos nesta aldeia... Eu deixo tudo em suas boas mãos.
Partiu, sem dizer mais nada, com Máscara da Morte em seu encalço.
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Assustada, Julia chorava sem parar, lágrimas e mais lágrimas caíam em abundância de seus olhos e lhe embaçavam a visão, os pulsos amarrados doíam por conta da corda, muito apertada e cheia de farpas, a mordaça em sua boca machucava os cantos de seus lábios. Estava sobre o cavalo do oficial romano, sentada à sua frente, bem presa entre seus braços.
Um milhão de pensamentos vinham á sua mente, o que aquele homem tão belo, mas ao mesmo cruel, poderia querer consigo? Por que esfaqueara Marco e o mandara de volta à aldeia, com aquela rosa vermelha? Dissera apenas que era um recado a um velho amigo, a garota logo entendera que falava de Carlo. Fechando os olhos, rezava em pensamento, pedindo a Deus que a protegesse, que enviasse o rapaz até si para salva-la, mas que não o deixasse cair em nenhum tipo de armadilha.
Afrodite sorriu, meio de canto, ao vê-la de olhos fechados. Era uma garota bonita, sem dúvida, parecia uma menina ainda. E seus traços não lhes eram estranhos, tinha a impressão de já tê-la visto em algum lugar, ou de conhecer alguém muito parecida com ela, mas quem?
Possivelmente, alguma das diversas escravas que o serviam no palácio de Nero, já que eram de aldeias cristãs, tal qual aquela jovem. Sorriu novamente, mais abertamente. Ah, quando tudo estivesse realmente acabado, poderia se divertir um tanto com aquela beleza...
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Os cavalos galopavam em grande velocidade, não poderiam perder um único minuto. Um pouco mais à frente, Máscara da Morte não enxergava nada além do brilho vermelho da fúria e da raiva em seus olhos, agora entendia muito bem o ataque que sofrera e que quase o levara à morte, havia sido tudo uma armadilha montada por seu Capitão. Um homem que julgava ser o único amigo que possuía em toda sua vida.
Mirielle, em seu encalço, tentava manter a cabeça erguida e lutava para que seus olhos vermelhos não desabassem em lágrimas raivosas. Ah, se Afrodite encostasse um único dedo em Julia, ela mesma o mataria. Como deveria ter feito quando teve chance, mas não teve coragem...
Um clarão começou a se formar à frente de ambos, estavam chegando em Roma. Uma luz avermelhada brilhava em meio à cidade, enquanto que gritos podiam ser ouvidos ao longe. Máscara diminuiu o galope, Mirielle emparelhou seu cavalo ao do rapaz. O que estava acontecendo na cidade?
-Um incêndio?
-Não há tempo para descobrirmos... – Máscara disse, empinando seu cavalo – Afrodite já deve estar no palácio, com Julia!
Retomando o galope, ambos entraram na cidade, em direção ao palácio real.
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Quando chegaram às portas da muralha que cercava o palácio, Afrodite e Julia se depararam com um grande incêndio, que consumia parte do palácio e da cidade, homens, mulheres e crianças corriam em desespero. Apeando do cavalo e puxando a garota com certa violência, Afrodite a arrastava para dentro do local, não podia perder tempo procurando por algum outro lugar para se esconder, Máscara da Morte o procuraria por ali.
Os corredores da ala leste ainda estavam intactos, ele se dirigiu às termas, lançando Julia à sua frente, que se desequilibrou e caiu com tudo no chão, batendo a cabeça e machucando-se na queda. Quando tentou se levantar, foi puxada novamente por Afrodite, que arrancou a mordaça com força, rasgando parte de seu lábio inferior, de onde começou a sair sangue.
Nervosa, Julia fez a única coisa que poderia em sua situação: cuspiu no rosto de Afrodite, que desviou a face. Limpando-se com a ponta de sua capa, ele se voltou para ela e lhe deu um tapa, tão forte que a garota somente não caiu porque ele a segurava.
-Sua... Vadia... – ele ergueu a mão para um segundo tapa, porém...
-Solte-a, seu porco nojento!
Aquela voz... Ah, sim, ele conhecia muito bem aquela voz... A mesma que, por tantas noites, gritara em seus ouvidos, por vezes pedindo clemência, por outras xingando-o como fazia naquele instante. Virou-se com tudo, colocando Julia à frente de seu corpo, como uma espécie de escudo.
-Mirielle... – Julia disse, ao ver a irmã em pé, a poucos metros de distância, segurando uma pequena espada entre as mãos. Seu olhar era puro ódio, seu corpo todo tremia de raiva.
-Você a conhece, princesa?... – perguntou Afrodite para Julia, segurando uma pequena adaga contra o pescoço alvo – Ah, sim, agora sei com quem se parece... São da mesma família... Talvez irmãs?
-Eu mandei soltá-la, seu desgraçado!
-Pelo visto, não mudou nada nestes anos que passamos longe um do outro, Mirielle... Continua a me tratar com todos esses impropérios... Não sentiu minha falta? Das noites em que passamos juntos, de todas às vezes em que a tomei, que a fiz minha?
Julia mantinha a cabeça erguida por conta da adaga em seu pescoço e encarava a irmã, tremendo de medo e receio. Não imaginava que, nos anos que Mirielle estivera longe, havia estado em Roma e sofrera todos os horrores que agora imaginava nas mãos daquele homem nojento.
Começava a esquentar no ambiente, logo o fogo que consumia parte do palácio chegaria às termas também. Precisava atacar Afrodite e salvar Julia de suas mãos, mas como faria? Precisava pensar, tinha que haver uma maneira de tira-la dali sem machuca-la. No entanto, não houve tempo para tanto.
Preocupada em como faria para acabar com tudo, Mirielle baixara sua guarda. E, em questão de milésimos de segundo, vindo não sabia dizer de onde, um soldado romano apareceu, golpeando seu braço, a espada caiu nos degraus da grande terma. Quando se voltou para ele, não houve tempo para se desviar de um segundo golpe, certeiro. Atingida no abdômen, um corte que sangrava em abundância, Mirielle caiu.
-MIRIELLE! – Julia gritou, quis se mover e correr até a irmã, mas a adaga em seu pescoço se apertou com mais força, cortando levemente a pele fina, um filete de sangue começou a escorrer pelo colo.
-Meus parabéns, Misty... – Afrodite disse ao soldado, sorrindo – Será muito bem recompensado por isso...
Misty devolveu o sorriso de Afrodite, para logo em seguida desfazê-lo, com um olhar assustado, ao mesmo tempo em que uma lâmina muito afiada transpassava seu peito. Caiu para frente, em meio à uma poça de sangue e água.
-Aqui está sua recompensa, idiota... – disse Máscara da Morte, suado e segurando uma espada suja de sangue. Encarando Afrodite, deu dois passos na direção do subordinado, que retesou a adaga no pescoço de Julia, arrancando-lhe um grito fraco.
-Nem mais um passo!
-Acaso é um covarde para se esconder atrás de uma mulher, Afrodite? É dessa maneira que quer ser o General do grande exército romano?
Como resposta, Afrodite jogou Julia de lado, a garota, com a violência do gesto, bateu a cabeça contra uma coluna e caiu aos pés do Capitão, parecia desacordada. Furioso, Máscara da Morte avançou contra Afrodite, o rapaz bloqueou o primeiro golpe da espada de seu superior, jogando-o para trás.
Em meio ao caos do incêndio que se aproximava, ouvia-se o tilintar das espadas chocando-se uma contra a outra, os gritos de ambos. Lutavam de igual para igual, eram mestre discípulo, um conhecia todas as técnicas do outro, aquela luta poderia durar uma vida inteira.
De repente, o fogo avançou com tudo para dentro da terma, a porta de madeira praticamente explodira com a força do incêndio. Máscara pulou para sua direita para fugir das chamas à suas costas, Afrodite não o fez e golpeou o rapaz, acertando seu braço com sua espada.
Com um grito de dor, Máscara da Morte derrubou a espada, que o outro chutou longe e, aproveitando o momento, acertou-o novamente, na perna, desequilibrando-o.
-Poderia ter facilitado tudo, Máscara da Morte... – Afrodite disse, chutando-o nas costas, fazendo com que o rapaz caísse no chão de vez, sem conseguir firmar os joelhos no piso – Poderia ter morrido naquele campo... Mas aquela desgraçada estragou tudo!
Julia... Ela estava no chão, inconsciente. Estaria morta? Não, não poderia... Se assim fosse, não conseguiria suportar.
-Mas podemos resolver isso, não? Eu vou acabar com você e depois com ela... Mas claro que antes disso, eu mereço um pouco de diversão e uma companhia feminina para esquentar meus lençóis, não acha?
Rindo, Afrodite ergueu sua espada, pronto a dar o golpe de misericórdia em Máscara da Morte, mas não contava que o General seria tão rápido. Com um giro, ainda deitado, Máscara ficou de frente para Afrodite, segurando uma espada em suas mãos. A espada de Mirielle, que caíra nos degraus da terma, à sua frente. Com um movimento preciso, enterrou a lâmina no abdômen do subordinado.
Afrodite largou sua espada, caindo de joelhos no chão, uma das mãos sobre o ferimento, que sangrava muito. Ergueu a cabeça para encarar Máscara da Morte, ele sorria, mas não olhava para si, parecia que encarava um outro alguém. Até que sentiu seus cabelos serem puxados com violência para trás, expondo seu pescoço a uma lâmina mais fina e cortante. A sua própria adaga.
-Eu disse que um dia o mataria, seu nojento... – disse Mirielle, sorrindo de um jeito cínico e sem nenhum escrúpulo.
De um só golpe, a garganta de Afrodite foi rasgada, a jovem mulher largou o corpo inerte para logo em seguida tombar para frente, a adaga caindo de sua mão. O corte em seu abdômen não parava de sangrar, não havia como estancar aquele sangramento. Estava pálida e já quase sem forças.
-Carlo... Leve Julia para longe daqui... Leve-a de volta à nossa aldeia...
-Eu cuidarei dela, é uma promessa.
Mirielle se permitiu sorrir, ele era um soldado romano. E também o homem que Deus colocara no caminho de sua irmã para cuidar dela e fazê-la, de alguma maneira, feliz. Viu o rapaz pegar Julia no colo e partir, pelos fundos. Viu quando o fogo se alastrou por toda terma. Antes de fechar os olhos, viu o horror que ficara estampado nos belos olhos azuis de Afrodite. Sorriu novamente.
Estava feito.
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Dois anos depois...
A vida seguia de maneira tranqüila na aldeia. Marco se recuperara do ferimento, embora a cicatriz em seu abdômen fosse uma marca que carregaria para sempre. Helene e Aldebaran haviam se tornado os novos líderes do povo que ali vivia, o rapaz era amável e gentil com todos, e firme quando se fazia necessário.
Junto à sepultura de Shura, havia uma outra, mas que se encontrava vazia. Embora não estivesse ali, o povo da aldeia não deixaria de prestar suas homenagens à Mirielle. Não importava a época do ano, se fazia chuva, sol ou frio, sempre haviam flores brancas e amarelas postas ao redor da cruz de madeira.
-Eu sei que olha por mim, minha irmã... – Julia dizia, em pé à frente da cruz, onde acabara de colocar um novo ramalhete – Sei que aprova a felicidade que vivo... No fim, Carlo se mostrou um homem digno de sua confiança...
Segurando um pequeno embrulho nos braços, Carlo se aproximou da jovem, observando a cruz e as flores que ela acabara de depositar por ali. Uma brisa se fez presente, que logo se tornou um vento frio. Logo começaria a chover.
-Vamos voltar para casa, Julia, está muito frio para o Vincenzo...
Julia pegou o embrulho dos braços do rapaz, o bebê sorriu, abrindo os olhinhos azuis e fitando a jovem mãe. Cobrindo-o, ela se dirigiu ao caminho de volta, com Carlo em seu encalço. Fitando o céu onde começavam a se formar nuvens de chuva, ele agradeceu ao Deus que aprendera a respeitar e acreditar.
Que lhe dera o maior de todos os presentes que poderia querer: a sua família.
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E aqui foi mais uma fic, terminada... Nyx, espero que tenha gostado, embora eu nunca goste muito dos finais das fics que escrevo, acho que os únicos que não tenho ressalvas são os finais de "Castle on a cloud" e "Escarlate", mas enfim... Gostei do resultado geral da fic, e do Dite que coloquei aqui, como disse, pela primeira vez, consegui colocar no papel a verdadeira visão que tenho de um personagem.
Beijos a todos que leram e acompanharam a fic, em especial para a homenageada e aguarde, Nyx, que seu presente de aniversário já está sendo escrito... Dica? Bom, digamos que Shion, May e Giulia darão as caras por aqui logo, logo...
Beijos, beijos e beijos!
