Capítulo VI: A Decisão de James

Conforme a tarde chegava ao fim, o belo pôr do sol encobria a cidade de Londres com sua luz alaranjada. Alheio a isso, Kingsley Shacklebolt estava sentado em seu escritório no Ministério da Magia, aguardando o relato que Harry prometera lhe enviar. Após um bom tempo de espera, enfim um homem loiro e mirrado adentrou o aposento, carregando consigo um pergaminho dobrado e visivelmente ofegante.

- Acabamos de receber uma coruja do chefe dos aurores, Harry Potter, senhor ministro...

Kingsley pegou a carta que lhe foi estendida, aliviado.

- Ah, finalmente... Obrigado, Lewis.

O homenzinho fez uma pequena reverência e se retirou do escritório. O Ministro sacou então a varinha e com um breve aceno dela fez a porta se trancar. Uma vez sozinho, desenrolou o pergaminho e pôs-se a ler as informações contidas nele.

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Caso Nogwell

Criminosos envolvidos: Alexandra Nogwell, Marcus Nogwell, Isaac Nogwell, Henry Nogwell, Michael Nogwell, Scott Nogwell, Kyle Nogwell, Lee Nogwell, Tyler Nogwell, Andrew Nogwell e cinco mercenários contratados que serão listados em outro relatório.

Estado atual:

Alexandra Nogwell – Inocentada

Marcus Nogwell – Preso e aguardando julgamento

Lee Nogwell – Idem

Scott Nogwell - Idem

Isaac Nogwell – Pereceu na batalha da mansão de sua família

Henry Nogwell – Idem

Kyle Nogwell – Idem

Andrew Nogwell – Idem

Tyler Nogwell – Idem

Michael Nogwell – Foragido

Crimes que cometeram:

Chantagem

Homicídio

Tentativas de homicídio

Uso das Maldições Imperdoáveis

Imigração ilegal para a Grã-Bretanha

Falsidade ideológica

Objetivos:

Assassinar o chefe dos aurores, Harry Potter

Resgatar o prisioneiro Edward Nogwell, que foi capturado há oitenta dias por fazer uso de objetos das trevas

Após a libertação de Edward, pretendiam resgatar os demais Comensais da Morte e continuar com o legado do Lorde das Trevas

Resumo do caso:

Edward Nogwell veio dos Estados Unidos neste ano com planos de reagrupar os Comensais da Morte sob seu comando. Ao ser capturado e enviado para Azkaban, sua família veio ilegalmente para a Grã-Bretanha e passou a residir em sua mansão, onde começou a planejar um resgate desesperado. Todos os Nogwell têm o dom da Metamorfomagia.

Alheios ao fato de que Morpheus Miller era o professor mais novo em Hogwarts, capturaram-no em sua última visita a Hogsmeade e o assassinaram. Após sumirem com o corpo, Scott Nogwell assumiu sua forma e conseguiu facilmente se infiltrar em Hogwarts, burlando as defesas graças às ilusões criadas por sua Foxxlie, que é uma criatura mágica tipicamente americana. Quando chegou a hora de pôr o plano em prática, usou a Maldição Imperius na aluna Megan Harvey, ordenando-lhe que estuporasse James Potter e que o levasse até o coração da Floresta Proibida.

Com James Potter fora de cena, enviaram uma coruja a Draco Malfoy anunciando que James fora sequestrado, tendo em mente que ele era amigo de Harry Potter e por isso certamente passaria o recado. Tal ação foi explicada mais tarde, quando Marcus Nogwell revelou-se a Harry Potter na forma de Lucius Malfoy, visando confundi-lo e fazê-lo recear durante o duelo.

Ao receber o aviso de que seu filho fora sequestrado, Harry Potter entrou em contato com Hogwarts e descobriu que realmente ele tinha desaparecido. Fora de si, aparatou até a mansão dos Nogwell e caiu em uma emboscada, quase sendo assassinado. Durante a confusão, foi salvo por Alexandra Nogwell, que fora traída e atacada pelo irmão Marcus. Harry recebeu então o auxílio da estudante Lucy Powell e do professor Filius Flitwick, e mais tarde de outros membros da antiga Ordem da Fênix e aurores. Os criminosos foram todos derrotados ou mortos, com exceção de Michael Nogwell, que fugiu durante o combate. Dentro de dois dias serão iniciadas as buscas a ele, mesmo sendo um Metamorfomago.

Em diversos aspectos o plano deles se mostrou inocente, e até mesmo bastante falho, o que mostra uma falta de planejamento dele. O principal motivo para a situação ter saído de controle foi o desespero de Harry Potter diante do suposto sequestro do filho, e ele assume total responsabilidade por quaisquer problemas que o Ministro venha a ter.

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Kingsley terminou de ler e ergueu as sobrancelhas, contemplando novamente as últimas palavras.

- Eu não o culparia por uma coisa dessas, idiota...! – Pensou exasperado.

Dobrando o pergaminho, pôs-se a refletir sobre tudo aquilo.

- Então temos um Metamorfomago foragido... Isso é complicado. Agora, se eles realmente tivessem planejado tudo nos mínimos detalhes e usado ao máximo o potencial de seus poderes, teriam sido realmente capazes de libertar os Comensais da Morte. Metamorfomagia é mesmo algo assustador...

Guardando o relatório na gaveta, levantou-se, preparando-se para ir para casa.

- Mas esse relatório é bem resumido, Potter... Se já viu seu filho, por que está com tanta pressa? Eu realmente quero saber como a tal Alexandra o salvou.

Com tal dúvida em mente, apagou a luz e abriu a porta, saindo do escritório e enfim indo para sua residência.

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A noite rapidamente caiu, trazendo consigo a Lua e as belas estrelas que pontilhavam o céu. Deitada em seu leito de hospital, Lucy contemplava o panorama pela janela, sentindo-se entediada. Há pouco tempo recebera a notícia de que só poderia deixar o St. Mungus no dia seguinte, decisão que ela tentou mudar a todo custo. Contudo, seus pais insistiram que ela devia seguir as recomendações médicas, e justamente por isso ela tinha ficado um pouco irritada com eles.

- Eu queria estar em Hogwarts... Já me sinto ótima! – Pensou frustrada, olhando para uma estrela que insistentemente piscava para ela.

Já estava deitada e pensativa há quase uma hora, desde que seus pais tinham voltado para casa para deixá-la descansar. Durante aquele período, recebera apenas a visita da enfermeira, uma mulher morena e alta chamada Jasmine. Radiante, ela informou à ruiva que não ficariam quaisquer sequelas ou cicatrizes quando os ferimentos cicatrizassem, o que foi o bastante para alegrá-la. Contudo, agora o tédio imperava, e ela se via cada vez mais incomodada por estar ali. Apesar do aborrecimento, não pôde deixar de sorrir ao receber a notícia de que James estava bem. E também, tinha ajudado a salvar Harry Potter! Apesar de ter apenas fugido dos inimigos que a perseguiam, ela tinha o forte palpite de que se não estivesse lá, todos estariam condenados. Realmente tinha feito a diferença naquela batalha, mesmo que de um jeito inusitado. No momento em que pensou nisso, ouviu a voz de Jasmine no corredor.

- ...não pode, os horários de visita terminaram...!

Lucy ergueu as sobrancelhas, surpresa, e um segundo depois ouviu uma voz masculina muito mais conhecida.

- Não me importo com horários de visita! Eu quero ver a Lucy!

Sobressaltando-se, a ruiva se sentou na cama.

- James...? – Sussurrou, sem acreditar.

Jasmine voltou a se manifestar, com a voz aguda.

- Senhor, não sei como chegou até aqui, mas a paciente precisa descansar! Está tarde...!

- Tarde? A essa hora, eu e a Lucy ainda estamos passeando por Hogwarts! Aposto minha capa de invisibilidade como ela está acordada...!

Sem pensar duas vezes, Lucy levantou-se com um salto e correu até a porta.

- Mas regras são regras, senhor, e...!

A enfermeira calou-se ao ver a porta se abrir. A ruiva, surpresa, observou a cena inusitada por um instante: James, com alguns pequenos arranhões espalhados pelo rosto e com o cabelo despenteado como sempre, era segurado pelas vestes de bruxo por Jasmine, que parecia estar fazendo um esforço tremendo para mantê-lo no corredor. Seus olhos castanhos imediatamente se encontraram com os verdes de Lucy, e ambos ficaram sem reação por um momento.

- James...? – Chamou ela, passados alguns segundos, mal acreditando que ele estava ali.

James sorriu.

- Eu mesmo...

Falando isso, de repente adiantou-se até ela. Estavam agora cara a cara, e seus rostos estavam a poucos centímetros um do outro. Podiam observar cada detalhe de suas faces. Lucy contemplou-o por um momento, nervosa, e ele então olhou por cima do ombro.

- Ei, mocinha... Posso abraçá-la?

Visivelmente contrariada, Jasmine enrugou o cenho e assentiu.

- De leve, sim. As feridas já estão praticamente cicatrizadas, porém ela ainda deve ficar um dia se recuperando... É de praxe, e...

Contudo, James não mais ouvia. Adiantara-se um passo e abraçara Lucy com força, o que a surpreendeu bastante. Ele nunca a tinha abraçado daquele jeito antes... Foi muito mais apertado e ousado que qualquer abraço de amigo que eles já tivessem trocado, e ambos instantaneamente se esqueceram da presença da enfermeira, que curiosamente observava a cena. A ruiva, sentindo uma mistura de surpresa e alegria, levou a mão ao cabelo bagunçado do amigo e acariciou-o de leve. Quando ele repetiu o gesto, em silêncio, ela sentiu uma intensa tempestade de emoções invadir seu corpo, coisa que nunca tinha sentido na vida. Sem dizer uma única palavra os dois ficaram assim, abraçados, por longos minutos.

James sentiu o rosto dela esquentar e percebeu que aos poucos estava ficando vermelho. Sentiu a pele macia de Lucy, o cheiro dela, sua respiração ofegante... Embora fossem amigos há anos, nunca tiveram um contato tão próximo a ponto de reparar nesses pequenos detalhes. Ou talvez seus corações já tivessem reparado, embora suas mentes ainda estivessem confusas quanto àqueles sentimentos. James, puxando-a para mais perto do próprio corpo, sussurrou algo em seu ouvido:

- Estava preocupado com você... Desde que acordei quis saber como estava.

Lucy sorriu, e embora seu rosto não estivesse visível para o rapaz, ele sentiu isso.

- Digo o mesmo... – Respondeu ela, enfim afastando-se um pouco.

Os dois se encararam, ambos sorrindo radiantes e com os rostos muito enrubescidos. Ao mesmo tempo, trocaram aquele olhar de cumplicidade que costumavam trocar quando James aprontava algo. Sim, pois a verdade é que Lucy gostava do jeito irreverente dele. Fingia irritar-se e repreendê-lo, e ele fingia acreditar na repreensão. Mas ambos sabiam os verdadeiros sentimentos um do outro, embora não admitissem. Ao olharem para trás, perceberam que Jasmine tinha desaparecido. Aparentemente tivera o bom-senso de deixá-los sozinhos... Sem dizerem uma única palavra, ambos adentraram o quarto, batendo a porta ao passarem. O rapaz olhou para os lados, impressionado.

- Uau, que quarto... O papai não poupou gastos, mesmo.

Algo ocorreu a Lucy, e ela subitamente caminhou até a cama. Erguendo o travesseiro branco, tirou de baixo dele a capa da invisibilidade, estendendo-a ao seu dono.

- Precisei usá-la para acompanhar o professor Flitwick... Sem isso, eu nunca teria conseguido.

O rapaz guardou o fino objeto dentro das vestes de bruxo, parecendo se divertir com sua explicação.

- É, ouvi falar da sua fuga... Genial. Acho que tem andado muito comigo, sabe?

Lucy riu. A angústia que dominava seu peito desde o desaparecimento de James enfim tinha deixado de existir... Contudo, de repente uma dúvida cruel veio à sua mente, e no mesmo instante desviou o olhar para o chão. O moreno percebeu aquela reação súbita, e logo se adiantou até ela.

- O que aconteceu? – Perguntou surpreso.

A ruiva não respondeu, apenas enrugou o cenho. Ele ergueu as sobrancelhas.

- Está preocupada porque usou a capa sem pedir? Deixa disso, já falei mil vezes que ela também é sua...

Lucy continuou sem se manifestar. O receio que dominara seu corpo agora não tinha qualquer relação com a capa de invisibilidade... Sem conseguir se conter, fez a pergunta que tanto perturbava sua mente.

- James... E Megan Harvey?

James ergueu as sobrancelhas. Não esperava uma pergunta daquelas em uma hora daquelas...

- Ela está bem. Um pouco perturbada após ter sido atingida pela Imperium, mas está menos ferida que a gente...

Lucy não se virou para encará-lo. Tampouco se manifestou. O rapaz sabia a real dúvida que ela tinha em mente, mas pensava em qual seria a melhor maneira de saná-la. Por fim, após hesitar, começou a falar aos poucos.

- Quando acordei, dei de cara com a Megan. Ela estava esperando que eu acordasse...

Lucy sentiu seu estômago afundar e o rosto corar. Então suas suspeitas se confirmavam, afinal... Havia um abismo entre o coração dela e o de James. Ela era "a amiga". Apenas isso. Não havia qualquer sentimento amoroso vindo dele. Nervosa, cerrou os punhos. Percebeu o quanto tinha temido ouvir aquilo.

- ...mas eu preferia ter dado de cara com você. E disse isso para ela...

A ruiva demorou um momento para absorver aquela informação. No momento seguinte, porém, virou-se para encará-lo, com os olhos verdes se destacando no rosto que estava quase tão vermelho quanto os cabelos. James exibia aquele sorriso maroto de sempre, e não tirava os olhos dela.

- Não com essas palavras, é claro...

Ele enrugou um pouco o cenho, pensativo.

- Falei algo do tipo... "Depois de quase ter morrido na Floresta Proibida, decidi parar de brincar com coisas sérias e namorar a pessoa que eu realmente amo". Foi algo assim...

Lucy ficou boquiaberta com o que tinha acabado de ouvir. Sorrindo, James caminhou até ela e envolveu-a pela cintura, puxando a ruiva para mais perto de si. Os rostos dos dois estavam muito próximos agora, e os olhos de um estavam completamente perdidos nos do outro.

- Eu te amo, Lucy... – Sussurrou ele, sem pensar duas vezes.

Uma onda quente e intensa pareceu emergir do coração da moça, se espalhando por todo seu corpo e dominando cada centímetro dele. Mal tendo consciência do que estava fazendo, pensando apenas que enfim tinha chegado o momento que ela aguardara por tanto tempo, lentamente aproximou seu rosto do de James, enquanto o rapaz imitou o gesto. Um segundo depois os dois se beijavam com voracidade, ao mesmo tempo em que se abraçavam com força e sentiam que seus corpos se roçavam sem parar.

Diversas vezes cambalearam durante o beijo, quase caindo, mas recuaram até a parede e conseguiram recuperar o equilíbrio. Ofegantes, se separaram por um breve instante e sorriram um para o outro, mas no momento seguinte suas bocas estavam juntas novamente. Parecia que suas vidas dependiam daquele beijo voraz e irresistível, e que respirar era um mero detalhe facilmente dispensável.

Passados longos minutos daquela cena, subitamente a porta se abriu. Os dois rapidamente se separaram, surpreendidos, e viram Harry parado no portal. Com as sobrancelhas erguidas e visivelmente atônito, correu os olhos verdes pelo casal: estavam vermelhos como um pimentão, completamente descabelados e ofegantes. Sentiu-se constrangido ao perceber que tinha interrompido alguma coisa...

- Hum... Estamos indo para casa, James. Acredito que a enfermeira Jasmine não vai deixá-lo ficar aqui com a Lucy, e...

O rapaz riu.

- James? Que James, pai? – Declarou, levando a mão às vestes de bruxo.

Um segundo depois, tinha sacado a capa de invisibilidade e escondera-se sob ela. Lucy não conseguiu segurar o riso. Harry, por sua vez, coçou a cabeça e suspirou.

- Imaginei que diria isso... Bom, cuide bem dela, então... E não se esqueça de que ela precisa de repouso. – Declarou, frisando a última palavra.

Lucy enrubesceu ainda mais pelo tom de voz usado, e a cabeça de James apareceu flutuando no ar, sorrindo.

- Pode deixar, vou tentar lembrar disso!

Com um breve aceno, Harry saiu do quarto e bateu a porta. Os dois amantes se contemplaram mais uma vez, embebidos nos olhos um do outro e visivelmente apaixonados. Por fim, James caminhou até ela, pensativo.

- Não gosto muito dessas formalidades, mas acho que a situação pede algo assim...

Parando diante da ruiva, sorriu para ela.

- Lucy, quer namorar comigo?

Ela riu. Jogando os braços em torno do pescoço do rapaz, com o rosto a centímetros do dele, rebateu o questionamento.

- Ainda pergunta?

Dizendo isso, fechou os olhos e pela terceira vez naquela noite os dois começaram a se beijar. Contudo, esse beijo foi interrompido muito mais rapidamente, devido a um pigarreio seguido de um pedido feito por uma voz sibilante.

- Quer fazer o favor de soltar o meu James?

Ambos se sobressaltaram e olharam para o canto do quarto. A Murta-que-geme estava lá, lívida de fúria, com uma expressão homicida no rosto. Lucy olhou para James, que não estava entendendo nada, e logo pensou no que responder para o fantasma.

- Murta, sabia que neste hospital está ninguém menos que Gilderoy Lockhard...?!