Ano 5 – parte 1
Neville finalizou a reunião enumerando todos os argumentos sobre porque Finn Hudson era o escolhido, o campeão deles, de acordo com a profecia. Todos concordaram com o integrante da Armada de Dumbledore e decidiram que Finn deveria receber proteção especial. Neville foi estimulado a continuar com os treinos de Finn em Hogwarts. Também foi decidido que os outros dois deveriam receber atenção e proteção especial, uma vez que era fundamental evita que eles sofressem o chamado "ponto de virada" que os levaria para o outro lado. Evitar a profecia, afinal, não deixava de ser uma das muitas missões.
Ao final, Neville, satisfeito com as discussões, deixou a antiga casa dos Blacks (usada nas reuniões da Armada de Dumbledore e da Ordem da Fênix). Os integrantes saíram da residência e aparataram com suas respectivas incumbências, menos os casais Potter e Granger-Weasley.
"Acha que é sábio fazer com que ele pense que está certo, mesmo que a gente saiba que ele está errado?" Ginny questionou o marido. "O garoto, Hudson, pode se tornar o que tememos se o ponto de virada for justamente a decepção que ele pode sofrer quando descobrir a verdade."
"Vale o risco, Ginny. É uma boa estratégia inclusive para confundir o outro lado." Harry acariciou rapidamente a mão da esposa.
"Vale o risco se a gente partir do princípio que Lopez não vai se corromper sob nenhuma circunstância." Hermione observou com a mesma usual perspicácia. "Não se esqueçam do que Draco disse: de que eles estão muito próximos. Qualquer um pode se tornar aquele."
"O pior é que eu simpatizo com Nell." Ron confessou. "Aquela garota é arrogante e acho que a gente está se apegando demais numa profecia sem considerar detalhes relevantes."
"Como o quê?" Hermione questionou o marido.
"Como Lily poderá ter filhos com outra garota?"
"Adoção, banco de esperma ou até mesmo transfiguração..." Hermione pontuou. "As possibilidades são inúmeras, tanto para nós quanto para Muggles." Ela então se aproximou de Harry e de Ginny. "Como vocês estão encarando isso?"
"Tirando o fato de ter de proteger Santana Lopez, mesmo querendo matar essa garota?" Harry resmungou.
"Harry... nós concordamos em não interferir na vida da nossa filha. Nem mesmo por causa de uma profecia. Ela vai ficar com quem quiser." Ginny abraçou a si mesma, ainda insegura sobre os últimos desdobramentos sobre a vida pessoal de Lily. "Nós a ensinamos bem e agora vamos ter de confiar nisso."
"Eu não gostaria que ela levasse namorico adiante com ninguém." Harry foi franco. "Ela é a minha garotinha e me corta o coração saber que alguém vai..." Ele se arrepiou. "Odeio até pensar a respeito."
"Essas coisas acontecem, Harry." Ginny fez um carinho nos cabelos do marido. "Só podemos desejar que nossos filhos tomem as decisões na hora certa, com as pessoas certas."
"A vida amorosa da minha afilhada é muito interessante, mas vocês olharam tanto para isso que deixaram escapar uma informação realmente importante." Hermione advertiu. "Lopez começou a se interessar a fazer magia sem varinha. Rose falou a respeito. Foi por isso que Lopez procurou a aluna de Uagadou. Ela começou a aprender a fazer isso."
"Todo mundo sabe que é muito difícil, provavelmente impossível, fazer magia complexa sem varinha." Ronny desdenhou. "É pura perda de tempo."
"Pode ser, Ron. Mas é provável que será assim que as coisas vão acabar." Hermione mostrou a ilustração, a única imagem gerada sobre a profecia. Havia dois bruxos sem rostos e sem definição de sexo. Um estava de pé atacando com a varinha, e o outro de joelhos se protegendo apenas com as mãos na frente do rosto. O de pé estava desenhado em um fundo sombrio e o de joelhos em um fundo claro. "Seja como for, é melhor começarmos a desencorajá-la. Porque, senão, é como ela vai morrer e todos nós vamos perder."
...
"Você nunca mais vai jogar quadribol na vida!"
Santana trocou olhares com Rachel e as duas se seguraram para rir da cara de horror que Shelby fazia ao assistir o primeiro jogo profissional de quadribol em Westchester, Nova York, lar dos NY Thunders. Eles jogaram o clássico regional contra o Salem's Fire.
Shelby ficou irritada ao saber que a filha se machucou muito numa partida de quadribol como consequência de uma jogada desleal. Por isso que Santana convidou a mãe para assistir a um jogo. A intenção dela era mostrar o quanto aquilo era legal e empolgante. Shelby não entendeu as regras, ficou perplexa em saber o que era o balaço e ainda testemunhou uma queda espetacular da goleira do time de Salem, que a tirou do jogo.
"Não estou mais impressionada por você quer quebrado a perna e duas costelas. Estou impressionada por você ter saído viva!" Shelby esbravejou em meio a multidão de bruxos que deixava o estádio.
Santana ainda andava de muletas quando ela e Rachel embarcaram no avião de volta a Nova York. Os medibruxos eram capazes de colocar todos os ossos no lugar num toque de mágica, mas a calcificação era um processo natural, que demandava tempo.
"Quando eu ficar boa, a senhora vai voar de vassoura comigo por Manhattan."
"San, você vai é matar a nossa mãe." Rachel bronqueou sem disfarçar o sorriso. Ela até que adoraria ver a cena.
"Só porque você não gosta de voar, elfo, não quer dizer que ela não vai gostar."
Rachel fez careta para Santana. Realmente a caçula tinha medo de voar, especialmente do jeito maluco como os jogadores de quadribol ou corredores de vassoura, que pareciam querer desafiar todas as leis da gravidade e da física. Mas se fosse um passeio calmo, devagar, como um que fez em companhia com Hugo enquanto o time de Hogwarts estava em Durmstrang, não acharia ruim.
As três mulheres entraram na fila do teletransporte e Shelby começou a prender a respiração desde já. Elas precisaram usar um desses para chegar ao estádio, e Shelby vomitou todo o café da manhã na chegada. Ela não estava ansiosa para repetir a experiência. Primeiro foi Rachel que entrou na cabine de banheiro químico. Depois Santana. Shelby hesitou em entrar na cabine. Empacou de verdade.
"A senhora vai ou não vai sair daqui?" Um homem de meia idade reclamou.
"Claro..." Shelby disse receosa.
"No-majs..." O homem resmungou.
Shelby ouviu o resmungo do homem e isso a deixava brava. Como alguém que nunca esteve realmente numa situação socialmente degradante, ela pouco sentia na pele as tensões de classe. Como mulher, suportava um mundo ainda machista, porém, mais uma vez, sem maiores dificuldades. Como mulher branca, nunca vivenciou constrangimentos que migrantes e negros podiam sofrer, mesmo numa cidade cosmopolita como Nova York. Ela tinha uma filha mestiça em que a fez vivenciar o sofrimento pelo outro. Ser uma muggle, ou uma no-maj, como os americanos diziam, a fazia se sentir como uma alienígena, como um ser de segunda classe. A sensação era péssima, mas que a fazia crescer dentro de si um orgulho próprio, uma teima para levantar a cabeça num ambiente em que muita gente a olhava de modo discriminatório. Quando disse a uma bruxa que era no-maj, foi como se Shelby tivesse virado um inseto aos olhos da moça. Aí sim, passou a entender o sofrimento que Rachel e Santana passavam em ambos mundos.
Ela olhou para trás. Encarou o homem e ergueu o queixo. Entrou na cabine do banheiro público (achava que os bruxos tinham senso de humor muito estranho), sentou no vaso, acionou o botão da descarga e vapt. Saiu em uma lareira na lateral da via da pequena vila bruxo que ficava no centro de Manhattan. O embrulho no estômago se fez presente. Shelby tentou se segurar até que vomitou dentro de uma lixeira, sob olhares de desgosto dos bruxos que ali passavam.
"Tudo bem, mãe?" Rachel perguntou.
"Como é que você se acostuma a isso?"
"Não é tão mal. Dizem que aparatar pela primeira vez é muito pior."
"Cadê a sua irmã?"
Rachel olhou em volta e não encontrou Santana.
"Não sei." Ela deu de ombros, sem entender o olhar de pânico de Shelby.
"Santana!" Shelby gritou no meio da rua. "Santana!"
"Mãe?" Santana saiu de dentro de uma livraria. "Algum problema?"
"Não saia de perto de mim!"
"Ok?"
Shelby colocou a mão no ombro da filha e quis sair do vilarejo o mais rápido possível. Desde a última conversa com Juan, passou a temer pela vida da filha mais velha. Santana era a escolhida de uma profecia maluca e estava visada por diversos grupos. Shelby odiava a situação. Odiava ter que agir normalmente diante da filha sabendo do perigo que rondava aquela família por todos os lados.
A professora de teatro e técnica vocal não conseguiu pregar o olho naquela madrugada. Conferiu o quarto das garotas algumas vezes e suspirava. Sabia que o apartamento dela estava protegido com todas as mágicas possíveis, e que se alguém tentasse entrar sem ser convidado, teria de se esforçar para romper as barreiras mágicas. Mas como ela poderia confiar em um mecanismo de segurança que não conseguia ver ou entender?
"Você precisa relaxar, Corcoran." Shelby pulou num susto quando ouviu a voz meio zombeteira da auror. Ela as vezes se esquecia que o gato branco que a acompanhava era uma pessoa.
"Eu estou fazendo o meu melhor." Shelby caminhou até a cozinha. "Mas não está sendo fácil. Café?"
"Preto e sem açúcar." Sue Sylvester sentou-se à pequena mesa da copa/sala enquanto observava Shelby colocava a água para esquentar no aparelho. "Se ela souber, vai ser muito mais fácil protegê-la. Foi uma decisão estúpida que vocês tomaram em esconder o que ela é."
"Como posso contar sobre algo cujas dimensões eu não consigo entender? Não é tão simples chegar até a minha filha e dizer: olha, existe uma profecia que diz que você vai ter de lutar com outra pessoa e que só um vai sair vivo!"
"Pareceu simples agora."
"Não brinque." Shelby serviu a auror e depois preparou a própria xícara. "Santana pode morrer por causa de uma profecia idiota."
"Todo mundo vai morrer algum dia." Sue apreciou o aroma do café antes de tomar um gole e fazer careta por causa do gosto amargo. "Como é que vocês podem gostar disso?"
"Café preto sem açúcar. O que esperava? É amargo."
"Vocês fazem isso parecer bom nos filmes." Shelby suspirou e balançou a cabeça. Sue colocou a xícara de lado. "A garota é esperta. Ela também é forte. É muito poderosa para a idade que tem. Bruxos como ela costumam viver uns 150 anos fácil, fácil."
"Pode ser, mas por hora ela só tem 14 anos e quase morreu num jogo estúpido."
"Que exagero!" Sue revirou os olhos. "Escute aqui Corcoran, a garota ficará bem. Nós vamos protege-la, apesar de ela saber se cuidar."
"Gostaria de ter a sua certeza."
A luz do quarto das meninas se acendeu, desviando a atenção de Shelby. Quando procurou por Sue, a auror já havia se transformado num gato e estava no carpete da sala lambendo a pata. Rachel saiu do quarto e foi em direção a cozinha, onde encontrou a mãe tomando café.
"Com insônia de novo? Está tudo bem?"
"Eu sou adulta e posso ter insônia. Qual a sua desculpa?"
"Banheiro e sede." Rachel disse enquanto enchia um como d'água. "É impressão minha ou a senhora estava conversando com alguém?"
"Estava falando alto, conversando com a gata."
"Sério?" Rachel deu uma risadinha. "Preocupada com o trabalho?"
"Com o trabalho, com vocês duas, com a saúde da sua avó..."
"O que a vovó tem?"
"Diabetes."
"Oh... a gente vai ter que ir para Ohio?"
"Por enquanto não. Sua irmã não gostaria de ver o seu avô nem pintado de ouro depois do que aconteceu no ano passado. Sinceramente, nem eu."
"Que bom..." Rachel suspirou e depois ficou em pânico com medo de Shelby ter se ofendido. "Quer dizer, Ohio é interessante e minha avó é legal..."
"Ohio é um estado entediante, e a casa dos meus pais é um lugar hostil para vocês." Shelby se aproximou da filha caçula e fez um afago nos cabelos dela. "Rachel, você está feliz estudando em Hogwarts e vivendo nesse mundo bruxo?"
"Acho que estou. Hogwarts é um lugar duro, mas eu fiz amigos, tenho a minha irmã por perto. E fazer magia é muito legal."
"Como é?"
"É como se a gente fosse jedi. Só que em vez de um sabre, nós usamos varinhas de madeira com núcleo de animais místicos, e dizemos comandos mágicos que aprendemos na escola."
"Isso faz parecer que eu pari Luke e Leia." Shelby suspirou.
"Má comparação, mãe. Isso faz parecer que eu beijo minha irmã."
"Desculpe."
"Apesar de que Santana andou criando rebuliço durante a Copa Escolar de Quadribol."
"Mesmo? Como?"
"Ela beijou Lily Potter e Quinn Fabray!" Rachel disse em tom confidencial. "Brittany tentou reatar o namoro, e ainda tem uma garota no coral, Marley Rose, que tem a maior queda pela minha irmã."
"Oh, e isso é grande coisa, presumo."
"Marley é muito nova, e minha irmã nem sabe que ela existe. Lily é uma das garotas mais conhecidas da escola por ser bonitas e jogar quadribol. Ela ainda é filha de Harry Potter, sabe? Você se lembra de Quinn?" Shelby acenou positivamente. "Pois então, Quinn é lindíssima e vem de uma das famílias mais ricas da Inglaterra. Brittany é Brittany. Reparando bem, minha irmã ficou com todas as companheiras do time de quadribol! Eu não sei como ela consegue."
"Bom, sua irmã também é muito bonita e charmosa. Mas e você? Tem algum garoto louco para ser seu namorado? Ou garota?"
"Eu não sei." Rachel ficou vermelha. "Hugo, talvez?"
"Ah, então a senhorita vá ao banheiro e depois beba a sua água. Amanhã vou querer saber tudo sobre esse Hugo."
Shelby observou a filha ir ao banheiro e depois voltar para pegar o copo d'água antes de ir para o quarto. Shelby apagou as luzes da sala. Precisava desesperadamente de uma boa noite de sono. Antes de ir para o próprio quarto, olhou para a gata que se acomodava na almoçada. As duas trocaram olhares. As férias de verão seriam longas.
...
Teatro bruxo. Se os muggles descobrissem o que um único bruxo seria capaz de fazer, as peças da Broadway custariam a metade e lucrariam o dobro. Era um encanto ver os cenários tão vívidos mudarem num piscar de olhos, ver a luz das estrelas numa cena ou uma paisagem de primavera na seguinte. De certa maneira, os bruxos nunca ligaram para o cinema muggle porque o teatro sempre foi a arte de excelência, seguida da música e das pinturas. Paris abrigava única universidade da Europa que ensinava a arte do teatro, da música erudita e jazz, da dança e das artes plásticas. Bruxos de todo continente lá estudavam e depois integravam diferentes trupes que circulavam entre os países. A trupe britânica era uma das mais importantes, fundada pelo grande Isaac Blosson, que pintou vários quadros que pertencem ao catálogo de Hogwarts. É dele o quadro da Fat Lady, que guarda a sala comunal de Gryffindor.
Foi numa das noites de gala do teatro, quando Guimble Moon estreou a mais nova peça, 'O Lado Negro do Espelho de Newton', que Finn Hudson levou Lily Potter para o primeiro encontro. Ele conseguiu duas entradas graças a ajuda de Burt Hummel: Moon lhe devia um bom dinheiro e ele abatei uma parte da dívida em troca de dois ingressos nos balcões do teatro. Finn se arrumou da maneira mais elegante possível e buscou Lily em casa, no subúrbio de Londres (Burt foi o motorista do jovem casal). Eles assistiram a peça e depois saíram para um jantar especial num restaurante muggle de cozinha francesa. Ao final do encontro, Finn levou Lily para a casa e recebeu como prêmio um suave beijo nos lábios e a certeza de que uma das garotas mais bonitas da escola era sua namorada.
Ele foi embora com um sorriso bobo nos lábios, sonhando com a garota que tinha certeza que seria sua até o final dos dias.
Lily entrou em casa sob o olhar questionador dos pais e de Albus Potter. Ela balançou a cabeça e deu graças por James ter saído de casa para estudar dragões na Romênia. Ela não aguentaria mais um par de olhos inquisidor.
"Como foi o encontro?" Ginny questionou.
"Agradável." Ela respondeu sem querer dar mais detalhes. "Finn me levou para jantar num restaurante francês."
"Você avisou a ele que não gosta de comida francesa?" Albus questionou.
"Eu não sabia que ele me levaria para jantar num restaurante chique, muito menos francês."
"Ok..." Harry sorriu. "Independente de qualquer coisa, não se pode dizer que o garoto não esteja tentando."
Ginny observou a interação da família. Harry estava lidando com o tal namoro de maneira exemplar, na opinião da esposa. Mas havia uma boa razão: como Finn Hudson não era 'aquele', ele sabia que a filha caçula não iria longe com o garoto sob circunstâncias normais. Ginny achava que Albus seria mais ciumento. Ficou surpresa ao ver o quanto o filho do meio nunca resmungava ou fazia careta quando o nome de Finn era mencionado.
"Está com fome?" Ginny perguntou. "Quer um sal de frutas?"
"Não. Eu vou para o meu quarto."
Ginny e Harry trocaram olhares, mas decidiram não ir atrás de Lily para saber mais detalhes do encontro. Ainda não era o momento. Ginny continuou a editar os textos do caderno especial esportivo que coordenava no Profeta Diário ao passo que o marido continuou a jogar batalha naval com Albus.
Lily fechou a porta do quarto e suspirou. Checou sua bandeja de cartas e mensagens. Ainda estava exatamente como tinha deixado.
"Ei!"
Lily olhou para a lareira e viu o semblante do rosto de Melissa, que se manifestou por meio da rede de Floo.
"Oi Melissa."
"Estava tentando falar contigo há um tempão. Como foi o encontro?"
"Legal." Lily disse simplesmente.
"Só legal? Você está saindo com o cara que será o próximo Jude Bails de Hogwarts!" Ela se referia ao garoto mais popular de Hogwarts quando as duas entraram na escola. Bails era bonito, esperto e fez parte daquele que foi considerado o melhor time de quadribol da história de Hufflepuff. Ele estava no sétimo ano quando as meninas entraram em Hogwarts.
"Quem disse?"
"Quem não disse? Todo mundo quer ficar com ele depois que ele chegou a Hogwarts como herói. E você é a sortuda. Tem noção do que isso significa? Você e Finn vão formar o casal mais poderoso e popular quando voltarmos para a escola."
Lily suspirou. Melissa era uma grande amiga, mas nunca perdia o ar bajulador e deslumbrado.
"Finn é legal e gentil."
"Oh, isso eu já sabia... conte mais! Ele beija bem?"
"Pode-se dizer que sim." Finn nunca a fez ficar com as pernas bambas, mas não se podia dizer que ele era beijava mal. Também tinha crédito por ser gentil e respeitador. Em nenhum momento do encontro ele tentou forçar situações. Mesmo sendo uma mentira, Lily se satisfez com o gritinho de regozijo da amiga. "Mel, vai me desculpar, mas eu estou muito cansada. A gente conversa mais noutro dia."
"Ok. Você vai me dizer tudo quando vier aqui em casa."
A imagem da amiga desapareceu. Lily franziu a testa, pegou a varinha e fechou aquele terminal da rede de floo. Abriu a gaveta do criado mudo e pegou a fotografia do time de Hogwarts tirada um dia antes da equipe embarcar para Durmstrang. Todos estavam com o uniforme do time. Os garotos estavam atrás e as meninas à frente para o registro oficial. A sequência das garotas era Brittany, Quinn, Santana, Lily e Rose. Brittany fazia uma careta, Quinn estava levemente mais à frente, como se fosse senhora de si. Santana tinha passado o braço por trás de Lily e pousou a mão no ombro da ruiva. Rose estava mais afastada das meninas porque ela havia se encostado próxima a Scorpius, que tinha a mão no ombro dela. A foto em movimento mostrava Santana sorrindo gentilmente, virando o rosto em direção a Lily e depois voltando a encarar o fotógrafo. Lily passou a ponta do dedo em cima da imagem de Santana. Reparou, inclusive, na charmosa covinha na bochecha que aparecia sempre que a escolhida sorria.
"Por que você não sai da minha cabeça?" Lily questionou para si mesma.
...
Quinn se concentrou em duas formigas que se aproximavam. Daquele ângulo, podia ver as antenas e talvez as garras dos insetos. Eram marrons e grandes de uma espécie comum na região. Lembrou que, certa vez, descobriu um ninho delas que infestava o porão da mansão em que morava em Tutshill. Talvez fosse por causa da proximidade do pequeno rio Wye, ou mesmo da floresta, embora Quinn não pudesse imaginar porque as formigas iriam escolher fazer um ninho naquela mansão fria e escura em vez de ficarem livres entre as árvores e o capim.
Dali, com o rosto colado no chão, esticou um dedo. Movimentou-se com cuidado, porque não queria atiçar a musculatura do corpo. Brincou com uma das formigas e a empurrou com a ponta da unha, mas o inseto continuava a caminhar em sua direção. Talvez fosse uma remanescente do ninho que havia sido exterminado em nome da sanitização. Talvez fosse um ato de vingança pela morte das milhares de irmãs. Ou talvez as formiguinhas estavam sendo atraídas simplesmente pelo cheiro de suor, sangue e urina.
Quinn não sabia mais há quanto tempo estava deitada no chão gelado de pedra, nem mesmo tinha noção da extensão dos seus ferimentos. Suas roupas estavam imundas, seu corpo ardia, sua garganta estava seca. Nunca em sua vida imaginou que um dia pudesse ser torturada daquela maneira. Aquilo era muito pior do que as surras que ocasionalmente levava do pai. Estremeceu quando ouviu passos. Agora eram mais de uma pessoa. Estava deitava encolhida no chão, de costas para a porta da cela, por isso não identificou de imediato as pessoas.
"O trabalho foi feito." Essa era a voz do torturador. "Posso garantir que não é ela."
"Tem certeza?" Essa era a voz de Russell Fabray.
"Sim. Os meus métodos são muito eficientes. Fiz todos os testes possíveis, analisei todas as evidências de que temos conhecimento. Asseguro que a sua filha é forte, senhor Fabray, mas ela não é quem combatemos."
"Com o descarte da sua filha, agora nos restam dois candidatos." Uma terceira voz, de mulher, se pronunciou.
"Santana Lopez e Finn Hudson." O torturador revelou. "Não será fácil se aproximar dos dois sem chamar atenção. Eles estão sob forte proteção dos aurores."
"Só precisamos testar um deles. Finn Hudson pode ser mais complicado que imaginamos. Lopez, por outro lado, é uma possibilidade, se tivermos um pouco de paciência." A mulher disse como se estivesse entediada. "Temos exatamente a pessoa que vai trazê-la até nós."
"Quem?" Perguntou o torturador.
"Quinn Fabray." A mulher explicou. "Elas são próximas, já que trocaram carícias em público. Dizem que são namoradinhas."
A mulher se referia a foto que estampou a matéria que celebrava a vitória de Hogwarts sobre Koldovtoretz na Copa das Escolas. Para Quinn, foi um dos momentos de autoafirmação, em que ela deixou a rebelde dentro dela aflorar e mostrar ao mundo que ela também poderia desafiar a sociedade e o status quo. Para Russell Fabray, foi um ato de insolência que ele teria de corrigir na primeira oportunidade. A família dele, afinal, era pura. Não havia espaços para mestiços e bruxos com outros 'desvios', como os homossexuais. Se a filha dele apresentou tal tendência, ele precisou mostrar a ela que a vagina de uma mulher foi feita para abrigar um pênis. Se ele próprio não o fez por uma questão de princípios que achava que tinha, ele mandou alguém fazer. Foi assim, por meio de um acordo com um homem rico e sangue-puro, que Quinn perdeu a virgindade e, de quebra, foi iniciada como uma death eater contra a própria vontade.
Achou que o repertório de maldades do pai havia chegado ao máximo quando permitiu que ela fosse violentada. Mas eis que na semana seguinte, ela é arrastada ao porão da própria casa. Temeu por sofrer a mesma violência. Em vez disso, foi submetida a torturas sem nem ao menos saber a razão. Tudo o que o torturador lhe dizia era que precisava prosseguir com os testes.
"Quinn vai trazê-la até nós." A mulher continuou. "Vamos explorar essa proximidade para testar Santana Lopez. Se ela for quem pensamos, poderemos nos livrar do problema de imediato."
"Não..." Quinn disse fraca, ainda sem se virar.
"O que disse?" Russell abriu a cela e se aproximou da filha.
"Santana é minha amiga."
"Quinnie, você vai fazer exatamente o que queremos." Russell disse com uma calma cruel. "Ou você pode escolher morrer no lugar dela."
...
Questões a respeito do tribunal bruxo. A primeira é que um defensor precisa enfrentar uma corte inteira de promotores que são ao mesmo tempo juris e juízes. O ministro encarregado bate o martelo quase como uma formalidade, visto que eram raros os casos cuja decisão caiam em suas mãos. Não parecia justo (muitas vezes não era), mas era assim que as coisas funcionavam no departamento jurídico do Ministério da Magia. Havia, claro, leis estabelecidas e um código penal cuja interpretação dependia muito do humor da corte. Não havia instâncias, logo, a decisão tomada era a final. Para haver outro julgamento, teria de acontecer algo extraordinário, como o réu fugir e provar sua inocência para conseguir perdão. Havia também as negociações que seria consideradas bizarras (e eram) para os muggles, como alguém assumir a culpa e propor uma punição em favor do outro.
Um bruxo era considerado maior de idade aos 17 anos, portanto, só poderia ser julgado como adulto ao atingir tal faixa etária. Bruxos menores de idade tinham um código específico e penas criminais mais brandas. Por vezes, isso trazia interpretações ainda mais entranhas. Para sorte de Noah Puckerman, ele não seria julgado como adulto, o que lhe livraria de imediato uma estadia em Azkaban.
"Está quase na hora." Samuel olhou para o relógio e observou a movimentação da antessala da corte. Glory estava do outro lado com os pais. Ela não era a acusadora, mas a testemunha central (e parte interessada) no julgamento. Também estavam na antessala Mike Chang e Finn Hudson. Puck estava acompanhado pelos pais e o defensor público.
"Não credito que ele ficou contra mim." Puck se referiu a Finn Hudson. "Nós éramos os três cavalheiros do apocalipse. Não acredito que ele virou as costas para mim por causa de uma garota."
"Eu estou do seu lado, irmão." Samuel bateu nas costas.
"Somos os dois cavalheiros do apocalipse." Puck cumprimentou Samuel.
"Até o fim."
Puck foi chamado pela corte. Os pais e o defensor público entraram com ele. Samuel e os demais entraram na corte no espaço reservado aos observadores: como eram definidas testemunhas e partes interessadas. Essas só poderiam se manifestar caso fossem solicitadas. Puck se posicionou no centro da sala cheio de juristas e membros da corte. Havia algumas alas com tendências diversas no grupo. Existiam os conservadores e os chamados humanistas. Havia também um grupo de especialistas que costumavam conduzir o debate ao lado do juiz supostamente de maneira neutra.
O argumento da defesa foi desqualificar a acusação de estupro. Primeiro dizendo que a primeira relação foi consensual, não importa se era consequência de uma brincadeira estúpida de adolescentes. O segundo argumento foi baseado na admissão de que Puck agrediu fisicamente Glory com o atuante de que ele estava fora de sim domado pela raiva. Foi também colado que se levasse em consideração de que o ato não foi consumado. O advogado pediu que a imaturidade do réu fosse levada em conta.
O que a defesa não esperava era que o julgamento não seria mais apenas um embate de narrativas entre Glory e Puck. Mais sete estudantes compareceram ao julgamento para também denunciarem Puck. O juri pediu para que Glory falasse primeiro, seguido de Finn e das demais testemunhas/vítimas. A maioria de juristas homens ajudou Puck na primeira acusação depois de um debate sobre o que caracteriza um estupro no entendimento de um bruxo. Ficou clara que a misoginia prevaleceu sobre os argumentos dos chamados humanistas, que defendam a caracterização do crime mediante a tentativa do agressor em levar vantagem de uma determinada situação para pressionar psicologicamente a vítima. Mas a outra metade da corte era formada por mulheres, e a maioria delas condenou o estudante porque tinham exata noção do que era a pressão que muitos dos homens faziam pelo sexo. Essa maioria feminina entendia o peso do "não".
O embate entre a maioria masculina a favor da mentalidade de que garotos não eram culpados pela natureza que possuíam, e da maioria feminina que militava contra a masculinidade tóxica que as subjugavam foi feroz. Coube ao juiz dar a palavra final. Ele olhou para as meninas (sim, garotas adolescentes menores de idade) já marcadas com uma experiência brutal sobre algo que deveria lidar com o amor.
"Sexo entre estudantes é proibido dentro da escola e passível de suspensão." Disse o juiz Howard Littletiff. "Uma agressão com tamanho constrangimento de natureza sexual é passível de expulsão, sendo que o ato consumado lhe daria pena com restrição de liberdade. Graças ao senhor Hudson, isso não aconteceu com uma das vítimas aqui presente. Entendemos que o senhor Puckerman foi motivado pelos impulsos inconsequentes de sua juventude, mas é preciso entender que existem limites razoáveis. Relação sexual precisa ser praticada por consentimento e vontade de dois, não de apenas um. E o caso que se apresentou aqui nos mostra que estamos falhando na educação que oferecemos às nossas crianças. Precisamos usar isso de exemplo para repensar. Contudo, um rapaz com a idade de 15 anos já é perfeitamente capaz de entender os limites do abuso. Os atos praticados pelo senhor Puckerman foram nada menos que condenáveis e um indicativo que o aluno tornou-se um perigo para o corpo discente de Hogwarts, especialmente para as meninas. Por isso, Noah Puckerman, o senhor está expulso de Hogwarts em caráter definitivo e proibido de praticar magia. Por causa da sua idade, infelizmente não podemos manda-lo para Azkaban. No entanto, podemos deixa-o em regime de confinamento por seis meses no quartel auror."
Como ato simbólico, o juiz pegou a varinha de Puck e a partiu no meio. Teoricamente qualquer um poderia comprar quantas varinhas quisesse, mas não alguém condenado. O garoto jamais conseguiria comprar por ele mesmo uma varinha em qualquer loja registrada no Ministério da Magia do Reino Unido. O nome sujo também seria enviado ao Congresso Internacional de Bruxaria, sendo assim, Puck jamais poderia comprar outra varinha em lojas regularizadas em boa parte do mundo. Como ainda era menor de idade, ainda tinha em si o alarme que o proibiria praticar feitiços avançados fora da escola.
Puck saiu da corte escoltado por um auror. Estava se julgando injustiçado. A verdade é que ele foi o grande beneficiado no julgamento e sua pena saiu barata perto do que poderia acontecer se o caso fosse analisado sem as amarras misóginas da ala conservadora, que naquele momento, constituía a maioria dos integrantes.
"Que injustiça!" Lamentou o defensor aos pais, para o cliente e para Samuel Evans. "Uma suspensão de um ano era a punição adequada. A corte foi muito rigorosa."
"E agora? O que vou fazer?" Puck perguntou choroso.
"Você vai poder se dedicar integralmente à causa." Blaise Zabini abordou o pequeno grupo. "Você passará seis meses refletindo sobre o que a invasão mestiça e muggle está fazendo em nosso mundo. Então, quando sair, você será um soldado fiel a nossa causa."
Samuel e Puck olharam com admiração ao homem que havia se tornado um verdadeiro mentor para um grupo de garotos ansiosos e desejosos de poder.
Blaise Zabini era um recluso morador num rancho de Hogsmeade. Exímio com poções, ele tinha um pequeno negócio fabricando e fornecendo poções medicinais para os mais diversos fins. Fornecia suprimentos para o Hospital St. Mungus e também para a população em geral. A farmácia que ele mantinha funcionava no Beco Diagonal, vizinho da loja de doces. Mas ele nunca aparecia na loja. Deixava as vendas a cargo dos dois funcionários, que tinham a responsabilidade de buscar as mercadorias no rancho e fazer todo o trabalho comercial.
Zabini, que estudou com Harry, Ron e Hermione, e foi um dos Slytherins que fugiu de Hogwarts durante a Segunda Guerra Bruxo, era um homem de muita vaidade e beleza. Acostumado a circular dos salões mais exclusivos do mundo bruxo, Zabini tinha livre acesso ao convívio das mais tradicionais famílias, como os Fabray, os Notts, os Blacks e os Lestranges. E como todo membro da alta-sociedade bruxo, tinha desprezo pelas por famílias mestiças e progressistas.
Tornou-se um homem recluso devido a mesma vaidade, quando, já adulto, voltou da Escandinávia com uma cicatriz que desfigurou o lado direito do rosto. Embora continuasse um homem rico, estava desgostoso da vida. Até que veio a profecia que mudou tudo e lhe deu um novo propósito.
"Senhor Zabini." Samuel respondeu respeitosamente. "O que faz aqui?"
O homem de meia-idade olhou para os lados e deu um meio sorriso.
"Negócios, garotos. Estou aqui à negócios." Arrumou o capuz que passou a usar quase que integralmente. "Posso contar com o senhor no encontro de hoje à noite?"
"Claro, senhor." Samuel respondeu com convicção.
Zabini deu dois tapinhas no ombro de Samuel antes de seguir adiante. O encontro de logo mais era mais era para uma espécie de culto formado essencialmente por bruxos menos privilegiados, mas orgulhosos de serem descendentes de alguma longa linhagem, ao ponto de muitos se declararem descendentes dos fundadores. De fato, após tantos séculos, é possível que virtualmente todo bruxo britânico que venha de uma longa linhagem de bruxos europeus tenha algum parentesco com os fundadores. O que Voldemort e outros ditos "descendentes" clamavam ser, não passava de uma família que dava uma determinada relíquia ao primogênito. É a mesma lógica monárquica. Os ditos descentes sempre ignoravam os inúmeros irmãos mais novos dos antepassados, como se a genética não se aplicasse a esses.
Mas o importante era que Zabini e outros bruxos supremacistas e ricos sabiam exatamente quem eles queriam atingir entre aqueles jovens pobres, mas orgulhosos. Assim como a Armada de Dumbledore trabalhou incessantemente para identificar os dois jovens da profecia. Cada lado encontrou o próprio campeão, embora ainda pairassem dúvidas sobre o opositor. Quão irônico isso soava?
Samuel despediu-se do amigo, prometendo se encontrarem assim que ele saísse da detenção. Estava chateado com que havia acontecido com Puck, mas estava mais chateado com o rompimento do namoro com Brittany. Mesmo que a união dos dois tenha sido manipulada em favor dele, aprendeu a gostar da Ravenclaw. Brittany foi a única que o fez esquecer a obsessão que sentia por Quinn Fabray. Pelo menos por um tempo. Samuel entrou na loja de artigos raros. A tutela de Zabini o deixou menos interessado em esportes e mais curioso a respeito de raros artefatos mágicos. Um broche no mundo mágico nunca era um mero ornamento decorativo. Sempre havia algo extraordinário por trás.
"Deveria ter sido você." Miranda Larson se aproximou sorrateira de Samuel. O jovem voltou-se para a Ravenclaw que também deveria ter sido uma Gryffindor. Ele a encarou sem nenhum interesse. "Você também deveria ter sido banido."
"O que está fazendo aqui, Larson?"
"Eu sei o que você não é santo, Evans. Eu sei o que fez comigo e eu sei o que você é capaz de fazer."
"Cai fora daqui, garota." Samuel disse com absoluto desprezo.
"Ela nunca vai olhar para você." Larson disse com certa satisfação.
Samuel pegou a varinha e a apontou para a colega. Segurava tão forte na base que as mãos estavam vermelhas.
"Cai fora daqui, garota, antes que eu te mate." Samuel repetiu, causando um falso sorriso em Miranda.
"As vezes fico imaginando o que Lopez tem de tão especial para ter conquistado a única mulher que faz a sua cabeça. Com certeza, ela deve ser muito melhor que você."
"Avada..." Samuel respirou fundo e saiu da loja antes que cometesse uma besteira. Respirou fundo e procurou se controlar.
Observou Miranda Larson sair da loja de relíquias e jurou para si mesmo que um dia faria a garota pagar por cada palavra.
...
Havia uma mudança na dinâmica dos alunos no retorno às aulas. Alguns deles exibiam novos broches indicando que eram os prefeitos de suas respectivas casas. Finn Hudson era o prefeito de Hufflepuff, Lily Potter a de Gryffindor. Por essas e por outras que os dois chegaram a Hogwarts com a pecha de casal perfeito. Era o herói se relacionando com uma das garotas mais populares da escola. Brittany Pierce rompeu o namoro com Samuel Evans, mas a garota se enganou ao pensar que poderia ter a ex-namorada e melhor amiga de volta. Com Santana exilada em Nova York por três meses, tal como aconteceu no ano anterior, elas não tiveram a chance de reatar sequer a velha amizade.
Rachel aumentou o grupo de amigos. Além de Hugo, ela passou a andar com Mercedes e Kurt. Os quatro formavam a espinha dorsal do pequeno e valente coral de músicas muggle. A atividade escolar, aliás, continuaria a contar com Blaine Anderson, Marley Rose, Brittany Pierce, Tina Chang, Arthur 'Artie' Abrams, Jane Hayward e Wade Adams.
Quinn Fabray era a nova prefeita de Slytherin. Como tal, ela tinha privilégios extras além do direito de ter o próprio quarto. Descobriu que os alojamentos dos prefeitos não eram grande coisa. O quarto era pequeno, com uma janela minúscula. Mas era privativo, trancado com uma senha própria. Ninguém poderia mais mexer em suas coisas. Ninguém poderia entrar ali sem ser convidado. Era um alívio não ter mais que passar a maior parte do ano ouvindo a sinfonia de roncos e nem a gemedeira de Sugar Motta.
"Não é grande coisa, como a propaganda faz parecer." Santana disse quando Quinn a levou para conhecer o novo quarto.
"Dizem que o quarto dos heads boys e girls são bem melhores. Dizem que eles têm camas maiores, inclusive."
"Parece um estímulo e tanto para se tornar o puxa-saco maior." Santana sentou-se na cama de Quinn. Percebeu que se o tamanho da cama era o mesmo, ao menos o colchão era muito melhor. "Vou sentir sua falta lá em baixo, no dormitório. Estou dividindo o espaço com Sugar e você sabe bem o que isso quer dizer. Vou ter que aguentar um ano de gemedeira até que Rachel possa dividir um espaço comigo."
"Você pode ficar aqui comigo quando precisar de um lugar quieto." Quinn tentou soar o mais natural possível dentro de uma fala calculada.
"Vai alugar o espaço?"
"Não, a gente pode começar a exercitar o nosso namoro aqui, onde ninguém vai nos atrapalhar." Ela se reclinou para tentar beijar Santana, que se afastou, deitando um pouco mais na cama.
"Namoro? Calma aí, Fabray. Nós não estamos na mesma página."
"Então deixa eu contar alguns spoilers para você me alcançar." Quinn deitou-se sobre Santana e a beijou de forma que não haveria dúvidas sobre suas intenções.
Embora Santana estivesse correspondendo, afinal, os hormônios dos seus quase 15 anos pululavam com a garota mais bonita da escola em cima dela, havia algo que não batia. Ela e Quinn trocaram algumas cartas durante as férias, mas tirando uma provocação sexual aqui e ali, não havia sinais de que o relacionamento entre as duas estaria naquele patamar. Santana sentia que havia algo forçado nas intenções de Quinn, e isso a incomodava profundamente. Ela empurrou a amiga gentilmente e quebrou a carícia.
"Já estamos na mesma página?" Quinn deu um pequeno espaço para Santana.
"Acho que precisamos ir com um pouco mais de calma."
"Mas você me beijou de volta." Ela rolou de lado e sentou-se na cama, permitindo que Santana respirasse.
"Eu sei que sim. Quinn, não me leve a mal. Você sabe que eu gosto de você. Só que isso é muito súbito. Em um minuto eu estou visitando o novo quarto da minha melhor amiga. No outro, ela virou a minha namorada?"
"Às vezes eu gostaria que você tivesse um pênis! Seria mais fácil me fazer entender."
"Por que o meu cérebro está acima do pescoço e não entre as minhas pernas? Qual o seu problema, Fabray?"
"Eu não tenho problemas, Lopez. Mas eu conheço o seu. É ela! Você não teve coragem de tê-la quando teve a chance e a perdeu para o idiota gigante. Agora aqui estou, querendo que a gente aconteça, e você continua sem ter a coragem de fazer o que é preciso."
"Acho que temos conceitos diferentes de coragem." Santana levantou-se da cama, mas antes que alcançasse a porta, Quinn a segurou pelo braço.
"Espera. Desculpe... você sabe que eu não tenho muito jeito para romance. Eu me precipitei imaginando que é assim que as coisas acontecem. Você sabe que eu nunca... namorei."
"Ok, não pense que eu não esteja lisonjeada, mas por que essa necessidade de uma hora para outra? Se a gente realmente vai levar isso adiante, não deveríamos ir mais devagar e conversar primeiro? E não vem dizer que você não tem jogo. Você é inteligent melhor observadora que conheço. Você sabe de muito mais coisas que eu. O que realmente está acontecendo? Porque isso não é você!"
"Desculpe. Eu fui precipitada. Que tal começarmos de novo? Que tal a gente começar com um encontro no três vassouras?"
"Quinn..."
"Vai ser um dia depois do meu aniversário e a véspera do seu. O que acha? Podemos comemorar juntas."
"Ok..." Santana suspirou.
"Quer dizer que nós..."
"Quer dizer que nós vamos celebrar nosso aniversário juntas... num encontro. Mas vamos baixar um pouco o tom até lá. Eu não quero que as coisas fiquem entranhas entre nós. Eu não quero te perder como eu perdi Brittany. Você é muito importante para mim, o que temos é muito importante para se estragar por causa dos estúpidos hormônios."
"Parece justo." A reação de Quinn foi a primeira não calculada porque havia genuína tristeza em sua voz.
Santana deixou o quarto da namorada e seguiu para o dormitório feminino do quinto e sexto ano. Enquanto isso, no quarto do prefeito de Slytherin, Quinn Fabray estava sentada na cama com as mãos no rosto. Ela chorava compulsivamente com o ato de traição que estava articulando. Chorava por vergonha do que estava fazendo. Santana era a sua melhor amiga e ela a amava profundamente. A única pessoa que, desde o primeiro dia de aula, não agiu diferente por ela ser rica e porque o pai comandava um time profissional de quadribol. Santana era autêntica, tal como a irmã caçula dela, Rachel, que não se dobrava por ninguém. Quinn namoraria Santana num piscar de olhos se ela realmente a quisesse. Com certeza a seguiria quando Santana finalmente descobrisse a líder natural que era.
Quinn desejava todas essas coisas, mas sabia que estava prestes a perder tudo para sobreviver ao pai, aos death eaters, a nova ordem supremacista. Era uma garota prestes a fazer 15 anos que havia passado por um inferno durante as férias e temia pela própria vida.
Arregaçou a manga do agasalho e apontou a varinha para o desenho que estava em seu antebraço.
"Desapareça! Droga! Desapareça!"
...
Albus mal conseguia prestar atenção no que o melhor amigo, Scorpius Malfoy, e a prima, Rose Granger-Weasley, falavam durante a primeira reunião semanal entre os head boy e girl com os demais prefeitos. Podia ver o orgulho nos dois e pensou que a posição realmente cabia. Estava para conhecer um jovem casal tão bem sintonizados tanto quanto aqueles dois. Ambos eram inteligentes, gostavam de mandar nos outros, e tendiam mais a respeitar as regras do que quebrá-las.
Observou a irmã entre os novos prefeitos, excitada com a posição e privilégios que possuía. Ela e Finn ficaram o tempo todo de mãos dadas e aquilo lhe dava vontade de vomitar. Mike Chang e Sofia Lawless eram os novos prefeitos de Ravenclaw. Além de Hudson, Barbara Flinkson era prefeita de Hufflepuff. Lion Bates era a dupla com Lily por Gryffindor. Quinn Fabray e George Patton era a dupla de Slytherin. Novatos eram sempre os mais deslumbrados com os novos privilégios.
Todos exibiam o broche no uniforme como se isso fosse uma insígnia realmente importante. Para Albus Severus Potter, no entanto, aquilo havia perdido a importância e encanto. O poder pelo poder era uma bobagem sem tamanho, especialmente quando não se tinha como mudar as regras. Mas havia uma única vantagem que lhe agradava por ainda ser prefeito: a possibilidade de andar pelo castelo mesmo após o toque de recolher sem ser punido por isso. Ele tirava bom proveito do privilégio, especialmente quando usava a passagem de Hogwarts até a velha casa de Aberforth Dumbledore.
Diferente do resto da família, que amava e visitava o velo meio-gigante Hagrid, Albus tinha conexão especial com o outro ancião, que sempre o recebia com os habituais resmungos, mas lhe servia uma cerveja (ou uma bebida quente, dependendo da época do ano e da ocasião), e os dois podiam conversar. Aberforph estava muito debilitado devido a idade avançada, e Albus era o único que lhe dava atenção àquela altura da vida.
Quando a reunião se encerrou, Albus ficou aliviado com o fim do falatório de Scorpius e Rose. Ele pôde, enfim, se encaminhar até a sala precisa em que teria mais um dos seus encontros secretos: com Santana Lopez. Seria a primeira vez que conversaria com a amiga desde que as aulas recomeçaram há uma semana. Estava animado para ouvir tudo que ela teria para lhe contar.
Encontrar Santana na sala era recorrente. Na maior parte das ocasiões, ela chegava primeiro. Diferente foi vê-la se exercitando como se estivesse em uma aula de yoga.
"O que diabos está fazendo?" Albus sorriu.
"Me alongando." Ela respondeu como se isso fosse óbvio.
"Desse jeito?"
"Ah, foi algo que aprendi com Adila Amandi. Eu te falei sobre ela na carta que te mandei..."
"Sim, eu me lembro. Está funcionando?"
Santana colocou uma goles a certa distância e se afastou. Respirou fundo, fechou os olhos, procurou relaxar e estendeu a mão. A goles começou a se arrastar no chão devagar em direção a Santana, mas, de repente, a bola disparou a fazendo ter de se abaixar para não receber o impacto. A bola parou contra a parede.
"Não sabia que você estava aprendendo a encantar balaços!" Albus riu.
"Acredite ou não, até que estou melhorando." Santana sentou no chão em posição indiana. "Adila avisou que eu demoraria mais que o normal por causa do meu patrono, e porque eu sou uma imperialista impaciente... Então estou sendo paciente. Acho que é um bom exercício, certo? Ter paciência?"
"Acho que sim." Albus sentou-se ao lado da amiga. "Mas não acha que é perda de tempo? Usamos a varinha que os corresponde para essas coisas."
"É, mas e se eu ficar sem a minha varinha por alguma razão e precisar muito me defender? Não acha que isso vale o esforço?"
"Por que você acha que estaria numa situação assim?"
"Eu não sou cega, Al. Sei que alguma coisa está acontecendo. Essa história das pessoas, especialmente os adultos, ficarem cheias de três dedos comigo, o fato de eu não poder mais passar as férias em Londres com meu pai... da minha mãe surtar toda vez que eu dizia que ia visitar o bairro bruxo em Nova York... e tem esses boatos todos por causa da tal profecia."
"Você acha que tem alguma coisa a ver com isso?"
"Sei que não sou como os outros." Santana externalizou pela primeira vez suas preocupações. "Meu patrono é um hipogrifo. Eu pesquisei sobre isso nessas férias e descobri que é um péssimo sinal. Adila sabia disso desde o princípio e me alertou do jeito dela. É um indicativo que posso ser mais forte do que consigo entender. O patrono de Dumbledore era uma fênix. E dizem que o animal interior de Voldemort era um basilisco, não uma simples cobra. Então, antes que isso possa me consumir de alguma forma, decidi que é melhor aprender a lidar e a controlar."
"E fazer yoga e magia sem varinha vai ajudar?" Albus ficou preocupado com a amiga porque ele pensou que Santana fosse demorar um pouco mais de tempo para entender o que era.
"Talvez sim. Talvez não. O que não posso é ficar de braços cruzados. Sabia que eu li até a biografia não-autorizada do seu xará, Dumbledore?"
"Por que você leria uma biografia não-autorizada?"
"Porque biografias autorizadas mascaram muitas informações relevantes sobre o caráter da pessoa. Minha mãe sempre disse isso... Então eu li esse livro sobre Dumbledore. Essa biografia revela que ele era gay, inclusive, e que foi apaixonado por Gellert Grindelwald. Os dois tinham esse ideal de tentar encontrar as relíquias da morte pelo poder. Eles eram supremacistas e planejaram fazer uma viagem pelo mundo. Eles queriam levar a irmã de Dumbledore porque ela tinha um obscuro dentro de si. Aberforph era a voz da razão e tentou impedir. Na briga entre os três, a irmã mais nova deles morreu no fogo cruzado. Essa foi a tragédia que mudou Dumbledore. Ele passou a vida inteira domando o grande poder que tinha em mãos e tentando se redimir ao mesmo tempo. Isso me fez pensar... eu não quero esse poder, mas como não posso tirá-lo de mim, então só me resta conviver com isso. Tentar harmonizá-lo. Preciso fazer isso antes que provoque a morte de alguém, ou que alguém que amo morra por minha causa... meus pais... minha irmã... ou um grande amigo."
Albus segurou a mão da amiga. Odiava por ela estar certa. Odiava também por saber de coisas que ainda não podia contar. Ele queria genuinamente ajudar Santana. Não porque uma profecia dizia que ela seria a futura cunhada dele, mas porque eles eram amigos de verdade.
"Já reparou o que toda sala precisa possui em comum? Em qualquer versão que a use?" Albus perguntou.
"Aquele quadro sem-graça cravado na parede?" Santana apontou casualmente para o objeto.
"Vem comigo."
Albus foi até ao quadro e o abriu, revelando a Santana a única passagem secreta de Hogwarts que não existe nos mapas, nem no dos Marotos, ainda em posse de Albus Potter.
"Mas como?" Santana estava atônita.
"Eu vou te apresentar uma pessoa que pode te ajudar."
Ao fim do caminho, depois de uma caminhada considerável, os dois alcançaram outro quadro. Este terminava em cima da lareira de um estabelecimento. Albus ajudou Santana a descer e ela ficou boquiaberta ao ver que o quadro daquele lado era justamente o retrato de Ariana Dumbledore, tal como era mostrado no livro.
"Quem está aí?" A voz de um velho veio de cima das escadas.
"Sou eu, velho!" Albus disse em alto e bom tom.
Aberforph apareceu no porão da própria casa com aspecto cansado, muito envelhecido, andando com o auxílio de uma bengala. Ele encarou o garoto e depois a convidada dele. Então resmungou.
"Essa é a garota..."
"É sim." Albus segurou Santana pelos ombros. "Tenho certeza que o senhor poderá ajuda-la."
...
Samuel observava atentamente a movimentação do salão. Santana Lopez estava sentada na mesa de Slytherin lendo o Profeta Diário enquanto a irmã irritante dela tagarelava alguma coisa com Sugar Motta e Quinn Fabray. Como ele odiava Santana Lopez. Foi por causa dela que Brittany terminou tudo com ele. Como se não bastasse, Quinn Fabray, a garota por quem ele sempre foi apaixonado, estava com ela.
Na mesa dos Gryffindors, Finn Hudson era só sorrisos para Lily Potter. Finn Hudson, o idiota gigante que virou herói, prefeito e agora seria o capitão do time de quadribol. Ainda tinha conquistado o prêmio máximo da escola: Lily Potter. Ele observava o clã, como eram chamados os Weasleys e os Potters, interagindo como se fossem os donos da casa. Podia ver entre os Ravenclaws Brittany conversando com Mike. Corria boatos de que os dois ficaram mais próximos durante as férias.
Como aquela escola passou a ser tão estranha? Será que Samuel começou a enxergar novas cores depois que frequentou a reunião dos 'eleitos', como o grupo se autoproclamava?
"Ei, Sam!" Finn chamou atenção do garoto perdido em seus próprios pensamentos.
"O quê?"
"Primeiro encontro do time é hoje a tarde. Você precisa me ajudar a fazer a seleção."
"Seleção?"
"É... a nova seleção. Não podemos ficar com aquele mesmo time perdedor de duas temporadas. Eu, você e Pollux vamos fazer os testes hoje. Está dentro?"
"Claro..." Samuel acenou ainda incerto. Ele tinha coisas mais importantes a fazer do que jogar quadribol.
"Legal. Te espero no campo."
Samuel observou Finn sair do salão em direção a classe que eles teriam em alguns minutos com os Ravenclaws. Todos os outros naquele salão começariam a fazer o mesmo. Era só mais um dia normal de aula. Samuel estava inquieto, ainda assim. Era como se um fogo tivesse aceso dentro dele, mas Hogwarts, de repente, tornou-se opressora. Ele queria gritar, queria se libertar. Conferiu novamente a moeda. Nenhum encontro havia sido marcado.
"Evans!" George Patton chamou atenção do garoto. "Parece que está no mundo da lua."
"Não é nada é que..."
"Não precisa nem falar nada." George se aproximou confidente. "Isso aqui não está como deveria: o idiota sendo o herói, a sapatão pegando todas as boas garotas, enquanto nós nos ferramos. O que aconteceu com Puck é só uma questão de tempo para acontecer com todos nós. Porque eles são os protegidos e nós os vilões."
Samuel viu Quinn se levantar da mesa, trazendo consigo Santana. As duas caminharam de mãos dadas e isso o deixou irritado. Por tantas vezes ele tentou falar com Quinn e tantas vezes ela o rejeitou. Não parecia justo. Era como se os bons sujeitos estivessem sendo condenados. Ele estava farto de não fazer nada. Estava na hora de começar a agir.
...
Quinn estava tensa. Ela caminhava até Hogsmeade de mãos dadas com Santana, e não conseguia deixar de olhar nervosa para os lados. Se fosse uma situação normal qualquer, ela estaria feliz em mostrar que estava num encontro com alguém interessante e de quem gostava muito. Quinn amava Santana. Isso era sincero da parte dela. O amor só não era necessariamente romântico. A verdade é que ela desejava ardentemente odiar a melhor amiga. E desejava também que Santana fosse indiferente a ela, que estivesse ali apenas pelos amassos que poderia dar numa menina bonita e rica.
"Nervosa?" Santana reparou na inquietude de Quinn. "É só um chá."
"Você não está?" Quinn tentou sorrir, mas não conseguiu.
"Quinn, é sério. Se você quiser, a gente desfaz esse encontro. Ou melhor, faz de maneira diferente. A gente ainda pode tomar chá. Eu chamo minha irmã, Brittany e quem mais quiser vir para ficar na mesa conosco. Daí vira um encontro de amigos."
"Não San... eu quero ter esse encontro. É que eu nunca estive em um. Só estou nervosa, mas é por conta disso. Sem mencionar que é o nosso aniversário."
"Ok. Mas Quinn, é sério. Não tem nada demais. É só chá e uma conversa. Não precisamos fazer mais nada. Acima de tudo isso, nós somos amigas."
Quinn suspirou e acenou. Santana imaginou que ela estivesse apenas tentando se tranquilizar, mas a verdade era que Quinn estava odiando a si mesma por dentro. Ela recapitulava o plano em sua mente o tempo todo. Chá, levar Santana até o chalé, deixar o resto por conta dos adultos. Ela sabia que alguém aparataria com Santana para outro lugar, como num sequestro. O homem a torturaria e, se ela fosse quem procuravam, seria assassinada ali mesmo. Mas se não fosse, quer dizer que a pessoa que eles procuravam era Finn Hudson. Quinn não se importava com o garoto. Torcia para que a melhor amiga fosse só alguém ordinário para que, depois de torturada, pudesse ser obliviada em vez de morta. Pronto. Todas as desculpas já tinham sido inventadas. Toda a história articulada. Ninguém sairia realmente ferido.
Mas e se Santana fosse mesmo a pessoa especial que eles procuravam? Quinn jamais se perdoaria.
Chegaram até a casa de chá de Madame Puddifoot. Era um lugar rosa, açucarado, frequentado basicamente por casais. Havia gente que adorava comer ali porque tudo era de boa qualidade, mas arrumava um encontro falso para não passar a vergonha de sentar a mesa sozinho. Era o caso de Mercedes Jones, que costumava arrastar o pobre Kurt Hummel para a casa de chá só porque amava as sobremesas.
Quando Quinn e Santana entraram, encontraram alguns casais conhecidos, como era o caso de Joanna Thompson que havia começado a namorar Netunus Black. Mas o que realmente chamou a atenção de Santana foi ver Rachel e Hugo Granger-Weasley dividindo uma pequena mesa. Ela ficou em dúvida se ia até eles para fazer algum comentário ou se apenas ficava de olho ao longe. Decidiu pela primeira opção.
"Ei, losers." A mera aparição de Santana fez Hugo engasgar. "Bem que eu senti que vocês estavam se pegando."
"É uma forma grosseira de se referir ao fato de estarmos nos conhecendo melhor." Rachel disse indiferente.
"Conhecer, vocês já se conhecem, losers. Vocês estão é se pegando. Só vou dar um recadinho rápido. Cuidado, Weasley, porque se eu souber que você andou fora dos trilhos com a minha irmã, vai ver os seus cabelos se tornarem literalmente fogo. Divirtam-se crianças!"
Santana saiu de perto da mesa com vontade de gargalhar já imaginando a cara de desesperado de Hugo e a de irritação de Rachel. Ao julgar pelo pequeno sorriso de Quinn, acertou na mosca. Sentou na pequena mesa e ficou de frente para a namorada.
"Tadinha da Rachel. É o primeiro encontro que ela tem na vida e você estraga dessa forma?"
"Não estraguei nada." Santana cochichou. "Depois, só deixei o primeiro encontro dela mais divertido e memorável."
"Agora ela vai pensar que você está a espionando."
"Não, ela vai pensar que esse vilarejo não tem realmente muitas opções. Ou é aqui ou é o Três Vassouras. Ou, no caso desses dois, a loja de música. Ninguém vai realmente considerar o bar do velho Dumbledore. Já viu aquele lugar? Tem cheiro de cachorro molhado com mofo."
"Mesmo?" Quinn franziu a testa. "Eu não me lembro de ter visto você ir ao Hog's Head. Ninguém com uma vida social razoável ou que não seja alcoólatra vai ali. O lugar dá arrepios."
"Eu entrei lá uma vez... por curiosidade."
Santana esperava que Quinn engolisse a história. Elas tinham o hábito de ficarem juntas nos passeios a Hogsmeade, mesmo quando Santana namorava Brittany, as três estavam sempre juntas. Seria difícil de explicar que Santana foi ao bar com Albus Potter por meio de uma passagem secreta. Seria, inclusive, difícil de explicar que Santana e Albus eram próximos.
"Quando?"
"Ah.. naquele dia que você ficou gripada e não pôde vir."
"Oh... naquele dia?" Quinn puxou pela memória. Naquele mesmo ano, no semestre anterior, ela tinha pegado uma gripe e ficou acamada por um dia. Era bem possível que Santana pudesse ter entrado ali, apesar de ela não ter ouvido nenhum comentário a respeito.
"É, naquele dia..." Santana desviou a atenção para os doces. "Vamos nos servir?"
O desejo era que Santana transformasse aquele encontro em algo chato e digno de se esquecer. Mas não. Santana só estava sendo a velha Santana. Ela conversava sobre tudo, falava mal dos outros de forma divertida e estava se esforçando para ter um bom momento. A comida era ótima, os chás e os cafés caramelizados também. Era um encontro perfeito. Tão perfeito que Quinn sentiu o impulso de trocar um pequeno beijo nos lábios. Uma dessas carícias doces, que fez Santana sorrir e fechar os olhos. Talvez aquele tenha sido o beijo mais sincero que Quinn tenha dado em Santana: pelo menos o único que não tinha um propósito articulado por trás, seja a razão justa ou não. Para a surpresa de Quinn, foi um ótimo beijo, que a fez se sentir bem.
Santana abriu os olhos e percebeu que na mesa próxima (considerando que todas as mesas eram próximas em um lugar pequeno como aquele), tinham acabado de chegar Finn Hudson e Lily Potter. E sim, a ruiva testemunhou o beijo suave trocado pelas garotas: foi a primeira coisa que viu quando entrou na casa de chás.
"O ambiente ficou pesado de repente." Santana resmungou. "Deve ser porque uma baleia entrou aqui."
"Ou deve ser porque você não consegue tirar essa garota da sua cabeça." Pronto. Era o que Quinn queria: a desculpa para acabar com o encontro.
"Eu não sinto nada por ela." Santana resmungou.
"Da mesma forma que eu não senti todo o açúcar que acabei de ingerir." Quinn suspirou.
Por estar numa posição melhor, reparou na mesa do outro casal e pôde constar que Santana não foi a única que ficou rabugenta de repente. Lily e ela trocaram olhares e Quinn pôde sentir as pequenas facas imaginárias saindo dos globos oculares da ruiva. Era a melhor definição do dito popular "se olhar matasse."
"Vamos?" Santana sugeriu.
"Claro!" Foi a vez de Quinn voltar a ficar inquieta. Era chegada a hora.
Santana pagou a conta e as duas saíram da casa de chá de mãos dadas. A intensão de Santana era passar rapidamente no Tomes e Scrolls, mas Quinn a puxou para andar em outra direção.
"San, eu preciso pegar um negócio rápido na casa de uma tia. Você pode ir comigo?"
"Eu nem sabia que você tinha uma tia que morava aqui." Santana a acompanhou sem problemas.
"Irmã mais velha da minha mãe. Ela mandou um bilhete dizendo que tinha um presente para me entregar. Como ela mora aqui, não quis mandar por uma coruja. Seria frio demais. É provável que ela me prenda para conversar alguma lorota. Espero que não se importe."
"Ok." Santana estranhou a quantidade de informações dadas por uma garota que evitava falar na família. Havia cinco anos que conhecia Quinn e, de todo esse tempo, se Quinn falou cinco frases completas sobre sua família, foi muito.
Entraram pela ruela que dava acesso ao Hog's Head e, depois, num beco do lado oposto ao bar em direção a um sobrado de aparência velha. Não se parecia em nada com a propriedade que teria uma família rica e puro-sangue como era a de Quinn. Santana achou tudo estranho e ficou incomodada. Mas ela também confiaria a vida em Quinn e procurou deixar seus questionamentos de lado.
Quinn bateu à porta e um homem atendeu. Sem dizer uma palavra, ele fez menção para as duas entrarem. O coração de Quinn estava disparado e ela sentia vontade de vomitar todo o conteúdo do estômago. Havia uma mulher na sala velha e empoeirada, a mesma que havia conversado com Russell Fabray e o torturador quando Quinn foi "testada" e depois "iniciada". Era uma mulher que deveria ter 50 anos, de beleza peculiar e gélida. Talvez fosse mesmo tia de Quinn. Havia outro homem com a moça, como se fizesse sua guarda.
"Olá, Quinn." A mulher disse em tom calmo. "Fico feliz por ter feito a sua parte."
Com um sinal da mulher, o homem agarrou Santana pelos dois braços, a imobilizando.
"Mas que..." Santana tentou se soltar. Estava confusa com a situação. "Quinn?"
"Eu sinto muito, San." Quinn disse com o rosto totalmente sem expressão.
O homem que prendia Santana aparatou, mas para a surpresa de todos, Santana ficou. Ela ficou revestida por uma luz azul por alguns segundos.
"Claro que você estaria protegida..." A mulher apontou a varinha. "Brachiabindo!"
Uma luz vermelha saiu como um tiro da ponta da varinha, mas Santana, pelo reflexo da situação de emergência ou pelo treinamento, ou por tudo isso, conseguiu fazer com que o feitiço ricocheteasse se defendendo apenas com a mão. O gesto surpreendeu a todos, inclusive a ela mesma. Mas não era situação para pensar sobre o que aconteceu. Santana sacou a varinha tentou revidar.
"Experlliarmus!" Desarmou a mulher para, em seguida, defender-se dos ataques do homem.
Santana estava fazendo o seu melhor lidando com dois bruxos adultos e experientes. Por sorte, Quinn não a atacava. A garota parecia catatônica. Entre uma defesa e outra, conseguiu fazer um ataque certeiro, derrubando o homem com um estupefaça não vocalizado. Isso deu a oportunidade de ela alcançar a porta.
"Colloportus." O homem conjurou, trancando a porta.
"Quinn!" Santana gritou enquanto continuava a se defender não apenas com feitiços, mas também correndo pela sala, arremessando objetos contra os agressores. "Acorda."
Ela estava acordada. Só que estava com muito medo para agir. Tinha medo daquelas pessoas porque sabiam do que eram capazes, tinha medo do pai, tinha medo até da horrível tatuagem que fizeram em seu braço. Se ela ajudasse Santana, seria um ato de insubordinação. Algo que poderia lhe custar a vida. Era justamente pela própria vida que Santana lutava contra dois oponentes. Seria questão de tempo para ela perder. A mulher começou a ir pela esquerda, o homem pela direita. Eles iriam encurralar Santana e fazê-la pagar.
Foi quando Quinn acordou e apontou para a porta trancada magicamente.
"Bombarda!"
Ela estourou a tranca e, de quebra, fez o homem recuar ao ser atingido pelo estilhaço. Era a abertura que precisavam. Santana aproveitou a oportunidade.
"Bombarda!" Ela repetiu o feitiço fazendo estourar a estante que estava atrás da mulher. "Estupefaça." Atacou o homem, lhe dando mais tempo de chegar até a porta.
No caminho, agarrou Quinn pelo braço e a puxou para fora do sobrado. Dois homens aparataram, ficando no caminho das garotas. Quinn reconheceu um deles como sendo o próprio torturador. Santana e Quinn se viram cercadas e sem uma saída.
"Estupefaça!" Quinn atacou o torturador enquanto Santana defendia as duas dos outros ataques.
Era uma batalha perdida. Não dava para correr naquele beco. Não tinha espaço e elas estavam cercadas.
"Expelliarmus!" Outra voz conjurou. Era Albus Potter que surgiu por de trás do torturador e do companheiro dele, o mesmo homem que tinha previamente tentar aparatar com Santana. Albus estava com Scorpius, que foi ligeiro em ajudar.
"Estupefaça!" Scorpius conjurou o feitiço bem-sucedido, derrubando um oponente.
"Estupefaça!" Quinn conjurou contra o torturador, que se defendeu.
"Confingo!" Santana conjurou contra o companheiro da mulher, que caiu em combate.
A mulher correu até ele e aparatou, reconhecendo que aquela batalha estava perdida. O mesmo aconteceu com o torturador, que se retirou do combate agora que estava cercado.
"Estão bem?" Albus perguntou as meninas.
Santana, sem fôlego, apenas acenou. Ela se inclinou, colocando as mãos nos joelhos, e procurou se recobrar.
"Como... vocês?" Santana perguntou.
"Foi por sorte. Estávamos a caminho do Hog's." Scorpius explicou.
"San, é melhor você e Quinn darem o fora daqui."
"Eles podem voltar." Santana ainda estava atordoada com o ataque.
"Scorpius. Tire as garotas daqui."
Scorpius acenou para o amigo. Ele pegou Santana e Quinn pelo braço e os três caminharam até a segurança da rua. Ao chegarem na avenida principal, cheia de pessoas circulando sem a menor ideia do que havia acabado de acontecer, Santana se desvencilhou de Scorpius. De assustada, seu estado emocional evoluiu para a raiva por tudo o que acabara de vivenciar. Aquilo não era um ataque de um adolescente enciumado. Eram quatro pessoas adultas querendo a pele dela. O pior de tudo era saber que quem a levou para a armadilha foi a melhor amiga e namorada.
O estômago de Santana embrulhou, a fazendo vomitar no meio da rua. O gesto provocou repugnância na maioria dos passantes, mas não Lily, que correu assim que viu a colega passando mal. Sequer se importou com o namorado que deixou para trás.
"Santana?" A menina se assustou ao ver o rosto contorcido em dor da garota. Santana chorava e estava profundamente ferida.
A dor maior não era física. Era da traição. Santana se levantou e apontou a varinha para Quinn, deixando as pessoas tensas.
"Você..." Ela se aproximou da amiga. As lágrimas tomavam o seu rosto. "Se você encostar um dedo em mim de novo, eu juro que te mato, Quinn Fabray."
As duas meninas estavam prestes a ter um colapso emocional. Scorpius decidiu aparar Quinn para fora de Hogsmeade porque sentiu que ninguém mais o faria.
"Lily." Albus disse com calma. Ele havia recém retornado do beco depois que se certificou de que a ameaça havia passado. "Você poderia acompanhar ela de volta para a escola?"
"Claro."
Lily abaixou o braço de Santana e a abraçou. Ela não tinha a menor noção do que se passou, apenas tinha certeza de que ninguém mais poderia cuidar da colega. Rachel correu até as meninas, procurando saber o que aconteceu para a irmã e Quinn provocarem todo aquele rebuliço. Lily fez sinal para que a menina calasse a boca. Rachel resistiu para não contestar, mas aceitou.
"Vamos embora, San." Rachel segurou a mão da irmã
Lily passou o braço pela cintura de Santana enquanto Rachel continuou a segurar a mão da irmã. Assim, entre Lily e Rachel, Santana foi conduzida de volta a Hogwarts, seguida de perto por Hugo e Finn. Os garotos não tinham a menor noção do que havia se passado, mas estavam ali para dar o devido suporte. Quinn também voltou ao castelo junto com Scorpius. Assim como Santana, ela sentia náuseas. A diferença que o mal-estar era consigo mesma.
...
Harry Potter saiu da sala de interrogatório. Ele tirou os óculos e os limpou com o pano macio. Aquele havia se tornado o seu tique favorito quando precisava pensar. Saiu do departamento auror e pegou o elevador em direção ao Departamento de Aplicação da lei, da qual Hermione Granger-Weasley era a ministra. Sorriu para a secretária e esperou em pé na antessala para que a moça fizesse o trabalho em anuncia-lo. A secretária não levou mais que 30 segundos entre ir a sala luxuosa, anunciar Harry Potter e autorizar a entrada do chefe auror.
Hermione sorriu para o amigo. Fechou a porta com um leve toque na varinha e conjurou para que ninguém fora da sala pudesse escutar a conversa. Harry sentou-se na cadeira em frente a amiga e se permitiu ficar em silêncio por um minuto.
"Como foi?"
"Depois dos eventos de hoje, eles sabem quem é ela."
"E nós sabemos quem é ele?"
"Estamos certos de quem são os personagens." Harry resmungou. "Precisamos descartar Finn Hudson de uma vez por todas."
"Precisamos falar com Nell. Não podemos mais se dar ao luxo de fazer joguinhos de desinformação, de esconde-esconde. Precisamos ter uma conversa franca com ela também. Lopez já não é mais uma garotinha. Também precisamos conversar com Evans. Tentar descobrir até que ponto ele já está envolvido."
"E depois, Mione? O que vai acontecer?"
"A gente aguenta a pressão até que a nova geração tenha condições de assumir."
"São os nossos filhos."
"Eles fazem parte deste mundo, Harry. É melhor prepará-los."
Harry acenou para a amiga. Às vezes ele odiava Hermione Granger por ela estar sempre certa.
