Capítulo 7 - O segredo é ocupar o tempo
Com uma tarde na biblioteca, Sâmia não teve problemas em ver o dia passar. Leander continuava trabalhando e ela esperando a horrorosa criatura para ajudá-la a se vestir para o jantar. Havia perdido a hora em sua leitura e estava mais uma vez atrasada. Enquanto colocava o vestido, pensava:
"Mas que droga! Agora que as coisas começavam a melhorar, estava atrasada e iria aborrecer o rei. Onde estava aquela bruxa?"
A porta se abriu em um baque e lá estava a mal-humorada Aédi.
- Te esperei por mais de uma hora, mocinha; é melhor estar no horário, tenho coisas a fazer.
- Me desculpe...
- Nada de desculpas e sim de sapatos! Vai jantar descalça?
Sâmia corria pelos corredores para chegar a tempo do jantar, enquanto na sala Jakobien teceu um comentário que deixou o rei de sobreaviso.
- É obvio que a jovem sente algo por você, Leander, olhe os olhos dela quando lhe dirige a palavra...
Vendo uma nuvem negra pousar sobre os olhos do seu rei, Leander rebateu:
- Ela está aqui unicamente para me ajudar a me relacionar na Superfície, é apenas isso.
- Pois eu o invejo. Faz sucesso com as mulheres, e nem as mortais te escapam. Ignorando as palavras de Leander, Jakobien, segundo ministro de Sunset e general do exército, sorria, piscando o olho e virou-se para o rei, como que pedindo sua opinião.
Jahean deu um sorriso amargo, quando Sâmia entrou.
O clima de tensão havia sido estabelecido mais uma vez e Sâmia acreditava que o motivo era seu atraso.
- Me desculpem, Aédi não estava no quarto e...
- E é claro que você não tem capacidade de se vestir sozinha - soou a voz irônica do rei, enquanto levava a taça de vinho à boca.
Leander imediatamente se levantou antes que Sâmia dissesse alguma besteira e a ajudou a sentar-se.
Ele implorava com os olhos que ela não fizesse nada que aborrecesse ainda mais o rei, e Sâmia, embora estivesse pronta para um contra-ataque, revolveu atender ao pedido daquele que tanto estimava. Ignorou Jahean por completo, mantendo conversa animada com Alethea e Jakobien, e uma atenção ainda mais especial a Leander. Ele sim merecia seu respeito e gentileza, não algum imbecil que mudava de humor por causa de uma cretina que só queria atormentá-la.
O conforto que Sâmia demonstrava irritava ainda mais o rei, e ele calou-se mais uma vez durante o jantar, dedicando sua atenção a cada movimento dela.
Os dias passavam mais rápido do que ela pudera pensar um dia. Fazia de tudo para se manter longe do caminho de Jahean e, com seu tempo livre, se dedicava a fazer crítica dos próximos livros que deveria entregar no segundo semestre, além de sugerir publicação de alguns contos recebidos. Assim, com o trabalho adiantado, talvez ela pudesse conseguir até uns três meses a mais de férias, afinal, desde que começara a trabalhar naquele jornal, nunca havia tirado férias ou apresentado uma falta. Trabalhar sempre foi sua prioridade para manter não só o corpo como também a mente ocupada. Seu tempo também era dedicado à pintura, pois, graças a Leander, agora ela tinha uma pequena sala onde só ela tinha a chave e tudo que precisava era trazido por Leonas.
Não havia tido nenhum progresso em relação ao rei, mas isso era o que menos importava. Ela estava vendo o tempo passar de uma maneira saudável, e Leander, estando muito ocupado ultimamente com a chegada da festa de noivado, quase não tocava no assunto, o que era um alívio. Assim, ela tinha tempo de fazer tudo o que quisesse, principalmente ler, o que fazia cerca de duas horas todas as tardes. Os mais variados assuntos, muitos dos quais nunca havia nem pensando, estavam ali à disposição dela. Embora soubesse que, quando voltasse, ela não teria a quem contar tudo que viveu. Mas sempre fora assim, com diferença que agora ela sabia que não era doida e não ia mais precisar viver a base de calmantes, além da volta no tempo que Leander prometera, fazendo com que ela tivesse exatamente a mesma vida que tinha, mas sem os pesadelos e insônias.
Seus pensamentos vagavam soltos por todas as vezes que estivera com ele. Ele era tudo o que ela gostaria de ter tido na vida na Terra: um homem simplesmente perfeito e gentil; como ele era gentil e se preocupava com ela, cuidava dela.
Sâmia sentiu sua alma sair do corpo àquela tarde quando viu Jahean se sentar de frente para ela no sofá. Estava tão ocupada, sonhando com Leander, que não notou sua chegada. Ele virou lentamente a cabeça em direção à estante e levantou a mão: um livro foi diretamente para ele, flutuando com suavidade.
- Quer que eu saia? - Ela disse, levantando-se.
Ele se acomodou mais no sofá, inclinou a cabeça levemente para a direita com um meio sorriso e disse:
- Por quê?
- Não quero te incomodar com a minha presença.
Os olhos deles agora esboçavam um nítido sorriso contido nos lábios.
- E, se eu disser que sua presença me incomoda, você irá embora?
Sâmia mordeu os lábios. Ela não entendia o que aquele homem tinha, mas tinha o dom de fazer com que ela ficasse sem reação; ela se sentia totalmente estúpida perto dele.
- Sim, irei, mas não do castelo, se é o que quis dizer.
- Foi o que imaginei.
Um sorriso se abriu e ele começou a ler o livro escolhido, enquanto ela continuava ali em pé olhando para ele sem entender direito como ele conseguia embaralhar seus pensamentos daquela forma. Pensou em sair, mas depois, por um motivo que nunca conseguiria explicar, resolveu ficar, voltou a se sentar e abriu o livro que tinha parado nas mãos.
Não conseguiu ler mais que duas páginas e já perdia a atenção. Que droga ele estava fazendo ali? Não deveria estar trabalhando com Leander ou fazendo alguma coisa útil em vez de ficar ali sentado, completamente mudo, por minutos incontáveis?
Em nenhum momento Sâmia o surpreendeu olhando para ela, mas ela não tinha certeza que ele precisasse fazer isso. Sentia que os olhos dele estivessem sempre a vigiando, porém, seu orgulho falava mais alto. Se aquilo era um teste de provocação, com certeza ela não iria ceder, ela ia ficar ali o tempo que fosse preciso, uma hora ele teria que sair.
Eram duas da tarde quando ela havia chegado e cerca de meia hora depois ele havia ido para perturbar. Pela janela ela já via que começava a escurecer. Sua leitura se dera entre fragmentos apenas, já que sua atenção não estava das melhores: nem podia se lembrar de quantas vezes havia se levantado e trocado de livro. O que a deixava ainda mais irritada era o fato de ele continuar ali no mesmo lugar, quase sem se mexer, apenas virando as páginas do livro que tinha nas mãos.
- Sâmia, apresse-se, deve se arrumar, o jantar vai ser...
Leander, que havia entrado a todo fôlego, parou a alguns passos da porta quando viu os dois ali sozinhos. Seu coração apertou e Sâmia virou para ele imediatamente.
- Interrompo? - ele perguntou, olhando para o rei.
- É claro que não – respondeu o rei, fechando o livro e se virando para ele.
- É claro que não! - disse Sâmia com vontade.
- Uma porta teria sido melhor compania!
Ela esbravejou enquanto saia da biblioteca, batendo com força a pesada porta. Leander virou-se em direção a ela e voltou-se horrorizado para o rei, com medo do que viria a seguir, mas ele viu apenas um rei que se esticava preguiçosamente no sofá, sorrindo.
- Leander, me explique como vocês manipulam a água.
Sâmia pediu enquanto andavam de braços dados pelos corredores a caminho da sala de jantar.
- Não imagino por que isso a interessaria.
- Não pode me dizer?
- Não é isso, mas pensei que não quisesse nenhum tipo de envolvimento com a magia...
- Não quero me envolver, quero apenas entender como as coisas funcionam aqui; tipo, vocês não atravessam espelhos? Por que precisam da água pra se comunicar? Eu vi que em todos os cômodos tem alguma forma de água...
- Precisamos de grande quantidade de água para atravessar o portal para outros mundos, porém, para se comunicar com alguém apenas tocamos a água; por isso, em cada cômodo há um meio de comunicação.
- Sem água não se comunicam, então?
- Não é bem assim. Às vezes não precisamos, apenas pensamos em alguém. Alguns formam uma tela de energia por onde se interagem com os demais.
- E pra que precisam de água, então, se podem apenas pensar em alguém?
- Por que seria um tanto inapropriado invadir a privacidade de alguém quando estivesse no banho, não é mesmo?
A voz do rei veio por trás deles e Sâmia apertou com força o braço de Leander, achando que fosse desmaiar.
Jahean passou por eles a passos rápidos e deu uma rápida olhada para trás. Seus olhos mostravam o malicioso e hostil sorriso que agora já lhe era tão familiar.
O rei se sentou e Leander diminuiu o passo para concluir sua explicação antes de chegarem à mesa.
- Quando abrimos uma tela de comunicação que não seja pela água, vemos o outro imediatamente; quando usamos a água ela... Vamos colocar assim: avisamos primeiro, eu acho.
Sâmia sorriu:
- Você acha?
Leander passou um braço pela cintura dela e sussurrou em seu ouvido.
- Consegue me explicar como você fala? Como a voz sai pela boca?
- Quê?
- Exato! - disse ele. Colocando a mão em suas costas, já próximos da mesa, puxou uma cadeira para que ela se sentasse. Com um sorriso encantador, se sentou de frente para ela, dizendo:
– Fazer é bem mais simples que explicar.
Jahean, que não perdia um movimento sequer dos dois, se lembrou das palavras de Jakobien. Estariam eles tendo algum tipo de envolvimento? Leander seria capaz de mentir?
A visão de Sâmia foi escurecendo e o medo tomou conta dela, seu corpo estava paralisado na cadeira à medida que seus olhos focaram a criatura, que saia da cozinha em direção a ela com uma bandeja na mão. Exatamente como ela havia visto seis anos atrás, seu ar começou faltar e ela perdeu os sentidos. Leander não teve tempo de ampará-la e sua cabeça tombou com força na mesa.
Sâmia acordou atordoada, gritando histericamente como em muitos de seus pesadelos. Leander, sentado à beira de sua cama, a tomou nos braços e a abraçou. À medida que ela ia se acalmando e pôde abrir os olhos, viu Jahean em pé a sua frente com os braços cruzados, olhando para eles fixamente.
Leander percebeu que algo estava errado e a soltou, virando-se para trás e vendo os olhos do rei.
Jakobien também estava presente e torcia as mãos em um gesto nervoso.
Leander passou a mão pelo rosto dela, secando as lágrimas e arrumando seus cabelos.
- Está tudo bem - ele sussurrou.
Jahean caminhou lentamente até eles e a olhou de frente.
- Eu lamento profundamente esse incidente. Tem a minha palavra que não vai voltar a acontecer.
Sâmia abriu a boca para falar, mas sua voz não saiu. Ele se virou e saiu, fazendo sinal a Jakobien para que o acompanhasse.
Agora ela estava mais confusa que assustada.
- Quer conversar?
Ela olhou os olhos docilmente azuis a sua frente e o abraçou por pacientes minutos, sem dizer uma única palavra.
- Eu não entendo...
- Por que não começamos a falar por partes? - ele sugeriu.
- Eu acho que tive uma visão e pensei que fosse morrer. E agora ele pede desculpas? Talvez eu tenha batido a cabeça forte demais.
- Sâmia, eu preciso que seja muito forte agora, está bem?
- Está me dizendo que eu realmente vi o que acho que vi?
- Sim, infelizmente. Geralmente eles não frequentam essa parte do castelo, mais a Ala Norte. São bons serviçais, não pensamos que poderiam causar tanto efeito. Para ser honesto, confesso que nem passou por minha mente esse detalhe, eu realmente lamento muito.
Sâmia pulou da cama e saiu correndo pelas escadarias. Leander, preocupado, saiu disparado atrás dela.
Ela chegou de volta à sala de jantar no momento em que Jahean dava ordens para que a criatura deixasse a Ala Sul.
- Não - ela disse – não é necessário.
Ela se aproximou vagarosamente e olhou a criatura de frente, para espanto tanto do rei como de Leander.
Um dos peões do jogo de xadrez, bem a sua frente, de meia altura de um humano, provido de mãos, pés, olhos...
- Inacreditável... - ela dizia para si mesma enquanto estudava a criatura fascinada.
- Como se chama? – ela arriscou perguntar.
A peça apenas a olhava mais assustada ainda e uma voz aguda saiu:
- Como quiser que eu me chame, senhora.
Leander, saindo de seu estado de choque, caminhou até a ela e colocou as mãos em seus ombros.
- Sâmia, eles não são muito bons para conversar.
- É incrível, Leander! Sabe quantos anos eu fiquei sem ao menos olhar um tabuleiro? E agora, olhando assim tão de perto... Acho que não significa mais nada.
O rei, com as sobrancelhas levantadas, olhava para o ministro, que sorriu rapidamente para ela, dizendo:
- Significa que amadureceu, mas podemos evitar que eles venham aqui, ser for de seu desejo.
- Oh, não, não se incomode - ela disse, olhando para o rei – são fascinantes agora que sei que são reais.
- Saia - disse o rei. E a peça saiu em seus passos miúdos.
- Não te incomodam? – Jahean perguntou curiosamente, aproximando-se dela.
- Se você não me incomoda, por que eles incomodariam? – respondeu, dando de ombros.
O rei ficou sem resposta. Estava surpreso demais com a reação dela para pensar em qualquer outra coisa. Leander a ajudou a se sentar e o jantar seguiu. A noite continuou com ela tentando explicar a Leander que no momento em que vira a criatura chegando foi arremetida ao passado em seus pensamentos e novamente sentiu medo, mas que agora ela não estava mais jogando por sua vida, não tinha o que temer.
Ele fez esforço para entender, mas não conseguiu. Ela estava se adaptando ainda mais rápido com o mundo deles do que qualquer outro mortal já havia conseguido. Depois de tudo que passara, ainda voltava ali e revivia um dos piores momentos de sua experiência e ela não havia pedido para partir! Era incrível! A cada palavra que ela dizia, o brilho de entusiasmo que havia em seus olhos enquanto Jakobien explicava a ela algumas curiosidades sobre o Submundo, ele nem podia acreditar que momentos atrás ela estava horrorizada e agora já em ambiente familiar.
Ela era definitivamente especial. Ele não conseguia pensar em nenhum outro mortal que pudesse viver o que ela viveu e parecer tão natural. Leander percebeu os olhos pesados do rei sobre ele e temeu que estivesse lendo seus pensamentos.
O jantar terminou como se aquele episódio nunca tivesse existido, deixando Jahean ainda mais sombrio e irritado.
Faltavam poucos dias para a festa de noivado e o palácio já começava a receber alguns convidados de reinos distantes na Ala Sul. Leander alertou Sâmia para uma visita muito especial que chegaria na véspera: uma tal de Agnes, rainha da Terra baixa pela qual o rei tinha extrema estima. Sâmia pouco se importava com o que o rei estimava ou deixava de estimar. Desde o último incidente, Jahean estava sendo tão cruel com ela que chegou a duvidar se era realmente ele quem tinha vindo se desculpar aquela noite.
Talvez ele seja bipolar... O Dr. Donhill diria que sim...
Não bastassem os tormentos que o rei dirigia a ela, ainda havia Aédi, que nos últimos dias não a deixava sozinha por um único segundo. Sâmia suspeitou que Rafaela já se encontrasse no castelo e a infeliz tentava impedir que cruzassem o mesmo caminho.
Eram cerca de três da tarde quando Sâmia terminou um rápido lanche no jardim. Havia passado a manhã toda por lá. Nem ler podia mais: Aédi disse que a biblioteca estaria ocupada com alguns dos hóspedes.
Esse jardim ficava na Ala Sudeste do castelo e ela podia ver a arquitetura de um ângulo diferente: um longo caminho de pedra cercado por flores; a visão seria perfeita se não tivesse a desagradável companhia.
Leander veio ao seu encontro cinco minutos depois e disse a Aédi que estava encarregada de outros afazeres, só devendo voltar a ver Sâmia antes do jantar.
Sâmia suspirou aliviada. Finalmente ficaria sozinha o resto da tarde.
- Mulher maluca! - exclamou, assim que a criada, com cara de poucos amigos, fez questão de lembrá-la para não se atrasar mais uma vez.
- Tenha paciência, Sâmia...
- Eu não posso fazer mais nada, Leander, essa infeliz não me deixa sozinha um minuto!
- Bem, agora ela vai cuidar de algumas senhoras que acabaram de chegar. Você pode descansar na biblioteca, sim?
- A biblioteca está ocupada, não está?
- Não mais, você pode ficar lá. Temos cinco hóspedes na Ala Sul: três mulheres e dois homens. As mulheres irão passar um bom tempo aos cuidados de Aédi, e os cavalheiros vão cavalgar no bosque. A biblioteca é só sua.
Leander a ajudou levantar e Sâmia praticamente correu para a biblioteca. Finalmente teria um pouco de paz.
- Minha querida, tenha paciência. Assim que passar o noivado, todos irão embora e teremos mais tempo para dar continuidade ao nosso plano.
- Está bem.
- Eu preferia ficar com você, mas tenho que mostrar aos senhores os novos cavalos...
- Não tem problema, Leander, só o fato de estar longe daquela mulher já é um grande alívio.
Ele saiu e Sâmia deitou-se no sofá, começando sua leitura. Estava em seu terceiro livro desde que chegara. Este contava uma história sobre o surgimento das fadas. A narrativa era lenta, embora interessante, e os olhos dela foram ficando cada vez mais pesados. Em pouco tempo dormia.
Alguns minutos depois, a porta se abriu lentamente e passos macios cortaram a sala. Jahean estava procurando por um livro, quando notou que ela dormia.
Deu alguns passos para observá-la melhor: a face dela repousava em sono profundo.
O rei se ajoelhou próximo ao sofá e inclinou sua cabeça para ouvir sua respiração. Segurando a mão dela que pendia ao chão, aproximou-se cada vez mais.
Sâmia sentiu um incômodo e percebeu que alguém segurava sua mão com força. Abriu os olhos e viu o rei próximo a ela. Ao vê-lo tão perto, a surpresa deu lugar ao desespero. Ela podia prever o que estava prestes a acontecer. Tudo corria em fração de segundos e, mal terminou seu pensamento, ele estava a beijando. Ela sentiu-se sufocar. Não tinha forças para gritar ou se mexer. Ela estava presa em um desespero profundo.
Um barulho amortecido fez Sâmia estremecer. Abrindo rapidamente os olhos, viu que adormecera e acabara derrubando seu livro. Passou a mão pela testa, como que varrendo os pensamentos:
- Foi um sonho...
Seu coração começou a pulsar rapidamente e um nó se formou em sua garganta quando, por trás do sofá, viu surgirem fios de cabelos dourados: era o rei.
Com as mãos trêmulas, sentou-se rapidamente, olhando-o nos olhos.
- O que está fazendo atrás do sofá?
- Pegando um marcador que caiu.
- O que ia fazer?
- Colocá-lo de volta, o que acha que se faz com um marcador?
Sua voz era mansa, porém, em tom zombeteiro. Ele provavelmente sabia o que ela havia sonhado e se divertia. Sâmia começou a corar, relembrando o sonho, e seus olhos se encontraram. Ela teve a certeza que o rei sabia o que ela pensava naquele momento.
Jahean colocou o marcador dentro do livro e o recolocou em uma das prateleiras, enquanto falava:
- Procure não adormecer fora de seu quarto; as pessoas podem a ouvir chamando meu nome – disse, cruzando os braços em frente ao peito. Seu sorriso era de um prazer cruel.
Sâmia levantou-se e se postou na frente dele.
- Eu não chamo por você nem mesmo em sonhos!
- Chama, sim. E qualquer um teria ouvido se estivesse aqui agora.
Ela baixou os olhos, relembrando o sonho. Talvez pudesse ter realmente dito o nome dele, já que o sonho tinha sido tão real...
Notando os olhos dela, que vagavam no ar a procura de resposta, o rei confirmou suas suspeitas e conseguiu humilhá-la ainda mais.
Voltando-lhe as costas, dirigiu-se à saída e, antes de fechar a porta, disse:
- Não se atormente com isso. Você não é a única a ter sonhos comigo. Apenas tome cuidado para minha noiva não ouvi-la. Com uma sonora gargalhada, a porta bateu.
Seu sangue fervia. Ele a odiava. Leander estava enganado ao achar que ela poderia ser amiga dele.
A voz dele ainda se fazia presente em seus ouvidos. "Você não é a única..."
Pois sim! Pro inferno as mulheres que sonhavam com ele! Aquilo não fora sonho e sim um pesadelo.
Em um acesso de raiva, Sâmia agarrou os objetos de cristais e começou a atirar em direção à porta que se fechara. Cada peça, uma a uma, ia se partindo ao atingir a porta. Nada restava do tabuleiro de cristal. Agora, agarrando o castelo, o arremessou com força, atingindo em cheio a testa de um homem que entrava com pressa. Era Leander.
Ele caiu imediatamente no chão com a testa sangrando. Sâmia correu até a ele, ajudando a vítima a se levantar.
- Leander, por deus, me perdoe! Não tive a intenção de atingir você.
Leander sentou-se em uma poltrona próxima e, ainda com a mão na testa, tentando estancar o sangue, falou:
- Onde consegue uma força assim, senhorita? - e abriu um sorriso.
- Leander, você está sangrando, vou chamar alguém.
E fez menção de se levantar, quando ele a deteve.
- Não é necessário. Sua mão passou pela testa, fazendo cicatrizar o corte. Tudo acontecia lentamente e Sâmia não só viu o sangue cessar, como o corte se fechar e a cicatriz desaparecer. Em pouco tempo não havia mais traços do pequeno incidente.
- É incrível!
- Sim, mas a dor continua. Só curamos o ferimento... - disse sorrindo.
- Me perdoe - Sâmia segurava as mãos dele em tom de súplica.
- Claro que a perdôo, mas o que estava fazendo? – disse, enquanto acaraciava o rosto dela, que estava com os olhos marejados.
Sâmia se levantou e o ódio começou a brotar novamente.
- Deveria ter acertado aquele miserável, aquele grosso. Ele veio até aqui e disse que...
- Pelo Submundo! - o grito de Leander fez com que ela interrompesse a fala. Os olhos dele estavam voltados para a mesa, que outrora acolhia a coleção de cristais.
Leander se levantou horrorizado e caminhou até a porta, onde jaziam os pedaços da coleção do rei.
- Sâmia, o que fez?
- Sâmia! - Leander gritava desesperado com as mãos na cabeça, balançando-a freneticamente.
- Sâmia, pelo Criador! Os cristais não. Jahean vai ter um ataque.
Os olhos de Leander expressavam dor e ela podia dizer que aquele lindo homem a sua frente estava prestes a chorar.
- O que foi?
Leander deixou-se cair de joelhos no chão junto da porta, segurando os pedaços de cristais.
Em um fio de voz, conseguiu falar:
- Jahean ganhou essa coleção da mãe dele. Foi a única lembrança que ela deixou antes de morrer.
As pernas de Sâmia penderam e ela deixou-se cair ao lado dele. Seu corpo estava inerte. Sentiu um forte enjoo; sua cabeça pulsava desesperadamente e suava frio, quando repetiu o que Leander havia dito:
- Única lembrança da mãe dele.
