Até o fim

Into the night
Desperate and broken
The sound of a fight
Father has spoken

Edmund levou Lucy para o quarto assim que ouviu o som de um carro estacionar em frente à residência dos Pevensie. Apenas eles e Peter estavam em casa e a julgar pelo horário, a briga ia ser feia. Ed não queria que sua mulher estivesse ali para ver aquilo, muito menos que acabassem interferindo numa discussão que não lhes dizia respeito.

Nem foi preciso esperara Susan colocar a chave na fechadura da porta. Peter havia decido as escadas como um touro enfurecido apenas para esperá-la na entrada. A porta se abriu, dando passagem a moça de cabelos escuros e olhos incrivelmente azuis, o batom realçava os lábios e dava a ela uma aparência sofisticada. Ela parecia indiferente ao encarar o irmão parado a sua frente, com a expressão facial de alguém prestes a sofrer um ataque cardíaco.

- Onde você estava até uma hora dessas? – não era exatamente algo criativo, também não era uma resposta que ele queria ouvir, mas precisavam começar de alguma maneira.

- Não é da sua conta. – ela respondeu driblando-o e entrando em casa. Peter a encarou indignado e furioso.

- Qual o nome do imbecil dessa vez? Will? James? Philip? – ele a segurou pelo braço com força – Você ainda consegue lembrar os nomes?

- Solte o meu braço, Peter! – ela disse contida. Peter não se mexeu – Solte, ou eu vou gritar.

- Não tem ninguém em casa. Ed e Lucy não vão interferir. – ele retrucou. Aquele era o limite dele. Não dava mais para agüentar aquela situação ridícula. Algo devia ser feito a respeito. – Isso não é hora de uma mulher decente chegar em casa. Lucy teve que mentir para acobertar o seu comportamento vergonhoso. Você não se sente nem um pouco constrangida?

- E quem é você para me dar lição de moral, Peter? – ela se virou para encará-lo com ar de superioridade. Era um habito que ela havia adquirido e que ele odiava. Ele sempre odiou ser desafiado, ainda que fosse Susan a fazê-lo. – Você não é meu pai, então pare de me passar sermão.

- Quem sou eu? QUEM SOU EU? – ele vociferou contra ela – EU SOU A DROGA DO SEU MARIDO! É ISSO O QUE EU SOU! – ele a agarrou pelos ombros enquanto a sacudia.

- Você não é meu marido! NEM MEU DONO! – ela retrucou – VOCÊ É SÓ A DROGA DO MEU IRMÃO MAIS VELHO E DETURPADO! – antes que ele pudesse pensar no que estava fazendo o som do tapa ecoou pela sala e Susan caiu no chão, chorando e encobrindo o rosto.

Peter recuou um passo para trás, horrorizado com sua própria atitude. Levou as mãos à cabeça num ato de desespero e tentou ajudá-la a se levantar. Susan estapeou a mão que ele oferecia, levantou-se sozinha e saiu correndo para o quarto com o rosto coberto de lágrimas.

Talvez não fosse a atitude mais sensata a se tomar, mas Peter não estava raciocinando direito quando saiu correndo atrás dela e invadiu o quarto antes que Susan pudesse fechar a porta. Ela se distanciou dele o máximo possível, ainda trêmula e com olhos marejados.

We were the Kings and Queens of promise
We were the victims of ourselves
Maybe the Children of a Lesser God
Between Heaven and Hell
Heaven and Hell

- Saia do meu quarto! – ela ordenou, mas Peter ignorou totalmente a histeria na voz dela e não se moveu.

- Su, eu sinto muito! – ele disse num tom desesperado – Eu não queria, não sei o que aconteceu! Eu perdi a cabeça. – ele deu um passo em direção a ela – Eu juro que não queria te machucar, mas você me irritou! Se ao menos você parasse de agir dessa maneira!

- Cale a boca, Peter! – ela disse furiosa – A culpa pelos seus ataques de truculência agora é minha? Tenha a santa paciência! Eu não sou mais aquela garota ingênua que deixava você fazer o que bem entendesse!

- Eu nunca a vi dessa maneira. – ele disse em sua defesa – Você sabe disso. Sabe que eu sempre respeitei você e cuidei de você, como um marido deve fazer.

- Pare de dizer esse tipo de coisa! – ela disse tapando os ouvidos – Pare de agir como se ainda fossemos crianças brincado de faz–de-conta! VOCÊ É MEU IRMÃO! MEU MALDITO IRMÃO!

- Você sabe que as coisas não são assim! – ele rebateu com voz firme – Você sabe exatamente o que somos, então pare de lutar contra isso e comece a agir como uma mulher decente! – ele disse caminhando até ela com passos decididos e a segurando – O que Henry pensaria da própria mãe se a visse neste momento? – as lágrimas voltaram ao rosto dela.

- Peter, não... – ela sussurrou – Por favor, pare!

- É você quem tem que parar! – ele a abraçou firme - Pare de fingir ser uma coisa que você não é! Pare de ser o que você não é! Largue esse maldito emprego, esqueça todas essas bobagens que enfiaram na sua cabeça! Eu posso arrumar um emprego, sustentar nós dois, bem longe daqui! – ele deslizou o nariz pelo pescoço dela – Você não precisa fingir que sente alguma coisa por eles. Seremos só eu e você, como sempre foi.

- Você está doente. – ela sussurrou.

- Amar você é minha doença. É um câncer que me consome, me mata aos poucos. – ele respondeu, beijando o pescoço dela. Susan não conseguiu conter o arrepio. – Se bem me lembro, você costumava me amar também. Talvez ainda ame e seus atos não passem de uma tentativa desesperada de me encontrar em outro homem.

- Não diga bobagens. – ela respondeu enquanto o abraçava.

- Will, é esse o nome dele, não é? – Peter perguntou baixinho – Eu e ele temos a mesma idade e altura. Os olhos dele também são azuis e ele também é loiro. O tipo físico também é mais ou menos o mesmo, mas acho que tenho ombros um pouco mais largos. – ele disse num tom tranqüilo – Enquanto tenta me trair de uma maneira tão atrapalhada, tudo o que consegue me dizer é o quão desesperada você está para me ter de novo.

- Nunca devia ter acontecido, Peter. Nós éramos crianças. – ela respondeu quase sem forças.

Into your lives
Hopeless and Taken
We stole our new lives
Through blood and pain
In defense of our dreams
In defense of our dreams

- Eu não me arrependi de nada do que fiz em Nárnia, assim como não me arrependo de continuar amando você. – ele respondeu acariciando o cabelo dela.

- Foi apenas um jogo. – ela murmurou – Nárnia não passa de uma brincadeira de criança. Nosso mundo mágico para fugir da realidade que nos cercava. Aquela guerra horrenda.

- Havia alguém pedindo ajuda. Tivemos a visão de um homem amarrado a uma arvore. – ele se afastou um pouco para olhá-la diretamente nos olhos – Estamos sendo convocados novamente. Eu, você, Ed, Lu, Eustace, Jill. É a nossa chance, Su. Não consegue ver isso?

- Já chega! Eu não vou fazer isso outra vez! Não vou! – a histeria voltou a tomar conta dela – Sempre a mesma história! Sempre o mesmo final! E quanto ao que eu sinto? Nada disso conta? Não passamos de bonecos!

- Por que você desistiu de nós? – ele perguntou com a voz calma – Eu estava disposto a continuar, exatamente como Ed e Lu estão fazendo. Olhe para eles! Estão felizes e bem. Por que você desistiu?

- Eu não tive escolha. – ela respondeu num tom sombrio e deu as costas a ele. Peter a abraçou por trás. As mãos dele traçavam padrões invisíveis sobre a blusa dela, até alcançarem os botões e desabotoá-los um a um.

- Ainda temos tempo. – ele descansou a cabeça contra a cabeça dela – Sei que pode dar certo.

- Não pode dar certo. – ela fechou os olhos exausta.

- Você não me ama mais? – Peter perguntou temeroso.

- Amo e é por isso que não pode dar certo. – ela sussurrou – Porque eu amava Nárnia e ela foi tirada de mim. Eu amava Henry e nunca mais o segurei no colo. Eu amo você e é por isso que não posso tê-lo. Eu sempre perco tudo o que amo.

- O meu coração você não perdeu. – ele a girou entre seus braços e a beijou.

Por uma ultima vez, eles se entregaram um ao outro, sempre com o medo de que tudo não passasse de uma miragem que seria desfeita ao sabor do vento. O tempo devia ter parado naquele momento, em que eram jovens e belos, no auge da graça. O tempo era uma companhia inconstante, mas tudo o que desejavam era que ele fosse omisso e esquecesse que devia continuar correndo.

Peter jurou amor a ela tantas vezes que qualquer um acreditaria que nada poderia impedir algo tão forte de continuar existindo até o fim dos tempos. Susan chorou de felicidade quando sentiu o corpo dele junto ao dela, como sonhou em sentir tantas vezes. Eles adormeceram, abraçados, nus, completos e felizes. Felizes como se nunca mais algo tão maravilhoso pudesse acontecer.

Peter acordou na manhã seguinte e lançou a ela um ultimo olhar. Susan ainda dormia, o cabelo vasto e negro contrastava contra o lençol branco. Ele não chamaria por ela outra vez, mas deixou sobre o criado uma passagem de trem, que havia comprado para ela, na esperança de que fizessem aquela viagem juntos. Ela ainda podia mudar de idéia e ele esperava que ela o fizesse.

We were the Kings and Queens of promise
We were the victims of ourselves
Maybe the Children of a Lesser God
Between Heaven and Hell
Heaven and Hell

Ele pegou sua mala e encontrou com Ed e Lucy esperando por ele diante da porta, de mãos dadas e com a mesma segurança de sempre. Edmund lançou a ele um olhar preocupado e Lucy pareceu pesarosa.

- Ela não vem? – Lucy perguntou. Peter balançou a cabeça.

- Ela virá quando estiver pronta para isso. – ele respondeu sincero – Agora vamos, não podemos deixar os outros esperando. Seria muita falta de cortesia.

Juntos eles atravessaram a porta e pegaram o rumo para a estação de trem, onde encontrariam Jill e Eustace, junto do professor e da Tia Polly, para embarcarem numa ultima aventura.

Susan acordou meia hora depois, trocou de roupa e viu sobre o criado a passagem de trem guardada para ela. Ela apertou o bilhete contra o peito, mordeu o lábio e debateu internamente o que deveria fazer.

Seu coração vacilou, sua pele sentiu um calafrio inexplicável e agourento. Sentiu angustia e ansiedade. Estremeceu ao pensar em Peter, Ed e Lucy. Juntou dentro de uma mala algumas mudas de roupa, pegou sua bolsa e saiu correndo.

Tomou um taxi e desceu na estação de trem. Não parecia um dia comum. Bombeiros, policiais e pessoas corriam atordoadas de um lado para o outro. Ela ignorou o estardalhaço e correu para a plataforma de embarque.

Pessoas choravam desesperadas. Crianças gritavam. Homens e mulheres ensangüentados, com corpos mutilados eram removidos de um grande emaranhado de ferro retorcido e fumaça. A mala caiu da mão dela e Susan levou as mãos a boca para conter o grito de horror.

Seu corpo tombou para o lado, mas ela foi amparada por um policial antes que caísse no chão. Depois disso, nada mais fez sentido naquele dia.

As manchetes do dia seguinte divulgavam a lista com os nomes das vitimas do acidente de trem. Ela teve de ler várias e várias vezes para conseguir absorver a notícia, que parecia tão irreal.

"Kirke, Digory... ; Plumer, Polly; Pole, Jill; Scrub, Eustace; Pevensie…"

"Edmund, Lucy…Peter"

Corpos carbonizados que jamais seriam encontrados. Desfigurados, irreconhecíveis. Uma semana depois ela estava vestindo preto, trancada no interior de uma igrejinha, chorando em silêncio a morte dos pais, dos irmãos e do...Ela não queria nem mesmo pensar na palavra.

The age of man is over
A darkness comes and all
These lessons that we learned here
Have only just begun

Dois meses depois ela voltou àquela mesma igrejinha, mas desta vez ela usava branco e tinha um buquê na mão. Ao seu lado, William Prince usava casaca e estava muito elegante. Alianças foram trocadas, votos foram feitos, mas Susan Pevensie não sorriu no dia de seu casamento. Ninguém esperava que ela fizesse isso.

Ao invés de jogar o buquê para uma de suas amigas, ela o guardou e foi até o pequeno cemitério atrás da igreja. Os túmulos enfileirados traziam uma falsa noção de paz. Ela mesma escolheu as frases que foram gravadas nas lapides.

"Só quem entende a beleza do perdão, pode julgar seus semelhantes." Dizia a lápide de Edmund Pevensie.

"Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará." Susan secou a lágrima insistente que lhe escorria dos olhos ao ler a frase escolhida para Lucy.

"Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez." Instintivamente ela levou a mão ao ventre e deixou sobre a sepultura o buquê de flores do campo. Por mais de uma vida, em mais de um mundo, ela amou o mais corajoso dos homens e o maior dos reis. Pelo restante de seu tempo na terra, ela viveria de cabeça erguida, não importava o que acontecesse. Ela esperaria pelo dia que seria digna de encontrá-lo novamente, enquanto isso protegeria a única coisa que ele havia deixado de recordação para ela.

Oito meses depois, num hospital de Londres, nascia uma menina loira, com lindos olhos azuis e um choro sempre indignado, como o grito resultante da maior das injustiças. Essa menina recebeu um nome cuidadosamente escolhido para fazer jus a sua importância. Susan chamou-a de Sarah, por significar "princesa".

Nasceu naquele dia a filha de uma rainha... Filha de uma filha de Eva.

We were the Kings and Queens of promise
We were the victims of ourselves
Maybe the Children of a Lesser God
Between Heaven and Hell

We are the Kings
We are the Queens
We are the Kings
We are the Queens

Nota da autora: Eu sei que esperavam um final mais Edmund e Lucy, ou até mesmo um final feliz pra todo mundo, mas eu decidi seguir a linha dos livros e manter o final original. Nunca me pareceu convincente o motivo pelo qual Susan foi deixada para trás, então eu dei a ela um bom motivo, cujo nome é Sarah. Este é o fim da fic, mas eu pretendo fazer uma continuação com a filha da Susan.

Música do capítulo: Kings and Queens do 30 seconds to Mars

P.s.: Demorei pq tava em semana de prova.

Bjux

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